segunda-feira, 29 de outubro de 2012
domingo, 28 de outubro de 2012
A páginas tantas De Combateremos a Sombra
Do romance Combateremos a Sombra,
de Lídia Jorge (pág. 36 a 39)
de Lídia Jorge (pág. 36 a 39)
Hombridade *
(...)
E ainda ao som dos estrondos que rasgavam aquele momento de silêncio duma forma impertinente, o jornalista apontou para a janela por onde o rumor entrava – “Se fôssemos pessoas decentes, não embarcávamos nisto. Pensar nesta extravagância faz doer a alma, pensar que por cada foguete que eles estoiram é um dia de trabalho de um alemão que eles queimam, rasga o coração. E quem diz um alemão diz um francês, um italiano, um inglês. E nós? Nós levantamo-nos da cama para queimarmos no ar os dias de trabalho dos outros como se nada fosse. Porque nos habituámos a viver miseravelmente, sem nos importarmos nem termos vergonha, e agora que outros nos sustentam, vivemos à sombra deles, dos válidos. Mendigos a viver à tripa-forra do produto da nossa mendicidade. E tudo isto porquê? Porque em termos de inteligência e hombridade, estamos anestesiados...” – O professor começou a impacientar-se, pensando em Maria Cristina, nas últimas palavras que ela havia dito no final da discussão – “Não me telefones, Osvaldo, não comeces com os teus truques de que já aqui vou a caminho, já aqui estou a chegar, quando ainda nem partiste do sítio…” Eram nove e vinte cinco e Elísio Passos falava de nada. Aquilo que dizia não passava dum discurso gasto. O que pretendia afinal aquela pessoa? E o jornalista, que continuava a falar com o mesma velocidade e o mesmo ciciamento do início, compreendeu a impaciência do anfitrião – “Passemos ao assunto, professor. O senhor está com pressa, eu também estou. Os minutos estão a passar...” E curvou-se para diante, expondo à luz da secretária a magnífica calva de onde saíam os dois ramos de cabelo em forma de pincéis fartos. Falando no tom próprio de quem começava a iniciar um epílogo, o visitante perguntou – “O professor sabe o que é um ovo?”
“Um ovo” – balbuciou Osvaldo Campos, admirado. “Sim, julgo que sei...” E acrescentou, cauteloso, receando que a roda girasse para o local imprevisto, de súbito previsto. “Claro que sei o que é um ovo...”
“Pois claro que sabe o que é um ovo” – respondeu o jornalista. “Mas talvez desconheça que toda esta situação ignominiosa que se vive neste país miserável, esta situação de dependência e dissipação, falta de rigor, de critério, e tudo o mais que queira acrescentar, tem origem em determinada casta de ovos que circula por aí e sobre os quais ninguém quer falar... ” E a sua voz ganhou uma nova espessura – “ Todos os tipos, que durante a maior parte das suas vidas escreveram ontem e hoje, referindo-se a hoje e amanhã, sabem o que este facto significa, mas estão calados. Pois talvez o senhor não saiba que Salazar tinha um galinheiro em São Bento, há quarenta anos atrás, e que aí criava galinhas, e que as galinhas punham ovos que ele mesmo vendia. Não acredita? Pois acredite - O Presidente do Concelho comerciava-os e não se coibia de o dizer. Vendia-os como se fosse um merceeiro de esquina. Mas não os vendia todos, professor. Havia ovos que o vígaro punha de parte com destinos especiais e que ele mesmo enumerava. Enchia cestos de cana inteiros, com palha no fundo, de ovos especiais. Eram ovos envenenados. Estramónio puro. E sabe o que fazia ele, depois, a esses cestos? Não sabe? – Mandava-os entregar no Supremo Tribunal de Justiça, na Assembleia Nacional, enviava-os à Nunciatura, ao Patriarcado, à Câmara Corporativa, à Câmara Municipal, e por aí adiante, para que os respectivos representantes os comessem e ficassem aniquilados. Mas o Juiz do Supremo, tanto quanto o Núncio Apostólico e o Cardeal Patriarca, e os outros, não eram estúpidos, pelo menos eram tão espertos quanto ele, e não os comeram, reconhecendo o material que tinham entre as mãos. Também os puseram debaixo de galinhas que os chocaram, que deram pintos, galos, galinhas e respectivos ovos, todos eles envenenados com estramónio, e por sua vez distribuíram-nos posteriormente pelas juntas de freguesia, regedorias, paróquias, grandes e pequenas comarcas, repartições públicas, registos de fazenda e finanças, e esses sim, pobres papalvos, foram-nos comendo e distribuindo por seus parentes e amigos, que os comeram também. Mas alguns resistiram, sabiam que ovos dados por essas mãos não eram bons ovos. Muitos como o meu pai, resistiram. Eu resisti desde criança, desde o dia em que o meu pai escarrou para cima do fato da Mocidade Portuguesa que a minha mãe me tinha comprado e eu assisti. Escarrou...” Os olhos do jornalista estavam vermelhos. O jornalista fez uma pausa, um suspiro – “Mas passado todo este tempo, sabe o que aconteceu, professor? Passado todo este tempo de vigilância, distraí-me e esta noite comi um...”
“Comeu um ovo desses?” – perguntou Osvaldo, juntando-se à inquebrantável lógica do jornalista sénior.
“Quando comeu?”
“Comi há coisa de uma hora, professor. Foi no Swing Bar, e até tenho aqui a prova...” – E Elísio Passos enfiou a mão num dos bolsos do smoking e retirou do seu interior fragmentos duma casca branca, unidos por uma pasta gelatinosa. No espaço correspondente ao bolso, o tecido preto apresentava uma mancha mais escura. “Esta é a casca do segundo, o que eu não cheguei a ingerir, porque o outro, infelizmente, já cá está...” – O jornalista transpirava. “Agora com uma nova droga, potentíssima, compreende? Grande problema…” A forma como fechava os olhos denunciava o grande esforço de domínio que exercia sobre o sentido circular da lógica que não queria deixar escapar. A sua calva pálida tinha-se coberto de gotas de suor. Falava rápido, falava alto. “Dois problemas, dois, professor...” – enunciava. “O facto em si, que precisa de ser denunciado imediatamente, para que as pessoas tomem as devidas precauções antes de ingerirem seja o que for, já que alguém pôs a circular de novo esse tipo de alimento. Esse é o primeiro problema. Segundo problema – Preciso urgentemente de passar num hospital...” E ao falar de si próprio, o sénior parecia embaraçado – “Professor, nos tempos que correm, quem tem coragem para denunciar um facto destes? Eu tenho a coragem, tenho a informação, tenho o know-how, mas posso estar neste momento mortalmente atingido e já não servir para nada...”
Elísio Passos tinha-se levantado do cadeirão e começara a dar passadas largas, no meio do gabinete – “Sinto-me envenenado, professor… Mas se eu aparecer num banco de hospital, numa noite como esta, contando este caso, quem vai acreditar? Preciso do seu apoio junto daquela gente do banco de urgência, necessito da sua garantia formal de que sou um homem em seu juízo perfeito...” Naquele momento, já havia algum tempo que os estoiros se tinham calado, mas da zona portuária saíam batidas rock que subiam a colina e entravam pelos vidros do consultório dentro enchendo o espaço de sons estridentes. Era como se um concerto dos Xutos & Pontapés acontecesse ali mesmo, no interior do prédio Goldoni. O jornalista consultou o relógio – “Desculpe, professor, sei que tem os minutos contados...”
(...)
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* Título do editor deste blogue
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Crónica * 13 dias para passar de fera a majestade
Texto de 2002 (outubro)
Sempre me hei-de lembrar, com muito gosto, da conferência que Lord Thomson of Monifieth, um ex-conselheiro da Britisth Independent Broadcasting Authorithy, proferiu em Lisboa, no início dos anos noventa. Nessa altura, discutia-se em Portugal a atribuição dos canais privados, e Lord Thomson vinha partilhar com os portugueses a experiência inglesa nesse domínio. Se bem me lembro, os seus conselhos estavam repletos de História. Na Grã-Bretanha a experiência dos canais privados remontava a 1952 e nós estávamos a discutir o nosso caso quarenta anos depois. Os seus conselhos estavam repletos de avisos e bom senso. E tinha razão. O futuro viria a demonstrar que mesmo na auto-controlada Grã-Bretanha, o comércio haveria de atingir, em flagrante, o equilíbrio e a qualidade que eram seus apanágios.
Entre nós, porém, nessa altura, a discussão era particular. Os economistas avisavam que Portugal não dispunha de capacidade comercial para sustentar três estações. A publicidade não chegaria para os três operadores. A menos que houvesse um milagre qualquer - e está provado que há poucos - a disputa pelas audiências iria ser darwiniana, iria fazer descer o nível da programação para patamares inimagináveis. E assim foi. Nessa altura se disse que, na disputa pela sobrevivência, a tendência seria a de os programas de entretenimento descerem aos níveis do grotesco e da obscenidade. Assim foi. Nessa altura também se disse que uma estação da Igreja, iria desprestigiar a Igreja e fazer um péssimo serviço. No nosso panorama, era o canal que estaria a mais, e assim foi. Os caminhos da TVI mostraram que um canal comercial da Igreja jamais seria da Igreja. E não foi. O I de Independente, que na altura também significava I de Igreja, depois de aventuras aberrantes, transformou-se hoje no Canal 4. Isto é, teve de o deixar de ser para ser igual às laicas. O tempo veio demonstrar que tinha razão quem se opunha a esse projecto. Nenhum canal religioso poderá vingar no Ocidente livre, a não ser que recorra às mixórdias televisivas mais repelentes de pregações infinitas e difusão de crendices. Mas na altura também se disse que a Informação, essa sim, iria ficar a ganhar. E ganhou. É indesmentível que a diversidade, a pluralidade dos pontos de vista, o volume de informação, a agilidade do jornalismo televisivo não tem comparação com os tempos anteriores. Pensar em recuar é um pesadelo. No entanto, na altura também se disse que o grotesco do entretenimento se iria misturar com a própria informação, que a certa altura, o espectáculo ficcional entraria e misturar-se-ia nos telejornais. Não se enganaram os que assim previam. Assistir à Informação televisiva é, hoje, assistir a um circo onde as melhores peças jornalísticas aparecem entremeadas com rugidos de leões e facadas na ilharga. Por volta das nove horas da noite, a ideia que se tem é de que o Mundo é só uma descida ao Inferno. Mas na altura também se sabia que iria demorar a bater no fundo, mas bateria. Já bateu no fundo? Já é possível escolher o que brilha no meio do lixo? Partir na direcção certa? Lembro-me das palavras de Soares Louro que previa tudo isto milimetricamente. Era só esperar para ver. Quem previu, e teve tanta razão antes de tempo, como terá passado este longo tempo?
Mas se me lembro em particular da conferência que Lord Thomson fez em Lisboa, por essa altura, é também por uma outra razão. É porque ele abriu essa conferência com uma história muito antiga que não perdeu actualidade. É uma história sobre coerência e isenção, oriunda num tempo muito anterior à televisão. Mas que poderia ser do tempo da televisão. Contou Lord Thomson of Monifieth, experiente em lidar com a memória, a fidelidade, a hesitação e os princípios que a regem, como certo jornal Francês do século XIX, o jornal “Le Moniteur” fez a cobertura da viagem de Napoleão, quando fugiu da ilha de Elba e marchou em direcção a Paris. Corria o ano de 1815. Nessa altura, os percursos eram demorados, não havia automóveis, nem telefones, nem faxes, nem satélites. Só cavalos. A comunicação era quase tão lenta quanto o mundo. Assim, foi possível, em escassos treze dias, os dias do avanço de Napoleão sobre Paris, os títulos do “Le Moniteur” terem ido mudando.
Mudaram assim, relatou ele. A 9 de Março de 1815, apareceu o seguinte título – “A Fera (Isto é, Napoleão) deixou a sua toca”. No dia 11 de Março – “O Monstro da Córsega pôs o pé em solo francês”. No dia 13 de Março – “O Torturador passou a noite em Grenoble”. A 18 de Março – “O tirano avança em direcção a Dijon”. A 19 de Março –“Bonaparte quer conquistar Paris, mas não o conseguirá”. A 20 de Março – O Imperador já chegou a Fontainebleau”. E dia 21? “O Libertador bate com força nas portas da cidade...” E no dia 22? No dia 22, podia ler-se no “Le Moniteur” - “Sua Majestade Imperial marchou hoje sobre Paris. Viva o Imperador!” Isto é – Entre a Ilha de Elba e Paris, Napoleão tinha passado de Fera e Monstro a Libertador, Majestade, Imperador. Lord Thomson não contou, porém, como titulou o jornal as vicissitudes de Napoleão Bonaparte quando voltou a cair em desgraça. Não contou, mas a gente sabe. É válido para todo o tipo de jornais e todo o tipo de majestades.
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* Redigida para a série "Dias Contados", transmitida pela RDP | Antena 2
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Sobre o livro de David Grossman
Até ao Fim da Terra
Lídia Jorge *
Um grande livro nem sempre tem atrás de si as mãos de um grande homem. Mas quando se dá o caso de haver essa coincidência, ficamos menos sós neste mundo. Foi isso mesmo que pensei, há quatro anos, enquanto David Grossman participava de um encontro com leitores, sob uma tenda aberta, diante das Muralhas de Jerusalém.
Corria então a Primavera de 2008, e a jornalista Ilana Dayan lia para o auditório uma passagem do romance Até ao Fim da Terra, acabado de publicar. O texto escolhido correspondia àquele momento de resmunguice em que a personagem Ora, pensando nos checkpoints onde o seu filho Ofer havia prestado serviço militar, vai picando os vegetais para uma salada, ao mesmo tempo que enuncia os nomes dos árabes notáveis implicados nas guerras com o seu país, desejando-os trinchar, e a certa altura, num remate inesperado do esconjuro, o seu pensamento explode numa direção contrária – “... numa revelação súbita, junta também Golda, Begin, Shamir, Sharon, Bibi, Barak, Rabin e Shimon Peres – pois no fim das contas não terão eles também as mãos manchadas de sangue? Será que fizeram alguma coisa para que ela tivesse cinco minutos de paz aqui?” (pág. 630). É que a Ora, mais mãe do que cidadã, interessa-lhe sobretudo a vida do seu rapaz, e a forma de brandir a faca de cozinha revela o potencial da sua raiva. Provavelmente, em mais lugar nenhum do Mundo aquela página poderia ter o efeito que produzia naquele auditório, o riso, a ironia, a explosão de entusiamo por um texto metafórico sobre a luta pelas pátrias. Ou as várias lágrimas misturadas de que fala este livro.
Mas a emoção que então perpassava na tenda não provinha apenas do facto literário em si. Ainda que não se falasse no assunto, sabia-se que a história de Ofer, começada a escrever em 2002, havia sido uma antecipação do destino de Uri, o filho de Grossman, caído no final da segunda Guerra do Líbano em 2006, e que a atitude de proteção pelo poder verbal que o autor havia imaginado ao conceber o livro, era exatamente a mesma que a personagem Ora havia mantido em relação a Ofer - falar, recordar, dizer palavras, uma prolongada oração laica, de forma a manter incólume a pessoa evocada. Isto é, Grossman, como muitas vezes inexplicavelmente acontece na Arte, havia vivido por antecipação a história da personagem Ora. E logo se dava a trágica coincidência de que num e noutro caso, a palavra poética não cumprira a suposta missão, não protegera os protegidos.
Naquele recinto, esse facto extraliterário vinha corroborar a mensagem mais importante – A de que toda a guerra é imunda, nenhuma guerra é salvadora. A emoção que perpassava na atmosfera do fim da tarde poderia ser entendida assim. Um livro, uma longa meditação sobre a violência causada pela partilha da terra quando, por ironia, os homens e as mulheres, uma vez desarmados, se sentem irmãos entre si. Aliás, de certa forma, toda a obra de David Grossman, tal como a de Amos Oz, Aharon Appelfeld, ou Yehudit Katzir, são variações contemporâneas desse mesmo tema. A terra de donos sobrepostos, um território limitado que não se consegue dividir, provavelmente, uma parábola antecipadora em relação à Terra que um dia poderá não dar para todos. Até ao Fim da Terra é um livro cuja temática está enunciada no próprio título. A terra, as suas fronteiras, os seus blindados, os seus tiros.
E no entanto, mais do que um livro de guerra, trata-se de um livro sobre almas. Especialmente sobre a alma de Ora, a mulher de dois homens e de dois filhos em relação aos quais tudo aconteceu ou por acaso, ou por engano. Nela, só a maternidade surge como um espaço inviolável, uma condição inteira, vivida até ao fulgor da alegria e da tragédia, em grau absoluto. Curioso que a este propósito Paul Auster tenha escrito que Flaubert criou a sua Emma, Tolstói a sua Anna, e Grossman dá-nos a sua Ora. Devemos acrescentar, porém, que Ora, personagem que seguimos no interior do pensamento, como numa operação de laparotomia da sua alma, distingue-se de Emma e de Anna Karenina, precisamente porque o seu conflito não é um conflito de amor, é um conflito entre o amor, a maternidade e o Estado, e é isso que torna este livro tão único e especial.
Mas sendo um livro de personagens que vivem sob o efeito de guerras que fazem parte da herança histórica recente, com a invocação de lugares inscritos no mapa da imaginação ocidental, a sua leitura oferece alguns desafios nem sempre fáceis de ultrapassar.
Basta dizer que as primeiras páginas conduzem-nos às cegas, pelo interior de um pavilhão de isolamento de um hospital de Jerusalém, durante a Guerra dos Seis dias, e uma vez que as vozes são entrecortadas, e é através delas que sabemos o que se passa lá fora e na recordação, a nebulosa deixa-nos por vezes tão às escuras quanto se encontram as personagens. Assim, há que voltar atrás para se compreender que os então adolescentes Ora e Avram, internados com doenças infectocontagiosas, se encontram no escuro da noite para conversarem, tendo por testemunho um outro doente, o jovem Ilan, sedado, numa cadeira de rodas.
Por desafiador que seja, vale a pena enfrentar com determinação estas primeiras cinquenta páginas, já que o Prólogo, 1967, é uma espécie de embrião de todas as linhas de força que irão conduzir a vida das três personagens. Essa relação irá esclarecer-se à medida que o leitor avance nos capítulos que reportam a ficção ao ano de 2000. Quem é quem, que papel cada um desempenha, e porque existem tamanhas chagas nos seus percursos, será matéria para uma teia fina e longa, urdida cautelosamente, poeticamente, com a demora própria - não de um espelho que se passeia, como referia Stendhal - mas como um caleidoscópio de espelhos que tudo lembra e tudo vê, a propósito de uma deambulação em ziguezague, através das terras da Galileia.
A história só em parte pode ser resumida.
No dia em que Ofer deveria ser desmobilizado, para retomar a vida civil, Ora descobre que o filho, tendo sabido que uma operação de grande envergadura iria ter lugar nos dias seguintes, oferece-se como voluntário. A mãe, movida por um mau pressentimento não verbalizado, resolve fazer uma peregrinação para se aproximar do filho, e ao mesmo tempo para fugir das notícias que se anunciam ao longo do caminho. Nessa deambulação, de fuga ao acontecimento, e de aproximação ao cerne do coração da sua antiga criança, ela não vai sozinha. Consigo leva Avram, o antigo adolescente do hospital de Jerusalém, que haveria de ser mais tarde ferido e torturado pelos egípcios, na Guerra do Yom Quipur, em 1973. Caminhando os dois ao longo do território esparso, essa deambulação é uma espécie de longa epifania, já que permite que Ora vá revelando, a pouco e pouco, como acabou por ser mulher de dois homens, Ilan e Avram, e mãe de dois rapazes, Adam e Ofer, ambos concebidos em situações extraordinárias, sob o impacte da guerra e do acaso. Tudo começara no dia em que os dois amigos haviam pedido por telefone que Ora fizesse um sorteio para ver qual dos dois partiria de licença. Dois papéis que Ora lançaria dentro da copa de um chapéu. Sob o signo da puerilidade, assim começa a desordem. Um deles iria passar o fim de semana a casa, o outro iria ser conduzido ao centro de um braseiro.
Aliás, os temas embrionários do prólogo, o amor, o signo da desordem, da guerra e suas feridas, mantêm-se do princípio ao fim do livro, e em termos de construção, explodem como uma estrela. Os intérpretes também. Um dos subtemas é a amizade de Ilan por Avram, tendo a mulher por laço de união e não de disputa, a ponto de os três parecerem só um, relação que vai sendo desvendada a pouco e pouco, de modo irradiante. Mas mais do que essa engenhosa forma de estruturar este livro grandioso, que tudo agarra e tudo descreve, criando uma espécie de cosmogonia original, a força desta obra reside na capacidade evocadora que David Grossman atribuiu às personagens, sobretudo à amante dos dois homens.
Uma espécie de saga mental, assomada pela descrição dos factos da guerra, e pela memória densa da maternidade, um painel de almas, que o autor já havia ensaiado em O Livro da Gramática Interior, mas que só agora, em plena maturidade, consegue realizar evitando certo hermetismo, e em seu lugar glorificando o prazer, a paisagem, a alegria, a fúria de viver, em contraponto com a ameaça da morte. Só em Ora existe uma alma que se expõe em três andares – A dos factos que aconteceram, a dos factos que vão sucedendo, e a Ora dos desejos incontidos. A última afirmação do livro também lhe pertence - “Pensou : que fina é a crosta da terra”. O que significa que Ora não está preocupada com a extensão política da terra, antes com a sua profundidade. Ora poderá não ter terra suficiente para cobrir o seu filho.
Até ao Fim da Terra é um livro ambicioso? Sim.
Com ele David Grossman inscreve-se no painel de escritores como Saramago, José Lezama Lima, ou mesmo Musil, autores para quem a escrita procura rivalizar com a vida em amplitude e complexidade, o que implica lentidão, sobreposição e volume. Personagens e ação, alma e história, discurso e filosofia, um desejo de totalidade. A dado momento, o autor pergunta-se a si mesmo, colocando as palavras na boca de Ora – “Como é que se conta uma vida inteira? Nem toda uma vida chegava. E como é que se começa?” (pág. 217) Mas chegando à última página, conclui-se que David Grossman sabe bem quanto pode e como proceder.
Sabe sobretudo como criar cenas inesquecíveis, que conduzem o leitor para o interior da ação, provocando arrepio, dor, deleite, levando-nos para o palco de um teatro anímico, real e vivo, de onde não podemos escapar. Pois mais do que uma questão de metáfora, Até ao Fim da Terra é sobretudo uma questão de metonímia. Uma descrição que prolonga a existência como ela é, usando os materiais reais, as matérias da verdade vivida. Por isso mesmo, este é um livro para ler com tempo. Se for lido à pressa, parecerá um livro desmedido. Se for lido devagar, será um livro grandioso. E felizmente que a tradução permite que entre o hebraico e o português, as subtilezas desta história magnífica não fiquem pelo caminho. A história de Ora e seus homens parece ter sido escrita diretamente na nossa língua.
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* in DN/Qi, 5 de maio 2012
Item:
David Grossman
,
Ensaios de leitura
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
"Inquieta-me, pois, a sua figura"
Angela, um Mito
em Construção
em Construção
Lídia Jorge *
Quando a antiga ministra do Ambiente assumiu as funções de Chanceler da Alemanha, começou a constar em Lisboa que se tratava de uma figura demasiado rígida para se augurar alguma coisa de bom para o sucesso da Europa. O próprio Tratado de Lisboa, assinado no final de 2007, foi visto por muitos como uma estratégia de domínio sobre o espaço comunitário, manobra a que Portugal se prestava como criado, sorridente e agradecido. E falava-se já então de uma teia de dominação financeira que estaria a ser urdida a partir de Berlim. Mas eu tinha uma outra visão da chancelar. No princípio do seu mandato, havia passado cerca de meia hora a uns escassos metros da sua pessoa e achara-a interessante. Durante os discursos, Angela distraía-se, sorria para os sapatos, abandonava as mãos, e eu tive a ideia de ver no seu rosto alguma coisa de terno e de humano, alguma coisa de profundamente pacífico. Essa imagem ainda perdurou por algum tempo, e só começou a desvanecer-se quando a chanceler se pôs a enviar recados aos governos dos outros países, utilizando uma rude linguagem de mestre escola.
Aí, já a dúvida tinha começado a
circular sobre se a chanceler estaria à altura de ser alguma coisa mais para
além de chefe de governo do seu próprio país. Agora, o impasse que está criado
diz-nos que dificilmente o será. É que Angela Merkel tem o dedo da História apontado
à sua testa e não parece querer interpretar o papel decisivo que lhe foi reservado.
E no entanto, não pode fugir a ele. A fragilidade que se vive na Europa leva a
pensar que Angela tem no seu nome uma marca angélica que o Futuro não
esquecerá, e quer queira quer não, está destinada a ser mito. Mas será que
Angela irá ser portadora de uma asa escura que fará a ideia da Europa desmoronar-se?
Ou pelo contrário? Desenrolará uma asa clara que fará reunir atrás de si os
países europeus desunidos, reinventando a utopia política mais avançada do
mundo de que os germânicos têm sido o motor? Para que lado cairá, então, o mito
de Angela Merkel? No caso dos portugueses, sempre predispostos a visitarem o
seu passado, para voluntariamente obedecerem e se humilharem, lembrar a
História da Alemanha não está nos seus hábitos. Mas Angela Merkel, em nome dos
alemães, deve saber que todos aqueles a quem a sua política exige ajustes de
contas impossíveis, começam a ter de novo essa História no pensamento, e dar
pretexto para que a imagem desse passado regresse é inaceitável. Inquieta-me,
pois, a sua figura. De que lado ficará Angela Merkel, quando os discursos de
circunstância terminarem e ela já não tiver tempo para olhar para a ponta dos
seus sapatos?
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* Publicado a 30 de junho de 2012,
no Frankfurter Allgemeine Zeitung
terça-feira, 23 de outubro de 2012
É que os dias começam a apertar
A razão dos simples
Eles passarão. Eu passarinho!
Mário Quintana
Lídia Jorge *
1. Os dias que correm ensinam-nos o que não julgávamos precisar de aprender. De um momento para o outro, a realidade mostra-nos que, enquanto a passagem do estado de miséria à prosperidade se processa de modo demasiado lento, a passagem da prosperidade à miséria pode seguir um percurso vertiginosamente rápido.
O que hoje se está a viver assemelha-se ao pesadelo clássico da pessoa que segue vestida por uma praça e de súbito começa a perder as roupas. Quanto mais procura cobrir-se mais elas voam, até se ficar nu. O pesadelo diz respeito ao mundo, não é só nosso, mas o caso português tem contornos muito próprios, e se até agora algum motivo há para nos regozijarmos será só pelo facto de os portugueses, como sempre, serem um caso de sucesso na resistência à fome.
2. É preciso reconhecer que a crise se instalou na casa portuguesa em clima de decepção, mas sob o signo da concórdia e até de uma certa esperança.
A esperança provinha da ideia de que este momento de aperto poderia oferecer uma oportunidade para se corrigirem os erros que nos levaram até aqui, o desperdício, a má distribuição da renda, o laxismo, a acumulação de privilégios, e tudo o mais. Até a esperança de que o sistema judicial pudesse tomar um novo caminho atravessou a nossa ilusão. Para além da ideia de que um ambiente de menos agressividade poderia facilitar esses tipo de correções. Com essa esperança se partiu para sacrifícios de toda a natureza em clima de aceitação. Aos portugueses foram aplicadas medidas drásticas sem um sussurro da parte dos visados. Visto de fora, o nosso comportamento tem sido exemplar, e de certo modo até comovente. Neste momento, porém, o pacto de esperança e de concórdia que nos silenciou não pode deixar de estar quebrado.
Não se trata apenas do assalto redobrado a toda a população, o anúncio assumido da ineficácia das medidas, a injustiça relativa de que elas enfermam, e tudo o mais que se sabe. Nem sequer do pressuposto ofensivo de que as pessoas são abstrações sem coração nem cérebro, e que devem estar expostas a todo o tipo de expolição sob a ameaça de que ao contrário só se vislumbrará a catástrofe. Ou o pressuposto de que devem estar caladas, de outro modo serão perniciosas e agirão contra a pátria. Ou a ideia de que a Economia e as contas são matéria a que a razão dos simples não atinge. Mais do que tudo isso, trata-se, sobretudo, do desconhecimento, por parte dos actuais dirigentes, do funcionamento de uma sociedade moderna.
Agora está à vista por que razão aquilo que pareciam falhas neste governo, afinal, eram erros. Erros na fusão de ministérios que não deveriam ter sido fundidos, pessoas para os conduzirem que não estão à altura nem de um governo em tempo normal, quanto mais em estado de crise, manutenção de figuras descredibilizadas colocadas no topo da hierarquia governamental, entrega de dossiers sensíveis a figuras suspeitas. De tal modo que a ideia que se tem é de que o país não está só em estado de crise, mas à deriva, na mão de pessoas que sem dúvida estudaram muito mas leram pouco. Estas situações costumam ter desenvolvimentos mais ou menos previsíveis. Mark Twain falava de que a História não se repete mas rima. No momento que passa, é preciso tomar cuidado com as rimas. Os simples podem não saber de economia, mas conhecem na pele o que é a injustiça relativa.
3. É que os dias começam a apertar. Agora deitamo-nos e levantamo-nos, com poucas alternativas pela frente. Na noite dos pesadelos pode-se imaginar que o primeiro ministro poderia fazer uma remodelação do seu governo. Mas como, se nesta última semana ele mesmo surgiu aos olhos do país como um remodelável?
Outras perguntas se impõem. Tem esta maioria capacidade para gerar no seu espaço um governo alternativo? Dever-se-ia chegar ao extremo de exigir um governo de salvação nacional? É possível fazer o Presidente da República mover-se para alguma outra solução sem entretanto se desfazer o parlamento? Ou, simplesmente, ainda será possível este governo colar os cacos, regressar a um entendimento com a oposição de forma a inverter este caminho deslizante para um buraco grego? Parar de perseguir as pessoas deixando-lhes na algibeira o suficiente de modo a não secar de todo a economia aquisitiva para que não pare a produtiva? Sabemos que todos os que nos conduzem a este desfecho sempre passarão bem, e nós passaremos mal. Mas é preciso não menosprezar o poder dos simples. Não estamos mais no quadro do Estado Novo, quando a população analfabeta e desinformada não dispunha de referências para se comparar. Também para nós o mundo mudou cento e oitenta graus e hoje somos alguém na Europa. Por isso a própria Europa precisa de conhecer a verdade sobre o que se passa em Portugal para que ela mesma se possa acautelar, e parece que, a partir daqui, só os simples, afinal, podem ser a voz autêntica que avisa os outros antes que também caiam.
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* in Público, 17 setembro 2012
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