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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Prefácio * William Faulkner

Para Sartoris
Lídia Jorge *

O livro que o leitor agora tem entre mãos é uma peça lendária e merece ser lido com o cuidado que dispensamos à decifração do início de uma galáxia. Quem considera a obra de William Faulkner como uma das mais emblemáticas do século XX, e se dedica minimamente a compreender a filigrana do seu percurso, não deixará de sublinhar este livro como o portal da grande obra que viria a alterar o modo de escrever, e de ler, das gerações futuras. O próprio Faulkner, ao terminar Sartoris a 29 de Setembro de 1927, dirigindo-se duas semanas depois ao seu editor, Horace Liveright, anunciava que tinha escrito o livro, THE BOOK, considerando que os dois livros anteriores, em relação a este terceiro romance, não passavam de pequenas crias. Aliás, confiante na sua descoberta, acabava mesmo por acrescentar que estava a oferecer ao editor, sem margem para dúvida, o melhor livro do ano.

O seu editor, porém, não o entendeu assim, bem pelo contrário. Liveright recusou publicar esse livro que considerou difuso, sem intriga nem projecção, chegando ao ponto de acusar Faulkner de não ter nenhuma história para contar. O dactilograma de quase seiscentas páginas, que então apresentava o título de Flags in the Dust, acabaria por andar pelas secretárias de dez editoras diferentes, até chegar ao escritório da Harcourt & Brace. Ainda assim, para que fosse publicado mais de dois anos depois, o volume iria ser reduzido de um terço, e o título acabaria por subsidiar-se do nome de família dos seus protagonistas, Sartoris. A verdadeira responsabilidade de Faulkner nos cortes efectuados não ficou clara, nem tão pouco a iniciativa do novo título. E o romance, só publicado no último dia do ano de 1929, mesmo depois desse ajeitamento às conveniências do tempo, não conheceu qualquer boa fortuna. No entanto, o reconhecimento que a crítica e os leitores não lhe conferiam, ganhava-o o autor para si próprio, em privado, diante da sua máquina de escrever. William Faulkner mal tinha entrado na casa dos trinta anos, e enquanto todas essas vicissitudes ocorriam lá fora, em lume brando, na sua mesa de trabalho, confirmava para si próprio a sua originalidade como escritor, a lume forte. Por esses dias, iniciava-se mesmo o período mais fértil da sua carreira. Basta dizer que, entre Abril e Outubro de 1928, Faulkner escreveu O Som e a Fúria, entre Janeiro e Maio de 1929 redigia a primeira versão de Santuário, e mal corrigiu as provas de O Som e a Fúria, escreveu, em quarenta e sete dias, Enquanto Agonizo, seguindo-se-lhe Luz de Agosto. Cinco romances em quatro anos, todos eles na senda de Flags in the Dust/ Sartoris. Afinal, esse livro havia sido, como ele próprio tinha anunciado a Liveright, aquele que faria de si um verdadeiro escritor. E assim foi. Sartoris surge, na cronologia criativa do escritor do Mississipi, como a obra que inaugura o grande passo na aquisição das suas inconfundíveis marcas narrativas.

Em Sartoris, Faulkner assume, pela primeira vez, que a sua matéria literária provém do território que se encontra sob os seus próprios pés. Os seus temas levantam-se do chão da sua terra natal ainda impregnada do cheiro a pólvora da Guerra Civil Americana de que foi palco. O seu pequeno canto, como chamou à região local, numa das cartas a Liveright, dá respiração a um mundo violento e racista, tenso e rude, supersticioso e brutal, o que lhe permite transformar a provinciana cidadezinha de Oxford na grande terra incógnita, carregada de sombras, mistérios e relâmpagos, que todo o escritor procura criar. Com Sartoris, Faulkner descobre que o seu pequeno canto poderia, afinal, ser escavado em profundidade até nele encontrar o sangue ainda vivo que corria nos subterrâneos das leiras do Mississipi e a partir dele criar um verdadeiro cosmos ficcional. É a primeira vez que o Condado de Yoknapatawpha surge, ainda com o nome de Yocona, a primeira vez que a temática das relações sem contemplação entre brancos e negros assume a espessura literária que se transformará num modo de cindir a realidade à luz da escrita. A sua própria experiência autobiográfica alarga-se à genealogia, e os mortos que se recusam a morrer formam famílias vagueantes carregando consigo o lenho da memória. Fantasmas do passado rondam o presente e essas visitas transformam-se em matéria de ficção. E como tal, surge o tempo psicológico, rememorativo, sincopado, cruzado, o tempo narrativo que se apresenta em ziguezague, originando faixas cronológicas interpoladas, um discurso listado, produzido sob o efeito dos sortilégios da memória. Ou por outras palavras, com este romance, assiste-se à inauguração da “técnica da desordem”, como depois dirá Sartre, e nada mais ficaria igual, nem para os leitores nem para os escritores que vieram a seguir. Aqueles que, ao tempo, ainda estivessem ligados a uma escrita de recorte tradicional, para entrarem nos meandros da acção, teriam de pedir uma cábula ou sentir-se-iam perdidos.

Aliás, Sartoris, para quem continue alheio a esta forma, exigirá algum anteparo se acaso se pretender desvendar os atalhos que lhe abrem os caminho vários, logo a partir das primeiras páginas. Como em relação a muitos outros livros futuros do autor, não é fácil um leitor desprevenido perceber quando é quando, nem onde é onde. Por vezes, é mesmo necessário uma bússola especial para se identificar quem é quem. Em Sartoris, Faulkner inaugura a técnica da geminação de nomes de família, figuras sobreviventes, a maior parte delas provenientes de vidas passadas, e essas figuras vão e vêm, bandos de fantasmas distintos mas embrulhados em lençóis da mesma cor. Neste livro inaugural, o lendário general John Sartoris, que em vida criou os Caminhos de Ferro da região, e na morte tem uma estátua altiva no meio do cemitério, espalha com o braço levantado uma espécie de modo de ser muito próprio, marcando as gerações sucessivas com a força do seu temperamento arrogante e indómito. Mas não é só a sua história que regressa. Regressa a memória de seu irmão Bayard Sartoris, morto por fanfarronice durante a Guerra da Secessão, e regressa o protagonista Bayard, o filho de John Sartoris, denominado Bayard Velho, aquele que ainda está vivo, por altura da primeira página, e só morrerá a páginas tantas, por efeito da truculência suicidária do seu neto Bayard, irmão gémeo de Johnny, o que acabava de morrer nos céus de França, durante a Primeira Guerra Mundial, reproduzindo, mais de cinquenta anos volvidos, o destemor do seu tio-bisavô Bayard.

Isto é, a principal acção de Sartoris desenrola-se ao longo de um ano, entre a Primavera de 1919 e a Primavera de 1920, mas a saga dos Sartoris, que inclui três John e quatro Bayard, entre eles dois pares de irmãos com os nomes cruzados, remonta aos anos sessenta do século XIX, recobre quatro gerações, e inicia-se com a apresentação de um cachimbo onde o patriarca deixou cravada a marca dos seus dentes. É assim que o bisavô, aquele “que tinha passado para lá da morte e depois voltado”, entra em acção, de modo a espalhar pela narrativa fora a tutela de um desejo irrequieto de glória que conduzirá à tragédia. Seja qual for a relação que se queira estabelecer entre as manobras do destino pessoal tão próprio de Faulkner, e a relação de ressentimento e culpa próprios dos domínios do Sul, marcados pela violência da escravatura e pelas peripécias da sua abolição, Sartoris, como em todos os outros seus grandes romances, não se confina às matérias passíveis de serem enunciadas. A escrita de Faulkner é a verdadeira substância da sua ficção, e por isso, a carta que Horace Liveright escreveu ao jovem autor, em 1927, acabaria por ser lida ao contrário. Curioso. O livro que o editor recusava encontrava-se, afinal, repleto daquilo que já então era a substância da modernidade. É esse livro brutal, premonitório, que aqui fica, assinalando um momento de explosão muito particular na História da Literatura. Mais do que isso, proporcionando ao leitor moderno o encontro com a matéria humana mais funda e mais viva, o desejo de ser, para além do tempo. É preciso não esquecer que Faulkner parte de Flags in the Dust para mergulhar na escrita de O Som e a Fúria, considerado por muitos, o livro mais influente de todo o século XX. Para todos os efeitos, Sartoris é a sua antecâmara. O seu brilhante ensaio. Por alguma razão, Faulkner aconselhava aos que ainda não tinham sido introduzidos na sua a obra a começarem, exactamente, por aqui, pela história deste último Bayard.
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* Prefácio para "Sartoris" de William Faulkner
(D. Quixote, julho de 2011)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Prefácio * Uma dedada de matérias várias

Memórias do longe
Transparências

Lídia Jorge *

LONGE é uma palavra importante para Gracinda Candeias. O que ela mais recorda aconteceu longe, o que mais ama fica longe, o que inventa e pinta fica ao longe. Quando precisa de fazer um parênteses, vai para longe, e quando regressa é de lá que traz os novos projectos. Sucede que durante o percurso para chegar longe, ela toma um estojo miniatura que cabe na palma da mão, e em qualquer lugar remoto, a Gracinda desenha e pinta. Ou por outras palavras, é na distância que ela encontra o impulso e o motivo.

O que quer dizer que a transfiguração vem do percurso, do trânsito acontecido no tempo e no espaço, do intervalo que decorre entre o mundo primitivo e o dito civilizado. Da distância entre a Europa e o Oriente, a Europa e a África. Da África do Norte e do deserto, ou de Angola onde nasceu e mantém a sua raiz. A distância no tempo faz-se entre o tempo presente e o passado próximo, ou distante, e faz-se por continuidade, por mistura e por coabitação. Assim, quem conhece a vida e a forma de trabalho de Gracinda Candeias adivinha a sua obra. E quem conhece a obra, adivinha-lhe a vida, não por inteiro, mas quase.

São de longe os seus estímulos, as flores, os pássaros, as nuvens, as árvores, os rios, as cores e os sentimentos de deslumbramento, nostalgia, recordação, memória de odores e vislumbres. O transporte da sensualidade em torno do mundo, da terra e do céu. E também os materiais são de longe – os papéis, os pigmentos, as colas, os paus, os lacres, os selos. E de longe parecem ser arrancadas as formas que expressa – Os pássaros estilizam-se na forma do ovo, as nuvens alargam-se com a transparência dos céus, os calhaus ficaram espalhados no deserto que se remove em nuvens. Como se a forma se tivesse rendido ao impulso da cor, e a cor fosse a mais depurada sobrevivência da experiência vivida.

Então é preciso esquecer o percurso, essa liturgia que a Gracinda percorre antes de criar, isto é, aproximamo-nos da obra feita. E a aproximação revela que a depuração não é apenas um prolongamento, um encosto à Natureza, mãe das formas, uma sequência pacífica do prolongamento do espaço deserto de África, ou do espaço profuso do Oriente. Existe uma reacção à forma primitiva, uma revolta contra ela, uma resposta, uma aposta numa outra forma que é só sua e se sobrepõe à estilização do mundo feito. Vistas de perto, essas formas relatam uma história íntima, e o longe assenta numa experiência sentida.

Então será normal pensar que existe, sobre os seus quadros, o desenho de um percurso biográfico. E isso valoriza? Desvaloriza? – Não interessa. No interior das suas transparências, fica uma dedada de matérias várias. A abstracção de Gracinda Candeias assenta num desvario contido, enquadrado como se fosse uma vitrina ou uma redoma, sustido, poupado, transfigurado em manchas significativas. Formas como se fossem apenas formas, e no entanto, histórias. Histórias em repouso serenado, sensualidade resguardada, vidro ferido.

De longe, para longe. E no intervalo, a proximidade inscrita. O que conheço de Gracinda Candeias diz-me que não se afastará deste processo. O Pacífico, o Índico, e especialmente África, Angola, chamam-na.

Uma peregrinação da existência. Pelo que sei, o augúrio da sua expressão plena vem a caminho.
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* Texto para o álbum de serigrafias de Gracinda Candeias,
"Datura e suas Senescências"

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Prefácio * Eduardo Gageiro

Os três reinos
Este Pó tranquilo foi Damas e Cavalheiros
E Rapazes e Raparigas
Emily Dickinson
Lídia Jorge *

Dizem que os fotógrafos não são pessoas como as outras. Consta que caminham com metade dos olhos entre as mãos e não fazem separação entre o seu corpo e o Mundo, como as crianças e os animais. Neste último aspecto, compartem a condição com todos os artistas dignos desse nome, e ainda bem que assim acontece. Alguém há-de ter a seu cargo a tarefa de manter activa a relação entre os homens e o íntimo coração das coisas. Foi pensando na possibilidade dessa inocência, que me encontrei pela primeira vez com Eduardo Gageiro.

Eram três horas da tarde, sobre uma mesa de vidro ele abria as folhas de um livro chamado Silêncios e insistia na diferença entre o plural e o singular da mesma palavra. Mas não precisava de falar muito mais. A sua eloquência não estava na explicação do sentido dos termos, residia na forma como virava as páginas – Aqui encontrava-me eu em Bombaim, aqui em Genève, aqui o homem estava de costas, e ainda que monstruoso, eu vi-o no meio da solidão, e assim por diante. Embora o que dissesse fosse mais fundo do que dizia, ou estivesse muito mais escondido. Em vez das palavras, as imagens falavam por si, o relato das caminhadas até às imagens, a forma como as havia enquadrado e trazido até ali representavam a substância da matéria que as formava. Para além da mesa de vidro, para além do sol da Primavera entrando às golfadas pela janela, o que o fotógrafo vinha dizer provinha do fundo da Natureza. Como se dissesse – Tenham cuidado comigo, olhem que eu nasci para as árvores, nasci para os seus ramos, seus troncos, suas folhas levantadas contra a luz, suas raízes escondidas no solo. Muito cuidado, que eu não sou daqui. Nasci para os aluviões de terra, para as planícies e os desertos, para as dunas e as montanhas, e os mares. Nasci para todos os mares e os lagos que são a sua lembrança, e os rios que são as veias da terra correndo para os oceanos. Tomem mesmo muito cuidado. Olhem que eu sei que o mundo acorda e adormece sem precisar que a pessoa o embale, mas apesar de ele não me reconhecer como seu parceiro, apesar de não me dizer uma única palavra, eu lido bem com o seu silêncio, e reconheço-o como minha morada. Vejam, vejam aqui como levantei as nuvens acima do homem acoplado ao cavalo, e deixei-os a ambos do tamanho dum ponto feito a lápis, no meio da paisagem, para mostrar que lavram a terra e não são nada. Não faz mal. Todos somos da matéria das nuvens, mas olhe que eu sou mais o homem puxando o cavalo.

Não dizia assim, o Eduardo Gageiro, mas era como se dissesse. Porque nos encontrámos uma segunda vez, à mesma hora, já a Primavera avançava. Ainda mais luz, ainda mais vidro. Mais páginas abertas, mais certezas, e o título definitivo do livro, Silêncios. - Não silêncio, isso não, cuidado comigo e cuidado com o silêncio. Vejam aqui, por exemplo, como olham para nós os animais. Vejam como nos acompanham os pardais, as pombas, como nos olham. Estão a ver como fala através do rosto, o coração do animal? Estão a ver o coração do animal? Como bate, prisioneiro da sua janela? Onde é que eu encontrei estes cães vadios, antes de os encontrar pela segunda vez, e de os caçar à linha, para dentro da minha lente? Onde? – Pois vejam, eu creio que todas estas ovelhas já foram minhas antes deste redil. Se assim não fosse, como é que estavam à minha espera? Escute, os animais devem ter uma glândula pineal feita de espírito pela qual se irmanem a nós. Eu acho que eles são irmãos da nossa companhia, e logo irmãos na nossa solidão. Pensam ou não pensam que viemos todos do mesmo útero comum? Vejam, aqui, como todos nos desfazemos em terra. Estão a ver? – Sim, eu conseguia ver, claramente. À luz escancarada das três horas da tarde, cada fotografia falava por si, sem obediência a nenhum pensamento prévio, nenhuma teoria formada. Quem era eu para o desdizer? – Tem toda a razão, Eduardo Gageiro. Se você levantou do chão, você achou, cheirou, mordeu, provou a realidade e disparou o seu flash, você descobriu o segredo da vida, e nesta história das três da tarde, quem foi ensinada fui eu.

Mas ele pensava que não podia ensinar, que apenas mostrava. Continuava o Eduardo Gageiro - Veja aqui esta criança atrás dos panos. Rondei dois segundos na sua frente para lhe oferecer esta segunda vida. Ele estava dormindo e eu disse-lhe, quando disparei diante da sua cara inchada de leite – Terás uma vida feita de aspectos que hão-de mudar de hora para hora, de segundo para segundo, mas a partir deste instante ficarás aqui, voando para sempre a esta altura, libertada do tempo. Quero que os pássaros saibam, ao verem-te fotografado, que da gaiola do tempo se libertou um fanfarrão. Tu e eu, imagem de criança dormindo, dois fanfarrões fugindo do tempo. Vejam agora estes homens como estão sentados, olhem para as suas cabeças postas entre as mãos, vejam o peso do que pensam, vejam o que eu consegui guardar do que pensam. Alguma coisa dói? Onde dói? Não posso fazer nada contra a dor, meus amigos, porém, sempre que imobilizo o rosto da mágoa, tenho a ideia de que chamo nomes indecentes à dor. E a resistência? O que acham dela? Vejam os rostos fechados da gente, vejam a decência com que enfrentam a má notícia da vida. Serenos, sereníssimos, grandíssimas sentinelas de si mesmos. Sei por experiência que é preciso que um homem se sinta desarmado para conhecer o soldado que traz consigo. Reparem como partem de viagem os homens sozinhos, a caminho da aventura. E umas vezes isso é uma forma de se mostrarem, outras vezes, uma forma de se esconderem. Seja como for, a partida é a única promessa que o silêncio não consente. O silêncio é uma casa vazia onde só se aguarda a chegada, para nada. Silêncios? Sim, esses, pelo contrário, vão de viagem, cada um à sua janela e levam consigo os actos da vida. Às vezes eu estava lá, no local exacto, rondava a cena como um gato ronda a borboleta, rastejava, saltava, caçava a imagem da viagem do homem, esse nómada que ultimamente perdeu a rota de propósito para se sentar, durante oitenta anos, diante duma mesa. Não sou destes, sou dos outros, um andarilho à procura de silêncios, e por isso mesmo tenham cuidado comigo.

Mas ainda houve uma terceira vez.

Então já era o mês de Junho, e falámos pouco. As fotografias haviam sido revistas, uma a uma, e afinal havia ali uma montagem. Criador, este montador de filmes. O fotógrafo abriu o dossier no último capítulo, no lugar onde os mortos parecem vir beber água sobre o papel de impressão, e ao virar as últimas páginas, era como se dissesse – Cuidado comigo, conheço como falam os mortos. Eles falam, falam, mas com interesse, nunca dizem nada aos vivos. Não gosto dos lábios da morte, diz Eduardo Gageiro. São vermelhos, mas não têm palavras para mim. Não sei de que metal são feitos os lábios da morte. Vejam como as velas ardem, como as mulheres choram sobre tábuas, como as escadas vão até ao céu, e lá não chegam. Vocês, por acaso, já ouviram alguma sílaba provinda do outro lado do espelho? Pois bem, tomem cuidado comigo, sei tudo sobre os silêncios do corredor. O que sabem vocês sobre tudo isto? Acaso já experimentaram escutar o silêncio?

Como se dissesse - Eu experimentei, e agora sei que somando silêncio mais silêncio, mais silêncio, e ainda mais silêncio, assim infinitamente somados, dessas parcelas todas, nunca resultarão silêncios. Silêncio e silêncios são duas substâncias quimicamente diversas. Chegados aqui, posso resumir o que sei – Que o plural, segundo a gramática da minha língua privada, resulta da esperança na multiplicação das espécies e eu faço alguma coisa por isso. Cada vez que imobilizo a imagem da vida, dando-lhe outra vida, ajudo a afastar a hora da poeira para os horizontes mais longínquos possíveis. É um pequeno poder, mas ainda assim, serve isto só para dizer que não sou daqui, e por isso, tenham cuidado comigo.

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* Prefácio do álbum "Silêncios"  (novembro, 2008)

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Prefácio * Eugénio de Andrade

Lettera amorosa

Lídia Jorge *

Neste momento preciso, eu deveria pensar naquele dia já distante em que recebi de um amigo uma pequena folha com um certo poema copiado à mão, e pela primeira vez tive conhecimento de que havia um poeta português chamado Eugénio de Andrade, autor do poema. Deveria lembrar-me desse e de muitos outros poemas que depois repeti em voz alta, enquanto conduzia pelas estradas planas de África, e as palavras sol, terra, luz, estrela, água, mãe, altura, pareciam ter saído duma geografia sem matéria para se dirigirem a um lugar preciso onde o coração perde o peso e a física. Deveria lembrar-me da forma como esses poemas resistiam à fragmentação e à análise, como se tivessem sacudido no decurso dos seus nascimentos toda a sílaba inquinada, todo o risco supérfluo. Como se tivessem saído dum lastro de palavras elementares, para revestirem uma realidade elementar, no interior da qual existia um grito solene reclamando a força absoluta do sentido. Deveria recordar quantas vezes, ao longo destes anos, não me encostei às capas brancas dos seus livros, à procura da conjunção das palavras mais sós e mais ardentes. Deveria pensar nesse tipo de ensino de ostinato rigore, em seu sentido amoroso mais amplo, nessa mestria doada à simplicidade como uma conquista da beleza sobre o desperdício. Neste momento, eu deveria encaminhar-me na direcção dos seus poemas mais límpidos, mais abertos à revelação do instante. Ou lembrar-me da tarde de Primavera em que subi os degraus da sua antiga casa, à Duque de Palmela, e da conversa que mantivemos sobre as coisas do Porto e do Mundo. E no entanto, em vez do que é devido, uma homenagem feita sobre o que repousa, e que ata o poeta ao que mais existe de si mesmo, aquilo que o ata aos livros, sendo ele mesmo os próprios livros, em vez de tudo isso, recordo Eugénio de Andrade naquele dia em que foi abordado por uma pessoa, a pessoa se curvou sobre o seu ombro e lhe disse que tinha feito uns versos. Em vez de me lembrar de poemas, lembro-me desse instante de perplexidade, com o próprio Eugénio de Andrade no seu centro, sentado numa sofá de Embaixada, em seu fato branco de linho, e de entre um grupo que o rodeava, uma pessoa a adiantar-se e a dizer-lhe – “Senhor Eugénio, eu fiz uns versos...” A pessoa era mulher, a pessoa abriu o seu saco de mulher, tomou papel e caneta e disse – “Eu fiz uns versos... Se me escrever aqui a sua morada, eu mando-lhos para me dizer o que pensa dos meus versos...” A pessoa já escrevia sobre um papel – “Para onde posso mandar, senhor Eugénio?”

Sim, eu poderia neste momento lembrar-me do poema - Trabalho com a frágil e amarga/ matéria do ar/ e sei uma canção para enganar a morte/ - assim errando vou a caminho do mar. Mais do que poderia, deveria, porque homenagear um poeta é falar da sua obra e não da sua vida, e no entanto eu penso nesse instante extraordinário de vida em que Eugénio de Andrade ficou perplexo porque estava em causa o ofício obstinado de ser poeta. A rapariga disse – Senhor Eugénio, eu fiz uns versos... Como se fazer uns versos fosse uma proeza que só por si justificasse que se dissesse em voz alta, se pedisse um endereço, se exigisse uma leitura e uma resposta, tudo isso dito no meio dos sofás duma Embaixada. Senhor Eugénio, eu fiz uns versos. E Eugénio de Andrade num primeiro instante não se moveu, não olhou a pessoa, e eu pensei – Não vai dizer nada, vai manter-se imóvel, vai deixar a pessoa com a caneta no ar, e todos nós vamos ficar imóveis, no centro desta cena de desentendimento, de encontro entre o supérfluo e o fundo, e todos vamos ficar tensos e amachucados, por muito tempo. Mas não, Eugénio de Andrade respondeu à pessoa – “Fez uns versos? Guarde-os para si. E se tiver vontade de fazer mais versos, não os faça, não perca tempo a fazer versos. E sobretudo não mos mande para casa. Eu não leio versos...” Sim, eu deveria lembrar neste momento os livros de capa branca de Eugénio de Andrade, a limpidez dos poemas de Eugénio, que não são versos, são o olhar da vida atravessado de palavras, e as palavras, ou os versos, se o quisermos dizer por deferência à forma, são o espelho e a fonte do ser, porque a vida seria muda, correndo tranquila entre as lápides e os sáurios, se não fosse o ser do ser, se não fossem as palavras que nos fazem gente, coisa pendente entre a matéria solar e a água. – Senhor Eugénio, eu fiz uns versos... Lembro-me de como depois Eugénio de Andrade se levantou, como sacudiu o cabelo, como se dirigiu à janela, de onde se via um jardim, como regressou de lá, ofendido e alterado. Não era uma questão de honra, era uma questão de poema. Era uma questão de poetas. Eugénio de Andrade não podia abdicar da decência da Poesia em nome da caridade pela figura daquele que faz uns versos, ornatos da vida diária. Versos, pedaços de renda tecida ao serão, fumos de cachimbo de roseira. Não me lembro de alguma vez uma cena de indignação me ter ensinado tanto sobre o ofício do poema. E lembro-o, neste momento, talvez com um excesso de matéria, um excesso de imagem, que mais não é do que a reclamação da vida, essa que passa passageira, em vez do poema que fica e se desprende da matreira contingência. Sim, eu deveria lembrar poemas, neste instante – De repente/ o silêncio sacudiu as crinas,/ correu para o mar./ Pensei... E assim por diante. Mas em vez do poema, obstinadamente, lembro esse instante em que ele mesmo, pessoa inteira, vestido de linho branco, sacudiu a cabeça, socorreu-se da vista para o jardim, como se fosse um mar, e regressou ao grupo para defender a dignidade duma vida que se dedicou ao poema sem pausa nem pressão. Por isso mesmo, neste instante, essa imagem é tão forte quanto a primeira, aquela outra, a da página manuscrita onde alguém, nas faldas da adolescência, copiou cuidadosamente Lettera Amorosa e ma enviou dentro dum livro, para que eu conhecesse um poeta português extraordinário, a quem escrevo neste momento a minha carta.
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* Texto para a 5.ª edição (2007) de "Os Sulcos da Sede"

quarta-feira, 18 de agosto de 2004

Prefácio * Frei Bento Domingues

Nosso contemporâneo

Lídia Jorge *

A pessoa e a obra aqui presentes, tornadas sujeito desta breve intervenção, lembram-me o aviso de Maeterlink quando diz – Sempre que pronunciamos alguma coisa, desvalorizamo-la singularmente.

Acresce que neste caso a coisa é, como se sabe, uma pessoa singular e a obra em questão apenas uma parte visível dessa singularidade. Na verdade, não estarei sozinha se disser que tentar explicar, nestas circunstâncias, a importância que Frei Bento Domingues assume junto daqueles com quem alguma vez conviveu, poderia ser embaraçoso. Embaraçoso também para ele próprio, que perante a declaração da sua importância face aos outros, não sabe onde pôr o olhar. No que me diz respeito, em contexto diferente, eu hei-de descrever a forma como a sua conduta e o seu pensamento, à distância, me têm sido decisivos no modo de encarar a vida e o Mundo.

Mas agora trata-se, antes de mais, de referir o conjunto das cinquenta e uma crónicas, publicadas no Jornal Público, entre 1994 e 1995, aqui reunidas com o título de As Religiões e a Cultura da Paz, um belo volume ilustrado por uma imagem que representa, na sua ambiguidade, tanto a deflagração quanto a fulguração dos ícones, e inscrita numa colecção cujo enunciado, só por si, inclui a síntese do tempo disjuntivo a que estes escritos se referem – «religião sem Mundo, Mundo sem religião». Eu diria que a ideia que lhe está subjacente, por antonomásia, é precisamente, a reclamação não de um mundo com uma religião, mas um mundo com religiões, e nessa junção ecuménica das totalidades na Totalidade, reside a mensagem de paz por que reclama o título. Esta é a entrada do livro que aqui se manuseia. Ela faz a diferença, no meio do acervo de fanatismos que hoje campeiam. Ela permite inclusive que se aproximem os que crêem dos que não crêem, como se de permeio entre eles, não existisse a separá-los mais do que a espessura dum pano de seda. Permite que se olhem e se interroguem mutuamente, e no mesmo pé de humanidade, os que vivem na Casa da Certeza e os que vivem na Casa da Dúvida, sabendo os primeiros que para os segundos não está apenas reservado o caminho do estorvo, sabendo os segundos que aos primeiros não está apenas reservado o caminho da segurança. Eu diria que é na capacidade de deixar coabitar estes dois espaços do humano, e dessa coabitação retirar as consequências para o incremento da fraternidade, que Frei Bento Domingues consegue criar um espaço de pensamento, entre nós, verdadeiramente original.

Provam-no, de facto, estas crónicas. Publicadas aos domingos, elas são os sermões modernos em que o púlpito foi arrasado, e em que o destinatário, ultrapassados os limites das paredes, se transformou num grupo vasto e diferenciado, tão difícil de determinar quanto difícil de atingir e onde se incluem os crentes, os não crentes, os agnósticos, tanto quanto os duvidosos e os inqualificáveis. O segredo da sua eficácia junto de um público tão heterogéneo, encontra-se ao nível da qualidade do seu raciocínio e da sua sustentação informativa, ambos arredados do forcing persuasivo. Essa originalidade advém-lhe naturalmente do facto de ser, antes de mais, um intelectual sólido, alguém que coloca o espaço da leitura e da erudição ao serviço da formulação dum raciocínio sempre novo e sempre aberto, perante a transformação imparável do Mundo, sismógrafo sensível dos terramotos sociais por que passam os nossos tempos, com um discorrer radicado na sensibilidade à mudança. Por isso mesmo, a parte destas crónicas que é doutrina assume um princípio activo, mas impregna-se-lhe numa totalidade vivencial, como se existisse para iluminar os passos dos homens e nunca para separar-se deles.

Eu diria mesmo que este pregador, que junta ao seu nome O. P., como aviso, é alguém que se move na área da doutrina e da pregação, como se o não fosse, processando o seu raciocínio com uma clareza cartesiana, indo de argumento em argumento, encadeadamente, como um filósofo metódico, até atingir o cinto inultrapassável do dogma, a verdade recebida e não encontrada, espalhada no campo da doutrina. Melhor dizendo, Frei Bento utiliza o cinto do dogma na sua versão mais fina, o menos estranguladora possível, o mais sustentada possível pela evidência do concreto e do provável. Não admira que Frei Bento declare na introdução a este volume, aquilo que se depreende do seu método de trabalho – (...) nunca escrevo sobre um tema sem o estudar de novo, nunca confio no que já sei, detesto o impressionismo. Por conseguinte, não admira também que a sensação que se alcance com a sua leitura seja de clareza, segurança e liberdade, uma vez que o cinto de todos os dogmas ele os sintetiza, em última instância, na evidência de Deus como amor. As crónicas de Frei Bento são “desdobráveis” inteligentes que se oferecem ao pensamento, abertas em várias direcções, e nessa medida também são sermões, isto é, raciocínios que podem conduzir à fé se o leitor aceitar a verdade que o autor toma por incontornável.

Mas se o conteúdo é a forma da matéria, como creio, eu diria que a maior sedução destes textos provém da sua íntima substância. De testando o vago e o impressionismo, não estamos perante um raciocínio lógico, nem seco nem frio. Nestas crónicas, prolongamento de Frei Bento como pessoa, o seu raciocínio nunca está separado da massa sensível que habita as coisas e os seres. Ao ler-se Frei Bento Domingues, percebe-se que se está perante um homem aberto à grandeza. À grandeza do cosmos, à magnânima fragilidade do humano, ao rosto irrepetível nas multidões, à pele da História, inocente e deslumbrado como se fosse um poeta, que só o não é formalmente, porque o poeta faz experiência do escuro e exibe a escuridão como medida, e Frei Bento é um poeta que escolheu à partida a luz do princípio iluminado, e fez dele o seu método de clareza. Porém, dentro de si, conserva intactas essas duas coisas. Só assim se entende que seja um pregador tão hábil, homem de cerimónia e de parcimónia, capaz da paciência e da piedade pelos outros, no circuito do próprio raciocínio. Alguém que discorda, surge contra mas não se in-surge, não cria cisma. Entre os seus, percebe-se muito bem o que recusa, como recusa, porque recusa. O próprio Papa e o Cardeal Ratzinger, bem como Fátima e outras entidades, são figuras que surgem no rodapé dos seus reparos. Há nele, porém, uma forma cordata de discórdia, que passa muito mais pela insistência do que pela indignação. Aliás, em relação aos grandes problemas, depreende-se-lhe uma constante de procedimento notável – é frequente Frei Bento desenvolver um raciocínio, deixá-lo a vibrar intensamente em torno da tese que advoga, para depois suspendê-lo e terminar sem dar o golpe fatal, ficando o raciocínio em aberto, à disposição duma resposta, como se fosse uma conversa interrompida. Por vezes, só assim se entende a sua oposição, ou a sua resistência, ou o seu destinatário, quando posteriormente volta ao assunto, retomando-o pela ponta do ziguezague interrompido. Também só assim se entende como nestas crónicas, bem como nas anteriores e nas posteriores, se desenvolve toda uma cultura de compreensão do papel dos mais vulneráveis, divergente do pensamento dominante, como sucede, por exemplo, no caso das mulheres, tema desenvolvido cautelosamente, sob o anteparo for mal desse tipo de raciocínio inatacável, interrompido no momento exacto.

Mas nem sempre é assim. Por vezes, o pregador da crónica toma a realidade e os factos, e denuncia a incongruência, o anacronismo, o interesse próprio, o miserabilismo mental, juntando as pontas que o evidenciam, munido da ironia. Exemplar nessa desmontagem é a Crónica “a Capital do Bruxedo”, quinta crónica deste livro, peça literária notável. Outras vezes, deixa-se comover pela irritação e pela revolta. Falando do Peru, país maravilhoso da América Latina, aviltado socialmente de todas as maneiras, e referindo-se em particular à cidade de Lima, Frei Bento não tem rebuço em declarar – A porta para este mundo fabuloso é um nojo. Lê-se na primeira crónica desta série. Também na última, a quinquagésima primeira, a que tem por cenário o Chile, a propósito do crescimento económico sustentado, e da cultura do contentamento dos afortunados, pode ler-se – “Há (...) muitos sinais, extremamente violentos, de que os enganados, os excluídos, podem reagir por vias do desespero. Já vai sendo tempo de perceber que fora da solidariedade, fruto do compromisso social e da compaixão, não se pode encontrar uma sabedoria partilhável para viver com dignidade neste mundo”. Estes, aliás, são os últimos parágrafos com que termina o volume As Religiões e a Cultura da Paz.

Dado o que está a acontecer, sete anos depois, poder-se-á perguntar se acaso Frei Bento não foi profeta. Dever-se-á responder que não, que Frei Bento, felizmente, não é um profeta. Trata-se apenas de um homem lúcido, nosso contemporâneo, que leva a coragem, de par com o discernimento e a beleza, na ponta dos seus pés, e não se queixa da mágoa que lhe causa – Foi assim que o conheci pela primeira vez, num inverno já distante, a caminhar numa praia, e a associar a força das ondas encadeadas como se fossem uma sombra de Deus. Do seu misericordioso Deus, que vê no rosto de todos, mas não impõe a ninguém.
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* Prefácio de "As religiões e a cultura da Paz",
Frei Bento Domingues
(Mário Figueirinhas Editor, Porto, 2004)