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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Poema * Palavras que um tempo fora do tempo te tinha dado

Para Sophia
Lua branca da madrugada
pousaste teu cinto na terra
e o mar te veio buscar.

Já lá estavas, de lá enviaste
as palavras que um tempo
fora do tempo te tinha dado
e nós à espera desse momento
alado, em que as tuas letras transformassem
linhas pretas num campo iluminado.

Agora estás lá dentro, agora desde que a lua
e o mar se unem e fazem as marés
mas só alguns o sabem, tu soubeste e
nisso és.

Voltaste à terra branca, e na cidade
um sino bate a hora como se o dia
de hoje apagasse um foco incendiário.

Teu fogo porém vivo, é de outra chama
e a cama onde te deitas, doutra cambraia
e a praia onde te banhas, de outra
água.


Lídia Jorge
4 de julho, 2004

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Poema * Para António Alçada Baptista

Narrativa

Três bules sobre a mesa. Três chás.
Um é para ti, outro é para mim
E sobre o terceiro, tu disseste – Este é para Deus.

Ele não se senta, não tem lábios
Não tem dedos, não traz roupas, não tem olhos
Nem lê meu livro nem meu cravo.

De seu escravo sou pessoa
De seu rosto sou artista
E não me calça nem me despe
Não me enxerga nem me enlaça.
Não me acorda se desfaleço
No deserto do meu leito.
Não tem beijos para colocar na minha face.

E no entanto, três bules estão sobre a mesa.
Servi-os, peregrinando interiormente até ao fim do Mundo.
Ele há-de vir e há-de ser tudo.
Hei-de ser mudo até sentir o chá terceiro
Evaporar-se. Sobre o estendal desta toalha
Onde escrevi a espera, nunca é tarde.

Lídia Jorge *
______________________
* Incluído no livro
 "António Alçada Baptista: Tempo afectuoso - Homenagem ao escritor amigo de todos nós",
Presença, fevereiro de 2007

sábado, 10 de setembro de 2011

Poema * Viemos da mesma árvore

Juntei-me à voz verdadeira
Juntei-me à voz da guitarra
Por ser mais que verdadeira
Provei que eu própria era
Feita de sua madeira.

Viemos da mesma árvore
Talhadas do mesmo jeito
Guitarra tem as minhas formas
Eu tenho o seu próprio peito

Estão em mim as suas cordas
E até a mão de quem toca
É carne da minha carne
Falando na minha boca

Lídia Jorge
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* com interpretação de Isabel Noronha (música de António Chainho)

domingo, 4 de setembro de 2011

Poema * Envolvida no que digo

Sou de vidro

Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita

Lídia Jorge
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*  interpretação de Mísia
Para ouvir → aqui

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Poema * Assim a casa seja

Fado do retorno

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltaste
Já entras como sempre
Abrandas os teus passos
E páras no tapete

Então que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças

Então que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Tocados pela graça.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Amor, o que será
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro

Já fuma o nosso fumo
Já sobra a nossa manta
Já veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta

Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A árvore do Outono
Coberta de cereja

Lídia Jorge
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* Com interpretações de Mísia e Anges Jaoui.
Para ouvir → aqui