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sábado, 27 de agosto de 2011

Originais * Mensagem, vai

A mais longa viagem


Lídia Jorge *

Vai, garrafinha, vai e não voltes mais. Tudo o que sabemos
não encontrámos, escavámos. Tudo o que não sabemos, desejámos
e não temos, e o que não viajámos,
não foi por não sonharmos, foi por não podermos.
Das garrafas que enviámos, salvou-nos o pedido que fizemos.
A mensagem que escrevemos
sempre teve menos letras do que aquelas que cantámos
e o amor, que nela imaginámos, sempre foi mais longe do que os beijos
que tivemos. Por isso, vai garrafinha, entrega-te na mão do achador
e não lhe contes nada, nem da imperfeita vida desta praia,
nem do nosso coração, um grão de sangue pulando desencontrado, para
que possa imaginar que a garrafa caiu da algibeira
de um deus adormecido e tem a poção mágica
da viagem. Vai, assim, toda de vidro, fulgurante, iletra, transparente,
e a  imaginação de tudo preencher, que lhe seja
o motor de uma outra realidade onde não exista
diferença entre o ouro e a areia, o pertencido e a pertença.

Certa vez, eu estava sentada na praia do Macuti, na Beira, Moçambique quando reparei que as ondas traziam uma garrafa. Vinha rolhada, como se ninguém a tivesse aberto, mas lá dentro não trazia nada. Foi essa ausência de líquido que me chamou a atenção. Na altura, havia bidões de álcool metílico que davam à costa, dando origem a uma catástrofe sanitária muito especial. Por certo que esses dois factos não estavam relacionados, mas na minha ideia passaram a estar unidos. Foi assim que, decorridos alguns anos, eu escrevi “A Costa dos Murmúrios”. Afinal, dentro da garrafa que não trazia nada, vinha um livro. Antes do livro, vinha um mundo.

O texto que escrevi baseia-se nesse pressuposto. A ideia de que a imagem da garrafa que é deitada à água para levar para longe uma mensagem, só por si, é a mensagem. Nós queremos enviar um recado a alguém cuja mão misteriosa inventamos. Precisamos dessa invenção para nós mesmos criáramos a nossa fantasia. Na base dessa fantasia existe um desejo de comunicação com o belo, o imenso, o puro e o limpo que imaginamos existir na silhueta de uma pessoa ou de um grupo que avista a nossa garrafa e decifra a nossa mensagem. Mas no tempo em que o chip, que veio da sílica, da areia, substitui a viagem por mar pela navegação instantânea, a ideia de atirar uma garrafa ao mar não passará de uma imagem romântica selada na imaginação daqueles que ainda nasceram no século XX. Seja como for, enviar uma garrafa com a nossa assinatura continua a ser uma forma de sobrevivência do poder do sonho. Um símbolo que permanece no écran, tão fundador quanto o barco, a vela, ou outro qualquer objecto de deslocação no espaço. A tecnologia avança, mas as imagens fundadoras permanecem.
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* Publicado no Expresso | Única (23 de julho de 2011)

terça-feira, 15 de março de 2011

Original * Chamar as palavras

Conto para Saïd
O Signo da Brevidade

Lídia Jorge *

Escrevo contos desde que aprendi a redigir, e penso em contos que não escrevo como uma forma própria de pensar sobre tudo aquilo que causa intriga ou espanto. Porque um conto é um raciocínio colorido. Se me perguntam sobre o sentido do passado, eu começo por responder Era uma vez. Se me perguntam sobre as tensões do presente, começarei de novo por Era uma vez. E nada poderei desejar sobre o futuro que não inclua essa fórmula de adivinhação – Sim, era uma vez, no futuro será assim…

Que me perdoem esta forma repetitiva de dizer que só através das vozes desenhadas em imagem com rosto humano posso descrever a parte do Mundo que me cabe conhecer e desconhecer. A culpa foi da minha avó materna. Ela é que me sentava nos joelhos e para me falar do medo, contava contos sobre os mortos, para me falar da alegria contava histórias de princesas, e para me falar da possibilidade de tudo imaginar, contava-me histórias em que os animais falavam e tinham casas e filhos com nome de pessoas. O valor da vida e suas relações começou dessa forma – Ao anoitecer, sobre a minha cabeça, a narradora reportava acções simplificadas, palavras certeiras. Eu já sabia. Segundo elas, tudo o que tinha seu início, seu risco e seu enigma, reclamava uma solução obrigatória, e logo terminava, e eu mesma pedia que o desfecho fosse rápido. Tinha sempre pressa em conhecer o desenlace, como se todo o princípio tivesse nascido para terminar num tempo próximo, em que a dúvida sobre o destino das personagens fosse intensa, mas não demorasse a deslindar. Não corroesse nem maçasse. Tudo começou assim, mas só passado muito tempo percebi que essa harmonia entre início, fim e exaltação do sentido, tecidos sobre o signo da brevidade, eram a cartilha que presidia ao conto.

De facto, na maioria das línguas latinas, a palavra conto anda associada a computum, nome de contar, coisa numérica, ordinal. E nesse caso, contar um conto seria construir uma série sobre o fio da lógica e do número, produzir uma escala de rigor contável, e logo numeral e abstracto. Mas eu prefiro escolher um outro étimo. Também consta que o conto poderá ter tido origem na bela palavra grega kontós, ponta da lança e do remo, gume acutilante, aquele vértice agudo que iria cortando a matéria inútil na perseguição do relevante. Objecto de separar carne ou de separar água. Ora se me é permitido escolher, entre os dois objectos cortantes, eu prefiro o remo à lança. Então, mesmo que não corresponda à realidade, o ritmo do meu conto procura seguir o remo dentro da água, e eu, que sou lenta e demorada, como todos os romancistas são, vou-me dizendo à minha escrita quando escrevo contos - Rema mais rápido, mais rápido, mais rápido ainda…

Sim, procuro obedecer a essa velocidade alta. Tudo começa, em geral, por um achado surpreendente que vem da rua, do voo dum pássaro, duma confissão rápida, uma imagem fugaz no autocarro, acontecida no afã da vida diária, na pressa de existir, no desencontro pelas portas. Um caso raro cujo sentido brilha no escuro porque não se resolve, porque resiste à sua solução, não se conforma com o nosso entendimento prosaico. E porque surge essa imagem, carregada de mistério, se não surgiu para que o seu sentido possa ser dirimido? Como vai ser resolvido o enigma? Não irá sê-lo agora, não irá sê-lo nunca mais? – Nesse caso, então, é preciso ser escrito. Começar por Era uma vez, e chamar as figuras, as ruas, as portas, as vozes, as árvores, o sol que naquele dia caía a pique, naquela noite chorava lágrimas de chuva, naquela madrugada via aviões partirem para países distantes. É preciso convocar essa realidade e chamar as palavras, para que através da configuração de outra matéria, a realidade se faça outra, é preciso entrar para dentro desses espaços agora munidos da cor da metáfora, de modo a poder-se espreitar uma outra lógica, uma outra fórmula, e em conformidade, deslindar o nó sob essa outra luz. Por vezes, porém, o nó não é deslindado. Ele pode ficar a pairar sobre a nossa cabeça, e a persistência desse nó inviolável pode ser o seu sentido exacto. Resistir ao sentido. O conto veio para isso. No fundo o que é preciso é que o sentido em parte se desvende e em parte nos resista, em parte fique a pairar, incompleto e breve, como um poema fica. Uma oferta sucinta. A escrita deve permanecer sob o signo do remo veloz mergulhado na água funda, e a gente vai dizendo mais rápido, mais rápido…

Muito rápido. Talvez por isso o conto seja o género que melhor associamos à viagem e à deslocação. O conto inscreve-se bem como unidade de passagem. Lê-se pela manhã, antes de partirmos. No intervalo da viagem enquanto repousamos. À hora das refeições, está bem um conto, que dura entre a sobremesa e o cochilo. Um conto lê-se na estalagem, ao serão, durante o qual se iniciou uma unidade e se fechou a unidade. Como o sonho da noite que se esboça, se joga na plenitude da sua irrealidade dramática, e passado um tempo sem tempo, se desfaz. Vai e vem durante um sono, na cama do hotel. O conto é o género que sai do sono e que melhor se aplica ao nosso sonho. O antes e o depois aproximados pela suspensão dos tempos. Novalis disse – “Tudo acontece em nós muito antes de ter acontecido”. Assim é. E este é o género que melhor procura encontrar esses dois tempos reunidos. O conto, como o poema, persegue o âmago desse encontro.

Pois o romance, onde me afadigo sem parar, como se fosse uma tarefa de lentidão e largueza, herdada de uma região que desconheço, repete a vida, retoma-a e reprodu-la, toma as suas vinte e quatro horas e olha-se no espelho de longos meses e anos. Reproduz a existência. Mas o conto não pode reproduzir a existência, apenas escolhe instantes e por isso, mais do que perseguir a vida o conto persegue o ser. Era uma vez, resume a forma encontrada para se declarar que em toda a diversidade procuramos um ínfimo todo, que não era, nem será, apenas tem de ser. O conto enquanto género condensa a fórmula escondida que suporta o género humano, e que só de vez em quando ainda a medo nos afoitamos a pronunciar - É uma vez. E no entanto, para escrever contos, não é preciso pensar em nada disto. Para escrever um conto, basta deixar que a realidade do Mundo entre para dentro dum teclado onde batem, como patas de cavalo, os nossos dedos. As frases formam-se sob o atrito das falanges, e é tudo.
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* Texto inserido em antologia de originais editados em árabe
 (Saad Warzazi Éditions, Marrocos, março de 2011,
tradução e selecção de Saïd Benabdelouahed)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Original * Um símbolo


Gafanhoto

Lídia Jorge

Vem, pequeno gafanhoto, pousa as tuas patas sobre a brancura desta folha e mostra a tua natureza diante dos meus olhos. Mantém-te quieto enquanto duram estas breves linhas para que eu te conheça de perto, melhor do que ninguém. Sei que ao mudarmos de língua, tu mesmo mudas de sexo. Na minha língua és macho, e o teu nome traz consigo uma maldição, pois gafanhoto lembra aquele que traz a gafa, a miséria e a doença, enquanto que em francês assumes a forma de um belo nome que salta, e és fêmea. Não importa, atravessas a tradução, e ficas com outra ressonância, mas para mim, tu serás sempre aquele que me leva pela mão até às regiões do desconhecido. Somos um casal perfeito, e da minha fidelidade, não tens de que te queixar.

Outros te reduziram à dimensão da iniquidade e do desmazelo. Não deves dar o teu perdão a Nathanael West, autor de “O Dia do Gafanhoto”, nem ao realizador John Schlesinger, muito menos a Winston Churchill que te associou aos tristes dias da vacuidade. Para não falar das pragas do Egipto, do anjo do Apocalipse, ou de São João Baptista, esse anoréctico que se alimentava dos teus irmãos untados com um pouco de mel. E tu, frágil, mudo, airoso, sempre cumpriste o teu destino, avançando pela História fora, sem te importares com a maldição. Mas ao contrário de todos os que te amaldiçoaram, bem sabes como sempre te tratei bem desde que, na infância, te descobri. Como te entreguei a minha mão, como corremos os dois por entre os colmos de trigo, como te capturei dentro de caixas de fósforos, como te desenhei e te amei. Bem sabes como ocupaste o frontispício de um dos meus livros, e aí te elevei ao lugar de rei. Bem sabes como aí te multipliquei por biliões, e deles fiz grandes nuvens que voaram por cima das cidades de África. Tão espessas que nelas tu te fizeste verde, e tudo ficou verde, incluindo a luz dos candeeiros em torno do quais vocês rodopiaram como esmeraldas voadoras. Não tens de que te queixar. Mas eis que chegou a hora de me recompensares. Chegou o momento de me dizeres para que lado deve voar a nuvem de que faço parte. Eu queria escrever esse recado no frontispício da minha autobiografia, e só tu o sabes, querido gafanhoto do deserto, só tu me podes dizer a verdade.
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* Publicado por Lexique Nomade n.° 2
(co-edição Le Monde/Villa Gillet/éditions Christian Bourgois
 - maio de 2009

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Originais * Espelho da alma escondida

Oferta das mulheres
aos homens

Lídia Jorge *

“Também procuramos outros caminhos para a música” – Disse o maestro Cesário Costa, na tarde em que me convidou a desenhar um concerto em que as palavras ocupassem um lugar importante.

Estávamos diante da Ria de Faro, o sol batia de chapa e eu imaginava uma noite de música. Um outro caminho para a música em que ela entrasse sem cerimónia pela noite dentro como se fosse um serão para receber amigos e as vozes femininas fossem as estrelas. Daí a convocar uma sequência de árias e outros trechos líricos que a partir da grande música recobrem os sentimentos que nos dão vida, os que permanecem idênticos e os que a circunstância modela, foi um passo. Apostar na recuperação das palavras cantadas cujo sentido o uso e a popularização deixaram submerso e no entanto, quando retomadas, acrescentam à música as verdades mais profundas que a empurram, foi o ponto de partida. Criar uma sequência de música cantada, com a divulgação do texto impresso correspondente, tornou-se o objectivo e modelou o projecto. E Oferta das Mulheres aos Homens, o tema que surgira diante da Ria, a princípio como uma irreverência passageira, consolidou-se como um desafio.

A partir de então, estava delineado o caminho. Ao alinhamento dos poemas cantados, acrescentou-se os intermezzos sinfónicos que lhes servem de réplica. De Vivaldi a Bizet, e de Edvard Grieg a Puccini, foi possível reunir alguns dos momentos-luz mais intensos da música lírica ocidental, e ilustrar através deles a modulação que os sentimentos tomam em tempos históricos diferentes. Nesse sentido, imaginou-se que dois poemas de Maria Teresa Horta poderiam servir de suporte a uma composição inédita solicitada ao jovem compositor português, João Antunes. Nenhuma outra poeta portuguesa, entre nós, assumiu a expressão poética da sensualidade e da emancipação feminina, antecipando desde os anos setenta, a linguagem comum das mulheres dos nossos dias.

Na verdade, aquilo que os grandes poemas possibilitam - mesmo quando se trata de fragmentos de libretos, arrancados à totalidade das narrativas operáticas - é fazer-nos confrontar com o espelho da nossa alma escondida. Neste caso, o texto da ária usada por Vivaldi em vários contextos, Zeffiretti, che sussurrate, para além da ambiência arcádica própria do século XVIII, remete para uma relação intemporal entre Paixão e Natureza. A definição de amor como a outra prisão, em Alma opressa, filha da mesma ambiência setecentista, posta na boca de Licori, em “La Finda Ninfa”, assemelha-se a um recado escrito nos nossos dias. O mesmo se pode dizer da letra romântica que reveste a sequência mais popular de “Carmen”, a mais do que célebre habanera identificada pelo verso que a abre, L’amour est un oiseau rebelle. O seu enunciado contém um programa de indomabilidade e rebeldia que fazem desse momento de música cantada, um louvor à experiência do excessivo e do desafio aos limites da sedução em todos os tempos. Como é possível trauteá-la, durante a vida inteira, em divórcio com o sentido das palavras? E o mesmo em relação aos momentos líricos em que é cantada a fidelidade, a espera e a doação a troco de nada. A ária de "Micaëla”, bem como as árias da escrava Liù, em “Turandot”, tal como a Canção de Solveig em “Peer Gynt”, referem sentimentos que a modernidade não enuncia mas pratica, no esconderijo da individualidade pessoal. O mesmo se diga da cumplicidade entre Suzuki e Butterfly, traduzida pela fusão das palavras, de uma e de outra, durante o momento de espera pelo amante ausente. Palavras devotadas, próprias de um amor exacerbado, que a música resgata e sublima. Em sentido oposto, os dois poemas de Maria Teresa Horta, Segredo e Ponto de Honra, constituem o prolongamento daquilo que em “Turandot” são as palavras-chave da sua heroína livre e superada, “sfidasti, inflessibile e sicura” (desafiaste, inflexível e segura). Assim clama Turandot, a figura moderna de Puccini que os seus libretistas foram arrancar às antigas lendas persas, e aqui não fala, mas preside, como ideia, à criação contemporânea de João Antunes sobre as palavras de Teresa Horta. A ideia de que a oferta é inimiga da imolação.

Confio no talento das grandes intérpretes convocadas sobre o palco do Teatro das Figuras pela mão do Maestro Cesário Costa, para que este concerto, concebido como uma revisitação ao tema da letra do amor, se transforme num acto de graça. Estou certa de que a noite terá muito mais estrelas do que as visíveis e numeráveis. Não há dúvida que as palavras falam sempre duma contingência e duma circunstância, mas a música, a grande música, tende a retirar-nos da História e a levar-nos para um lugar fora do tempo, onde o Mundo, por instantes, parece ordenado.
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* Texto escrito para o folheto do concerto da Orquestra do Algarve
 "As Palavras Cantadas", 18 de janeiro de 2008

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Orignal * Ria Formosa

Calendário Marginal

Lídia Jorge

As férias são esse campo de alternância em que um pouco de ócio permite que o acaso visite a nossa vida, o mundo onírico se sobreponha ao real, e a distensão nos ofereça o encontro com a surpresa que está escondida sob a pele do Mundo. Uma vez entrei num hotel onde se lia – O tempo não precisa parar, aqui os relógios só batem horas, à meia noite em ponto… O Sul de Itália tem estas surpresas, mas até nem precisamos de ir tão longe para sabermos que tudo quanto se pede à pausa do tempo é que ele nos traga uma nova circulação ao sangue. Eu pelo menos consigo imaginar as férias em toda parte, nos sítios habituais e nos sítios longínquos, em solidão e na enxurrada de multidões, tanto quanto no meio de casas silenciosas onde se pode ouvir de madrugada o acordar de um pássaro. Tudo isso tem acontecido. Se a pausa é minha, se o meu ritmo de escuta próprio bate no meu corpo, e eu posso misturar os tempos e inverter os dias e as noites, conforme o que mais amo, então esse tempo são as minhas férias. Não tenho tido férias quando digo que estou em férias, e tenho férias verdadeiras enquanto trabalho, ao longo de todas as estações do ano. É desse calendário marginal que tenho feito surgir as personagens com as quais melhor me entretenho, e as quatro ou cinco páginas que eventualmente poderei deixar ao mundo.

Nessa marginalidade, as coisa passam-se assim – É uma tarde de calor de Agosto, as multidões deslocam-se pelas sombras deixando um rasto de objectos atrás de si. Os lugares de estacionamento estão preenchidos, os pássaros estão ausentes, e até a própria ponte de madeira que conduz ao outro lado da Ria , está repleta de gente que se encontra e desencontra sem cessar. E no entanto, de súbito, um homem vestido de branco sai da fila e encaminha-se para a relva. Não tem tacos, nem bolas, nem acompanhantes, ainda que pareça que deveria ter tudo isso. Decidido, encaminha-se para a relva , pára, olha em redor e sobre uma elevação, senta-se. As sombras das árvores atingem-no, mas não lhe alcançam o rosto, não lhe disfarçam as feições, ele está claro e visível à luz da tarde, a tarde de súbito silenciosa, sem berros, sem ruídos de automóveis, apenas o silêncio dum campo de golf onde um homem, não golfista, se senta para descansar. Só isso, e no entanto eu ouço o bater do taco na bola, o seu roçar pela relva, a entrada no buraco, as palmas das árvores ao longe. Como se entre o homem e a paisagem houvesse um Blow-Up agindo, um Antonioni escondido atrás dos arbustos, recebendo esses sinais. E eu imagino os sinais, aquela figura de um homem já idoso, desajustado na paisagem, regressado sem se saber de onde, estranhamento imóvel, estranhamente sentado onde não deveria estar, e a pouco e pouco, começo a vesti-lo com a matéria que trago comigo. Estendo-lhe a Verónica com a qual tapei o meu pão. O homem tem o rosto redondo, o talhe mediano, regressou aos campos de antigamente, vem disfarçado de turista, um turista que praticasse o golf que não pratica, um antigo emigrante que regressa no meio de Agosto, e visita, disfarçado, os primitivos lugares que ainda reconhece. Tenho a certeza. Do outro lado da multidão, lá está ele. A surpresa é tão grande que não consigo falar. Como não? - Há um ano que ando a escrever sobre ele, sem o saber. Aquele homem chama-se Walter Dias, e nas minhas páginas nunca regressará à pátria. Mas ali, no plano da realidade, o homem voltou, está na minha frente, sentado. Se for verdade o que penso, o homem retirará o boné, limpará a testa, irá levantar-se, cruzará o campo de golf como se atravessasse um granzoal, e desaparecerá no fundo azul da paisagem. E assim mesmo acontece, tal e qual. O que faz aquele homem, eu antecipo. Sou sua dona e seu escriba. Quando ele partir, vou poder sentar-me no mesmo local, pedir que me tirem uma fotografia, e escrever aquilo que atesta o que conto – Ria Formosa, 28 de Agosto de 1996. Essa história iria chamar-se O Vale da Paixão, fruto de vários encontros da noite. Assim acontece. Não me peçam, pois, que saia das minhas férias. Quero ficar dentro delas até ao fim da vida. Se me atrasar demasiado com os livros, é porque alguém me mandou regressar ao outro horário da existência, mais cedo do que devia.
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* Publicado no Jornal de Letras, 18 de agosto de 2007

sexta-feira, 27 de junho de 1997

Originais * O coração da Língua

Sistema Impuro

Lídia Jorge *

Claro que o Português é uma língua maravilhosa. A prova é que se um ladrão me roubar eu encontro as palavras necessárias para lhe gritar atrás. Posso é não apanhar o ladrão nem recuperar a mala. Mas mesmo aí, fico com todas as palavras para me queixar, toda a sintaxe para expor, toda a morfologia para descrever a pessoa em causa e o facto ocorrido. E se ninguém me ligar, encontro todas as palavras para me revoltar e para dizer as frases que substituem a batida com a porta. Também para a ira, o ódio ou apenas o humor, nas ruas, contra os automobilistas inatacáveis, consigo encontrar todas as palavras. A revolta, a diatribe, o grito de rebeldia, a ameaça da vingança, estão ao nosso alcance. E para os outros, os sentimentos bons, os decentes, como são o amor, a amizade, a saudade, a coita, a melancolia, ou mesmo o frenesi, a ansiedade, o despeito, a acédia, o desespero e o ciúme, também encontro todas as palavras que eu quiser.

Mas não só de homem para homem a língua fala. Também encontro todas as palavras para falar com as árvores e as bestas. Encontro todas para mandar aparelhar o coche, fazer o baile e o fado. Um sermão. Tenho todas as palavras para ir à igreja ouvir o sermão e a ladainha. E tenho todas para ir à igreja ouvir o sermão e a ladainha. E tenho todas para comer à beira da estrada, junto às cestas. Tenho todas as palavras para a lavoira, todas para os ventos. A quantidade de palavras sobre os barcos, a maresia, o marejar, o almareado, a tramontana, tudo o mais que vem do mar, como se ele fosse nosso, ou o tivéssemos feito com a nossa própria língua. Palavras para atravessar todos os oceanos, para percorrer todas as praias.

Para o sentimento e o passado presente donde ele brota, tenho todas as palavras necessárias. Até disponho dessa palavra intraduzível na sua unidade e síntese de corpo e afeição que é o colo. O colo intraduzível. Pôr ao colo, andar ao colo, levar ao colo, menino de colo. Não me admira que Joyce e Kafka, lá onde o sentimento melhor toca a abstracção, consigam ser traduzidos na nossa língua como para nenhuma outra. Isto é, posso andar dum lado para o outro sobre a terra, a relva, as colheitas, a floresta, a onda, o corpo humano e a sua alma com todas as palavras para dizer. As palavras do ser, do desejar e do apetecer, as questões sem tempo e fora do tempo, as questões do por dentro, estão nesta língua de forma rica e variada, ao alcance da mão e da língua. Aí, não há nada que dizer. Porém, todos sabemos - Onde ela falha e falta, onde ela não chega, é no campo das coisas contemporâneas do progresso, do bem-estar, das rodas e das máquinas, das recentes engrenagens invisíveis, que podem mais que todas as rodas e todas as máquinas, aquele campo a que, à falta de melhor, poderemos dizer, em vez da pele da Cultura, a Civilização. 2. Aí, sim. No campo da Civilização, como outras línguas, a nossa língua falha. É como se tivéssemos todas as palavras, de forma intemporal, para viver até ao Século Vinte, mas forçados dentro dele. A suspeita que se tem é de que a língua parou com o motor, o vapor e a gasolina, a ideia de que a língua não fez a revolução industrial, não a criou, não saiu dos que a criaram, ou só muito tarde foi inventada. Bastava entrar no automóvel primitivo para a língua não chegar. Não se sabia dizer châssis, nem tablier, nem manette. Não se soube dizer, durante muitos anos. Também bastava entrar num quarto de mulher para não se saber dizer toilette. A tinta para os lábios foi bâton, para as faces foi rouge, o cabelo foi à garçonne e o ondulado chamou-se mis-en-plis. Como hoje shampoing, brushing, rinsage, e lifting, apesar de massagem, manicura, ou permanente. De qualquer modo. Ninguém, há muitos anos, inventou o quer que fosse, em Portugal, no domínio da toilette, para lhe ter dado um nome que viajasse. O mesmo na cozinha. Mousse, soufllé, passe-vite ou kitchnette. Até para kitchenette, essa pequena cozinha que iria tão bem connosco, nós temos nome para chamar. Para não falar no menu, no catering que nós afinal usamos, mas não criámos. Aliás, a criança tem sua tetina posta no biberon e não há palavra portuguesa para envolver essa garrafa com leite, tão primordial. Não há, porque um biberon não é um bebedoiro nem uma mamadeira. E naturalmente que eu queria que o bébé bebesse em português.

E no divertimento, a boîte e o dancing, o discjockey e o rave. E no desporto, tennis, football, goal, outside, off-sider, tudo o mais que é um sem fim, e finalmente Mister. Ah! Como é interessante um português, pequeno e escuro, sarraceno, treinador de futebol, ser chamado de Mister! O Mister isto, o Mister aquilo... Além do escritório onde reina todo poderoso o dossier. Também pelo dossier uma pessoa não pode chamar em Língua Portuguesa. Nem à fadiga muito especial, criada no seio da sociedade do dossier, se pode chamar cansaço ou esgotamento, mas stress. Stress corresponde a um outro tipo de canseira. E quem diz stress diz manager, e management, e marketing, e ship, e fax e também shoping e trade shoping, que não são feiras, nem centros comerciais, nem tão pouco mercados, mas são isso mesmo, shopings e trade shopings, outras noções, outra existência, outros talhes de cintura, outros cabelos, outra pose na vida, boa ou má, não interessa, outra realidade, outra pretensão, outro sonho. E na verdade, eu não me oponho ao sonho nem à realidade. É por isso que me sento junto aos shopings, onde nem sempre me apetece entrar, mas não penso jamais na palavra corrupção.

Porque as línguas são sistemas abertos, e as palavras e as frases, e os sons que vêm dentro delas viajam quando têm combustível para viajar, e implantam-se lá onde encontram um lugar carente duma nova realidade. Vêm com os objectos e as invenções, e ficam se os aceitam. A luta pode chamar-se colonização, e nem sequer é subtil. Gira como o mundo, para além das línguas, presidindo às mortes e às vidas. Em nada como no devir das línguas o anonimato é tão intenso, apesar de ter sujeito. Ninguém é responsável por que na faixa direita das ruas alguém tenha mandado escrever BUS por economia de espaço. Ou TAP-AIR-PORTUGAL, para que até os cegos vejam que a Transportadora é aérea e é de Portugal. Talvez de outro modo, mais sagaz e mais nacionalista se entendesse pior. Talvez até já nem houvesse transportadora aérea portuguesa. O que sei eu? A vida anda e move-se por vontades indomáveis de que nós mesmos somos autores secundários e derradeiros. E jungle, e handicap, e overdose, e stand by, e black out... Ainda há uns anos eu ironizava os parties num livro que escrevi onde se falava de perdas da memória colectiva com uma espécie de ironia. Mas recentemente Agustina Bessa-Luís escreveu um diálogo, sobre o qual Manoel de Oliveira fez um filme, um e outro chamados "Party", ambos de cinco estrelas, e ninguém falou, nem poderia falar, sobre qualquer perda de identidade. Não há tal para perder. Porque o Party, o velho Garden Party à inglesa, entretanto, entrou na nossa vida, e ninguém deu por isso, nem é para lamentar. O Garden Party afinal fazia falta na nossa vida nova, entretanto nova burguesa disfarçado de outra cara, e nós não sabíamos. Como antes os proletários não conheciam a grève, nem o meeting, nem os políticos recentes o gentleman's agreement e a task-force. Então, meu Deus, façamos as pazes com o inelutável, na certeza de que nenhum decreto pode vedar a entrada do sonho e da viagem. E o sonho, ou a facilidade, para quem os usa, está aí.

Por mim, aqui vou vivendo bem com a nossa língua de raiz rural e marítima. Passo pelas ruas e as palavras nascem das coisas com cheiro a maresia, a salmoura e a laranjas. Ainda não inverti a realidade, ainda acho que o champô cheira a amoras, ainda não digo como os meus filhos que o laranjal cheira a champô. Mas não me incomoda o trato com o que chega, embora não me fique indiferente ao que não exporto. De qualquer modo, também coche, o que eu sabia aparelhar, era francês, depois de ter sido checo e húngaro. E charrette, e cachecol e cache-nez. O chá era dos chineses, dialecto mandarino, e o café era árabe, turco, e depois foi italiano. E o lunch que veio de Inglaterra e ficou lanche, servido sob o bule que foi malaio. Palavras que hoje são de todos, porque os objectos são de todos os que os usam, e os seus nomes importados, só por si, não atingem o coração das línguas. O coração de cada língua é que é inatacável. O nó górdio da sintaxe, o nó dos verbos que multiplicam a acção pelos pronomes, os pronomes que definem os sujeitos e os destinatários, activos, passivos, e reactivos. As preposições, as formas de as pôr ou não pôr antes e depois, o modo de juntar as palavras de forma a criar outras, o modo de as sobrepor e despedaçar, esse sistema estruturante das línguas, que faz o idioma e o espírito, mostrável pela Gramática, não regido, isso é que constitui o órgão propulsor da Língua. O coração da língua, o sistema duro, a sua parte mais estável, aquela sobre a qual se pode descansar.

Porque a língua, ela, toda inteira, nunca parou nem pára, é um sistema em permanente corrupção. A língua não precisa de sal. Apodrece com perfume. O aroma da Língua solta-se ao ser arejada, batida, entrada, removida, um sistema aberto, uma realidade mutável consoante as várias outras realidades que a empurram e a definem, e já o disse, os usos são indomáveis. Fiz parte daqueles que queriam implantar em vez de implementar, dos que quiseram espectáculo em vez de show. Em vão. A língua engrossa contra a vontade de cada um. E nós, aqueles que designam por escritores, banais como os banais falantes, vamos pelas partes moles da língua, andamos pelas suas margens corrriqueiras e flácidas, metemo-nos pelos restos, pelas bordas, aproveitamos o que sobeja, o que de repente foge para diante, avessos aos sistemas de conservação, seguros de que o coração da língua enfraquece e esquece, se as franjas da semântica não se renovam. E toda a vivificação é uma novidade, e toda a novidade, no início, uma corrupção. Também já o disse. O que ainda não disse é que, por vezes, assalta-me a absurda ambição de poder falar todas as línguas. Poder entrar na alma delas para perceber onde está a totalidade que as precede, ou se não as precede, pelo menos, a todas elas preside. A ambição de ficar na posse da natureza da fala. Na fantasia de poder tocar todas as línguas sobre o vasto piano delas. Mas depois de obter essa impossível ciência, tudo o que soubesse e aprendesse, seria para falar e escrever em língua portuguesa.
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* Original de 27 de junho de 1997,
publicado no site Ciberdúvidas

segunda-feira, 1 de março de 1993

Original * Motas, sentido de liberdade

Cavalo de fogo

Lídia Jorge

Se o automóvel é o primogénito do coche antigo, assente em várias rodas e puxado por muitos cavalos, não há dúvida de que a mota é o cavalo ele mesmo.

Na verdade muitos dirão que lhe falta a crina, o relincho e o suor de animal de carne e sangue. Também a vontade própria que lhe permitia os coices, e a dependência de um alimento compacto que fazia da besta um vizinho do seu dono. Mas, em contrapartida, as duas rodas transformaram-no em alguma coisa que consegue outras distâncias, e permitiram realizar a infatigabilidade que no bicho era impensável supor. Em tudo o mais se assemelham e cumprem a mesma função.

Em cima da mota a pessoa é independente, e o selim, feito para um só, permite quando muito o aconchego de um outro que faz companhia e se leva ao longe. Abraçado pelas pernas ao animal de aço, também o corpo se expõe ao vento e à tracção do ar, e realiza assim o que o risco sempre significou para o homem quando jovem. A exigência da força física, da agilidade, da versatilidade da cintura, a coordenação dos movimentos, tornam-no um objecto próprio para heróis. A exiguidade da dimensão permite que ultrapasse rápido, se esgueire por entre pequenas nesgas de trânsito e deixe para trás aqueles que obrigatoriamente se imobilizam junto ao chão, castigados pela comodidade das quatro rodas. Há na desenvoltura dos motociclistas um atrevimento que faz sonhar. Assim, sobre a mota o homem coloca o ardor de ser audaz e encontra a possibilidade de ser temerário, já que as sociedades modernas lhe diminuíram as oportunidades de ser valente com o seu corpo. Por isso mesmo os franceses lhe chamam siège de feu, apenas porque não se lembraram de lhe chamar de cavalinho de oiro. O jovem afaga o seu transporte, olha com desdém para o portal da casa, imagina a via livre onde poderá acocorar-se em novelo como se disparado, e as curvas em que poderá raspar as bermas como se caísse. Por vezes, em sítio próprio, a mota poderá saltar como se voasse. Todos os que lhe impedem essa trajectória de estrondo e risco são malquistos. Mas a chamada para esse denodo é alguma coisa mais forte do que o querer individual de cada um. Aliás, agora pelas estradas, os moços, em motas, andam grupos como nómadas. Fazem excursões e ocupam os espaços como bandos. São pequenos exércitos naturais à procura da sua cavalaria e da sua contenda. Eu gosto de os ver passar. Eles cumprem um destino da vida que os leva a fugir, com ruído e ferocidade, dos panos quentes, das mesas e das camas. A fugir do leite e das horas certas de dormir. Sem saberem, eles simulam a migração que seus antepassados fizeram na sua idade, ao cruzar os continentes sem saber onde iriam parar. Foi assim que a Terra se povoou. Nas suas cabeças passa um destino que se desconhece. Eles mesmos julgam que se rebelam e, contudo, obedecem a uma força da Natureza que os vai chamando. Por isso, quando passam produzindo o som inconfundível, entre ameaçador e gritante, tiro-lhes o meu chapéu, abrando o carro, deixo-os passar.

Mas nem todos abrandam diante dos cavalinhos de oiro. Há mesmo os que aceleram, ou apertam, ou perseguem, ou driblam ou que são simplesmente indiferentes. Traçam tangentes como se os não vissem. Depois, há os camiões grandes, os -que pesam várias toneladas e cujo motorista vai tão alto, sentado no seu trono, que mal dá pelas motas a passar. Se são dois camiões altos e pesam muito, e levam as grandes rodas postas, e grandes cargas montadas, a estrada fica cheia de peso. Os rapazes das motas têm tanta pressa. Como vão esperar pelas manobras lentas dos grandes camiões das estradas, e pelas tangentes dos carros, protegidos por chapas e por estofos?

A proteger o corpo dos ocupantes das motas, vai só um pedaço de fazenda ou quanto muito, um blusão de cabedal. E a sua pressa é tão grande, e a noção de que os seus corpos são inatingíveis é tão altiva. E a confiança no piso, na máquina e na ausência de obstáculo é tão forte. O coração motorizado da máquina, batendo sob o coração do jovem, é um todo invencível que passa sem qualquer peso de montada, Sem qualquer necessidade de vénia ou de descanso.

Por isso abrando a marcha do meu carro e espero que passem todos. Para não lhes inibir a rota, nem lhes impedir o pensamento fixo. Não me quero juntar aos obstáculos que as mães foram pondo, até que as vontades dos seus filhos fossem mais fortes, Eu respeito essas pequenas montadas conduzidas por pessoas que desejam coisas, com uma vontade muito maior do que elas mesmas têm. Eu já fiz tudo para contrariar essa vontade. Agora, porém, eu compreendo o trajecto que medeia entre a proibição e a mota.

Ao fundo da escada, o meu filho tem uma.
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* Publicado na Revista "Tempo Livre", março 1993