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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Conto * Abria a janela e em frente só havia prédios

Filme com pássaros

Lídia Jorge *

Num lindo filme americano, Ben tinha visto um rapaz da sua idade abrir a janela, chamar pelos pássaros, e de imediato eles logo vinham ter à sua mão. Então o rapaz oferecia-lhes grãos de arroz e eles agradeciam-lhe voando para cima do seu ombro. Mas consigo não era bem assim. Ben morava na Avenida dos Estados Unidos da América, abria a janela do seu quarto e em frente só havia prédios altos e o vento sempre a soprar. Uma verdadeira muralha de prédios. Ainda por cima, a mãe, numa manhã de Inverno, disse – “Surpresa!” Ele foi à janela, olhou, olhou, pensando no rapaz americano, mas a perder de vista não havia pássaro nenhum. A mãe referia-se a coisa bem diferente, referia-se a cinco tílias adultas que vinham em cima de uns camiões gigantes para serem replantadas na relva.

Que desilusão! Para que queria ele saber das tílias?

Elas não voavam nem vinham ter com ele. Provinham de um jardim distante e a suas longas raízes iriam ser colocadas dentro de uns buracos largos e fundos, do feitio de crateras, e nada mais. Ainda por cima traziam os ramos nus, pretos e sinistros como se tivessem sido queimados. Mau gosto, o da sua mãe. Decididamente, aquelas árvores não faziam parte do seu mundo. Virou-lhes costas, decidido. Nem mais iria olhar para elas. E assim, sem que ele desse por isso, as tílias enraizaram-se no novo território, as pontas dos ramos cobriram-se de milhares de folhas verdes, na Avenida havia agora cinco copas frondosas, e ele, zangado, continuava a não dar por nada. Não dava por que a rua estava diferente.

Mas um dia, já a Primavera ia muito avançada, Ben acordou de manhã cedo e ouviu um ruído novo. Que ruído era aquele? Quem estaria a chilrear por ali? Surpreendido, correu para a janela, abriu-a e deparou com um bando de pássaros a voar entre as copas das tílias. Lá em baixo, sobre o pavimento, deslizavam os carros, cá em cima, mesmo rente ao sexto andar, gorjeavam os pássaros nos ramos das árvores. Estavam escondidos nas folhas verdes que antes não existiam. Foi, então, a vez de ele gritar para a mãe – “Surpresa! Mãe, vem ver…” Debruçado da janela, Ben não cabia em si de envergonhado e contente. Afinal aquele bando de pássaros, seguindo as árvores, tinha vindo morar com ele. Rápido, era preciso preparar a taça do arroz. Aí vinham eles. Voavam, rodopiavam, bicavam, partiam. E a realidade tornou-se muito mais linda do que no filme americano.
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* publicado no Semanário Sol, 20 de maio de 2010

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Conto * As quatro caçarolas com os mesmos animais guisados

Coelho à caçadora

Lídia Jorge *

Um belo conto não é aquele que termina bem, nem aquele que termina mal, nem tão pouco aquele outro cuja sedução resulta da arte do encadeamento ou da perícia da própria escrita. Um belo conto é aquele que vem da vida, fica suspenso dela e a ela regressa de mistura com o seu enigma. Um belo conto é a fatia dum acto que nos resiste. Possivelmente este não será um belo conto. E no entanto, tal como mo foi oferecido, tudo teria para isso.

A prova é que o mês a que me refiro não corria demasiado quente, nem a luz se oferecia demasiado crua. Pelo contrário, a tarde de Junho durante a qual a cena se passa prometia fazer transitar o dia para a noite sem declínio nem crepúsculo, e nesse trâmite, todos os sentidos ficariam à flor da pele. Também os espaços vivem duma espécie de promessa de perenidade que certos lugares de privilégio oferecem a quem se lhes entrega, e este era um pátio interior para onde se entrava transpondo um portal antigo sobre o qual se poderia ler, cravado em madeira de carvalho, Taverna das Donas. Mas os carros de alta cilindrada, que continuamente chegavam e partiam, esses ficavam lá fora, e se pensarmos na potência dos seus motores, poderemos dizer, por respeito à unidade de arranque e tracção, que na sombra exterior daquelas paredes brancas, à hora das refeições, vinha repousar a força unida de uns bons milhares de cavalos. E no que respeita a gente?

Nesse domínio, o das personagens, as coisas são como são. À primeira vista, dir-se-ia um fim de dia banal. O restaurante fica ao abrigo do principal cruzamento das estradas, mas uns ingleses com braços tatuados de peixes e dragões bebiam latas de cerveja rente à parreira. Uns italianos de narizes em forma de faca discutiam ruidosamente, no canto oposto do pátio. Naquele momento, os portugueses presentes ainda permaneciam perto da entrada, cumprimentando-se com abraços e socos, e seriam não mais de doze, mas a mesa em forma de T que os espera, tem capacidade para vinte e muitas pessoas, pelo que se deduz que ainda não tenham chegado todos. São um grupo de homens, aficionados em pitéus de coelho e rola, apesar de não se tratar de caçadores. Os seus pais ou avós talvez o tenham sido, por certo os seus bisavós. Seus dignos herdeiros. E no entanto, pelo aspecto – trinta, quarenta anos bem tratados, bem vestidos – percebe-se que do hábito da caçada apenas lhes tenha ficado o gosto pelo último gesto, a acção de comê-la. É para essa actividade que se preparam aqueles homens ali reunidos. Três mulheres portuguesas, bem dispostas, correndo dentro e fora, entregam-se ao afã dessa restauração de fim de dia. Tomara que os estrangeiros partam para que as três sócias se possam concentrar exclusivamente sobre o serviço da grande mesa. Tomara que se vão. Sobre as toalhas brilham azeitonas galegas em pires de barro, pequenos queijos curados balizam os talheres e os pratos. Dentro e fora, ainda faltam alguns copos e alguns guardanapos. As três mulheres portuguesas gostariam que nada faltasse naquela refeição de caça. Os clientes conhecem esse desvelo e reclamam em voz alta. Um deles levanta-se, no topo da mesa.

“E para beber, não há nada?”

É então que aparece, no vão da porta, uma quarta mulher, uma rapariga acabada de sair do compartimento que serve de bar, e pára para rir, antes de se encaminhar para o meio do pátio. Avança. Traz os cabelos loiros espalhados pelos ombros, as pernas estão nuas, a saia de cotim tem a altura de um palmo, a blusa de alças está coberta de brilhos, as mãos e os tornozelos estão enfeitados de pulseiras, a cintura está marcada por um cinto apertado como as actrizes dos anos cinquenta. Os olhos são azuis pálidos, as pequenas pupilas pretas quase desaparecem no meio desse azul de lago. Entalada na orelha direita está uma esferográfica vermelha. Sem parar de rir, a rapariga encaminha-se na direcção da mesa, começando a falar muito alto -“O que é isso? Tens sede? Então diz lá o que queres beber”.

E com o bloco na mão e a esferográfica entre os dedos, põe-se a enumerar a sua oferta - “Tu tens vinho, tens cerveja branca, tens preta, tens Sumol, tens Frutini, tens vinho branco da casa e tens de marca, tens tinto... O que é que tu queres beber?” Todos riem.

A rapariga usa o singular como se fosse um plural majestático, ao mesmo tempo anónimo e colectivo, percebe-se que a rapariga não conhece a confusa gramática dos tratamentos portugueses, e por isso não avalia até que ponto a sua linguagem é pitoresca, a rapariga continua a perguntar – “Queres grande ou pequeno? Natural ou gelado?” E embora um e outro cliente deseje explicar as preferências muito perto dos seus cabelos, se possível mesmo rente ao seu ouvido, ela mantém-se à distância, a rir – “E tu só queres água? Oh pá! Tens medo de ficar bêbado? E tu, e tu?” Todos compreendem, a rapariga chegou há um ano da Ucrânia, ainda não pode falar bem o português. No entanto já tomou nota, já deu de costas, já entrou no interior do bar, e já voltou trazendo consigo as primeiras bebidas, as segundas e as terceiras, colocando as garrafas frescas contra a blusa onde se pega a humidade dos vidros, pequenas manchas escuras no tecido de brilhos. Nessa entrega, porém, a rapariga é obrigada a aproximar-se de cada cliente, obrigada a estender o braço despido, coberto de penugem loira. Nessa aproximação aos clientes, ela está tensa.

“Encosta a tua cabeça para lá. Não vês o meu braço a querer passar por cima de ti?”

Mas é difícil fazer-se escutar. A excitação instalou-se no pátio, os clientes são homens na flor da idade, falam alto e pedem mais líquidos, mais pratos, mais queijos, mais, mais, e os nomes das três sócias há muito desapareceram da cena para só se escutar o seu nome – “ Olga, ó Olga! Mais pão, mais vinho, mais gelo! Aqui falta um copo, Olga! ” E um deles grita, na ponta da mesa – “Preciso de ir a Kiev! Mulheres destas já não existem na Europa do lado de cá ...”

Agora a ucraniana está à distância resguardada de três passadas, está a vigiar as bebidas da mesa, e continua a rir. Entretanto virou o cabelo todo para um lado, virou-o só com uma das mãos, e uma pulseira de pérolas pintadas ficou exposta em frente da testa, a coroar-lhe a face. Também cruzou as pernas à altura dos joelhos como as crianças fazem, e também encostou o rosto sobre um dos ombros, tal como elas, e ficou à espera. Não esperou muito. Um dos homens mais barulhentos do grupo grita na sua direcção – “Olga, você tem de repetir aquilo da semana passada. Você tem de explicar outra vez como se faz aquele cozinhado. Explique lá para a gente...”

“Ai minha mãe! Outra vez?” - Reage a rapariga, zangada. “Olha, vai pedir à cozinheira que está lá dentro a cozinhar, ela é que sabe...”

Mas uma das três sócias, dentro e fora, quer ordem na casa- “Explica tu. A cozinheira não tem vagar de vir cá fora explicar...”

“Ai minha mãe!” – diz Olga de novo, afastando-se da mesa e elevando os olhos para além dos homens, sem os enxergar. Renitente - “Porque queres tu que eu explique uma coisa que é para comer? Para quê?”

“Explica!”

A rapariga uniu as mãos como se fosse recitar.

“Então é assim...”

E entre desolada e divertida, começou a explicar o cozido, os olhos azuis para além do telhado. Começou por dizer, entre avanços e recuos, que para aquela comida não era preciso caçar o coelho, que já vinha do talho todo esfolado, sendo só preciso parti-lo em pedacinhos para dentro dum alguidar... Alguidar, diria bem? Diria. Tudo o que ela estava a dizer dizia-o muito bem. Gritaram vários. Aí a rapariga ganhou um novo impulso. Contou – “Lá dentro, muitos coelhos, todos esfolados, partidos aos bocados...” Meio a rir, meio concentrada - “Depois, tu pegas nos sete temperos... Pões a cebola, os alhos, o vinho, o sal, a salsa, a pimenta, o cravinho e o louro. Depois tu deixas o coelho ficar a dormir com os temperos durante muito tempo. Depois tu escorres, tu fritas os pedaços do coelho molhados em farinha, tu pões tomate, e por cima ainda o molho que ficou do dormido... Aí tu pões tudo a cozer durante duas horas, tu pões as batatas lá dentro, tu esperas, tu serves com pão frito aos quadrados, tu emborcas tudo para dentro das caçarolas de barro, a cozinheira vai-se lavar, e a gente traz para tu comeres e beberes com o vinho...”

Olga está feliz consigo mesma, foi capaz, terminou.

Mas os homens pedem mais - “Outra vez, outra vez...”

“Para quê, outra vez?”

Outra vez, porque está provado que ela conhece os nomes de todos os condimentos, lembra-se de todos os detalhes, mas ainda hesita, ainda revira os olhos para se lembrar, e dessa hesitação e embaraço, destila-se uma bebida que não tem nome mas que embriaga os clientes, que querem mais narrativas daquelas, mais e mais. Por eles, os homens sentados à mesa, provenientes de escritórios sombrios e horificados, deveres imateriais que se processam longe das ervas e das árvores entre as quais caçaram os seus antigos pais, ficariam ali a escutar a ucraniana a procurar as palavras certas, até ao fim dos dias. Aliás, ela vira-se, o cabelo loiro ainda tombado todo para um lado, todo sobre um ombro, como se tivesse acabado de o lavar e o penteasse com os dedos, ela vira-se para anunciar – “Olha, já lá vem ele! Já podes comer o teu coelho à caçador...” E ela mesma, afastando os homens com o olhar azul e o braço, ajuda a centrar as caçarolas, elogia o cheiro que provém de dentro das quatro vasilhas de barro, onde navegam em molho e batatas, doze coelhos bravos refogados aos bocados. Um dos clientes não resiste ao cheiro do ensopado.

“Diga lá, Olga. Há destes cozinhados em Kiev? Não há, pois não?”

A rapariga revira os olhos claros, como se ofendida - “Ai minha mãe! O que julgas tu que não há em Kiev? Em Kiev há tudo como cá. Até há mais, porque há neve ...”

Mas nesse instante preciso, Olga suspende a conversa. Aproxima-se do topo da mesa e aí fica, com as mãos na cintura, o nariz no ar, até que diz muito alto, cheia de espanto.

“Olhem quem ali está... Aquele maluco, em cima do telhado!”

“Quem? Quem?”

Todas as cabeças se viram.

“Aquele maluco.”

É um facto, sobre o telhado da Taverna das Donas , encontra-se um homem empoleirado a olhar para o interior do pátio. Não, não está apenas a espreitar por um canto do telhado do restaurante, o homem está mesmo instalado ao centro do vão das telhas cujo beiral se eleva diante da mesa em T, está ali a uns escassos metros de distância da mesa, comodamente sentado, e ninguém o viu subir nem caminhar sobre a cobertura, nem tomar aquele lugar. Ali está, numa roupa azul, a cara vermelha, magra, ossuda, imóvel, a olhar. Olga diante da mesa também imóvel. Abandonou o bloco e a esferográfica, as duas mãos postas na cintura de vespa, com indignação.

“Maluco, grande maluco, o que se passa na tua cabeça? Desce já daí para baixo!”

Surpreendida, humilhada – “Como foste tu aí parar? És agora um pássaro, Vassili?”

A mesa inteira está suspensa da súbita cena.

Num ápice já todos compreendem, ele é o marido dela. Mas devem os clientes manter-se sentados, quietos, para ver o que sucede, ou devem levantar-se e reagir de imediato? Que abuso é aquele de se fazer convidado entrando pelo telhado? E com que intenção, e para quê? Claro que uma vintena de homens não pode reagir de forma homogénea, há mesmo aqueles que são da opinião de que se deve intimar o intruso a descer dali, imediatamente, nem que seja à paulada. Outros há ainda que permanecem sentados, a rir, surpreendidos pela ousadia do tipo, pelo seu desplante, pela sua falta de vergonha, e acham que o jantar deve continuar até o tipo desistir. Da forma como se encontra empoleirado, não corre o risco de rebolar e cair no prato – “Por onde o gajo subiu que desça, e lhe faça bom proveito...” Mas a verdade é que ninguém consegue desviar a vista da pessoa que ali está parada diante de todos. As mulheres também se encontram no pátio, a olhar para aquela figura que parece ter descido da aragem da tarde para se enroscar nas telhas. Até a cozinheira se encontra no pátio a admirar o estranho acontecimento. Alguém sugere que Olga faça alguma coisa, afinal ela é quem o conhece bem, afinal ele só pode ter vindo encarrapitar-se ali por qualquer assunto relacionado com ela.

Olga compreende e avança na direcção do telhado.

“Vassili, grande estúpido! Desce daí, Vassili!” – E encoraja-se mais, com o ruído de fundo – “Olha, se queres saber, por mim, estares aí é o mesmo que não estares. Já não gosto de ti. Eras o meu marido, já não és. Estás livre. Agora, o que queres tu de mim ? Não vês que estás a estragar a comida de todo este pessoal?”

Mas o ucraniano continua onde está, escarranchado nas telhas, de joelhos afastados, as longas mãos pendentes sobre eles, e só agora se repara que o homem alberga no colo um volume invulgar. Olga sabe, é o anorak de Inverno que o estúpido trouxe para cima daquele telhado. E porque transporta ele um agasalho de Inverno, numa noite de Verão? Porquê? Todos acham que Olga deve perguntar a razão, talvez assim se entenda alguma coisa daquele momento tão único. Então a rapariga, ao mesmo tempo intimidada e compelida pela compreensão de todos, avança na direcção do beiral, de forma a ficar o mais próximo possível do trepador.

“Diz-me, Vassili. Porque trouxeste contigo o teu anorak?”

Olga vai mais longe – “O que tens dentro do teu anorak, Vassili?”

E uma outra ideia, tangencial, passa–lhe pela cabeça - “Ah! Já sei, aposto que tens aí escondida uma garrafa de uísque. Aposto que já estás com os copos, e foi por isso que subiste aí para cima... Foi ou não foi, Vassili?”.

Mas o ex-marido, em vez de responder, põe-se a desembrulhar o anorak, e alguma coisa muito diferente dum gargalo de garrafa começa a surgir no seu colo, até que não é propriamente um gargalo de vidro o tubo que sobressai no meio do agasalho. Também é liso mas de uma outra textura, também luz mas com uma outra intensidade. Tem uma outra dimensão, uma outra forma, muito diferente da forma duma garrafa. Não é preciso falar, cada um dos presentes transformou-se num alvo.

“Vassili?” – diz ela, sentindo que de súbito, atrás de si, uns fogem, outros se deitam no chão. Alguém telefona. Ouve-se a mesa andar.

A rapariga, cada vez mais indignada.

“Vassili! O que é isso que tens aí contigo?”

E recua exactamente até ao meio do pátio.

Vendo bem, está no sítio exacto, pois também se encontra a meio do percurso entre a mesa em T e aquela coisa encoberta pelo anorak. Tem as mãos unidas sobre a blusa de brilhos, o cinto a rebentar nas ilhós, as pernas nuas, a saia do tamanho dum palmo, as pulseiras de pérolas pintadas, os cabelos espalhados pelos ombros, a esferográfica e o bloco por terra, e é agora que todas as coisas podem acontecer, até porque à sua volta não está ninguém. Não se ouve um som, discreto que seja. Nada de nada. Espera-se apenas por um ruído que trespasse a noite, um estampido que separe a luminosidade da noite em duas metades, para se poder dizer aqui alguma coisa ultrapassou o seu limite. Mas não vai ser assim. A rapariga atravessou várias fronteiras, a rapariga sabe o que muitos não sabem. Ela sabe, por exemplo, que só há destino quando parte da ordem imutável se pode subverter, e o resto é caça. Então o que pode ela mudar naquele momento? Como pode intervir? Como pode fazer deslocar o centro do alvo para outro lugar? - Em cima do telhado, o homem mantém a coisa perigosa meio à mostra, meio encoberta. Talvez essa inexactidão tenha feito decidir a rapariga estrangeira. Pois verdadeiramente, em duas fracções de segundo, nada mudou, mas ela diz.

“Oh! Vassili! Porque tens essa porcaria aí, dentro do teu anorak?”

O cano da porcaria apontado na sua direcção, o meio do pátio.

“Vassili?”

O cano apontado.

“Grande maluco! Se em vez dessa porcaria tivesses trazido o teu Scripka, tudo seria diferente. Agora, tu estavas aí, pegavas no teu velho Scripka e punhas-te a tocar, e eu fazia assim, como lá em Kiev. Assim e assim...” E a rapariga rodopiou no meio do pátio, fazendo a cabeça oscilar de lado a lado. O cano em frente. “Vassili?” – disse ela quando se virou, com os braços no ar. O cano em frente. O olho dele, fechado, em frente. Ela então fala em ucraniano. Rodopia de novo. O trepador continua sem se mexer, agarrado ao casacão branco, de onde desembrulhou a coisa incómoda que aponta. Ele baixa o cano da coisa incómoda, ela continua a abanar-se e a dizer-lhe frases curtas, que terminam invariavelmente em Scripka.

“Scripka?”

“Sim, grande maluco...” – diz ela, em português. “Mas agora tens de descer, já não posso esperar mais. Desce daí, Vassili, o que eu prometi está prometido, vai, vai...”

No pátio da Taverna das Donas, está ela, a mesma rapariga, estão os mesmos olhos, a mesma penugem, os mesmos cabelos revoltos, a mesma cintura apertada, as mesmas pernas brancas, as mesmas ancas duras, cobertas por uma saia de palmo. A mesma mesa com os mesmos pratos, as quatro caçarolas com os mesmos animais guisados, as mesmas bebidas, algumas delas a meio, a maior parte delas intactas. A mesma parreira verde que na tarde albergou os ingleses. As mesmas empenas baixas, os mesmos quatro panos de telha a formar o quadrângulo. O mesmo pão partido aos bocados. Mas não será certamente por essa imobilização no tempo e no espaço, que ele embrulha a coisa perigosa definitivamente no agasalho almofadado. Seja por que razão for, como um enorme gatarrão, em suas sapatorras de ténis, o ex-marido gatinha por fim ao longo das telhas, em direcção ao algeroz por onde subiu, e depois em direcção ao chão por onde vai galgar a estrada. Leva consigo o objecto e o anorak. E ouve-se na sua pesada aproximação ao solo, o corpo a fazer – “Paf!” Claro que a rapariga ainda não sabe se vai cumprir o prometido, nem sabe tão pouco se ele deseja que ela vá cumpri-lo. O próprio desejo tem várias moradas, nem sempre contíguas. Tudo o que ela sabe é só o que lhe parece, e naquele instante parece-lhe apenas que o restaurante onde trabalha há um ano, em escassos minutos, ficou deserto.

Mas isso não a surpreende, nem faz de si um alvo fácil, que ela não deixa. Está habituada ao silêncio da neve. Na sua confusão entre vocativos, singulares e plurais, ela abandona a mesa sobre a qual se encontram pedaços de doze coelhos abatidos e cozinhados, alguns deles espalhados pelos pratos, para chamar de porta em porta, a desafiar os escondidos. Cómico que todos tenham desaparecido.

“Então onde tu estás, tu, e tu?” – pergunta ela, a rir. E noutra direcção - “Aparece, pá, que eu ainda estou viva!”

É assim mesmo que a vamos deixar, retomando o seu trabalho, entre a mesa e a cozinha, à espera que as três sócias e os clientes saiam do escuro onde se disfarçam. Pelos seus cálculos, ninguém terá tido tempo de tomar o carro nem de fugir para longe. Estão todos por ali, alapardados no escuro dos móveis e das portas. Sim, foi só um breve intervalo, nada se perdeu, nada se ganhou, será só uma questão de esperarmos que a vida se recomponha, como a espingarda se carrega e descarrega entre as mãos, como a caça no mato a cada estação se multiplica. Ela sabe que o intervalo que está a viver é insustentável. E nós também. Deixemo-la a rir, no meio do pátio, à espera que eles regressem, e cada um retome o seu sítio, entre uma faca e um garfo.

Como desde o início se previu.
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Original escrito em agosto de 2008

segunda-feira, 20 de agosto de 2001

Conto * Cálice de Porto

Cálice de Porto

Lídia Jorge *

A fachada era sóbria, as cantarias direitas. Adivinhava-se ali o labor do século dezoito, seus homens de calções brancos e rendas ao pescoço, manuseando o compasso e a régua, a vista rectilínea triunfando sobre o desleixo da natureza mater. Parando o passo, na atmosfera ainda se ouvia o rodado do carro de bois transportando a pedra e o cepo, e mais acima, em sentido contrário, o trote rápido dos cavalos do senhor saracoteando as caudas. À primeira vista, a frente da moradia, entalada entre outras como ela, perfilando-se sobre uma rua curva e estreita, parecia remeter quem chegava para dentro de quadrângulos de apertados espaços. O que era uma ilusão. Pois nas traseiras - porque aí já se tinha entrado, depositado o casaco, e seguido por um corredor ladeado por grandes armários de carvalho - dava-se para um amplo terreno com uma álea de glicínias, um renque de tílias e duas faias espampanantes de vergônteas vermelhas.

Para dizer tudo, era Primavera, fim de dia, e a porta do amplo jardim virado a nascente fora aberta para que se pudesse passear livremente entre buchos, com um copo na mão, tamborilando o gelo. Uma rapariga posta no exterior da porta, como uma cariátide serena, segurava a bandeja. Apesar de tudo, havia quem preferisse ficar no interior, para não se perder o efeito do conjunto. Na verdade as janelas de baía entravam por essa maravilha como se estivéssemos num barco que navegasse em terra, com a proa apontada ao rio. E o rio quase branco, quase de ouro, escorregando como um espelho na direcção do Poente. Abençoados os que ali viviam. A alegria e a serenidade do mundo para os que ali viviam. Felizes também os que ali se encontravam para desfrutar dum fim de tarde como aquele, onde se sentia que por instantes, pelo menos por instantes, a harmonia do mundo poderia ser realidade. Convidados, deveríamos ser uns trinta. Eu não conhecia nenhum dos presentes. Um poeta, recentemente laureado, veio ter comigo. Era um grande bem.

Com um poeta deve-se exactamente começar por aí, por elogiar o espaço. Qualquer poeta sabe que se deve começar pelo espaço, e aquele não era um poeta qualquer. Eu tinha também de elogiar a compostura digna dos convidados, a alegria franca das suas gargalhadas altas, os seus trajes rigorosos, os homens sólidos, as mulheres quase belas, uma ou outra bela mesmo, os cabelos bem postos, bem pintados, as roupas caras. Um sentimento de sociedade como havia muito não experimentava. A crença de que por momentos, pelo menos por momentos, o mundo se estabiliza e a pessoa pode encostar a cabeça no sofá de orelhas e descansar do afã da mudança do mundo, do seu sobressalto eternamente revolucionário. Era isso, eu estava sentada agora a um canto da janela de baía, e à medida que os visitantes do jardim iam regressando do bucho e das faias, o poeta laureado, em pé, com seu copo na mão, ia dizendo – “Pois aqueles são os Figueiroas, aqueles são os Linds, aqueles os Castros... Ali vem a Zili. Ao menos foi apresentada à Zili, assim o espero ...”

Sim, já tinha sido, mas agora ali estava ela de novo, de estatura mediana, loira, cabelo frisado, quase bela, ou mesmo bela, quando séria, menos bela quando falada, não importava, ali estava a dona da casa – “Tudo bem convosco?” – perguntou ela. Sim, tudo bem connosco, o poeta laureado e eu. A porta que dava para o jardim fechava-se, a criada cariátide entrava e a porta da sala de jantar abria-se. Havia cinco mesas. O poeta laureado disse-me – “Vai ver. Tenho a certeza de que nos vão colocar na mesa lírio...” Assim era. Como por vezes, nas recepções oficiais, cada mesa tinha ao centro um pequeno arranjo de flores. Rosas, margaridas, amores-perfeitos, calêndulas, lírios. Cinco flores, cinco mesas. Quatro, uma a cada canto, a maior ao centro. Dirigimo-nos para os lírios. Também ali o século dezoito tinha dado lugar ao século dezanove, grandes obras de beneficiação, com certeza, cem anos atrás. As paredes eram altas e menos espessas, do tecto pendia um lustre de vidros de Morano, e acima dos lintéis, molduras douradas onde repousavam gravuras sobre a foz do Douro e a baía de Nápoles. Um Vesúvio fumegava sobre assinatura inglesa. Sobre a toalha branca onde havia tanta renda quanto linho, talheres e talheres em volta dos pratos reluzentes – três grandes facas, três grandes garfos, duas colheres, uma grande e a outra, a de sobremesa, só um pouco menos grande, cinco copos, cinco frisos, e cada guardanapo do tamanho duma toalha, também em linho e renda com monograma bordado. A cada ponta um grande Z. Sentámo-nos lado a lado. Elogiei o requinte. Todo o poeta sensível ao espaço, o espaço tangível como concha da alma. E ele ouviu o elogio, e pediu que eu olhasse para o dono da casa. Olhei. Na mesa central, o anfitrião ficava em frente. O poeta laureado deixou os olhos vaguearem pelo tecto onde havia cercaduras de estuque, em forma de corda e cachos de flores, prolongamentos das toalhas de renda, e disse – “E o que acha dele?” Todo o poeta sabe que o espírito do corpo como o espírito do lugar, começa exactamente pelo seu exterior. Como eu demorasse a responder, ele adiantou-se – “Permita-me que lhe diga...” Baixou a voz – “É um tanso, e não lhe digo mais nada...”

Mas logo diria. A conversa animou a sala inteira, a sala estoirava de brilhos e o poeta comportava-se como poeta. Sorridente e inventivo. Em breve levaria a grande colher de prata à boca, fingindo que dela deixava cair a sopa, e dizia que nela não via uma colher, mas uma verdadeira concha de repartir, uma pá de caldear massa, uma tolda. “Olhe aqui, olhe aqui...” Como se a alavanca do pulso não aguentasse o peso da prata – “Olhe a tolda...” E as facas? Que pegasse eu nas facas. Cada uma do tamanho duma espada. Inclinado para o meu lado, o poeta manejou com discrição um faca. “Avalie, avalie o peso disto, a espada de Afonso Henriques para se comer à mesa...” E os garfos? Os garfos, grandes, deitados, de dentes recurvados virados para cima, eram umas forquilhas de carregar o feno. Um horror, que já não se usava. Em parte nenhuma do mundo se usava. E Zili, ela bem queria pôr aquilo de lado, substituir aquela armaria por um faqueiro de design sueco, leve, simplificado, mas ele, o marido, um tanso. O poeta sorriu, pondo os lábios de lado, para não ser ouvido pelo vizinho da esquerda. Depois, encostou-se mais e disse – “Repare bem, repare. Com quem se parece o dono da casa? Com quem?” Voltei a cravar a vista no homem de barbas e espessas sobrancelhas, o olhar satisfeito daquele homem que presidia à mesa do centro, a das rosas. Um certo remorso por me encontrar a detalhar a fisionomia do dono duma casa que me havia enviado um convite amável. Mas o poeta nem me deu tempo de raciocinar – “Tem a cara do Darwin, já viu? Exactamente. Um Darwin que nunca tivesse entrado no Beagle, nem conhecido as Galápagos. Um Darwin vinhateiro, mais nada ...” E começou a rir. Começámos a rir. Primeiro pouco, depois muito. Como estávamos lado a lado, na mesa redonda, era necessário virarmo-nos um para o outro para rirmos sobre aquela confidência. Era verdade, olhando bem, assim de frente, o dono da casa parecia-se com o velho Darwin antes de ficar calvo. Mas eu não iria corroborar tal parecença, a mim cabia-me até apaziguar a hilaridade incontida, mergulhando nos detalhes da refeição requintada.

Era difícil, no entanto, suster aquela espécie de rumor. Visto de três quartos, uma pinta em forma de flecha luzia nos olhos do poeta laureado. Uma pinta acesa luzia. Ele chamou-me de novo para a intimidade da manga do seu casaco e disse-me – “Posso desmistificar uma coisa? E posso ser ordinário?” Sim, desmistificar podia, já quanto a ser ordinário duvidava que devesse. Ele não se importou. Nem ouviu. Espiou a desatenção dos outros elementos da mesa e disse – “Aquele homem que ali vê, está a dever os cabelos da cara e de outras regiões do corpo que não nomeio. Com sua licença, não nomeio, mas você entende... Entende ou não entende?” E os seus olhos fecharam-se sobre o prato. Ali já estava o peixe. Sobre o peixe, as alcaparras verdes. O vinho ainda era só branco, levemente afrutado, não muito. Ele bebeu-o dum trago e começou a dizer que estávamos ali, sentados como à mesa dum príncipe, e porventura o dono da casa, de seu, legitimamente seu, já não deveria ter nada. Naquele momento, talvez até aquela própria casa já estivesse comprometida, talvez aquelas paredes até já não lhe pertencessem, talvez aquelas loiças, talvez aquelas gravuras já fossem de alguém que não ele, que ali estava, inchado, presidindo à mesa das rosas. E num arroubo de poeta que tudo vê, através da luz das trevas, disse que levava à boca um garfo que já não era dele, do tanso, que aquele pedaço de peixe que lhes servia já não era dele, do tanso, o tanso servia aos outros o que não era dele. O próprio vinho da mesa, bem como todas as colheitas desde os inícios de noventa, hipotecadas, não lhe pertenciam. Dívidas e dívidas acumuladas, já nada era dele. Aí, levantou ao ar o copo de branco afrutado e disse para o lado, o meu lado – “Beber bem o que não é dele...” O poeta fechando e abrindo os olhos, bebendo do copo, agora, na direcção da mesa central, embora o fizesse sem exuberância, disfarçadamente, coisa só para nós os dois, ali à parte, no rebordo da mesa. O vizinho da esquerda nem de longe se aperceberia do que se passava à sua direita. Aliás, possivelmente, também não se passaria nada. Apenas eu ficava a saber o que todos os outros, por certo, já por demais saberiam. O poeta a sorrir, a rir, a falar baixo para mim, como se os dois em cumplicidade constituíssemos uma seita, e precisássemos preservar entre nós um segredo de iniciados. Por essa altura do jantar, a dona da casa, de costas para o poeta, levantou-se da mesa das calêndulas, e falando com este e aquele, dirigiu-se a cada uma das outras mesas. Dirigiu-se à mesa dos lírios.

Era o que eu adivinhava. Zili falou, colocando mesmo a mão sobre o ombro de um e outro convidado, mas não se dirigiu ao poeta, nem o poeta levantou os olhos para ela. Agora tinham colocado vinho tinto no quarto copo. Quando ela terminou a pequena gargalhada que resultava da troca de impressões rápidas sobre o andamento do jantar e abalou, bebeu-o duma golfada. O poeta laureado inclinou-se de novo para a sua direita e disse – “Casaram há vinte anos, estão para se divorciar há quinze, e agora já é tarde. Têm dois rapazes, dois peralvilhos. Percebe? Mas há dez, doze anos atrás, eram crianças maravilhosas, capazes de se adaptarem a qualquer cidade do mundo ... Sei que não pode compreender. Também não sei porque lhe estou a dizer isto, eu nem sei... ” Um vulto branco servia-nos borrego enrolado. Batatas pequenas, entaladas, feijão verde, meio cozido, como gostam os ingleses. Um molho castanho por cima, gengibrado. A Baía de Nápoles desenhada, em frente.

“Você percebe?” – perguntou o poeta.

Na verdade não percebia. A minha cabeça foi um pouco à frente e veio atrás. Imaginava um esquema simples, previsível. Que sabia eu? Anos antes, talvez aquele homem tivesse proposto à mulher daquele outro homem que saíssem do país para irem viver noutra cidade, como faziam os abastados no século dezanove, levando atrás de si as crianças e as arcas, e ela, Zili, havia sido tentada, mas havia dito que não, numa noite de luar. Como no tempo em que ainda se viajava de vapor e de comboio, um tempo antes do avião, antes do telefone, do morse, do satélite, do fax. Não, não podia ser. Talvez fosse só um sonho unilateral dele, e nada disso tivesse acontecido. Só desejo dele, só ambição dele, do poeta laureado, e ele estivesse ali a falar de alguma coisa vã como uma telha solta, descosida. Talvez o anfitrião nem devesse a mais pequena nota de mil, talvez nada estivesse hipotecado, talvez nada fosse verdade. Ali estava a casa ampla, sólida, murada a uma altura invisível mas palpável. Toda a gente a rir. Na mesa das calêndulas contavam-se piadas e uma mulher chorava de tanto rir. Impossível de acreditar naquilo. O grande problema dum poeta é trabalhar demasiado a metáfora, esquecer demasiado a intriga. Quer se queira quer não, a intriga existe nas vidas, mesmo nas dos poetas, ou talvez por isso mesmo, sobretudo no profundo coração dos poetas, e aquele ali estava a mistificar a parte que lhe pertencia. “Você percebe? Não percebe? Você não percebe nada...” – dizia ele, conivente, a rir. Depois, por instantes, o poeta laureado pôs-se mudo, entregue ao recinto do seu próprio prato de fio dourado, limitando-se ao estreito raio, aquele que passava entre os lírios, os copos e a borda redonda da mesa, e assim permaneceu, a cortar a carne e a cortar carne, sem a levar à boca, sorridente, sem falar. “Não come?” – perguntei ao poeta laureado. “Já vai, já vai...” E bebeu outro gole de vinho tinto, vermelho púrpura, colheita de noventa e quatro. Uma ligeira bolsa debaixo dos olhos, dava-lhe cinquenta e muitos anos. Ela deveria ter uns quarenta, não mais. Até parecia menos, digamos quarenta, já com o acrescento que se supunha que a maquilhagem lhe subtraía. De contrário, eu até diria vinte cinco, vinte e sete, ou trinta, indiferente até a idade que a anfitriã aparentava. Nele sim, no poeta, as marcas do tempo nos olhos e nos cabelos, aqui e ali, essas sim, eram claras. O poeta não iria dizer mais nada? Diga, diga, por favor, poeta .

Sim, o poeta diria.

Não demoraria muito. Ouviam-se falas e tinidos por toda a sala. E no meio de tudo isso, de novo ele foi obrigado a encostar-se na minha direcção, porque um vulto branco e preto colocava nos pratos dourados uma fatia de pudim, uma posta de gelado, e um outro braço, o da moça cariátide, atrás, unia tudo isso com uma colherada de chocolate quente. Quando os servidores passaram ele ainda ficou inclinado para o meu braço, as mangas quase juntas. Ele disse, nessa posição inclinada – “Aquele macacão, em vez de ter embarcado no Beagle e ter casado com a sua própria prima, encontrou a Zili, ficou com a Zili...” Depois, rodou de tal forma sobre o seu flanco direito que surgiu de frente – “Sabe? Talvez não saiba. No nosso país, poeta, só mesmo nas horas vagas. Eu sei do que falo. Compreende? Eu também sou o advogado deles...” Nesse instante, ouviu-se uma cadeira rojar pesadamente. Já tinham servido um Porto Vintage. Quinto copo. O dono da casa levantava-se. A sua gravata de seda era amarela e brilhava como topázio entre as abas do fato escuro. O dono da casa disse, com o seu copo na mão – “Todos os anos... Aqui nos encontramos... Por esta região e esta cidade, pela nossa determinação e nossa força... À saúde de todos os presentes...” E outras coisas assim, discurso de circunstância, sólido e barbudo como os alicerces da casa. Quando chegou ao fim do discurso, Zili virou-se para trás. Eu vi. O meu vizinho também se tinha levantado mas não erguia o cálice, tinha-o deixado pousado. Quando bateram palmas, ele hesitou, depois bateu. Por certo que havia circunstâncias que o obrigavam. Bateu pouco mas bateu, e voltou a levantar-se quando todos se levantaram e se dirigiram para a zona das janelas de baía onde se servia café e mais Porto. Bom Porto. E uísqui, bom uísquw.

Era um ambiente concertado, limpo, rico, aromático. Uma senhora de muito meia idade, inesperadamente com uma pele de raposa ao pescoço, quatro olhinhos de raposa a luzirem no seu peito, disse – “Zili, canta lá para nós, esta noite, canta...” Zili hesitava. Havia quem nem parecesse entusiasmado, depois de tão prolongado jantar. Ou possivelmente, já todos conheceriam a actuação de Zili. Fosse como fosse, ela passou os olhos pelo rosto do poeta laureado, colocado junto ao sofá das orelhas grandes. O marido, o dono da casa, disse – “Querida, faz lá a vontade à Srª D.ª Perpétua...” A anfitriã olhou de novo na direcção da janela de baía onde nós dois, uma seita de dois, nos encontrávamos, e condescendeu – “Então pronto, de Wolf Ferrari, Quando a letto...” E colocando-se num canto, como se fosse só para alguns, para muito poucos, soltou-se dos pratos, das pratas, das rendas e dos estuques, fechou os olhos e começou a fazer soprano, apenas imitação de soprano, mas suficientemente soprano para que todos se calassem e caminhassem nos bicos dos pés para vir ouvir Zili cantar “Quando a letto vo’ la sera...” Uma voz com educação mas sem treino, mediana potência, e no entanto com um pedaço de alma, uma alma pousada nas coisas daquela casa que segundo o poeta já não eram nem dele nem dela, ou eram, mas se eram, na verdade, alguma coisa profunda e essencial lhes escapava como no fumo, a essência. A voz de Zili, ligeiramente trémula, esfumada, era bela ali naquele momento e lugar – “Vo’ la sera, vo’ la sera ...” Cantava ela. No sofá de orelhas, o poeta mantinha-se sentado, sem se mexer, imóvel como um saco de farinha. Quando Zili foi aclamada com a condescendência entusiástica que se dá aos amadores e às crianças, ou às prendadas donas de casa – “Encore, Zili, encore...” - ele bateu as palmas de novo, mas moderadamente. As duas mãos bateram clape clape e depois caíram sobre os joelhos. Quando abalei, ainda ele ali estava, no vão da janela bay window, a olhar. No exterior, a partir da rua estreita, das portas quadrangulares, ninguém diria. Ninguém que viesse de fora, alguma vez diria. Ninguém.
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* Publicado em "Porto Ficção", (ASA Editores, 2001)