sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Originais * Espelho da alma escondida

Oferta das mulheres
aos homens

Lídia Jorge *

“Também procuramos outros caminhos para a música” – Disse o maestro Cesário Costa, na tarde em que me convidou a desenhar um concerto em que as palavras ocupassem um lugar importante.

Estávamos diante da Ria de Faro, o sol batia de chapa e eu imaginava uma noite de música. Um outro caminho para a música em que ela entrasse sem cerimónia pela noite dentro como se fosse um serão para receber amigos e as vozes femininas fossem as estrelas. Daí a convocar uma sequência de árias e outros trechos líricos que a partir da grande música recobrem os sentimentos que nos dão vida, os que permanecem idênticos e os que a circunstância modela, foi um passo. Apostar na recuperação das palavras cantadas cujo sentido o uso e a popularização deixaram submerso e no entanto, quando retomadas, acrescentam à música as verdades mais profundas que a empurram, foi o ponto de partida. Criar uma sequência de música cantada, com a divulgação do texto impresso correspondente, tornou-se o objectivo e modelou o projecto. E Oferta das Mulheres aos Homens, o tema que surgira diante da Ria, a princípio como uma irreverência passageira, consolidou-se como um desafio.

A partir de então, estava delineado o caminho. Ao alinhamento dos poemas cantados, acrescentou-se os intermezzos sinfónicos que lhes servem de réplica. De Vivaldi a Bizet, e de Edvard Grieg a Puccini, foi possível reunir alguns dos momentos-luz mais intensos da música lírica ocidental, e ilustrar através deles a modulação que os sentimentos tomam em tempos históricos diferentes. Nesse sentido, imaginou-se que dois poemas de Maria Teresa Horta poderiam servir de suporte a uma composição inédita solicitada ao jovem compositor português, João Antunes. Nenhuma outra poeta portuguesa, entre nós, assumiu a expressão poética da sensualidade e da emancipação feminina, antecipando desde os anos setenta, a linguagem comum das mulheres dos nossos dias.

Na verdade, aquilo que os grandes poemas possibilitam - mesmo quando se trata de fragmentos de libretos, arrancados à totalidade das narrativas operáticas - é fazer-nos confrontar com o espelho da nossa alma escondida. Neste caso, o texto da ária usada por Vivaldi em vários contextos, Zeffiretti, che sussurrate, para além da ambiência arcádica própria do século XVIII, remete para uma relação intemporal entre Paixão e Natureza. A definição de amor como a outra prisão, em Alma opressa, filha da mesma ambiência setecentista, posta na boca de Licori, em “La Finda Ninfa”, assemelha-se a um recado escrito nos nossos dias. O mesmo se pode dizer da letra romântica que reveste a sequência mais popular de “Carmen”, a mais do que célebre habanera identificada pelo verso que a abre, L’amour est un oiseau rebelle. O seu enunciado contém um programa de indomabilidade e rebeldia que fazem desse momento de música cantada, um louvor à experiência do excessivo e do desafio aos limites da sedução em todos os tempos. Como é possível trauteá-la, durante a vida inteira, em divórcio com o sentido das palavras? E o mesmo em relação aos momentos líricos em que é cantada a fidelidade, a espera e a doação a troco de nada. A ária de "Micaëla”, bem como as árias da escrava Liù, em “Turandot”, tal como a Canção de Solveig em “Peer Gynt”, referem sentimentos que a modernidade não enuncia mas pratica, no esconderijo da individualidade pessoal. O mesmo se diga da cumplicidade entre Suzuki e Butterfly, traduzida pela fusão das palavras, de uma e de outra, durante o momento de espera pelo amante ausente. Palavras devotadas, próprias de um amor exacerbado, que a música resgata e sublima. Em sentido oposto, os dois poemas de Maria Teresa Horta, Segredo e Ponto de Honra, constituem o prolongamento daquilo que em “Turandot” são as palavras-chave da sua heroína livre e superada, “sfidasti, inflessibile e sicura” (desafiaste, inflexível e segura). Assim clama Turandot, a figura moderna de Puccini que os seus libretistas foram arrancar às antigas lendas persas, e aqui não fala, mas preside, como ideia, à criação contemporânea de João Antunes sobre as palavras de Teresa Horta. A ideia de que a oferta é inimiga da imolação.

Confio no talento das grandes intérpretes convocadas sobre o palco do Teatro das Figuras pela mão do Maestro Cesário Costa, para que este concerto, concebido como uma revisitação ao tema da letra do amor, se transforme num acto de graça. Estou certa de que a noite terá muito mais estrelas do que as visíveis e numeráveis. Não há dúvida que as palavras falam sempre duma contingência e duma circunstância, mas a música, a grande música, tende a retirar-nos da História e a levar-nos para um lugar fora do tempo, onde o Mundo, por instantes, parece ordenado.
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* Texto escrito para o folheto do concerto da Orquestra do Algarve
 "As Palavras Cantadas", 18 de janeiro de 2008

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Crónica * Se morreu, sou sua irmã duas vezes.

De noite



Lídia Jorge *

Eu saía dos Cinemas Residence, era de noite e atravessava o Parque de Estacionamento do Saldanha, quando dei por uma mulher cambaleante a ser levada por uma criança.

Aproximei-me.

A mulher era negra, a criança era branca.

Quando amparei a mulher, ela escorregou pelo meu corpo e caiu no chão. Debrucei-me, perguntei para onde iam. A miúda olhava aterrada, mas não dizia uma palavra. A mulher, deitada no chão, disse que procurava a Maternidade Alfredo da Costa. A criança branca mantinha a boca fechada. Procuravam uma maternidade, e no entanto, a mulher não parecia grávida.

Então olhei para os seus jeans, molhados até aos joelhos, e percebi o que se passava.

Estávamos as três sobre o passeio que ladeia a estação dos táxis ao Saldanha e vários taxistas olhavam para nós. A mulher no chão.

Eu pedi – “Um dos senhores, por favor…Levem-nos até à Maternidade. Eu sei que é logo ali, mas levem-nos…” Eram cinco os taxistas, nenhum se moveu. Todos se recusaram. Um deles irritou-se e gritou – “A lei proíbe transportar pessoas nesse estado, minha senhora…”

Os cinco taxistas só olhavam, um deles ria.

Agora a mulher tinha abandonado a mala, abandonado a mão da menina, tinha abandonado a minha mão, e ia gatinhando pelo asfalto.

Por perto, alguém começou a rir. Ela ia gatinhando entre os táxis. Desistiu de gatinhar.

Ela estava sem sentidos, do outro lado dos táxis.

Felizmente que a ambulância chegou passado pouco tempo.

Enquanto a ambulância não chegava, eu fiquei a saber que esta mulher tinha três crianças, estava sem emprego, e fora uma sua amiga, a mãe da miúda branca, quem a mandara acompanhar a mulher, que lá ia na ambulância. Soube pela menina de nove anos.

Não soube mais nada da vida desta menina, mais nada da vida desta mulher.

Se sobreviveu e vive com os seus três filhos, sou sua irmã.

Se morreu, sou sua irmã duas vezes.
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* crónica lida no Programa "Prós e Contras", 14 janeiro de 2008