segunda-feira, 29 de outubro de 2012
domingo, 28 de outubro de 2012
A páginas tantas De Combateremos a Sombra
Do romance Combateremos a Sombra,
de Lídia Jorge (pág. 36 a 39)
de Lídia Jorge (pág. 36 a 39)
Hombridade *
(...)
E ainda ao som dos estrondos que rasgavam aquele momento de silêncio duma forma impertinente, o jornalista apontou para a janela por onde o rumor entrava – “Se fôssemos pessoas decentes, não embarcávamos nisto. Pensar nesta extravagância faz doer a alma, pensar que por cada foguete que eles estoiram é um dia de trabalho de um alemão que eles queimam, rasga o coração. E quem diz um alemão diz um francês, um italiano, um inglês. E nós? Nós levantamo-nos da cama para queimarmos no ar os dias de trabalho dos outros como se nada fosse. Porque nos habituámos a viver miseravelmente, sem nos importarmos nem termos vergonha, e agora que outros nos sustentam, vivemos à sombra deles, dos válidos. Mendigos a viver à tripa-forra do produto da nossa mendicidade. E tudo isto porquê? Porque em termos de inteligência e hombridade, estamos anestesiados...” – O professor começou a impacientar-se, pensando em Maria Cristina, nas últimas palavras que ela havia dito no final da discussão – “Não me telefones, Osvaldo, não comeces com os teus truques de que já aqui vou a caminho, já aqui estou a chegar, quando ainda nem partiste do sítio…” Eram nove e vinte cinco e Elísio Passos falava de nada. Aquilo que dizia não passava dum discurso gasto. O que pretendia afinal aquela pessoa? E o jornalista, que continuava a falar com o mesma velocidade e o mesmo ciciamento do início, compreendeu a impaciência do anfitrião – “Passemos ao assunto, professor. O senhor está com pressa, eu também estou. Os minutos estão a passar...” E curvou-se para diante, expondo à luz da secretária a magnífica calva de onde saíam os dois ramos de cabelo em forma de pincéis fartos. Falando no tom próprio de quem começava a iniciar um epílogo, o visitante perguntou – “O professor sabe o que é um ovo?”
“Um ovo” – balbuciou Osvaldo Campos, admirado. “Sim, julgo que sei...” E acrescentou, cauteloso, receando que a roda girasse para o local imprevisto, de súbito previsto. “Claro que sei o que é um ovo...”
“Pois claro que sabe o que é um ovo” – respondeu o jornalista. “Mas talvez desconheça que toda esta situação ignominiosa que se vive neste país miserável, esta situação de dependência e dissipação, falta de rigor, de critério, e tudo o mais que queira acrescentar, tem origem em determinada casta de ovos que circula por aí e sobre os quais ninguém quer falar... ” E a sua voz ganhou uma nova espessura – “ Todos os tipos, que durante a maior parte das suas vidas escreveram ontem e hoje, referindo-se a hoje e amanhã, sabem o que este facto significa, mas estão calados. Pois talvez o senhor não saiba que Salazar tinha um galinheiro em São Bento, há quarenta anos atrás, e que aí criava galinhas, e que as galinhas punham ovos que ele mesmo vendia. Não acredita? Pois acredite - O Presidente do Concelho comerciava-os e não se coibia de o dizer. Vendia-os como se fosse um merceeiro de esquina. Mas não os vendia todos, professor. Havia ovos que o vígaro punha de parte com destinos especiais e que ele mesmo enumerava. Enchia cestos de cana inteiros, com palha no fundo, de ovos especiais. Eram ovos envenenados. Estramónio puro. E sabe o que fazia ele, depois, a esses cestos? Não sabe? – Mandava-os entregar no Supremo Tribunal de Justiça, na Assembleia Nacional, enviava-os à Nunciatura, ao Patriarcado, à Câmara Corporativa, à Câmara Municipal, e por aí adiante, para que os respectivos representantes os comessem e ficassem aniquilados. Mas o Juiz do Supremo, tanto quanto o Núncio Apostólico e o Cardeal Patriarca, e os outros, não eram estúpidos, pelo menos eram tão espertos quanto ele, e não os comeram, reconhecendo o material que tinham entre as mãos. Também os puseram debaixo de galinhas que os chocaram, que deram pintos, galos, galinhas e respectivos ovos, todos eles envenenados com estramónio, e por sua vez distribuíram-nos posteriormente pelas juntas de freguesia, regedorias, paróquias, grandes e pequenas comarcas, repartições públicas, registos de fazenda e finanças, e esses sim, pobres papalvos, foram-nos comendo e distribuindo por seus parentes e amigos, que os comeram também. Mas alguns resistiram, sabiam que ovos dados por essas mãos não eram bons ovos. Muitos como o meu pai, resistiram. Eu resisti desde criança, desde o dia em que o meu pai escarrou para cima do fato da Mocidade Portuguesa que a minha mãe me tinha comprado e eu assisti. Escarrou...” Os olhos do jornalista estavam vermelhos. O jornalista fez uma pausa, um suspiro – “Mas passado todo este tempo, sabe o que aconteceu, professor? Passado todo este tempo de vigilância, distraí-me e esta noite comi um...”
“Comeu um ovo desses?” – perguntou Osvaldo, juntando-se à inquebrantável lógica do jornalista sénior.
“Quando comeu?”
“Comi há coisa de uma hora, professor. Foi no Swing Bar, e até tenho aqui a prova...” – E Elísio Passos enfiou a mão num dos bolsos do smoking e retirou do seu interior fragmentos duma casca branca, unidos por uma pasta gelatinosa. No espaço correspondente ao bolso, o tecido preto apresentava uma mancha mais escura. “Esta é a casca do segundo, o que eu não cheguei a ingerir, porque o outro, infelizmente, já cá está...” – O jornalista transpirava. “Agora com uma nova droga, potentíssima, compreende? Grande problema…” A forma como fechava os olhos denunciava o grande esforço de domínio que exercia sobre o sentido circular da lógica que não queria deixar escapar. A sua calva pálida tinha-se coberto de gotas de suor. Falava rápido, falava alto. “Dois problemas, dois, professor...” – enunciava. “O facto em si, que precisa de ser denunciado imediatamente, para que as pessoas tomem as devidas precauções antes de ingerirem seja o que for, já que alguém pôs a circular de novo esse tipo de alimento. Esse é o primeiro problema. Segundo problema – Preciso urgentemente de passar num hospital...” E ao falar de si próprio, o sénior parecia embaraçado – “Professor, nos tempos que correm, quem tem coragem para denunciar um facto destes? Eu tenho a coragem, tenho a informação, tenho o know-how, mas posso estar neste momento mortalmente atingido e já não servir para nada...”
Elísio Passos tinha-se levantado do cadeirão e começara a dar passadas largas, no meio do gabinete – “Sinto-me envenenado, professor… Mas se eu aparecer num banco de hospital, numa noite como esta, contando este caso, quem vai acreditar? Preciso do seu apoio junto daquela gente do banco de urgência, necessito da sua garantia formal de que sou um homem em seu juízo perfeito...” Naquele momento, já havia algum tempo que os estoiros se tinham calado, mas da zona portuária saíam batidas rock que subiam a colina e entravam pelos vidros do consultório dentro enchendo o espaço de sons estridentes. Era como se um concerto dos Xutos & Pontapés acontecesse ali mesmo, no interior do prédio Goldoni. O jornalista consultou o relógio – “Desculpe, professor, sei que tem os minutos contados...”
(...)
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* Título do editor deste blogue
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Crónica * 13 dias para passar de fera a majestade
Texto de 2002 (outubro)
Sempre me hei-de lembrar, com muito gosto, da conferência que Lord Thomson of Monifieth, um ex-conselheiro da Britisth Independent Broadcasting Authorithy, proferiu em Lisboa, no início dos anos noventa. Nessa altura, discutia-se em Portugal a atribuição dos canais privados, e Lord Thomson vinha partilhar com os portugueses a experiência inglesa nesse domínio. Se bem me lembro, os seus conselhos estavam repletos de História. Na Grã-Bretanha a experiência dos canais privados remontava a 1952 e nós estávamos a discutir o nosso caso quarenta anos depois. Os seus conselhos estavam repletos de avisos e bom senso. E tinha razão. O futuro viria a demonstrar que mesmo na auto-controlada Grã-Bretanha, o comércio haveria de atingir, em flagrante, o equilíbrio e a qualidade que eram seus apanágios.
Entre nós, porém, nessa altura, a discussão era particular. Os economistas avisavam que Portugal não dispunha de capacidade comercial para sustentar três estações. A publicidade não chegaria para os três operadores. A menos que houvesse um milagre qualquer - e está provado que há poucos - a disputa pelas audiências iria ser darwiniana, iria fazer descer o nível da programação para patamares inimagináveis. E assim foi. Nessa altura se disse que, na disputa pela sobrevivência, a tendência seria a de os programas de entretenimento descerem aos níveis do grotesco e da obscenidade. Assim foi. Nessa altura também se disse que uma estação da Igreja, iria desprestigiar a Igreja e fazer um péssimo serviço. No nosso panorama, era o canal que estaria a mais, e assim foi. Os caminhos da TVI mostraram que um canal comercial da Igreja jamais seria da Igreja. E não foi. O I de Independente, que na altura também significava I de Igreja, depois de aventuras aberrantes, transformou-se hoje no Canal 4. Isto é, teve de o deixar de ser para ser igual às laicas. O tempo veio demonstrar que tinha razão quem se opunha a esse projecto. Nenhum canal religioso poderá vingar no Ocidente livre, a não ser que recorra às mixórdias televisivas mais repelentes de pregações infinitas e difusão de crendices. Mas na altura também se disse que a Informação, essa sim, iria ficar a ganhar. E ganhou. É indesmentível que a diversidade, a pluralidade dos pontos de vista, o volume de informação, a agilidade do jornalismo televisivo não tem comparação com os tempos anteriores. Pensar em recuar é um pesadelo. No entanto, na altura também se disse que o grotesco do entretenimento se iria misturar com a própria informação, que a certa altura, o espectáculo ficcional entraria e misturar-se-ia nos telejornais. Não se enganaram os que assim previam. Assistir à Informação televisiva é, hoje, assistir a um circo onde as melhores peças jornalísticas aparecem entremeadas com rugidos de leões e facadas na ilharga. Por volta das nove horas da noite, a ideia que se tem é de que o Mundo é só uma descida ao Inferno. Mas na altura também se sabia que iria demorar a bater no fundo, mas bateria. Já bateu no fundo? Já é possível escolher o que brilha no meio do lixo? Partir na direcção certa? Lembro-me das palavras de Soares Louro que previa tudo isto milimetricamente. Era só esperar para ver. Quem previu, e teve tanta razão antes de tempo, como terá passado este longo tempo?
Mas se me lembro em particular da conferência que Lord Thomson fez em Lisboa, por essa altura, é também por uma outra razão. É porque ele abriu essa conferência com uma história muito antiga que não perdeu actualidade. É uma história sobre coerência e isenção, oriunda num tempo muito anterior à televisão. Mas que poderia ser do tempo da televisão. Contou Lord Thomson of Monifieth, experiente em lidar com a memória, a fidelidade, a hesitação e os princípios que a regem, como certo jornal Francês do século XIX, o jornal “Le Moniteur” fez a cobertura da viagem de Napoleão, quando fugiu da ilha de Elba e marchou em direcção a Paris. Corria o ano de 1815. Nessa altura, os percursos eram demorados, não havia automóveis, nem telefones, nem faxes, nem satélites. Só cavalos. A comunicação era quase tão lenta quanto o mundo. Assim, foi possível, em escassos treze dias, os dias do avanço de Napoleão sobre Paris, os títulos do “Le Moniteur” terem ido mudando.
Mudaram assim, relatou ele. A 9 de Março de 1815, apareceu o seguinte título – “A Fera (Isto é, Napoleão) deixou a sua toca”. No dia 11 de Março – “O Monstro da Córsega pôs o pé em solo francês”. No dia 13 de Março – “O Torturador passou a noite em Grenoble”. A 18 de Março – “O tirano avança em direcção a Dijon”. A 19 de Março –“Bonaparte quer conquistar Paris, mas não o conseguirá”. A 20 de Março – O Imperador já chegou a Fontainebleau”. E dia 21? “O Libertador bate com força nas portas da cidade...” E no dia 22? No dia 22, podia ler-se no “Le Moniteur” - “Sua Majestade Imperial marchou hoje sobre Paris. Viva o Imperador!” Isto é – Entre a Ilha de Elba e Paris, Napoleão tinha passado de Fera e Monstro a Libertador, Majestade, Imperador. Lord Thomson não contou, porém, como titulou o jornal as vicissitudes de Napoleão Bonaparte quando voltou a cair em desgraça. Não contou, mas a gente sabe. É válido para todo o tipo de jornais e todo o tipo de majestades.
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* Redigida para a série "Dias Contados", transmitida pela RDP | Antena 2
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Sobre o livro de David Grossman
Até ao Fim da Terra
Lídia Jorge *
Um grande livro nem sempre tem atrás de si as mãos de um grande homem. Mas quando se dá o caso de haver essa coincidência, ficamos menos sós neste mundo. Foi isso mesmo que pensei, há quatro anos, enquanto David Grossman participava de um encontro com leitores, sob uma tenda aberta, diante das Muralhas de Jerusalém.
Corria então a Primavera de 2008, e a jornalista Ilana Dayan lia para o auditório uma passagem do romance Até ao Fim da Terra, acabado de publicar. O texto escolhido correspondia àquele momento de resmunguice em que a personagem Ora, pensando nos checkpoints onde o seu filho Ofer havia prestado serviço militar, vai picando os vegetais para uma salada, ao mesmo tempo que enuncia os nomes dos árabes notáveis implicados nas guerras com o seu país, desejando-os trinchar, e a certa altura, num remate inesperado do esconjuro, o seu pensamento explode numa direção contrária – “... numa revelação súbita, junta também Golda, Begin, Shamir, Sharon, Bibi, Barak, Rabin e Shimon Peres – pois no fim das contas não terão eles também as mãos manchadas de sangue? Será que fizeram alguma coisa para que ela tivesse cinco minutos de paz aqui?” (pág. 630). É que a Ora, mais mãe do que cidadã, interessa-lhe sobretudo a vida do seu rapaz, e a forma de brandir a faca de cozinha revela o potencial da sua raiva. Provavelmente, em mais lugar nenhum do Mundo aquela página poderia ter o efeito que produzia naquele auditório, o riso, a ironia, a explosão de entusiamo por um texto metafórico sobre a luta pelas pátrias. Ou as várias lágrimas misturadas de que fala este livro.
Mas a emoção que então perpassava na tenda não provinha apenas do facto literário em si. Ainda que não se falasse no assunto, sabia-se que a história de Ofer, começada a escrever em 2002, havia sido uma antecipação do destino de Uri, o filho de Grossman, caído no final da segunda Guerra do Líbano em 2006, e que a atitude de proteção pelo poder verbal que o autor havia imaginado ao conceber o livro, era exatamente a mesma que a personagem Ora havia mantido em relação a Ofer - falar, recordar, dizer palavras, uma prolongada oração laica, de forma a manter incólume a pessoa evocada. Isto é, Grossman, como muitas vezes inexplicavelmente acontece na Arte, havia vivido por antecipação a história da personagem Ora. E logo se dava a trágica coincidência de que num e noutro caso, a palavra poética não cumprira a suposta missão, não protegera os protegidos.
Naquele recinto, esse facto extraliterário vinha corroborar a mensagem mais importante – A de que toda a guerra é imunda, nenhuma guerra é salvadora. A emoção que perpassava na atmosfera do fim da tarde poderia ser entendida assim. Um livro, uma longa meditação sobre a violência causada pela partilha da terra quando, por ironia, os homens e as mulheres, uma vez desarmados, se sentem irmãos entre si. Aliás, de certa forma, toda a obra de David Grossman, tal como a de Amos Oz, Aharon Appelfeld, ou Yehudit Katzir, são variações contemporâneas desse mesmo tema. A terra de donos sobrepostos, um território limitado que não se consegue dividir, provavelmente, uma parábola antecipadora em relação à Terra que um dia poderá não dar para todos. Até ao Fim da Terra é um livro cuja temática está enunciada no próprio título. A terra, as suas fronteiras, os seus blindados, os seus tiros.
E no entanto, mais do que um livro de guerra, trata-se de um livro sobre almas. Especialmente sobre a alma de Ora, a mulher de dois homens e de dois filhos em relação aos quais tudo aconteceu ou por acaso, ou por engano. Nela, só a maternidade surge como um espaço inviolável, uma condição inteira, vivida até ao fulgor da alegria e da tragédia, em grau absoluto. Curioso que a este propósito Paul Auster tenha escrito que Flaubert criou a sua Emma, Tolstói a sua Anna, e Grossman dá-nos a sua Ora. Devemos acrescentar, porém, que Ora, personagem que seguimos no interior do pensamento, como numa operação de laparotomia da sua alma, distingue-se de Emma e de Anna Karenina, precisamente porque o seu conflito não é um conflito de amor, é um conflito entre o amor, a maternidade e o Estado, e é isso que torna este livro tão único e especial.
Mas sendo um livro de personagens que vivem sob o efeito de guerras que fazem parte da herança histórica recente, com a invocação de lugares inscritos no mapa da imaginação ocidental, a sua leitura oferece alguns desafios nem sempre fáceis de ultrapassar.
Basta dizer que as primeiras páginas conduzem-nos às cegas, pelo interior de um pavilhão de isolamento de um hospital de Jerusalém, durante a Guerra dos Seis dias, e uma vez que as vozes são entrecortadas, e é através delas que sabemos o que se passa lá fora e na recordação, a nebulosa deixa-nos por vezes tão às escuras quanto se encontram as personagens. Assim, há que voltar atrás para se compreender que os então adolescentes Ora e Avram, internados com doenças infectocontagiosas, se encontram no escuro da noite para conversarem, tendo por testemunho um outro doente, o jovem Ilan, sedado, numa cadeira de rodas.
Por desafiador que seja, vale a pena enfrentar com determinação estas primeiras cinquenta páginas, já que o Prólogo, 1967, é uma espécie de embrião de todas as linhas de força que irão conduzir a vida das três personagens. Essa relação irá esclarecer-se à medida que o leitor avance nos capítulos que reportam a ficção ao ano de 2000. Quem é quem, que papel cada um desempenha, e porque existem tamanhas chagas nos seus percursos, será matéria para uma teia fina e longa, urdida cautelosamente, poeticamente, com a demora própria - não de um espelho que se passeia, como referia Stendhal - mas como um caleidoscópio de espelhos que tudo lembra e tudo vê, a propósito de uma deambulação em ziguezague, através das terras da Galileia.
A história só em parte pode ser resumida.
No dia em que Ofer deveria ser desmobilizado, para retomar a vida civil, Ora descobre que o filho, tendo sabido que uma operação de grande envergadura iria ter lugar nos dias seguintes, oferece-se como voluntário. A mãe, movida por um mau pressentimento não verbalizado, resolve fazer uma peregrinação para se aproximar do filho, e ao mesmo tempo para fugir das notícias que se anunciam ao longo do caminho. Nessa deambulação, de fuga ao acontecimento, e de aproximação ao cerne do coração da sua antiga criança, ela não vai sozinha. Consigo leva Avram, o antigo adolescente do hospital de Jerusalém, que haveria de ser mais tarde ferido e torturado pelos egípcios, na Guerra do Yom Quipur, em 1973. Caminhando os dois ao longo do território esparso, essa deambulação é uma espécie de longa epifania, já que permite que Ora vá revelando, a pouco e pouco, como acabou por ser mulher de dois homens, Ilan e Avram, e mãe de dois rapazes, Adam e Ofer, ambos concebidos em situações extraordinárias, sob o impacte da guerra e do acaso. Tudo começara no dia em que os dois amigos haviam pedido por telefone que Ora fizesse um sorteio para ver qual dos dois partiria de licença. Dois papéis que Ora lançaria dentro da copa de um chapéu. Sob o signo da puerilidade, assim começa a desordem. Um deles iria passar o fim de semana a casa, o outro iria ser conduzido ao centro de um braseiro.
Aliás, os temas embrionários do prólogo, o amor, o signo da desordem, da guerra e suas feridas, mantêm-se do princípio ao fim do livro, e em termos de construção, explodem como uma estrela. Os intérpretes também. Um dos subtemas é a amizade de Ilan por Avram, tendo a mulher por laço de união e não de disputa, a ponto de os três parecerem só um, relação que vai sendo desvendada a pouco e pouco, de modo irradiante. Mas mais do que essa engenhosa forma de estruturar este livro grandioso, que tudo agarra e tudo descreve, criando uma espécie de cosmogonia original, a força desta obra reside na capacidade evocadora que David Grossman atribuiu às personagens, sobretudo à amante dos dois homens.
Uma espécie de saga mental, assomada pela descrição dos factos da guerra, e pela memória densa da maternidade, um painel de almas, que o autor já havia ensaiado em O Livro da Gramática Interior, mas que só agora, em plena maturidade, consegue realizar evitando certo hermetismo, e em seu lugar glorificando o prazer, a paisagem, a alegria, a fúria de viver, em contraponto com a ameaça da morte. Só em Ora existe uma alma que se expõe em três andares – A dos factos que aconteceram, a dos factos que vão sucedendo, e a Ora dos desejos incontidos. A última afirmação do livro também lhe pertence - “Pensou : que fina é a crosta da terra”. O que significa que Ora não está preocupada com a extensão política da terra, antes com a sua profundidade. Ora poderá não ter terra suficiente para cobrir o seu filho.
Até ao Fim da Terra é um livro ambicioso? Sim.
Com ele David Grossman inscreve-se no painel de escritores como Saramago, José Lezama Lima, ou mesmo Musil, autores para quem a escrita procura rivalizar com a vida em amplitude e complexidade, o que implica lentidão, sobreposição e volume. Personagens e ação, alma e história, discurso e filosofia, um desejo de totalidade. A dado momento, o autor pergunta-se a si mesmo, colocando as palavras na boca de Ora – “Como é que se conta uma vida inteira? Nem toda uma vida chegava. E como é que se começa?” (pág. 217) Mas chegando à última página, conclui-se que David Grossman sabe bem quanto pode e como proceder.
Sabe sobretudo como criar cenas inesquecíveis, que conduzem o leitor para o interior da ação, provocando arrepio, dor, deleite, levando-nos para o palco de um teatro anímico, real e vivo, de onde não podemos escapar. Pois mais do que uma questão de metáfora, Até ao Fim da Terra é sobretudo uma questão de metonímia. Uma descrição que prolonga a existência como ela é, usando os materiais reais, as matérias da verdade vivida. Por isso mesmo, este é um livro para ler com tempo. Se for lido à pressa, parecerá um livro desmedido. Se for lido devagar, será um livro grandioso. E felizmente que a tradução permite que entre o hebraico e o português, as subtilezas desta história magnífica não fiquem pelo caminho. A história de Ora e seus homens parece ter sido escrita diretamente na nossa língua.
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* in DN/Qi, 5 de maio 2012
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
"Inquieta-me, pois, a sua figura"
Angela, um Mito
em Construção
em Construção
Lídia Jorge *
Quando a antiga ministra do Ambiente assumiu as funções de Chanceler da Alemanha, começou a constar em Lisboa que se tratava de uma figura demasiado rígida para se augurar alguma coisa de bom para o sucesso da Europa. O próprio Tratado de Lisboa, assinado no final de 2007, foi visto por muitos como uma estratégia de domínio sobre o espaço comunitário, manobra a que Portugal se prestava como criado, sorridente e agradecido. E falava-se já então de uma teia de dominação financeira que estaria a ser urdida a partir de Berlim. Mas eu tinha uma outra visão da chancelar. No princípio do seu mandato, havia passado cerca de meia hora a uns escassos metros da sua pessoa e achara-a interessante. Durante os discursos, Angela distraía-se, sorria para os sapatos, abandonava as mãos, e eu tive a ideia de ver no seu rosto alguma coisa de terno e de humano, alguma coisa de profundamente pacífico. Essa imagem ainda perdurou por algum tempo, e só começou a desvanecer-se quando a chanceler se pôs a enviar recados aos governos dos outros países, utilizando uma rude linguagem de mestre escola.
Aí, já a dúvida tinha começado a
circular sobre se a chanceler estaria à altura de ser alguma coisa mais para
além de chefe de governo do seu próprio país. Agora, o impasse que está criado
diz-nos que dificilmente o será. É que Angela Merkel tem o dedo da História apontado
à sua testa e não parece querer interpretar o papel decisivo que lhe foi reservado.
E no entanto, não pode fugir a ele. A fragilidade que se vive na Europa leva a
pensar que Angela tem no seu nome uma marca angélica que o Futuro não
esquecerá, e quer queira quer não, está destinada a ser mito. Mas será que
Angela irá ser portadora de uma asa escura que fará a ideia da Europa desmoronar-se?
Ou pelo contrário? Desenrolará uma asa clara que fará reunir atrás de si os
países europeus desunidos, reinventando a utopia política mais avançada do
mundo de que os germânicos têm sido o motor? Para que lado cairá, então, o mito
de Angela Merkel? No caso dos portugueses, sempre predispostos a visitarem o
seu passado, para voluntariamente obedecerem e se humilharem, lembrar a
História da Alemanha não está nos seus hábitos. Mas Angela Merkel, em nome dos
alemães, deve saber que todos aqueles a quem a sua política exige ajustes de
contas impossíveis, começam a ter de novo essa História no pensamento, e dar
pretexto para que a imagem desse passado regresse é inaceitável. Inquieta-me,
pois, a sua figura. De que lado ficará Angela Merkel, quando os discursos de
circunstância terminarem e ela já não tiver tempo para olhar para a ponta dos
seus sapatos?
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* Publicado a 30 de junho de 2012,
no Frankfurter Allgemeine Zeitung
terça-feira, 23 de outubro de 2012
É que os dias começam a apertar
A razão dos simples
Eles passarão. Eu passarinho!
Mário Quintana
Lídia Jorge *
1. Os dias que correm ensinam-nos o que não julgávamos precisar de aprender. De um momento para o outro, a realidade mostra-nos que, enquanto a passagem do estado de miséria à prosperidade se processa de modo demasiado lento, a passagem da prosperidade à miséria pode seguir um percurso vertiginosamente rápido.
O que hoje se está a viver assemelha-se ao pesadelo clássico da pessoa que segue vestida por uma praça e de súbito começa a perder as roupas. Quanto mais procura cobrir-se mais elas voam, até se ficar nu. O pesadelo diz respeito ao mundo, não é só nosso, mas o caso português tem contornos muito próprios, e se até agora algum motivo há para nos regozijarmos será só pelo facto de os portugueses, como sempre, serem um caso de sucesso na resistência à fome.
2. É preciso reconhecer que a crise se instalou na casa portuguesa em clima de decepção, mas sob o signo da concórdia e até de uma certa esperança.
A esperança provinha da ideia de que este momento de aperto poderia oferecer uma oportunidade para se corrigirem os erros que nos levaram até aqui, o desperdício, a má distribuição da renda, o laxismo, a acumulação de privilégios, e tudo o mais. Até a esperança de que o sistema judicial pudesse tomar um novo caminho atravessou a nossa ilusão. Para além da ideia de que um ambiente de menos agressividade poderia facilitar esses tipo de correções. Com essa esperança se partiu para sacrifícios de toda a natureza em clima de aceitação. Aos portugueses foram aplicadas medidas drásticas sem um sussurro da parte dos visados. Visto de fora, o nosso comportamento tem sido exemplar, e de certo modo até comovente. Neste momento, porém, o pacto de esperança e de concórdia que nos silenciou não pode deixar de estar quebrado.
Não se trata apenas do assalto redobrado a toda a população, o anúncio assumido da ineficácia das medidas, a injustiça relativa de que elas enfermam, e tudo o mais que se sabe. Nem sequer do pressuposto ofensivo de que as pessoas são abstrações sem coração nem cérebro, e que devem estar expostas a todo o tipo de expolição sob a ameaça de que ao contrário só se vislumbrará a catástrofe. Ou o pressuposto de que devem estar caladas, de outro modo serão perniciosas e agirão contra a pátria. Ou a ideia de que a Economia e as contas são matéria a que a razão dos simples não atinge. Mais do que tudo isso, trata-se, sobretudo, do desconhecimento, por parte dos actuais dirigentes, do funcionamento de uma sociedade moderna.
Agora está à vista por que razão aquilo que pareciam falhas neste governo, afinal, eram erros. Erros na fusão de ministérios que não deveriam ter sido fundidos, pessoas para os conduzirem que não estão à altura nem de um governo em tempo normal, quanto mais em estado de crise, manutenção de figuras descredibilizadas colocadas no topo da hierarquia governamental, entrega de dossiers sensíveis a figuras suspeitas. De tal modo que a ideia que se tem é de que o país não está só em estado de crise, mas à deriva, na mão de pessoas que sem dúvida estudaram muito mas leram pouco. Estas situações costumam ter desenvolvimentos mais ou menos previsíveis. Mark Twain falava de que a História não se repete mas rima. No momento que passa, é preciso tomar cuidado com as rimas. Os simples podem não saber de economia, mas conhecem na pele o que é a injustiça relativa.
3. É que os dias começam a apertar. Agora deitamo-nos e levantamo-nos, com poucas alternativas pela frente. Na noite dos pesadelos pode-se imaginar que o primeiro ministro poderia fazer uma remodelação do seu governo. Mas como, se nesta última semana ele mesmo surgiu aos olhos do país como um remodelável?
Outras perguntas se impõem. Tem esta maioria capacidade para gerar no seu espaço um governo alternativo? Dever-se-ia chegar ao extremo de exigir um governo de salvação nacional? É possível fazer o Presidente da República mover-se para alguma outra solução sem entretanto se desfazer o parlamento? Ou, simplesmente, ainda será possível este governo colar os cacos, regressar a um entendimento com a oposição de forma a inverter este caminho deslizante para um buraco grego? Parar de perseguir as pessoas deixando-lhes na algibeira o suficiente de modo a não secar de todo a economia aquisitiva para que não pare a produtiva? Sabemos que todos os que nos conduzem a este desfecho sempre passarão bem, e nós passaremos mal. Mas é preciso não menosprezar o poder dos simples. Não estamos mais no quadro do Estado Novo, quando a população analfabeta e desinformada não dispunha de referências para se comparar. Também para nós o mundo mudou cento e oitenta graus e hoje somos alguém na Europa. Por isso a própria Europa precisa de conhecer a verdade sobre o que se passa em Portugal para que ela mesma se possa acautelar, e parece que, a partir daqui, só os simples, afinal, podem ser a voz autêntica que avisa os outros antes que também caiam.
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* in Público, 17 setembro 2012
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Poema * Palavras que um tempo fora do tempo te tinha dado
Para Sophia
Lua branca da madrugada
pousaste teu cinto na terra
e o mar te veio buscar.
Já lá estavas, de lá enviaste
as palavras que um tempo
fora do tempo te tinha dado
e nós à espera desse momento
alado, em que as tuas letras transformassem
linhas pretas num campo iluminado.
Agora estás lá dentro, agora desde que a lua
e o mar se unem e fazem as marés
mas só alguns o sabem, tu soubeste e
nisso és.
Voltaste à terra branca, e na cidade
um sino bate a hora como se o dia
de hoje apagasse um foco incendiário.
Teu fogo porém vivo, é de outra chama
e a cama onde te deitas, doutra cambraia
e a praia onde te banhas, de outra
água.
Lídia Jorge
4 de julho, 2004
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
[ENTRADAS] ... e tac, tac, tac ...
Passagem por Jerusalém
"Como se sabe, ali três Livros Sagrados entrelaçam as páginas por cima das cúpulas de pedra, e nem sempre houve lugar para virá-las todas ao mesmo tempo. Os recentes ciprestes que unem as fachadas parecem dizer que Deus só falou uma vez, e as divergências apenas resultam das cópias sucessivas dessa única fala. Perigoso mesmo até ao risco de morte é que as divergências sejam motivo, ou pretexto, para o desentendimento. Como em nenhuma outra cidade, em Jerusalém, cidade que transporta o sinal da paz no seu nome, se resume a sorte guerreira da Terra inteira" - da crónica de Lídia Jorge hoje arquivada neste blogue.
"Como se sabe, ali três Livros Sagrados entrelaçam as páginas por cima das cúpulas de pedra, e nem sempre houve lugar para virá-las todas ao mesmo tempo. Os recentes ciprestes que unem as fachadas parecem dizer que Deus só falou uma vez, e as divergências apenas resultam das cópias sucessivas dessa única fala. Perigoso mesmo até ao risco de morte é que as divergências sejam motivo, ou pretexto, para o desentendimento. Como em nenhuma outra cidade, em Jerusalém, cidade que transporta o sinal da paz no seu nome, se resume a sorte guerreira da Terra inteira" - da crónica de Lídia Jorge hoje arquivada neste blogue.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
[ENTRADAS] Depoimento de Karin von Schweder-Schreiner
Quando a Alemanha abre um livro português
"(...) na Alemanha existe sim um interesse, um fascínio pela cultura portuguesa, embora menos do que seria de desejar. O mercado livreiro alemão é dominado pelos livros traduzidos do inglês, sobretudo do inglês americano. Um autor português tem que ser muito bom para ser publicado na Alemanha, mas mesmo sendo muito bom sempre terá dificuldades em conquistar o grande público. Infelizmente, o gosto majoritário tende a consumir leituras mais fáceis, como os bestseller americanos. Mas os autores como Lídia que têm os livros publicados na Alemanha, têm um público fiel" - do depoimento da tradutora Karin von Schweder-Schreiner que hoje deu entrada neste blogue.
"(...) na Alemanha existe sim um interesse, um fascínio pela cultura portuguesa, embora menos do que seria de desejar. O mercado livreiro alemão é dominado pelos livros traduzidos do inglês, sobretudo do inglês americano. Um autor português tem que ser muito bom para ser publicado na Alemanha, mas mesmo sendo muito bom sempre terá dificuldades em conquistar o grande público. Infelizmente, o gosto majoritário tende a consumir leituras mais fáceis, como os bestseller americanos. Mas os autores como Lídia que têm os livros publicados na Alemanha, têm um público fiel" - do depoimento da tradutora Karin von Schweder-Schreiner que hoje deu entrada neste blogue.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
[Registo] Em Ouro Preto (Minas Gerais)
Eventos
Os primeiros confirmados
PublishNews - 16/09/2011 - Maria Fernanda Rodrigues
A portuguesa Lídia Jorge e o togolês Kangni Alem participam do Fórum das Letras entre 11 e 15 de novembro
Lídia Jorge nasceu em Portugal em 1946 e passou alguns anos em Angola e Moçambique. Kangni Alem, escritor, dramaturgo e diretor de teatro, nasceu no Togo em 1966 e escolheu a escravidão como um de seus temas de pesquisa. Eles são os dois primeiros convidados confirmados para o Fórum das Letras de Ouro Preto que vai discutir, entre os dias 11 e 15 de novembro, o tema “Memória e resistência”. Lídia tem três livros publicados pela Record: O vento assobiando nas gruas (2008), A costa dos murmúrios (2004) e A manta do soldado (2003). Apesar de não ter nenhum livro à venda no Brasil, o togolês já é conhecido dos brasileiros - ele veio ao país há alguns anos para pesquisar o retorno de escravos africanos que viveram por aqui no século XIX e participou de algumas conferências.
[ECOS] Do blogue Da Literatura, de Eduardo Pitta
Sexta-feira, Abril 01, 2011
LÍDIA JORGE
O sucesso de Lídia Jorge (n. 1946) deve-se à lufada de ar fresco que representou a publicação de livros como O Dia dos Prodígios (1980), primeiro de uma obra hoje canónica, e A Costa dos Murmúrios (1988), simultaneamente ponto de chegada e deslaçamento desse modo de ficcionalizar a História com as ferramentas do realismo fantástico (desenganem-se os que o reduzem à evasão do real). Lídia, que terá lido Carpentier como ele deve ser lido, assimilou bem a lição do caribenho. E, assim que pôde, criou uma língua nova.
Diria que o ponto de viragem se deu com O Vento Assobiando nas Gruas (2002), mas é convicção privada, sem propósito doutrinal, apenas corroborada com o que chegou depois.
A Noite das Mulheres Cantoras deve ser lido ao som das Doce, a girl band (1980-84) que revolucionou a pop portuguesa no tempo pré-europeu que acicatou as cicatrizes da borrasca imperial: «A certa altura [...] apenas possuíamos umas malas que abríamos à noite e fechávamos de manhã, à medida de um corredor de hotel onde ficámos alojados durante seis meses. [...]Era o que nos restava de um tremendo erro de cálculo, um apego extemporâneo do meu pai a uma fábrica de chá nos campos do Gurué.» Solange de Matos não esquece.
Lídia compõe os retratos minuciosos dessas cinco raparigas «com histórias e naturalidades distintas, atraídas em simultâneo desde várias partes de África pelo som de um piano.» A narradora é Solange: usa quatro heterónimos e faz o patchwork da intriga. Madalena Micaia, a voz do grupo, sobrevivendo em África rodeada de «sida e peste». As irmãs Alcides, Maria Luísa e Nani, duas raparigas bem nascidas com quem Solange mantinha uma «ligação subterrânea» desde os bancos do Anfiteatro Um da Universidade Nova de Lisboa. Têm voz de soprano, simétrica à violência dos insultos («Vão cantar para o Huambo.») e pichagens que provocam. Querem que Solange lhes escreva lyrics, sublinham lyrics em inglês, embora Nani, a mais nova, também queira «gerar um movimento, um grito, uma interrupção qualquer.» E depois Gisela Batista, a «maga» pré-punk que desconstrói a sociedade burguesa sem prescindir da segurança material das classes possidentes. Cinco mulheres à procura de um país.
Lídia segura o plot sem perder de vista a História. Ficou dito, ou pelo menos intuído, que a descolonização uniu o grupo. Solange é filha de um regente agrícola nas terras do chá, guarda recordação dos picos azuis do Namuli, em pleno Gurué (Moçambique), em especial daquele dia profético em que o «aluno dilecto» do pai lhes mostrou o panfleto independentista: «Expulsá-los-emos até à sua última pegada.» Dali ao retorno foi um passo, pela rota de Joanesburgo, após a partida dos contingentes. Tinham à sua espera o Sobradinho.
Romance contemporâneo sobre a construção do êxito, pode-se dizer, sem risco de controvérsia, que A Noite das Mulheres Cantoras revisita o Portugal dos eighties. Tudo aí vai dar, mesmo o Mahler que incendeia certa casa da Praça das Flores, entalado entre Grieg e um sucesso da banda: «Ah! Afortunada, afortunada / Por isso esta canção / Te dá tudo / E não quer nada…» Muito interessante o modo como Lídia ilustra o despertar da libertinagem pequeno-burguesa, estocada final nas convenções: «Todos nus à piscina! [...] O slip do José Alexandre era escuro, mas o do Lucena era claro, e quando saltava e se movia era como se estivesse nu...» Com o estardalhaço próprio de iniciados, as pessoas comuns tomavam as prerrogativas dos eleitos (alta sociedade, artistas). Chegando na hora certa, aquela banda de mulheres talentosas, altas e bonitas, trouxe o ímpeto do futuro.
Mais-valia: Lídia escreve com linearidade (vantagem de quem tem voz própria), sugestionando o leitor com delicadas incursões no universo psicológico das suas personagens. Não se pode dizer o mesmo de muitos.
Diria que o ponto de viragem se deu com O Vento Assobiando nas Gruas (2002), mas é convicção privada, sem propósito doutrinal, apenas corroborada com o que chegou depois.
A Noite das Mulheres Cantoras deve ser lido ao som das Doce, a girl band (1980-84) que revolucionou a pop portuguesa no tempo pré-europeu que acicatou as cicatrizes da borrasca imperial: «A certa altura [...] apenas possuíamos umas malas que abríamos à noite e fechávamos de manhã, à medida de um corredor de hotel onde ficámos alojados durante seis meses. [...]Era o que nos restava de um tremendo erro de cálculo, um apego extemporâneo do meu pai a uma fábrica de chá nos campos do Gurué.» Solange de Matos não esquece.
Lídia compõe os retratos minuciosos dessas cinco raparigas «com histórias e naturalidades distintas, atraídas em simultâneo desde várias partes de África pelo som de um piano.» A narradora é Solange: usa quatro heterónimos e faz o patchwork da intriga. Madalena Micaia, a voz do grupo, sobrevivendo em África rodeada de «sida e peste». As irmãs Alcides, Maria Luísa e Nani, duas raparigas bem nascidas com quem Solange mantinha uma «ligação subterrânea» desde os bancos do Anfiteatro Um da Universidade Nova de Lisboa. Têm voz de soprano, simétrica à violência dos insultos («Vão cantar para o Huambo.») e pichagens que provocam. Querem que Solange lhes escreva lyrics, sublinham lyrics em inglês, embora Nani, a mais nova, também queira «gerar um movimento, um grito, uma interrupção qualquer.» E depois Gisela Batista, a «maga» pré-punk que desconstrói a sociedade burguesa sem prescindir da segurança material das classes possidentes. Cinco mulheres à procura de um país.
Lídia segura o plot sem perder de vista a História. Ficou dito, ou pelo menos intuído, que a descolonização uniu o grupo. Solange é filha de um regente agrícola nas terras do chá, guarda recordação dos picos azuis do Namuli, em pleno Gurué (Moçambique), em especial daquele dia profético em que o «aluno dilecto» do pai lhes mostrou o panfleto independentista: «Expulsá-los-emos até à sua última pegada.» Dali ao retorno foi um passo, pela rota de Joanesburgo, após a partida dos contingentes. Tinham à sua espera o Sobradinho.
Romance contemporâneo sobre a construção do êxito, pode-se dizer, sem risco de controvérsia, que A Noite das Mulheres Cantoras revisita o Portugal dos eighties. Tudo aí vai dar, mesmo o Mahler que incendeia certa casa da Praça das Flores, entalado entre Grieg e um sucesso da banda: «Ah! Afortunada, afortunada / Por isso esta canção / Te dá tudo / E não quer nada…» Muito interessante o modo como Lídia ilustra o despertar da libertinagem pequeno-burguesa, estocada final nas convenções: «Todos nus à piscina! [...] O slip do José Alexandre era escuro, mas o do Lucena era claro, e quando saltava e se movia era como se estivesse nu...» Com o estardalhaço próprio de iniciados, as pessoas comuns tomavam as prerrogativas dos eleitos (alta sociedade, artistas). Chegando na hora certa, aquela banda de mulheres talentosas, altas e bonitas, trouxe o ímpeto do futuro.
Mais-valia: Lídia escreve com linearidade (vantagem de quem tem voz própria), sugestionando o leitor com delicadas incursões no universo psicológico das suas personagens. Não se pode dizer o mesmo de muitos.
[ENTRADAS] Estava ali metido numa mesa de esguelha
Piano-bar
"Quando se tem histórias dentro da cabeça, sai-se para a rua e encontram-se duas, volta-se para casa e acham-se três, e se por uma certa noite de Primavera, se sai para jantar à luz das velas, encontra-se uma cena, tão poderosa, que uma pessoa não pode deixar de contá-la. Desta vez foi assim - A mesa estava à nossa espera. Em volta o restaurante, castanho e bege, parecia saído dum sonho antigo (...) " - da crónica de Lídia Jorge, hoje arquivada neste blogue.
"Quando se tem histórias dentro da cabeça, sai-se para a rua e encontram-se duas, volta-se para casa e acham-se três, e se por uma certa noite de Primavera, se sai para jantar à luz das velas, encontra-se uma cena, tão poderosa, que uma pessoa não pode deixar de contá-la. Desta vez foi assim - A mesa estava à nossa espera. Em volta o restaurante, castanho e bege, parecia saído dum sonho antigo (...) " - da crónica de Lídia Jorge, hoje arquivada neste blogue.
sábado, 24 de setembro de 2011
[ENTRADAS] Gracinda Candeias
Memórias do longe
"A abstracção de Gracinda Candeias assenta num desvario contido, enquadrado como se fosse uma vitrina ou uma redoma, sustido, poupado, transfigurado em manchas significativas. Formas como se fossem apenas formas, e no entanto, histórias. Histórias em repouso serenado, sensualidade resguardada, vidro ferido. De longe, para longe. E no intervalo, a proximidade inscrita" do texto para o álbum de serigrafias "Datura", de Gracinda Candeias, hoje arquivado neste neste blogue.
"A abstracção de Gracinda Candeias assenta num desvario contido, enquadrado como se fosse uma vitrina ou uma redoma, sustido, poupado, transfigurado em manchas significativas. Formas como se fossem apenas formas, e no entanto, histórias. Histórias em repouso serenado, sensualidade resguardada, vidro ferido. De longe, para longe. E no intervalo, a proximidade inscrita" do texto para o álbum de serigrafias "Datura", de Gracinda Candeias, hoje arquivado neste neste blogue.
- "No interior das suas transparências, fica uma dedada de matérias várias"- ler na íntegra → AQUI
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
[ECOS] Do Citador - "Combateremos a Sombra"
Opinião de Leitura
OpiniãoUm romance em torno de um psicanalista onde se faz a psicanálise de um país, Portugal, estereotipado em vários tipos de personagens, e num obscuro caso cujos contornos traduzem um conjunto de interesses instalados cujos tentáculos aprisionam toda uma sociedade, quer os seus elementos estejam directamente envolvidos ou não.
O psicanalista Osvaldo Campos é um homem "bom", e consciente dessa característica que lhe causa vários dissabores em termos do seu estatuto social, em que a sua mulher se separa dele ao envolver-se com outro psicanalista mais reputado e realista, que, ao contrário de Osvaldo, faz-se pagar bem e não possui uma agenda de consultas onde são mais os pacientes não pagantes que os pagantes. Maria London é a sua paciente preferida, com relatos de sonhos em que a realidade e o sonho se confundem, e que vai constituir o embrião do grande caso de crime e corrupção que o psicanalista vai tomar como a sua cruzada pessoal, aguçada ainda pelo caso amoroso com Rossiana, misteriosa personagem presa em cativeiro dois andares abaixo do seu consultório e que muito contribui para o aumento do perímetro de pesquisa de toda uma teia de interesses ilícitos onde quase toda a gente importante neste país estaria envolvida.
De mistério em mistério, intercalados pelas consultas a outros pacientes com estranhas obsessões, tudo e todos acabam por se ir conjugando num adensar de um estado de espírito colectivo que provoca várias atitudes radicais do psicanalista quer face aos seus pacientes quer face ao seguimento das pistas despoletadas por Maria London, ultrapassando o seu próprio código ético. Num envolvimento cada vez maior, e num atrevimento que não seria o desejável nesta sociedade, várias portas se vão fechando e vários estranhos silêncios se vão consolidando, e, à medida que a lucidez de Osvaldo vai aumentando quer a nível pessoal que a nível social, maior é a estranheza e desconforto que sente e que o encaminha para uma fatalidade que a escritora Lídia Jorge, magistralmente, e fazendo jus ao clima do romance, deixa ao leitor para interpretação e conclusão acerca dos seus verdadeiros contornos, e muitas são as pistas e mistérios adicionais deixados após o desenlace principal da narrativa.
Em suma, um enredo riquíssimo e variado com um ritmo que cativa e estimula o leitor ao longo das quase quinhentas páginas do romance, mantendo o interesse bem vivo até à última página, onde muitos são os pontos altos, não apenas em tudo o que está associado ao gigantesco caso de crime e corrupção, mas em vários momentos particulares em torno dos pacientes de Osvaldo, da sua história de amor com Rossiana e dos seus ideais, do seu ensaio "Quanto pesa uma alma?", da história de Maria London, das situações tensas vividas com a sua mulher Maria Cristina, e das atitudes dos seus colegas e conhecidos à medida que se radicaliza e se estranha o comportamento de Osvaldo. A perspectiva correcta sobre o real, ingénua por natureza por não aceitar as regras instituídas, é uma atitude que se paga caro num ostracismo não assumido que obriga a uma adaptação restritiva ou a um isolamento resignado sob pena de corromper a própria alma num processo de esvaziamento à medida que se nivela com a mediocridade da maioria da sociedade.
O psicanalista Osvaldo Campos é um homem "bom", e consciente dessa característica que lhe causa vários dissabores em termos do seu estatuto social, em que a sua mulher se separa dele ao envolver-se com outro psicanalista mais reputado e realista, que, ao contrário de Osvaldo, faz-se pagar bem e não possui uma agenda de consultas onde são mais os pacientes não pagantes que os pagantes. Maria London é a sua paciente preferida, com relatos de sonhos em que a realidade e o sonho se confundem, e que vai constituir o embrião do grande caso de crime e corrupção que o psicanalista vai tomar como a sua cruzada pessoal, aguçada ainda pelo caso amoroso com Rossiana, misteriosa personagem presa em cativeiro dois andares abaixo do seu consultório e que muito contribui para o aumento do perímetro de pesquisa de toda uma teia de interesses ilícitos onde quase toda a gente importante neste país estaria envolvida.
De mistério em mistério, intercalados pelas consultas a outros pacientes com estranhas obsessões, tudo e todos acabam por se ir conjugando num adensar de um estado de espírito colectivo que provoca várias atitudes radicais do psicanalista quer face aos seus pacientes quer face ao seguimento das pistas despoletadas por Maria London, ultrapassando o seu próprio código ético. Num envolvimento cada vez maior, e num atrevimento que não seria o desejável nesta sociedade, várias portas se vão fechando e vários estranhos silêncios se vão consolidando, e, à medida que a lucidez de Osvaldo vai aumentando quer a nível pessoal que a nível social, maior é a estranheza e desconforto que sente e que o encaminha para uma fatalidade que a escritora Lídia Jorge, magistralmente, e fazendo jus ao clima do romance, deixa ao leitor para interpretação e conclusão acerca dos seus verdadeiros contornos, e muitas são as pistas e mistérios adicionais deixados após o desenlace principal da narrativa.
Em suma, um enredo riquíssimo e variado com um ritmo que cativa e estimula o leitor ao longo das quase quinhentas páginas do romance, mantendo o interesse bem vivo até à última página, onde muitos são os pontos altos, não apenas em tudo o que está associado ao gigantesco caso de crime e corrupção, mas em vários momentos particulares em torno dos pacientes de Osvaldo, da sua história de amor com Rossiana e dos seus ideais, do seu ensaio "Quanto pesa uma alma?", da história de Maria London, das situações tensas vividas com a sua mulher Maria Cristina, e das atitudes dos seus colegas e conhecidos à medida que se radicaliza e se estranha o comportamento de Osvaldo. A perspectiva correcta sobre o real, ingénua por natureza por não aceitar as regras instituídas, é uma atitude que se paga caro num ostracismo não assumido que obriga a uma adaptação restritiva ou a um isolamento resignado sob pena de corromper a própria alma num processo de esvaziamento à medida que se nivela com a mediocridade da maioria da sociedade.
[ENTRADAS] Quando se quer escrever sobre uma cidade
Lisboa existe
"Uma recolha de textos publicada há anos em França, tem por título LISBONNE N’EXISTE PAS. Muitos dos textos que lá se encontram são dos melhores que alguma vez foram escritos sobre esta cidade. Possivelmente, o título surgiu desse desafio, ou esse desafio surgiu desse título, a ordem não importa. O que interessa é que ele coloca a questão no sítio certo – Quando se quer escrever sobre uma cidade, ela parece não existir fora de nós, a totalidade perde-se, a realidade some-se. Ficamos com a sensação da traça perdida no armário, entre costuras e enchumaços" – do texto hoje arquivado neste blogue.
"Uma recolha de textos publicada há anos em França, tem por título LISBONNE N’EXISTE PAS. Muitos dos textos que lá se encontram são dos melhores que alguma vez foram escritos sobre esta cidade. Possivelmente, o título surgiu desse desafio, ou esse desafio surgiu desse título, a ordem não importa. O que interessa é que ele coloca a questão no sítio certo – Quando se quer escrever sobre uma cidade, ela parece não existir fora de nós, a totalidade perde-se, a realidade some-se. Ficamos com a sensação da traça perdida no armário, entre costuras e enchumaços" – do texto hoje arquivado neste blogue.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
[ENTRADAS] Uma leitura de "Contrato Sentimental"
Um possível Portugal num futuro distante
Diz Fabio Mario da Silva: " (...) esta obra de Lídia Jorge é de fundamental relevância para os estudos da cultura portuguesa e vem dar seu contributo para (re)pensar esta sociedade, a partir de uma visão do macro (mundo globalizado) para o micro (cultura portuguesa). No levantamento breve nota-se que o vocábulo futuro é constantemente utilizado como quem almeja um outro país, que consiga sobreviver sem insistir tanto em olhar para o passado, todavia consiga enxergar a sua história passada apenas como um grande patrimônio cultural e não como único ato de sobrevivência da atual sociedade, porque se esta atitude e posicionamento não mudar, acarretará uma grande problemática: 'Nada nos garante que no futuro não existam portugueses que assumam sê-lo com orgulho, mas que se tornem indiferentes ao destino de um país chamado Portugal´ " - da recensão publicada na revista Navegações | Porto Alegre, que hoje deu entrada neste arquivo.
Diz Fabio Mario da Silva: " (...) esta obra de Lídia Jorge é de fundamental relevância para os estudos da cultura portuguesa e vem dar seu contributo para (re)pensar esta sociedade, a partir de uma visão do macro (mundo globalizado) para o micro (cultura portuguesa). No levantamento breve nota-se que o vocábulo futuro é constantemente utilizado como quem almeja um outro país, que consiga sobreviver sem insistir tanto em olhar para o passado, todavia consiga enxergar a sua história passada apenas como um grande patrimônio cultural e não como único ato de sobrevivência da atual sociedade, porque se esta atitude e posicionamento não mudar, acarretará uma grande problemática: 'Nada nos garante que no futuro não existam portugueses que assumam sê-lo com orgulho, mas que se tornem indiferentes ao destino de um país chamado Portugal´ " - da recensão publicada na revista Navegações | Porto Alegre, que hoje deu entrada neste arquivo.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
[ENTRADAS] Poderoso criador de fábulas
Gonçalo M. Tavares
"Ou seja - Abrir os seus livros é ir ao encontro de figuras que parecem sair do interior da Terra, ou criaturas aéreas que de súbito pousam no nosso espaço, vagueando à nossa volta de propósito para nos mostrarem um desígnio de entendimento que falta – São figuras proféticas, amantes, loucos, pacientes, pobres condenados, pedintes, prostitutas, médicos em prova consigo mesmos, escritores suspensos no tempo, criaturas que parecendo num primeiro momento não ser deste mundo, em breve nelas reconhecemos o rosto dos vários indivíduos que nos habitam em silêncio, a ponto de toda essa corporação de alienígenas se transformar em seres e vozes familiares. Essa é a principal proeza dos livros de Gonçalo M. Tavares (...) " - da apresentação de Gonçalo M. Tavares por Lídia Jorge, no Centre National du Livre, Paris, que hoje deu entrada neste arquivo.
"Ou seja - Abrir os seus livros é ir ao encontro de figuras que parecem sair do interior da Terra, ou criaturas aéreas que de súbito pousam no nosso espaço, vagueando à nossa volta de propósito para nos mostrarem um desígnio de entendimento que falta – São figuras proféticas, amantes, loucos, pacientes, pobres condenados, pedintes, prostitutas, médicos em prova consigo mesmos, escritores suspensos no tempo, criaturas que parecendo num primeiro momento não ser deste mundo, em breve nelas reconhecemos o rosto dos vários indivíduos que nos habitam em silêncio, a ponto de toda essa corporação de alienígenas se transformar em seres e vozes familiares. Essa é a principal proeza dos livros de Gonçalo M. Tavares (...) " - da apresentação de Gonçalo M. Tavares por Lídia Jorge, no Centre National du Livre, Paris, que hoje deu entrada neste arquivo.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
[ENTRADAS] A beleza está no seu lugar
O filme e o livro
"O número de imagens que um livro oferece são infinitas, as imagens de um filme são finitas. Da passagem de uma coisa para a outra existe um transvaze inevitável, onde alguma coisa em geral se perde em número e alguma se ganha em intensidade. No caso de “A Costa dos Murmúrios”, apesar de ter tido conhecimento prévio do argumento, e do cenário das filmagens não ser propriamente um mistério, o resultado do filme foi-me bastante surpreendente. As primeiras imagens surgiram e eu compreendi que a história que tinha escrito, sob as mãos da Margarida, e o corpo dos actores, havia-se transformado numa outra realidade, reescrita à luz de um outra invocação" - do depoimento de Lídia Jorge sobre o filme de Margarida Cardoso, hoje arquivado neste blogue.
"O número de imagens que um livro oferece são infinitas, as imagens de um filme são finitas. Da passagem de uma coisa para a outra existe um transvaze inevitável, onde alguma coisa em geral se perde em número e alguma se ganha em intensidade. No caso de “A Costa dos Murmúrios”, apesar de ter tido conhecimento prévio do argumento, e do cenário das filmagens não ser propriamente um mistério, o resultado do filme foi-me bastante surpreendente. As primeiras imagens surgiram e eu compreendi que a história que tinha escrito, sob as mãos da Margarida, e o corpo dos actores, havia-se transformado numa outra realidade, reescrita à luz de um outra invocação" - do depoimento de Lídia Jorge sobre o filme de Margarida Cardoso, hoje arquivado neste blogue.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Poema * Para António Alçada Baptista
Narrativa
Três bules sobre a mesa. Três chás.
Um é para ti, outro é para mim
E sobre o terceiro, tu disseste – Este é para Deus.
Ele não se senta, não tem lábios
Não tem dedos, não traz roupas, não tem olhos
Nem lê meu livro nem meu cravo.
De seu escravo sou pessoa
De seu rosto sou artista
E não me calça nem me despe
Não me enxerga nem me enlaça.
Não me acorda se desfaleço
No deserto do meu leito.
Não tem beijos para colocar na minha face.
E no entanto, três bules estão sobre a mesa.
Servi-os, peregrinando interiormente até ao fim do Mundo.
Ele há-de vir e há-de ser tudo.
Hei-de ser mudo até sentir o chá terceiro
Evaporar-se. Sobre o estendal desta toalha
Onde escrevi a espera, nunca é tarde.
Lídia Jorge *
______________________
* Incluído no livro
"António Alçada Baptista: Tempo afectuoso - Homenagem ao escritor amigo de todos nós",
Presença, fevereiro de 2007
domingo, 18 de setembro de 2011
[ECOS] Do Citador - "A Costa dos Murmúrios"
Opinião de Leitura
Opinião Um dos maiores escritores portugueses da actualidade, Lídia Jorge tem aqui uma obra que revela muitas das suas capacidades.
Uma dinâmica de narração reconstrói um momento pungente e dramático da história portuguesa recente, criando uma densidade que se projecta entre os significados político e militar, pragmáticos, e o sentir e vivenciar dos agentes individuais que nele participam.
Visão de mulher, não por uma suposta fragilidade de posição, mas por um se poder pôr 'de fora', mas muito 'perto', assim sendo superior, 'de cima', relativa aos participantes activos, soldados/maridos.
Linguagem poderosa, com um sentido poético, desvia-se da narração para criar formas e quadros compostos de sugestões e traços inventados, no campo do sentir.
A história surrealista d'"Os Gafanhotos" vai marcar sempre a narração/entrevista, do declinar de posições e convicções patéticas dum nacionalismo caduco, reflexo em figurantes inseguros, e numa exaltada e heróica cicatriz, mas que finalmente se apagam numa catástrofe semi-bíblica, e verde, duma nuvem que tudo obscurece.
Depois de reler o que escrevi, achei esta apreciação insuficiente, não chega para expressar a riqueza, e também complexidade, desta obra de L. Jorge.
Há tantos aspectos, multidireccionais, e multiqualitativos, que é difícil mencioná-los a todos, e principalmente, expressá-los numa síntese que compreenda com totalidade todas as mensagens.
Assim, se calhar o melhor que tenho a dizer é: leiam o livro.
Uma dinâmica de narração reconstrói um momento pungente e dramático da história portuguesa recente, criando uma densidade que se projecta entre os significados político e militar, pragmáticos, e o sentir e vivenciar dos agentes individuais que nele participam.
Visão de mulher, não por uma suposta fragilidade de posição, mas por um se poder pôr 'de fora', mas muito 'perto', assim sendo superior, 'de cima', relativa aos participantes activos, soldados/maridos.
Linguagem poderosa, com um sentido poético, desvia-se da narração para criar formas e quadros compostos de sugestões e traços inventados, no campo do sentir.
A história surrealista d'"Os Gafanhotos" vai marcar sempre a narração/entrevista, do declinar de posições e convicções patéticas dum nacionalismo caduco, reflexo em figurantes inseguros, e numa exaltada e heróica cicatriz, mas que finalmente se apagam numa catástrofe semi-bíblica, e verde, duma nuvem que tudo obscurece.
Depois de reler o que escrevi, achei esta apreciação insuficiente, não chega para expressar a riqueza, e também complexidade, desta obra de L. Jorge.
Há tantos aspectos, multidireccionais, e multiqualitativos, que é difícil mencioná-los a todos, e principalmente, expressá-los numa síntese que compreenda com totalidade todas as mensagens.
Assim, se calhar o melhor que tenho a dizer é: leiam o livro.
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