Quando a Alemanha abre um livro português
"(...) na Alemanha existe sim um interesse, um fascínio pela cultura portuguesa, embora menos do que seria de desejar. O mercado livreiro alemão é dominado pelos livros traduzidos do inglês, sobretudo do inglês americano. Um autor português tem que ser muito bom para ser publicado na Alemanha, mas mesmo sendo muito bom sempre terá dificuldades em conquistar o grande público. Infelizmente, o gosto majoritário tende a consumir leituras mais fáceis, como os bestseller americanos. Mas os autores como Lídia que têm os livros publicados na Alemanha, têm um público fiel" - do depoimento da tradutora Karin von Schweder-Schreiner que hoje deu entrada neste blogue.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
[Registo] Em Ouro Preto (Minas Gerais)
Eventos
Os primeiros confirmados
PublishNews - 16/09/2011 - Maria Fernanda Rodrigues
A portuguesa Lídia Jorge e o togolês Kangni Alem participam do Fórum das Letras entre 11 e 15 de novembro
Lídia Jorge nasceu em Portugal em 1946 e passou alguns anos em Angola e Moçambique. Kangni Alem, escritor, dramaturgo e diretor de teatro, nasceu no Togo em 1966 e escolheu a escravidão como um de seus temas de pesquisa. Eles são os dois primeiros convidados confirmados para o Fórum das Letras de Ouro Preto que vai discutir, entre os dias 11 e 15 de novembro, o tema “Memória e resistência”. Lídia tem três livros publicados pela Record: O vento assobiando nas gruas (2008), A costa dos murmúrios (2004) e A manta do soldado (2003). Apesar de não ter nenhum livro à venda no Brasil, o togolês já é conhecido dos brasileiros - ele veio ao país há alguns anos para pesquisar o retorno de escravos africanos que viveram por aqui no século XIX e participou de algumas conferências.
[ECOS] Do blogue Da Literatura, de Eduardo Pitta
Sexta-feira, Abril 01, 2011
LÍDIA JORGE
O sucesso de Lídia Jorge (n. 1946) deve-se à lufada de ar fresco que representou a publicação de livros como O Dia dos Prodígios (1980), primeiro de uma obra hoje canónica, e A Costa dos Murmúrios (1988), simultaneamente ponto de chegada e deslaçamento desse modo de ficcionalizar a História com as ferramentas do realismo fantástico (desenganem-se os que o reduzem à evasão do real). Lídia, que terá lido Carpentier como ele deve ser lido, assimilou bem a lição do caribenho. E, assim que pôde, criou uma língua nova.
Diria que o ponto de viragem se deu com O Vento Assobiando nas Gruas (2002), mas é convicção privada, sem propósito doutrinal, apenas corroborada com o que chegou depois.
A Noite das Mulheres Cantoras deve ser lido ao som das Doce, a girl band (1980-84) que revolucionou a pop portuguesa no tempo pré-europeu que acicatou as cicatrizes da borrasca imperial: «A certa altura [...] apenas possuíamos umas malas que abríamos à noite e fechávamos de manhã, à medida de um corredor de hotel onde ficámos alojados durante seis meses. [...]Era o que nos restava de um tremendo erro de cálculo, um apego extemporâneo do meu pai a uma fábrica de chá nos campos do Gurué.» Solange de Matos não esquece.
Lídia compõe os retratos minuciosos dessas cinco raparigas «com histórias e naturalidades distintas, atraídas em simultâneo desde várias partes de África pelo som de um piano.» A narradora é Solange: usa quatro heterónimos e faz o patchwork da intriga. Madalena Micaia, a voz do grupo, sobrevivendo em África rodeada de «sida e peste». As irmãs Alcides, Maria Luísa e Nani, duas raparigas bem nascidas com quem Solange mantinha uma «ligação subterrânea» desde os bancos do Anfiteatro Um da Universidade Nova de Lisboa. Têm voz de soprano, simétrica à violência dos insultos («Vão cantar para o Huambo.») e pichagens que provocam. Querem que Solange lhes escreva lyrics, sublinham lyrics em inglês, embora Nani, a mais nova, também queira «gerar um movimento, um grito, uma interrupção qualquer.» E depois Gisela Batista, a «maga» pré-punk que desconstrói a sociedade burguesa sem prescindir da segurança material das classes possidentes. Cinco mulheres à procura de um país.
Lídia segura o plot sem perder de vista a História. Ficou dito, ou pelo menos intuído, que a descolonização uniu o grupo. Solange é filha de um regente agrícola nas terras do chá, guarda recordação dos picos azuis do Namuli, em pleno Gurué (Moçambique), em especial daquele dia profético em que o «aluno dilecto» do pai lhes mostrou o panfleto independentista: «Expulsá-los-emos até à sua última pegada.» Dali ao retorno foi um passo, pela rota de Joanesburgo, após a partida dos contingentes. Tinham à sua espera o Sobradinho.
Romance contemporâneo sobre a construção do êxito, pode-se dizer, sem risco de controvérsia, que A Noite das Mulheres Cantoras revisita o Portugal dos eighties. Tudo aí vai dar, mesmo o Mahler que incendeia certa casa da Praça das Flores, entalado entre Grieg e um sucesso da banda: «Ah! Afortunada, afortunada / Por isso esta canção / Te dá tudo / E não quer nada…» Muito interessante o modo como Lídia ilustra o despertar da libertinagem pequeno-burguesa, estocada final nas convenções: «Todos nus à piscina! [...] O slip do José Alexandre era escuro, mas o do Lucena era claro, e quando saltava e se movia era como se estivesse nu...» Com o estardalhaço próprio de iniciados, as pessoas comuns tomavam as prerrogativas dos eleitos (alta sociedade, artistas). Chegando na hora certa, aquela banda de mulheres talentosas, altas e bonitas, trouxe o ímpeto do futuro.
Mais-valia: Lídia escreve com linearidade (vantagem de quem tem voz própria), sugestionando o leitor com delicadas incursões no universo psicológico das suas personagens. Não se pode dizer o mesmo de muitos.
Diria que o ponto de viragem se deu com O Vento Assobiando nas Gruas (2002), mas é convicção privada, sem propósito doutrinal, apenas corroborada com o que chegou depois.
A Noite das Mulheres Cantoras deve ser lido ao som das Doce, a girl band (1980-84) que revolucionou a pop portuguesa no tempo pré-europeu que acicatou as cicatrizes da borrasca imperial: «A certa altura [...] apenas possuíamos umas malas que abríamos à noite e fechávamos de manhã, à medida de um corredor de hotel onde ficámos alojados durante seis meses. [...]Era o que nos restava de um tremendo erro de cálculo, um apego extemporâneo do meu pai a uma fábrica de chá nos campos do Gurué.» Solange de Matos não esquece.
Lídia compõe os retratos minuciosos dessas cinco raparigas «com histórias e naturalidades distintas, atraídas em simultâneo desde várias partes de África pelo som de um piano.» A narradora é Solange: usa quatro heterónimos e faz o patchwork da intriga. Madalena Micaia, a voz do grupo, sobrevivendo em África rodeada de «sida e peste». As irmãs Alcides, Maria Luísa e Nani, duas raparigas bem nascidas com quem Solange mantinha uma «ligação subterrânea» desde os bancos do Anfiteatro Um da Universidade Nova de Lisboa. Têm voz de soprano, simétrica à violência dos insultos («Vão cantar para o Huambo.») e pichagens que provocam. Querem que Solange lhes escreva lyrics, sublinham lyrics em inglês, embora Nani, a mais nova, também queira «gerar um movimento, um grito, uma interrupção qualquer.» E depois Gisela Batista, a «maga» pré-punk que desconstrói a sociedade burguesa sem prescindir da segurança material das classes possidentes. Cinco mulheres à procura de um país.
Lídia segura o plot sem perder de vista a História. Ficou dito, ou pelo menos intuído, que a descolonização uniu o grupo. Solange é filha de um regente agrícola nas terras do chá, guarda recordação dos picos azuis do Namuli, em pleno Gurué (Moçambique), em especial daquele dia profético em que o «aluno dilecto» do pai lhes mostrou o panfleto independentista: «Expulsá-los-emos até à sua última pegada.» Dali ao retorno foi um passo, pela rota de Joanesburgo, após a partida dos contingentes. Tinham à sua espera o Sobradinho.
Romance contemporâneo sobre a construção do êxito, pode-se dizer, sem risco de controvérsia, que A Noite das Mulheres Cantoras revisita o Portugal dos eighties. Tudo aí vai dar, mesmo o Mahler que incendeia certa casa da Praça das Flores, entalado entre Grieg e um sucesso da banda: «Ah! Afortunada, afortunada / Por isso esta canção / Te dá tudo / E não quer nada…» Muito interessante o modo como Lídia ilustra o despertar da libertinagem pequeno-burguesa, estocada final nas convenções: «Todos nus à piscina! [...] O slip do José Alexandre era escuro, mas o do Lucena era claro, e quando saltava e se movia era como se estivesse nu...» Com o estardalhaço próprio de iniciados, as pessoas comuns tomavam as prerrogativas dos eleitos (alta sociedade, artistas). Chegando na hora certa, aquela banda de mulheres talentosas, altas e bonitas, trouxe o ímpeto do futuro.
Mais-valia: Lídia escreve com linearidade (vantagem de quem tem voz própria), sugestionando o leitor com delicadas incursões no universo psicológico das suas personagens. Não se pode dizer o mesmo de muitos.
[ENTRADAS] Estava ali metido numa mesa de esguelha
Piano-bar
"Quando se tem histórias dentro da cabeça, sai-se para a rua e encontram-se duas, volta-se para casa e acham-se três, e se por uma certa noite de Primavera, se sai para jantar à luz das velas, encontra-se uma cena, tão poderosa, que uma pessoa não pode deixar de contá-la. Desta vez foi assim - A mesa estava à nossa espera. Em volta o restaurante, castanho e bege, parecia saído dum sonho antigo (...) " - da crónica de Lídia Jorge, hoje arquivada neste blogue.
"Quando se tem histórias dentro da cabeça, sai-se para a rua e encontram-se duas, volta-se para casa e acham-se três, e se por uma certa noite de Primavera, se sai para jantar à luz das velas, encontra-se uma cena, tão poderosa, que uma pessoa não pode deixar de contá-la. Desta vez foi assim - A mesa estava à nossa espera. Em volta o restaurante, castanho e bege, parecia saído dum sonho antigo (...) " - da crónica de Lídia Jorge, hoje arquivada neste blogue.
sábado, 24 de setembro de 2011
[ENTRADAS] Gracinda Candeias
Memórias do longe
"A abstracção de Gracinda Candeias assenta num desvario contido, enquadrado como se fosse uma vitrina ou uma redoma, sustido, poupado, transfigurado em manchas significativas. Formas como se fossem apenas formas, e no entanto, histórias. Histórias em repouso serenado, sensualidade resguardada, vidro ferido. De longe, para longe. E no intervalo, a proximidade inscrita" do texto para o álbum de serigrafias "Datura", de Gracinda Candeias, hoje arquivado neste neste blogue.
"A abstracção de Gracinda Candeias assenta num desvario contido, enquadrado como se fosse uma vitrina ou uma redoma, sustido, poupado, transfigurado em manchas significativas. Formas como se fossem apenas formas, e no entanto, histórias. Histórias em repouso serenado, sensualidade resguardada, vidro ferido. De longe, para longe. E no intervalo, a proximidade inscrita" do texto para o álbum de serigrafias "Datura", de Gracinda Candeias, hoje arquivado neste neste blogue.
- "No interior das suas transparências, fica uma dedada de matérias várias"- ler na íntegra → AQUI
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
[ECOS] Do Citador - "Combateremos a Sombra"
Opinião de Leitura
OpiniãoUm romance em torno de um psicanalista onde se faz a psicanálise de um país, Portugal, estereotipado em vários tipos de personagens, e num obscuro caso cujos contornos traduzem um conjunto de interesses instalados cujos tentáculos aprisionam toda uma sociedade, quer os seus elementos estejam directamente envolvidos ou não.
O psicanalista Osvaldo Campos é um homem "bom", e consciente dessa característica que lhe causa vários dissabores em termos do seu estatuto social, em que a sua mulher se separa dele ao envolver-se com outro psicanalista mais reputado e realista, que, ao contrário de Osvaldo, faz-se pagar bem e não possui uma agenda de consultas onde são mais os pacientes não pagantes que os pagantes. Maria London é a sua paciente preferida, com relatos de sonhos em que a realidade e o sonho se confundem, e que vai constituir o embrião do grande caso de crime e corrupção que o psicanalista vai tomar como a sua cruzada pessoal, aguçada ainda pelo caso amoroso com Rossiana, misteriosa personagem presa em cativeiro dois andares abaixo do seu consultório e que muito contribui para o aumento do perímetro de pesquisa de toda uma teia de interesses ilícitos onde quase toda a gente importante neste país estaria envolvida.
De mistério em mistério, intercalados pelas consultas a outros pacientes com estranhas obsessões, tudo e todos acabam por se ir conjugando num adensar de um estado de espírito colectivo que provoca várias atitudes radicais do psicanalista quer face aos seus pacientes quer face ao seguimento das pistas despoletadas por Maria London, ultrapassando o seu próprio código ético. Num envolvimento cada vez maior, e num atrevimento que não seria o desejável nesta sociedade, várias portas se vão fechando e vários estranhos silêncios se vão consolidando, e, à medida que a lucidez de Osvaldo vai aumentando quer a nível pessoal que a nível social, maior é a estranheza e desconforto que sente e que o encaminha para uma fatalidade que a escritora Lídia Jorge, magistralmente, e fazendo jus ao clima do romance, deixa ao leitor para interpretação e conclusão acerca dos seus verdadeiros contornos, e muitas são as pistas e mistérios adicionais deixados após o desenlace principal da narrativa.
Em suma, um enredo riquíssimo e variado com um ritmo que cativa e estimula o leitor ao longo das quase quinhentas páginas do romance, mantendo o interesse bem vivo até à última página, onde muitos são os pontos altos, não apenas em tudo o que está associado ao gigantesco caso de crime e corrupção, mas em vários momentos particulares em torno dos pacientes de Osvaldo, da sua história de amor com Rossiana e dos seus ideais, do seu ensaio "Quanto pesa uma alma?", da história de Maria London, das situações tensas vividas com a sua mulher Maria Cristina, e das atitudes dos seus colegas e conhecidos à medida que se radicaliza e se estranha o comportamento de Osvaldo. A perspectiva correcta sobre o real, ingénua por natureza por não aceitar as regras instituídas, é uma atitude que se paga caro num ostracismo não assumido que obriga a uma adaptação restritiva ou a um isolamento resignado sob pena de corromper a própria alma num processo de esvaziamento à medida que se nivela com a mediocridade da maioria da sociedade.
O psicanalista Osvaldo Campos é um homem "bom", e consciente dessa característica que lhe causa vários dissabores em termos do seu estatuto social, em que a sua mulher se separa dele ao envolver-se com outro psicanalista mais reputado e realista, que, ao contrário de Osvaldo, faz-se pagar bem e não possui uma agenda de consultas onde são mais os pacientes não pagantes que os pagantes. Maria London é a sua paciente preferida, com relatos de sonhos em que a realidade e o sonho se confundem, e que vai constituir o embrião do grande caso de crime e corrupção que o psicanalista vai tomar como a sua cruzada pessoal, aguçada ainda pelo caso amoroso com Rossiana, misteriosa personagem presa em cativeiro dois andares abaixo do seu consultório e que muito contribui para o aumento do perímetro de pesquisa de toda uma teia de interesses ilícitos onde quase toda a gente importante neste país estaria envolvida.
De mistério em mistério, intercalados pelas consultas a outros pacientes com estranhas obsessões, tudo e todos acabam por se ir conjugando num adensar de um estado de espírito colectivo que provoca várias atitudes radicais do psicanalista quer face aos seus pacientes quer face ao seguimento das pistas despoletadas por Maria London, ultrapassando o seu próprio código ético. Num envolvimento cada vez maior, e num atrevimento que não seria o desejável nesta sociedade, várias portas se vão fechando e vários estranhos silêncios se vão consolidando, e, à medida que a lucidez de Osvaldo vai aumentando quer a nível pessoal que a nível social, maior é a estranheza e desconforto que sente e que o encaminha para uma fatalidade que a escritora Lídia Jorge, magistralmente, e fazendo jus ao clima do romance, deixa ao leitor para interpretação e conclusão acerca dos seus verdadeiros contornos, e muitas são as pistas e mistérios adicionais deixados após o desenlace principal da narrativa.
Em suma, um enredo riquíssimo e variado com um ritmo que cativa e estimula o leitor ao longo das quase quinhentas páginas do romance, mantendo o interesse bem vivo até à última página, onde muitos são os pontos altos, não apenas em tudo o que está associado ao gigantesco caso de crime e corrupção, mas em vários momentos particulares em torno dos pacientes de Osvaldo, da sua história de amor com Rossiana e dos seus ideais, do seu ensaio "Quanto pesa uma alma?", da história de Maria London, das situações tensas vividas com a sua mulher Maria Cristina, e das atitudes dos seus colegas e conhecidos à medida que se radicaliza e se estranha o comportamento de Osvaldo. A perspectiva correcta sobre o real, ingénua por natureza por não aceitar as regras instituídas, é uma atitude que se paga caro num ostracismo não assumido que obriga a uma adaptação restritiva ou a um isolamento resignado sob pena de corromper a própria alma num processo de esvaziamento à medida que se nivela com a mediocridade da maioria da sociedade.
[ENTRADAS] Quando se quer escrever sobre uma cidade
Lisboa existe
"Uma recolha de textos publicada há anos em França, tem por título LISBONNE N’EXISTE PAS. Muitos dos textos que lá se encontram são dos melhores que alguma vez foram escritos sobre esta cidade. Possivelmente, o título surgiu desse desafio, ou esse desafio surgiu desse título, a ordem não importa. O que interessa é que ele coloca a questão no sítio certo – Quando se quer escrever sobre uma cidade, ela parece não existir fora de nós, a totalidade perde-se, a realidade some-se. Ficamos com a sensação da traça perdida no armário, entre costuras e enchumaços" – do texto hoje arquivado neste blogue.
"Uma recolha de textos publicada há anos em França, tem por título LISBONNE N’EXISTE PAS. Muitos dos textos que lá se encontram são dos melhores que alguma vez foram escritos sobre esta cidade. Possivelmente, o título surgiu desse desafio, ou esse desafio surgiu desse título, a ordem não importa. O que interessa é que ele coloca a questão no sítio certo – Quando se quer escrever sobre uma cidade, ela parece não existir fora de nós, a totalidade perde-se, a realidade some-se. Ficamos com a sensação da traça perdida no armário, entre costuras e enchumaços" – do texto hoje arquivado neste blogue.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
[ENTRADAS] Uma leitura de "Contrato Sentimental"
Um possível Portugal num futuro distante
Diz Fabio Mario da Silva: " (...) esta obra de Lídia Jorge é de fundamental relevância para os estudos da cultura portuguesa e vem dar seu contributo para (re)pensar esta sociedade, a partir de uma visão do macro (mundo globalizado) para o micro (cultura portuguesa). No levantamento breve nota-se que o vocábulo futuro é constantemente utilizado como quem almeja um outro país, que consiga sobreviver sem insistir tanto em olhar para o passado, todavia consiga enxergar a sua história passada apenas como um grande patrimônio cultural e não como único ato de sobrevivência da atual sociedade, porque se esta atitude e posicionamento não mudar, acarretará uma grande problemática: 'Nada nos garante que no futuro não existam portugueses que assumam sê-lo com orgulho, mas que se tornem indiferentes ao destino de um país chamado Portugal´ " - da recensão publicada na revista Navegações | Porto Alegre, que hoje deu entrada neste arquivo.
Diz Fabio Mario da Silva: " (...) esta obra de Lídia Jorge é de fundamental relevância para os estudos da cultura portuguesa e vem dar seu contributo para (re)pensar esta sociedade, a partir de uma visão do macro (mundo globalizado) para o micro (cultura portuguesa). No levantamento breve nota-se que o vocábulo futuro é constantemente utilizado como quem almeja um outro país, que consiga sobreviver sem insistir tanto em olhar para o passado, todavia consiga enxergar a sua história passada apenas como um grande patrimônio cultural e não como único ato de sobrevivência da atual sociedade, porque se esta atitude e posicionamento não mudar, acarretará uma grande problemática: 'Nada nos garante que no futuro não existam portugueses que assumam sê-lo com orgulho, mas que se tornem indiferentes ao destino de um país chamado Portugal´ " - da recensão publicada na revista Navegações | Porto Alegre, que hoje deu entrada neste arquivo.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
[ENTRADAS] Poderoso criador de fábulas
Gonçalo M. Tavares
"Ou seja - Abrir os seus livros é ir ao encontro de figuras que parecem sair do interior da Terra, ou criaturas aéreas que de súbito pousam no nosso espaço, vagueando à nossa volta de propósito para nos mostrarem um desígnio de entendimento que falta – São figuras proféticas, amantes, loucos, pacientes, pobres condenados, pedintes, prostitutas, médicos em prova consigo mesmos, escritores suspensos no tempo, criaturas que parecendo num primeiro momento não ser deste mundo, em breve nelas reconhecemos o rosto dos vários indivíduos que nos habitam em silêncio, a ponto de toda essa corporação de alienígenas se transformar em seres e vozes familiares. Essa é a principal proeza dos livros de Gonçalo M. Tavares (...) " - da apresentação de Gonçalo M. Tavares por Lídia Jorge, no Centre National du Livre, Paris, que hoje deu entrada neste arquivo.
"Ou seja - Abrir os seus livros é ir ao encontro de figuras que parecem sair do interior da Terra, ou criaturas aéreas que de súbito pousam no nosso espaço, vagueando à nossa volta de propósito para nos mostrarem um desígnio de entendimento que falta – São figuras proféticas, amantes, loucos, pacientes, pobres condenados, pedintes, prostitutas, médicos em prova consigo mesmos, escritores suspensos no tempo, criaturas que parecendo num primeiro momento não ser deste mundo, em breve nelas reconhecemos o rosto dos vários indivíduos que nos habitam em silêncio, a ponto de toda essa corporação de alienígenas se transformar em seres e vozes familiares. Essa é a principal proeza dos livros de Gonçalo M. Tavares (...) " - da apresentação de Gonçalo M. Tavares por Lídia Jorge, no Centre National du Livre, Paris, que hoje deu entrada neste arquivo.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
[ENTRADAS] A beleza está no seu lugar
O filme e o livro
"O número de imagens que um livro oferece são infinitas, as imagens de um filme são finitas. Da passagem de uma coisa para a outra existe um transvaze inevitável, onde alguma coisa em geral se perde em número e alguma se ganha em intensidade. No caso de “A Costa dos Murmúrios”, apesar de ter tido conhecimento prévio do argumento, e do cenário das filmagens não ser propriamente um mistério, o resultado do filme foi-me bastante surpreendente. As primeiras imagens surgiram e eu compreendi que a história que tinha escrito, sob as mãos da Margarida, e o corpo dos actores, havia-se transformado numa outra realidade, reescrita à luz de um outra invocação" - do depoimento de Lídia Jorge sobre o filme de Margarida Cardoso, hoje arquivado neste blogue.
"O número de imagens que um livro oferece são infinitas, as imagens de um filme são finitas. Da passagem de uma coisa para a outra existe um transvaze inevitável, onde alguma coisa em geral se perde em número e alguma se ganha em intensidade. No caso de “A Costa dos Murmúrios”, apesar de ter tido conhecimento prévio do argumento, e do cenário das filmagens não ser propriamente um mistério, o resultado do filme foi-me bastante surpreendente. As primeiras imagens surgiram e eu compreendi que a história que tinha escrito, sob as mãos da Margarida, e o corpo dos actores, havia-se transformado numa outra realidade, reescrita à luz de um outra invocação" - do depoimento de Lídia Jorge sobre o filme de Margarida Cardoso, hoje arquivado neste blogue.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Poema * Para António Alçada Baptista
Narrativa
Três bules sobre a mesa. Três chás.
Um é para ti, outro é para mim
E sobre o terceiro, tu disseste – Este é para Deus.
Ele não se senta, não tem lábios
Não tem dedos, não traz roupas, não tem olhos
Nem lê meu livro nem meu cravo.
De seu escravo sou pessoa
De seu rosto sou artista
E não me calça nem me despe
Não me enxerga nem me enlaça.
Não me acorda se desfaleço
No deserto do meu leito.
Não tem beijos para colocar na minha face.
E no entanto, três bules estão sobre a mesa.
Servi-os, peregrinando interiormente até ao fim do Mundo.
Ele há-de vir e há-de ser tudo.
Hei-de ser mudo até sentir o chá terceiro
Evaporar-se. Sobre o estendal desta toalha
Onde escrevi a espera, nunca é tarde.
Lídia Jorge *
______________________
* Incluído no livro
"António Alçada Baptista: Tempo afectuoso - Homenagem ao escritor amigo de todos nós",
Presença, fevereiro de 2007
domingo, 18 de setembro de 2011
[ECOS] Do Citador - "A Costa dos Murmúrios"
Opinião de Leitura
Opinião Um dos maiores escritores portugueses da actualidade, Lídia Jorge tem aqui uma obra que revela muitas das suas capacidades.
Uma dinâmica de narração reconstrói um momento pungente e dramático da história portuguesa recente, criando uma densidade que se projecta entre os significados político e militar, pragmáticos, e o sentir e vivenciar dos agentes individuais que nele participam.
Visão de mulher, não por uma suposta fragilidade de posição, mas por um se poder pôr 'de fora', mas muito 'perto', assim sendo superior, 'de cima', relativa aos participantes activos, soldados/maridos.
Linguagem poderosa, com um sentido poético, desvia-se da narração para criar formas e quadros compostos de sugestões e traços inventados, no campo do sentir.
A história surrealista d'"Os Gafanhotos" vai marcar sempre a narração/entrevista, do declinar de posições e convicções patéticas dum nacionalismo caduco, reflexo em figurantes inseguros, e numa exaltada e heróica cicatriz, mas que finalmente se apagam numa catástrofe semi-bíblica, e verde, duma nuvem que tudo obscurece.
Depois de reler o que escrevi, achei esta apreciação insuficiente, não chega para expressar a riqueza, e também complexidade, desta obra de L. Jorge.
Há tantos aspectos, multidireccionais, e multiqualitativos, que é difícil mencioná-los a todos, e principalmente, expressá-los numa síntese que compreenda com totalidade todas as mensagens.
Assim, se calhar o melhor que tenho a dizer é: leiam o livro.
Uma dinâmica de narração reconstrói um momento pungente e dramático da história portuguesa recente, criando uma densidade que se projecta entre os significados político e militar, pragmáticos, e o sentir e vivenciar dos agentes individuais que nele participam.
Visão de mulher, não por uma suposta fragilidade de posição, mas por um se poder pôr 'de fora', mas muito 'perto', assim sendo superior, 'de cima', relativa aos participantes activos, soldados/maridos.
Linguagem poderosa, com um sentido poético, desvia-se da narração para criar formas e quadros compostos de sugestões e traços inventados, no campo do sentir.
A história surrealista d'"Os Gafanhotos" vai marcar sempre a narração/entrevista, do declinar de posições e convicções patéticas dum nacionalismo caduco, reflexo em figurantes inseguros, e numa exaltada e heróica cicatriz, mas que finalmente se apagam numa catástrofe semi-bíblica, e verde, duma nuvem que tudo obscurece.
Depois de reler o que escrevi, achei esta apreciação insuficiente, não chega para expressar a riqueza, e também complexidade, desta obra de L. Jorge.
Há tantos aspectos, multidireccionais, e multiqualitativos, que é difícil mencioná-los a todos, e principalmente, expressá-los numa síntese que compreenda com totalidade todas as mensagens.
Assim, se calhar o melhor que tenho a dizer é: leiam o livro.
[ENTRADAS] A Terra vista do espaço
O que mais desejava ver
"Dizem que avistada a partir de escassos quilómetros, já não se sabe onde começam e acabam os países, que tudo são apenas montanhas, rios, planícies, mares, ocultados por nuvens que se deslocam em forma de farrapos e massas circulares. Isto é, ainda não se saiu da atmosfera, e já a Terra deixa de ser política, passa a ser apenas o que é - um planeta, uma realidade geográfica. Dizem que é esse sentimento de coisa única que nos faz sentir que somos uma só humanidade, a última face da humanidade, tão transitória como foi a que nos precedeu e como será aquela que estará para vir (...) - do depoimento de Lídia Jorge, hoje arquivado neste blogue.
"Dizem que avistada a partir de escassos quilómetros, já não se sabe onde começam e acabam os países, que tudo são apenas montanhas, rios, planícies, mares, ocultados por nuvens que se deslocam em forma de farrapos e massas circulares. Isto é, ainda não se saiu da atmosfera, e já a Terra deixa de ser política, passa a ser apenas o que é - um planeta, uma realidade geográfica. Dizem que é esse sentimento de coisa única que nos faz sentir que somos uma só humanidade, a última face da humanidade, tão transitória como foi a que nos precedeu e como será aquela que estará para vir (...) - do depoimento de Lídia Jorge, hoje arquivado neste blogue.
- "Dizem que, uma vez regressados, aqueles que a vêem do espaço não entendem mais por que nos espadeiramos uns aos outros. Eu quereria experimentar tudo isso, olhando a Terra de longe, como se estivesse a passear num jardim feito de coisa nenhuma, e de repente, sentisse que ali estava a minha morada." - ler na íntegra → AQUI
sábado, 17 de setembro de 2011
[ENTRADAS] A perspectiva da maga
Permanente exercício de translação
"Agustina vê-se a si mesma numa perspectiva de futuro, e escreve e fala na perspectiva da maga. O molde que encontrou para esse salto fora do tempo e do género, nos livros, foi a sentença e a epígrafe. Na discussão, foi a exploração do adverso, isto é, da contradição revestida do irónico, e até do irónico prazenteiro. Porque Agustina, como se lhe reconhece, sabe rir do mundo como ninguém. Como poucos, ri de todos, e entre todos - ao contrário do processo usado por muitos - ela mesma, lá não está" - do depoimento de Lídia Jorge, hoje arquivado neste blogue.
"Agustina vê-se a si mesma numa perspectiva de futuro, e escreve e fala na perspectiva da maga. O molde que encontrou para esse salto fora do tempo e do género, nos livros, foi a sentença e a epígrafe. Na discussão, foi a exploração do adverso, isto é, da contradição revestida do irónico, e até do irónico prazenteiro. Porque Agustina, como se lhe reconhece, sabe rir do mundo como ninguém. Como poucos, ri de todos, e entre todos - ao contrário do processo usado por muitos - ela mesma, lá não está" - do depoimento de Lídia Jorge, hoje arquivado neste blogue.
- "Para Agustina-Bessa Luís, o contraditório é o chão do pensamento. Quem não entender essa sua raiz profunda terá dificuldade em compreender a obra que produziu, o vínculo que estabelece com o mundo, com os livros, e até mesmo o tipo de relação que mantém com os colegas de quem é contemporânea" - ler na íntegra → AQUI
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
[ENTRADAS] O assunto levar-nos-ia longe.
Para que servem os intelectuais?
"Até há pouco tempo pensava-se que ao esplendor de uma obra correspondia necessariamente o esplendor de uma razão iluminada, mas hoje admira-se a obra sem necessariamente se dar crédito à opinião do seu autor. Isso, na minha ideia, constitui um progresso tão grande como separar a personagem do seu intérprete. Significa que as pessoas estão mais avisadas sobre a diferença de planos. Por exemplo, toda a gente hoje sabe que a opinião ideológica era a moldura que até há poucas décadas ditava a “inclinação” que conduzia à tomada de partido por este ou outro assunto, mesmo quando pouco ou nada se percebia sobre ele, mas essa situação não se compagina mais com o mundo de informação aberta. Muitas vezes aquilo que se chama a cobardia dos ditos intelectuais de agora não passa de uma hesitação perante realidades em conflito quando se desconhece uma parte da situação" - das respostas a questionário de Filipa Melo, hoje arquivadas neste blogue.
"Até há pouco tempo pensava-se que ao esplendor de uma obra correspondia necessariamente o esplendor de uma razão iluminada, mas hoje admira-se a obra sem necessariamente se dar crédito à opinião do seu autor. Isso, na minha ideia, constitui um progresso tão grande como separar a personagem do seu intérprete. Significa que as pessoas estão mais avisadas sobre a diferença de planos. Por exemplo, toda a gente hoje sabe que a opinião ideológica era a moldura que até há poucas décadas ditava a “inclinação” que conduzia à tomada de partido por este ou outro assunto, mesmo quando pouco ou nada se percebia sobre ele, mas essa situação não se compagina mais com o mundo de informação aberta. Muitas vezes aquilo que se chama a cobardia dos ditos intelectuais de agora não passa de uma hesitação perante realidades em conflito quando se desconhece uma parte da situação" - das respostas a questionário de Filipa Melo, hoje arquivadas neste blogue.
- "Há obras geniais repassadas de humanidade, saídas da mão de criadores a quem não se pode confiar durante uma hora o nosso animal de estimação, e há artistas boas pessoas que não conseguem fazer uma obra que vá além do sofrível. Entre uma e outra espécie, existe uma variedade de combinações infinitas."- ler na íntegra → AQUI
[Registo] Em Montreal
Os Estudos Portugueses e Lusófonos da Universidade de Montreal em colaboração com o Consulado–Geral de Portugal em Montreal e com o patrocínio do Instituto Camões, promovem uma série de inciativas integradas no 17.º Festival International de Littérature de Montréal (16 a 25 de setembro) dedicado em 2011 à literatura de viagens e com viagens, em que Portugal participa pela terceira vez consecutiva, este ano com a presença da escritora Lídia Jorge juntamente com Niklas Maak (Alemanha), António Orejudo (Espanha), Paul Fournel (França), Carles Casajuana (Catalunha) e Fabio Geda (Itália), que amanhã (18) participam numa mesa-redonda. ponto alto da iniciativa.
Para este Festival Internacional de Literatura de Montreal estão programados encontros literários, mesas-redondas com os escritores convidados, happenings, sessões de cinema, tertúlias e espetáculos centrados nas obras dos autores. As atividades do festival inserem-se no projeto Lisez l’Europe e foram organizadas pelo coletivo Europe(a) que reúne, ao longo de cada ano, várias instituições do Velho Continente, entre as quais, o Instituto Camões.
Ontem (15), no Instituto Goethe, integrado na atividade Ciné-Voyage, foi exibido o filme de Margarida Cardoso, "A Costa dos Murmúrios", na presença da escritora..
Tema lançado para debate: Vem o escritor transformado das viagens que faz ou permanece indiferente? De que modo as suas viagens afetam a produção literária? De que modo dá o escritor conta aos leitores das viagens que efetua?
Previsto também um "rali literário" - Odyssée dans la ville - no domingo (18). Os participantes irão percorrer as ruas da cidade, iniciando-se o percurso no restaurante Casa Minhota, com Lídia Jorge, terminando no Insituto Goethe. António Orejudo encontrar-se-á na Livraria Las Américas, Carles Casajuana na Galeria de l’UQAM, Fabio Geda na Maison des écrivains, Paul Fournel no Square St-Louis e, finalmente, Niklas Maak no Instituto Goethe.
Este rali literário, Odysée dans la ville, propõe a descoberta, de maneira apaixonada e lúdica, das variadas facetas da literatura europeia. O percurso será feito a pé, totalizando cerca de 3,5 km, ao longo do qual, os participantes se encontram com os escritores em pequenas tertúlias, com animação a cargo do ator Cyril Assathiany e de Miriam Cobo.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
[ENTRADAS] Conto breve
Filme com pássaros
"Num lindo filme americano, Ben tinha visto um rapaz da sua idade abrir a janela, chamar pelos pássaros, e de imediato eles logo vinham ter à sua mão. Então o rapaz oferecia-lhes grãos de arroz e eles agradeciam-lhe voando para cima do seu ombro. Mas consigo não era bem assim. Ben morava na Avenida dos Estados Unidos da América, abria a janela do seu quarto e em frente só havia prédios altos e o vento sempre a soprar. Uma verdadeira muralha de prédios. Ainda por cima, a mãe, numa manhã de Inverno, disse – “Surpresa!” - do pequeno conto infantil de Lídia Jorge que hoje deu entrada neste blogue.
"Num lindo filme americano, Ben tinha visto um rapaz da sua idade abrir a janela, chamar pelos pássaros, e de imediato eles logo vinham ter à sua mão. Então o rapaz oferecia-lhes grãos de arroz e eles agradeciam-lhe voando para cima do seu ombro. Mas consigo não era bem assim. Ben morava na Avenida dos Estados Unidos da América, abria a janela do seu quarto e em frente só havia prédios altos e o vento sempre a soprar. Uma verdadeira muralha de prédios. Ainda por cima, a mãe, numa manhã de Inverno, disse – “Surpresa!” - do pequeno conto infantil de Lídia Jorge que hoje deu entrada neste blogue.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
[ENTRADAS] E nisso são irmãos gémeos dos escritores
Editores | Laços de Família
" (...) eu pensava em Doroteia Bromberg naquela noite, em Estocolmo, quando a vi caminhar pela neve fora, rebocando um carrinho com os livros. Ela mesma, a editora de vários Prémio Nobel, ela mesma estendeu os livros sobre a mesa, expô-los, vendeu-os, guardou os que sobejaram, empurrou o carrinho ao longo da rua coberta de neve, e eu que ia atrás, a ver como os colocava na bagageira do seu carro, pensava na sua distinção, no seu respeito pelos autores, a sua cumplicidade, sua defesa, sua luta por umas histórias vindas de longe" - do depoimento de Lídia Jorge, hoje arquivado neste blogue.
" (...) eu pensava em Doroteia Bromberg naquela noite, em Estocolmo, quando a vi caminhar pela neve fora, rebocando um carrinho com os livros. Ela mesma, a editora de vários Prémio Nobel, ela mesma estendeu os livros sobre a mesa, expô-los, vendeu-os, guardou os que sobejaram, empurrou o carrinho ao longo da rua coberta de neve, e eu que ia atrás, a ver como os colocava na bagageira do seu carro, pensava na sua distinção, no seu respeito pelos autores, a sua cumplicidade, sua defesa, sua luta por umas histórias vindas de longe" - do depoimento de Lídia Jorge, hoje arquivado neste blogue.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
A Páginas Tantas * De "Contrato Sentimental"
Identidade
1.
Muitos são aqueles que apresentam razões fortes para duvidar, mas eu tenho a certeza de que Portugal existe. Ainda há pouco tempo atravessei o território de Norte a Sul, demorei sete horas, sempre a abrir, as auto-estradas funcionaram na perfeição, e por onde elas passavam havia bandeiras verde-rubras hasteadas em locais inimagináveis – encostas de montanhas, cimo de palheiros, telhados de igrejas e até em carros de bois, atadas aos fueiros da frente, eu as vi a acenar, como se a paisagem fosse uma parada. Isto aconteceu um mês depois de a Selecção Portuguesa ter ido à Suíça como favorita e os rapazes se terem portado mal. Quando perguntei a uma funcionária da estação de serviço por que razão ainda mantinham a bandeira arvorada no alto dos cedros, ela olhou-me com um certo desprezo – “Que importância tem? Não é por perdermos que deixamos de ser portugueses.” Já no regresso da viagem, vim a olhar para os campos e a pensar no poema que José Emilio Pacheco escreveu sobre o seu país. Vou procurar traduzir para português o que ele pensou em castelhano do México.
Não amo a minha pátria.Eu também.
O seu fulgor abstracto é inacessível.
Porém (ainda que soe mal) daria a minha vida
Por dez dos seus lugares, certas pessoas,
Portos, bosques de pinheiros, fortalezas,
Uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
Várias figuras da sua história, montanhas
- e três ou quatro rios.
Posto isto, convém dizer que eu tinha feito aquela viagem-relâmpago em direcção à Corunha, e quando voltava, ali mesmo onde a paisagem se abre no meio do arvoredo, a terra se prepara para a passagem dum rio, e a fronteira se aproxima a toda a velocidade, percebi que lá estava a placa branca e azul a indicar o país de chegada. A meio da placa de alvura impecável, podia ler-se Portugal, e por baixo, muito bem pinchada, a palavra lixo. Depois de centenas de quilómetros, aquele era o primeiro incidente na estrada. Fiquei contente, abrandei a marcha – Eram dois semáforos, numa placa só, a indicarem o caminho de casa.
Era preciso ter sorte. Vinha eu a pensar no poema do escritor mexicano, e a cogitar sobre umas linhas que me haviam sido encomendadas a propósito do futuro de Portugal, e aparecia-me de súbito aquele verso de quatro letras, a fazer-me regressar à genuína morada. Então eu pude confirmar que sim, que Portugal existe, que Portugal tem futuro. Pois o que estava escrito a meio da placa denunciava a marca da nossa inconfundível nacionalidade. Um espanhol teria escrito basura para se identificar, altivo como é, senhor da sua língua e da sua pronúncia. Um galego poderia ter escrito a mesma palavra, exactamente como nós, mas em princípio os filhos da Galiza costumam estimar e idealizar os portugueses, são nossos irmãos confessos. Não acredito na hipótese de que tenha sido mão galega que tivesse anunciado daquele jeito o seu desprezo em relação ao país vizinho, quando se aproximava da fronteira, ou acabando de o deixar, tivesse parado na berma, para expressar naqueles termos a sua vingança. De modo nenhum. A mão deveria ter sido portuguesa, pois a palavra que ali se encontrava, em negro resplandecente, muito bem desenhada, era aquela que já mencionei – lixo. Um verso irradiante que indicava uma fronteira de terra e uma fronteira de alma. Um modo de ser especial, a fazer adeus na superfície branca.
(...)
_________________
* Primeira página de “Contrato Sentimental”
Sextante (2009)
Sextante (2009)
domingo, 11 de setembro de 2011
[ENTRADAS] Armanda Passos
Moeda de ouro que a pintura pode dar
"Os grandes artistas não têm medo de enfrentar o lugar da carne antiga, da cabeça com vários olhos, ou o resto da nossa língua bífida, nem evitam o diálogo com os habitantes da lama e os habitantes das árvores. Os artistas sabem ir ao encontro desse terror e ao mesmo tempo dessa sublimação que nos faz pertencer a uma outra totalidade. O grande artista diz aos outros – Vejam como eu, todas as noites, me encontro com o impronunciável. Convido-vos a vir também. Foi essa viagem que, durante vários anos, eu aceitei fazer através de um quadro da Armanda Passos. Era apenas um bando de pássaros que me levava para esse lugar onde as coisas estremecem. E era bom" - do texto de Lídia Jorge para catálogo de Armanda Passos, hoje arquivado neste blogue.
"Os grandes artistas não têm medo de enfrentar o lugar da carne antiga, da cabeça com vários olhos, ou o resto da nossa língua bífida, nem evitam o diálogo com os habitantes da lama e os habitantes das árvores. Os artistas sabem ir ao encontro desse terror e ao mesmo tempo dessa sublimação que nos faz pertencer a uma outra totalidade. O grande artista diz aos outros – Vejam como eu, todas as noites, me encontro com o impronunciável. Convido-vos a vir também. Foi essa viagem que, durante vários anos, eu aceitei fazer através de um quadro da Armanda Passos. Era apenas um bando de pássaros que me levava para esse lugar onde as coisas estremecem. E era bom" - do texto de Lídia Jorge para catálogo de Armanda Passos, hoje arquivado neste blogue.
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