sexta-feira, 23 de setembro de 2011

[ENTRADAS] Quando se quer escrever sobre uma cidade

Lisboa existe

"Uma recolha de textos publicada há anos em França, tem por título LISBONNE N’EXISTE PAS. Muitos dos textos que lá se encontram são dos melhores que alguma vez foram escritos sobre esta cidade. Possivelmente, o título surgiu desse desafio, ou esse desafio surgiu desse título, a ordem não importa. O que interessa é que ele coloca a questão no sítio certo – Quando se quer escrever sobre uma cidade, ela parece não existir fora de nós, a totalidade perde-se, a realidade some-se. Ficamos com a sensação da traça perdida no armário, entre costuras e enchumaços" – do texto hoje arquivado neste blogue.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

[ENTRADAS] Uma leitura de "Contrato Sentimental"

Um possível Portugal num futuro distante

Diz Fabio Mario da Silva: " (...) esta obra de Lídia Jorge é de fundamental relevância para os estudos da cultura portuguesa e vem dar seu contributo para (re)pensar esta sociedade, a partir de uma visão do macro (mundo globalizado) para o micro (cultura portuguesa). No levantamento breve nota-se que o vocábulo futuro é constantemente utilizado como quem almeja um outro país, que consiga sobreviver sem insistir tanto em olhar para o passado, todavia consiga enxergar a sua história passada apenas como um grande patrimônio cultural e não como único ato de sobrevivência da atual sociedade, porque se esta atitude e posicionamento não mudar, acarretará uma grande problemática: 'Nada nos garante que no futuro não existam portugueses que assumam sê-lo com orgulho, mas que se tornem indiferentes ao destino de um país chamado Portugal´ " - da recensão publicada na revista Navegações | Porto Alegre, que hoje deu entrada neste arquivo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

[ENTRADAS] Poderoso criador de fábulas

Gonçalo M. Tavares

"Ou seja - Abrir os seus livros é ir ao encontro de figuras que parecem sair do interior da Terra, ou criaturas aéreas que de súbito pousam no nosso espaço, vagueando à nossa volta de propósito para nos mostrarem um desígnio de entendimento que falta – São figuras proféticas, amantes, loucos, pacientes, pobres condenados, pedintes, prostitutas, médicos em prova consigo mesmos, escritores suspensos no tempo, criaturas que parecendo num primeiro momento não ser deste mundo, em breve nelas reconhecemos o rosto dos vários indivíduos que nos habitam em silêncio, a ponto de toda essa corporação de alienígenas se transformar em seres e vozes familiares. Essa é a principal proeza dos livros de Gonçalo M. Tavares (...) "  - da apresentação de Gonçalo M. Tavares por Lídia Jorge, no Centre National du Livre, Paris, que hoje deu entrada neste arquivo.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

[ENTRADAS] A beleza está no seu lugar

O filme e o livro

"O número de imagens que um livro oferece são infinitas, as imagens de um filme são finitas. Da passagem de uma coisa para a outra existe um transvaze inevitável, onde alguma coisa em geral se perde em número e alguma se ganha em intensidade. No caso de “A Costa dos Murmúrios”, apesar de ter tido conhecimento prévio do argumento, e do cenário das filmagens não ser propriamente um mistério, o resultado do filme foi-me bastante surpreendente. As primeiras imagens surgiram e eu compreendi que a história que tinha escrito, sob as mãos da Margarida, e o corpo dos actores, havia-se transformado numa outra realidade, reescrita à luz de um outra invocação" - do depoimento de Lídia Jorge sobre o filme de Margarida Cardoso, hoje arquivado neste blogue.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Poema * Para António Alçada Baptista

Narrativa

Três bules sobre a mesa. Três chás.
Um é para ti, outro é para mim
E sobre o terceiro, tu disseste – Este é para Deus.

Ele não se senta, não tem lábios
Não tem dedos, não traz roupas, não tem olhos
Nem lê meu livro nem meu cravo.

De seu escravo sou pessoa
De seu rosto sou artista
E não me calça nem me despe
Não me enxerga nem me enlaça.
Não me acorda se desfaleço
No deserto do meu leito.
Não tem beijos para colocar na minha face.

E no entanto, três bules estão sobre a mesa.
Servi-os, peregrinando interiormente até ao fim do Mundo.
Ele há-de vir e há-de ser tudo.
Hei-de ser mudo até sentir o chá terceiro
Evaporar-se. Sobre o estendal desta toalha
Onde escrevi a espera, nunca é tarde.

Lídia Jorge *
______________________
* Incluído no livro
 "António Alçada Baptista: Tempo afectuoso - Homenagem ao escritor amigo de todos nós",
Presença, fevereiro de 2007

domingo, 18 de setembro de 2011

[ECOS] Do Citador - "A Costa dos Murmúrios"


Opinião de Leitura
A Costa dos MurmúriosA Costa dos MurmúriosAutor: Jorge, LídiaLeitor: Júlio Campos
Opinião   Um dos maiores escritores portugueses da actualidade, Lídia Jorge tem aqui uma obra que revela muitas das suas capacidades. 
   Uma dinâmica de narração reconstrói um momento pungente e dramático da história portuguesa recente, criando uma densidade que se projecta entre os significados político e militar, pragmáticos, e o sentir e vivenciar dos agentes individuais que nele participam. 
   Visão de mulher, não por uma suposta fragilidade de posição, mas por um se poder pôr 'de fora', mas muito 'perto', assim sendo superior, 'de cima', relativa aos participantes activos, soldados/maridos. 
   Linguagem poderosa, com um sentido poético, desvia-se da narração para criar formas e quadros compostos de sugestões e traços inventados, no campo do sentir. 
   A história surrealista d'"Os Gafanhotos" vai marcar sempre a narração/entrevista, do declinar de posições e convicções patéticas dum nacionalismo caduco, reflexo em figurantes inseguros, e numa exaltada e heróica cicatriz, mas que finalmente se apagam numa catástrofe semi-bíblica, e verde, duma nuvem que tudo obscurece. 
   Depois de reler o que escrevi, achei esta apreciação insuficiente, não chega para expressar a riqueza, e também complexidade, desta obra de L. Jorge. 
   Há tantos aspectos, multidireccionais, e multiqualitativos, que é difícil mencioná-los a todos, e principalmente, expressá-los numa síntese que compreenda com totalidade todas as mensagens. 
   Assim, se calhar o melhor que tenho a dizer é: leiam o livro.

[ENTRADAS] A Terra vista do espaço

O que mais desejava ver

"Dizem que avistada a partir de escassos quilómetros, já não se sabe onde começam e acabam os países, que tudo são apenas montanhas, rios, planícies, mares, ocultados por nuvens que se deslocam em forma de farrapos e massas circulares. Isto é, ainda não se saiu da atmosfera, e já a Terra deixa de ser política, passa a ser apenas o que é - um planeta, uma realidade geográfica. Dizem que é esse sentimento de coisa única que nos faz sentir que somos uma só humanidade, a última face da humanidade, tão transitória como foi a que nos precedeu e como será aquela que estará para vir (...) - do depoimento de Lídia Jorge, hoje arquivado neste blogue.

sábado, 17 de setembro de 2011

[ENTRADAS] A perspectiva da maga

Permanente exercício de translação

"Agustina vê-se a si mesma numa perspectiva de futuro, e escreve e fala na perspectiva da maga. O molde que encontrou para esse salto fora do tempo e do género, nos livros, foi a sentença e a epígrafe. Na discussão, foi a exploração do adverso, isto é, da contradição revestida do irónico, e até do irónico prazenteiro. Porque Agustina, como se lhe reconhece, sabe rir do mundo como ninguém. Como poucos, ri de todos, e entre todos - ao contrário do processo usado por muitos - ela mesma, lá não está" - do depoimento de Lídia Jorge, hoje arquivado neste blogue.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

[ENTRADAS] O assunto levar-nos-ia longe.

Para que servem os intelectuais?

"Até há pouco tempo pensava-se que ao esplendor de uma obra correspondia necessariamente o esplendor de uma razão iluminada, mas hoje admira-se a obra sem necessariamente se dar crédito à opinião do seu autor. Isso, na minha ideia, constitui um progresso tão grande como separar a personagem do seu intérprete. Significa que as pessoas estão mais avisadas sobre a diferença de planos. Por exemplo, toda a gente hoje sabe que a opinião ideológica era a moldura que até há poucas décadas ditava a “inclinação” que conduzia à tomada de partido por este ou outro assunto, mesmo quando pouco ou nada se percebia sobre ele, mas essa situação não se compagina mais com o mundo de informação aberta. Muitas vezes aquilo que se chama a cobardia dos ditos intelectuais de agora não passa de uma hesitação perante realidades em conflito quando se desconhece uma parte da situação" - das respostas a questionário de Filipa Melo, hoje arquivadas neste blogue.

[Registo] Em Montreal


Os Estudos Portugueses e Lusófonos da Universidade de Montreal em colaboração com o Consulado–Geral de Portugal em Montreal e com o patrocínio do Instituto Camões, promovem uma série de inciativas integradas no 17.º Festival International de Littérature de Montréal (16 a 25 de setembro) dedicado em 2011 à literatura de viagens e com viagens, em que Portugal participa pela terceira vez consecutiva, este ano com a presença da escritora Lídia Jorge juntamente com Niklas Maak (Alemanha), António Orejudo (Espanha), Paul Fournel (França), Carles Casajuana (Catalunha) e Fabio Geda (Itália), que amanhã (18) participam numa mesa-redonda. ponto alto da iniciativa.

Para este Festival Internacional de Literatura de Montreal estão programados encontros literários, mesas-redondas com os escritores convidados, happenings, sessões de cinema, tertúlias e espetáculos centrados nas obras dos autores. As atividades do festival inserem-se no projeto Lisez l’Europe e foram organizadas pelo coletivo Europe(a) que reúne, ao longo de cada ano, várias instituições do Velho Continente, entre as quais, o Instituto Camões.

Ontem (15), no Instituto Goethe, integrado na atividade Ciné-Voyage, foi exibido o filme de Margarida Cardoso, "A Costa dos Murmúrios", na presença da escritora..

Tema lançado para debate: Vem o escritor transformado das viagens que faz ou permanece indiferente? De que modo as suas viagens afetam a produção literária? De que modo dá o escritor conta aos leitores das viagens que efetua?

Previsto também um "rali literário" - Odyssée dans la ville - no domingo (18). Os participantes irão percorrer as ruas da cidade, iniciando-se o percurso no restaurante Casa Minhota, com Lídia Jorge, terminando no Insituto Goethe. António Orejudo encontrar-se-á na Livraria Las Américas, Carles Casajuana na Galeria de l’UQAM, Fabio Geda na Maison des écrivains, Paul Fournel no Square St-Louis e, finalmente, Niklas Maak no Instituto Goethe.

Este rali literário, Odysée dans la ville, propõe a descoberta, de maneira apaixonada e lúdica, das variadas facetas da literatura europeia. O percurso será feito a pé, totalizando cerca de 3,5 km, ao longo do qual, os participantes se encontram com os escritores em pequenas tertúlias, com animação a cargo do ator Cyril Assathiany e de Miriam Cobo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

[ENTRADAS] Conto breve

Filme com pássaros

"Num lindo filme americano, Ben tinha visto um rapaz da sua idade abrir a janela, chamar pelos pássaros, e de imediato eles logo vinham ter à sua mão. Então o rapaz oferecia-lhes grãos de arroz e eles agradeciam-lhe voando para cima do seu ombro. Mas consigo não era bem assim. Ben morava na Avenida dos Estados Unidos da América, abria a janela do seu quarto e em frente só havia prédios altos e o vento sempre a soprar. Uma verdadeira muralha de prédios. Ainda por cima, a mãe, numa manhã de Inverno, disse – “Surpresa!” - do pequeno conto infantil de Lídia Jorge que hoje deu entrada neste blogue.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

[ENTRADAS] E nisso são irmãos gémeos dos escritores

Editores | Laços de Família

" (...) eu pensava em Doroteia Bromberg naquela noite, em Estocolmo, quando a vi caminhar pela neve fora, rebocando um carrinho com os livros. Ela mesma, a editora de vários Prémio Nobel, ela mesma estendeu os livros sobre a mesa, expô-los, vendeu-os, guardou os que sobejaram, empurrou o carrinho ao longo da rua coberta de neve, e eu que ia atrás, a ver como os colocava na bagageira do seu carro, pensava na sua distinção, no seu respeito pelos autores, a sua cumplicidade, sua defesa, sua luta por umas histórias vindas de longe" - do depoimento de Lídia Jorge, hoje arquivado neste blogue.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A Páginas Tantas * De "Contrato Sentimental"

Identidade

1.

Muitos são aqueles que apresentam razões fortes para duvidar, mas eu tenho a certeza de que Portugal existe. Ainda há pouco tempo atravessei o território de Norte a Sul, demorei sete horas, sempre a abrir, as auto-estradas funcionaram na perfeição, e por onde elas passavam havia bandeiras verde-rubras hasteadas em locais inimagináveis – encostas de montanhas, cimo de palheiros, telhados de igrejas e até em carros de bois, atadas aos fueiros da frente, eu as vi a acenar, como se a paisagem fosse uma parada. Isto aconteceu um mês depois de a Selecção Portuguesa ter ido à Suíça como favorita e os rapazes se terem portado mal. Quando perguntei a uma funcionária da estação de serviço por que razão ainda mantinham a bandeira arvorada no alto dos cedros, ela olhou-me com um certo desprezo – “Que importância tem? Não é por perdermos que deixamos de ser portugueses.” Já no regresso da viagem, vim a olhar para os campos e a pensar no poema que José Emilio Pacheco escreveu sobre o seu país. Vou procurar traduzir para português o que ele pensou em castelhano do México.
Não amo a minha pátria.
O seu fulgor abstracto é inacessível.
Porém (ainda que soe mal) daria a minha vida
Por dez dos seus lugares, certas pessoas,
Portos, bosques de pinheiros, fortalezas,
Uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
Várias figuras da sua história, montanhas
- e três ou quatro rios.
Eu também.

Posto isto, convém dizer que eu tinha feito aquela viagem-relâmpago em direcção à Corunha, e quando voltava, ali mesmo onde a paisagem se abre no meio do arvoredo, a terra se prepara para a passagem dum rio, e a fronteira se aproxima a toda a velocidade, percebi que lá estava a placa branca e azul a indicar o país de chegada. A meio da placa de alvura impecável, podia ler-se Portugal, e por baixo, muito bem pinchada, a palavra lixo. Depois de centenas de quilómetros, aquele era o primeiro incidente na estrada. Fiquei contente, abrandei a marcha – Eram dois semáforos, numa placa só, a indicarem o caminho de casa.

Era preciso ter sorte. Vinha eu a pensar no poema do escritor mexicano, e a cogitar sobre umas linhas que me haviam sido encomendadas a propósito do futuro de Portugal, e aparecia-me de súbito aquele verso de quatro letras, a fazer-me regressar à genuína morada. Então eu pude confirmar que sim, que Portugal existe, que Portugal tem futuro. Pois o que estava escrito a meio da placa denunciava a marca da nossa inconfundível nacionalidade. Um espanhol teria escrito basura para se identificar, altivo como é, senhor da sua língua e da sua pronúncia. Um galego poderia ter escrito a mesma palavra, exactamente como nós, mas em princípio os filhos da Galiza costumam estimar e idealizar os portugueses, são nossos irmãos confessos. Não acredito na hipótese de que tenha sido mão galega que tivesse anunciado daquele jeito o seu desprezo em relação ao país vizinho, quando se aproximava da fronteira, ou acabando de o deixar, tivesse parado na berma, para expressar naqueles termos a sua vingança. De modo nenhum. A mão deveria ter sido portuguesa, pois a palavra que ali se encontrava, em negro resplandecente, muito bem desenhada, era aquela que já mencionei – lixo. Um verso irradiante que indicava uma fronteira de terra e uma fronteira de alma. Um modo de ser especial, a fazer adeus na superfície branca.

(...)
_________________
* Primeira página de “Contrato Sentimental”
 Sextante (2009)

domingo, 11 de setembro de 2011

[ENTRADAS] Armanda Passos

Moeda de ouro que a pintura pode dar

"Os grandes artistas não têm medo de enfrentar o lugar da carne antiga, da cabeça com vários olhos, ou o resto da nossa língua bífida, nem evitam o diálogo com os habitantes da lama e os habitantes das árvores. Os artistas sabem ir ao encontro desse terror e ao mesmo tempo dessa sublimação que nos faz pertencer a uma outra totalidade. O grande artista diz aos outros – Vejam como eu, todas as noites, me encontro com o impronunciável. Convido-vos a vir também. Foi essa viagem que, durante vários anos, eu aceitei fazer através de um quadro da Armanda Passos. Era apenas um bando de pássaros que me levava para esse lugar onde as coisas estremecem. E era bom" - do texto de Lídia Jorge para catálogo de Armanda Passos, hoje arquivado neste blogue.

sábado, 10 de setembro de 2011

Poema * Viemos da mesma árvore

Juntei-me à voz verdadeira
Juntei-me à voz da guitarra
Por ser mais que verdadeira
Provei que eu própria era
Feita de sua madeira.

Viemos da mesma árvore
Talhadas do mesmo jeito
Guitarra tem as minhas formas
Eu tenho o seu próprio peito

Estão em mim as suas cordas
E até a mão de quem toca
É carne da minha carne
Falando na minha boca

Lídia Jorge
__________________
* com interpretação de Isabel Noronha (música de António Chainho)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

[ENTRADAS] Os cinco taxistas só olhavam, um deles ria.

De noite

"Enquanto a ambulância não chegava, eu fiquei a saber que esta mulher tinha três crianças, estava sem emprego, e fora uma sua amiga, a mãe da miúda branca, quem a mandara acompanhar a mulher, que lá ia na ambulância. Soube pela menina de nove anos. Não soube mais nada da vida desta menina, mais nada da vida desta mulher. Se sobreviveu e vive com os seus três filhos, sou sua irmã" - da crónica de Lídia Jorge, lida no programa Prós e Contras, hoje arquivada neste blogue.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

[ENTRADAS] "Tentação", "Espelho", "Crise"...

15 conceitos

Por exemplo, sobre o conceito de AVENTURA: "O primeiro passo da criança, entre o berço e a porta. O último passo do velho, entre a porta e a cama. No intervalo, a viagem à volta da Terra ou o voo até às crateras da Lua" - do depoimento de Lídia Jorge, hoje arquivado neste blogue.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

[ENTRADAS] Chamar as palavras

Conto para Saïd
O Signo da Brevidade


"Tudo começa, em geral, por um achado surpreendente que vem da rua, do voo dum pássaro, duma confissão rápida, uma imagem fugaz no autocarro, acontecida no afã da vida diária, na pressa de existir, no desencontro pelas portas. Um caso raro cujo sentido brilha no escuro porque não se resolve, porque resiste à sua solução, não se conforma com o nosso entendimento prosaico. E porque surge essa imagem, carregada de mistério, se não surgiu para que o seu sentido possa ser dirimido? Como vai ser resolvido o enigma? Não irá sê-lo agora, não irá sê-lo nunca mais? – Nesse caso, então, é preciso ser escrito" - do original de Lídia Jorge destinado para antologia árabe (Saad Warzazi Éditions, Marrocos) que deu entrada neste blogue.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

[ENTRADAS] António Paulouro

Cesto de cerejas

"Certa vez, António Paulouro veio ao meu encontro, trazia consigo a familiaridade próxima daqueles que não levantam barreiras, e começou a descrever uns cestos de cerejas que havia preparado para oferecer aos seus amigos. Não falou do Jornal do Fundão a propósito do qual nos encontrávamos, nem da filha, Maria José Paulouro, a figura que muitos anos antes nos relacionara, nem da política escaldante da altura. Não, António Paulouro falou da qualidade das cerejas, da chuva que havia deteriorado grande parte da colheita, da diferença entre as cores, as escuras e as apenas vermelhas, para dizer que dentro de cada cesto havia colocado um livro. E enumerou os títulos dos livros que tinha enviado aos amigos de mistura com as cerejas. Os nomes dos amigos, os títulos, as cerejas" - do depoimento de Lídia Jorge que deu entrada neste blogue.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

[ENTRADAS] Este é um daqueles lugares do Mundo

Filme em Sagres

"Lá fora o vento sopra de todos os pontos cardeais. Este é um daqueles lugares do Mundo que nenhum sonho de Disneylândia deveria tocar. Intimamente, faço votos para que vários filmes, de vária natureza, sejam realizados sobre este Promontório, escolhido por um príncipe terrível para seu último travesseiro. Que esses filmes sejam necessariamente longos e, quando exibidos, que já ninguém saia antes da última imagem" - da crónica de Lídia Jorge (Público, 20 de agosto de 2011) que deu entrada neste blogue.


domingo, 4 de setembro de 2011

Poema * Envolvida no que digo

Sou de vidro

Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita

Lídia Jorge
______________
*  interpretação de Mísia
Para ouvir → aqui

sábado, 3 de setembro de 2011

[ENTRADAS] Têm dificuldade em entender o nosso adiamento

Alemães em nossa casa

"É injusto baralhar tudo, confundir governos com estados, e sobretudo atribuir a pessoas, intérpretes de histórias diferenciadas e irrepetíveis, essa estranha entidade abstracta que se chama a alma de um povo, alguma coisa onde se vão pendurando os erros de alguns para estigma de todos. Se essa confusão é inconveniente seja onde for, é-o particularmente em Portugal, e mais inconveniente ainda numa região como o Algarve que faz da convivialidade a sua marca, e dela a matéria da sua própria sobrevivência. Alemães comuns, portugueses comuns, afinal, metidos na barca comum da mesma deriva monumental. Tal como os Dahler e os Swinton bem o sabiam, há uma década atrás, também nós não estamos em tempo de ir buscar aos farrapos da História palavras que nos separem. Antes pelo contrário" - da crónica de Lídia Jorge (Público, 24 de agosto de 2011) que deu entrada neste blogue.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A Páginas Tantas * De "O Vento Assobiando nas Gruas"

O que queres dizer com isso?

Milene assoou-se demoradamente, a tomar consciência de que existia e era alguém no mundo, entre os grãos de areia. Os grãos de areia colocados, durante um instante, no seu sítio exacto. Se falasse na dor, alguma coisa em volta, indispensável, poderia morrer. Não fales na dor. “Oh, pá, não fales na dor…” – pediu ela.

Antonino bebia cerveja pela garrafa. A luz entrando pela garrafa partia na direcção da areia e barrava o avanço da treva. Ele limpou a boca com o punho da camisa. Aves caíam do céu sobre a água. A dona do bar veio dizer –“Estive quase a morrer antes de aqui vir ter. Parece mentira mas este local salvou-me…” Antonino, a rir, mostrava as três partes separadas na fileira dos dentes. Se Milene pudesse, não pediria nada a ninguém, não diria nada a ninguém, ela só faria aquilo que na natureza e na vida estava por fazer. O mundo por completar, a vida por construir, por limpar, arrumar, conservar e servir. Se ela pudesse. Não podia, achava-se uma pessoa bera. Podia, no entanto, não acrescentar nem mal nem treva onde sabia que já havia. Podia não colaborar com o que criava dor. Não sabia o que era o mal, sabia o que fazia mal.

Do mal conhecia os seus efeitos, não as suas raízes. Ainda que não o pudesse dizer. Pois se sentia isso, não tinha palavras. Se tinha palavras, pensava numa outra coisa, não sentia isso. O que ela quereria era ser lúcida, que a sua cabeça estivesse iluminada de ponta a ponta, ligada à claridade e à inteligência, mas sabia que não era assim. Dentro da sua cabeça, como numa pista de carros de feira, os néons apagavam-se e acendiam-se, fazendo intervalos, encobrindo zonas à vez, criando crateras de insignificância viradas contra a luz. Quando essas se iluminavam, logo outras mergulhavam na escuridão. O cérebro feito para nunca abarcar a totalidade. Que palavras para dizer isso?

Antonino a rir por causa do dourado do sol – “Oh, pá! Correcto, não vamos falar da dor…”

Ela a rir – “Não, não, nunca vamos falar da dor. Pois para quê falar nisso? É assim, o Antonino não fala da dor, eu não falo da dor, então é como se essa coisa fedorenta não existisse…” – disse ela, assoando-se outra vez, ruidosamente, sentindo-se alguém no meio de um mundo terrestre onde não se via a dor. A dor deveria existir, em algum esconderijo húmido ou atrás duma ruga de areia, mas não se via. E se não se via nem se apalpava, não existia.
_________________
* Página 306/307 de “O Vento Assobiando nas Gruas”
 Publicações Dom Quixote (2002).

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

[ENTRADAS] Guilherme d’Oliveira Martins

Um Texto Pacifista

"A propósito do ensaio, pensa-se antes na coerência das ideias, nos enlaces de natureza intelectual e cognitiva, na forma de encadear as partes da reflexão. Neste campo, parte-se do pressuposto de que as imagens promotoras da escrita, as que estão carregadas de afecto, encontram-se submersas na corporização das próprias ideias. No caso de “Património, Herança e Memória”, porém, o autor dá a conhecer, com simplicidade, quais os motivos pessoais e emocionais que estiveram na origem deste seu volume de reflexões e deixa entrever como essa motivação configura a própria dinâmica do volume, assumindo por inteiro a matriz biográfica destas suas reflexões" - do texto lido na apresentação de “Património, Herança e Memória: A cultura como criação”, de Guilherme d’Oliveira Martins.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Aposta em Patrícia Reis

Move a história do desencontro

A propósito do primeiro livro de Patrícia Reis. ."Precisamente, esta é a afirmação que me interessa – “Também a Terra tem os seus gestos políticos”. Prescindo da ingenuidade. - As apostas que fazemos uns nos outros nunca escapam ao efeito da contiguidade e da semelhança. Aposto em Patrícia Reis na esperança de que ela saia dos discursos interiores esperáveis, para os inesperados, aqueles que são contaminados pelo decurso da vida onde o outro, a realidade e o seu insondável mistério batam horas, ao mesmo tempo, no grande escuro do Espaço e no interior dum pequeno coração. Tenho a certeza de que “Morder-te o Coração” caminha a grandes passadas para lá. Esse local onde eu mesma quereria estar".

terça-feira, 30 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Conferências de Brasília

Quando os dias voam

"Entusiasmada, uma brasileira começa a recitar Pessoa – “Deus querre, o homem sonha, a obra naisce…” É então que o jovem professor Edvaldo Bergamo vem dizer que há ainda uma forma mais abreviada de falar da utopia. No meio do ruído, ele conta como Jucelino Kubichek foi mais sóbrio. No princípio de Brasília, poucos acreditavam que o lago artificial alguma vez enchesse. Quando choveu e a água escorreu dos córregos, e o lago Panamoá pela primeira vez foi lago e ficou raso, dizem que Jucelino enviou um telegrama a um jornalista seu detractor, nestes termos – “Encheu. Viu?” - da crónica de Lídia Jorge que deu entrada neste blogue.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

[ENTRADAS]  Personagens e espaço

"Literatura e autoritarismo:
José J. Veiga e Lídia Jorge
"


Deu entrada neste blogue, na página [CRÍTICA] - botão em cima-, a comunicação de Edvaldo A. Bergamo no XXII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, na Universidade Federal da Bahia.

[ENTRADAS] Eduardo Gageiro

Os três reinos

"Dizem que os fotógrafos não são pessoas como as outras. Consta que caminham com metade dos olhos entre as mãos e não fazem separação entre o seu corpo e o Mundo, como as crianças e os animais. Neste último aspecto, compartem a condição com todos os artistas dignos desse nome, e ainda bem que assim acontece. Alguém há-de ter a seu cargo a tarefa de manter activa a relação entre os homens e o íntimo coração das coisas" - do prefácio de Lídia Jorge para o álbum "Silêncios", de Eduardo Gageiro.

domingo, 28 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Nascidos para ler

Em que dia nos transformámos
em leitores para sempre?


"Cada um de nós lembrará a sua história. Recordará um colo, um abraço, um livro colocado na mão de alguém, uma estante, um professor, uma certa noite, um certo dia. Aquele momento e aquela hora em que se associou uma voz humana com a capacidade de multiplicar imagens infinitas dentro da cabeça, e de permeio estavam folhas escritas. Alguém que de súbito põe a mão na máquina que roda o filme das letras, e o cinema começa a correr por dentro da nossa vida. Alguém que depois nos coloca diante duma estante e nos diz – Aqui tens, tantos seres humanos quanto as lombadas, tantos filmes quantas as páginas. És um homem livre" - parte do depoimento que hoje entrou neste blogue.

sábado, 27 de agosto de 2011

Originais * Mensagem, vai

A mais longa viagem


Lídia Jorge *

Vai, garrafinha, vai e não voltes mais. Tudo o que sabemos
não encontrámos, escavámos. Tudo o que não sabemos, desejámos
e não temos, e o que não viajámos,
não foi por não sonharmos, foi por não podermos.
Das garrafas que enviámos, salvou-nos o pedido que fizemos.
A mensagem que escrevemos
sempre teve menos letras do que aquelas que cantámos
e o amor, que nela imaginámos, sempre foi mais longe do que os beijos
que tivemos. Por isso, vai garrafinha, entrega-te na mão do achador
e não lhe contes nada, nem da imperfeita vida desta praia,
nem do nosso coração, um grão de sangue pulando desencontrado, para
que possa imaginar que a garrafa caiu da algibeira
de um deus adormecido e tem a poção mágica
da viagem. Vai, assim, toda de vidro, fulgurante, iletra, transparente,
e a  imaginação de tudo preencher, que lhe seja
o motor de uma outra realidade onde não exista
diferença entre o ouro e a areia, o pertencido e a pertença.

Certa vez, eu estava sentada na praia do Macuti, na Beira, Moçambique quando reparei que as ondas traziam uma garrafa. Vinha rolhada, como se ninguém a tivesse aberto, mas lá dentro não trazia nada. Foi essa ausência de líquido que me chamou a atenção. Na altura, havia bidões de álcool metílico que davam à costa, dando origem a uma catástrofe sanitária muito especial. Por certo que esses dois factos não estavam relacionados, mas na minha ideia passaram a estar unidos. Foi assim que, decorridos alguns anos, eu escrevi “A Costa dos Murmúrios”. Afinal, dentro da garrafa que não trazia nada, vinha um livro. Antes do livro, vinha um mundo.

O texto que escrevi baseia-se nesse pressuposto. A ideia de que a imagem da garrafa que é deitada à água para levar para longe uma mensagem, só por si, é a mensagem. Nós queremos enviar um recado a alguém cuja mão misteriosa inventamos. Precisamos dessa invenção para nós mesmos criáramos a nossa fantasia. Na base dessa fantasia existe um desejo de comunicação com o belo, o imenso, o puro e o limpo que imaginamos existir na silhueta de uma pessoa ou de um grupo que avista a nossa garrafa e decifra a nossa mensagem. Mas no tempo em que o chip, que veio da sílica, da areia, substitui a viagem por mar pela navegação instantânea, a ideia de atirar uma garrafa ao mar não passará de uma imagem romântica selada na imaginação daqueles que ainda nasceram no século XX. Seja como for, enviar uma garrafa com a nossa assinatura continua a ser uma forma de sobrevivência do poder do sonho. Um símbolo que permanece no écran, tão fundador quanto o barco, a vela, ou outro qualquer objecto de deslocação no espaço. A tecnologia avança, mas as imagens fundadoras permanecem.
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* Publicado no Expresso | Única (23 de julho de 2011)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

[ENTRADAS] O romance, todo este teatro interior

A narrativa que convém ao Mundo

"Como muitos, estou convicta de que o ciclo da Cultura que requereu a Igualdade dos Direitos do Homem e do Cidadão, de que o romance foi a cartilha popular que os ensinou no Ocidente, ainda não está cumprido. Estou convicta que o exercício da cultura crítica e profana que o romance proporciona, por oposição ao absolutismo dos livros sagrados, está no centro das contradições do nosso mundo globalizado. Mais do que isso, estou convicta de que este é um género cujas formas narrativas permitem fazer um anteparo e uma barreira em face da nova narrativa dos media. Essa que, pela sua natureza, não permite nem o antes, nem o depois da catástrofe, permite e está feita, sobretudo, para a difusão da catástrofe. Com o contraponto natural da distracção pelo seu oposto, o grotesco e o banal. Neste campo dual, entre sangue e clown, o romance continua a oferecer um acto de resistência a essa simplificação binária que todos experimentamos" da intervenção de Lídia Jorge, na entrega do Prémio Albatroz, em Bremen, que hoje deu entradaneste blogue.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Póvoa de Varzim

A força do mar

"Lembro-me do que aconteceu. A sala do Auditório Municipal estava repleta, naquele ponto em que a presença de tantos intimida, e no entanto, quem falou, falou do seu medo e da forma como ele age sobre a descoberta, como se ali não estivesse ninguém mais do que um só destinatário. O silêncio escorria das paredes. De todas as intervenções, recordo em especial o texto lido por Tabajara Ruas sobre a descoberta da vida duma mulher louca, encarcerada, e sobre o modo de como esse encontro com o mistério mudou a sua vida de rapaz" - do depoimento que hoje entrou neste blogue sobre as Correntes d'Escritas, na Póvoa do Varzim.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Crónica * Têm dificuldade em entender o nosso adiamento

Alemães em nossa casa

Lídia Jorge *

de Karl Heinz Stock
1. Sobre a minha mesa, existe uma escultura de cor vermelha, uma mulherzinha redonda, boteriana, braços no ar, que por vezes penso ser a imagem perfeita da evasão, uma figura de resina, equilibrada sobre uma perna só. Quem a esculpiu foi Karl Heinz Stock, um alemão, que a associa ao espírito do vinho da sua Quinta dos Vales, em Estômbar. Ofereceu-ma pela ocasião do Lit.Algarve. 2010, o primeiro e único festival de Literatura que aconteceu no Algarve.

Quem promoveu esse encontro foi Barbara Fellgiebel, uma residente alemã. O seu esforço foi notável, e talvez volte a ter segunda edição, para o ano que vem. Pelo menos foi prometido, numa noite em que se encontravam, no Algarve, duas divulgadoras de autores portugueses, Karin von Schweder-Shreiner e Maralde Meyer-Minnemann. Duas alemãs que gostam de Portugal. Aqui, nas Courelinhas, abro a janela, e a primeira casa visitável é de um casal alemão, a quem no Verão oferecemos ameixas, de quem recebemos compotas no Outono. São pessoas de idade, mas ele pilota um avião, ela faz jardinagem, e sempre falam do futuro, nunca do passado. O mesmo acontecia com outros alemães que já aqui moraram e nos ofereceram a sua companhia.

2. Era o caso de Kurt Dahler, o nosso vizinho a Nascente. Kurt fora um soldado às ordens de Hitler quando tinha vinte anos, foi-o no terreno mas nunca na alma. Em consequência, escolheu a Suíça como segunda pátria. Quando se deu a reunificação, já sentado à lareira, em Alcaria, ele não queria uma Alemanha, preferia duas. A Poente, moravam os Swinton, judeus alemães que tinham passado por Portugal, deportados, quando eram crianças, e haviam ficado com a ideia de um país com céu azul, e uma gente simples que lhes havia consentido a viagem. Regressaram para passar aqui as suas últimas décadas. Ao Sábado, os dois casais encontravam-se, tomavam bebidas à beira da piscina, mas nunca falavam do passado que os colocava em territórios contrários. Preferiam o futuro.

3. O futuro é este momento que vivemos. Eles já cá não estão, os seus netos, nascidos por aqui, contudo, frequentam as nossas escolas, que também são deles. Mas eu espero que, em alguns hábitos, continuem mais netos dos seus avós alemães que dos seus avós portugueses. Não há como confundir. Entre nós, os alemães editam revistas, criam associações e clubes de Literatura e Cinema, enchem os lugares nos concertos de jazz, são experts em música erudita, participam em debates, inscrevem-se nas bibliotecas, e acham muito estranho que os portugueses leiam tão poucos livros. Quem priva com os alemães que escolheram viver connosco, sabe que são rigorosos, escrupulosos, que têm dificuldade em entender o nosso adiamento, a nossa disfunção entre promessa e cumprimento.

Além disso, eles povoaram terrenos que nós abandonámos, compraram casas que haviam sido doadas às raposas, deram vida e luz a zonas mortas. E a maior prova é que, sob o nome de um alemão, Volker Huber, e sua mulher Marie, foi fundado há trinta anos o Centro Cultural de São Lourenço, uma casa única, pioneira, que colocou Almancil na rota da Arte internacional e do debate local. Por isso mesmo, não gosto que a propósito da política defensiva de Angela Merkel, se voltem a dizer palavras que não se ouviam há muitos anos.

4. É injusto baralhar tudo, confundir governos com estados, e sobretudo atribuir a pessoas, intérpretes de histórias diferenciadas e irrepetíveis, essa estranha entidade abstracta que se chama a alma de um povo, alguma coisa onde se vão pendurando os erros de alguns para estigma de todos. Se essa confusão é inconveniente seja onde for, é-o particularmente em Portugal, e mais inconveniente ainda numa região como o Algarve que faz da convivialidade a sua marca, e dela a matéria da sua própria sobrevivência. Alemães comuns, portugueses comuns, afinal, metidos na barca comum da mesma deriva monumental. Tal como os Dahler e os Swinton bem o sabiam, há uma década atrás, também nós não estamos em tempo de ir buscar aos farrapos da História palavras que nos separem. Antes pelo contrário.
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* na edição impressa do Público (24 de agosto de 2011)

[ENTRADAS] Espelho da alma escondida

Oferta das mulheres aos homens

"(...) dois poemas de Maria Teresa Horta poderiam servir de suporte a uma composição inédita solicitada ao jovem compositor português, João Antunes. Nenhuma outra poeta portuguesa, entre nós, assumiu a expressão poética da sensualidade e da emancipação feminina, antecipando desde os anos setenta, a linguagem comum das mulheres dos nossos dias" - do texto de Lídia Jorge escrito para o concerto da Orquestra do Algarve, "As Palavras Cantadas", que hoje deu entrada neste blogue.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Agustina Bessa-Luís

Como ninguém

"Reparo com mais atenção e de facto alguém está a sorrir na direcção de Agustina, e não é um homem escuro, nem de olhar melancólico. Curiosamente é uma pessoa de compleição germânica, que já se levanta, já se aproxima, curva-se na direcção do nosso assento e começa a falar português. Afinal, Agustina acertou no vaticínio, está encantada" - da crónica que, hoje, deu entrada neste blogue.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

[ENTRADAS] África, nome inscrito

Lugar de chegada




"Como amar África, percorrendo apenas os dedos, sobre um teclado de plástico? – Vergonha. Escrever um texto não passa duma simples metáfora e dum princípio" - da crónica que deu entrada neste blogue.

domingo, 21 de agosto de 2011

Passados * "A primeira mestra e a primeira ouvinte"

A dedicatória de "O Dia dos Prodígios", com final datado em Boliqueime, 25 de agosto de 1978, foi exatamente assim:
      À avó Maria das Dores Ribeiro,
            minha peimeira mestra e minha
            primeira ouvinte.


* A revista Tabu|SOL (22 de julho de 2011), na reportagem de Gabiriela Oliveira "Os avós nunca partem", dá à estampa a foto inédita que se reproduz neste arquivo. Em legenda: "Avó materna da escritora Lídia Jorge, Maria das Dores Ribeiro. As semelhanças entre ambas vão além das parecenças físicas"

[ENTRADAS] A língua não precisa de sal. Apodrece com perfume

O coração da língua

"Porque a língua, ela, toda inteira, nunca parou nem pára, é um sistema em permanente corrupção. A língua não precisa de sal. Apodrece com perfume. O aroma da Língua solta-se ao ser arejada, batida, entrada, removida, um sistema aberto, uma realidade mutável consoante as várias outras realidades que a empurram e a definem, e já o disse, os usos são indomáveis" - do original que deu entrada neste blogue.

sábado, 20 de agosto de 2011

Crónica * Escolhido por um príncipe terrível para seu último travesseiro

Filme em Sagres

Lídia Jorge *

1. Sobre o Promontório escalvado, o vento varre o último vestígio da floração, levanta cabelos e esfarrapa bandeiras, enquanto no interior do armazém transformado em auditório, dezanove visitantes aguardam pela passagem dos filmes projectados em sessão contínua, tendo um deles por tema o significado de Sagres. O clima é de expectativa e viagem. No entanto, mal José Wallenstein surge deitado sobre um fundo de mar, um casal levanta-se. As três crianças que o acompanham resistem ainda durante uns segundos, acabando por se levantar também. No interior do auditório, catorze espectadores permanecem. Em breve serão só onze. Acontece no momento em que Diogo Dória começa a ditar o documento e a música de súbito pára. Um outro casal abandona a sala. As duas filhas, adolescentes, permanecem sentadas, resistindo durante um minuto, depois partem. Eu gostava que tivessem resistido por muito mais tempo.

2. Não nego que me prendo indevidamente à breve insistência dos mais novos, nem sequer ignoro que amplio o seu significado para além do razoável. Sei bem quanto de um raciocínio lógico é feito de irracionalidade, e este é o caso. Enquanto lá fora o vento assobia sobre o grande pedregulho em forma de mão esquerda estendida, e ali dentro o Infante sonha com outros mares, imagino que os filhos dos desinteressados de hoje sejam os interessados de amanhã, imagino que aquele curto desacerto entre gerações, por força das circunstâncias, se vai intensificar.

3. Sim, eu sei. O tempo em que as coisas acontecem ditam parte do seu destino. As comemorações henriquinas dos anos sessenta têm arrastado consigo a marca imóvel das grandezas inchadas. Por essa altura, já a Europa democrática tinha dado volta ao assunto, mas nós ainda lá estávamos. Hoje em dia, reforça-se o ego das pátrias procurando os vários lados da verdade, não os escamoteando. Mais modestos, procuramos aprender com os cometimentos e os erros, e mostrá-los. É por isso que faz pena que o projecto de 2009 para a requalificação de Sagres não tenha sido completado.

Não há como não confirmar. À entrada do Promontório, a Sala de Exposições é ainda um edifício fechado. Das explorações geológicas urgentes e indispensáveis sobre a questão entre Rosa-dos-Ventos ou Gnómon Solar, não ouvimos falar. A dinamização em torno da informação histórica sobre o que foi a Vila do Infante, ou a suposta Escola de Sagres, não está parada por certo, mas parece estar. Entretanto deixou-se de falar de Sagres como destino de visita da Europa, e a candidatura de Sagres a Património da Humanidade parece ter morrido. Aliás, ali, os dinamizadores culturais são os recepcionistas que se desdobram em orientações práticas, e as funcionárias da Loja que vão explicando tudo quanto podem, enquanto vendem uns objectos ornamentais. Não é a folhetos ou vídeos que os visitantes têm de agradecer a melhor informação recolhida, é a estas duas raparigas prestáveis.

4. Assim, não admira que muitos continuem a pensar que Sagres é apenas uma cerveja loira que se bebe devagar. Que outros julguem que Sagres é uma praia baixinha onde o Velho do Restelo amaldiçoava caravelas. Há quem pense até que o assalto de Francis Drake à Fortaleza de Sagres, em 1587, ao serviço de Isabel I, não passe de uma invenção de banda desenhada. Disfunções pós-modernas? Deixemo-nos de rodeios. Há sempre um ponto de encontro fatal entre os cultivadores e os cultivados. Um momento em que os dois campos se unem e são a única face de uma mesma realidade. Aquele desinteresse pelo filme de dez minutos, um mínimo de História, um mínimo de orçamento, um mínimo de Arte, está para o mínimo de tempo que o português comum lhe entrega na sua atenção frágil. Lá fora o vento sopra de todos os pontos cardeais. Este é um daqueles lugares do Mundo que nenhum sonho de Disneylândia deveria tocar. Intimamente, faço votos para que vários filmes, de vária natureza, sejam realizados sobre este Promontório, escolhido por um príncipe terrível para seu último travesseiro. Que esses filmes sejam necessariamente longos e, quando exibidos, que já ninguém saia antes da última imagem.
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* na edição impressa do Público (20 de agosto de 2011)