segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Poema * Assim a casa seja

Fado do retorno

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltaste
Já entras como sempre
Abrandas os teus passos
E páras no tapete

Então que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças

Então que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Tocados pela graça.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Amor, o que será
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro

Já fuma o nosso fumo
Já sobra a nossa manta
Já veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta

Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A árvore do Outono
Coberta de cereja

Lídia Jorge
______________
* Com interpretações de Mísia e Anges Jaoui.
Para ouvir → aqui

[ENTRADAS] Factos estranhos

Casa de campo

Assim começa: "A casa que nos coube em sorte fica mergulhada em flores. Aqui estamos desde ontem. Quando chegámos não vimos paredes, apenas um telhado pousado sobre plantas e uma entrada em madeira sobraçada por um arco de hera. As flores são azuis e rosa, e a unir as duas cores, a buganvília lilás sobe pelas empenas laterais, formando dois ramos, um de cada lado. Neste ninho de frescura, contamos ser felizes por dez dias."

domingo, 14 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Língua portuguesa

Português, língua de distância

"A língua, na plenitude do seu uso, é um instrumento da inconsciência. Pensar nela a partir de dentro, só pode resultar no agradecimento da sua virtude e descrição da sua bondade. Fale-se da língua materna e o mais universalista fica patriota, o mais estrangeirado sente-se saudoso, o mais irónico torna-se reverencial" - do texto de Lídia Jorge publicado na Revue des Deux Mondes, que deu entrada neste blogue.

sábado, 13 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Eça de Queirós

Máquina voadora

"A um ícone não se lhe descobrem feições, apenas se lhe acrescentam flores. Mas no caso de Eça o seu corpo ainda não é de mármore. Vislumbro-o atravessando a Terra, mudando de vapor para vapor e de carruagem para carruagem, apertado de dores de estômago e rindo do mundo como ninguém, até àquele dia de Verão em que regressou da Suíça para se esconder em Paris, definitivamente. Aliás, é em Paris que melhor o vejo" - do texto de Lídia Jorge inserido na coletânea "Retratos de Eça de Queirós".

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Nesses dias de setembro de 74

O Jumbo que nos trouxe de volta

"É sabido que cada época se define sobretudo pelos sonhos que engendra, mais do que pelos acontecimentos que a tecem. Um dos sonhos que eu alimentava, como jovem da minha geração, era poder conhecer as independências dos vários países emergentes que a revolução reconhecia como primeiro dado. Por mim, imaginava nações tranquilas, a caminho da maioridade política, e do desenvolvimento humano. Imaginava que esse caminho seria já e de imediato. Mas assim não foi. O Jumbo que nos trouxe de volta, era uma espécie de amostra antecipada duma ferida aberta por longos anos, movida pelas guerras civis que se seguiriam depois. Os sonhos adiados, década após década." 

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Coelho à caçadora

As caçarolas com os mesmos animais guisados

"À primeira vista, dir-se-ia um fim de dia banal. O restaurante fica ao abrigo do principal cruzamento das estradas, mas uns ingleses com braços tatuados de peixes e dragões bebiam latas de cerveja rente à parreira. Uns italianos de narizes em forma de faca discutiam ruidosamente, no canto oposto do pátio. Naquele momento, os portugueses presentes ainda permaneciam perto da entrada, cumprimentando-se com abraços e socos, e seriam não mais de doze, mas a mesa em forma de T que os espera, tem capacidade para vinte e muitas pessoas, pelo que se deduz que ainda não tenham chegado todos. São um grupo de homens, aficionados em pitéus de coelho e rola, apesar de não se tratar de caçadores. Os seus pais ou avós talvez o tenham sido, por certo os seus bisavós. Seus dignos herdeiros." Do conto de Lídia Jorge que deu entrada neste blogue.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Citário. Começou

Máximas, sentenças e pensamentos, certamente aforismos retirados de obras e intervenções de Lídia Jorge começam a ser colocados, a partir de hoje, no Citário. Pelo menos, uma frase por dia, com indicação de fonte e item. Ver → aqui

[ENTRADAS] Dedicou-se ao poema sem pausa nem pressão

Eugénio de Andrade

"(...) Lembro-me de como depois Eugénio de Andrade se levantou, como sacudiu o cabelo, como se dirigiu à janela, de onde se via um jardim, como regressou de lá, ofendido e alterado. Não era uma questão de honra, era uma questão de poema. Era uma questão de poetas. Eugénio de Andrade não podia abdicar da decência da Poesia em nome da caridade pela figura daquele que faz uns versos, ornatos da vida diária." Entrou neste blogue o texto de Lídia Jorge escrito para a 5.ª edição de "Os Sulcos da Sede"

terça-feira, 9 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Dispensa mapas

Como um relâmpago a origem do Mundo

Crónica de Lídia Jorge publicada no Libération (1 de janeiro de 2000) e que se recupera. "Não por Deus, que nunca falará, nunca estará nos confins do Cosmos com um banquete de rosas à nossa espera. Mas pela dúvida sobre a existência ou não desse banquete. Na verdade, há muito que se diz termo-nos cruzado com a morte de Deus, mas é mentira. As culturas, até agora, têm-se construído na dúvida sobre a sua morte, mas jamais se organizaram sobre o princípio da sua inexistência. Sobre a interrogação, sim. Modestamente, diante das terras secas do meu país, temo que indo os sábios até aos confins da matéria e dos astros, se apague a Dúvida, rainha do nosso pensamento e da nossa esperança. Se assim for, é possível que os homens sobrevivam."

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Carlos Reis sobre "A Noite das Mulheres Cantoras"

O romance como rosto do mundo

Deu entrada neste blogue o texto do Prof. Doutor Carlos Reis lido na apresentação do romance "A Noite das Mulheres Cantoras", a 24 de março de 2011, na Casa Fernando Pessoa. "Caso singular, Lídia Jorge opera dentro de uma literatura que não cultiva sistematicamente nem as experiências do concreto nem o conhecimento material da realidade; pelo contrário, a literatura é considerada entre nós ou um ornamento ou cosa mental, abstracta. Aqui reside a linha de força original deste primeiro romance-surpresa de Lídia Jorge."

[ENTRADAS] Em Tavira

Um rei depositou a coroa nos telhados

"Do rei nada sabemos, da coroa, conhecemos os sótãos alinhados diante do rio e a forma geométrica da pirâmide. Fechamos os olhos e sabemos que há tesouros piramidais sobre as casas que olham para o Gilão. Mas do que eu mais gosto é do percurso. Os dias estão quentes, atrás ficou a Pousada, a Escadaria, a chave e a sombra, o nosso destino é a Ilha. Para tanto é preciso atravessar as Quatro Águas, as palmeiras, as salinas, e lá em frente, ao fundo, vê-se o embarcadoiro. É aí que está atracado o pequeno barco em forma de mosquito que nos vai levar" (...) - de uma nota de Lídia Jorge para livro com coordenação editorial do Centro Nacional de Cultura (2006) e que aqui se recupera.

domingo, 7 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Sándor Márai

As Velas Ardem até ao Fim

Depoimento datado de agosto de 2007, mas sugestão atualizada, a da leitura do romance de Sándor Márai. "Quando pretendo ler em voz alta umas páginas que ilustrem como a narrativa feita com palavras continua a ser única na reprodução dos conflitos humanos, seus abismos e seus sonhos mais íntimos, escolho aquela passagem em que um dos personagens, Konrád, pretende matar o seu amigo numa madrugada, no meio da floresta".

sábado, 6 de agosto de 2011

[Registo] Duas bibliotecas

Duas Bibliotecas com o nome se Lídia Jorge.

Em Albufeira - a bilioteca muncipal inaugurada a 17 de dezembro de 2004 (bibliotecários: Ana Paula Miguel e Miguel Salvado)
BM albufeira
Clicar na imagem para aceder ao site
Em Boliqueime - a biblioteca escolar, com a atual designação desde 27 de outubro de 2008 (professora bibliotecária: Ana Maria de Brito Palma)
BE LJ
Clicar na imagem para aceder ao site

[ENTRADAS] O que sentirão as tuas árvores

Carta a uma filha

Prosseguindo nesta senda de recuperação de textos dispersos de Lídia Jorge, deu entrada neste blogue uma crónica publicada em 2009 mas intemporal, como habitualmente com a data inicial, neste caso, a data em que foi escrita.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Entrevista * No Canal Q

_____________
* Entrevista transmitida pelo Canal Q (30 de julho de 2011)

[ENTRADAS] Um miúdo de “Aniki-Bóbó” que cresceu

Manoel de Oliveira

"Tenho dificuldade em definir o que seja cinema puro, e no entanto, quando ouço falar do conceito, associo-lhe de imediato três nomes – Akira Kurosawa, Andrei Tarkovsky e Manoel de Oliveira. Reconheço-lhes por igual a mesma capacidade de transmitir uma personalidade criadora, a mesma intensidade dramática com lógica de palco, e a mesma demanda ontológica através da narrativa literária" (...) "O homem que se senta junto de nós, e fala da sua arte com a forma notável como o faz, é apenas um miúdo de “Aniki-Bóbó” que cresceu demasiado e está produzindo com a velocidade própria dos grandes criadores" - do texto de Lídia Jorge incluído num livro de homenagem a Manoel de Oliveira.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

[DOS BLOGUES] Do embaixador Francisco Seixas da Costa

Do blogue Duas ou Três Coisas, do embaixador Francisco Seixas da Costa.

SEGUNDA-FEIRA, 1 DE AGOSTO DE 2011

Lídia Jorge

Já passava das três da manhã quando, num "zapping", surgiu na SIC Notícias uma conversa de Lídia Jorge com António José Teixeira. Fiquei a ver e ouvir até às quatro. Com grande proveito.

Lídia Jorge é uma intelectual atípica. Fala sobre as coisas com uma desarmante sinceridade, sem aqueles falsos improvisos, recheados de frases feitas (e testadas), que alguns dos seus colegas escritores utilizam, para se darem ares de grande originalidade, em especial quando são chamados a pronunciarem-se sobre temas do quotidiano. Há uma candura quase provocatória naquilo que diz, na forma simples, mas ao mesmo tempo profunda, como olha à sua volta, à nossa volta.

À inteligência das questões colocadas pelo António José Teixeira, a escritora não retorquiu com circunlóquios, mesmo quando os temas eram delicados e a curiosidade do entrevistador se mostrava intrusiva, como ´no da política interna da atualidade. Respondeu sempre, serena, genuína, revelando dúvidas, interrogando-se. E ajudando a interrogarmo-nos.

Há muito que gosto de ouvir e ler Lídia Jorge falando de nós, dos portugueses, com uma postura crítica sem auto-flagelação, com uma compreensão por onde perpassa a subliminar tristeza, que também nos é comum, de que tudo "tenha de ser assim". É a atitude de alguém que percebe o país, mas que não desiste dele, que não se refugia numa espécie de desespero cívico.

Posso estar enganado, mas tenho a sensação de que muitos de quantos possam assistir a esta entrevista sentir-se-ão identificados aquilo que Lídia Jorge nela diz.   

Em tempo: Lídia Jorge passou a colaborar, aos sábados e domingos, com umaa notas algarvias no "Público". A julgar pelas primeira, vale a pena não perdê-las. 

[ENTRADAS] As duas humanidades

Excepções e regra

"(...) as duas humanidades, na totalidade, são as duas mães da Humanidade, e elas não se afirmam nem se salvam se não estiverem em conjunto. Sabemos que quanto mais pobres, mais teocráticas, mais ditatoriais forem as sociedades, mais subalterno será o seu papel. Por isso mesmo, as mulheres portuguesas que pela História ficaram durante tanto tempo dependentes das sombras e das metáforas para dizerem eu existo, poderão vir a ser importantes, na aproximação, encontro e diálogo entre culturas e modos de vida diferentes. As mulheres portuguesas, para quem todo um passado baço e submisso ainda é tão presente, por irrecusável dever de semelhança, poderão lutar pelos Direitos das Mulheres, como parte integrante e inseparável, dos mais elementares Direitos Humanos." - do depoimento de Lídia Jorge para o álbum fotográfico "Mulheres Portuguesas" de Gonçalo Cunha de Sá , depoimento que deu entrada neste blogue.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

[ENTRADAS] Um rasgão na realidade

Este chão que marca

"Pertenço ao grupo de escritores que consideram que os continentes, os países, as cidades ou as pequenas terras, uma vez inscritos no espaço da Literatura, só valem porque permitem descobrir aquilo que procuramos com a escrita – o entendimento do coração profundo dos homens. Por ventura, a luz viva, que por aqui tanto nos encandeia, abre um rasgão na realidade, de uma maneira tão particular que põe a nu o seu pulsar universal" - é parte do depoimento de Lídia Jorge para a exposição que a sua terra natal dedicou à sua obra (11 de dezenbro de 2010 a 31 de março de 2011) e que deu entrada neste blogue.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

[ENTRADAS] "Escrevam, por favor..."

Ajudar uma criança a ser autor

Da nota para um livro infanto-juvenil: "Imagino como será bom ser-se aluno desta escola, poder em cada manhã sentar-se a pessoa nos bancos da sala de aula, abrir os cadernos e encontrar professores capazes de lhe ensinar a ler os livros próprios para a sua idade e sua imaginação, professores capazes de ajudar a colocar as palavras certas nos locais exactos das frases que estão inventando.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

[ECOS] Do Portal da Literatura

O que sabe a Cultura 
acerca da Fraternidade?

Na rubrica Raízes | Portal da Literatura, foi colocado o texto da intervenção de Lídia Jorge nas VII Jornadas da Pastoral da Cultura, em Fátima, a 17 de junho de 2011. "(...) dentro de nós, tal como os textos mostram, existe um ser que se constrói para a partilha e para o amor. Pelo menos, eu mergulho a mão nos textos e encontro esse recado por toda a parte. Mergulho a mão nos textos e encontro enunciada, de várias formas, a pergunta de Else Lasker-Schüler sobre a questão da paz e da fraternidade – 'Não faz o meu coração fronteira com o teu? E a sua comovente resposta - O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces'. É a certeza de que este discurso existe, apontando para o futuro, que nos dá confiança."

[ENTRADAS] "Como escrevo"

Imaginar as implicações

"Mas não conto o desfecho. Meia noite em ponto. Ainda estará alguém, lá em baixo, no bar do hotel, que sirva uma sanduíche ou um bolo?" Texto de Lídia Jorge publicado na revista Time Out, faz um ano. Podia ser hoje.

domingo, 31 de julho de 2011

[ENTRADAS] Acaso viajar não é isso?

Mostruário de um sonho

Diz assim: "Que os israelitas desculpem que o seu povo e as suas cidades nunca desencadeiem pensamentos apenas sobre o seu povo e as suas cidades, antes ofereçam a partir de si o início de pensamentos sobre todas as outras cidades do mundo. E acaso viajar não é isso? Reconhecer em todos os outros lugares a raiz do nosso próprio mundo? Por alguma coisa, perto da Praça Dizengof existe uma placa que evoca o nome de Zamenhof, o criador do esperanto, esse sonho de língua que nos uniria a todos." Uma crónica de há quatro anos que está atual.

[CRÓNICAS] No Público


Crónica

Lídia Jorge escreve ao sábado e domingo nas páginas Especial Algarve

30.07.2011 - 07:00 Por PÚBLICO
  • Votar 
  •  | 
  •  1 votos 
 (Foto: Pedro Cunha)
 A escritora Lídia Jorge escreve, ao sábado e domingo, uma crónica nas páginas especiais que a secção Local do PÚBLICO dedica ao Algarve.

Música para o mar

Uma balada que vem de longe avisa que se pode render o cantor mas não a canção. Contudo, a impressão que se tem ao percorrer a longa passadeira de tabuinhas e ao aproximarmo-nos do apoio de praia, é que por aqui o cantor anda livre, mas a canção está presa. São onze horas da manhã e só dois impulsos agitam o ar a partir da aparelhagem, up and down, up and down, enquanto o toldo se move e o balcão estremece. Entretanto, a rapariga que atende já ali está, é perfeita, mas tem de me ler nos lábios o que eu pretendo, e eu tenho de ler nos seus lábios o montante da minha despesa. De resto, não é possível ir além dessa breve comunicação.

Leia mais na edição impressa de hoje do PÚBLICO ou na edição digital exclusiva para assinantes 

[DOS BLOGUES] Bem observado

por Pedro Correia | 30.07.11 | 2 denúncia(s)
«Às vezes pergunto-me se a esquerda nasceu para governar.»
Lídia Jorge, esta noite, em entrevista à SIC N

sábado, 30 de julho de 2011

[ENTRADAS] O escrever como saber

Ortografia

Deu entrada neste blogue o texto de Lídia Jorge sobre a importâmcia da ortografia: "O desembaraço mental em face das distinções ortográficas funciona para a Língua Materna como a Tabuada funciona no domínio do cálculo matemático — favorece a rapidez, automatiza nexos, poupa e prepara para avançar nos raciocínios e associações"- uma afirmação; e uma pergunta: "Explicar o que significam etimologicamente consideração, bissectriz, ou protozoário, não será da responsabilidade do professor que usa as palavras para se fazer entender?"

[ENTRADAS] Sobre uma página de Marguerite Yourcenar

Como termina Golpe de Misericórdia

Entrou neste blogue o depoimento de Lídia Jorge:publicado no Jornal de Letras (1 de agosto de 2009) sobre a página final de um livro, um final que é um dos mais belos e surpreendentes da narrativa contemporânea.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Depoimento * Quanto a Maria Lúcia Lepecki

Versão integral autorizada
do texto editado no Público,
29 de julho de 2011

Nos livros, de mãos nuas

Lídia Jorge *
1.

Estava previsto que Maria Lúcia Lepecki, no passado dia um de Abril, comparecesse na Livraria Barata para apresentar um livro. Telefonou na própria tarde para dizer que não iria estar presente porque não queria descer as escadas. Foi-lhe lembrado que o encontro teria lugar no piso térreo, que não precisaria de descer escadas nenhumas. Maria Lúcia replicou – “Pois desculpa lá, é que também não as quero subir”. E assim ficou tudo explicado, através de uma elipse travessa, um arranjo de pura inteligência, conforme o seu modo muito próprio de dizer.

Ao fim da tarde, muitas pessoas vieram para ouvi-la, mas confrontadas com a sua ausência, também não foi preciso explicar-lhes nada para que o seu nome desencadeasse um aplauso prolongado até começarem a estremecer coisas mais fundas do que as palmas. Aliás, esse aplauso, invulgarmente comprido, acontecia no lugar certo – Entre estantes, risos, editores, professores, livreiros, amigos, e outras espécies afins. Quem tinha tido acesso à sua resposta sabia, porém, que a sua forma de dizer traduzia estoicismo, e atrás do estoicismo, o seu modo de mostrar que afinal continuava a ser uma pessoa nascida para a alegria. A alegria, só por uns momentos interrompida, supostamente separada pelo obstáculo de uma escada . De onde lhe vinha então aquela vontade de existir para a felicidade?

2.

No volumoso livro A Primazia do Texto, um conjunto de ensaios publicados em sua homenagem, que Petar Petrov e Marcelo G. Oliveira ainda tiveram ocasião de lhe mostrar para lhes testemunharem como era amada pelos seus pares, Beatriz Weigert , fazendo um balanço da sua última série de crónicas, “A Vida Íntima das Palavras”, dá particular atenção àqueles textos onde Maria Lúcia invoca a sua infância. No dizer da própria, essa infância fora tão rica que se acaso tivesse acontecido tudo aquilo de que se lembrava, teria durado pelo menos cinquenta anos. Então não é possível desligar a origem da sua alegria das vivências primordiais em Araxá, terra mineira, “lugar alto de onde primeiro se vê o sol”.

A contemplação exaltada perante as palavras também parece ter tido aí a origem – “As palavras bonitas entraram na minha vida muito cedo, sob a forma de nomes de lugares, de frutas, de árvores, de objectos. Mais tarde, descobri provirem muitas delas de línguas indígenas ou africanas”, escreveu Maria Lúcia. E mencionou o avô, o tacto da sua roupa, o sarro do cigarro de palha, o suor do cavalo, a preparação dos sentidos para em seguida atravessar o mundo. É possível que sim, que lá no ponto especial onde o temperamento se transforma em carácter e o carácter em personalidade, a origem em Araxá possa ter o seu peso de alegria e de sal. Weigert não faz essa extrapolação, não era o seu propósito. Mas, no dia de hoje, nada impede de juntar esses factos e transformá-los em causas. No momento em que nos deixa, bem podemos associar a alegria sobre o essencial com o impulso original que demonstrou na leitura que fez da Literatura dos autores brasileiros, africanos e portugueses. Porque não associar o seu encantamento pela vida à forma como se deixou seduzir pelos livros?

3.

Maria Lúcia deixa uma bibliografia avultada, e ensaios dispersos, crónicas, entrevistas, colaborações no Expresso, Diário de Notícias, Colóquio/Letras, Artes e Ideias, Estado de São Paulo, intervenções na rádio e na televisão, revelando-se em todos os meios uma figura originalíssima. Como crítica, em primeiro lugar, porque a sua escolha não parece ser feita por causas mas antes por afinidades de sentimento, muitas vezes por um fascínio a nível da pura expressão verbal, sobretudo quando julga encontrar num autor um saber submerso. Mas o aspecto que mais me toca é a sua capacidade de fazer ensaio, suportada por uma forte componente teórica, sem que dela faça alarde. Os seu textos sobre textos não parecem ter textos eruditos de permeio. Nessa arte da subtracção do suporte teórico, Maria Lúcia ganha uma leveza de interpretação, muitas vezes fora dos cânones, mas sem dúvida com uma particular dimensão de frescura. A impressão que se tem é que se trata apenas de uma leitora que mete as mãos nuas nos textos para deles fazer livros seus , sem vozes intermédias, nem ruídos.

4.

No entanto, Maria Lúcia Lepecki era uma erudita.

A alegria e a expansividade que a caracterizavam tinham um contraponto no recolhimento do estudo, em áreas como a Filosofia, a Teoria da Literatura, a Música, a Cosmografia ou a Religião, matérias de que falava com graça e naturalidade, transformando informação em acontecimento. Por vezes, mesmo, em divertimento. Mas esse recolhimento de semanas, meses consecutivos, levava-a a procurar uma outra totalidade que não fosse a da Literatura e da Poesia. Como vários dos seus colegas indirectamente fazem notar, em A Primazia do Texto, entre outros campos, ela era uma estudiosa da Bíblia, uma pessoa à procura de um elo poético que interpretasse o Mundo a partir dos livros do Antigo Testamento. Curioso que vivesse mesmo a linguagem bíblica na expressão coloquial corrente. Certa vez ouvi a Maria Lúcia dizer, referindo-se a um livro – “Senhor, eu não sou digna desta leitura…” Um excesso que nela não era excesso, era uma forma que se casava com a sua vivacidade onde a imagem ampliada tinha um estatuto de uma outra escala. Numa das epígrafes do seu livro “Sobreimpressões- Estudos de Literatura Portuguesa e Africana”, Maria Lúcia refere uma conversa mantida com o seu pai, em fins de 1974. O pai ter-lhe ia dito que ela já não escrevia em português, mas sim em critiquês. Ela teria respondido – “Perdoa, Pai, ainda não sei fazer de outro jeito.”

5.

Em A Primazia do Texto, três autores referem o Livro de Job, o livro da Bíblia preferido por Maria Lúcia, em sua homenagem. A um dos seus amigos mais íntimos, Maria Lúcia pediu por mail, alguns dias antes, que dele fosse lida uma passagem, numa ocasião muito especial. Chegada a ocasião, o filho de Maria Lúcia fez-lhe a vontade. André Lepecki leu em voz alta uma das mais sentidas interpelações de Job diante de Deus mudo. Estava certo, estava em conformidade com o dilema que a todos atinge, e terá atingido a sua mãe em particular, nos últimos tempos. Faltava, porém, alguma coisa que fizesse regressar Maria Lúcia à sua dimensão de encantamento pela beleza que tem a cor e o corporal. Sem ninguém estar à espera, essa celebração aconteceu por acaso.

Em dado momento da subida, juntámo-nos a uma família de Carmona, Uíge, que acompanhava um angolano, cujo carro subia adiante de nós. As primas do angolano, umas raparigas vestidas de amarelo, cortavam o silêncio do espaço com um ritual, cantado. Não se destinava a Maria Lúcia aquela expressão de saudade colorida, corporal, dramática, mas acabaria por ser. As primas do angolano perguntavam, dançando debaixo das árvores:

Você foi embora, você foi.
Com quem deixou os seus filhos?
Com quem foi?

6.

Maria Lúcia Lepecki foi-se embora, obrigando-nos de súbito a colocar frases no pretérito perfeito e a corrermos a fazer o balanço das palavras que não foram ditas, ainda sem sabermos em que direcção do seu rosto pronunciá-las. A perda começa por ser uma amputação no tempo e logo os verbos avariam e mudam de modo e de figura. Você foi embora, você foi. Talvez nos próximos dias comecemos a acomodar a sua ausência entre os livros que deixou, e a sua pessoa passe a ser uma realidade que atravesse o Tempo e se deite ao comprido sobre ele. Nessa altura, será possível usar um presente ilimitado, e um tratamento directo por você isto, você aquilo, essa forma de dizer o tu mais íntimo da língua portuguesa que Maria Lúcia Lepecki tanto amou.


Depoimento. Sobre Maria Lúcia Lepecki, in Público

Maria Lúcia Lepecki é evocada hoje, no diário Público, por Lídia Jorge. O texto não está online (acesso disponível apenas para assinantes, como se verifica pela chamada do jornal que se reproduz). Mas, dada a matéria, a oportunidae e a beleza desse texto, vamos tentar obter a permissão da autora, desde que não se fira os direitos do jornal.


    Nos livros, de mãos nuas


    Há quem a diga embaixadora do tropicalismo em Portugal. Estudou Camilo Castelo-Branco e levou para a academia a obra de Cardoso Pires. A escritora Lídia Jorge escreve sobre a ensaísta Maria Lúcia Lepecki, sua amiga. Diz que não é possível desligar a origem da sua alegria das vivências primordiais em Araxá, no Brasil, com o seu peso de alegria e de sal

    [ENTRADAS] Teses e dissertações

    Entraram mais 9 registos de Teses de Doutoraentos e Dissertações de Mestrados sobre a olbra literária de Lídia Jorge, na página autónoma Teses - clicar no botão em cima ou consultar  aqui

    quinta-feira, 28 de julho de 2011

    [ENTRADAS] Segredos de uma história

    Para um destinatário ignorado

    Entrou neste blogue o seguinte texto datado de Lídia Jorge:
    • Intervenção na Universidade de Maryland (4.° Congresso da American Portuguese Studies Association), em outubro de 2004,  ler  aqui

    [ENTRADAS] Teses e dissertações

    Deram entraram na página de Teses os registos de dez teses de doutoramentos e de dissertações de mestrados sobre a obra de Lídia Jorge. Contamos fazer muito em breve nova atualização da referida página.

    • Consultar no botão em cima, ou  aqui

    quarta-feira, 27 de julho de 2011

    [ENTRADAS] José Saramago

    A questão Saramago

    Deu entrada neste blogue, o depoimento de Lídia Jorge publicado no ABC (20 junho 2010) sobre José Saramago.

    • José Saramago Ler  aqui

    terça-feira, 26 de julho de 2011

    [ENTRADAS] A divisão logo na 1.ª Classe

    Os dois lados do mundo

    "Foi então que eu reparei que os pés dos meus colegas, em grande parte, estavam descalços. Vi os seus pés pousados no chão e percebi que a turma se dividia em duas metades – os que tinham e os que não tinham sapatos." Era a escola de Lídia Jorge, no seu tempo. Trata-se de um depoimento solicitado para a Exposição "O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge. 30 anos de Escrita Publicada", entre 11 de dezembro de 2010 e 31 de março de 2011, no Convento de Santo António dos Olivais, em Loulé. Aí foi colocado em mural.

    • Os dois lados do mundo. A entrada de hoje - ler  aqui

    Ensaio de leitura. Sumaya Machado Lima

    Artigo originalmente publicado na Revista Labirintos 
    (revista eletrónica do núcleo de estudos portugueses. 
    Universidade Estadual de Feira de Santana - Baía)

    Para abrir ampliado clicar no botão
    do canto superior direito

    Found at ebookbrowse.com

    segunda-feira, 25 de julho de 2011

    [ENTRADAS] Recordar Sophia

    Das nossas vidas,
    acerca do ensino em 2009
    e Theatrum mundi


    Além de registos nas páginas autónomas Teses (designadamente "O Desencanto Utópico ou o Juízo Final: um estudo comparado entre A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, e Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane" - tese de doutoramento de Debora Leite David (Universidade de São Paulo, 18 de março de 2011), e Crítica ("A Costa dos Murmúrios de Lídia Jorge - Inquietação Pós-Moderna", de Maria Manuela A. Lacerda Cabral, in Línguas e Literaturas - Revista da Faculdade de Letras da Universidade do PortoXIV, 1997, pp 265-287), deram hoje entrada neste blogue, os seguintes textos datados:
    1. Das nossas vidas, depoimento de Lídia Jorge sobre Sophia - ler  aqui
    2. Educação: os critérios da excelência, intervenção sobre  estado da ensino (2009) - ler → aqui
    3. Theatrum mundi, leitura crítica de Jorge Listopad sobre "O Dia dos Prodígios"- ler → aqui

    domingo, 24 de julho de 2011

    [ENTRADAS] Portugueses, Nomes do Mar

    Uma história de periferia

    Entrou neste blogue o texto de uma  intervenção de Lídia Jorge (Gulbenkian, 2006), sobre tema atualíssimo:
    • Uma história de periferia"Na verdade, para os portugueses, assumir que ao longo dos séculos se transformaram em Nomes do Mar, não significou apenas conviver, viver, presenciar, usar e cruzar o mar. Significou muito mais do que isso, significou sobretudo o seu oponente, um limite, uma fronteira real e concreta que a todo o momento foi necessário destronar para sobreviver" - Ler +   aqui

      sábado, 23 de julho de 2011

      [ENTRADAS] Um livro de estreia

      O Trompete de Miles Davis

      Entrou neste blogue o texto da apresentação, por Lídia Jorge, do livro de Francisco Duarte Azevedo, "O Trompete de Miles Davis". Ler → aqui