sábado, 23 de julho de 2011

[ENTRADAS] Um livro de estreia

O Trompete de Miles Davis

Entrou neste blogue o texto da apresentação, por Lídia Jorge, do livro de Francisco Duarte Azevedo, "O Trompete de Miles Davis". Ler → aqui

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Prefácio * William Faulkner

Para Sartoris
Lídia Jorge *

O livro que o leitor agora tem entre mãos é uma peça lendária e merece ser lido com o cuidado que dispensamos à decifração do início de uma galáxia. Quem considera a obra de William Faulkner como uma das mais emblemáticas do século XX, e se dedica minimamente a compreender a filigrana do seu percurso, não deixará de sublinhar este livro como o portal da grande obra que viria a alterar o modo de escrever, e de ler, das gerações futuras. O próprio Faulkner, ao terminar Sartoris a 29 de Setembro de 1927, dirigindo-se duas semanas depois ao seu editor, Horace Liveright, anunciava que tinha escrito o livro, THE BOOK, considerando que os dois livros anteriores, em relação a este terceiro romance, não passavam de pequenas crias. Aliás, confiante na sua descoberta, acabava mesmo por acrescentar que estava a oferecer ao editor, sem margem para dúvida, o melhor livro do ano.

O seu editor, porém, não o entendeu assim, bem pelo contrário. Liveright recusou publicar esse livro que considerou difuso, sem intriga nem projecção, chegando ao ponto de acusar Faulkner de não ter nenhuma história para contar. O dactilograma de quase seiscentas páginas, que então apresentava o título de Flags in the Dust, acabaria por andar pelas secretárias de dez editoras diferentes, até chegar ao escritório da Harcourt & Brace. Ainda assim, para que fosse publicado mais de dois anos depois, o volume iria ser reduzido de um terço, e o título acabaria por subsidiar-se do nome de família dos seus protagonistas, Sartoris. A verdadeira responsabilidade de Faulkner nos cortes efectuados não ficou clara, nem tão pouco a iniciativa do novo título. E o romance, só publicado no último dia do ano de 1929, mesmo depois desse ajeitamento às conveniências do tempo, não conheceu qualquer boa fortuna. No entanto, o reconhecimento que a crítica e os leitores não lhe conferiam, ganhava-o o autor para si próprio, em privado, diante da sua máquina de escrever. William Faulkner mal tinha entrado na casa dos trinta anos, e enquanto todas essas vicissitudes ocorriam lá fora, em lume brando, na sua mesa de trabalho, confirmava para si próprio a sua originalidade como escritor, a lume forte. Por esses dias, iniciava-se mesmo o período mais fértil da sua carreira. Basta dizer que, entre Abril e Outubro de 1928, Faulkner escreveu O Som e a Fúria, entre Janeiro e Maio de 1929 redigia a primeira versão de Santuário, e mal corrigiu as provas de O Som e a Fúria, escreveu, em quarenta e sete dias, Enquanto Agonizo, seguindo-se-lhe Luz de Agosto. Cinco romances em quatro anos, todos eles na senda de Flags in the Dust/ Sartoris. Afinal, esse livro havia sido, como ele próprio tinha anunciado a Liveright, aquele que faria de si um verdadeiro escritor. E assim foi. Sartoris surge, na cronologia criativa do escritor do Mississipi, como a obra que inaugura o grande passo na aquisição das suas inconfundíveis marcas narrativas.

Em Sartoris, Faulkner assume, pela primeira vez, que a sua matéria literária provém do território que se encontra sob os seus próprios pés. Os seus temas levantam-se do chão da sua terra natal ainda impregnada do cheiro a pólvora da Guerra Civil Americana de que foi palco. O seu pequeno canto, como chamou à região local, numa das cartas a Liveright, dá respiração a um mundo violento e racista, tenso e rude, supersticioso e brutal, o que lhe permite transformar a provinciana cidadezinha de Oxford na grande terra incógnita, carregada de sombras, mistérios e relâmpagos, que todo o escritor procura criar. Com Sartoris, Faulkner descobre que o seu pequeno canto poderia, afinal, ser escavado em profundidade até nele encontrar o sangue ainda vivo que corria nos subterrâneos das leiras do Mississipi e a partir dele criar um verdadeiro cosmos ficcional. É a primeira vez que o Condado de Yoknapatawpha surge, ainda com o nome de Yocona, a primeira vez que a temática das relações sem contemplação entre brancos e negros assume a espessura literária que se transformará num modo de cindir a realidade à luz da escrita. A sua própria experiência autobiográfica alarga-se à genealogia, e os mortos que se recusam a morrer formam famílias vagueantes carregando consigo o lenho da memória. Fantasmas do passado rondam o presente e essas visitas transformam-se em matéria de ficção. E como tal, surge o tempo psicológico, rememorativo, sincopado, cruzado, o tempo narrativo que se apresenta em ziguezague, originando faixas cronológicas interpoladas, um discurso listado, produzido sob o efeito dos sortilégios da memória. Ou por outras palavras, com este romance, assiste-se à inauguração da “técnica da desordem”, como depois dirá Sartre, e nada mais ficaria igual, nem para os leitores nem para os escritores que vieram a seguir. Aqueles que, ao tempo, ainda estivessem ligados a uma escrita de recorte tradicional, para entrarem nos meandros da acção, teriam de pedir uma cábula ou sentir-se-iam perdidos.

Aliás, Sartoris, para quem continue alheio a esta forma, exigirá algum anteparo se acaso se pretender desvendar os atalhos que lhe abrem os caminho vários, logo a partir das primeiras páginas. Como em relação a muitos outros livros futuros do autor, não é fácil um leitor desprevenido perceber quando é quando, nem onde é onde. Por vezes, é mesmo necessário uma bússola especial para se identificar quem é quem. Em Sartoris, Faulkner inaugura a técnica da geminação de nomes de família, figuras sobreviventes, a maior parte delas provenientes de vidas passadas, e essas figuras vão e vêm, bandos de fantasmas distintos mas embrulhados em lençóis da mesma cor. Neste livro inaugural, o lendário general John Sartoris, que em vida criou os Caminhos de Ferro da região, e na morte tem uma estátua altiva no meio do cemitério, espalha com o braço levantado uma espécie de modo de ser muito próprio, marcando as gerações sucessivas com a força do seu temperamento arrogante e indómito. Mas não é só a sua história que regressa. Regressa a memória de seu irmão Bayard Sartoris, morto por fanfarronice durante a Guerra da Secessão, e regressa o protagonista Bayard, o filho de John Sartoris, denominado Bayard Velho, aquele que ainda está vivo, por altura da primeira página, e só morrerá a páginas tantas, por efeito da truculência suicidária do seu neto Bayard, irmão gémeo de Johnny, o que acabava de morrer nos céus de França, durante a Primeira Guerra Mundial, reproduzindo, mais de cinquenta anos volvidos, o destemor do seu tio-bisavô Bayard.

Isto é, a principal acção de Sartoris desenrola-se ao longo de um ano, entre a Primavera de 1919 e a Primavera de 1920, mas a saga dos Sartoris, que inclui três John e quatro Bayard, entre eles dois pares de irmãos com os nomes cruzados, remonta aos anos sessenta do século XIX, recobre quatro gerações, e inicia-se com a apresentação de um cachimbo onde o patriarca deixou cravada a marca dos seus dentes. É assim que o bisavô, aquele “que tinha passado para lá da morte e depois voltado”, entra em acção, de modo a espalhar pela narrativa fora a tutela de um desejo irrequieto de glória que conduzirá à tragédia. Seja qual for a relação que se queira estabelecer entre as manobras do destino pessoal tão próprio de Faulkner, e a relação de ressentimento e culpa próprios dos domínios do Sul, marcados pela violência da escravatura e pelas peripécias da sua abolição, Sartoris, como em todos os outros seus grandes romances, não se confina às matérias passíveis de serem enunciadas. A escrita de Faulkner é a verdadeira substância da sua ficção, e por isso, a carta que Horace Liveright escreveu ao jovem autor, em 1927, acabaria por ser lida ao contrário. Curioso. O livro que o editor recusava encontrava-se, afinal, repleto daquilo que já então era a substância da modernidade. É esse livro brutal, premonitório, que aqui fica, assinalando um momento de explosão muito particular na História da Literatura. Mais do que isso, proporcionando ao leitor moderno o encontro com a matéria humana mais funda e mais viva, o desejo de ser, para além do tempo. É preciso não esquecer que Faulkner parte de Flags in the Dust para mergulhar na escrita de O Som e a Fúria, considerado por muitos, o livro mais influente de todo o século XX. Para todos os efeitos, Sartoris é a sua antecâmara. O seu brilhante ensaio. Por alguma razão, Faulkner aconselhava aos que ainda não tinham sido introduzidos na sua a obra a começarem, exactamente, por aqui, pela história deste último Bayard.
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* Prefácio para "Sartoris" de William Faulkner
(D. Quixote, julho de 2011)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

[ENTRADAS] Projeto TEIA e acerca dos motards...

O arco do amor
e Cavalo de fogo


Entraram neste blogue dois textos datados de Lídia Jorge:
  1. "O arco do amor", uma nota destinada ao Projeto TEIA do Teatro Nacional D.Maria II , na sessão de 14 de junho de 2011 (coordenação de leitura Ivo Canelas, com Dinarte Branco, Ivo Canelas, Margarida Cardeal e Rita Lello) - ler  aqui
  2. "Cavalo de fogo", um original publicado na revista Tempo Livre (março, 1993) e cujas fotocópias têm corrido por entre os motards - ler → aqui

terça-feira, 14 de junho de 2011

Notas * Homem e Mulher

O arco do amor
Lídia Jorge *

Escultura de Miguel Ângelo Rocha
Até há pouco tempo, falar de amor heterossexual seria uma redundância, de tal forma a ideia de amor envolvia conceitos totalitários. A contemporaneidade, porém, permite-nos aproximar da complexidade das relações humanas e neste domínio, tão central em termos de arte, quanto no espaço da vida, o nosso tempo liberta-nos das escravaturas do amor dual, aquele que separava o corpo da alma, ou a felicidade da moral, permitindo-nos que em torno do tema da relação mulher/homem se estabeleçam gradações infinitas de expressões do amor. O ponto de partida para a leitura dos textos escolhidos para esta sessão em torno do tema foi precisamente uma passagem de um livro cujo temática não só inaugura a compreensão da complexidade dos géneros como, sobretudo, enuncia a variedade de sentimentos e modos que todo o tipo de amor engloba. Escreveu Virginia Woolf em Orlando – “Porque o amor a que podemos voltar agora, tem duas faces: uma branca, outra negra; dois corpos: um liso, outro peludo. Tem duas mãos, dois pés, duas caudas, dois, na verdade, de cada membro, e cada qual é o exacto reverso do outro. No entanto, tão estreitamente se acham unidos que é impossível separá-los…” Assim se inicia uma sequência de textos e vozes que , no seu conjunto, criarão um arco que irá desde o amor em estado de distância e idealização, passando pela atracção irresistível onde o corpo surge com sua feroz matéria de erotismo e luxúria, até ao regresso súbito à consciência de que entre a expressão do amor e a sagração, por vezes, não vai a distância de um gesto. E assim, talvez seja possível chegar ao último texto lido em voz alta durante este fim de tarde, com a demonstração feita de que “Toda a Arte é erótica”, como dizia Adolf Loos, já no início do Século XX, mas só agora nos encontramos em situação de a incorporar nas nossas vidas concretas, enquanto fruição das várias vertentes do amor como beleza.
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* Texto publicado na folha de sala do Teatro Nacional D. Maria II,

domingo, 8 de maio de 2011

Depoimento * António Paulouro

Cesto de cerejas

Lídia Jorge *

Passados estes anos, a biografia de António Paulouro está escrita, a lista de gestos nobres que fizeram a sua vida pública começa a estar feita, o elogio da sua dedicação e da sua pertinácia nunca sendo demais, tem sido ensaiado por muitos que o conheceram de perto. E aqueles que trabalharam a seu lado poderão falar de uma intuição que permitiu que um esforço localizado numa cidade da Beira Interior levasse a mensagem de um país aos portugueses espalhados pelo mundo. Ou por outras palavras, a distância no tempo já permitiu desocultar o significado da sua resistência, sublinhar o que foi afirmar uma região através de um órgão de imprensa que se tornou não só notável, como se transformou num símbolo, e por isso, António Paulouro e o Jornal do Fundão são duas identidades que justificam manifestações à altura, históricas e solenes como devem ser. A seu lado, a minha memória não pode deixar de ser marginal, e diria quase íntima, se essa palavra significasse apenas familiar, e familiar não tivesse a ver com família.

Homenageio António Paulouro através do que me contou sobre uns cestos de cerejas. Certa vez, António Paulouro veio ao meu encontro, trazia consigo a familiaridade próxima daqueles que não levantam barreiras, e começou a descrever uns cestos de cerejas que havia preparado para oferecer aos seus amigos. Não falou do Jornal do Fundão a propósito do qual nos encontrávamos, nem da filha, Maria José Paulouro, a figura que muitos anos antes nos relacionara, nem da política escaldante da altura. Não, António Paulouro falou da qualidade das cerejas, da chuva que havia deteriorado grande parte da colheita, da diferença entre as cores, as escuras e as apenas vermelhas, para dizer que dentro de cada cesto havia colocado um livro. E enumerou os títulos dos livros que tinha enviado aos amigos de mistura com as cerejas. Os nomes dos amigos, os títulos, as cerejas. Os cestos e as suas vergas, a razão miúda dos títulos oferecidos. Essa conversa tinha lugar nos corredores do Palácio de São Bento, os deputados passavam afadigados para cá e para lá, jornalistas corriam atrás deles, e aquele deputado, magro, risonho, já entrado, não era dali. António Pauloro pertencia a um campo sem limites, semeado de letras e árvores carregadas de cerejas.
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* in Jornal do Fundão, 8 de maio de 2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Ensaio de leitura * Elfriede Engelmayer

(Apresentação
de "A Noite das Mulheres Cantoras"
Coimbra, 8 de abril de 2011
na Livraria Nova Almedina)

Declinar a perfeição:
A noite das mulheres cantoras
de Lídia Jorge

Elfriede Engelmayer *

Entramos sempre num texto literário pela mão de um autor. E essa mão - que nos segura e lança para o desconhecido - às vezes desdobra-se.

Há um pequeno conto de Lídia Jorge, não datado e reproduzido numa brochura que está a ser distribuída no âmbito da homenagem à autora a propósito dos 30 anos decorridos sobre a publicação de O Dia dos Prodígios, intitulado “Harmonia”, que começa com as seguintes palavras: “Em Boliqueime o mundo era perfeito”. Essa perfeição, nos olhos da criança (a narradora), assenta na ordem hierárquica em que reina o medo, em que a bisavó, cega, é supostamente o elo mais fraco de uma família tradicional- por ser a mais velha e por ser mulher. Mas quando a criança faz ruir essa perfeição num acto infantil sem maldade, e toda a fúria da ordem estabelecida ameaça desabar sobre ela, é esse elo mais fraco que se revela ser o mais poderoso: ao resgatá-la, ao consolá-a, ao estabelecer uma harmonia e um equilíbrio novos, feitos de um afecto salvador, a bisavó opera o milagre da redenção.

Se narrar “é sempre uma forma de continuar a infância do mundo”, como a narradora de A noite das mulheres cantoras afirma, narrar também pode ser uma forma de tornar visível o que nos separa dessa perfeição primordial. Na geografia humana de Lídia Jorge, desde O vento assobiando nas gruas, de 2002, e Combateremos a sombra, de 2007, a questão da inevitabilidade da culpa surge como condição humana por definiçaõ, e nenhuma redenção pode já vir de fora: não há mais nenhuma mão protectora como a da bisavó que guie as personagens para longe do olho do furacão.

O relato da “Noite perfeita”, supostamente um conjunto de 34 páginas que chegaram às mãos da narradora, é o ponto de partida para uma história de revisitação do passado em que ela, narradora, amplia o conto inicial de Solange de Matos, desenhando uma estrutura circular, cujo fim não só remete para o início da narração, mas igualmente para a página introdutória.

Porque “noites perfeitas” há duas: a do relato de Solange em que, no fim de um espectáculo protagonizado por Gisela Batista, a antiga maestrina do grupo de cantoras dos anos 80, surge João de Lucena, coreógrafo da banda e antigo amante de Solange, e há também aquela “noite perfeita” dos anos passados, o sonho de cinco mulheres jovens que se preparavam para arrasar a audiência com as suas canções. E, no entanto, nenhuma dessas noites é perfeita.

Perfeita é a ilusão, e perfeitos são a mentira e o encobrimento de um crime. Quando a african lady, a grande voz da banda, se esvaía em sangue na garagem dos ensaios, três dias após ter dado à luz, e de ter sido retirada do lugar enrolada num carpete para nunca mais se saber dela, o terrorismo psicológico da maestrina continua a manejar a sua tenaz sobre os restantes elementos- o disco vai ser gravado, o espectáculo adiado, Madalena Micaia substituída, mas- mais do que isso- a história vai ser reescrita para diluir a culpa até que ela já não pertença a ninguém.

Quando, no presente da narração, Gisela evoca o passado no decurso do espectáculo do reencontro, ela inventa um destino diferente para a sua vítima, que terá regressado a África, para emocionar o público crédulo do “império minuto”.

Não é por acaso que a narradora reitera inúmeras vezes que deveria voltar a pensar na Noite Perfeita em vez de opor a sua memória à definição da verdade por Gisela. Este romance, além de traçar um retrato complexo dos anos oitenta e dos meandros da culpa em que inevitavelmente se enredam as personagens obcecadas pelo êxito por deixarem demasiadas vítimas atrás, este romance, dizia, trata também do poder da palavra: das palavras que guiam para o bem ou para o mal; que interpretam o mundo; que cunham aquilo que pode ser tomado por verdade.

A jovem Solange de Matos, com os seus dezanove anos, passa da tutela da palavra do pai, que era ainda o narrador da sua vida, para a esfera da definição de Gisela. Mas crescer significa também apoderar-se da própria palavra. E é só no fim da história, no presente da narrativa, que ela encontra o “Não” libertador. Encontra-o para proteger o antigo amado, João de Lucena, das investidas de Gisela, que planeia vampirizar a doença mortal dele num espectáculo, revogando assim o que ela tinha suposto ser uma lei: que viver significava atraiçoar, e sobreviver trair.

Não carregavam todas as cinco mulheres consigo um passado nas várias partes de África em que tinham nascido directamente para uma existência de culpa e de traição? Como poderia um indivíduo só, como o pai de Solange, proferir um “Não”, quando se sentia legitimado pelas circunstâncias históricas do colonialismo e fugia para salvar a sua pele? Deveria ele ter trazido consigo para o continente o aluno dilecto negro que o avisara da expulso iminente, em vez de ameaçar cortar-lhe as mãos com que se agarrava ao taipal do camião?

E deveria a jovem Solange ter aceitado o amor de Murilo, o “carteiro do mundo”, se não o amava, e submeter-se à sua tutela pelo simples facto de ele ser uma pessoa idealista e íntegra?

Na abertura à Noite das mulheres cantoras, a narradora refere uma epígrafe às 34 páginas, colhida de um livro de Nina Berbérova e que ela decidiu não utilizar: “E aqui terminam as minhas memórias. Mas o meu monólogo, que ninguém ouve, continua.” O monólogo de Solange, nós ouvimo-lo, como todos os monólogos podem ser ouvidos, ou lidos. É uma confissão sem instância para absolver, a não ser que a confessanda se declare, se não inocente, pelo menos em paz consigo própria após esse trabalho de luto: pelas vítimas, mas também por um amor ainda vivo.
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* Elfriede Engelmayer é doutorada pela Universidade de  Viena
e Leitora de Alemão na  Universidade de Coimbra; 
colaboradora das revistas Tranvía (Berlim)e Matices (Colónia)

quinta-feira, 31 de março de 2011

Exposição * Convento de Santo António de Loulé


* A Exposição
"O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge.
30 anos de Escrita Publicada"
esteve patente ao público entre 11 de dezembro de 2010
e 31 de março de 2011,
no Convento de Santo António dos Olivais, em Loulé.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Ensaio de leitura. Carlos Reis e "A Noite das Mulheres Cantoras"

O romance 
como rosto do mundo

Carlos Reis *

1.
Abrimos um novo livro de uma escritora consagrada e procuramos não tanto razões para o ler, mas antes as palavras novas (os sentidos, os temas, as articulações formais) que esse livro nos trará. Ou seja, inevitavelmente lemo-lo no contexto de uma produção literária já conhecida e mesmo estudada, o que faz impender sobre o título acabado de aparecer uma espécie de perverso e exigente efeito sociológico que traduzo neste termos: trata-se de saber em que aspetos o novo livro faz avançar a obra da autora e até a ficção portuguesa contemporânea, formulação que deixa transparecer uma espécie de teleologia literária não isenta de ressonâncias hegelianas.

Não discuto agora a pertinência de uma tal formulação, que releva também de uma ponderação epistemológica em torno da razão (ou da sem-razão) da história literária enquanto tal; prefiro relacioná-la com a forma como hoje se compõe e recompõe o campo literário. É sabido, com efeito, que este tem vindo a perder a hegemonia simbólica que outrora conheceu, pressionado como se encontra por outras práticas (música popular, cinema, televisão e seus concursos, imprensa cor-de-rosa e suas vedetas, etc.), que insidiosamente vão impondo as suas lógicas de celebração do “talento”, com inerente dependência do marketing. Está esquecido e talvez bem esquecido um poema (“Marketing”, no livro homónimo, de 1969) de um escritor outrora famoso, Fernando Namora, que com alguma inocência (assim vista de hoje, é claro) justamente problematizava a invasão do marketing no espaço público que a literatura também disputa. O êxito “literário” de apresentadores e comentadores de televisão e de “autobiografias” encomendadas por heróis futebolísticos a jornalistas disponíveis estão aí para evidenciar as vantagens económicas e as sobredeterminações de notoriedade decorrentes do cruzamento de mundos à primeira vista estranhos. E não deixa de ser irónico (ignoro se deliberadamente irónico, o que pouco importa para o caso) que o novo romance de Lídia Jorge de que aqui quero falar (A Noite das Mulheres Cantoras) ficcionalize justamente um processo de procura de êxito e de fama por parte um grupo musical, nos anos 80 do século passado; acontece que foi a partir de então que os tops de vendas e as engrenagens dos concertos começaram a desbancar os protocolos de afirmação e de circulação pública, ainda de inspiração oitocentista, da literatura a que alguns (eu, por exemplo) persistem em chamar séria.

2.
A escritora séria chamada Lídia Jorge evidencia-se-me como tal em função de uma produção literária cujas linhas de força, apesar do escasso distanciamento com que a olhamos, se deixa já captar com alguma nitidez. Essas linhas de força devem ser aqui recordadas, para melhor nos entendermos quanto aos significados deste A Noite das Mulheres Cantoras. Bem enraizada numa atmosfera de mudança da História (do final do século XX ao princípio do século XXI), a obra de Lídia Jorge é permeável a rumos e a interrogações que é já possível traçar, sem prejuízo de se reconhecer que o próprio sentido da mudança vem a ser, cada vez mais, intrinsecamente estruturante da obra da escritora. Dois desses rumos: o que conduz à emergência de uma literatura centrada na guerra colonial e nas suas sequelas ideológicas, que ainda ecoam entre nós; o que leva ao advento (muito forte desde os anos 70) de uma literatura que problematiza a figura da mulher, a sua voz e os seus modos de ser em tempos pós-modernos e pós-coloniais.

Passa-se isto, em Portugal e em Lídia Jorge, sob o signo de transformações sociais e mentais às vezes aceleradamente incorporadas no viver coletivo. Por exemplo: os resquícios da memória colonial e as agruras do redimensionamento nacional pós-imperial; a europeização dos modos de vida e as obsessões da modernização; as bruscas modificações de comportamentos às vezes seculares e as repercussões mentais e sociais de movimentos migratórios; as constrições de quotidianos normalizados e a transformação do papel da mulher e da sua mentalidade; as práticas de exclusão social e a subversão das linguagens com crescente influxo da civilização da imagem.

É de tudo isto que se vai fazendo uma obra, na aceção sociologicamente mais exigente que a expressão pode ter. E é por tudo isto que um novo romance de Lídia Jorge traz consigo o halo de expectante responsabilidade que atribuímos à escritora. Depois d’O Dia dos Prodígios (1980), d’O Cais das Merendas (1982), de Notícia da Cidade Silvestre (1984), d’A Costa dos Murmúrios (1988), d’A Última Dona (1992), d’O Jardim sem Limites (1995), d’O Vale da Paixão (1998), d’O Vento Assobiando nas Gruas (2002) e de Combateremos a Sombra (2007) (não estou a citar de forma exaustiva), o novo romance de Lídia Jorge reajusta os temas a que já me referi a uma história que, nos termos sinuosos da retórica ficcional encenada em A Noite das Mulheres Cantoras, confirma o impulso inovador que aqueles títulos trouxeram à nossa literatura. Tudo isso e também a confirmação de uma aguda consciência do romance

3.
Falo de consciência do romance em Lídia Jorge (uma consciência indissociável de uma mais lata consciência da língua de que a escritora deu conta em diversos locais: por exemplo, no seu Contrato Sentimental, de 2009) para lembrar um seu importante texto a este propósito. Intitulado “O Romance e o Tempo Que Passa ou A Convenção do Mundo Imaginado” (em http://www.plcs.umassd.edu/ docs/plcs02/plcs2-pt4.pdf), esse texto formula de forma muito clara a função que a este fundamental género narrativo é atribuída por Lídia Jorge: “Creio que o romance continua a desempenhar uma função que nenhum outro género desempenha, até porque o romance, género de narrativa recente, é o rosto visível do mundo contemporâneo, e mãe duma antropologia nova que ainda só há dois séculos fundámos, e que não pode estar prestes a terminar.”

Ser “rosto visível do mundo contemporâneo” é, neste contexto, configurar, como cronótopo e como ficcionalidade, uma imagem do tempo e do espaço que vivemos (vivemos: ambiguamente presente e passado), refigurada pela linguagem do romance, essa mesma que é capaz de insinuar a antropologia nova que lhe é própria: a dimensão humana da narrativa, com a personagem como seu fulcro, as derivas da alegoria, da parábola e da reelaboração do tempo, sob o signo daquela vivência humana, são as cenas em que aquela antropologia nova se desenrola. É assim em A Noite das Mulheres Cantoras de Lídia Jorge.

4.
O ponto de partida para a construção d’A Noite das Mulheres Cantoras é um relato, “O conto de Solange” (ou “Noite perfeita”), datado de 16 de novembro de 2009, relato a que a escritora terá tido acesso, conforme anuncia na nota preambular “Sobre este livro”. Propondo-se desenvolver em “versão alargada” aquele conto, Lídia Jorge retoma um procedimento similar ao que conhecíamos d’A Costa dos Murmúrios e confirma uma espécie de poética da narrativa a que não é estranho aquilo a que chamei a consciência do romance: nenhum relato está irrevogavelmente completo, nenhuma versão das coisas é impenetrável e um novo olhar, o mundo reconstrói-se pelo poder representacional do romance. Ou então, retomando as palavras da nota prévia: “narrar, seja lá de que modo for, é sempre uma forma de continuar a infância do mundo. E a sua orelha, que não se confunde apenas com a matéria sensível, por certo que será infinita”.

Aquilo que “Noite perfeita” nos propõe não é apenas e singelamente a evocação de um episódio de celebração do êxito passado de uma banda feminina. Há, para além desse êxito projetado no espaço público, uma “lembrança privada” que não cabe nestas páginas iniciais. Mais: o que parece fulminantemente transitório – o “reino do efémero” ou o “território do império minuto” – deve ser aprofundado na “antropologia nova” chamada romance. Passados 21 anos só ele pode dar testemunho da densidade humana e do impulso de interpelação social que a história da banda feminina esconde.

Justamente: 21 anos antes da “noite perfeita” nem tudo o era, apesar de agora tendermos a pensar que assim foi. É bem verdade que a seletividade das nossas interesseiras recordações pessoais pode ser redutora se a ética do romance a não compensar, para benefício da nossa memória comum. No Portugal do fim dos anos 80 (por 1987 e 1988), cinco jovens mulheres – Solange de Matos, Gisela Batista, as irmãs Nani e Maria Luísa Alcides e Madalena Micaia – investem as suas ilusões quase juvenis no reino simbólico da música. É nele que a harmonia perseguida, a declinação do individual no coletivo e a tensão do sujeito com o grupo levam à configuração de uma frágil personagem coletiva. O conjunto em ensaio (ensaio: tentativa, experiência e prova) protagoniza também um processo de formação e aprendizagem, bem sintonizado com a lógica de um conhecido e consequente subgénero do romance europeu, o Bildungsroman. Nele, mudança, amadurecimento e indagação são sentidos estruturantes de certa forma projetados sobre todo o relato em que a pessoa humana está, como usualmente acontece, no centro dos acontecimentos. Acontece isso mesmo com as personagens femininas d’A Noite das Mulheres Cantoras, personagens que, antes de serem femininas, são sujeitos individuais aprendendo e ensaiando a autonomia da pessoa e o seu livre arbítrio, a dialética da liderança e da submissão, a afirmação da vontade própria e a aceitação do outro, grandes temas que agora e sempre povoam a literatura em que nos revemos. Porque também assim somos.

5.
A história contingente d’A Noite das Mulheres Cantoras é mero pretexto para o que vai sendo descoberto. No decurso do ensaio para a produção de um disco e de um concerto, emergem as diferenças individuais, sobretudo a de Madalena Micaia, em quem ressoa (no que é cúmplice de Solange) um outro e bem singular mundo, o de África, com os seus instintos dificilmente enquadráveis na sociabilidade “europeia” do grupo e das suas convenções artísticas e sociais. A morte de Madalena sobressalta a harmonia instável do conjunto; e a vivência amorosa de Solange induz uma maturação pessoal vivida numa clandestinidade em que se encena também a perda da inocência. “E assim nos dispersámos” (p. 293), como se por magia se resolvessem e enterrassem os dramas a que a experiência coletiva obrigou.

Mas as coisas não são assim tão fáceis e o romance (este romance) existe para nos lembrar isso mesmo. Digo para nos lembrar, porque o romance é sobretudo uma voz contra o esquecimento, conforme se sugere quase no final d’A Noite das Mulheres Cantoras: “Se insisto na questão do esquecimento, é talvez porque nenhum outro assunto tenha sido tão importante quanto esse, ou talvez porque nem mesmo haja outro assunto”. A isto acrescenta-se, quase logo depois: “Mas o que mais me intriga, passados vinte e um anos, é que todos nós tenhamos estado tão próximo dos mesmos factos, que cada um de nós tenha tido acesso a informações diferentes, e que nunca esses dados se tenham cruzado” (p. 229).

Justamente: este romance, contado pelos filtros conjugados da memória e da vivência do tempo, segundo a narradora Solange de Matos no presente da narração, vem dizer-nos que só ele é capaz de recuperar, por um processo efabulativo que transcende o concreto e o contingente, aquilo que de pessoal, social e cultural importa reter, para agora e para um futuro comum alicerçado na memória que não deve ser rasurada; assim o romance ajuda a enfrentar a morte, conforme a noite simbólica dá a entender: “Eu tinha a ideia de que aquela noite não era uma noite, era aquele momento circular e totalitário de que falam as pessoas que uma vez estiveram à beira da morte e contam que, num ápice, reúnem numa só paisagem todos os pontos altos da sua vida, tudo o que viram e experimentaram, e todos aqueles que conheceram ficam equidistantes de um ponto fixo aberto no coração, correndo diante do olhar e do pensamento de forma imparável” (p. 302).

6. 
Esta paisagem chamada romance é, para Lídia Jorge e para quantos com ela nisso creem, uma forma superior de representação de uma outra realidade. Por isso ele continua a merecer a confiança da escritora. “Sou daqueles”, diz-nos Lídia Jorge no texto que já mencionei, “que se inquietam mas que creem que a maquineta de Guttemberg não acabou, nem a Literatura nem sequer o romance, a forma literária mais versátil, dir-se-ia mesmo até a mais promíscua, no sentido positivo da plasticidade que ‘promiscuidade’ pode assumir.” Assim é. Por isso mesmo, “a forma mais híbrida e adaptável da criação poética, não pode declinar a sua função deixando vazio o lugar que lhe pertence e nenhuma outra realidade até agora substitui.”
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* Texto lido na apresentação
 do romance "A Noite das Mulheres Cantoras,
 (24 de março de 2011, na Casa Fernando Pessoa, Lisboa)

terça-feira, 15 de março de 2011

Apresentação * Francisco Duarte Azevedo

O Trompete de Miles Davis

Lídia Jorge *

Estamos perante um policial? Em parte, sim. Aqui existe um trompete roubado e toda uma teia de passos e factos intrigantes, pistas falsas e outras escondidas que levam trezentas páginas a deslindar. Também existem acenos de morte, e figuras tão decrépitas que já não têm redenção possível. E existe cheiro a sangue, clorofórmio e uma bela morgue onde se desmaia. Existe a tragédia feita cenário, e a comédia erguida em torno do detective, como é próprio do género. E também existe o suspeito inocente e a culpa que anda repartida de colo em colo até se chegar à mão de quem executou o acto, de modo a podermos dizer, enfim, neste mundo existe uma ordem, e existe, evidente, a lei do crime, que, mau grado a surpresa, está submetida como tudo o mais a uma lei universal. É isso que sempre se descobre nos grandes livros do género, e este não lhe fica atrás.

Mas este livro é muito mais do que um caso de polícia escrito para entretenimento, em que ao leitor é oferecido um tabuleiro de xadrez com metade das peças para ir jogando sozinho, tentando aplicar a lei - Porque não dizê-lo? O Trompete de Miles Davis é um livro literário no sentido mais amplo da palavra, construído em torno de uma atmosfera, de um sentimento e de uma ideia que o provoca. Uma atmosfera de confluência entre um certo mundo norte-americano residual, fixado em torno dos seus modelos tradicionais, cruzada com o retrato de um melting pot actual agindo ao vivo, onde avultam em particular as lembranças ternas e cómicas do mundo emigrado lusitano. E a singularidade desta memória portuguesa, tocada pelo habitat do Novo Mundo, age sobre a alma do detective lusitano de uma forma particular. Saudoso, melancólico e literário, sóbrio e furioso, adaptado e ao mesmo tempo renitente, sente-se, da primeira à última página, a presença de uma identidade que pensa e escreve, emprestando um tom de verdade ao correr das linhas. O brilho deste livro nasce aí, nessa junção feliz de várias máscaras que, unidas, oferecem o tom agilíssimo da escrita.

Nesta narrativa, personagem, actor e autor, essas três figuras reunidas confluem para um caudal de imagens, diálogos, cenas e monólogos interiores, de tal modo entretecidos, que por vezes se pensa que estamos paredes meias com páginas ao mesmo tempo tão compassivas e tumultuosas quanto as de John Fante. Além de que existe uma ideia mãe que atravessa este livro. Mas tal como nos bons policiais, a ideia forte não deve ser desvendada. É preciso escavar na leitura. Bastará dizer que ela se encontra disfarçada de graça, e de brilhos, embrulhada atrás da quinquilharia oficial, no mundo que parece ser o do quotidiano triunfante, e sob ele existe um outro retrato. Descobri-lo é tão importante quanto perseguir o destino do trompete verde, que tem o potencial inquebrável duma lenda, mas não tem diamantes, donde o quiproquo. Uma ideia escondida, que de vez em quando assoma na espuma da prosa deste livro. É assim que, quase a terminar, a frase roda e abre a porta na direcção certa, quando o detective lusitano lembra a síntese de Joshua, um outro deslocado do seu antigo poiso – Até um pássaro busca o seu ninho.

Mas porque me comove tão intensamente “O trompete de Miles Davis?” - Porque é um livro que alcança muito mais do que pretende e atinge muito mais longe do que anuncia. Porque, nesse desprendimento, nos entrega figuras que nunca mais se afastam do nosso pensamento, tais como Glory Fortunate, Manny Duck, Willy ou Brad Rice, movendo-se num mundo ao mesmo tempo irónico e lírico, épico e prosaico, rente à sublimação da vida vivida e da vida sonhada. Não é um detective que está por toda a parte neste livro, é um autor que sonha. E de súbito, ele acorda, nós acordamos e o jogo da contemporaneidade cai-nos em cima. Um primeiro livro que parece ser o sexto. Confesso que não esperava.

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* Apresentação do livro "O Trompete de Miles Davis",
de Francisco Duarte Azevedo (Planeta, março 2011),
no Salão de Honra do Instituto Camões,
a 15 de março de 2011

Original * Chamar as palavras

Conto para Saïd
O Signo da Brevidade

Lídia Jorge *

Escrevo contos desde que aprendi a redigir, e penso em contos que não escrevo como uma forma própria de pensar sobre tudo aquilo que causa intriga ou espanto. Porque um conto é um raciocínio colorido. Se me perguntam sobre o sentido do passado, eu começo por responder Era uma vez. Se me perguntam sobre as tensões do presente, começarei de novo por Era uma vez. E nada poderei desejar sobre o futuro que não inclua essa fórmula de adivinhação – Sim, era uma vez, no futuro será assim…

Que me perdoem esta forma repetitiva de dizer que só através das vozes desenhadas em imagem com rosto humano posso descrever a parte do Mundo que me cabe conhecer e desconhecer. A culpa foi da minha avó materna. Ela é que me sentava nos joelhos e para me falar do medo, contava contos sobre os mortos, para me falar da alegria contava histórias de princesas, e para me falar da possibilidade de tudo imaginar, contava-me histórias em que os animais falavam e tinham casas e filhos com nome de pessoas. O valor da vida e suas relações começou dessa forma – Ao anoitecer, sobre a minha cabeça, a narradora reportava acções simplificadas, palavras certeiras. Eu já sabia. Segundo elas, tudo o que tinha seu início, seu risco e seu enigma, reclamava uma solução obrigatória, e logo terminava, e eu mesma pedia que o desfecho fosse rápido. Tinha sempre pressa em conhecer o desenlace, como se todo o princípio tivesse nascido para terminar num tempo próximo, em que a dúvida sobre o destino das personagens fosse intensa, mas não demorasse a deslindar. Não corroesse nem maçasse. Tudo começou assim, mas só passado muito tempo percebi que essa harmonia entre início, fim e exaltação do sentido, tecidos sobre o signo da brevidade, eram a cartilha que presidia ao conto.

De facto, na maioria das línguas latinas, a palavra conto anda associada a computum, nome de contar, coisa numérica, ordinal. E nesse caso, contar um conto seria construir uma série sobre o fio da lógica e do número, produzir uma escala de rigor contável, e logo numeral e abstracto. Mas eu prefiro escolher um outro étimo. Também consta que o conto poderá ter tido origem na bela palavra grega kontós, ponta da lança e do remo, gume acutilante, aquele vértice agudo que iria cortando a matéria inútil na perseguição do relevante. Objecto de separar carne ou de separar água. Ora se me é permitido escolher, entre os dois objectos cortantes, eu prefiro o remo à lança. Então, mesmo que não corresponda à realidade, o ritmo do meu conto procura seguir o remo dentro da água, e eu, que sou lenta e demorada, como todos os romancistas são, vou-me dizendo à minha escrita quando escrevo contos - Rema mais rápido, mais rápido, mais rápido ainda…

Sim, procuro obedecer a essa velocidade alta. Tudo começa, em geral, por um achado surpreendente que vem da rua, do voo dum pássaro, duma confissão rápida, uma imagem fugaz no autocarro, acontecida no afã da vida diária, na pressa de existir, no desencontro pelas portas. Um caso raro cujo sentido brilha no escuro porque não se resolve, porque resiste à sua solução, não se conforma com o nosso entendimento prosaico. E porque surge essa imagem, carregada de mistério, se não surgiu para que o seu sentido possa ser dirimido? Como vai ser resolvido o enigma? Não irá sê-lo agora, não irá sê-lo nunca mais? – Nesse caso, então, é preciso ser escrito. Começar por Era uma vez, e chamar as figuras, as ruas, as portas, as vozes, as árvores, o sol que naquele dia caía a pique, naquela noite chorava lágrimas de chuva, naquela madrugada via aviões partirem para países distantes. É preciso convocar essa realidade e chamar as palavras, para que através da configuração de outra matéria, a realidade se faça outra, é preciso entrar para dentro desses espaços agora munidos da cor da metáfora, de modo a poder-se espreitar uma outra lógica, uma outra fórmula, e em conformidade, deslindar o nó sob essa outra luz. Por vezes, porém, o nó não é deslindado. Ele pode ficar a pairar sobre a nossa cabeça, e a persistência desse nó inviolável pode ser o seu sentido exacto. Resistir ao sentido. O conto veio para isso. No fundo o que é preciso é que o sentido em parte se desvende e em parte nos resista, em parte fique a pairar, incompleto e breve, como um poema fica. Uma oferta sucinta. A escrita deve permanecer sob o signo do remo veloz mergulhado na água funda, e a gente vai dizendo mais rápido, mais rápido…

Muito rápido. Talvez por isso o conto seja o género que melhor associamos à viagem e à deslocação. O conto inscreve-se bem como unidade de passagem. Lê-se pela manhã, antes de partirmos. No intervalo da viagem enquanto repousamos. À hora das refeições, está bem um conto, que dura entre a sobremesa e o cochilo. Um conto lê-se na estalagem, ao serão, durante o qual se iniciou uma unidade e se fechou a unidade. Como o sonho da noite que se esboça, se joga na plenitude da sua irrealidade dramática, e passado um tempo sem tempo, se desfaz. Vai e vem durante um sono, na cama do hotel. O conto é o género que sai do sono e que melhor se aplica ao nosso sonho. O antes e o depois aproximados pela suspensão dos tempos. Novalis disse – “Tudo acontece em nós muito antes de ter acontecido”. Assim é. E este é o género que melhor procura encontrar esses dois tempos reunidos. O conto, como o poema, persegue o âmago desse encontro.

Pois o romance, onde me afadigo sem parar, como se fosse uma tarefa de lentidão e largueza, herdada de uma região que desconheço, repete a vida, retoma-a e reprodu-la, toma as suas vinte e quatro horas e olha-se no espelho de longos meses e anos. Reproduz a existência. Mas o conto não pode reproduzir a existência, apenas escolhe instantes e por isso, mais do que perseguir a vida o conto persegue o ser. Era uma vez, resume a forma encontrada para se declarar que em toda a diversidade procuramos um ínfimo todo, que não era, nem será, apenas tem de ser. O conto enquanto género condensa a fórmula escondida que suporta o género humano, e que só de vez em quando ainda a medo nos afoitamos a pronunciar - É uma vez. E no entanto, para escrever contos, não é preciso pensar em nada disto. Para escrever um conto, basta deixar que a realidade do Mundo entre para dentro dum teclado onde batem, como patas de cavalo, os nossos dedos. As frases formam-se sob o atrito das falanges, e é tudo.
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* Texto inserido em antologia de originais editados em árabe
 (Saad Warzazi Éditions, Marrocos, março de 2011,
tradução e selecção de Saïd Benabdelouahed)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Depoimento * Karin von Schweder-Schreiner

Quando a Alemanha
abre um livro português

Karin von Schweder-Schreiner *

No ano passado, eu fui convidada a fazer uma leitura pública de algumas passagens do livro "O Vento Assobiando nas Gruas" de Lídia Jorge, na minha tradução. A leitura fazia parte de todo um programa cultural que teve o seu início no mês de Outubro passado e se vai estendendo até o mês de Julho deste ano, incluindo música, teatro, exposições e literatura. Tudo isto tem e vai tendo lugar na cidadezinha Gschwend no Sul da Alemanha que eu até lá nem sabia que existia, nunca tinho ouvido falar do lugar. Desde há vinte anos, naquela cidadezinha, melhor dito burgo de poucos milhares de habitantes, organizam aquele programa cultural, todos os anos com destaque em determinado país e sua respetiva cultura, para a edição atual o país escolhido foi Portugal. Assim, na parte musical incluia-se uma noite de fado, a fadista convidada era Ana Moura. A primeira das noites dedicadas à literatura foi a minha leitura, no final do mês de Janeiro apresentou-se Teresa Salema, falando sobre a "Literatura e cultura portuguesas" depois do 25 de Abril. Para Fevereiro está programada uma noite com José Riço Direitinho, atualmente bolseiro da Villa Concordia de Bamberg, cidade histórica na Baviera. A Villa Concordia, chamada de Casa Internacional das Artes, é uma instituição financiada pelo estado da Baviera que todos os anos convida artistas alemães e estrangeiros (esses todos do mesmo país) para passarem um ano na cidade de Bamberg e trabalharem juntos. Em Gschwend, também para Fevereiro está prevista uma noite de leitura do "Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago, uma noite muito especial porque a pessoa que vai ler é um ator cego. E acontecem casos como o do senhor que no dia seguinte à minha leitura me levou para o aeroporto de Estugarda. Ele me contou o seguinte: Há alguns anos, ele ganhou de presente de Natal o livro "Comboio Nocturno para Lisboa" do autor suiço Pascal Mercier (pseudónimo de Peter Bieri). Duas semanas mais tarde, aquele mesmo senhor comprou o bilhete de comboio e embarcou para Portugal. Desde então, todos os anos ele vai passar férias em Portugal porque ficou fascinado pelo pais e agora pretende aprender português.

Bem, falo destes eventos todos para deixar claro que na Alemanha existe sim um interesse, um fascínio pela cultura portuguesa, embora menos do que seria de desejar. O mercado livreiro alemão é dominado pelos livros traduzidos do inglês, sobretudo do inglês americano. Um autor português tem que ser muito bom para ser publicado na Alemanha, mas mesmo sendo muito bom sempre terá dificuldades em conquistar o grande público. Infelizmente, o gosto majoritário tende a consumir leituras mais fáceis, como os bestseller americanos. Mas os autores como Lídia que têm os livros publicados na Alemanha, têm um público fiel.

Eu não sou socióloga nem crítica de literatura nem agente literária, eu sou uma simples tradutora de literatura de língua portuguesa para o alemão. O meu voto tem pouco peso nas decisões das editoras em relação aos livros que elas vão publicar. Se me perguntarem quais são os assuntos, as histórias portuguesas que mais interessam ao leitor alemão eu teria dificuldades em responder. Os livros que eu traduzo são escolhidos pelas editoras, só depois de comprarem os direitos é que me procuram para me encarregar de traduzi-los. As boas editoras alemães, em geral, seguem uma política editorial que consiste não em publicar livros soltos mas sim em cultivar os autores. Quer dizer, elas procuram estabelecer uma relação contínua entre os autores/autoras e a própria editora, escolhendo, quanto à literatura estrangeira, se for possível, os melhores do país em questão. Na Alemanha, todos os anos são publicados alguns livros traduzidos do português, mas levando em conta o número das traduções do inglês e do francês, são uma minoria minúscula e – infelizmente - nunca chegam a vender muito. Dos autores portugueses, o mais conhecido na Alemanha é Fernando Pessoa. O "Livro do Desassossego" é, aliás, o único bestseller traduzido do português, até hoje vendeu mais do que 100.000 exemplares.

Na verdade, os alemães sabem muito pouco sobre Portugal e a sua cultura, eu até diria que conhecem bem melhor a cozinha portuguesa do que a literatura portuguesa. Como vocês certamente sabem, a partir dos anos sessenta do século passado, quando a indústria alemã ainda precisava de mão-de-obra, muitos operários portugueses emigraram para a Alemanha, como aliás, também muitos e até mais ainda foram trabalhar na França. Acontece que ao contrário do que os políticos alemães planejavam, em vez de ficarem alguns anos e depois voltarem para a sua terra – os alemães inventaram o termo de "Gastarbeiter", o que significa "operário convidado" ou "operário visitante" – na sua maioria, os operários portugueses ficaram de vez, fixaram-se nas grandes cidades, sobretudo no Norte. Hamburgo, hoje em dia, tem a maior comunidade portuguesa dentro da Alemanha. Bem, os portugueses ficaram, e em vez de continuarem a trabalhar nas fábricas, muitos abriram restaurantes e cafés. Resultado: Só em Hamburgo, hoje temos cerca de 40 restaurantes e mais ou menos 80 pastelarias portuguesas, e na zona do porto da cidade, existem tantos restaurantes que todo um bairro é chamado de Bairro Português. Os alemães adoram a cozinha portuguesa, a hospidalidade portuguesa e, de vez em quando, têm a oportunidade de apreciar a comida junto com a literatura, como há dois anos, quando por ocasião dos 25 anos dum restaurante, convidaram-nos a Maralde e a mim a participar dum jantar com leitura, em que as duas limos das nossas traduções. Para o evento, o chefe do restaurante compôs um menu baseado nos livros que traduzimos.

Na época em que os portugueses começaram a emigrar para a Alemanha, os alemães começaram a descobrir Portugal, sobretudo após o 25 de Abril. Assim como antigamente se dizia em Portugal que as pessoas viajavam para a Europa, muitos alemães achavam que a Europa terminava na Espanha, Portugal simplesmente não existia no mapa europeu deles. O 25 de Abril abriu as fronteiras nos dois sentidos. O que na época começou como turismo político passou a ser turismo normal, os alemães conheceram as belezas do país, a natureza, a música portuguesa, a amabilidade das pessoas, o ritmo mais calmo da vida. O fado passou a ser uma paixão dos alemães, e aos poucos começaram a interessar-se também pela literatura portugesa. Foram as obras de Fernando Pessoa, as primeiras nas traduções de Georg Rudolf Lind, depois na tradução de Inés Koebel que também fez uma revisão bem meticulosa e – sobretudo – muito mais poética das traduções já existentes, e em primeiro lugar o êxito do "Livro do desassossego" que originou um verdadeiro turismo literário a Portugal. Desde então, organizam-se viagens de grupo que vão visitar os lugares que as pessoas conheceram primeiro nos livros.

Conhecer o ambiente em que se passa a narrativa, conhecer os cenários, os lugares onde vivem os protagonistas, onde sofrem ou amam – ou, muitas vezes, as duas coisas ao mesmo tempo -, é uma grande vantagem, uma sorte para as tradutoras – que na verdade somos quase exclusivamente mulheres que traduzem livros do português. Conhecer também o autor ou a autora, é a sorte grande. Eu tive esta sorte grande ao ser escolhida para traduzir os livros de Lídia Jorge. Ao decorrer dos anos, a nossa relação autora/tradutora tornou-se em relação de verdadeira amizade. Fui conhecendo a família da Lídia, a sua casa, a paisagem da sua infância, e o conhecimento de tudo isto facilita o meu trabalho de tradutora, influencia e marca, de maneira indireta, a minha tradução. Conhecer pessoalmente a autora de quem eu traduzo os livros me permite trabalhar junto com ela. Sinto muita pena de meus colegas tradutores do inglês que nunca conseguem trocar nenhuma palavra com os autores simplesmente porque os próprios autores não o querem. Para mim, é uma atitude incompreensível em que se manifesta certo desprezo pelo nosso trabalho. A tradução literária é uma atividade solitária, somos leitoras bem críticas da obra a que damos a nossa voz, a nossa melodia linguística. Mas nem sempre acertamos o tom logo na primeira tentativa, e muitas vezes torna-se indispensável o diálogo com o autor/a autora, um diálogo que costuma ser imensamente intenso e gratificante. Eu já perdi a conta dos encontros com Lídia em que procuramos esclarecer as dúvidas que eu encontrava ao traduzir os livros dela mas sei que sempre foram encontros maravilhosos, dos quais eu regressava com a sensação de ter mergulhado bem profundo na obra dela.

De vez em quando, perguntam-me porque eu fui estudar a língua portuguesa. Eu costumo responder que a minha opção pelo português provavelmente foi motivada pela vontade subconsciente de poder vingar-me da minha família. Desde pequenina eu estava acostumada a ouvir um idioma estrangeiro em casa. É que os meus pais, embora ambos de descendência alemã, nasceram na Rússia e, portanto, falavam russo, como aliás, vários primos meus também falavam e ainda falam, mas nós, as minhas irmãs e eu, não o aprendemos. A fuga no final da guerra, em Janeiro de 1945, levou-nos para uma pequena aldeia no Norte da Alemanha, claro que lá não se podia falar a língua do inimigo. Mesmo assim, quando meus pais não queriam que nós, as filhas, entendessemos o que eles diziam eles falavam russo. E nessas ocasiões, eu sempre sentia-me um pouco excluída. Por isso, quando resolvi estudar línguas eu escolhi o português porque era um idioma que ninguém na minha família falava. Hoje, eu até estou grata por não me terem ensinado a língua russa, porque nesse caso provavelmente eu nem teria estudado português nem conhecido este país. O que seria uma grande pena.

Hamburgo, 14.02.2011
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* Tradutora da obra de Lídia Jorge para a língua alemã.
Comunicação feita no encontro
"O Nosso Imaginário Interessa aos Europeus?",
no Convento de Santo António, em Loulé,
integrado nas comemorações do 30º aniversário de “O Dia dos Prodígios”



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Depoimento * A escola daquele tempo

Os dois lados do mundo

Lídia Jorge *

A Escola da Cabeça d’Águia era uma casa com uma porta, duas janelas e mais nada. No primeiro dia em que me levaram até lá, fiquei feliz porque ia encontrar crianças da minha idade. Elas lá estavam, divertidas, barulhentas, grandes olhos, faces magras. Também era a primeira vez que me colocavam na mão uma caneta de tinta de molhar e ela escorregou-me da mão, borrou a folha e rebolou pelo chão. Tive de gatinhar debaixo das carteiras para a encontrar. Foi então que eu reparei que os pés dos meus colegas, em grande parte, estavam descalços. Vi os seus pés pousados no chão e percebi que a turma se dividia em duas metades – os que tinham e os que não tinham sapatos. Nessa noite, procurei sapatos que servissem aos meus colegas, e em casa havia-os em várias caixas, mas de criança encontrei só um par, e eu queria encontrar botas, formatos vários. A minha mãe descobriu o que eu andava a fazer e disse-me – “Para quê tudo isso? Desengana-te, por mais que faças, nunca vais calçar toda a gente”. E assim foi. Passei muitos anos sem contar este episódio, até que desisti desse silêncio. Passado todo este tempo, a Humanidade continua a dividir-se, exactamente, nesses mesmos dois grupos – Os que andam e os que não andam descalços. Só na Literatura conseguimos encontrar sapatos para todos. Talvez essa seja uma das razões por que escrevo. Talvez escreva desde aquele dia em que a caneta escorregou pelo tampo espalhando tinta no papel e conduzindo-me ao chão do mundo.
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* Texto colocado em mural na exposição bio-bibliográfica
promovida pelo Câmara Municipal de Loulé

Intervenção * No Doutoramento Honoris Causa

Aos Professores

Lídia Jorge *

Sinto-me muito honrada por me ter sido outorgado este Doutoramento Honoris Causa pela Universidade do Algarve, a Universidade da região à qual por coração pertenço. É uma grande honra e uma grande alegria. Um momento único na minha vida. Por isso mesmo não quis vir até esta cerimónia sozinha. Quis a ela associar os meus melhores amigos, que aqui estão presentes, a quem saúdo em particular, e comigo trouxe a minha família, aqueles que têm sido ao longo dos anos os meus pilares de aço invisíveis. Fiz questão de partilhar, com os que me são próximos, o momento em que esta Universidade me acolhe, me oferece as suas fórmulas simbólicas e reparte comigo as suas insígnias. Ao caríssimo Professor Doutor Pedro Ferré, agradeço, de maneira muito especial, as palavras com as quais justificou a atribuição deste doutoramento.

Ouvindo os seus argumentos, confirmo o que eu já sabia, que a porta de entrada para este acolhimento, foi o mundo dos livros. E tomei conhecimento do valor que atribui àqueles que eu mesma escrevi. O Professor pôs em relevo o que toma pelas suas qualidades, e sublinhou alguns dos meus próprios caminhos. Sinto-me muito grata. Mas eu quero acrescentar que ninguém escreve sozinho. Boa parte do que até agora fiz, e que veio a merecer esta distinção, também foi o resultado de certos encontros e do que foi acontecendo, ao longo da vida, um pouco por acaso. Todos sabem que uma das disciplinas mais curiosas da Matemática é o chamado Cálculo Estocástico, aquele que trata, precisamente, da lei da conjectura e das probabilidades. O que significa que esse tipo de cálculo lida com as leis do acaso. Mas não sei se em semelhante disciplina existirá algum capítulo dedicado ao Bom Acaso. Se não existe, provavelmente, seria bom que existisse, pelo menos para nós podermos continuar a acreditar que o Mundo ainda tem a sua infância, podendo nós, de vez em quando, confiar inteiramente no recomeço das coisas.

Por mim, devo ao Bom Acaso o facto de ter nascido numa família de camponeses que amava os livros. Aconteceu há muito tempo. A vida no campo, então, era árdua e tudo o que não fosse a terra, ela mesma, era precário. Por essa altura, em nossa casa, a leitura constituía um momento de sonho e de evasão, era o único estímulo cultural de que dispúnhamos, mas sendo o único, aproveitámo-lo bem. O Bom Acaso fez que a minha mãe tivesse tido a ideia de reforçar essa tradição familiar, comprando-me um livro cada vez que se deslocava a esta cidade. Lembro-me daquele momento carregado de mistério, em que o livro saía do saco, e eu via pela primeira vez o título e as imagens da capa. Recordo de forma muito especial aquele dia do início de Fevereiro de cinquenta e quatro, em que nevou no Algarve. A minha mãe e a minha tia Alice tinham vindo tratar de documentação a Faro, e de regresso foram surpreendidas pelo nevão. Passámos a noite, incomunicáveis, à sua espera. No dia seguinte, já tarde, quando a queda de neve acalmou, via-as avançarem pela paisagem branca, e a situação era tão invulgar, que eu nem me lembrava do livro prometido. Mas, como sempre, a minha mãe trazia-o. Trazia o livro dentro do mesmo saco e entregou-mo como se fosse mais um. No entanto, não era mais um. Sem o saber, a minha mãe oferecia-me, nesse dia tão particular, a primeira versão a que eu tive acesso do célebre livro de Lewis Carroll. Sem fazer ideia, oferecia-me o meu primeiro Alice no Pais das Maravilhas, que haveria de me acompanhar pela vida fora, como um símbolo. E foi assim. Foi assim que a infância me fez leitora.

Mas a infância faz leitores, não faz escritores. Ser leitor é ainda continuar uma proposta, escrever já é contrapor uma outra proposta. A infância mantém o ser da criança unida ao mundo onde as forças agem por magia, onde ela e o mundo não se distinguem, onde o mundo canta e dança e fala como ela. Mas o adolescente, esse corpo desengonçado de onde parte o escritor, separa-se do mundo, descobre que ele é ele, e o mundo é o mundo, e que o mundo é poderoso, enigmático, está cheio de seduções, delícias, penas, desafios e perigos, e por isso quer descobri-los, conhecê-los e naturalmente aproveitar-se deles e vencê-los. O adolescente quer ser o herói que vence o mundo, com suas regras escondidas, e assim descobre as regras e cria as condutas da honra para poder lidar com ele, baseado em códigos. O longínquo, o estranho, o total, o escuro e os limites do absurdo são o seu território de descoberta. Por isso o adolescente parece um fanfarrão em confronto com a totalidade. Creio que é esse o espaço de confronto que os escritores prolongam ao longo da vida, tendo por base o código das palavras para atingir a totalidade do mundo, como outros criam outros códigos de outra natureza para alcançar o mesmo ilimite. Pois eu diria que também aí, o Bom Acaso veio ter comigo.

Na adolescência, eu poderia não ter encontrado os instrumentos necessários para criar o meu confronto, e poderia não ter encontrado as pessoas certas para me ajudarem a descobri-los. Mas tive-os. No Liceu desta cidade tive os professores certos, aqueles que me indicaram títulos e me emprestaram livros, professores que leram as minhas primeiras histórias, que me levaram pela primeira vez ao teatro, pela primeira vez me levaram a assistir a conferências, me levaram a ver uma primeira exposição de pintura, professores que juntavam a turma a que eu pertencia em encontros para discussão, como se fôssemos amigos. Éramos um bando. Professores que nesse tempo, em que toda a dedicação era gratuita, fizeram dos alunos as suas pessoas de família. Professores que foram mestres. Como tantos rapazes e raparigas da minha idade, eu poderia não ter tido estes professores. Mas houve mais.

Então, eu passava as longuíssimas férias de Verão no alto do nosso monte em Boliqueime, aprisionada numa casa de lavoura, e os livros estavam todos lidos. Mas o Bom Acaso fazia que ao longo desses meses intermináveis, a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian passasse por ali, e o condutor bibliotecário escolhesse por mim os livros grossos. O Bom Acaso colocou-me esses livros no regaço e eu, que não viajava, viajei e fiz-me uma pessoa da distância através deles. Viajei para a Escócia com "A Noiva de Lammennoore", para o Sul dos Estados Unidos, com "As Vinhas Da Ira", para o centro da Europa, com "A Vigésima Quinta Hora", para a Rússia dos Czares com "Guerra e paz". Lembro-me em particular do livro de Hemingway, "Por Quem os Sinos Dobram", esse romance que falava da Guerra Civil 'espanhola, e da história de Jordan e Maria, de Pablo e de Pilar, enredados naquele terrível conflito. O livro tinha de tudo, cenas de amor, violência, traição, fidelidade, e as personagens falavam como se fosse um filme. Mas o que mais me interessava era a sua epígrafe. Hemingway tinha escolhido uma passagem de uma das meditações do poeta inglês, Jonh Donne, para abrir esse livro, e as suas palavras iluminavam as minhas tardes silenciosas. Eu lia em voz alta, vezes sem conta, aquela que é uma das mais célebres epígrafes dos romances do século XX, que toda a gente já leu uma vez. Adolescente, queria ter sido eu a escrever assim - Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti. Li-a vezes sem conta, até decorar. Hoje em dia, estou em crer que a epígrafe de Por quem os Sinos Dobram nunca deixou de estar presente nos momentos decisivos que me levaram, posteriormente, à escrita e à publicação. Tudo isso aconteceu depois de uma experiência a olhar para uma guerra muito particular, a guerra colonial em África, depois de ter tido a ideia de que havia aprendido com ela a formular algumas das perguntas fundamentais que justificam os livros. E foi assim.

Mas o mundo mudou.

Passados todos estes anos, penso nos jovens de hoje, e calculo como não acharão esta história antiga e bizarra. Penso que dificilmente poderão compreender que escassas décadas atrás das suas vidas, os desafios em tomo da leitura e da cultura fossem histórias de escassez. Porque as histórias dos adolescentes e jovens de hoje nada têm a ver com escassez, as suas histórias são de abundância de meios, e excesso de oferta. Nós lutávamos para encontrar um objecto, os jovens de hoje lutam para escolher entre os objectos. Os jovens da minha geração precisavam de inventar os espaços da imaginação. Os jovens de hoje encontram o espaço atravancado de propostas. O significado das coisas, hoje, está escondido debaixo dos seus acessos. Em tomo de cada objecto de cultura, há hoje milhares de caminhos que se bifurcam, infinitamente se bifurcam, para utilizar a imagem de Jorge Luís Borges, ao contrário da linearidade que antes nos ofereciam. Que bom ser criança, hoje, no meio da abundância de tantos objectos mágicos. Que bom ser jovem leitor, quando os livros estão por toda a parte. Que bom termos, hoje, todos os meios à nossa disposição para escrevermos todos em simultâneo. De facto, entre as nossas gerações, são infinitos os elementos que nos distinguem.

E no entanto, há um elemento que nos aproxima, e nos toma semelhantes - Os jovens de hoje precisam, como nós precisámos, de serem visitados pelo Bom Acaso. Precisam de fazer bons encontros com quem os faça desembaraçar da profusão dos meios, para que encontrem em vez do adorno, o significado. Em vez da encenação, os textos. Em vez do resumo em duas linhas, e da profusão de imagens, e da opinião superficial cruzada, precisam de encontrar os próprios livros. Precisam de quem os ajude a des-ocultar o que é precioso e indispensável, e está escondido sob a morraça da superficialidade. Claro que a vida e a surpresa, em parte, repetem-se sempre. Hoje em dia, quando encontro jovens que gostam de ler, e em geral são os melhores estudantes das Universidades, sempre tento saber o que aconteceu nas suas vidas de equivalente a 4lice no País das Maravilhas caminhando sobre a inusitada neve, ou à coincidência entre uma frase de um poeta inglês do século XVII lida em voz alta e o sino da minha aldeia, na segunda metade do século XX. Que coincidências, que Bons Acasos aconteceram? Pois quando os jovens leitores falam desses seus encontros com os livros e a leitura, e por vezes com a sua própria escrita, em geral, coincidem comigo num ponto. O Bom Acaso teve a ver com uma pessoa, muitas vezes com uma pessoa de família, mas a maior parte das vezes, teve a ver com um professor. Um professor concreto, com uma biografia. Uma pessoa. Não estamos tão distantes assim.

É por isso que, neste momento, em que a Universidade do Algarve me outorga este Doutoramento Honoris Causa, porque penso nos jovens, penso em particular nos Professores. Nos Professores das várias áreas do Saber. Já que todas as áreas do Saber têm a sua própria poética e no seu conjunto são um todo. Não existe nenhum ramo do Saber digno desse nome que não tenha a sua poética que é parte de uma Poética mais ampla e comum. Hoje, felizmente, toda a gente o tem como dado adquirido. Aliás, nesse domínio, nada tenho a insinuar diante de quem sabe mais do que eu. Mas penso na figura tutelar dos Professores junto dos seus alunos, como o Bom Acaso, e em particular nos Professores das Humanidades e nos Professores de Português, aqueles que em princípio mais estão ligados a esta causa, e melhor precisam de compreender a delicadeza do momento que passa. Sei que mais não faço do que repetir o que é matéria de consenso entre todos, mas talvez não seja errado reforçar aquilo que é a minha própria convicção. Por um lado, a convicção de que neste início de século as Ciências estão florescentes, e a cada momento que passa evoluem de uma forma extraordinária certamente, para nossa felicidade. Que, também nunca como agora se falou tanto na importância da Leitura e das Artes na formação integral. Mas também nunca como agora está patente a falta do seu abraço. A falta de aproximação entre aquilo que usualmente se chamava, para simplificar, a aproximação entre as Duas Ciências. A minha convicção é que o mundo partirá numa direcção qualquer inesperada se acaso os dois ramos do Conhecimento não fizerem o seu abraço. Se acaso as várias Ciências não integrarem a Leitura e as Artes como a forma de conduzir à escuta interior do coração do próprio e dos outros, esse local escondido onde tudo, afinal, vai bater, quer se queira quer não. E por isso penso em especial nos Professores das Humanidades e nos Professores de Português e dedico-lhes este Doutoramento, pela responsabilidade que lhes cabe na alteração de um paradigma. Uma alteração que lhes permita inscrever a sua ciência, ao mesmo tempo tão indispensável e tão precária, no mundo moldado pela tecnologia cruzada com a contabilidade, a que se junta a publicidade aplicada, empobrecendo de forma tão evidente as sociedades de hoje. Penso no salto difícil que terão de promover, insistindo no mergulho interior dos seus alunos sobre os livros de Literatura a mais densa das Artes, quando todos os apelos são contrários. Dedico-lhes para que não desistam de contribuir para uma harmonia, que afinal é por todos desejada. Não desistam de promover, caso a caso, o Bom Acaso. Esta interpelação não é só minha. Lembram-se sem dúvida das palavras do velho poeta, criado por Wim Wenders, no filme As Asas do Desejo. Também ele, esse velho Homero, perguntava – Devo desistir? Se eu desistir, então a humanidade irá perder o seu contador de histórias. E com ele, também ela, a humanidade, irá perder a sua infância.

Senhor Professor Doutor Pedro Ferré, depois de o ter escutado a sua Laudatio, quero acreditar nas suas palavras. Fazendo fé nelas, acredito que represento no mundo das Letras alguma coisa, mas ainda não sei se é muito, se é pouco. E talvez essa medida nem seja importante. O que sei, isso sim, é que hoje, ao atribuírem-me este Doutoramento, como já aqui foi outorgado a um outro Escritor e a um Cineasta, isso significa que esta Academia no seu conjunto, não quer que os narradores se afastem do seu círculo. Não quer que o Conhecimento que nesta casa se produz seja um saber sem infância e sem adolescência, essa idade que empurra o jovem para o campo da audácia e o adulto para o campo do empreendimento. Ora não querer que os narradores se afastem é um factor de esperança nos caminhos que se abrem para uma Universidade virada para o Futuro.
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* Intervenção na Universidade do Algarve
por ocasião do Doutoramento Honoris Causa
a 15 de dezembro de 2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

Depoimento * Raiz e morada, pulsar universal

Este chão que marca

Lídia Jorge *

O que transforma uma região, uma cidade, um país ou mesmo um continente, num local de ficção, é o nosso olhar. É o nosso olhar sobre os homens que os transforma em personagens, figuras tímidas ou heróis triunfantes, grandes colectivos ou figuras individuais, conforme o nosso alcance e a nossa fantasia. Tudo depende da nossa relação com a terra, esse pilar da nossa verdade.

Mas se muitos dos meus livros têm a marca deste local, não é só porque em relação a ele existe um laço feito de berço, amor e proximidade. É porque a sua atmosfera física incita a imaginação, e a sua vida passada e presente convida a que se invente a partir dela. A sua beleza, o seu isolamento, a sua ligação com as estrelas comovem e mordem o entendimento. Nas últimas décadas, a mudança tem sido tão veloz, para o bem e para o mal, que a sua transformação se tornou emblemática e chama a narrativa. E as figuras que dela saem, trazem a marca de uma luta que mais não é do que a síntese de uma evolução em torno da modernidade.

Reconheço que “O Dia dos Prodígios”, “O Cais das Merendas”, “A Instrumentalina”, “O Vale da paixão” ou “O Vento Assobiando nas Gruas”, encontram aqui a sua raiz e a sua morada, assumida e declaradamente. Nunca disfarcei essa intimidade. Pertenço ao grupo de escritores que consideram que os continentes, os países, as cidades ou as pequenas terras, uma vez inscritos no espaço da Literatura, só valem porque permitem descobrir aquilo que procuramos com a escrita – o entendimento do coração profundo dos homens. Por ventura, a luz viva, que por aqui tanto nos encandeia, abre um rasgão na realidade, de uma maneira tão particular que põe a nu o seu pulsar universal.

* Depoimento para a Exposição 
"O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge30 anos de Escrita Publicada"
entre 11 de dezembro de 2010 e 31 de março de 2011,
no Convento de Santo António, em Loulé.

domingo, 19 de setembro de 2010

[ECOS] Da revista Navegaçôes | Porto Alegre - "Contrato Sentimental"

Um possível Portugal
num futuro distante

Fabio Mario da Silva *
Doutorando em Literatura (Universidade de Évora /FCT)

Em Setembro de 2009 vem à tona mais uma obra da renomada escritora portuguesa Lídia Jorge. A obra, dividida em dez capítulos, promove, através de um texto de caráter ensaístico, reflexões que giram em torno de um tema fulcral dentro da cultura e literatura portuguesas: a problemática da nacionalidade, do português no mundo, das relações do “eu” e do “outro”. O texto se inicia através de um relato de viagem, descobrindo algumas trivialidades, observa uma nação ( no seu fulgor abstrato) inacessível, mas nem por isso deixa de notar que ela tem futuro. Estas afirmações são feitas através de um jogo comparativo entre a sociedade e o modo de ser do português, contrapondo-os aos aspectos mais singulares do espanhol, dos europeus, dos americanos e dos povos falantes da língua portuguesa . É importante frisar que esta temática – a nacionalidade – é deveras discutida por grandes figuras da literatura e cultura nacional, como, por exemplo, por Fernando Pessoa (“minha pátria é minha língua”) e Alexandre Herculano (acreditava que a utilização de linhas de caminho-de-ferro que atravessassem a Península promoveria a diluição de Portugal em Espanha).

Nota-se, no capítulo que trabalha especificamente a mobilidade, que a ideia de cosmopolitismo fraterno atribuída aos portugueses, advinda dos contatos feitos através das descobertas, está em vias de extinção, pura e simplesmente, porque esta ideia distorcida foi incutida pelo Estado Novo e, mesmo permanecendo no nosso imaginário, desfaz-se com o enfrentamento da própria realidade portuguesa. A autora afirma que Portugal agora já não é apenas um país de partida (para os sonhos dos emigrantes), mas também um porto de chegada de várias outras nacionalidades, que vêm em busca dos mesmos anseios dos portugueses além-mar.

Lídia Jorge expõe veementemente seu pensamento sobre o futuro de Portugal através da seguinte dicotomia: o país, num futuro próximo, seria mais educado, mais culto, mais cívico, mais crítico, mais próspero, mais miscigenado, mais solidário, mais justo; porém, se acaso tivesse um tempo a mais para pensar na questão, a autora acredita que não se admiraria se a sociedade portuguesa, a par desses progressos, se tornasse mais violenta, mais egoísta, mais injusta, mais passiva, mais sedentária, ainda mais pobre e burocrática. De certa forma, estas colocações refletem as inúmeras interpelações que a sociedade portuguesa faz sobre si mesma e sobre suas possibilidades futuras. Será que o futuro de Portugal, como disse Fernando Pessoa, está além-mar?

O que efetivamente a autora faz no seu ensaio são conjeturas, a partir de suas vivências, cruzando-as com dados concretos que dispõe, através da sua imaginação e de sua escrita narrativizada, refletindo o futuro, a partir de um discurso que confronta o presente e o passado português que, necessariamente, é um passado que viola as barreiras da atualidade e insiste em penetrar na vivência do hoje na sociedade. O texto é uma constante reflexão (em torno de temáticas como, por exemplo, comunicação, imprensa, livro, língua, cidades e mitos), contrapondo o Portugal de hoje, que tem futuro, com um possível Portugal num futuro distante, tudo sempre analisado a partir da ótica do passado. Ou seja, em relação às entrelinhas do texto, configura-se uma abordagem saudosista, contrapondo a uma reflexão futurista, dos aspectos analisados da sociedade e cultura portuguesas.

É neste tom, anunciado desde as citações que constam da capa, que esta obra de Lídia Jorge é de fundamental relevância para os estudos da cultura portuguesa e vem dar seu contributo para (re)pensar esta sociedade, a partir de uma visão do macro (mundo globalizado) para o micro (cultura portuguesa). No levantamento breve nota-se que o vocábulo futuro é constantemente utilizado como quem almeja um outro país, que consiga sobreviver sem insistir tanto em olhar para o passado, todavia consiga enxergar a sua história passada apenas como um grande patrimônio cultural e não como único ato de sobrevivência da atual sociedade, porque se esta atitude e posicionamento não mudar, acarretará uma grande problemática: “Nada nos garante que no futuro não existam portugueses que assumam sê-lo com orgulho, mas que se tornem indiferentes ao destino de um país chamado Portugal” ( Jorge, 2009, p. 180).
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* Recensão "Contrato Sentimental, Lídia Jorge",
Porto Alegre, EdiPUCRS, 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Depoimento * Retratos da República

Sangue vermelho

Em Portugal, não mora nenhum rei.
O nosso sangue azul corre na constituição
Na noite da eleição, e na força que tem
A lei.

De resto, no coração dos portugueses
Todo o sangue é vermelho. E o progresso
Quando vier, há-de ser fruto de sua espuma
E seu conselho.

Lídia Jorge *
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* Publicado no álbum "Retratos da República",
de Veríssimo Dias e Ricardo Faria Paulino (agosto de 2010)

sábado, 7 de agosto de 2010

Depoimento * 14 substantivos e 1 verbo

15 conceitos

TENTAÇÃO – Segundo o Génesis, tudo começou nas faces de uma maçã. Uma engenhosa parábola para explicar que o interdito é a essência daquilo a que chamamos humanidade.

ESPELHO – Deve ser colocado à média luz, ou apresentar um grão de imperfeição como certos espelhos de Veneza. Distanciar a realidade do seu reflexo é o princípio da transfiguração e da beleza.

CRISE – Disse-me um economista que a única maneira de enfrentar a grande crise consiste em pensar que todos os dias uma crise nasce, todos os dias uma crise se encerra. Eficaz, mas faz tristeza.

LUTA – Pela amizade, enquanto os amigos perdurem. Pelas causas, enquanto os fins as justificam. Pela vida, até à morte, enquanto a vida for digna. Mas difícil, difícil, é estabelecer os limites.

DEFEITO – Entre defeito e virtude, não cabe um papel de seda. Grandes preguiçosos transformam-se em santos pacientes. Terríveis narcisos, em actores geniais. Alguns tiranos domésticos foram poderosos líderes.

INJUSTIÇA – Nascer-se súbdito, ter-se força para deixar de sê-lo, e não se possuir os meios. Ser-se súbdito involuntário do fanatismo, da ignorância, da má lei. Nada mais injusto do que essa vassalagem forçada vivida de olhos abertos.

POLÍTICA - Prostitutos da esperança, pelo menos de quatro em quatro anos, acreditamos que alguém irá fazer-nos bem. E pensar que é isto que nos salva de transformarmos a esperança em fé.

APRENDER – Aprender não é acumular. O que uma geração aprende a outra esquece. Na escolha do que não pode ser esquecido do passado reside a arte de fabricar o futuro.

SEGREDO – Cada um transporta consigo o segredo que merece. Mas, no mínimo, faremos parte do segredo do Mundo, esse alfabeto que resiste.

FAMÍLIA – Fala-se de laços de sangue, voz do sangue, afinidade consanguínea. Não gosto de sangue. Prefiro imaginar que a família é o espaço do nosso primeiro contrato social de entendimento.

AMOR – Palavra tão vasta que nela o sentido se afoga. Eu prefiro vê-la carregada de determinativos, circunstâncias, complementos. Amor próprio, amor-perfeito, pelo amor de Deus.

AVENTURA – O primeiro passo da criança, entre o berço e a porta. O último passo do velho, entre a porta e a cama. No intervalo, a viagem à volta da Terra ou o voo até às crateras da Lua.

NOITE – Quando o dia desiste, chega a sombra da noite. É nela que pensamos encontrar a alegria que a claridade não dá. Os industriais da noite conhecem essa nossa adolescência.

UTOPIA – Pobre Thomas More. O rei fez-lhe aquela maldade. E assim o seu caso deixou um forte aviso – O de que não há utopias grátis. Não se pode acreditar em sonhos de sofá.

FIM – Estamos a falar da circunferência. Se essa figura geométrica for verdade, o fim e o princípio estão unidos. Mas, entre o desejo e a prova, há muito mais do que um diâmetro.

Lídia Jorge *
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* Na rubrica Palavra Puxa Palavra (Expresso | Única, 7 de agosto de 2010)