quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Intervenção * No Doutoramento Honoris Causa

Aos Professores

Lídia Jorge *

Sinto-me muito honrada por me ter sido outorgado este Doutoramento Honoris Causa pela Universidade do Algarve, a Universidade da região à qual por coração pertenço. É uma grande honra e uma grande alegria. Um momento único na minha vida. Por isso mesmo não quis vir até esta cerimónia sozinha. Quis a ela associar os meus melhores amigos, que aqui estão presentes, a quem saúdo em particular, e comigo trouxe a minha família, aqueles que têm sido ao longo dos anos os meus pilares de aço invisíveis. Fiz questão de partilhar, com os que me são próximos, o momento em que esta Universidade me acolhe, me oferece as suas fórmulas simbólicas e reparte comigo as suas insígnias. Ao caríssimo Professor Doutor Pedro Ferré, agradeço, de maneira muito especial, as palavras com as quais justificou a atribuição deste doutoramento.

Ouvindo os seus argumentos, confirmo o que eu já sabia, que a porta de entrada para este acolhimento, foi o mundo dos livros. E tomei conhecimento do valor que atribui àqueles que eu mesma escrevi. O Professor pôs em relevo o que toma pelas suas qualidades, e sublinhou alguns dos meus próprios caminhos. Sinto-me muito grata. Mas eu quero acrescentar que ninguém escreve sozinho. Boa parte do que até agora fiz, e que veio a merecer esta distinção, também foi o resultado de certos encontros e do que foi acontecendo, ao longo da vida, um pouco por acaso. Todos sabem que uma das disciplinas mais curiosas da Matemática é o chamado Cálculo Estocástico, aquele que trata, precisamente, da lei da conjectura e das probabilidades. O que significa que esse tipo de cálculo lida com as leis do acaso. Mas não sei se em semelhante disciplina existirá algum capítulo dedicado ao Bom Acaso. Se não existe, provavelmente, seria bom que existisse, pelo menos para nós podermos continuar a acreditar que o Mundo ainda tem a sua infância, podendo nós, de vez em quando, confiar inteiramente no recomeço das coisas.

Por mim, devo ao Bom Acaso o facto de ter nascido numa família de camponeses que amava os livros. Aconteceu há muito tempo. A vida no campo, então, era árdua e tudo o que não fosse a terra, ela mesma, era precário. Por essa altura, em nossa casa, a leitura constituía um momento de sonho e de evasão, era o único estímulo cultural de que dispúnhamos, mas sendo o único, aproveitámo-lo bem. O Bom Acaso fez que a minha mãe tivesse tido a ideia de reforçar essa tradição familiar, comprando-me um livro cada vez que se deslocava a esta cidade. Lembro-me daquele momento carregado de mistério, em que o livro saía do saco, e eu via pela primeira vez o título e as imagens da capa. Recordo de forma muito especial aquele dia do início de Fevereiro de cinquenta e quatro, em que nevou no Algarve. A minha mãe e a minha tia Alice tinham vindo tratar de documentação a Faro, e de regresso foram surpreendidas pelo nevão. Passámos a noite, incomunicáveis, à sua espera. No dia seguinte, já tarde, quando a queda de neve acalmou, via-as avançarem pela paisagem branca, e a situação era tão invulgar, que eu nem me lembrava do livro prometido. Mas, como sempre, a minha mãe trazia-o. Trazia o livro dentro do mesmo saco e entregou-mo como se fosse mais um. No entanto, não era mais um. Sem o saber, a minha mãe oferecia-me, nesse dia tão particular, a primeira versão a que eu tive acesso do célebre livro de Lewis Carroll. Sem fazer ideia, oferecia-me o meu primeiro Alice no Pais das Maravilhas, que haveria de me acompanhar pela vida fora, como um símbolo. E foi assim. Foi assim que a infância me fez leitora.

Mas a infância faz leitores, não faz escritores. Ser leitor é ainda continuar uma proposta, escrever já é contrapor uma outra proposta. A infância mantém o ser da criança unida ao mundo onde as forças agem por magia, onde ela e o mundo não se distinguem, onde o mundo canta e dança e fala como ela. Mas o adolescente, esse corpo desengonçado de onde parte o escritor, separa-se do mundo, descobre que ele é ele, e o mundo é o mundo, e que o mundo é poderoso, enigmático, está cheio de seduções, delícias, penas, desafios e perigos, e por isso quer descobri-los, conhecê-los e naturalmente aproveitar-se deles e vencê-los. O adolescente quer ser o herói que vence o mundo, com suas regras escondidas, e assim descobre as regras e cria as condutas da honra para poder lidar com ele, baseado em códigos. O longínquo, o estranho, o total, o escuro e os limites do absurdo são o seu território de descoberta. Por isso o adolescente parece um fanfarrão em confronto com a totalidade. Creio que é esse o espaço de confronto que os escritores prolongam ao longo da vida, tendo por base o código das palavras para atingir a totalidade do mundo, como outros criam outros códigos de outra natureza para alcançar o mesmo ilimite. Pois eu diria que também aí, o Bom Acaso veio ter comigo.

Na adolescência, eu poderia não ter encontrado os instrumentos necessários para criar o meu confronto, e poderia não ter encontrado as pessoas certas para me ajudarem a descobri-los. Mas tive-os. No Liceu desta cidade tive os professores certos, aqueles que me indicaram títulos e me emprestaram livros, professores que leram as minhas primeiras histórias, que me levaram pela primeira vez ao teatro, pela primeira vez me levaram a assistir a conferências, me levaram a ver uma primeira exposição de pintura, professores que juntavam a turma a que eu pertencia em encontros para discussão, como se fôssemos amigos. Éramos um bando. Professores que nesse tempo, em que toda a dedicação era gratuita, fizeram dos alunos as suas pessoas de família. Professores que foram mestres. Como tantos rapazes e raparigas da minha idade, eu poderia não ter tido estes professores. Mas houve mais.

Então, eu passava as longuíssimas férias de Verão no alto do nosso monte em Boliqueime, aprisionada numa casa de lavoura, e os livros estavam todos lidos. Mas o Bom Acaso fazia que ao longo desses meses intermináveis, a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian passasse por ali, e o condutor bibliotecário escolhesse por mim os livros grossos. O Bom Acaso colocou-me esses livros no regaço e eu, que não viajava, viajei e fiz-me uma pessoa da distância através deles. Viajei para a Escócia com "A Noiva de Lammennoore", para o Sul dos Estados Unidos, com "As Vinhas Da Ira", para o centro da Europa, com "A Vigésima Quinta Hora", para a Rússia dos Czares com "Guerra e paz". Lembro-me em particular do livro de Hemingway, "Por Quem os Sinos Dobram", esse romance que falava da Guerra Civil 'espanhola, e da história de Jordan e Maria, de Pablo e de Pilar, enredados naquele terrível conflito. O livro tinha de tudo, cenas de amor, violência, traição, fidelidade, e as personagens falavam como se fosse um filme. Mas o que mais me interessava era a sua epígrafe. Hemingway tinha escolhido uma passagem de uma das meditações do poeta inglês, Jonh Donne, para abrir esse livro, e as suas palavras iluminavam as minhas tardes silenciosas. Eu lia em voz alta, vezes sem conta, aquela que é uma das mais célebres epígrafes dos romances do século XX, que toda a gente já leu uma vez. Adolescente, queria ter sido eu a escrever assim - Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti. Li-a vezes sem conta, até decorar. Hoje em dia, estou em crer que a epígrafe de Por quem os Sinos Dobram nunca deixou de estar presente nos momentos decisivos que me levaram, posteriormente, à escrita e à publicação. Tudo isso aconteceu depois de uma experiência a olhar para uma guerra muito particular, a guerra colonial em África, depois de ter tido a ideia de que havia aprendido com ela a formular algumas das perguntas fundamentais que justificam os livros. E foi assim.

Mas o mundo mudou.

Passados todos estes anos, penso nos jovens de hoje, e calculo como não acharão esta história antiga e bizarra. Penso que dificilmente poderão compreender que escassas décadas atrás das suas vidas, os desafios em tomo da leitura e da cultura fossem histórias de escassez. Porque as histórias dos adolescentes e jovens de hoje nada têm a ver com escassez, as suas histórias são de abundância de meios, e excesso de oferta. Nós lutávamos para encontrar um objecto, os jovens de hoje lutam para escolher entre os objectos. Os jovens da minha geração precisavam de inventar os espaços da imaginação. Os jovens de hoje encontram o espaço atravancado de propostas. O significado das coisas, hoje, está escondido debaixo dos seus acessos. Em tomo de cada objecto de cultura, há hoje milhares de caminhos que se bifurcam, infinitamente se bifurcam, para utilizar a imagem de Jorge Luís Borges, ao contrário da linearidade que antes nos ofereciam. Que bom ser criança, hoje, no meio da abundância de tantos objectos mágicos. Que bom ser jovem leitor, quando os livros estão por toda a parte. Que bom termos, hoje, todos os meios à nossa disposição para escrevermos todos em simultâneo. De facto, entre as nossas gerações, são infinitos os elementos que nos distinguem.

E no entanto, há um elemento que nos aproxima, e nos toma semelhantes - Os jovens de hoje precisam, como nós precisámos, de serem visitados pelo Bom Acaso. Precisam de fazer bons encontros com quem os faça desembaraçar da profusão dos meios, para que encontrem em vez do adorno, o significado. Em vez da encenação, os textos. Em vez do resumo em duas linhas, e da profusão de imagens, e da opinião superficial cruzada, precisam de encontrar os próprios livros. Precisam de quem os ajude a des-ocultar o que é precioso e indispensável, e está escondido sob a morraça da superficialidade. Claro que a vida e a surpresa, em parte, repetem-se sempre. Hoje em dia, quando encontro jovens que gostam de ler, e em geral são os melhores estudantes das Universidades, sempre tento saber o que aconteceu nas suas vidas de equivalente a 4lice no País das Maravilhas caminhando sobre a inusitada neve, ou à coincidência entre uma frase de um poeta inglês do século XVII lida em voz alta e o sino da minha aldeia, na segunda metade do século XX. Que coincidências, que Bons Acasos aconteceram? Pois quando os jovens leitores falam desses seus encontros com os livros e a leitura, e por vezes com a sua própria escrita, em geral, coincidem comigo num ponto. O Bom Acaso teve a ver com uma pessoa, muitas vezes com uma pessoa de família, mas a maior parte das vezes, teve a ver com um professor. Um professor concreto, com uma biografia. Uma pessoa. Não estamos tão distantes assim.

É por isso que, neste momento, em que a Universidade do Algarve me outorga este Doutoramento Honoris Causa, porque penso nos jovens, penso em particular nos Professores. Nos Professores das várias áreas do Saber. Já que todas as áreas do Saber têm a sua própria poética e no seu conjunto são um todo. Não existe nenhum ramo do Saber digno desse nome que não tenha a sua poética que é parte de uma Poética mais ampla e comum. Hoje, felizmente, toda a gente o tem como dado adquirido. Aliás, nesse domínio, nada tenho a insinuar diante de quem sabe mais do que eu. Mas penso na figura tutelar dos Professores junto dos seus alunos, como o Bom Acaso, e em particular nos Professores das Humanidades e nos Professores de Português, aqueles que em princípio mais estão ligados a esta causa, e melhor precisam de compreender a delicadeza do momento que passa. Sei que mais não faço do que repetir o que é matéria de consenso entre todos, mas talvez não seja errado reforçar aquilo que é a minha própria convicção. Por um lado, a convicção de que neste início de século as Ciências estão florescentes, e a cada momento que passa evoluem de uma forma extraordinária certamente, para nossa felicidade. Que, também nunca como agora se falou tanto na importância da Leitura e das Artes na formação integral. Mas também nunca como agora está patente a falta do seu abraço. A falta de aproximação entre aquilo que usualmente se chamava, para simplificar, a aproximação entre as Duas Ciências. A minha convicção é que o mundo partirá numa direcção qualquer inesperada se acaso os dois ramos do Conhecimento não fizerem o seu abraço. Se acaso as várias Ciências não integrarem a Leitura e as Artes como a forma de conduzir à escuta interior do coração do próprio e dos outros, esse local escondido onde tudo, afinal, vai bater, quer se queira quer não. E por isso penso em especial nos Professores das Humanidades e nos Professores de Português e dedico-lhes este Doutoramento, pela responsabilidade que lhes cabe na alteração de um paradigma. Uma alteração que lhes permita inscrever a sua ciência, ao mesmo tempo tão indispensável e tão precária, no mundo moldado pela tecnologia cruzada com a contabilidade, a que se junta a publicidade aplicada, empobrecendo de forma tão evidente as sociedades de hoje. Penso no salto difícil que terão de promover, insistindo no mergulho interior dos seus alunos sobre os livros de Literatura a mais densa das Artes, quando todos os apelos são contrários. Dedico-lhes para que não desistam de contribuir para uma harmonia, que afinal é por todos desejada. Não desistam de promover, caso a caso, o Bom Acaso. Esta interpelação não é só minha. Lembram-se sem dúvida das palavras do velho poeta, criado por Wim Wenders, no filme As Asas do Desejo. Também ele, esse velho Homero, perguntava – Devo desistir? Se eu desistir, então a humanidade irá perder o seu contador de histórias. E com ele, também ela, a humanidade, irá perder a sua infância.

Senhor Professor Doutor Pedro Ferré, depois de o ter escutado a sua Laudatio, quero acreditar nas suas palavras. Fazendo fé nelas, acredito que represento no mundo das Letras alguma coisa, mas ainda não sei se é muito, se é pouco. E talvez essa medida nem seja importante. O que sei, isso sim, é que hoje, ao atribuírem-me este Doutoramento, como já aqui foi outorgado a um outro Escritor e a um Cineasta, isso significa que esta Academia no seu conjunto, não quer que os narradores se afastem do seu círculo. Não quer que o Conhecimento que nesta casa se produz seja um saber sem infância e sem adolescência, essa idade que empurra o jovem para o campo da audácia e o adulto para o campo do empreendimento. Ora não querer que os narradores se afastem é um factor de esperança nos caminhos que se abrem para uma Universidade virada para o Futuro.
_____________
* Intervenção na Universidade do Algarve
por ocasião do Doutoramento Honoris Causa
a 15 de dezembro de 2010

sábado, 11 de dezembro de 2010

Depoimento * Raiz e morada, pulsar universal

Este chão que marca

Lídia Jorge *

O que transforma uma região, uma cidade, um país ou mesmo um continente, num local de ficção, é o nosso olhar. É o nosso olhar sobre os homens que os transforma em personagens, figuras tímidas ou heróis triunfantes, grandes colectivos ou figuras individuais, conforme o nosso alcance e a nossa fantasia. Tudo depende da nossa relação com a terra, esse pilar da nossa verdade.

Mas se muitos dos meus livros têm a marca deste local, não é só porque em relação a ele existe um laço feito de berço, amor e proximidade. É porque a sua atmosfera física incita a imaginação, e a sua vida passada e presente convida a que se invente a partir dela. A sua beleza, o seu isolamento, a sua ligação com as estrelas comovem e mordem o entendimento. Nas últimas décadas, a mudança tem sido tão veloz, para o bem e para o mal, que a sua transformação se tornou emblemática e chama a narrativa. E as figuras que dela saem, trazem a marca de uma luta que mais não é do que a síntese de uma evolução em torno da modernidade.

Reconheço que “O Dia dos Prodígios”, “O Cais das Merendas”, “A Instrumentalina”, “O Vale da paixão” ou “O Vento Assobiando nas Gruas”, encontram aqui a sua raiz e a sua morada, assumida e declaradamente. Nunca disfarcei essa intimidade. Pertenço ao grupo de escritores que consideram que os continentes, os países, as cidades ou as pequenas terras, uma vez inscritos no espaço da Literatura, só valem porque permitem descobrir aquilo que procuramos com a escrita – o entendimento do coração profundo dos homens. Por ventura, a luz viva, que por aqui tanto nos encandeia, abre um rasgão na realidade, de uma maneira tão particular que põe a nu o seu pulsar universal.

* Depoimento para a Exposição 
"O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge30 anos de Escrita Publicada"
entre 11 de dezembro de 2010 e 31 de março de 2011,
no Convento de Santo António, em Loulé.

domingo, 19 de setembro de 2010

[ECOS] Da revista Navegaçôes | Porto Alegre - "Contrato Sentimental"

Um possível Portugal
num futuro distante

Fabio Mario da Silva *
Doutorando em Literatura (Universidade de Évora /FCT)

Em Setembro de 2009 vem à tona mais uma obra da renomada escritora portuguesa Lídia Jorge. A obra, dividida em dez capítulos, promove, através de um texto de caráter ensaístico, reflexões que giram em torno de um tema fulcral dentro da cultura e literatura portuguesas: a problemática da nacionalidade, do português no mundo, das relações do “eu” e do “outro”. O texto se inicia através de um relato de viagem, descobrindo algumas trivialidades, observa uma nação ( no seu fulgor abstrato) inacessível, mas nem por isso deixa de notar que ela tem futuro. Estas afirmações são feitas através de um jogo comparativo entre a sociedade e o modo de ser do português, contrapondo-os aos aspectos mais singulares do espanhol, dos europeus, dos americanos e dos povos falantes da língua portuguesa . É importante frisar que esta temática – a nacionalidade – é deveras discutida por grandes figuras da literatura e cultura nacional, como, por exemplo, por Fernando Pessoa (“minha pátria é minha língua”) e Alexandre Herculano (acreditava que a utilização de linhas de caminho-de-ferro que atravessassem a Península promoveria a diluição de Portugal em Espanha).

Nota-se, no capítulo que trabalha especificamente a mobilidade, que a ideia de cosmopolitismo fraterno atribuída aos portugueses, advinda dos contatos feitos através das descobertas, está em vias de extinção, pura e simplesmente, porque esta ideia distorcida foi incutida pelo Estado Novo e, mesmo permanecendo no nosso imaginário, desfaz-se com o enfrentamento da própria realidade portuguesa. A autora afirma que Portugal agora já não é apenas um país de partida (para os sonhos dos emigrantes), mas também um porto de chegada de várias outras nacionalidades, que vêm em busca dos mesmos anseios dos portugueses além-mar.

Lídia Jorge expõe veementemente seu pensamento sobre o futuro de Portugal através da seguinte dicotomia: o país, num futuro próximo, seria mais educado, mais culto, mais cívico, mais crítico, mais próspero, mais miscigenado, mais solidário, mais justo; porém, se acaso tivesse um tempo a mais para pensar na questão, a autora acredita que não se admiraria se a sociedade portuguesa, a par desses progressos, se tornasse mais violenta, mais egoísta, mais injusta, mais passiva, mais sedentária, ainda mais pobre e burocrática. De certa forma, estas colocações refletem as inúmeras interpelações que a sociedade portuguesa faz sobre si mesma e sobre suas possibilidades futuras. Será que o futuro de Portugal, como disse Fernando Pessoa, está além-mar?

O que efetivamente a autora faz no seu ensaio são conjeturas, a partir de suas vivências, cruzando-as com dados concretos que dispõe, através da sua imaginação e de sua escrita narrativizada, refletindo o futuro, a partir de um discurso que confronta o presente e o passado português que, necessariamente, é um passado que viola as barreiras da atualidade e insiste em penetrar na vivência do hoje na sociedade. O texto é uma constante reflexão (em torno de temáticas como, por exemplo, comunicação, imprensa, livro, língua, cidades e mitos), contrapondo o Portugal de hoje, que tem futuro, com um possível Portugal num futuro distante, tudo sempre analisado a partir da ótica do passado. Ou seja, em relação às entrelinhas do texto, configura-se uma abordagem saudosista, contrapondo a uma reflexão futurista, dos aspectos analisados da sociedade e cultura portuguesas.

É neste tom, anunciado desde as citações que constam da capa, que esta obra de Lídia Jorge é de fundamental relevância para os estudos da cultura portuguesa e vem dar seu contributo para (re)pensar esta sociedade, a partir de uma visão do macro (mundo globalizado) para o micro (cultura portuguesa). No levantamento breve nota-se que o vocábulo futuro é constantemente utilizado como quem almeja um outro país, que consiga sobreviver sem insistir tanto em olhar para o passado, todavia consiga enxergar a sua história passada apenas como um grande patrimônio cultural e não como único ato de sobrevivência da atual sociedade, porque se esta atitude e posicionamento não mudar, acarretará uma grande problemática: “Nada nos garante que no futuro não existam portugueses que assumam sê-lo com orgulho, mas que se tornem indiferentes ao destino de um país chamado Portugal” ( Jorge, 2009, p. 180).
______________________
* Recensão "Contrato Sentimental, Lídia Jorge",
Porto Alegre, EdiPUCRS, 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Depoimento * Retratos da República

Sangue vermelho

Em Portugal, não mora nenhum rei.
O nosso sangue azul corre na constituição
Na noite da eleição, e na força que tem
A lei.

De resto, no coração dos portugueses
Todo o sangue é vermelho. E o progresso
Quando vier, há-de ser fruto de sua espuma
E seu conselho.

Lídia Jorge *
_____________
* Publicado no álbum "Retratos da República",
de Veríssimo Dias e Ricardo Faria Paulino (agosto de 2010)

sábado, 7 de agosto de 2010

Depoimento * 14 substantivos e 1 verbo

15 conceitos

TENTAÇÃO – Segundo o Génesis, tudo começou nas faces de uma maçã. Uma engenhosa parábola para explicar que o interdito é a essência daquilo a que chamamos humanidade.

ESPELHO – Deve ser colocado à média luz, ou apresentar um grão de imperfeição como certos espelhos de Veneza. Distanciar a realidade do seu reflexo é o princípio da transfiguração e da beleza.

CRISE – Disse-me um economista que a única maneira de enfrentar a grande crise consiste em pensar que todos os dias uma crise nasce, todos os dias uma crise se encerra. Eficaz, mas faz tristeza.

LUTA – Pela amizade, enquanto os amigos perdurem. Pelas causas, enquanto os fins as justificam. Pela vida, até à morte, enquanto a vida for digna. Mas difícil, difícil, é estabelecer os limites.

DEFEITO – Entre defeito e virtude, não cabe um papel de seda. Grandes preguiçosos transformam-se em santos pacientes. Terríveis narcisos, em actores geniais. Alguns tiranos domésticos foram poderosos líderes.

INJUSTIÇA – Nascer-se súbdito, ter-se força para deixar de sê-lo, e não se possuir os meios. Ser-se súbdito involuntário do fanatismo, da ignorância, da má lei. Nada mais injusto do que essa vassalagem forçada vivida de olhos abertos.

POLÍTICA - Prostitutos da esperança, pelo menos de quatro em quatro anos, acreditamos que alguém irá fazer-nos bem. E pensar que é isto que nos salva de transformarmos a esperança em fé.

APRENDER – Aprender não é acumular. O que uma geração aprende a outra esquece. Na escolha do que não pode ser esquecido do passado reside a arte de fabricar o futuro.

SEGREDO – Cada um transporta consigo o segredo que merece. Mas, no mínimo, faremos parte do segredo do Mundo, esse alfabeto que resiste.

FAMÍLIA – Fala-se de laços de sangue, voz do sangue, afinidade consanguínea. Não gosto de sangue. Prefiro imaginar que a família é o espaço do nosso primeiro contrato social de entendimento.

AMOR – Palavra tão vasta que nela o sentido se afoga. Eu prefiro vê-la carregada de determinativos, circunstâncias, complementos. Amor próprio, amor-perfeito, pelo amor de Deus.

AVENTURA – O primeiro passo da criança, entre o berço e a porta. O último passo do velho, entre a porta e a cama. No intervalo, a viagem à volta da Terra ou o voo até às crateras da Lua.

NOITE – Quando o dia desiste, chega a sombra da noite. É nela que pensamos encontrar a alegria que a claridade não dá. Os industriais da noite conhecem essa nossa adolescência.

UTOPIA – Pobre Thomas More. O rei fez-lhe aquela maldade. E assim o seu caso deixou um forte aviso – O de que não há utopias grátis. Não se pode acreditar em sonhos de sofá.

FIM – Estamos a falar da circunferência. Se essa figura geométrica for verdade, o fim e o princípio estão unidos. Mas, entre o desejo e a prova, há muito mais do que um diâmetro.

Lídia Jorge *
_______________

* Na rubrica Palavra Puxa Palavra (Expresso | Única, 7 de agosto de 2010)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Nota * Ajudar uma criança a ser autor

Para o livro dos alunos

Lídia Jorge *

Tudo parece ter acontecido esta manhã, mas não é verdade. Aconteceu quando eu era pequena e na minha escola se ensinava a ler mas não propriamente a ler livros. Também as redacções que então eram pedidas aos alunos destinavam-se sobretudo a disciplinar a letra e a organizar a sabedoria, mas ninguém nos ensinava a escrever textos saídos da nossa imaginação. Assim, eu chegava à escola e a professora pedia – “Escrevam, por favor, uma redacção intitulada O Cavalo, já sabem como é…” E nós sabíamos. Começávamos todos por escrever que era um animal doméstico pelo facto de viver junto do homem. Depois acrescentávamos que era quadrúpede, que tinha o corpo coberto de pêlos, que a sua voz era o relincho, que servia para puxar carroças e também para andar à volta nos circos. E logo terminávamos escrevendo que ele era um animal muito útil, e que não se deveria fazer nenhuma travessura àquele animal. Assim, num mínimo de sete linhas, um máximo de dez. Redacção após redacção, sempre o mesmo, sempre igual, o que não era muito estimulante, não. Duvido que deste modo alguém pudesse ter-se feito escritor.

Mas eu tive muita sorte. Na casa dos meus avós havia livros, e de noite, ao serão, era hábito uma pessoa da família ler em voz alta para as outras pessoas ouvirem. Ora sucedeu que eu comecei a ler muito cedo, e aí por volta dos oito anos, passei a ter a meu cargo parte dessa leitura. Eram livros para adultos, histórias de vidas muito dramáticas como então se usava, amantes que se desentendiam e se matavam, primos que queriam casar com primas e não conseguiam, namorados que os pais não aceitavam e abalavam para sempre, amantes que se desentendiam, filhos que os pais abandonavam dentro dos berços, e assim por diante. Escusado será dizer que eu não lia os livros completos, só lia umas páginas, e algumas palavras mais difíceis apenas as soletrava, mas apercebia-me muito bem daquele clima pesado, e de noite quando ia para a cama não conseguia dormir, pensando que a vida dos adultos era demasiado complicada, que eu mesma não gostaria de crescer. A dada altura, porém, encontrei forma de ultrapassar a situação - Era verdade que na escola eu tinha de escrever sobre as propriedades da água, do vinho, do boi, das plantas, da pesca e do Mar dos Navegantes? Pois bem, mal acabava de me desembaraçar dessa tarefa, num caderno à parte, eu escrevia frases a meu gosto de modo a fazer as personagens dos livros dos adultos mudarem de vida. As histórias da noite não podiam ficar assim. Nos meus cadernos, os filhos encontravam os pais, os amantes casavam com quem queriam, eu não deixava os assassinos entrarem para a prisão se acaso gostava deles, e metia-os numa masmorra bem funda se eram uns patifes sem remédio. Quantas vezes as crianças órfãs das histórias que eu lia aos serões em voz alta, eu não as fiz serem visitadas pelos pais, de surpresa, na noite de Natal! Chegavam embuçados, retiravam o disfarce e diziam – “Sou eu, aqui estou, venho de muito longe, meus filhos!” E claro que para enfeitar essas noites, eu descrevia a neve que nunca tinha visto, e o céu estrelado que eu via muito bem mas ao qual acrescentava outras estrelas. Então foi assim que eu comecei, sozinha, a inventar um mundo para substituir aquele que outros tinham inventado antes de mim. Praticamente sozinha, sem ajuda de ninguém.

Por isso mesmo eu imagino como será bom ser-se aluno desta escola, poder em cada manhã sentar-se a pessoa nos bancos da sala de aula, abrir os cadernos e encontrar professores capazes de lhe ensinar a ler os livros próprios para a sua idade e sua imaginação, professores capazes de ajudar a colocar as palavras certas nos locais exactos das frases que estão inventando. Professores e pais que sabem que ajudar uma criança a ser autor equivale a ensinar a pessoa a ser dona da sua própria vida, e esse é um presente para sempre.
_____________
* Nota para livro infanto-juvenil (2010)

domingo, 1 de agosto de 2010

Depoimento * Ali dentro o mundo é outro

Como escrevo

Lídia Jorge *

Como se escreve é muito diferente de como se gostaria de escrever. Sonho com um espaço ideal. Um quarto de hotel, uma mesa bem iluminada, um bloco de papel, um computador portátil. Ninguém sabe que me encontro por ali. Os telefones não tocam, a refeição é tomada no primeiro andar. Pode chover lá fora, fazer vento ou fazer sol, ali dentro o mundo é outro. Posso mesmo nem olhar para o tempo que faz lá fora. O que interessa é a paisagem que está invisível. As figuras estão dentro da cabeça que são muitas, não é preciso que alguém apareça. Se a empregada quiser arrumar o quarto, eu vou pedir que fique para outro dia. Nada de música, nada de ruído. Mesmo o aspirador, tão necessário, pode ir sorver poeira para outro lado.

Então, agora, sim. Primeiro no papel, que pode ser o bloco do hotel ou um caderno qualquer. O que é necessário é que seja uma folha em branco. Ali estão as primeiras linhas, um primeiro esboço, os primeiros nomes. Duas ou três experiências, duas ou três hipóteses de abertura. Coisa assim – “O restaurante floresceu quando o cozinheiro começou a servir gato…” Ou assim - “ Quando os gatos das redondezas começaram a desaparecer ninguém deu por nada…” É preciso compreender as diferenças, imaginar as implicações. Primeiro o desaparecimento dos animais, ou devo eu metê-los de imediato dentro do prato? Deve-se tentar primeiro de uma forma, depois de outra. Tudo isto se passa entre a cabeça e o papel. Tentativa para aqui, tentativa para ali. Muitos riscos. Quando a sintaxe começa a ter alguma estrutura, é o momento de abrir o computador, engatá-lo à corrente, abrir um arquivo, atribuir-lhe um nome, dar um título ao conto, e recomeçar a vida. Aquela vida. Desta vez, calhou ser um restaurante que servia gato em vez de coelho. Mas não conto o desfecho. Meia noite em ponto. Ainda estará alguém, lá em baixo, no bar do hotel, que sirva uma sanduíche ou um bolo? Se a coisa correu bem, uma taça de champanhe?
______________
* Publicado na revista Time Out (1 de agosto de 2010)

domingo, 20 de junho de 2010

Depoimento * "O início mágico de Era uma vez"

José Saramago

Lídia Jorge *

José Saramago parte, deixando uma obra a todos os níveis notável. Se a Literatura Portuguesa é considerada como sendo, em geral, demasiado regional e de expressão demasiado complexa, o nosso único Nobel da Literatura foi capaz de assumir o paradoxo de aprofundar essas mesmas características, ao mesmo tempo que tornou a sua obra universal.

As suas metáforas sobre o lugar de Portugal e da Península Ibérica sempre alargaram-se ao mundo. A questão da fraternidade nunca foi, nos livros de Saramago, apenas sociológica, sempre foi ontológica. A questão do desentendimento entre homens sempre foi uma questão mais do que de política , sempre teve a ver com a natureza da Criação e do Criador. E essa questão que tinha a ver com as suas convicções profundas de que seríamos seres errados neste mundo, espelhou-se na sua vida cívica, em relação à qual nunca alimentou equívocos. Sempre foi claro, sempre defendeu um ideal e um ideário precisos, sendo fiel a um projecto que a História derrubou, mas onde Saramago sempre viu, até ao fim, virtualidades que em seu entender melhorariam as condições de vida dos homens. Nesse aspecto, José Saramago foi pouco português, porque sempre se soube expor, e foi pouco moderno, porque nunca negociou. Mas se houve quem o detestasse, foi por saber que era infinitamente amado e admirado por um vastíssimo público, e que uma palavra sua sobre determinado assunto, jamais seria inóqua. Algumas das suas opiniões fizeram estremecer instituições, governos, países e culturas. Nunca se poderá, porém, dizer que Saramago era um provocador gratuito, ou que procurava o conflito pelo conflito para se celebrizar. Entendo que não. De tantas horas passadas em conjunto, sempre me pareceu que as sua opiniões eram emitidas pela força da sua convicção e ideia da possibilidade de, através dela, ajudar a mudar o mundo. Mesmo no final, quando já achava que essa possibilidade era vaga.

Mas a grande proeza do Saramago foi ter transformado toda essa matéria contundente, que poderia bem ser matéria de ensaio, em narrativas contadas com desenvoltura e fantasia, graça e exemplaridade, que a todos atingem. Ler Saramago é entrar no domínio da transfiguração, da fantasia e da beleza, em livros que encerram todos eles o início mágico de Era uma vez. Aliás, a razão da escolha apresentada pela académico sueco, porta-voz do júri, aquando da entrega do Nobel a José Saramago, foi precisamente essa, e continua a ser válida até ao fim – O facto de se estar presente um escritor que sendo igual a si mesmo nunca se repete de livro para livro. Em todos cria um universo próprio, põe -no à prova, fá-lo estremecer nos seus alicerces e deslinda-o diante dos nossos olhos. Foi assim desde O Memorial do Convento até ao quase derradeiro A Viagem do Elefante, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, ou O Evangelho Segundo Jesus Cristo. O mesmo gosto por interpelar o sentido da História, o sentido da vida e do amor, através de efabulações poderosas e frescas como se em José Saramago existisse um eterno adolescente, ávido de actos e palavras. Um adolescente que desejou experimentar outra gramática para a sua língua e conseguiu-o. Experimentar uma outra poética narrativa e conseguiu-o. Um outro olhar sobre o mundo contemporâneo e conseguiu-o.

Sobre o sentido da vida, gostava José Saramago de utilizar a expressão barroca do nascer é morrer. Ela não acreditava no oposto, de que morrer é nascer. Combateu essa ida com todas as suas forças, até à última página do seu último livro-libelo, Caim. Mas existe uma outra forma de entender este dia em que nos deixa, juntando-lhe algum sentido da metafísica possível, compatível com o seu ideário. A ideia de que nascer e morrer pode significar continuar. Hoje, nada de importante do grande artista e homem belicoso que foi desapareceu. Nos seus livros, cuja pilha acumulada sobre a secretária é tão alta que tomba para o lado, esse adolescente aventureiro que foi José Saramago, a partir de hoje, pura e simplesmente, existe como página.
___________________

* Texto publicado no ABC, 20 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

Depoimento * Moeda de oiro que a pintura pode dar

Armanda Pássaros

Lídia Jorge *

Segundo a pintura de Armanda Passos, o Mundo é um pássaro.

Na ordem natural das espécies, o pássaro descende do réptil e antecede o mamífero. De entre os mamíferos, segundo as lendas, num dia iluminado por um lindo relâmpago azul, nascemos nós. Teremos sido nós, então, movidos por essa outra luz, quem nomeou o céu, a terra e todas as coisas que nos cercam. E entre elas, o pássaro, porque voa, foi nomeado como o nosso parente mais próximo, emprestando a sua forma ao anjo. Bela invenção. Ela significa que, para nos sentirmos honrados com a nossa condição, precisamos de encontrar um lugar imaterial para o nosso nascimento. Significa que nos recusamos a entroncar-nos na linha directa da sucessão dos animais.

Mas os artistas mergulham com naturalidade nesse lugar onde fomos tudo e somos ainda a amostra de todas as coisas. Os grandes artistas não têm medo de enfrentar o lugar da carne antiga, da cabeça com vários olhos, ou o resto da nossa língua bífida, nem evitam o diálogo com os habitantes da lama e os habitantes das árvores. Os artistas sabem ir ao encontro desse terror e ao mesmo tempo dessa sublimação que nos faz pertencer a uma outra totalidade. O grande artista diz aos outros – Vejam como eu, todas as noites, me encontro com o impronunciável. Convido-vos a vir também. Foi essa viagem que, durante vários anos, eu aceitei fazer através de um quadro da Armanda Passos.

Era apenas um bando de pássaros que me levava para esse lugar onde as coisas estremecem. E era bom. O poético, no dizer de Arthur Koestler é o olhar que decompõe a realidade nos seus fragmentos, de modo a mostrar as arestas do original. Por isso mesmo o poético corresponde à interrogação que se faz depois das grandes surpresas, as grandes alegrias ou as grandes catástrofes. Era esse olhar poético que me dava o seu quadro, e alguma coisa estremecia, a partir do local onde se encontrava o quadro da Armanda Passos.

Não sei que lugar ocupará na História de Arte a obra de Armanda Passos, pois a História de todas as coisas parece ser agora um círculo em que tudo é mostrado e visto em simultâneo, a maior parte das vezes, sem uma única legenda. Não sei o que o futuro dirá. Sei apenas o seu contrário. Que as figuras de Armanda Passos contam uma viagem aérea que vale a pena manter por perto. Esta pintora tem o dom do desenho, da cor, da interpretação, e o supremo dom da transfiguração, uma integridade absoluta como acontece com os grandes criadores. Não sei o que a História de Arte dirá. Sei que vale a pena ter as suas representações por perto para embelezar o nosso quotidiano e não sermos pessoas banais. Armanda Passos pertence à galeria dos artistas que escrevem a sua própria e inconfundível arte poética. E isso, para os atentos, é a mais importante das moedas de oiro que a pintura pode dar.
________________
* Texto para catálogo da pintora (6 de junho de 2010)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Conto * Abria a janela e em frente só havia prédios

Filme com pássaros

Lídia Jorge *

Num lindo filme americano, Ben tinha visto um rapaz da sua idade abrir a janela, chamar pelos pássaros, e de imediato eles logo vinham ter à sua mão. Então o rapaz oferecia-lhes grãos de arroz e eles agradeciam-lhe voando para cima do seu ombro. Mas consigo não era bem assim. Ben morava na Avenida dos Estados Unidos da América, abria a janela do seu quarto e em frente só havia prédios altos e o vento sempre a soprar. Uma verdadeira muralha de prédios. Ainda por cima, a mãe, numa manhã de Inverno, disse – “Surpresa!” Ele foi à janela, olhou, olhou, pensando no rapaz americano, mas a perder de vista não havia pássaro nenhum. A mãe referia-se a coisa bem diferente, referia-se a cinco tílias adultas que vinham em cima de uns camiões gigantes para serem replantadas na relva.

Que desilusão! Para que queria ele saber das tílias?

Elas não voavam nem vinham ter com ele. Provinham de um jardim distante e a suas longas raízes iriam ser colocadas dentro de uns buracos largos e fundos, do feitio de crateras, e nada mais. Ainda por cima traziam os ramos nus, pretos e sinistros como se tivessem sido queimados. Mau gosto, o da sua mãe. Decididamente, aquelas árvores não faziam parte do seu mundo. Virou-lhes costas, decidido. Nem mais iria olhar para elas. E assim, sem que ele desse por isso, as tílias enraizaram-se no novo território, as pontas dos ramos cobriram-se de milhares de folhas verdes, na Avenida havia agora cinco copas frondosas, e ele, zangado, continuava a não dar por nada. Não dava por que a rua estava diferente.

Mas um dia, já a Primavera ia muito avançada, Ben acordou de manhã cedo e ouviu um ruído novo. Que ruído era aquele? Quem estaria a chilrear por ali? Surpreendido, correu para a janela, abriu-a e deparou com um bando de pássaros a voar entre as copas das tílias. Lá em baixo, sobre o pavimento, deslizavam os carros, cá em cima, mesmo rente ao sexto andar, gorjeavam os pássaros nos ramos das árvores. Estavam escondidos nas folhas verdes que antes não existiam. Foi, então, a vez de ele gritar para a mãe – “Surpresa! Mãe, vem ver…” Debruçado da janela, Ben não cabia em si de envergonhado e contente. Afinal aquele bando de pássaros, seguindo as árvores, tinha vindo morar com ele. Rápido, era preciso preparar a taça do arroz. Aí vinham eles. Voavam, rodopiavam, bicavam, partiam. E a realidade tornou-se muito mais linda do que no filme americano.
_________________
* publicado no Semanário Sol, 20 de maio de 2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Crónica * Datado e intemporal

Quando os dias voam

Lídia Jorge *
23 de Março
Voo Nocturno em direcção a Brasília

Esta é a realidade. Vai decorrer uma Conferência em Brasília, e eu viajo por causa da Conferência, mas não vou para essa Conferência. Complicado? Não. Se dividirmos a participação num encontro entre pensamento e acção, alguém deve ficar no lugar extraterritorial onde se situa a simples matéria prima. Mas só dou pela sobreposição quando começo a encontrar os reais intérpretes da Conferência no Aeroporto de Lisboa. Mostro-lhes o meu papel, e para grande surpresa dos organizadores da Conferência, ele indica-lhes que, lateralmente, à margem do seu programa, existe um grupo de pessoas que irá falar de uma outra forma sobre a questão da Língua. Os organizadores desconheciam, e eu vejo nesse desencontro um toque quase divino. Quem alguma vez se gabou de ter organizado alguma coisa na perfeição, desconhece o que é fomentar a liberdade junto dos desorganizados. Ali, de pé, depois do check-in, a minha ideia é esta – Quanto mais fora das malhas, mais livre. Não é por nada, mas o que me pedem é tão somente isto – Fale durante vinte minutos sobre Criatividade e Língua. Sinto-me em paz. Existe só uma Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial. No meu programa, esse título não existe.

24 de Março
Madrugada em Brasília

Então Adriano Jordão vem ao meu encontro, muito admirado. O que faz você aqui? Vem para uma conferência? Qual conferência? Por favor, mostre-me o seu papel. Mas o importante não é o que se passa em torno da Conferência. É a forma entusiasta como o pianista vai mostrando a cidade de Brasília espalhada pela terra, à luz da madrugada. Sempre que entro em Brasília, o mesmo assombro me pega. Que figura humana está projectada para o futuro de Brasília? Não, não é um homem patinador, é um homem voador. Que me perdoe o Óscar Niemeyer que há mais de meio século não pára de a desenhar, mas onde ele acha que irão existir rodas, eu colocarei asas. Nesse momento, Óscar e a sua espiritualíssima concepção material da cidade entram na discussão. Vamos no carro do Adriano. Para trás ficam os Palácios, e além o Teatro em forma de mastaba, mais além a Catedral em reparação, o Museu como um ovo caído, a seguir a Biblioteca Nacional, tudo espalhado pelo chão do cerrado. E de repente, o Adriano diz, todo sorridente - “Sabem o que a minha mãe pensava desta cidade ? Que era uma instalação – Brasília, uma instalação…”

E o pianista, conselheiro cultural em Brasília, volta-se para trás, cheio de contentamento. Mas acaso sabe Adriano Jordão que está a desvendar um enigma de autoria? Acaso saberá que, ao longo destes últimos anos, essa frase tem sido atribuída a várias outras mães, que não a sua? E Adriano, inocente do assunto, vai fornecendo detalhes, e eu descubro a verdadeira autora da imagem, com emoção. Afinal, quem viu nesta cidade uma instalação interpretou na perfeição a dimensão da sua grandeza, e da sua beleza, mas também a sua incapacidade de ser totalmente útil, a sua habitabilidade e inabitabilidade, a sua gratuitidade e a sua funcionalidade mais estética do que ética e mais artística do que prática. Uma instalação, um poema feito de uma palavra só, de tal forma bem esgalhado que muitos a atribuem a várias mães. Pergunto então como se chama a sua mãe.

“Chamava-se Raquel Jordão”, diz Adriano Jordão, e só então ele conta que regressou naquele mesmo avião em que viajámos durante a noite porque foi a Portugal despedir-se do corpo da sua mãe. Ele está a receber-nos, assim, à chegada, sem dormir e sem se deitar. E depois entramos na sua casa e ele mostra uma fotografia da mãe. Agora a fotografia está sobre o piano de Adriano. A fotografia representa o perfil duma senhora muito jovem, diante dum homem com chapéu cardinalício e de um outro, trajado de branco, com o peito repleto de medalhas militares. Ela está de lado e escuta o que lhe dizem ambos. Nem se lhe vê bem o rosto, mas foi essa a fotografia que ela mesma escolheu para se apresentar à vida, daqui em diante. Adriano Jordão não dorme há várias noites. Está comovido. Adriano Jordão não chora pela mãe, transpira pela mãe. Grandes bagas de suor correm-lhe pela cara. Grandes lágrimas. Ele pega no guardanapo e passa-o pela boca, pela cabeça, pousa-o lá, no alto da cabeça e deixa-o ficar. De súbito, numa casa de Brasília anjos sobem e descem. Silêncio, anjos como os de Chagall sobrevoam Brasília.

26 de Março
O Show da Divina

Bem me pareceu que tudo iria correr bem. Correu bem a abertura, no Itamaraty. Quando o nome de José Aparecido de Oliveira surgia, ao longo do discurso de Celso Amorim, as pessoas aplaudiam como se estivesse ali, em pessoa, o pioneiro que nunca foi devidamente reconhecido. Palmas para ele, o desenhador de tudo. Atrás do lugar do discurso, fica a Exposição sobre a Língua. Deambulamos entre textos. Um dia, em algum lugar do Mundo, há-de haver um portal com uma efígie do José Aparecido que diga – Foi ele quem teve a ideia de unir os vários pedaços da Terra que falam esta mesma Língua. As minhas palmas vão para ele. E depois, o show da Bethânia, cada vez mais perfeita, o seu cabelo cada vez mais bonito. A sua voz cada vez mais grave e mais reverberada, como se tivesse dentro da garganta cordas e tambores, e os metais fossem agora muitos mais. Que bom que foi escutarmos a divina. Cravos vermelhos? Eram às caixas, pelo palco. Eu bem disse que iria correr bem.

Economia brasileira

Entusiasmada, uma brasileira começa a recitar Pessoa – “Deus querre, o homem sonha, a obra naisce…” É então que o jovem professor Edvaldo Bergamo vem dizer que há ainda uma forma mais abreviada de falar da utopia. No meio do ruído, ele conta como Jucelino Kubichek foi mais sóbrio. No princípio de Brasília, poucos acreditavam que o lago artificial alguma vez enchesse. Quando choveu e a água escorreu dos córregos, e o lago Panamoá pela primeira vez foi lago e ficou raso, dizem que Jucelino enviou um telegrama a um jornalista seu detractor, nestes termos – “Encheu. Viu?”

27 de Março.
Breve palavra de acesso

Finalmente, o programa literário paralelo à Conferência. O que se espera dessas seis mesas organizadas pelo poeta Felipe Fortuna? Como não pode deixar de ser, muito e muito pouco, por certo inconclusivo, ao arrepio da Conferência. Durante dois dias, haverá tradutores, editores, escritores, músicos, autores de blogues e um vasto público. Haverá. Mas antes eu preciso de entrar num outro lugar do Centro Cultural Banco do Brasil. Quero ver as esculturas dos irmãos Pandolfo, OsGemeos Vertigem, de que tanto se fala. Quero ver com os meus olhos. Entro e o mundo voa. Não há explicação possível. Pássaros de sonho, carros forrados de todo o tipo de fantasia, rostos-lua e luas caixa que podemos conduzir e habitar, e no meio desse arsenal de mundo lúdico, um objecto cúbico onde a pessoa enfia a cabeça e vê o seu rosto multiplicado até ao infinito. Música irrompe do interior da nossa cabeça e não se sabe como.

Mal consigo sair daquele espaço enfeitiçado. Agora sim. Agora posso subir até ao auditório com a certeza absoluta de que lá onde a imaginação chega, chega a Língua.

Muita gente, muita alegria, muita expectativa, muito calor e são sete horas. Não faz mal. Aconteça o que acontecer, agora também eu já posso dizer aquela breve palavra de acesso à conclusão - “Viu?” E foi isso mesmo que, afinal, aconteceu. Quanto ao resto, ainda agora é domingo, há que esperar para ver. O que for soará, fora dos campos de Brasília.

28 de Março
Despedida

Quando os dias voam é assim. No restaurante do hotel, uma pessoa vem ao meu encontro com um prato de fruta na mão. A fruta é vermelha e a pessoa é mulher. A pessoa diz-me o seu nome e eu fixo-o, já o ouvi e estremeço por receio de errar. Sim, já errei, já julguei que era alguém que não era, e eu misturo o momento da despedida com as minhas faltas cometidas em Brasília. Conheço-me. Começa o momento do arrependimento. A pessoa diz-me que no dia anterior esteve lá sentada, no meio do calor, a ouvir-nos, e eu começo a ficar mais pequena do que a cadeira onde me sento. Começo a pensar que toda a euforia foi para nada, e que o meu lugar era em casa, metida na sombra dos objectos que não falam. Mas a pessoa, que afinal não come a fruta, começa a dizer que me agradece. Que nunca tinha pensado na hipótese de alguém desejar ser ao mesmo tempo homem, mulher e criança, velho e novo, rei e vassalo, móvel antigo da nossa casa e parede onde ele se encosta, cão e lobo, nuvem e pasto, e até o nojento réptil agachado no chão, até ele qualquer escritor gostaria de experimentar ser.

Sim, de facto eu disse isso mesmo, de passagem, apenas para criar um intervalo, entre os assuntos da Língua, e foi só isso que a pessoa, que está na minha frente, fixou. E porquê? Porque a pessoa, que deixou a meio o prato da fruta, diz que também já experimentou o desejo de ser, por um minuto, o réptil nojento que toda a gente abomina. A pessoa diz que veio ter comigo porque somos irmãs, que aquilo que apenas nos distingue é que, na sua óptica, eu consigo dizer em público exactamente o que ela sente e não diz – Diz que ser por um momento a criatura mais repelente, que Deus deixou à face da Terra, é apenas a forma de desejarmos ser tudo. E só depois, a pessoa termina o seu prato de fruta vermelha.
____________________

* "Diário", in Jornal de Letras (N.º 1031 - 7 a 20 de abril de 2010)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Depoimento * Para o álbum "100 Mulheres Portuguesas"

Excepções e regra

Lídia Jorge *

Esta é uma bela homenagem que um jovem fotógrafo dedica às mulheres do seu país. No seu gesto de celebração, escusado será procurar outros motivos que não sejam os do reconhecimento de que o caminho percorrido por cada uma destas figuras, até ao lugar de um certo destaque, representa um contraste em face dos muitos destinos que as precederam e a quem a vida anónima foi negando qualquer menção para registo público. Por umas e por outras, ficaremos a dever ao Gonçalo Cunha de Sá esse gesto simbólico de justiça. Mas não nos enganemos – Do ponto de vista da marcha do tempo e relevo dos seus actores, assim, em separado, as mulheres só serão objecto de discurso enquanto não forem, elas mesmas, sujeitos da acção.

Quando a questão de sexo não for mais um factor de discriminação a nível dos actos cívicos e das acções públicas, as representações de género separadas por salas e por livros, ainda próprias do nosso tempo, cairão em desuso, e farão com que os cidadãos futuros, olhando para trás, se lembrem de que houve um mundo arcaico em que a afirmação das mulheres era excepção. E a ideia de que houve em relação às mulheres tratamentos de minoria deverá provocar riso, pela absurda contabilidade dos factos. Assim há-de ser, por certo, mas não agora, nem aqui, já que alguns domínios fundamentais, as mulheres ainda não passam de alegres recém-chegadas, e em muitos deles, ainda se contam pelos dedos.

Procurando bem, há explicações para tudo. Para esta assimetria imposta e ao mesmo tempo consentida, também há. Desde a explicação induzida pelo vínculo que a Biologia empresta aos corpos, à explicação deduzida a partir da diferença que a vontade de um bom Deus empresta às almas. Segundo a narrativa mais feérica que certo neo-platonismo engendrou num jogo de assimetria entre luz e penumbra, aos homens caber-lhes-ia fazer vingar a imperfeição da vida, invectivando Deus através da revolta que conduz à construção da obra, um acto de soberba e insurreição, que assentaria bem ao rival terreno. A mulher, pelo contrário, colaboradora com a divindade pela gestação dos filhos, faria de sua pessoa o vaso da procriação por vontade alheia, aceitaria na sua própria carne a criação do Outro, dispensando-se assim de se envolver na dissenção que preside ao acto de ousadia do empreendedor e do artista. A mulher seria votada a obedecer, fazendo do acto de subserviência o material da sua genuína construção. A separação das águas através deste ângulo, muito mais enraizado do que pode parecer à primeira vista, dá que pensar.

Agustina Bessa-Luís, que não poupou fustigar o sinal interior da acomodação das mulheres, referiu-se ao hábito de obediência como uma economia do comportamento, do qual elas retirariam lucros de bom proveito, ainda que de mau exemplo, pôs-nos de sobreaviso sobre as mansas. Fez questão de nos fazer desconfiar das vestais sentadas que se sentiriam razoavelmente bem sucedidas nas penumbras dos seus templos. No que não deixa de ter razão. Em todos os tempos, há quem prefira colaborar com a apatia em troca de protecção. Mas essa não é a regra comum.

Se essa regra fosse geral, seria caso para dizer que por qualquer outra razão, as histórias das fadas têm os seus limites temporais afixados pelo selo de consumo, e os seus prazos de validade estão esgotados. Ao longo do Século XIX, o Ocidente pôs em marcha a mais vultuosa emancipação dos escravos de que há registo, e no seio deles - ou apenas como eles, os escravos - as mulheres aprenderam a ler, a escrever e a contar as suas vidas pelo lado contrário do que era suposto. Onde estava a finalidade, colocaram a causa, e onde estava o enigma, colocaram o argumento. Para inverter os dados do destino, Simone de Beauvoire escreveu a meio do século passado, essa frase paradoxal que contém em si um quiasmo irresolúvel e no entanto resultou inaugural pois denuncia o acrescento duma falsa natureza à natureza propriamente dita – “Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres”. Hoje em dia, de repetida, o seu sentido deixou de ter a relevância, como sempre acontece com as afirmações que se transformam em cliché, mas é de supor que muitas das mulheres aqui fotografadas devam ter tido essa frase como antídoto contra a formatação dos seus percursos. Pois é bem verdade que nem sempre a história da afirmação das mulheres coincide com a história da consciência feminista, mas a sua relação de sintonia e sintoma, causa e efeito, o papel da dissensão não pode ser ignorado.

Também neste campo, o caso português é particular. É costume sublinhar a debilidade da reivindicação portuguesa em contraste com a energia dos movimentos reivindicativos próprios de outras culturas, e com razão. Mas num país blindado pela censura, pela moral conservadora e punitiva, e por uma instrução roçando o nível do miserável, a acção de grupos de mulheres como Adelaide Cabete e Ana de Castro Osório, durante a Primeira República, bem como o trabalho isolado e notável de Maria Lamas, ou a singularidade do caso das Novas Cartas Portuguesas - o selo mais emblemático da afirmação da personalidade das mulheres portuguesas modernas - foram pontos altos que não só precederam e anunciaram a Democracia, mas sobretudo se tornaram detonadores de mudanças de mentalidade e se inscreveram na nova cultura de libertação e autonomia em crescendo que vivemos nos dias de hoje. Além de que milhares e milhares de outras mulheres, umas perto da militância feminista, outras apenas pela afirmação da sua dignidade, conseguiram combater e ultrapassar o meio atávico português, demasiado original no preconceito, mesmo quando apenas comparado com o quadro das culturas conservadoras do Sul da Europa. Para essas, as semi-anónimas, ou anónimas, nunca haverá maneira de lhes criar uma galeria de retratos dispostos num livro ou numa sala. Como não há hipótese de nomear os homens cultos, e os não cultos mas justos e sensíveis, que ao longo das últimas décadas compreenderam que ajudar a dignificar a vidas das mulheres é uma quota antecipada que se paga em conjunto para uma habitação mais digna sobre Terra.

Aliás, estas fotografias, captadas por um homem jovem, vêm dizer isso mesmo – que as duas humanidades, na totalidade, são as duas mães da Humanidade, e que elas não se afirmam nem se salvam se não estiverem em conjunto. Sabemos que quanto mais pobres, mais teocráticas, mais ditatoriais forem as sociedades, mais subalterno será o seu papel. Por isso mesmo, as mulheres portuguesas que pela História ficaram durante tanto tempo dependentes das sombras e das metáforas para dizerem eu existo, poderão vir a ser importantes, na aproximação, encontro e diálogo entre culturas e modos de vida diferentes. As mulheres portuguesas, para quem todo um passado baço e submisso ainda é tão presente, por irrecusável dever de semelhança, poderão lutar pelos Direitos das Mulheres, como parte integrante e inseparável, dos mais elementares Direitos Humanos.
_______________
* Para o álbum com fotografias de Gonçalo Cunha de Sá
editado paralelamente à exposição que percorreu o País
 “100 Mulheres Portuguesas”, com início a 3 de março de 2010
cuja venda reverteu para a associação Mulheres Contra a Violência

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Prefácio * Uma dedada de matérias várias

Memórias do longe
Transparências

Lídia Jorge *

LONGE é uma palavra importante para Gracinda Candeias. O que ela mais recorda aconteceu longe, o que mais ama fica longe, o que inventa e pinta fica ao longe. Quando precisa de fazer um parênteses, vai para longe, e quando regressa é de lá que traz os novos projectos. Sucede que durante o percurso para chegar longe, ela toma um estojo miniatura que cabe na palma da mão, e em qualquer lugar remoto, a Gracinda desenha e pinta. Ou por outras palavras, é na distância que ela encontra o impulso e o motivo.

O que quer dizer que a transfiguração vem do percurso, do trânsito acontecido no tempo e no espaço, do intervalo que decorre entre o mundo primitivo e o dito civilizado. Da distância entre a Europa e o Oriente, a Europa e a África. Da África do Norte e do deserto, ou de Angola onde nasceu e mantém a sua raiz. A distância no tempo faz-se entre o tempo presente e o passado próximo, ou distante, e faz-se por continuidade, por mistura e por coabitação. Assim, quem conhece a vida e a forma de trabalho de Gracinda Candeias adivinha a sua obra. E quem conhece a obra, adivinha-lhe a vida, não por inteiro, mas quase.

São de longe os seus estímulos, as flores, os pássaros, as nuvens, as árvores, os rios, as cores e os sentimentos de deslumbramento, nostalgia, recordação, memória de odores e vislumbres. O transporte da sensualidade em torno do mundo, da terra e do céu. E também os materiais são de longe – os papéis, os pigmentos, as colas, os paus, os lacres, os selos. E de longe parecem ser arrancadas as formas que expressa – Os pássaros estilizam-se na forma do ovo, as nuvens alargam-se com a transparência dos céus, os calhaus ficaram espalhados no deserto que se remove em nuvens. Como se a forma se tivesse rendido ao impulso da cor, e a cor fosse a mais depurada sobrevivência da experiência vivida.

Então é preciso esquecer o percurso, essa liturgia que a Gracinda percorre antes de criar, isto é, aproximamo-nos da obra feita. E a aproximação revela que a depuração não é apenas um prolongamento, um encosto à Natureza, mãe das formas, uma sequência pacífica do prolongamento do espaço deserto de África, ou do espaço profuso do Oriente. Existe uma reacção à forma primitiva, uma revolta contra ela, uma resposta, uma aposta numa outra forma que é só sua e se sobrepõe à estilização do mundo feito. Vistas de perto, essas formas relatam uma história íntima, e o longe assenta numa experiência sentida.

Então será normal pensar que existe, sobre os seus quadros, o desenho de um percurso biográfico. E isso valoriza? Desvaloriza? – Não interessa. No interior das suas transparências, fica uma dedada de matérias várias. A abstracção de Gracinda Candeias assenta num desvario contido, enquadrado como se fosse uma vitrina ou uma redoma, sustido, poupado, transfigurado em manchas significativas. Formas como se fossem apenas formas, e no entanto, histórias. Histórias em repouso serenado, sensualidade resguardada, vidro ferido.

De longe, para longe. E no intervalo, a proximidade inscrita. O que conheço de Gracinda Candeias diz-me que não se afastará deste processo. O Pacífico, o Índico, e especialmente África, Angola, chamam-na.

Uma peregrinação da existência. Pelo que sei, o augúrio da sua expressão plena vem a caminho.
_________________
* Texto para o álbum de serigrafias de Gracinda Candeias,
"Datura e suas Senescências"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Depoimento * E nisso são irmãos gémeos dos escritores

Laços de Família

Lídia Jorge *

Do outro lado do telefone, alguém me pedia que escrevesse umas linhas sobre editores e escritores, suas relações de vida ou dissidência, uma página breve que fosse, duas talvez, coisa rápida, coisa simples, e eu, em vez de avaliar o que se passou entre Guttemberg e Marconi, deixei esse vasto mundo para trás, e comecei a pensar naquele dia em que subi o elevador do número 225 do Boulevard Saint Germain, no preciso momento em que Marie Ange Masson-Mosca me fez sentar na sua frente, e no fio das suas palavras se ia tecendo a minha relação futura com as Éditions Métailié, um abraço estreito mantido até agora como um laço, não um nó. Mas essa história que já foi contada, a história de uma relação com seu quê de ideal e irreal, de tão profunda e forte, não a vou contar de novo. Deve permanecer encostada aos livros, a alimentar-se do licor do tempo e a ganhar as asas que a amizade tece, sem alarde. Firmemente, sobre essa caso, nada direi, pensava eu, enquanto alguém do outro lado da linha falava dos mitos que hoje em dia se propagam, aqueles que pintam de gelo as relações criadas a partir das casas editoriais e seus escritores, hipoteticamente, tão gelados quanto elas.

E assim, enquanto do lado de lá alguém falava de frieza, lâminas, facas, vidros, despedimentos, cortes, abandonos, modernas legendas trágicas entre editores e escritores, eu pensava naquele dia da Primavera de 2001, em Frankfurt, quando a Ray Güde- Mertin me conduziu ao escritório da Suhrkamp para me encontrar com Siegfried Unseld, e pelo caminho íamos roubando ao jardim público um ramo de flores. Pensava naquele momento em que alguém veio sussurrar que eu iria ser recebida por um minuto, dois minutos, não mais, e que o senhor Unseld não iria levantar-se da cadeira, iria ficar sentado, por um minuto, dois minutos, não mais, e a Ray ficou à espera, e eu entrei, e o senhor Unseld levantou-se da cadeira, e eu não me sentei em cadeira nenhuma, apesar do seu gesto, e ficámos um diante do outro, a dizer palavras de cumprimento, sabendo que nos estávamos a despedir para sempre, nós que havíamos falado sobre Catulo e as mulheres, sobre Goethe e as ervas que compunham o seu manjar, ou Thomas Bernhardt de férias em Portugal, e agora tínhamos palavras urgentes para dizer e já não diríamos, pois tudo tinha deixado de ser urgente, até que ele me disse You will… e eu disse I’m not sure I will…, e cinco minutos tinham passado, e ele não se tinha sentado e eu não me tinha sentado, e alguém bateu na porta, e ele falou em alemão, e eu virei-me, sem lhe estender um braço. Sim, eu sei que atrás da minha relação com Sigfried Unseld havia uma cadeia de pessoas, sabia que outros me haviam levado até ele, mas é dele que estou a falar, alguém que emprestou a vida pela Literatura Alemã e pela Literatura do Mundo. Nunca soube onde deixei as flores, se lhas entreguei, se as perdi no corredor. Pouco importa. Importante é não fazer passar aos adolescentes a ideia de que neste mundo tudo se rege por frieza, lâmina, facas, vidros, sobretudo num campo onde, em princípio se tece o seu contrário.

Isso pensava eu, enquanto do outro lado, alguém me falava da imagem que de momento corre entre os jovens dos liceus sobre a força do dinheiro e do negócio. Ah! O que se conta sobre os editores, esses exploradores dos proventos alheios, esses usurpadores dos talentos dos outros, esses avarentos que irão ser expulsos por São Pedro de qualquer lugar que se assemelhe ao paraíso. Românticos, os rapazes dos liceus, orgulhosos de poderem reclamar por uma ordem protectora dos criadores. Fazem bem. Infelizmente há casos, a história está cheia deles. Toca a todos. Mas em sentido contrário, eu pensava em Doroteia Bromberg naquela noite, em Estocolmo, quando a vi caminhar pela neve fora, rebocando um carrinho com os livros. Ela mesma, a editora de vários Prémio Nobel, ela mesma estendeu os livros sobre a mesa, expô-los, vendeu-os, guardou os que sobejaram, empurrou o carrinho ao longo da rua coberta de neve, e eu que ia atrás, a ver como os colocava na bagageira do seu carro, pensava na sua distinção, no seu respeito pelos autores, a sua cumplicidade, sua defesa, sua luta por umas histórias vindas de longe. Umas histórias portuguesas que a Doroteia achava que os suecos deveriam conhecer. Só isso. E por isso, eu gostaria de ter filmado esse encontro com Doroteia entre os livros, para passar aos adolescentes, para que eles ficassem a saber que nem tudo é um frigorífico onde se conserve o nosso coração para ser comido. Ah! Se eu filmasse! Eu filmaria o rosto de Menakhem Perry quando explica por que escolhe determinados livros, e Christopher MacLehose, e Adolfo García-Ortega, e Luciana Villas Boas, só para dizer aos rapazes dos liceus que tenham calma, que nem tudo é fidúcia e percentagem, que há gente que não dorme por uma boa história, por um belo livro, uma boa frase, um pensamento. Que há editores que se enamoraram de um pensamento, por ele poderão dar a volta ao mundo, e nisso são irmãos gémeos dos escritores. Eles são aqueles que põem no colo dos leitores, o livro que tu escreves na tua mesa de trabalho.

Sim, do outro lado de lá, alguém sugeria uma, duas páginas sobre essa ideia de que a edição se transformou num balneário, e que o editor é um Mister contratado que só pretende golos. E às vezes assim parece, mas se tudo fosse assim, se apenas os golos contassem neste jogo, não seria possível ter existido aquele momento em que o Nelson de Matos, já perto da meia-noite, a partir de Barcelona, mandou parar as máquinas de impressão em Lisboa, por ter percebido que eu duvidava do título do livro em vias de publicação. Sim, era um restaurante de peixe, e já íamos na sobremesa quando a conversa foi parar ao título. Lembro-me, se me lembro, desse momento em que fui para a rua com a Cecília Andrade , e a uma sua palavra a decisão foi tomada. Cecília Andrade é hoje a minha editora portuguesa, ela é e será sempre a pessoa que nessa noite foi capaz de tomar a decisão por mim, de fazer andar de novo as máquinas que haviam parado. Nelson de Matos, o meu editor de muitos anos, ficará para sempre na minha vida com o telemóvel na orelha, à minha espera, prolongando aquela noite de Outono em Barcelona. Até que disse – “Continuem, aconteceu aqui uma dúvida…” E assim, se é verdade que os jovens só entendem a vida em metáfora de pop e futebol, é preciso dizer-lhe que estas cantigas são outras, e estes golos entram noutras balizas, menos rectangulares, menos instantâneas, menos contáveis, e no entanto, necessárias para continuar a nossa humanidade. Que os editores são parte inseparável deste team. É verdade, contra o que se propaga e algumas evidências sugerem, e outras infelizmente o confirmam, o editor é uma figura gémea do escritor, aquele que divulga os livros que ele mesmo gostaria de ter escrito. Este é o único compromisso que não pode ser perdido. A cultura repousa nessa escolha, nessa aposta em que se tece uma espécie de larga família poligâmica, unida pela ideia de uma arte.
_________________
* Publicado com o título de "Liens de Famille"
no Catálogo dos 30 Anos das Éditions Métailiée,
outubro de 2009 

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Crónica * Carta a uma filha

Figos & rosas

Lídia Jorge *

Querida Catarina

Mal chegaste, partiste, e mal partiste já só penso no teu regresso.

Desta vez, tudo aconteceu tão rápido que nem deu para visitarmos o pomar. Pergunto-me o que sentirão as tuas árvores, se perceberam que não as visitaste como antes sempre acontecia. As amendoeiras que tu tanto gostavas de desenhar antes de perderem a folha, ainda cá estão intactas como se esperassem pelo teu lápis. As alfarrobeiras estão carregadas como nunca, e nenhuma delas até agora se partiu. Foi pena que não tivesses reparado nelas. E que dizer das figueiras? Ah! As figueiras-leiteiras, como se cobriram de frutos. É caso para dizer que por aqui, a mesa de Deus está posta. Mas tu, mal chegaste, partiste e não viste o que Deus pôs na nossa terra. Desta vez não nos levantámos de madrugada para irmos aos figos - passarinhos. Aquela a que tu chamavas a tua figueira, a carvalhal, este ano, precisamente, carregou. É dela a maior parte da cesta que estou a preparar para ti. Sei que não precisas, que poucas serão as ocasiões em que estes frutos secos, com cheiro a mel e álcool tresmalhado, de bafo demasiado quente, demasiado calórico, como tu dizes, poderão servir-te, mas eu é que acordo de noite com este aroma em casa, vindo do pátio, onde ficam estendidos, e sinto uma abundância mais que humana e preciso de partilhar contigo, que mal chegaste logo partiste, e eu já só penso no teu regresso dentro de um ano, bem entendido, se for caso disso. Recebe, pois, a seira que te mando envolta em papel pardo. Se sentires um pouco de cheiro de canela, não acredites, são eles mesmos que assim cheiram. De resto, tu conheces como os mantenho – deixei secá-los até ficarem com aspecto de torrados, untei-os com azeite, coloquei um bago de erva-doce em cada olho, um molho de funcho por camada. Tudo isto para durarem um ano, ou ainda mais. Desta vez, não tiveste tempo, mal partiste, chegaste, mal chegaste, logo partiste, já só penso no teu regresso, de noite, abro as janelas, e já só penso que chegaste. Não faças caso. Junto, vão também seis botões da roseira adamascena. Pois andaste pelo jardim, e não a viste, não a desenhaste como é teu hábito, desta vez foi como se não tivesses estado em Portugal. Mal chegaste, mal partiste. Mal chegaste. Segue tudo Via Expresso para mais rápido te alcançar. Segue tudo, menos esta carta, que aqui ficará guardada, para seres livre de partir, para seres livre de chegar.

Mãe
_________________
* Crónica escrita em agosto de 2009,
publicada em revista (a ser localizada)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Depoimento * Universo poético inconfundível, só seu

Manoel de Oliveira

Lídia Jorge *

Tenho dificuldade em definir o que seja cinema puro, e no entanto, quando ouço falar do conceito, associo-lhe de imediato três nomes – Akira Kurosawa, Andrei Tarkovsky e Manoel de Oliveira. Reconheço-lhes por igual a mesma capacidade de transmitir uma personalidade criadora, a mesma intensidade dramática com lógica de palco, e a mesma demanda ontológica através da narrativa literária. E tal como acontece com o mestre japonês e o russo, reconheço que Manoel de Oliveira possui um universo poético inconfundível, só seu, que foi capaz de impor ao mundo do cinema contemporâneo. Por comparação, o realizador português, talvez só não alcance a mesma porosidade universal daqueles seus congéneres, quando se enreda em demasia na retórica da portugalidade e se abandona a uma espécie de didáctica sobre o destino e outros conceitos próprios da dissertação. É por isso que a associação com Agustina Bessa-Luís sempre resultou tão benéfica.

É verdade que Manoel de Oliveira se aproximou de vários escritores universais, designadamente autores europeus canónicos, e nesse aspecto também o realizador português foi capaz de des-provincianizar o nosso cinema. Mas a meu ver, de forma consequente, só Agustina lhe emprestou a carne e os ossos necessários para manter em cena, do princípio ao fim, personagens com interioridade avassaladora e recorte exterior inesquecível. E o cinema, mesmo o dito puro, também é isso. É essa consistência oriunda da ficção romanesca de Agustina que distingue o fascínio des-conexo de “Os Canibais” ou de “A Divina Comédia” do sentimento de totalidade, e de aproximação da arte absoluta, criado por “Vale Abraão”, “O Mosteiro” ou essa peça de declamação extraordinária que é “Party”. Mas devo dizer que só descobri Manoel de Oliveira com “Francisca”, e um pouco por acaso. Até então, Manoel de Oliveira afigurava-se-me ser uma espécie de lenda remota criada contra-corrente. “Amor de Perdição” tinha-me parecido apenas uma deslumbrante teimosia sem grande consequência. Paguei-as caras – Se hoje em dia não conheço tudo o que Manoel de Oliveira filmou, é só porque este realizador, tal como a sua parceira de ficção, Agustina Bessa-Luís, produzem sem parar, como é próprio de quem descobre que o seu talento é de oiro, e sabe que os outros também o sabem. Por isso mesmo, nas justas homenagens que lhe estão a ser prestadas, por mim, dispenso qualquer referência à sua idade. É assunto que não me interessa para nada. Do ponto de vista humano, o homem que se senta junto de nós, e fala da sua arte com a forma notável como o faz, é apenas um miúdo de “Aniki-Bóbó” que cresceu demasiado e está produzindo com a velocidade própria dos grandes criadores. E o regozijo é dele mesmo, e nosso.
_____________
* Para livro de homenagem a Manoel de Oliveira ( 2009)

sábado, 1 de agosto de 2009

Depoimento * Essa página tal de Marguerite Yourcenar

Duas horas de leitura
que duram toda a vida

Última Página de um Romance
Golpe de Misericórdia
de Marguerite Yourcenar

Estendeu-me um revólver; peguei no meu, e dei automaticamente um passo em frente. Durante este tão curto trajecto, tive tempo para repetir dez vezes a mim mesmo que Sofia talvez tivesse um último apelo a fazer-me, não sendo esta ordem senão um pretexto para o fazer em voz baixa. Ela, porém, não mexeu os lábios; com um gesto distraído, tinha começado a desabotoar o alto do casaco, como se eu fosse apoiar o revólver à altura do coração. Devo dizer que os meus raros pensamentos iam todos para aquele corpo vivo e quente, que a intimidade da nossa vida em comum me tornara quase tão familiar como o dum amigo; e senti-me tomado duma absurda pena pelos filhos que aquela mulher teria podido dar à luz, e que teriam herdado a sua coragem e os seus olhos. Mas não é a nós que cabe povoar os estádios nem as trincheiras do futuro. Um passo mais pôs-me tão perto de Sofia que teria podido beijá-la na nuca ou pôr a mão sobre o seu ombro agitado por pequenos estremeções quase imperceptíveis, mas já só via dela o contorno dum perfil perdido. A sua respiração era ofegante; agarrei-me à ideia de que teria desejado acabar Conrad e que era a mesma coisa. Disparei desviando a cabeça, quase como uma criança assustada que faz detonar um petardo na noite de Natal. O primeiro tiro não fez senão esfacelar uma parte do rosto, o que me impedirá para sempre de saber qual a expressão que Sofia teria adoptado na morte. Ao segundo disparo, tudo ficou consumado. Pensei, primeiro, que ao pedir-me que me incumbisse desse serviço, ela julgara dar-me uma derradeira prova de amor, e a mais definitiva de todas. Compreendi, depois, que apenas quisera vingar-se e legar-me remorsos. Tinha calculado com justeza: sinto-os por vezes. Com mulheres destas, cai-se sempre no laço.

in edição Dom Quixote |Biblioteca de bolso| 2003,
tradução de Rafael Gomes Filipe

Lídia Jorge *

Dog Women, de Paula Rego
Muitos são os leitores que associam o Verão a leituras com finais suaves. Leitores que preferem colocar na sua mochila de viagem histórias de cujas últimas páginas se desprendem praias douradas, beijos na boca, ou sentimentos da História rumando à metafísica da espécie. Ora nada disso acontece em “Golpe de Misericórdia”. Esse livro, que Agustina Bessa-Luís classificou como uma educação sentimental para veteranos, só é aconselhável a quem goste de histórias correndo sobre o fio da navalha e ame os finais em que a voz da interpelação deixa ao leitores, para sempre, um arrepio na espinha.

Por mim, pelo menos, é esse o efeito que me produzem as últimas linhas deste livro de Yourcenar escrito em 1938, como desfecho duma história supostamente acontecida, vários anos antes, no rescaldo das lutas civis entre os vermelhos e os brancos, na zona da Curlândia, uma história onde se encontra o ADN remoto da divisão que viria a separar o mundo em dois, ao longo de todo o século XX. Só que neste livro, esse pano de fundo político não passa de um trapo estendido sobre o qual se imprime o que verdadeiramente importou à sua autora e nos importa a nós, seus leitores – A iluminação, tão profunda quanto é possível atingir em Literatura, sobre dois caracteres em confronto. E é nesse plano, os da dimensão relacional das personagens, que este final é um dos mais belos e surpreendentes da narrativa contemporânea.

Por mim, os anos passam, os livros vêm e vão, alguns finais ficam, mas de entre todos, eu sublinho aquele que me oferece esta imagem. A imagem de Sofia de Reval a desabotoar a alto do casaco para que Eric von Lhomond , o amigo íntimo do seu irmão, apague para sempre, da sua cara e do seu corpo, a experiência de um amor duma dimensão inusitada. Sofia é uma das heroínas mais impressivas da Literatura Ocidental. E Eric, no papel de cínico, é sobretudo a história duma voz partida em duas. É verdade que durante este final não se refere o início do livro, nem o pé entrapado que este oficial contador da sua história em voz alta estende sobre uma cadeira, na estação dos caminhos-de-ferro duma cidade de Itália, nem as figuras dos seus destinatários de narrativa, os seus sonolentos companheiros de refrega, estão presentes. Mas o leitor atento não esquece – até porque o romance reproduz a urgência de contar de alguém supostamente movido pelo remorso – que se está perante uma madrugada de vigília, esse momento em que os seres amados regressam ao nosso convívio, quer estejam vivos quer estejam mortos. O mais tocante, neste abraço entre Yourceanar e o seu personagem homem, está naquele ponto em que Eric sonha, por um instante, como Sofia mereceria ter vivido e ter filhos com os seus olhos. E mesmo assim a sua mão não treme. Há uma brutalidade neste livro em forma de relâmpago que ilumina para além da sua luz. Lembro que se trata de um livro breve. Entre a primeira página e a última, vão apenas duas horas de leitura. Duas horas que duram para toda a vida.

_________________
* Publicado no Jornal de Letras, 1 de agosto de 2009

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Original * Um símbolo


Gafanhoto

Lídia Jorge

Vem, pequeno gafanhoto, pousa as tuas patas sobre a brancura desta folha e mostra a tua natureza diante dos meus olhos. Mantém-te quieto enquanto duram estas breves linhas para que eu te conheça de perto, melhor do que ninguém. Sei que ao mudarmos de língua, tu mesmo mudas de sexo. Na minha língua és macho, e o teu nome traz consigo uma maldição, pois gafanhoto lembra aquele que traz a gafa, a miséria e a doença, enquanto que em francês assumes a forma de um belo nome que salta, e és fêmea. Não importa, atravessas a tradução, e ficas com outra ressonância, mas para mim, tu serás sempre aquele que me leva pela mão até às regiões do desconhecido. Somos um casal perfeito, e da minha fidelidade, não tens de que te queixar.

Outros te reduziram à dimensão da iniquidade e do desmazelo. Não deves dar o teu perdão a Nathanael West, autor de “O Dia do Gafanhoto”, nem ao realizador John Schlesinger, muito menos a Winston Churchill que te associou aos tristes dias da vacuidade. Para não falar das pragas do Egipto, do anjo do Apocalipse, ou de São João Baptista, esse anoréctico que se alimentava dos teus irmãos untados com um pouco de mel. E tu, frágil, mudo, airoso, sempre cumpriste o teu destino, avançando pela História fora, sem te importares com a maldição. Mas ao contrário de todos os que te amaldiçoaram, bem sabes como sempre te tratei bem desde que, na infância, te descobri. Como te entreguei a minha mão, como corremos os dois por entre os colmos de trigo, como te capturei dentro de caixas de fósforos, como te desenhei e te amei. Bem sabes como ocupaste o frontispício de um dos meus livros, e aí te elevei ao lugar de rei. Bem sabes como aí te multipliquei por biliões, e deles fiz grandes nuvens que voaram por cima das cidades de África. Tão espessas que nelas tu te fizeste verde, e tudo ficou verde, incluindo a luz dos candeeiros em torno do quais vocês rodopiaram como esmeraldas voadoras. Não tens de que te queixar. Mas eis que chegou a hora de me recompensares. Chegou o momento de me dizeres para que lado deve voar a nuvem de que faço parte. Eu queria escrever esse recado no frontispício da minha autobiografia, e só tu o sabes, querido gafanhoto do deserto, só tu me podes dizer a verdade.
______________

* Publicado por Lexique Nomade n.° 2
(co-edição Le Monde/Villa Gillet/éditions Christian Bourgois
 - maio de 2009