quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Prefácio * Eduardo Gageiro

Os três reinos
Este Pó tranquilo foi Damas e Cavalheiros
E Rapazes e Raparigas
Emily Dickinson
Lídia Jorge *

Dizem que os fotógrafos não são pessoas como as outras. Consta que caminham com metade dos olhos entre as mãos e não fazem separação entre o seu corpo e o Mundo, como as crianças e os animais. Neste último aspecto, compartem a condição com todos os artistas dignos desse nome, e ainda bem que assim acontece. Alguém há-de ter a seu cargo a tarefa de manter activa a relação entre os homens e o íntimo coração das coisas. Foi pensando na possibilidade dessa inocência, que me encontrei pela primeira vez com Eduardo Gageiro.

Eram três horas da tarde, sobre uma mesa de vidro ele abria as folhas de um livro chamado Silêncios e insistia na diferença entre o plural e o singular da mesma palavra. Mas não precisava de falar muito mais. A sua eloquência não estava na explicação do sentido dos termos, residia na forma como virava as páginas – Aqui encontrava-me eu em Bombaim, aqui em Genève, aqui o homem estava de costas, e ainda que monstruoso, eu vi-o no meio da solidão, e assim por diante. Embora o que dissesse fosse mais fundo do que dizia, ou estivesse muito mais escondido. Em vez das palavras, as imagens falavam por si, o relato das caminhadas até às imagens, a forma como as havia enquadrado e trazido até ali representavam a substância da matéria que as formava. Para além da mesa de vidro, para além do sol da Primavera entrando às golfadas pela janela, o que o fotógrafo vinha dizer provinha do fundo da Natureza. Como se dissesse – Tenham cuidado comigo, olhem que eu nasci para as árvores, nasci para os seus ramos, seus troncos, suas folhas levantadas contra a luz, suas raízes escondidas no solo. Muito cuidado, que eu não sou daqui. Nasci para os aluviões de terra, para as planícies e os desertos, para as dunas e as montanhas, e os mares. Nasci para todos os mares e os lagos que são a sua lembrança, e os rios que são as veias da terra correndo para os oceanos. Tomem mesmo muito cuidado. Olhem que eu sei que o mundo acorda e adormece sem precisar que a pessoa o embale, mas apesar de ele não me reconhecer como seu parceiro, apesar de não me dizer uma única palavra, eu lido bem com o seu silêncio, e reconheço-o como minha morada. Vejam, vejam aqui como levantei as nuvens acima do homem acoplado ao cavalo, e deixei-os a ambos do tamanho dum ponto feito a lápis, no meio da paisagem, para mostrar que lavram a terra e não são nada. Não faz mal. Todos somos da matéria das nuvens, mas olhe que eu sou mais o homem puxando o cavalo.

Não dizia assim, o Eduardo Gageiro, mas era como se dissesse. Porque nos encontrámos uma segunda vez, à mesma hora, já a Primavera avançava. Ainda mais luz, ainda mais vidro. Mais páginas abertas, mais certezas, e o título definitivo do livro, Silêncios. - Não silêncio, isso não, cuidado comigo e cuidado com o silêncio. Vejam aqui, por exemplo, como olham para nós os animais. Vejam como nos acompanham os pardais, as pombas, como nos olham. Estão a ver como fala através do rosto, o coração do animal? Estão a ver o coração do animal? Como bate, prisioneiro da sua janela? Onde é que eu encontrei estes cães vadios, antes de os encontrar pela segunda vez, e de os caçar à linha, para dentro da minha lente? Onde? – Pois vejam, eu creio que todas estas ovelhas já foram minhas antes deste redil. Se assim não fosse, como é que estavam à minha espera? Escute, os animais devem ter uma glândula pineal feita de espírito pela qual se irmanem a nós. Eu acho que eles são irmãos da nossa companhia, e logo irmãos na nossa solidão. Pensam ou não pensam que viemos todos do mesmo útero comum? Vejam, aqui, como todos nos desfazemos em terra. Estão a ver? – Sim, eu conseguia ver, claramente. À luz escancarada das três horas da tarde, cada fotografia falava por si, sem obediência a nenhum pensamento prévio, nenhuma teoria formada. Quem era eu para o desdizer? – Tem toda a razão, Eduardo Gageiro. Se você levantou do chão, você achou, cheirou, mordeu, provou a realidade e disparou o seu flash, você descobriu o segredo da vida, e nesta história das três da tarde, quem foi ensinada fui eu.

Mas ele pensava que não podia ensinar, que apenas mostrava. Continuava o Eduardo Gageiro - Veja aqui esta criança atrás dos panos. Rondei dois segundos na sua frente para lhe oferecer esta segunda vida. Ele estava dormindo e eu disse-lhe, quando disparei diante da sua cara inchada de leite – Terás uma vida feita de aspectos que hão-de mudar de hora para hora, de segundo para segundo, mas a partir deste instante ficarás aqui, voando para sempre a esta altura, libertada do tempo. Quero que os pássaros saibam, ao verem-te fotografado, que da gaiola do tempo se libertou um fanfarrão. Tu e eu, imagem de criança dormindo, dois fanfarrões fugindo do tempo. Vejam agora estes homens como estão sentados, olhem para as suas cabeças postas entre as mãos, vejam o peso do que pensam, vejam o que eu consegui guardar do que pensam. Alguma coisa dói? Onde dói? Não posso fazer nada contra a dor, meus amigos, porém, sempre que imobilizo o rosto da mágoa, tenho a ideia de que chamo nomes indecentes à dor. E a resistência? O que acham dela? Vejam os rostos fechados da gente, vejam a decência com que enfrentam a má notícia da vida. Serenos, sereníssimos, grandíssimas sentinelas de si mesmos. Sei por experiência que é preciso que um homem se sinta desarmado para conhecer o soldado que traz consigo. Reparem como partem de viagem os homens sozinhos, a caminho da aventura. E umas vezes isso é uma forma de se mostrarem, outras vezes, uma forma de se esconderem. Seja como for, a partida é a única promessa que o silêncio não consente. O silêncio é uma casa vazia onde só se aguarda a chegada, para nada. Silêncios? Sim, esses, pelo contrário, vão de viagem, cada um à sua janela e levam consigo os actos da vida. Às vezes eu estava lá, no local exacto, rondava a cena como um gato ronda a borboleta, rastejava, saltava, caçava a imagem da viagem do homem, esse nómada que ultimamente perdeu a rota de propósito para se sentar, durante oitenta anos, diante duma mesa. Não sou destes, sou dos outros, um andarilho à procura de silêncios, e por isso mesmo tenham cuidado comigo.

Mas ainda houve uma terceira vez.

Então já era o mês de Junho, e falámos pouco. As fotografias haviam sido revistas, uma a uma, e afinal havia ali uma montagem. Criador, este montador de filmes. O fotógrafo abriu o dossier no último capítulo, no lugar onde os mortos parecem vir beber água sobre o papel de impressão, e ao virar as últimas páginas, era como se dissesse – Cuidado comigo, conheço como falam os mortos. Eles falam, falam, mas com interesse, nunca dizem nada aos vivos. Não gosto dos lábios da morte, diz Eduardo Gageiro. São vermelhos, mas não têm palavras para mim. Não sei de que metal são feitos os lábios da morte. Vejam como as velas ardem, como as mulheres choram sobre tábuas, como as escadas vão até ao céu, e lá não chegam. Vocês, por acaso, já ouviram alguma sílaba provinda do outro lado do espelho? Pois bem, tomem cuidado comigo, sei tudo sobre os silêncios do corredor. O que sabem vocês sobre tudo isto? Acaso já experimentaram escutar o silêncio?

Como se dissesse - Eu experimentei, e agora sei que somando silêncio mais silêncio, mais silêncio, e ainda mais silêncio, assim infinitamente somados, dessas parcelas todas, nunca resultarão silêncios. Silêncio e silêncios são duas substâncias quimicamente diversas. Chegados aqui, posso resumir o que sei – Que o plural, segundo a gramática da minha língua privada, resulta da esperança na multiplicação das espécies e eu faço alguma coisa por isso. Cada vez que imobilizo a imagem da vida, dando-lhe outra vida, ajudo a afastar a hora da poeira para os horizontes mais longínquos possíveis. É um pequeno poder, mas ainda assim, serve isto só para dizer que não sou daqui, e por isso, tenham cuidado comigo.

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* Prefácio do álbum "Silêncios"  (novembro, 2008)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Apresentação * Gonçalo M. Tavares

Poderoso criador de fábulas

Lídia Jorge *

“Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos trinta e cinco anos: dá vontade de lhe bater” – Foi com estas palavras que José Saramago, em 2005, saudou o autor do romance Jerusalém ao entregar-lhe o prémio criado com o seu nome para os jovens escritores de todo o espaço lusófono. Passados três anos, os motivos de reconhecimento do seu talento acumulam-se, e hoje, para além de ter recebido alguns dos prémios importantes da Língua Portuguesa, Gonçalo M. Tavares captou um vasto público, e os seus livros começam a ser traduzidos e publicados um pouco por toda a parte.

Mais importante do que isso, a sua obra cresce a uma velocidade surpreendente, e aos quarenta e oito anos este escritor apresenta nas resenhas bio-bibliográficas um volume de títulos que muitos escritores não vislumbram aos cinquenta. Além de que parte da sua obra é inclassificável, e a outra distribui-se entre a poesia, o teatro e a ficção, revelando quase sempre extrema originalidade e grande coerência. Ironia à parte, em Portugal, ninguém tem a mínima vontade de lhe bater, antes pelo contrário - É que Gonçalo M. Tavares, para além de pertencer ao grupo dos escritores compulsivos, tem vindo a revelar-se um singular efabulador, cujo equilíbrio entre a sensação de estranheza que provoca, e a inscrição em mundos conhecidos que oferece, permite que entre na intimidade dos leitores como um companheiro que se torna indispensável. Eu defini-lo-ia como um poderoso criador de fábulas, um criador de contos concêntricos, em que a reprodução do real, próprio da ficção comum, foi substituída pela narrativa simbólica própria das parábolas.

Ou seja - Abrir os seus livros é ir ao encontro de figuras que parecem sair do interior da Terra, ou criaturas aéreas que de súbito pousam no nosso espaço, vagueando à nossa volta de propósito para nos mostrarem um desígnio de entendimento que falta – São figuras proféticas, amantes, loucos, pacientes, pobres condenados, pedintes, prostitutas, médicos em prova consigo mesmos, escritores suspensos no tempo, criaturas que parecendo num primeiro momento não ser deste mundo, em breve nelas reconhecemos o rosto dos vários indivíduos que nos habitam em silêncio, a ponto de toda essa corporação de alienígenas se transformar em seres e vozes familiares. Essa é a principal proeza dos livros de Gonçalo M. Tavares, a criação de um fascínio em torno de destinos inventados para ilustrar o nosso confronto com os limites do ser, em que a busca da grande dissenção, que é a presença do Mal, se confunde com a descrição da dor, ou do medo, ou da indiferença, ou da arbitrariedade, ainda que no plano da efabulação essas personagens sejam convocadas apenas para mostrar acções e reacções perante a narrativa da existência, não para demonstrar os sentidos que delas se podem deduzir. Talvez por isso mesmo, os seus livros – a uma sequência deles o autor designa por Livros Negros – deixem no final um rasto de impotência relevante para quem procura na ficção uma forma fácil de conserto com o mundo. Mas quem, para além desse lugar de tranquilidade, procura nos livros a tangência com o surpreendente que provém do escondido e só se revela pela fábula, encontra em Gonçalo M. Tavares um autor que vai ser um mestre, se é que já o não é.

Pelo que fica dito se deduz que se trata de um escritor que anda nas faldas dos grandes escritores centro-europeus do século XX, como Kafka, Musil ou Kundera, e também Calvino e também Borges, com acentos bíblicos e rumores de Dante. No entanto, não se trata de um simples visitador de textos de outros, mas de um verdadeiro inventor de textos seus. Um escritor sem inscrição na tradição portuguesa, dirão alguns. Não importa - Gonçalo M. Tavares pertence a uma geração que pode fazer do mundo a sua casa, não só por princípio mas por concessão da nova Geografia da mobilidade, e cada vez são mais os artistas que reivindicam o princípio do Globo acima das pátrias, e o problema do homem como espécie, acima do cidadão. Nesse aspecto, Gonçalo M. Tavares é um escritor da sua geração. Mas onde ele se torna subversivo e parece ser singular é no eixo que traça entre a parábola do homem moderno, definido por novas realidades, e a poesia que sobre elas é capaz de criar com a sua escrita enxuta, pronta a entrar com facilidade para o interior de outras línguas e aí permanecer facilmente com a mesma luminosidade.

Onde se revela verdadeiramente original é na profundidade da observação através da qual atribui osso e carne às situações reais, e os comportamentos primitivos aparecem inteiros e vivos diante do leitor, como numa radiografia ao tórax. O início do seu livro Aprender a rezar na Era da Técnica pode servir de exemplo – Sob o signo da crueldade do pai, o adolescente Lenz aprende a servir-se duma mulher e treina-se na arte de caçar, regras que bem incorporadas lhe servem de base para ler todos os movimentos da vida enquanto actos de guerra. É assim que Lenz, por exemplo, irá interpretar os movimentos das pessoas alinhadas numa fila para tomar café, a partir do ponto de vista do caçador. Escreve o autor – “Ao deixar passar o outro à frente, um homem não estava a aceitar ser segundo mas sim a preparar o mapa do terreno para controlar visualmente o homem que por instantes se julgava em primeiro lugar. A vantagem de alguém estar à nossa frente, dissera uma vez o pai de Lenz, é estar de costas viradas para nós”. O que queria dizer que passar à frente, por delicadeza do outro, se transforma num acto de capitulação, pois significa oferecer a nuca desamparada ao caçador que vigia.

É este o tipo de subversão do olhar que propõe Gonçalo, colocando-se ao lado da natureza humana, por dentro da natureza humana, através da construção poética. Como se compreende, trata-se de um escritor que merece ser visitado, lido, interpretado, e uma vez descoberto, estou certa de que não haverá outro remédio senão ser adoptado como um grande companheiro de viagem.
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* Texto de apresentação de Gonçalo M. Tavares
no Centre National du Livre, Paris, outubro de 2008

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Depoimento * Eduardo Lourenço

Trapezista do Absoluto

Lídia Jorge *

1.

Numa notável entrevista que Eduardo Lourenço deu à revista Ler, disse o autor d’ O Labirinto da Saudade que se sentia em dívida para com a Humanidade inteira. A confissão não é de pouca monta e daria para um leitor desprevenido pensar que se trata duma jonglerie destinada a ser lida ao contrário - um homem que assim se mostrasse devedor diante de um tal absoluto, bem poderia ser aquele que se sentisse credor duma dívida que não cobrou.

Mas não é isso que acontece. Pronunciada por Eduardo Lourenço, aquela afirmação deve ser lida de forma literal, sobretudo se tivermos em conta que uma tão grande culpabilização vem acompanhada pela ironia que caracteriza o seu autor, e reflecte tanto da sua desistência sábia quanto do seu espírito bem humorado. Ela revela o lado luminoso que Eduardo Lourenço bem poderia ter emprestado a Pessoa para ilustrar o heterónimo que lhe falta, aquele que fosse ao mesmo tempo jovem sábio e trapezista do absoluto, a máscara de adolescente risonho que o poeta não pôde criar. Em Eduardo, talvez seja essa alegria encantatória o impulso que explica o desprendimento de si mesmo, a entrega do seu saber a causas, e sobretudo a aplicação do seu olhar original sobre o Mundo ao serviço da contingência diária..

2.
Ou por outras palavras, presume-se que Eduardo Lourenço não deva nada a ninguém. Durante décadas, aquele de quem se diz que ensinou Portugal a pensar, aplicou grande parte do seu pensamento na decifração do valor dos outros, serviu os outros, procurou para eles lugares de significação na Literatura, na Arte, na Política, na Comunicação, nos modos de ser e até nos costumes. Ou como já alguém disse, ajudou a criar as nossas estátuas de pedra, enquanto sobre si, deixou que o silêncio caísse. Mas numa altura em que se começa a avaliar a dimensão da sua obra formal, e a reunir a obra dispersa, é impossível não perceber quanto lhe somos devedores. A lista de dívidas é longa, ainda que não aleatória.

O que lhe devemos, de forma prioritária?

3.
Devemos-lhe acima de tudo ser quem é, e depois devemos-lhe o facto de se ter mantido longe do país, e a partir dessa distância tê-lo interpretado na crueza da sua fixidez, sem nunca o ter feito com a soberba que caracteriza os estrangeirados. Apesar de ter reconhecido como ninguém a dificuldade de ser que faz parte da vida mental desta “margem da margem”, essa decifração a que se entregou como destino nunca lhe deu passaporte para o lugar do escárnio. Pelo contrário. Com os filósofos da grande decepção na bagagem - Nietzsche, Kierkegaard, Sartre - Eduardo Lourenço sempre falou do seu país a partir de longe, com a proximidade e a delicadeza de quem analisa um objecto amado. O que não é coisa pouca. Na sua escrita inclassificável, entre poesia e ensaio, existe sempre essa marca de projecção psicológica entre clarividência filosófica e tensão emocionada. A mesma emoção que deixa transparecer nos seus improvisos retóricos que os torna únicos.

Aliás, se eu tivesse de agradecer pessoalmente alguma coisa a Eduardo Lourenço, do muito que há para agradecer, escolheria aquele discurso de há dez anos atrás, ocorrido num fórum em Frankfurt, quando teve de falar de improviso sobre a Europa, as religiões e o futuro. Num primeiro momento, deu a impressão que iria desaparecer, entre Mário Soares e Dietrich Genscher. Mas afinal o que disse, numa voz demasiado frágil para a dimensão do palco, parecia absurdo, e acabou por ser profético. Pena que aquilo que disse não tivesse sido traduzido em todas as línguas do Mundo.
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* in revista Visão (2 de outubro de 2008)




segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Conto * As quatro caçarolas com os mesmos animais guisados

Coelho à caçadora

Lídia Jorge *

Um belo conto não é aquele que termina bem, nem aquele que termina mal, nem tão pouco aquele outro cuja sedução resulta da arte do encadeamento ou da perícia da própria escrita. Um belo conto é aquele que vem da vida, fica suspenso dela e a ela regressa de mistura com o seu enigma. Um belo conto é a fatia dum acto que nos resiste. Possivelmente este não será um belo conto. E no entanto, tal como mo foi oferecido, tudo teria para isso.

A prova é que o mês a que me refiro não corria demasiado quente, nem a luz se oferecia demasiado crua. Pelo contrário, a tarde de Junho durante a qual a cena se passa prometia fazer transitar o dia para a noite sem declínio nem crepúsculo, e nesse trâmite, todos os sentidos ficariam à flor da pele. Também os espaços vivem duma espécie de promessa de perenidade que certos lugares de privilégio oferecem a quem se lhes entrega, e este era um pátio interior para onde se entrava transpondo um portal antigo sobre o qual se poderia ler, cravado em madeira de carvalho, Taverna das Donas. Mas os carros de alta cilindrada, que continuamente chegavam e partiam, esses ficavam lá fora, e se pensarmos na potência dos seus motores, poderemos dizer, por respeito à unidade de arranque e tracção, que na sombra exterior daquelas paredes brancas, à hora das refeições, vinha repousar a força unida de uns bons milhares de cavalos. E no que respeita a gente?

Nesse domínio, o das personagens, as coisas são como são. À primeira vista, dir-se-ia um fim de dia banal. O restaurante fica ao abrigo do principal cruzamento das estradas, mas uns ingleses com braços tatuados de peixes e dragões bebiam latas de cerveja rente à parreira. Uns italianos de narizes em forma de faca discutiam ruidosamente, no canto oposto do pátio. Naquele momento, os portugueses presentes ainda permaneciam perto da entrada, cumprimentando-se com abraços e socos, e seriam não mais de doze, mas a mesa em forma de T que os espera, tem capacidade para vinte e muitas pessoas, pelo que se deduz que ainda não tenham chegado todos. São um grupo de homens, aficionados em pitéus de coelho e rola, apesar de não se tratar de caçadores. Os seus pais ou avós talvez o tenham sido, por certo os seus bisavós. Seus dignos herdeiros. E no entanto, pelo aspecto – trinta, quarenta anos bem tratados, bem vestidos – percebe-se que do hábito da caçada apenas lhes tenha ficado o gosto pelo último gesto, a acção de comê-la. É para essa actividade que se preparam aqueles homens ali reunidos. Três mulheres portuguesas, bem dispostas, correndo dentro e fora, entregam-se ao afã dessa restauração de fim de dia. Tomara que os estrangeiros partam para que as três sócias se possam concentrar exclusivamente sobre o serviço da grande mesa. Tomara que se vão. Sobre as toalhas brilham azeitonas galegas em pires de barro, pequenos queijos curados balizam os talheres e os pratos. Dentro e fora, ainda faltam alguns copos e alguns guardanapos. As três mulheres portuguesas gostariam que nada faltasse naquela refeição de caça. Os clientes conhecem esse desvelo e reclamam em voz alta. Um deles levanta-se, no topo da mesa.

“E para beber, não há nada?”

É então que aparece, no vão da porta, uma quarta mulher, uma rapariga acabada de sair do compartimento que serve de bar, e pára para rir, antes de se encaminhar para o meio do pátio. Avança. Traz os cabelos loiros espalhados pelos ombros, as pernas estão nuas, a saia de cotim tem a altura de um palmo, a blusa de alças está coberta de brilhos, as mãos e os tornozelos estão enfeitados de pulseiras, a cintura está marcada por um cinto apertado como as actrizes dos anos cinquenta. Os olhos são azuis pálidos, as pequenas pupilas pretas quase desaparecem no meio desse azul de lago. Entalada na orelha direita está uma esferográfica vermelha. Sem parar de rir, a rapariga encaminha-se na direcção da mesa, começando a falar muito alto -“O que é isso? Tens sede? Então diz lá o que queres beber”.

E com o bloco na mão e a esferográfica entre os dedos, põe-se a enumerar a sua oferta - “Tu tens vinho, tens cerveja branca, tens preta, tens Sumol, tens Frutini, tens vinho branco da casa e tens de marca, tens tinto... O que é que tu queres beber?” Todos riem.

A rapariga usa o singular como se fosse um plural majestático, ao mesmo tempo anónimo e colectivo, percebe-se que a rapariga não conhece a confusa gramática dos tratamentos portugueses, e por isso não avalia até que ponto a sua linguagem é pitoresca, a rapariga continua a perguntar – “Queres grande ou pequeno? Natural ou gelado?” E embora um e outro cliente deseje explicar as preferências muito perto dos seus cabelos, se possível mesmo rente ao seu ouvido, ela mantém-se à distância, a rir – “E tu só queres água? Oh pá! Tens medo de ficar bêbado? E tu, e tu?” Todos compreendem, a rapariga chegou há um ano da Ucrânia, ainda não pode falar bem o português. No entanto já tomou nota, já deu de costas, já entrou no interior do bar, e já voltou trazendo consigo as primeiras bebidas, as segundas e as terceiras, colocando as garrafas frescas contra a blusa onde se pega a humidade dos vidros, pequenas manchas escuras no tecido de brilhos. Nessa entrega, porém, a rapariga é obrigada a aproximar-se de cada cliente, obrigada a estender o braço despido, coberto de penugem loira. Nessa aproximação aos clientes, ela está tensa.

“Encosta a tua cabeça para lá. Não vês o meu braço a querer passar por cima de ti?”

Mas é difícil fazer-se escutar. A excitação instalou-se no pátio, os clientes são homens na flor da idade, falam alto e pedem mais líquidos, mais pratos, mais queijos, mais, mais, e os nomes das três sócias há muito desapareceram da cena para só se escutar o seu nome – “ Olga, ó Olga! Mais pão, mais vinho, mais gelo! Aqui falta um copo, Olga! ” E um deles grita, na ponta da mesa – “Preciso de ir a Kiev! Mulheres destas já não existem na Europa do lado de cá ...”

Agora a ucraniana está à distância resguardada de três passadas, está a vigiar as bebidas da mesa, e continua a rir. Entretanto virou o cabelo todo para um lado, virou-o só com uma das mãos, e uma pulseira de pérolas pintadas ficou exposta em frente da testa, a coroar-lhe a face. Também cruzou as pernas à altura dos joelhos como as crianças fazem, e também encostou o rosto sobre um dos ombros, tal como elas, e ficou à espera. Não esperou muito. Um dos homens mais barulhentos do grupo grita na sua direcção – “Olga, você tem de repetir aquilo da semana passada. Você tem de explicar outra vez como se faz aquele cozinhado. Explique lá para a gente...”

“Ai minha mãe! Outra vez?” - Reage a rapariga, zangada. “Olha, vai pedir à cozinheira que está lá dentro a cozinhar, ela é que sabe...”

Mas uma das três sócias, dentro e fora, quer ordem na casa- “Explica tu. A cozinheira não tem vagar de vir cá fora explicar...”

“Ai minha mãe!” – diz Olga de novo, afastando-se da mesa e elevando os olhos para além dos homens, sem os enxergar. Renitente - “Porque queres tu que eu explique uma coisa que é para comer? Para quê?”

“Explica!”

A rapariga uniu as mãos como se fosse recitar.

“Então é assim...”

E entre desolada e divertida, começou a explicar o cozido, os olhos azuis para além do telhado. Começou por dizer, entre avanços e recuos, que para aquela comida não era preciso caçar o coelho, que já vinha do talho todo esfolado, sendo só preciso parti-lo em pedacinhos para dentro dum alguidar... Alguidar, diria bem? Diria. Tudo o que ela estava a dizer dizia-o muito bem. Gritaram vários. Aí a rapariga ganhou um novo impulso. Contou – “Lá dentro, muitos coelhos, todos esfolados, partidos aos bocados...” Meio a rir, meio concentrada - “Depois, tu pegas nos sete temperos... Pões a cebola, os alhos, o vinho, o sal, a salsa, a pimenta, o cravinho e o louro. Depois tu deixas o coelho ficar a dormir com os temperos durante muito tempo. Depois tu escorres, tu fritas os pedaços do coelho molhados em farinha, tu pões tomate, e por cima ainda o molho que ficou do dormido... Aí tu pões tudo a cozer durante duas horas, tu pões as batatas lá dentro, tu esperas, tu serves com pão frito aos quadrados, tu emborcas tudo para dentro das caçarolas de barro, a cozinheira vai-se lavar, e a gente traz para tu comeres e beberes com o vinho...”

Olga está feliz consigo mesma, foi capaz, terminou.

Mas os homens pedem mais - “Outra vez, outra vez...”

“Para quê, outra vez?”

Outra vez, porque está provado que ela conhece os nomes de todos os condimentos, lembra-se de todos os detalhes, mas ainda hesita, ainda revira os olhos para se lembrar, e dessa hesitação e embaraço, destila-se uma bebida que não tem nome mas que embriaga os clientes, que querem mais narrativas daquelas, mais e mais. Por eles, os homens sentados à mesa, provenientes de escritórios sombrios e horificados, deveres imateriais que se processam longe das ervas e das árvores entre as quais caçaram os seus antigos pais, ficariam ali a escutar a ucraniana a procurar as palavras certas, até ao fim dos dias. Aliás, ela vira-se, o cabelo loiro ainda tombado todo para um lado, todo sobre um ombro, como se tivesse acabado de o lavar e o penteasse com os dedos, ela vira-se para anunciar – “Olha, já lá vem ele! Já podes comer o teu coelho à caçador...” E ela mesma, afastando os homens com o olhar azul e o braço, ajuda a centrar as caçarolas, elogia o cheiro que provém de dentro das quatro vasilhas de barro, onde navegam em molho e batatas, doze coelhos bravos refogados aos bocados. Um dos clientes não resiste ao cheiro do ensopado.

“Diga lá, Olga. Há destes cozinhados em Kiev? Não há, pois não?”

A rapariga revira os olhos claros, como se ofendida - “Ai minha mãe! O que julgas tu que não há em Kiev? Em Kiev há tudo como cá. Até há mais, porque há neve ...”

Mas nesse instante preciso, Olga suspende a conversa. Aproxima-se do topo da mesa e aí fica, com as mãos na cintura, o nariz no ar, até que diz muito alto, cheia de espanto.

“Olhem quem ali está... Aquele maluco, em cima do telhado!”

“Quem? Quem?”

Todas as cabeças se viram.

“Aquele maluco.”

É um facto, sobre o telhado da Taverna das Donas , encontra-se um homem empoleirado a olhar para o interior do pátio. Não, não está apenas a espreitar por um canto do telhado do restaurante, o homem está mesmo instalado ao centro do vão das telhas cujo beiral se eleva diante da mesa em T, está ali a uns escassos metros de distância da mesa, comodamente sentado, e ninguém o viu subir nem caminhar sobre a cobertura, nem tomar aquele lugar. Ali está, numa roupa azul, a cara vermelha, magra, ossuda, imóvel, a olhar. Olga diante da mesa também imóvel. Abandonou o bloco e a esferográfica, as duas mãos postas na cintura de vespa, com indignação.

“Maluco, grande maluco, o que se passa na tua cabeça? Desce já daí para baixo!”

Surpreendida, humilhada – “Como foste tu aí parar? És agora um pássaro, Vassili?”

A mesa inteira está suspensa da súbita cena.

Num ápice já todos compreendem, ele é o marido dela. Mas devem os clientes manter-se sentados, quietos, para ver o que sucede, ou devem levantar-se e reagir de imediato? Que abuso é aquele de se fazer convidado entrando pelo telhado? E com que intenção, e para quê? Claro que uma vintena de homens não pode reagir de forma homogénea, há mesmo aqueles que são da opinião de que se deve intimar o intruso a descer dali, imediatamente, nem que seja à paulada. Outros há ainda que permanecem sentados, a rir, surpreendidos pela ousadia do tipo, pelo seu desplante, pela sua falta de vergonha, e acham que o jantar deve continuar até o tipo desistir. Da forma como se encontra empoleirado, não corre o risco de rebolar e cair no prato – “Por onde o gajo subiu que desça, e lhe faça bom proveito...” Mas a verdade é que ninguém consegue desviar a vista da pessoa que ali está parada diante de todos. As mulheres também se encontram no pátio, a olhar para aquela figura que parece ter descido da aragem da tarde para se enroscar nas telhas. Até a cozinheira se encontra no pátio a admirar o estranho acontecimento. Alguém sugere que Olga faça alguma coisa, afinal ela é quem o conhece bem, afinal ele só pode ter vindo encarrapitar-se ali por qualquer assunto relacionado com ela.

Olga compreende e avança na direcção do telhado.

“Vassili, grande estúpido! Desce daí, Vassili!” – E encoraja-se mais, com o ruído de fundo – “Olha, se queres saber, por mim, estares aí é o mesmo que não estares. Já não gosto de ti. Eras o meu marido, já não és. Estás livre. Agora, o que queres tu de mim ? Não vês que estás a estragar a comida de todo este pessoal?”

Mas o ucraniano continua onde está, escarranchado nas telhas, de joelhos afastados, as longas mãos pendentes sobre eles, e só agora se repara que o homem alberga no colo um volume invulgar. Olga sabe, é o anorak de Inverno que o estúpido trouxe para cima daquele telhado. E porque transporta ele um agasalho de Inverno, numa noite de Verão? Porquê? Todos acham que Olga deve perguntar a razão, talvez assim se entenda alguma coisa daquele momento tão único. Então a rapariga, ao mesmo tempo intimidada e compelida pela compreensão de todos, avança na direcção do beiral, de forma a ficar o mais próximo possível do trepador.

“Diz-me, Vassili. Porque trouxeste contigo o teu anorak?”

Olga vai mais longe – “O que tens dentro do teu anorak, Vassili?”

E uma outra ideia, tangencial, passa–lhe pela cabeça - “Ah! Já sei, aposto que tens aí escondida uma garrafa de uísque. Aposto que já estás com os copos, e foi por isso que subiste aí para cima... Foi ou não foi, Vassili?”.

Mas o ex-marido, em vez de responder, põe-se a desembrulhar o anorak, e alguma coisa muito diferente dum gargalo de garrafa começa a surgir no seu colo, até que não é propriamente um gargalo de vidro o tubo que sobressai no meio do agasalho. Também é liso mas de uma outra textura, também luz mas com uma outra intensidade. Tem uma outra dimensão, uma outra forma, muito diferente da forma duma garrafa. Não é preciso falar, cada um dos presentes transformou-se num alvo.

“Vassili?” – diz ela, sentindo que de súbito, atrás de si, uns fogem, outros se deitam no chão. Alguém telefona. Ouve-se a mesa andar.

A rapariga, cada vez mais indignada.

“Vassili! O que é isso que tens aí contigo?”

E recua exactamente até ao meio do pátio.

Vendo bem, está no sítio exacto, pois também se encontra a meio do percurso entre a mesa em T e aquela coisa encoberta pelo anorak. Tem as mãos unidas sobre a blusa de brilhos, o cinto a rebentar nas ilhós, as pernas nuas, a saia do tamanho dum palmo, as pulseiras de pérolas pintadas, os cabelos espalhados pelos ombros, a esferográfica e o bloco por terra, e é agora que todas as coisas podem acontecer, até porque à sua volta não está ninguém. Não se ouve um som, discreto que seja. Nada de nada. Espera-se apenas por um ruído que trespasse a noite, um estampido que separe a luminosidade da noite em duas metades, para se poder dizer aqui alguma coisa ultrapassou o seu limite. Mas não vai ser assim. A rapariga atravessou várias fronteiras, a rapariga sabe o que muitos não sabem. Ela sabe, por exemplo, que só há destino quando parte da ordem imutável se pode subverter, e o resto é caça. Então o que pode ela mudar naquele momento? Como pode intervir? Como pode fazer deslocar o centro do alvo para outro lugar? - Em cima do telhado, o homem mantém a coisa perigosa meio à mostra, meio encoberta. Talvez essa inexactidão tenha feito decidir a rapariga estrangeira. Pois verdadeiramente, em duas fracções de segundo, nada mudou, mas ela diz.

“Oh! Vassili! Porque tens essa porcaria aí, dentro do teu anorak?”

O cano da porcaria apontado na sua direcção, o meio do pátio.

“Vassili?”

O cano apontado.

“Grande maluco! Se em vez dessa porcaria tivesses trazido o teu Scripka, tudo seria diferente. Agora, tu estavas aí, pegavas no teu velho Scripka e punhas-te a tocar, e eu fazia assim, como lá em Kiev. Assim e assim...” E a rapariga rodopiou no meio do pátio, fazendo a cabeça oscilar de lado a lado. O cano em frente. “Vassili?” – disse ela quando se virou, com os braços no ar. O cano em frente. O olho dele, fechado, em frente. Ela então fala em ucraniano. Rodopia de novo. O trepador continua sem se mexer, agarrado ao casacão branco, de onde desembrulhou a coisa incómoda que aponta. Ele baixa o cano da coisa incómoda, ela continua a abanar-se e a dizer-lhe frases curtas, que terminam invariavelmente em Scripka.

“Scripka?”

“Sim, grande maluco...” – diz ela, em português. “Mas agora tens de descer, já não posso esperar mais. Desce daí, Vassili, o que eu prometi está prometido, vai, vai...”

No pátio da Taverna das Donas, está ela, a mesma rapariga, estão os mesmos olhos, a mesma penugem, os mesmos cabelos revoltos, a mesma cintura apertada, as mesmas pernas brancas, as mesmas ancas duras, cobertas por uma saia de palmo. A mesma mesa com os mesmos pratos, as quatro caçarolas com os mesmos animais guisados, as mesmas bebidas, algumas delas a meio, a maior parte delas intactas. A mesma parreira verde que na tarde albergou os ingleses. As mesmas empenas baixas, os mesmos quatro panos de telha a formar o quadrângulo. O mesmo pão partido aos bocados. Mas não será certamente por essa imobilização no tempo e no espaço, que ele embrulha a coisa perigosa definitivamente no agasalho almofadado. Seja por que razão for, como um enorme gatarrão, em suas sapatorras de ténis, o ex-marido gatinha por fim ao longo das telhas, em direcção ao algeroz por onde subiu, e depois em direcção ao chão por onde vai galgar a estrada. Leva consigo o objecto e o anorak. E ouve-se na sua pesada aproximação ao solo, o corpo a fazer – “Paf!” Claro que a rapariga ainda não sabe se vai cumprir o prometido, nem sabe tão pouco se ele deseja que ela vá cumpri-lo. O próprio desejo tem várias moradas, nem sempre contíguas. Tudo o que ela sabe é só o que lhe parece, e naquele instante parece-lhe apenas que o restaurante onde trabalha há um ano, em escassos minutos, ficou deserto.

Mas isso não a surpreende, nem faz de si um alvo fácil, que ela não deixa. Está habituada ao silêncio da neve. Na sua confusão entre vocativos, singulares e plurais, ela abandona a mesa sobre a qual se encontram pedaços de doze coelhos abatidos e cozinhados, alguns deles espalhados pelos pratos, para chamar de porta em porta, a desafiar os escondidos. Cómico que todos tenham desaparecido.

“Então onde tu estás, tu, e tu?” – pergunta ela, a rir. E noutra direcção - “Aparece, pá, que eu ainda estou viva!”

É assim mesmo que a vamos deixar, retomando o seu trabalho, entre a mesa e a cozinha, à espera que as três sócias e os clientes saiam do escuro onde se disfarçam. Pelos seus cálculos, ninguém terá tido tempo de tomar o carro nem de fugir para longe. Estão todos por ali, alapardados no escuro dos móveis e das portas. Sim, foi só um breve intervalo, nada se perdeu, nada se ganhou, será só uma questão de esperarmos que a vida se recomponha, como a espingarda se carrega e descarrega entre as mãos, como a caça no mato a cada estação se multiplica. Ela sabe que o intervalo que está a viver é insustentável. E nós também. Deixemo-la a rir, no meio do pátio, à espera que eles regressem, e cada um retome o seu sítio, entre uma faca e um garfo.

Como desde o início se previu.
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Original escrito em agosto de 2008

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Originais * Espelho da alma escondida

Oferta das mulheres
aos homens

Lídia Jorge *

“Também procuramos outros caminhos para a música” – Disse o maestro Cesário Costa, na tarde em que me convidou a desenhar um concerto em que as palavras ocupassem um lugar importante.

Estávamos diante da Ria de Faro, o sol batia de chapa e eu imaginava uma noite de música. Um outro caminho para a música em que ela entrasse sem cerimónia pela noite dentro como se fosse um serão para receber amigos e as vozes femininas fossem as estrelas. Daí a convocar uma sequência de árias e outros trechos líricos que a partir da grande música recobrem os sentimentos que nos dão vida, os que permanecem idênticos e os que a circunstância modela, foi um passo. Apostar na recuperação das palavras cantadas cujo sentido o uso e a popularização deixaram submerso e no entanto, quando retomadas, acrescentam à música as verdades mais profundas que a empurram, foi o ponto de partida. Criar uma sequência de música cantada, com a divulgação do texto impresso correspondente, tornou-se o objectivo e modelou o projecto. E Oferta das Mulheres aos Homens, o tema que surgira diante da Ria, a princípio como uma irreverência passageira, consolidou-se como um desafio.

A partir de então, estava delineado o caminho. Ao alinhamento dos poemas cantados, acrescentou-se os intermezzos sinfónicos que lhes servem de réplica. De Vivaldi a Bizet, e de Edvard Grieg a Puccini, foi possível reunir alguns dos momentos-luz mais intensos da música lírica ocidental, e ilustrar através deles a modulação que os sentimentos tomam em tempos históricos diferentes. Nesse sentido, imaginou-se que dois poemas de Maria Teresa Horta poderiam servir de suporte a uma composição inédita solicitada ao jovem compositor português, João Antunes. Nenhuma outra poeta portuguesa, entre nós, assumiu a expressão poética da sensualidade e da emancipação feminina, antecipando desde os anos setenta, a linguagem comum das mulheres dos nossos dias.

Na verdade, aquilo que os grandes poemas possibilitam - mesmo quando se trata de fragmentos de libretos, arrancados à totalidade das narrativas operáticas - é fazer-nos confrontar com o espelho da nossa alma escondida. Neste caso, o texto da ária usada por Vivaldi em vários contextos, Zeffiretti, che sussurrate, para além da ambiência arcádica própria do século XVIII, remete para uma relação intemporal entre Paixão e Natureza. A definição de amor como a outra prisão, em Alma opressa, filha da mesma ambiência setecentista, posta na boca de Licori, em “La Finda Ninfa”, assemelha-se a um recado escrito nos nossos dias. O mesmo se pode dizer da letra romântica que reveste a sequência mais popular de “Carmen”, a mais do que célebre habanera identificada pelo verso que a abre, L’amour est un oiseau rebelle. O seu enunciado contém um programa de indomabilidade e rebeldia que fazem desse momento de música cantada, um louvor à experiência do excessivo e do desafio aos limites da sedução em todos os tempos. Como é possível trauteá-la, durante a vida inteira, em divórcio com o sentido das palavras? E o mesmo em relação aos momentos líricos em que é cantada a fidelidade, a espera e a doação a troco de nada. A ária de "Micaëla”, bem como as árias da escrava Liù, em “Turandot”, tal como a Canção de Solveig em “Peer Gynt”, referem sentimentos que a modernidade não enuncia mas pratica, no esconderijo da individualidade pessoal. O mesmo se diga da cumplicidade entre Suzuki e Butterfly, traduzida pela fusão das palavras, de uma e de outra, durante o momento de espera pelo amante ausente. Palavras devotadas, próprias de um amor exacerbado, que a música resgata e sublima. Em sentido oposto, os dois poemas de Maria Teresa Horta, Segredo e Ponto de Honra, constituem o prolongamento daquilo que em “Turandot” são as palavras-chave da sua heroína livre e superada, “sfidasti, inflessibile e sicura” (desafiaste, inflexível e segura). Assim clama Turandot, a figura moderna de Puccini que os seus libretistas foram arrancar às antigas lendas persas, e aqui não fala, mas preside, como ideia, à criação contemporânea de João Antunes sobre as palavras de Teresa Horta. A ideia de que a oferta é inimiga da imolação.

Confio no talento das grandes intérpretes convocadas sobre o palco do Teatro das Figuras pela mão do Maestro Cesário Costa, para que este concerto, concebido como uma revisitação ao tema da letra do amor, se transforme num acto de graça. Estou certa de que a noite terá muito mais estrelas do que as visíveis e numeráveis. Não há dúvida que as palavras falam sempre duma contingência e duma circunstância, mas a música, a grande música, tende a retirar-nos da História e a levar-nos para um lugar fora do tempo, onde o Mundo, por instantes, parece ordenado.
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* Texto escrito para o folheto do concerto da Orquestra do Algarve
 "As Palavras Cantadas", 18 de janeiro de 2008

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Crónica * Se morreu, sou sua irmã duas vezes.

De noite



Lídia Jorge *

Eu saía dos Cinemas Residence, era de noite e atravessava o Parque de Estacionamento do Saldanha, quando dei por uma mulher cambaleante a ser levada por uma criança.

Aproximei-me.

A mulher era negra, a criança era branca.

Quando amparei a mulher, ela escorregou pelo meu corpo e caiu no chão. Debrucei-me, perguntei para onde iam. A miúda olhava aterrada, mas não dizia uma palavra. A mulher, deitada no chão, disse que procurava a Maternidade Alfredo da Costa. A criança branca mantinha a boca fechada. Procuravam uma maternidade, e no entanto, a mulher não parecia grávida.

Então olhei para os seus jeans, molhados até aos joelhos, e percebi o que se passava.

Estávamos as três sobre o passeio que ladeia a estação dos táxis ao Saldanha e vários taxistas olhavam para nós. A mulher no chão.

Eu pedi – “Um dos senhores, por favor…Levem-nos até à Maternidade. Eu sei que é logo ali, mas levem-nos…” Eram cinco os taxistas, nenhum se moveu. Todos se recusaram. Um deles irritou-se e gritou – “A lei proíbe transportar pessoas nesse estado, minha senhora…”

Os cinco taxistas só olhavam, um deles ria.

Agora a mulher tinha abandonado a mala, abandonado a mão da menina, tinha abandonado a minha mão, e ia gatinhando pelo asfalto.

Por perto, alguém começou a rir. Ela ia gatinhando entre os táxis. Desistiu de gatinhar.

Ela estava sem sentidos, do outro lado dos táxis.

Felizmente que a ambulância chegou passado pouco tempo.

Enquanto a ambulância não chegava, eu fiquei a saber que esta mulher tinha três crianças, estava sem emprego, e fora uma sua amiga, a mãe da miúda branca, quem a mandara acompanhar a mulher, que lá ia na ambulância. Soube pela menina de nove anos.

Não soube mais nada da vida desta menina, mais nada da vida desta mulher.

Se sobreviveu e vive com os seus três filhos, sou sua irmã.

Se morreu, sou sua irmã duas vezes.
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* crónica lida no Programa "Prós e Contras", 14 janeiro de 2008

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Prefácio * Eugénio de Andrade

Lettera amorosa

Lídia Jorge *

Neste momento preciso, eu deveria pensar naquele dia já distante em que recebi de um amigo uma pequena folha com um certo poema copiado à mão, e pela primeira vez tive conhecimento de que havia um poeta português chamado Eugénio de Andrade, autor do poema. Deveria lembrar-me desse e de muitos outros poemas que depois repeti em voz alta, enquanto conduzia pelas estradas planas de África, e as palavras sol, terra, luz, estrela, água, mãe, altura, pareciam ter saído duma geografia sem matéria para se dirigirem a um lugar preciso onde o coração perde o peso e a física. Deveria lembrar-me da forma como esses poemas resistiam à fragmentação e à análise, como se tivessem sacudido no decurso dos seus nascimentos toda a sílaba inquinada, todo o risco supérfluo. Como se tivessem saído dum lastro de palavras elementares, para revestirem uma realidade elementar, no interior da qual existia um grito solene reclamando a força absoluta do sentido. Deveria recordar quantas vezes, ao longo destes anos, não me encostei às capas brancas dos seus livros, à procura da conjunção das palavras mais sós e mais ardentes. Deveria pensar nesse tipo de ensino de ostinato rigore, em seu sentido amoroso mais amplo, nessa mestria doada à simplicidade como uma conquista da beleza sobre o desperdício. Neste momento, eu deveria encaminhar-me na direcção dos seus poemas mais límpidos, mais abertos à revelação do instante. Ou lembrar-me da tarde de Primavera em que subi os degraus da sua antiga casa, à Duque de Palmela, e da conversa que mantivemos sobre as coisas do Porto e do Mundo. E no entanto, em vez do que é devido, uma homenagem feita sobre o que repousa, e que ata o poeta ao que mais existe de si mesmo, aquilo que o ata aos livros, sendo ele mesmo os próprios livros, em vez de tudo isso, recordo Eugénio de Andrade naquele dia em que foi abordado por uma pessoa, a pessoa se curvou sobre o seu ombro e lhe disse que tinha feito uns versos. Em vez de me lembrar de poemas, lembro-me desse instante de perplexidade, com o próprio Eugénio de Andrade no seu centro, sentado numa sofá de Embaixada, em seu fato branco de linho, e de entre um grupo que o rodeava, uma pessoa a adiantar-se e a dizer-lhe – “Senhor Eugénio, eu fiz uns versos...” A pessoa era mulher, a pessoa abriu o seu saco de mulher, tomou papel e caneta e disse – “Eu fiz uns versos... Se me escrever aqui a sua morada, eu mando-lhos para me dizer o que pensa dos meus versos...” A pessoa já escrevia sobre um papel – “Para onde posso mandar, senhor Eugénio?”

Sim, eu poderia neste momento lembrar-me do poema - Trabalho com a frágil e amarga/ matéria do ar/ e sei uma canção para enganar a morte/ - assim errando vou a caminho do mar. Mais do que poderia, deveria, porque homenagear um poeta é falar da sua obra e não da sua vida, e no entanto eu penso nesse instante extraordinário de vida em que Eugénio de Andrade ficou perplexo porque estava em causa o ofício obstinado de ser poeta. A rapariga disse – Senhor Eugénio, eu fiz uns versos... Como se fazer uns versos fosse uma proeza que só por si justificasse que se dissesse em voz alta, se pedisse um endereço, se exigisse uma leitura e uma resposta, tudo isso dito no meio dos sofás duma Embaixada. Senhor Eugénio, eu fiz uns versos. E Eugénio de Andrade num primeiro instante não se moveu, não olhou a pessoa, e eu pensei – Não vai dizer nada, vai manter-se imóvel, vai deixar a pessoa com a caneta no ar, e todos nós vamos ficar imóveis, no centro desta cena de desentendimento, de encontro entre o supérfluo e o fundo, e todos vamos ficar tensos e amachucados, por muito tempo. Mas não, Eugénio de Andrade respondeu à pessoa – “Fez uns versos? Guarde-os para si. E se tiver vontade de fazer mais versos, não os faça, não perca tempo a fazer versos. E sobretudo não mos mande para casa. Eu não leio versos...” Sim, eu deveria lembrar neste momento os livros de capa branca de Eugénio de Andrade, a limpidez dos poemas de Eugénio, que não são versos, são o olhar da vida atravessado de palavras, e as palavras, ou os versos, se o quisermos dizer por deferência à forma, são o espelho e a fonte do ser, porque a vida seria muda, correndo tranquila entre as lápides e os sáurios, se não fosse o ser do ser, se não fossem as palavras que nos fazem gente, coisa pendente entre a matéria solar e a água. – Senhor Eugénio, eu fiz uns versos... Lembro-me de como depois Eugénio de Andrade se levantou, como sacudiu o cabelo, como se dirigiu à janela, de onde se via um jardim, como regressou de lá, ofendido e alterado. Não era uma questão de honra, era uma questão de poema. Era uma questão de poetas. Eugénio de Andrade não podia abdicar da decência da Poesia em nome da caridade pela figura daquele que faz uns versos, ornatos da vida diária. Versos, pedaços de renda tecida ao serão, fumos de cachimbo de roseira. Não me lembro de alguma vez uma cena de indignação me ter ensinado tanto sobre o ofício do poema. E lembro-o, neste momento, talvez com um excesso de matéria, um excesso de imagem, que mais não é do que a reclamação da vida, essa que passa passageira, em vez do poema que fica e se desprende da matreira contingência. Sim, eu deveria lembrar poemas, neste instante – De repente/ o silêncio sacudiu as crinas,/ correu para o mar./ Pensei... E assim por diante. Mas em vez do poema, obstinadamente, lembro esse instante em que ele mesmo, pessoa inteira, vestido de linho branco, sacudiu a cabeça, socorreu-se da vista para o jardim, como se fosse um mar, e regressou ao grupo para defender a dignidade duma vida que se dedicou ao poema sem pausa nem pressão. Por isso mesmo, neste instante, essa imagem é tão forte quanto a primeira, aquela outra, a da página manuscrita onde alguém, nas faldas da adolescência, copiou cuidadosamente Lettera Amorosa e ma enviou dentro dum livro, para que eu conhecesse um poeta português extraordinário, a quem escrevo neste momento a minha carta.
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* Texto para a 5.ª edição (2007) de "Os Sulcos da Sede"

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Depoimento * Sobre As Velas Ardem até ao Fim

Um livro da minha vida

Lídia Jorge *

As Velas Ardem até ao Fim é um dos livros de ficção mais belos que li na minha vida. Foi um poeta catalão quem me chamou a atenção para o seu autor, o húngaro Sándor Márai, aqui há uns anos. A edição espanhola que então me ofereceu e guardo com imenso carinho tem um título diferente – O Último Encontro. Trata-se também duma boa tradução, mas felizmente que o título em português é mais íntimo e revelador da profundidade e da magia poética da obra.

É difícil resumi-la. Trata-se da história da amizade entre dois jovens aristocratas no princípio do século XX, aproximados pela mulher de um deles, a bela Krisztina, e também por ela afastados, sem que nunca tenham conseguido esquecer nem o sentimento que os uniu nem os motivos dramáticos por que se separaram. O encontro de dois velhos amigos que não se falam há quarenta anos, serve para um ajuste de contas sobre esse episódio do seu passado, durante uma refeição especial. É esse prolongado jantar, uma espécie de longa cena de teatro que se desenrola durante uma noite, que permite escutar o fio narrador de uma voz, só de vez em quando interpolada, durante a qual as velas vão ardendo até ao fim.

Todo o livro, um pequeno livro de cento cinquenta páginas, está escrito com sobriedade e elegância, conhecimento de alma e juízo de valor implícito, conhecimento dos comportamentos humanos e malhas da sua dissidência, e a assumpção do pensamento revolto que sobrevive no domínio do poético. Quando pretendo ler em voz alta umas páginas que ilustrem como a narrativa feita com palavras continua a ser única na reprodução dos conflitos humanos, seus abismos e seus sonhos mais íntimos, escolho aquela passagem em que um dos personagens, Konrád, pretende matar o seu amigo numa madrugada, no meio da floresta. Como o poupa, por que o poupa, e tudo isso é contado, não pela voz do sujeito da tentação, mas pelo outro, Henrik, aquele que no último momento foi poupado. Esse, o velho general, passados quarenta anos, à luz das velas, pode reproduzir o bombear do coração do amigo como naquela hora trágica de revelação, durante a cena da caça. Inesquecível. Este livro e o seu autor têm histórias europeias bizarras que não cabe contar aqui. Mas servem um e outro para os leitores se reconciliarem com a ficção, quando por acaso se tenham desentendido com ela, enquanto proposta de Arte.
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* Publicado no semanário SOL, agosto de 2007

terça-feira, 31 de julho de 2007

Crónica * Esse sonho de língua que nos uniria a todos.

Telavive

Lídia Jorge *

Foto de Arile Schalit
É preciso tomar cuidado - Se em Israel dissermos que Lisboa é uma cidade branca, o nosso interlocutor poderá pensar que lhe estamos a roubar alguma coisa de precioso. Para os israelitas cidade branca é só uma e chama-se TELAVIVE. A mistura clara do sal, do sol e do solo formam essa impressão de brancura que lhes dá razão. As varandas de cimento que desenham o perfil da cidade, desenhada ao longo duma praia do Mediterrâneo, emprestam-lhe esse halo de claridade que lhe dá prioridade nas questões da brancura. Ainda não pusemos o pé em solo israelita, e já sabemos que a Cidade Branca, desde 2003 é considerada Património Mundial da Unesco. Ainda não mostrámos o passaporte e já sabemos que Telavive significa Colina da Primavera, com tudo o que o nome traz de brilhante. Aliás, o próprio aeroporto, uma construção acabada de estrear, lá tem a brancura nas paredes. A entrada nesse recinto de aviões é inconfundível – a pedra branca que a forra parece levar-nos para fora do tempo.

Mas o que mais atrai em Telavive são os recantos que marcam a geometria da sua história. Não a grande História, essa que tem um peso de letras e linhas tão forte que nelas confluem ao mesmo tempo as atribulações e os sonhos de todo o Século XX, antes a história das pessoas concretas e comuns que andam nas ruas, semelhantes a todas as pessoas do mundo. Mais que visitar o magnífico Teatro Habimah, auditórios, ministérios e galerias, do que eu mais gostei foi de calcorrear as ruas ladeadas pelas construções Bauhaus, o centro da alma de Telavive, e aí encontrar uma cidade que se sonhou ordenada, branca, de linhas simples, erguidas ao futuro dos anos 30 a 50 do século passado. Em nenhuma outra cidade se encontra um mostruário tão vasto e tão completo do sonho modernista de cidade. Um outro recanto que não esqueço é a própria Praça Dizengof onde se faz o mercado de Sexta Feira. Aí encontrei pessoas expondo preciosidades e ninharias como em todos os mercados de sextas-feiras. Aí comprei um alfinete de pequenas pérolas duma judia inglesa que se desfazia dos seus bens para recolher a um lar, e uma bolsa a um beduíno que os trazia duma montanha perto do Tiberíades. Aí os pratinhos com os peixes da multiplicação no Sermão da Montanha empilhavam-se para os crentes cristãos. Aí os saquinhos de folhas de rosa para o chá e essência para a salada, eram vendidos pelos árabes. O mercado do povo onde se entra vigiado e se sai vigiado, como vai ser o nosso futuro em toda a parte do Mundo, é um verdadeiro bazar, essa palavra que significa mistura. A nossa História futura cada vez mais como um grande bazar. E à noite, o peixe é maravilhoso, à mesa do Beny Hadayag, isto é, Beny, o pescador, ali no antigo porto, servido por gente que fala uma língua eslava de mistura com o hebraico. Mas mesmo assim, no que eu penso é no Mercado de Sexta-feira, ali onde se junta a vida dos homens, separados pelas História, unidos pelas histórias das suas vidas. E quando se deixa o grande e belo aeroporto de Telavive, tem-se saudade dum futuro branco para todos. Que os israelitas desculpem que o seu povo e as suas cidades nunca desencadeiem pensamentos apenas sobre o seu povo e as suas cidades, antes ofereçam a partir de si o início de pensamentos sobre todas as outras cidades do mundo. E acaso viajar não é isso? Reconhecer em todos os outros lugares a raiz do nosso próprio mundo? Por alguma coisa, perto da Praça Dizengof existe uma placa que evoca o nome de Zamenhof, o criador do esperanto, esse sonho de língua que nos uniria a todos.

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* in Público|Fugas, 31 de julho de 2007


quarta-feira, 18 de julho de 2007

Orignal * Ria Formosa

Calendário Marginal

Lídia Jorge

As férias são esse campo de alternância em que um pouco de ócio permite que o acaso visite a nossa vida, o mundo onírico se sobreponha ao real, e a distensão nos ofereça o encontro com a surpresa que está escondida sob a pele do Mundo. Uma vez entrei num hotel onde se lia – O tempo não precisa parar, aqui os relógios só batem horas, à meia noite em ponto… O Sul de Itália tem estas surpresas, mas até nem precisamos de ir tão longe para sabermos que tudo quanto se pede à pausa do tempo é que ele nos traga uma nova circulação ao sangue. Eu pelo menos consigo imaginar as férias em toda parte, nos sítios habituais e nos sítios longínquos, em solidão e na enxurrada de multidões, tanto quanto no meio de casas silenciosas onde se pode ouvir de madrugada o acordar de um pássaro. Tudo isso tem acontecido. Se a pausa é minha, se o meu ritmo de escuta próprio bate no meu corpo, e eu posso misturar os tempos e inverter os dias e as noites, conforme o que mais amo, então esse tempo são as minhas férias. Não tenho tido férias quando digo que estou em férias, e tenho férias verdadeiras enquanto trabalho, ao longo de todas as estações do ano. É desse calendário marginal que tenho feito surgir as personagens com as quais melhor me entretenho, e as quatro ou cinco páginas que eventualmente poderei deixar ao mundo.

Nessa marginalidade, as coisa passam-se assim – É uma tarde de calor de Agosto, as multidões deslocam-se pelas sombras deixando um rasto de objectos atrás de si. Os lugares de estacionamento estão preenchidos, os pássaros estão ausentes, e até a própria ponte de madeira que conduz ao outro lado da Ria , está repleta de gente que se encontra e desencontra sem cessar. E no entanto, de súbito, um homem vestido de branco sai da fila e encaminha-se para a relva. Não tem tacos, nem bolas, nem acompanhantes, ainda que pareça que deveria ter tudo isso. Decidido, encaminha-se para a relva , pára, olha em redor e sobre uma elevação, senta-se. As sombras das árvores atingem-no, mas não lhe alcançam o rosto, não lhe disfarçam as feições, ele está claro e visível à luz da tarde, a tarde de súbito silenciosa, sem berros, sem ruídos de automóveis, apenas o silêncio dum campo de golf onde um homem, não golfista, se senta para descansar. Só isso, e no entanto eu ouço o bater do taco na bola, o seu roçar pela relva, a entrada no buraco, as palmas das árvores ao longe. Como se entre o homem e a paisagem houvesse um Blow-Up agindo, um Antonioni escondido atrás dos arbustos, recebendo esses sinais. E eu imagino os sinais, aquela figura de um homem já idoso, desajustado na paisagem, regressado sem se saber de onde, estranhamento imóvel, estranhamente sentado onde não deveria estar, e a pouco e pouco, começo a vesti-lo com a matéria que trago comigo. Estendo-lhe a Verónica com a qual tapei o meu pão. O homem tem o rosto redondo, o talhe mediano, regressou aos campos de antigamente, vem disfarçado de turista, um turista que praticasse o golf que não pratica, um antigo emigrante que regressa no meio de Agosto, e visita, disfarçado, os primitivos lugares que ainda reconhece. Tenho a certeza. Do outro lado da multidão, lá está ele. A surpresa é tão grande que não consigo falar. Como não? - Há um ano que ando a escrever sobre ele, sem o saber. Aquele homem chama-se Walter Dias, e nas minhas páginas nunca regressará à pátria. Mas ali, no plano da realidade, o homem voltou, está na minha frente, sentado. Se for verdade o que penso, o homem retirará o boné, limpará a testa, irá levantar-se, cruzará o campo de golf como se atravessasse um granzoal, e desaparecerá no fundo azul da paisagem. E assim mesmo acontece, tal e qual. O que faz aquele homem, eu antecipo. Sou sua dona e seu escriba. Quando ele partir, vou poder sentar-me no mesmo local, pedir que me tirem uma fotografia, e escrever aquilo que atesta o que conto – Ria Formosa, 28 de Agosto de 1996. Essa história iria chamar-se O Vale da Paixão, fruto de vários encontros da noite. Assim acontece. Não me peçam, pois, que saia das minhas férias. Quero ficar dentro delas até ao fim da vida. Se me atrasar demasiado com os livros, é porque alguém me mandou regressar ao outro horário da existência, mais cedo do que devia.
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* Publicado no Jornal de Letras, 18 de agosto de 2007

terça-feira, 3 de julho de 2007

Depoimento * Ortografia, caligrafia...

Ortografia,
a nossa impressão digital


Lídia Jorge *

Em torno da questão dos erros ortográficos, criaram-se várias lendas perniciosas. Uma delas é a que estabelece a confusão de que a eficácia de um texto resulta basicamente da sua correcção ortográfica. Não é verdade. Todos sabemos que a ortografia é apenas um dos aspectos da construção de um texto. As pedagogias modernas, que têm de admitir que se está perante uma mudança do registo escrito, por influência do impacto da comunicação audiovisual, e do auxílio dos correctores automáticos a que as próprias crianças têm acesso, procuram adaptar-se a quadros futuros que não são muito conhecidos, e reagem ainda um pouco às cegas. Ou pelo menos por tentativas. Creio que a crescente tendência para se compreender que o erro ortográfico só por si não determina a qualidade da expressão tem vindo a acentuar-se, tendo por base algumas boas razões. Aliás, desde sempre que se sabe que muitos alunos com boa capacidade de expressão e criatividade, por vezes cometem erros ortográficos. A questão está no grau do erro. Se uma criança aos doze anos continua a escrever lilás com z, assessor com c, azarado com s, não parece grave, podendo-se confiar que o auxílio do corrector irá ajudar a fixar a forma certa. Já a permanente confusão entre andasse e anda-se, ou a supressão do h em determinadas formas do verbo haver, atinge confusões que são basilares do ponto de vista da estrutura semântica da língua e é objecto de preocupação de qualquer professor de português. Estamos perante um campo em que só tem grandes certezas quem nunca lidou ao vivo com as dúvidas.

No entanto, em nenhuma situação, muito menos na situação actual, me parece que seja bom facilitar o laxismo ortográfico. O saber ortográfico é um saber relevante. Quanto mais as crianças interiorizarem as regras da escrita correcta, mais independentes ficarão do auxílio do aparelho de correcção, e essa autonomia é altamente construtora. O desembaraço mental em face das distinções ortográficas funciona para a Língua Materna como a Tabuada funciona no domínio do cálculo matemático – favorece a rapidez, automatiza nexos, poupa e prepara para avançar nos raciocínios e associações. Todos os professores o sabem. A ortografia não é uma pele superficial da expressão verbal, é uma estrutura profunda que se revela na imagem grafada. Por isso mesmo, interpreto a divisão ocorrida em recentes provas de exame, entre questões destinadas a serem avaliadas do ponto de vista ortográfico, e outras, as destinadas a avaliar a capacidade de interpretação, apenas como uma questão metodológica formal. Depreende-se que sejam campos diferentes para avaliação, e não áreas diferenciadas de valorização da Língua. Imaginar que se incite com isso as crianças a escreverem mal em determinadas frases, e noutras não, seria imaginar uma divisão esquizofrénica incompatível com qualquer tipo de aprendizagem séria. Não pode ser isso que está na mente de quem constrói as provas. Não acredito. Há que imaginar que os professores desejam que os alunos portugueses sejam rápidos, vivos, falem e escrevam correctamente, tornando-se aptos para recriar a Língua, adaptá-la, acrescentá-la, e não vocacionados a malbaratá-la e a degradá-la, propriamente. Não se pode ser um ignorante ortográfico. E em toda a altura do percurso escolar - eu diria que durante toda a vida - a aprendizagem ortográfica faz parte da formação individual e permanente da pessoa cultivada.

Aliás, sempre me admirei da sensação de impotência manifestada por alguns colegas professores perante os erros ortográficos dos alunos, que chegados de outros níveis de ensino, se lamentavam do seu estado de imbecilidade ortográfica, como um destino imutável. Sentimento particularmente agudo nos professores das outras áreas disciplinares. Pois talvez a arte de um professor de português, nesse campo, possa passar por fazer divulgar que errar ortograficamente acontece a todos, incluindo os profissionais da escrita, e os próprios escritores. Que o digam os revisores de livros e os copy-desks dos jornais. Ninguém domina todo o leque ortográfico duma Língua, mesmo sendo a sua Língua Materna. Esse ponto de partida nada tem de humildade, só tem de realismo. O estabelecimento de exercícios de correcção por tipologias de erros pode ser adaptado a todos os níveis de ensino. Ficaria bem que todos os professores se empenhassem em corrigir os erros ortográficos, sobretudo os aduzidos pelas suas matérias específicas. Explicar o que significam etimologicamente consideração, bissectriz, ou protozoário, não será da responsabilidade do professor que usa as palavras para se fazer entender?

Nunca fui professora de crianças pequenas. Desconheço sem dúvida muitos dos segredos que fazem um bom professor de Língua Materna nos primeiros anos. Não tenho dúvida, porém, que é por aí que a maior fatia da aquisição é feita em muitos aspectos, e também no ortográfico, que em parte é caligráfico. Essa ideia de escrita bonita que se perdeu por completo - e não se deve retomar, evidentemente - encerra contudo a ideia de que unidas, ortografia e caligrafia, podem fazer da criança, e do adolescente, pessoas que aprendem a usar a sua expressão com dignidade. Nós somos a nossa escrita. A grafologia é um saber romântico de interpretação da pessoa a partir da sua marca sobre o papel. Os computadores afastam a nossa assinatura sobre o papel. Distanciam-nos dele. Mas o homem afirmativo não é aquele que luta pela individualidade da sua própria impressão digital? - Eu não descuraria, na escola, a arte de escrever sem erros, a arte de desenhar as letras com legibilidade, a arte de nos inscrevermos com assinatura própria no papel, pelo menos enquanto não for inventado um outro suporte, menos evanascente que um écran. Eu continuaria a ser prudente, não correria atrás da tendência, procuraria controlar a tendência. Preparar-me-ia até para a sua aceleração, que no seu reverso, costuma acarretar uma boa dose de vingança. Procuraria evitar a todo o custo que a única assinatura de um jovem, num futuro próximo, fosse apenas um grafitti na parede.

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* in Público, 3 de junho de 2007

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Depoimento * A Sophia

Das nossas vidas
Lídia Jorge *

Estou contente – Pouco a pouco, a Sophia vai perdendo os longos apelidos e vai ficando reduzida à imensidão do seu primeiro nome. É vergonhoso elogiar demais, as apoteoses arrastam consigo alguma coisa de faustoso impróprio da admiração. Mas como dizer sem dizer? Ultimamente várias são as mulheres que têm dito - Ela foi a mulher da minha vida. Não sei em que lugar me encontro, nem que lugar ocupei na reciprocidade do seu afecto, mas junto-me a todas as que assim pensam para dizer que Sophia também foi a mulher da minha vida. E tudo isso, só porque os seus livros finos ocupam meia estante?

Sim, porque os seus livros finos ocupam meia estante e lá dentro se encontra uma matéria encantada pelo deslumbramento em face do concreto da existência, com as palavras exactas, as imagens claras, as narrativas límpidas. Como se tivesse atravessado um século que dependurou a beleza da escrita na agrura da existência e ela, tendo dado por todas as tragédias, se tivesse recusado a fazer da escuridão o seu ingrediente. Mesmo nos poemas sobre o mais soturno e inferior, ela encontrou uma forma límpida para criar a repugnância. Abre-se o Livro Sexto e lê-se - O velho abutre é sábio e alisa as suas penas/ A podridão lhe agrada e seus discursos/ Têm o dom de tornar as almas mais pequenas. Mesmo aí, mesmo do interior desse tempo obscuro e dos seus heróis de terror, a sua escrita parte ao meio a realidade, separa-a nas duas metades e envia o desperdício para o monturo, como uma rainha que ensinasse a subtileza a todo um povo. Por isso mesmo os seus livros finos, que só enchem meia estante, são para muitos de nós mais do que a obra dum poeta, são uma cartilha para ler ao espelho e fazer nossa.

Mas ainda assim, apesar de tudo, Sophia poderia não ter sido a mulher das nossas vidas. Por que razão é? – Porque a própria vida, ela a viveu assim. Quem alguma vez se tenha sentado ao seu lado, conheceu sem dúvida uma mulher tão inteira quanto a escrita. Como pessoa, guarda-se dela a imagem duma compaixão altiva pelos outros, uma integridade perfeita, uma interpretação da mudança do Mundo pelo lado do respeito pelos seres humanos, como se a Humanidade fosse coisa de um deus. O seu Deus. Graça Morais representou essa impressão de grandeza num quadro admirável, a que chamou Sophia e o Anjo. Nele, a Sophia olha para cima e o seu busto está inteiro, o cabelo cai-lhe pelas costas. Mas o corpo é dum Minotauro sem as patas. Fico feliz com essa imagem. Quem não se lembra da voz da Sophia, presa à terra, sem rumor daquilo que a ligava ao chão? É bom dizer, porque não se pode repetir com frequência - Em Sophia, não havia coexistência entre o poeta e o estupor. Nela, tudo era poeta sobre poeta. E é esse sentido da realidade natural e limpa, onde as coisas brilham no horizonte de forma inaugural, que faz dela a mulher das nossas vidas.

Um nome só para Sophia? - Sim, para se parecer como ela própria, em livro e em vida.
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* Texto publicado na colectânea de depoimentos "A Sophia" (Ed. Caminho, 2007)

quinta-feira, 1 de março de 2007

Depoimento * Move a história do desencontro

Aposta em Patrícia Reis

Lídia Jorge *

“Morder-te o Coração” não é uma proposta canibal. Pelo contrário, é um “Menina e Moça” moderno, um choro sobre o sair e o não sair de casa para longes terras, desdobrado em duas vozes que só se encontram definitivamente nas páginas iniciais deste livro. O resto é busca e aposição, memórias cruzadas no desencontro dos tempos, justapostas pela força dos discursos em primeira pessoa, num esboço de teatro falado, e o resultado é bom. Ou por outras palavras, por mim, este é o primeiro livro de Patrícia Reis que faz pensar que a escrita de vez em quando resvala dos lugares comuns para o lugar das boas surpresas, e por essa singularidade se deve apostar nesta escritora enquanto autora de ficção.

Porque não é fácil escrever ficção, ao contrário do que se faz constar. Não basta ter uma história. Uma história, por mais imprescindível que seja, nunca chega. Uma história, enquanto tal, nunca passa duma narrativa sem verdadeiro objecto, se o ponto de vista não permite uma proposta de mudança em face da realidade, ou pelo menos não avança dados para uma interpretação que a mova do seu lugar fixo do acontecido, para o lugar onírico do desejado. Ora o que Patrícia Reis faz neste seu livro é isso mesmo, propor um ponto de vista que move a história do desencontro entre duas figuras romanescas na direcção da sua vitimização pelo efeito das histórias familiares e da História colectiva. Ou a imposição dum destino. É verdade que ao longo da balada de despedidas de que é feita esta narrativa, nem sempre as duas vozes são autónomas, é verdade que por vezes Patrícia Reis ainda não cria duas personalidades em corpo inteiro, e até nem parece preocupar-se em mudar o sexo da voz, como se esse artifício não lhe fosse imprescindível. Aliás, sobre esse aspecto, a história da reclusa que escrevia cartas com a mão direita a um homem que não conhece, e com a esquerda escreve respostas a si mesma, com uma letra diferente, constitui uma metáfora da própria dualidade simulada no próprio livro. Eu diria que as diferentes letras de imprensa deste livro não são duas letras caligráficas. São só uma. Mas não interessa. O que importa é que essa dualidade incompleta gera uma narrativa airosa, um voo semântico semelhante ao da associação ligeira das nossas cabeças dispersivas, e o resultado é de uma escrita desprendida e ágil ao serviço dum desencontro tácito.

Aliás, a escrita é precisamente o maior mérito deste livro breve, espécie de cruzamento de pensamentos íntimos, desarrumados no tempo, mas não no sentimento, dispostos de modo a falar de vidas desarrumadas na Geografia da Terra e nos acontecimentos da História. Uma espécie de inventário de acasos que fazem a sede deste amor absoluto, para que tendem as personagens Xavier e Maria, transformá-los não apenas em figuras de amor, mas também em agentes da Crónica do Mundo. A dado passo pode ler-se neste livro – “A par dos pedaços de vidas que fui recolhendo, comecei a coleccionar, com entusiasmo, números imperceptíveis: o terramoto de 26 de Dezembro de 2004 modificou o Pólo Norte em 2,5 centímetros. A Terra ficou, por isso, mais redonda, menos achatada nos pólos. Sofreu uma alteração de uma parte em 10 milhões, um pequeno amuo da natureza que não é possível de ver. E, como se tudo permanecesse igual, os dias andam mais depressa. O tsumani, a onda do porto, diminuiu o comprimento dos dias em 2,68 microssegundos. Para que queria eu saber estes detalhes? Porque me dariam satisfação? Para que fosse possível compreender a morte de mais de 250 mil pessoas? Também a Terra tem os seus gestos políticos”.

Precisamente, esta é a afirmação que me interessa – “Também a Terra tem os seus gestos políticos”. Prescindo da ingenuidade. - As apostas que fazemos uns nos outros nunca escapam ao efeito da contiguidade e da semelhança. Aposto em Patrícia Reis na esperança de que ela saia dos discursos interiores esperáveis, para os inesperados, aqueles que são contaminados pelo decurso da vida onde o outro, a realidade e o seu insondável mistério batam horas, ao mesmo tempo, no grande escuro do Espaço e no interior dum pequeno coração. Tenho a certeza de que “Morder-te o Coração” caminha a grandes passadas para lá. Esse local onde eu mesma quereria estar.
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* publicado na revista "Os Meus Livros", março de 2007

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Crónica * Agustina Bessa-Luís

Como ninguém

Lídia Jorge *

Neste momento ainda estamos frente a frente e este é um comboio para Hamburgo. A carruagem está repleta de passageiros de olhos descidos. Agora atravessamos uma planície pelada, agora a planície enche-se de árvores, agora as catenárias desenham aranhas no céu, agora as estradas e as casas desenhadas à beira dos rios vêm ao nosso encontro e desaparecem para além da vista. Agustina vai sentada no sentido do correr da paisagem, e diz-me – “Lá está um homem português”.

Levanto-me e não vejo o que anuncia. Na direcção do seu olhar só encontro pessoas de aspecto germânico. Nem um único bigode escuro, um único olho preto, ninguém com o porte sumido próprio dum rosto luso. Agustina está confundida. E de novo a planície pelada, de novo um renque de casas fantásticas, como se fossem desenhos planos rodando sobre a paisagem. De novo, a fila dos olhos tombados. Mas Agustina não desiste. Insiste – “Vê-se que é português pelo mover dos lábios…”

Reparo com mais atenção e de facto alguém está a sorrir na direcção de Agustina, e não é um homem escuro, nem de olhar melancólico. Curiosamente é uma pessoa de compleição germânica, que já se levanta, já se aproxima, curva-se na direcção do nosso assento e começa a falar português. Afinal, Agustina acertou no vaticínio, está encantada. Deve ser um professor, provavelmente um professor de literatura brasileira, já que o acento denuncia aqui e ali uma passagem pelo Rio, talvez por são Paulo. Eu mesma gostaria de saber alguma coisa sobre a história do seu idioma correcto, mas entretanto, a conversa do homem, em pé, postado no corredor, já se dirigiu para outro lado. O homem reverencia Agustina, fala calmo e claro, como se desenhasse palavras no ar, ali dentro da carruagem. Encantada, Agustina escuta – “Claro que a reconheci de imediato, como não? E já agora gostava de obter uma informação. Dá-me licença?”

Agustina dava licença. O passageiro prosseguia, todo inclinado para o banco – “É verdade que chegou a encontrar-se com a Anna Hakhmátova? E confirma que ela lhe perguntou com quem a sua escrita se parecia? E que a Agustina Bessa-Luís, respondeu que se parecia com Dostoievski? E que a vaidosa ficou desiludida? Claro que a Hakhmátova não percebeu que era apenas uma gentileza sua para com a cultura eslava, não percebeu…”

O homem estava curvado sobre o banco onde Agustina permanecia sentada, risonha, divertida com a situação, a responder baixo com acenos de cabeça, a completar com pormenores um relato que afinal tinha andado de mão em mão até chegar àquele homem que a visitava naquela situação extraordinária. Cada vez mais solícito, o homem – “Pois foi pena que tivesse respondido assim, muita pena. Porque a senhora, literariamente falando, não tem ascendentes legítimos. A senhora bebeu do Goethe, bebeu do Kafka, bebeu do Musil, e é diferente de todos eles. Porquê o Dostoievski, porquê? Possuo todos os seus livros alinhados na estante. A senhora não precisa de parentes nem de formatos, a senhora escreve como ninguém… ”

E o homem germânico, de fala portuguesa de acento lusitano, com toques brasileiros, arredou-se para que o carrinho dos mantimentos passasse. O carrinho passava com os seus empurradores, e Agustina continuava a escutar, divertida. O homem germânico disse – “O seu talento é feito de versatilidade, velocidade, multiplicidade, invenção, opulência, toda uma orgia genesíaca que varre os seus milhares de páginas com um sopro entre o hiper-lúcido e o ébrio, e envolve de genialidade todos os géneros a que se dedica…” Mas chegando aí, Agustina começou a sorrir de outra forma. “Pois está muito bem, disse ela…” Agora o homem fazia o elogio sentado, mesmo em frente, porque alguém se tinha levantado do lugar. Tinha pedido licença e falava manso, com conhecimento de causa, recuando até a A Sibila e saltando para O Bicho da Terra, e logo indo até a O Mosteiro, e Fanny Owen, e Vale Abraão, e por aí adiante. E Agustina, a pouco e pouco começou a ficar desatenta, a olhar em volta, até que disse – “Sabe o senhor? Deixámos passar o carrinho e estamos as duas cheias de fome…”

O homem germânico levantou-se dum salto, olhou para o relógio, penalizou-se por ter interrompido o nosso sossego, ter deixado passar o carrinho. Agora, ter-se-ia de ir ao bar, mas ele não queria que Agustina Bessa-Luís se dirigisse ao bar. Aquele comboio era um transporte seguro, e no entanto, sempre fazia safanões, e depois ter-se-ia de comer em pé, com a carruagem do bar completamente atafulhada de gente àquela hora da tarde. Mas ele, penalizado, deferente, ia já resolver a situação num abrir e fechar de olhos. Ele mesmo iria ao bar comprar umas bebidas e umas sanduíches. - O que desejávamos? Com picos ou sem eles? Com pão preto ou pão branco? Salame ou queijo de barra? Salada verde ou vermelha? E copo ou palhinha? Com palhinha, claro. E nada de dinheiro, ele tinha todo o gosto em oferecer aquele lanche a Agustina Bessa-Luís e à sua acompanhante. - E agitado, cumpridor, sorridente, dirigiu-se ao seu próprio lugar, remexeu nos seus sacos, nos seus casacos, e desapareceu na direcção da carruagem-bar. Por sua vez, nós arrumámos os jornais, e preparámo-nos para lanchar. Mas Agustina disse – “Este tipo não está a dizer a verdade. Acho que é um português que se naturalizou alemão. Não estou a ver um alemão desenvolver este arrazoado desmedido. Um alemão não cumprimenta de longe, daquela maneira. Não mostra a emoção, é um disciplinado…”

Entretanto olhávamos para a carruagem e víamos os cabelos loiros, os cabelos palha, os olhos fechados dos passageiros. Quando o homem voltasse com o nosso lanche, iríamos querer saber onde vivia, o que fazia, porque estava ali. As duas, unidas na suspeita, pretendíamos despir aquele homem do seu anonimato. Afinal, era injusto, dizia a Agustina – Os leitores sabem tudo sobre nós, nós não sabemos nada sobre os leitores. Naquele caso, iríamos equilibrar a situação, assim que o homem aparecesse na porta ao fundo. Entretanto, lá fora corriam árvores, rios, castelos, outeiros, casinhas enfileiradas como nos livros das fadas, catenárias desenhando rendas de aço pelos ares, e o homem não vinha. Passaram vinte, trinta minutos, três quartos de hora e não vinha, o homem. O que teria acontecido? Sobre o seu assento, a gabardina dobrada. “Vá lá ver se o homem está no bar. Talvez tenha encontrado o Kandaré ou o Kundera e esteja entretido a fazer-lhes o panegírico. À cautela, traga as sanduíches…” – disse a Agustina.

Fui. No bar, o homem não estava, nas carruagens intermédias também não estava. A gabardina continuava ali, dobrada sobre o assento. O comboio não tinha parado. Entretanto a tarde avançava para a noite, as árvores desapareciam, as casas tornavam-se vultos, o campo sumia-se, as estradas eram filas de luzes paradas, pontuando as luzes corridas dos carros. De onde em onde iluminações, uma povoação que se aproximava, rodava, engolida pelo escuro. À nossa volta, passageiros solenes dormiam. E a gabardina além, pousada sobre o assento. - Ter-lhe-ia dado uma coisa ruim? Estaria escondido num WC? Teria passado a uma carruagem longínqua, de propósito para nos pregar uma partida? Agustina disse – “Vai ver que é um espião que anda por aqui. O melhor é esperarmos. Ele há-de vir, mais que não seja por causa da gabardina…” E entretanto o comboio avançava planície fora, entrava nos subúrbios, nas luzes da cidade, nos milhares de carris, nas grandes bocas das estações, nas plataformas corridas, e os passageiros levantavam-se, procuravam as bagagens, encaminhavam-se para a saída. Nós só haveríamos de sair depois da gabardina, tínhamos os olhos num lado e no outro, o olhar na plataforma onde nos haveria de esperar a Kárin von Schweder-Schreiner. Sim, lá estava a nossa amiga a acenar. E de repente, um assombro – Um outro homem levantou-se da janela, placidamente, pegou na gabardina, vestiu-a e colocou-se na fila de saída. Acabava de desaparecer o único objecto que nos ligava ao homem. O que queria dizer que o lusitanista havia saído definitivamente da carruagem, na altura em que se dirigira ao bar. Como proceder?

Arrastávamos connosco as bagagens. Ao fundo dois hospedeiros vigiavam a descida. - Deveríamos falar-lhes? Fazermo-nos entender sobre o que nos havia acontecido? Alertá-los para o provável desaparecimento de um passageiro? Alguém que havia reconhecido aquela escritora, e lhe descrevera os livros, a elogiara, a incensara, a fizera da família de Dostoievsky e Kafka, mais do que todos eles, e depois havia desaparecido no interior do comboio com a promessa de duas sanduíches?

“Não faça isso…” – disse a Agustina. “Quem vai acreditar em si? Como prova dessa conversa, nem ao menos dispomos duma gabardina esquecida…” Mas foi já perto da porta, encavalitadas nas malas de rodas que a Agustina concluiu – “Isto só quer dizer que temos de continuar a escrever. Está visto que nem a grande nem a pequena intriga estão resolvidas. A coisa concreta, a gente abomina. Policiais são para o pobre do Simenon, coitado...”

E quando a sua mala passou para as mãos da Karin, e nos pusemos a caminhar pela estação de Hamburgo adiante, Agustina Bessa-Luís começou a rir com gosto. O gosto próprio duma mulher que sabe que nenhum enigma, por difícil de desvendar, a encontra desprevenida. Obrigada até ao fim da minha vida, por todas as suas viagens, Maria Agustina.
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* in revista Egoísta (dezembro 2006)

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Crónica * África, nome inscrito

Lugar de chegada

Lídia Jorge *

Que palavras usar para falar de África? – Trago esse nome inscrito na bagagem da vida como se fosse uma parte do corpo. Escrevo-o no papel, e vejo o meu pai e o meu avô paterno saindo ambos de casa, naquela noite da minha pequena infância, para embarcarem no Paquete Pátria em direcção de Moçambique, e aí viveram dez anos. Depois eu haveria de saber que tudo isso acontecia no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, início dos anos cinquenta, quando a ditadura se fortalecia e as Colónias eram apresentadas à população como locais de paraíso. Entre as populações, constava que lá, em África, o clima era tão criador que uma semente que se deitasse à terra pela manhã, daria as primeiras folhas ainda antes do anoitecer, e outros prodígios semelhantes. Constava também que por lá nunca haveria Inverno, e que as pessoas locais estavam sempre de joelhos, à espera do branco, para servir. Também ficaria a saber que o meu avô e o meu pai, que não sabiam línguas, em vez de embarcarem para o Canadá ou os Estados Unidos, tinham preferido terras de emigração onde se falasse o português. Mas tudo isso eu só saberia muito mais tarde.

Na altura, eu apenas ouvia dizer que o meu avô, uma vez chegado à antiga Lourenço Marques, tinha rumado para Norte, e que o meu pai havia encontrado forma de fazer da sua vida um modo de andar cá e lá, entre o Norte e o Sul, esquadrinhando estradas e picadas, matéria para memórias quotidianas que ia deixando no seu diário. Não admira, assim, que as minhas primeiras frases em papel de carta tenham sido escritas para enviar para África. Que os primeiros endereços desenhados pelo meu punho, tenham sido dirigidos para Chingune-Chiloane. Que o meu primeiro atlas ao vivo tenha sido o redor de África e o meu primeiro outro mar, tenha sido o Oceano Índico. Pelo Natal, o meu avô enviava fotografias, todo vestido de branco, posando debaixo de coqueiros, de braço dado com os empregados das minas onde trabalhava. E o meu pai, sorridente, deixava-se fotografar em calção curto, junto de peças de caça grossa, no meio do mato. Os dois heróis da nossa casa encontravam-se no meio de África. O dinheiro que tínhamos vinha de lá, o meu sonho e a minha evasão voavam para lá. Todas as hipóteses de viagem se dirigiam para lá, par África. Claro que eu não podia adivinhar que cinquenta anos atrás, Joseph Conrad tivesse escrito Coração das Trevas, essa denúncia sobre a perversão dos seres humanos em face dos outros. Desconhecia de todo que em 1945, depois das Conferências de Yalta e Pstadam, a Europa tivesse começado a perceber que as autonomias das colónias eram irreversíveis. Creio que o meu pai e o meu avô também não sabiam. Se deixaram África anos depois, foi por outros motivos bem mais particulares, e bem menos tangíveis. Fosse como fosse, sem o saberem, já se tinham inscrito definitivamente na ordem dos ocupantes. Tinham feito parte do equívoco da nossa História retardada no tempo europeu. Caberia à minha geração pagar por isso. Involuntariamente, coube-me fazer parte da saga do colono odiado.

É verdade – Já nos anos setenta, vivi em Angola e Moçambique como testemunha da guerra colonial. Não era fácil. A sensação de fim de ciclo batia sobre a cabeça daqueles que detestavam o regime político e entretanto tinham lido Conrad e conheciam o destino de Lawrence da Arábia. Fazia parte do grupo daqueles que sabiam muito bem que em Lisboa ainda se vivia na ilusão melancólica de que a situação colonial poderia manter-se. No terreno, era uma ilusão sangrenta e dramática. A História recente ensinava que quanto mais tarde pior. A Universidade ensinava como nasciam e morriam os impérios. Como tantos não viam isso? Como tantos morriam, de um lado e de outro, por isso? Por esse equívoco? Quando tudo acabou, foi possível dizer – Felizmente, acabou. Doesse o que doesse, acabou.

Mas, desse tempo, eu guardei as vivências mais importantes da minha vida. Aprendi o que significava ocupar a terra dos outros, ser expulso da terra dos outros, aprendi com os outros. Amei os outros. Amei os meus alunos de África, as histórias das suas vidas contadas em redacções escritas nas aulas. Amei a terra, o clima exuberante, as árvores, as danças, as raparigas grávidas com quem convivi no Hospital do Macúti, eu, como elas, sabendo de crianças recém-nascidas muito menos do que elas. E de tudo isso, trouxe a ideia de que era urgente escrever livros porque tinha visto duas Culturas desentendidas, e durante esse tempo tinha aprendido a gramática adulta da dor humana de mistura com a alegria. Em forma directa, trouxe na cabeça a vivência transfigurada daquilo que haveria de resultar A Costa dos Murmúrios, homenagem a esse tempo ido, para encerrá-lo com beleza, mas sem nostalgia. Porque hoje a vida em África é outra, a promessa de regresso e destino de viagem tem outros modos, e a esperança de entendimento passa por outras vias. Difíceis vias, urgentes vias. Tão urgentes, que às vezes sinto vergonha de escrever textos sobre África. Há momentos em que a escrita é um modo de utilizar os braços duma forma demasiado passiva. Como amar África, percorrendo os dedos, apenas, por um teclado de plástico? – Vergonha. Escrever um texto não passa de uma simples metáfora e de um princípio.
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*  in Público | África (2 de outubro de 2006)