terça-feira, 11 de julho de 2006

Intervenção * Portugal e América Latina

Uma história de periferia


Lídia Jorge *

Convidou-me o Sr. Dr. Carmelo Rosa para que dissesse umas palavras por esta ocasião. Faço-o com muito gosto, e aproveito o momento para vos saudar e desejar que tenham uma boa experiência em Portugal e na Europa. Por mim, ao falar para estudantes provenientes sobretudo da América Latina, gostaria que soubessem que o faço como se fosse uma conversa em família. Não é em vão que a minha única irmã é sul-americana. O meu único sobrinho é sul-americano. Não é em vão que os meus parentes mais próximos se dividem principalmente por estes dois continentes. Permitam-me, pois, que vos fale de forma simples, como se este encontro fosse um serão, embora sobre uma matéria tão inesgotável quanto é o rosto dum país. O rosto do nosso país, que à semelhança do que se passa com o nosso corpo, sempre desconhecemos por mais que o queiramos analisar. Como se sabe, a consciência que temos de nós mesmos só existe com alguma lucidez quando reflectida no olhar dos outros. E para isso, nada melhor do que irmos ao espelho dos nossos outros especiais, aqueles que são os nossos vizinhos, para percebermos as feições da nossa própria cara. Não o nego - Digo-vos isto e estou a pensar em certa Antologia de Poetas Portugueses publicada em Madrid, em meados dos anos oitenta, à qual o seu antologiador, Ángel Campos Pâmpano então deu o nome de Los Nombres de la Mar.

Curioso que em Espanha os poetas portugueses do século XX possam ser considerados como Los Nombres de la Mar - hombres e mujeres de la Mar- quando Espanha também foi um país de mar, e continua a ser o que é possível ser hoje em dia, tal como nós, um país de questiúncula costeira e pescaria. Trata-se, pois, duma metáfora. Mas mesmo sabendo que os títulos não passam de metáforas, de qualquer modo, de tão honroso que é, aquela forma de designar leva-nos a pensar sobre o que poderá haver nele de usurpação dos outros – E os gregos? E os italianos? E os irlandeses? E os alemães da Liga Hanseática, e os ingleses, não terão eles por direito próprio Nombres de la Mar? E na América do Sul? Quantos são os países que não têm uma boa história marítima? Os argentinos, por exemplo, não se designam a si mesmos, como aqueles que vieram do mar? Naturalmente que se trata duma condescendência poética, uma tomada da parte pelo todo, um enfeite de linguagem. Uma questão de simplificação. E no entanto, quem conhece um pouco da cultura portuguesa, sabe que há razões legítimas que abonam em favor daquele belo título. É que deve ser difícil encontrar um país da era moderna em que o elemento do mar tenha sido tão determinante na marcha da sua História, e a circunstância geográfica tenha sido tão totalitária na construção do seu carácter.

Na verdade, para os portugueses, assumir que ao longo dos séculos se transformaram em Nomes do Mar, não significou apenas conviver, viver, presenciar, usar e cruzar o mar. Significou muito mais do que isso, significou sobretudo o seu oponente, um limite, uma fronteira real e concreta que a todo o momento foi necessário destronar para sobreviver. A história do nosso início é medieval e às crianças até se conta em poucas palavras. Consta que no início do século XII, um príncipe vivaço que vivia aqui a Norte, paredes meias com a Galiza, se revoltou contra a mãe, e contra o primo de quem era vassalo, e depois de muitas espadeiradas, a si mesmo se coroou rei e veio por aí a abaixo conquistando praças aos habitantes locais, que eram muçulmanos. A esse movimento se chamou Reconquista e por ele ganhou o direito de ser considerado um bom cristão. Com o devido respeito, a partir de então, estava encontrado o rei duma fatia de terra pobre e estreita à beira do Atlântico, neste canto da Península. Na diversidade do xadrez ibérico que se conhece, ainda hoje tão vivo e tão autonómico, esta separação iria ficar marcada para sempre como a marca genética da nossa independência. Sem outros comentários, assim se percebe, olhando o mapa de hoje, invariável desde há oito séculos, que esta nação, a mais antiga da Europa, tenha tido a necessidade permanente de destronar o seu isolamento. É como se este país fosse uma ilha com quatro costas – duas marítimas viradas ao Atlântico e outras duas, terrestres, viradas ao Continente Europeu. Uma velha história de espadas apontadas. Pequeno, estreito, Portugal funcionou ao longo da História como um ouriço-caixeiro defensivo. Nos momentos de dificuldade, fechou-se sobre si e ofereceu aos vizinhos, as costas com os espinhos. Em termos de identidade e independência, chapeau! Venceu. E assim se percebe também o sentimento de compulsão para atravessar o Atlântico, e em parte assim se explica também que no século XV e XVI Portugal tenha tido uma expansão surpreendente, da qual resultou o célebre Império Ultramarino que ainda hoje, trinta anos depois da Revolução, ainda eleva e ainda embaraça. Ou por outras palavras, talvez a história da expansão portuguesa através do mar, que nós próprios ainda hoje celebramos, e uma boa parte do Mundo também, tenha sido apenas a vitória duma população escassa, numa terra estreita, contra o seu estado de periferia. E talvez o estado em que nos encontramos hoje, libertos finalmente dos pesadelos imperiais, e ainda à procura de um caminho de progresso, tenha a ver de novo com esta situação geográfica da qual tiramos o proveito sobretudo, do bom sol e das praias.

Claro que toda a explicação é uma amputação da realidade. Quando a explicação assenta na superfície ficamos perante clichés. A presença do mar oferece todas as explicações mas também o seu abuso. Um dos principais abusos consiste na ligação totalitária que muitas vezes é feita entre esta relação com o mar e o temperamento dominante dos portugueses. Um dos clichés correntes descreve os portugueses como gente de comportamento sóbrio, por vezes demasiado humilde, ou até raivosamente submisso. Se olharem à volta, até verão que existe razão para isso. Mas se ouvirem dizer que isto é fruto da nossa relação com o mar, acreditem se quiserem. A ideia mais divulgada é que esse sentimento de gravidade de que nos caracterizaria viria da noção de que ao longo da História fomos gente de proezas, não pessoas para empresas. Uma herança por certo que nos faria descendentes dos inqualificáveis marinheiros. Como dizia Anarcasis – “Há três espécies de homens, os vivos, os mortos e os que andam no mar”. Ainda aí, a nossa ousadia eufórica, seguida de depressão, viria do mar. Muito romântico, não sei se válido.

Por vezes o totalitarismo desta ligação estende-se até à morfologia da nossa própria Língua. O mar não explicaria mas pelo menos o seu convívio poderia ser um dos ingredientes que implicaria a nossa melodia verbal, cuja forma mais perto da origem os brasileiros conservam. Sobre essa matéria, Cervantes, amigo dos portugueses, escreveu que a língua portuguesa era o castelhano sem ossos. Ao que alguns portugueses românticos têm respondido que é uma língua que segue a ondulação gutural do mar. Clichés no plano simbólico, para nos rirmos de nós mesmos, o que é saudável. Em tom mais sério, o grande escritor Vergílio Ferreira escreveu uma frase memorável para qualquer português. Parodiando uma velha canção que dizia alguma coisa como “da minha janela/ virada para o mar”, Vergílio Ferreira fez essa síntese admirável que vale por milhares de canções - “Da Minha Língua Vê-se o Mar”. Esse escritor sabia que não se poderia jamais associar o som das nossas palavras a uma origem marítima, que seria ridículo fazê-lo, mas de forma diversa sabia como o léxico está cheio de expressões de marinhagem e como a narrativa do nosso mundo é, na sua maior extensão, uma narrativa sobre a nossa luta com o destino do mar. Parte da nossa estrutura semântica tem origem no combate permanente com essa fronteira da água.

Aliás, do nosso isolamento - e ilhamento - provêm também raivosos clichés que tanto atraem os turistas, embora a nós mesmos tanto nos desesperem – A ideia de que se trata de um país cuja canção nacional é o Fado, e cujo sentimento dominante é a Saudade. Clichés raivosos, digo. Porque a ideia monolítica que se faz passar, e nós consentimos e até estimulamos, é essa mesma – a duma expressão de imobilidade nostálgica ligada ao mar. Morrer longe, morrer de amor e de distância marítima. Obedecer ao destino, gostar de sofrer de forma parada, seria coisa própria dos portugueses, e tudo isso ligado ao Fado. No exterior, até ainda hoje essa imagem estática resulta bastante eloquente, quando se compara, por exemplo, a vitalidade do flamenco espanhol ou a coreografia vibrante do tango argentino com a aparente imobilidade do fado. A propósito, recordo aquilo que sobre a grande cantora de Fado, Amália Rodrigues, diziam os responsáveis do Olympia, em Paris. Ela aí esteve com grade sucesso, em 1987. Mas consta que durante muito tempo recusaram-na, temendo que o seu espectáculo fosse um desastre. Descreviam assim a sua actuação – O que vamos fazer com uma mulher toda vestida de preto, de olhos fechados, durante duas hora, no meio do palco, sem se mexer? – Claro que fizeram grandes coisas, felizmente, já que a vitalidade que dela emanava era de outra ordem coreográfica. E felizmente que hoje em dia o Fado está salvo porque entrou na onda da World Music e as fadistas portuguesas vestem de todas as cores. E felizmente também, que a dinâmica da modernidade encontra entre nós outros parâmetros alternativos.

Aliás, falando da nossa imagem no Mundo, talvez valha a pena relacionar o factor marítimo, e a estreiteza da terra portuguesa, com o tipo de ocupação costeira das terras por onde andaram. O que sempre se refere é o facto de terem sido meia dúzia de gatos pingados, por vezes gatos pingados bastante ferozes e rapaces, que fizeram o antigo Império Português. A população de Portugal não chegaria a três milhões, em meados do Século XVI. Mas talvez não seja errado acrescentar que os portugueses, comerciantes como os levantinos, criadores de feitorias, terão levado consigo o seu vício de ficar pela periferia. Com as excepções que se conhece, não tinham a experiência das invasões dos grandes espaços continentais. Simplificando, o Interland não é uma criação sua, nem a palavra que o traduz é sua sequer. Vale a pena lembrar a forma curiosa como Portugal perdeu o que em 1890 considerava um direito seu. Como se sabe, o Mundo sempre foi assim, sempre andou a ser dividido à força. Pois bem, nessa altura, as potências coloniais europeias desenhavam a seu bel prazer a configuração dos países de África. Nesse contexto, conforme a Conferência de Berlim, se Portugal provasse que tinha ocupado a zona africana entre Angola e Moçambique, poderia unir a Costa Ocidental de África à Costa Oriental. Ao projecto dessa união, que faria de Portugal o grande dono da África equatorial, chamámos o Mapa-Cor-de Rosa. Mas havia que provar essa ocupação. E claro que não poderia provar, nem a Inglaterra da Rainha Vitória permitiu que provasse. Pelo contrário, foi criado por inspiração sua, e consentimento de muitos, o Reino do Congo. E foi feito um Ultimatum a Portugal. Os ingleses, nossos velhos aliados, transformavam-se assim nos grandes inimigos. O Hino Nacional português foi criado nesses dias de raiva contra a Grã-Bretanha. Um dos versos do refrão cantava Contra os Bretões, marchar, marchar…. Com o passar do tempo, acabámos por fazer as pazes com os ingleses, e agora, volvidos todos estes anos, fizemos desaparecer a palavra bretões, e cantamos nos estádios de futebol alguma coisa muito mais suave. Cantamos apenas Contra os canhões, marchar, marchar. Mas por certo que os rapazes de Manchester United ou do Chelsea, e até mesmo os nossos jogadores quando o cantam nos relvados, estarão bem longe de saber o que outrora se queria gritar ao Mundo, com este hino que começa pelas palavras épicas de Heróis do Mar, Nobre Povo, Nação Valente e Imortal! Claro que estamos a falar de uma história de raiva e de vingança colonial. Felizmente que hoje em dia ficámos inocentes dessa história da ocupação costeira portuguesa, esse vício antigo da periferia.

Uma forma de ser que se prolongou até bem tarde . Quando em 1961 os Movimentos Independentistas desencadearam as primeiras ofensivas nas ex-colónias de África, nesses terrenos quase não havia estradas, nem hospitais, nem universidades. Os povos colonizados pelos portugueses têm razões de queixa, sim, têm . Nos Estados Unidos, quando se procura a génese das comunidades, lá encontramos no núcleo fundador de cada cidade, uma Escola, uma Universidade, um Tribunal, um Hospital, um Banco, um Quartel e uma Igreja. Nos territórios colonizados pelos portugueses, encontramos sobretudo, a Igreja e o Forte, sós e unidos. No seu interior, estava em estado de embrião tudo o resto que faltava - a escola, a universidade, o tribunal, o hospital e o banco. A Democracia e a Liberdade vieram tarde para nós, e os países que provieram da nossa descolonização também têm muito tempos e atraso. Ainda que infelizmente, durante os últimos anos, o Novo Mundo se tenha encarregado, em África, de nivelar tudo por baixo, o mais raso possível. Mas nem tudo é pobre. Como dizia o General Spínola, um general português que na década de setenta compreendeu os tempos do futuro, a diferença entre a colonização portuguesa e a inglesa, resumia-se no seguinte contraste – Perante os povos colonizados, os ingleses disseram, eleva-te, mas não te aproximes. Os portugueses disseram, aproxima-te, mas não te eleves.

Claro que hoje em dia, quanto mais conscientes somos das nossas Histórias, mais livres somos das nossas heranças e mais soltos ficamos para um novo convívio entre nações.

Não nego que encontro na troca da Literatura, das Artes e das Ciências, a melhor forma de nos encontrarmos. Não nego que em termos artísticos, em termos de entendimento entre povos, privilegio as literaturas nacionais como os grandes rostos e os grandes espelhos onde nos miramos uns aos outros e nos damos a conhecer. Volto a Los Nombres de la Mar, e é um orgulho perceber que um poeta do Século XX, português, Fernando Pessoa, entendeu como nenhum outro nesse século, o que foi o movimento de travessia que fez a expansão da Europa, que ao mesmo tempo aproximou os povos, e os tornou vizinhos, e ao mesmo tempo criou cartilhas de domínio de uns sobre os outros, cujas feridas não só não estão saradas, como desde o 11 de Setembro de 2001, a cada dia que passa, mais se abrem. Mas como disse, é uma honra para nós ter sido escrita em português a Ode Marítima, esse poema sobre os caminhos das almas do mar, o poema da grande pirataria universal, irmã gémea da navegação. É reconfortante saber que em Portugal existe um poeta que compreendeu a natureza do ser humano como ser anfíbio, homem e mulher em simultâneo, o pirata. É talvez o maior grande poema do século vinte. Está traduzido em todas as línguas cultas. A dada altura, neste poema escrito em 1917 , pode ler-se sobre a identificação do europeu com todos os homens de mar e todos os mares :

“Quero ir convosco, quero ir convosco
Ao mesmo tempo com vós todos
Pra toda a parte pr’onde fostes!
Quero encontrar vossos perigos frente a frente,
Sentir na minha cara os ventos que engelharam as vossas,
Cuspir dos lábios o sal dos mares que beijaram os vossos,
Ter braços na vossa faina, partilhar das vossas tormentas,
Chegar como vós, enfim, a extraordinários portos!
Fugir convosco à civilização!
Perder convosco a noção da moral!
Sentir mudar-se no longe a minha humanidade!
Beber convosco em Mares do Sul
Novas selvajarias, novas balbúrdias da alma,
Novos fogos centrais no meu vulcânico espírito!
Ir convosco, despir de mim – ah! Põe-te daqui para fora!-
O meu traje de civilizado, a minha brandura de acções,
Meu medo inato das cadeias,
Minha pacífica vida,
A minha vida sentada, estática, regrada e revista!


No mar, no mar, no mar, no mar
Eh! Pôr no mar, ao vento, às vagas,
A minha vida!
Salgar de espuma arremessada pelos ventos
Meu paladar das grandes viagens.
Fustigar de água chicoteando as carnes da minha aventura,
Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência,
Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sóis,
Meu ser ciclónico e atlântico,
Meus nervos postos como enxárcias,
Lira nas mãos dos ventos!”

É um poema de vinte e oito páginas em caracteres miudinhos. Poupo-vos na esperança de que um dia voltem aqui e encontrem aquela beleza superior que olha para cima, mas quando olha em frente, conduz à compaixão. Espero também que esteja bem traduzido para que não o sintam português mas de toda a Humanidade.

Claro que entretanto nos tornámos menos épicos e menos líricos. Menos míticos. Estamos a braços com um novo rosto. Há trinta anos, depois da Revolução, ficámos reduzidos às fronteiras encontradas pelo antigo príncipe, aquele que guerreou a mãe e o primo e a si mesmo se fez rei, mas fizemos uma rotação de cento e oitenta graus na direcção dos novos vizinhos. Aqui estamos ensaiando uma nova forma de existência. Lentamente, o Mar está sendo para nós, hoje em dia, uma outra realidade. Ali em baixo, no Cais de Alcântara, no Cais da Rocha, em Lisboa, poderão ver locais de onde há pouco mais de trinta anos saíam navios carregados de soldados para manterem esse velho Império Colonial. Era o sítio do nosso páthos nacional. Agora, se por lá passarem, encontrarão os velhos armazéns transformados em restaurantes e bares. Os meus filhos, que são da vossa idade, não sabem o que ali se passou. Felizmente. O mundo é outro.

Que mais vos posso dizer? - Que se forem pelas ruas de Lisboa encontrarão uma gente que ainda não é europeia, ainda não é sofisticada, ou como o escritor espanhol Enrique Villa -Matas dizia, ainda há aqui uma bondade antiga. Espero que também exista uma bondade moderna que vos receba bem.

Sobre esta charla familiar não tenho ilusões, ela não vos explicou nada. Quando se viaja inteiramo-nos sobre a História dos países, a sua Política, a sua Religião, a sua Arte , a sua Literatura, a sua Ciência. Visitamos museus, monumentos e outros lugares assim. Mas é sempre o riso do empregado que serve os cafés na esplanada, aquilo que de regresso levamos ou não levamos no nosso coração.
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* Reconstituição (validada)
a partir de uma exposição dirigida a Bolseiros Sul-Americanos
de visita a Portugal, 
na Fundação Calouste Gulbenkian,
Lisboa, 11 de julho de 2006

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Depoimento * Em que dia nos transformámos em leitores para sempre?

Nascidos para ler
Lídia Jorge *

Em que dia nos transformámos em leitores para sempre? Cada um de nós lembrará a sua história. Recordará um colo, um abraço, um livro colocado na mão de alguém, uma estante, um professor, uma certa noite, um certo dia. Aquele momento e aquela hora em que se associou uma voz humana com a capacidade de multiplicar imagens infinitas dentro da cabeça, e de permeio estavam folhas escritas. Alguém que de súbito põe a mão na máquina que roda o filme das letras, e o cinema começa a correr por dentro da nossa vida. Alguém que depois nos coloca diante de uma estante e nos diz – Aqui tens, tantos seres humanos quanto as lombadas, tantos filmes quantas as páginas. És um homem livre.

Em que dia, então, nos transformámos em leitores para sempre? Em que dia começámos a nascer para ler? Em que mês do ano aconteceu esse acaso da multiplicação dos Espaços dentro das nossas vidas? Ao mesmo tempo Ulisses e os cinco Compson?

Faço estas perguntas e estou a pensar numa ideia nova, talvez a única ideia revolucionária que desde as últimas décadas a Europa foi capaz de criar. Que se conheça, a única que tem como sujeito um homem novo. É a ideia maravilhosa de que todas as crianças do Mundo devem ser concebidas como seres nascidos para ler. O que equivale a dizer que a leitura deve ser elevada à categoria de uma segunda natureza da pessoa. E que a sociedade deve promovê-la como um elemento tão importante quanto se lhe reconhece o direito a uma família ou um alimento. A ideia de que esse direito imprescindível deve ser promovido pelos Estados e por todos aqueles que sabem que a leitura amplia a vida, como um dever de contágio formidável. Esta, sim, é uma ideia de Futuro e aponta para um novo paradigma de instrução para a Liberdade, no momento em que se desenham no horizonte rumores de pensamentos únicos e amnésias planificadas. O que os novos planos de leitura, que hoje em dia se implantam um pouco por toda a parte, trazem de novo é isso mesmo - Servem para proporcionar a hipótese de que esses momentos inaugurais de encontro com um livro colocado entre os olhos da criança e o abraço, se multipliquem, uma e outra vez, se prolonguem, mudem de local e de suporte, mudem de figuras e de géneros, mas que estejam sempre lá. À espera do acaso. O que significa que proporcionar esse acaso se transformou num dever. E porque não dizê-lo? - Talvez esta seja uma oportunidade única para nos transformarmos da antiga nação que somos com relutância à leitura, numa sociedade aberta, moderna, civilizada pelos livros.
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* Para o Plano Nacional de Leitura,
publicações diversas, 31 de maio de 2006

Depoimento * Quando se quer escrever sobre uma cidade

Lisboa existe

Lídia Jorge *

Uma recolha de textos publicada há anos em França, tem por título LISBONNE N’EXISTE PAS. Muitos dos textos que lá se encontram são dos melhores que alguma vez foram escritos sobre esta cidade. Possivelmente, o título surgiu desse desafio, ou esse desafio surgiu desse título, a ordem não importa. O que interessa é que ele coloca a questão no sítio certo – Quando se quer escrever sobre uma cidade, ela parece não existir fora de nós, a totalidade perde-se, a realidade some-se. Ficamos com a sensação da traça perdida no armário, entre costuras e enchumaços – Toda a Cidade é uma criatura demasiado grande, demasiado complexa, infinitamente múltipla e vária, redonda e informe, estelar e oval, caótica e de esquadro, isto é, Lisboa não existe – Lisbonne n’existe pas.

Pensei nessa epígafre maravilhosa que poderia ser a divisa de todas as cidades, quando li estes textos sobre Lisboa. De novo, os jovens aí estão. Trazem o rumor das outras cidades, o amor que as atravessa, a confusão entre os braços que apertam o amor e a cidade onde os beijos se dão. E a beleza de viver entre elas, as cidades. E a beleza de viver entre eles, os habitantes das cidades. E a repulsa contra a fealdade, contra o opróbrio que se esconde nas cidades, o lamento pela desinteligência que existe no meio das ruas, contra o voo dos pombos demasiado gordos que rastejam pelo chão. O repúdio contra a cidade que não voa. Afinal os jovens escrevem porque de novo existem, e de novo sabem, por instinto, o que falta à vida para ser completa. De novo aí está a nova geração para dizer que Lisboa não existe. Quando escreve, existe. E isso é que é maravilhoso e a faz existir.
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* Texto lido na entrega dos prémios do concurso literário "Lisboa à Letra",
destinado a jovens
organizado pela Câmara Municipal de Lisboa 

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Intervenção * Na entrega do Prémio Albatroz

Narrativa que convém
ao Mundo
Lídia Jorge *

Este é um momento de grande alegria na minha vida. Contidos nele, estão a minha Tradutora, os meus Editores da Suhrkamp Verlag, a minha Agente, Ray-Güde Mertin, a Fundação Günter Grass e os leitores especiais que integraram este Júri e que escolheram, para ilustrar um prémio que contempla obras literárias aliadas à expressão do livre pensamento, um conjunto de livros de ficção dos quais o último é precisamente um romance sobre uma figura que não sabe falar. Obrigada. Este é um momento inesquecível – À volta desta mesa, juntamo-nos mais uma vez em torno da Literatura, para partilhar uma refeição cujo pão é o da beleza e da liberdade.

Na verdade, independentemente de me ter sido atribuído, toca-me de modo muito particular que nesta primeira edição do Prémio Albatroz, o romance tenha sido escolhido.

A propósito deste género, não posso deixar de invocar aquele dia em que um antigo companheiro de escrita, o grande ensaísta e romancista português, Vergílio Ferreira, me chamou a sua casa para comentar o manuscrito do meu primeiro livro, que por acaso lhe tinha chegado às mãos, e me falou com grande entusiasmo, da falência do romance.

Era um dia de Verão, ele estava descalço, sentado numa poltrona e tinha sobre os joelhos o monte de folhas soltas que eram, então, “O Dia dos Prodígios”. Folheando-as, com a lentidão dum mestre, perguntou-me – “Por que razão você quer escrever romances se é um género que está a acabar? Você chega demasiado tarde... ” E a seguir, durante uma hora, esgrimiu todos os argumentos que se podem aduzir contra o romance – O argumento da lentidão no tempo da rapidez, o argumento de que o romance reproduz os actos banais da vida, quando a Arte Moderna careceria, sobretudo, da sua interpretação, ou o argumento de que o peso das fábulas descritas no romance seria inútil, quando se tornava urgente a síntese do pensamento. Na sua ideia, o romance, tal como o Romantismo Alemão e Inglês o tinham delineado, havia cumprido dois séculos, já tinha desempenhado o seu papel. O ciclo estava fechado. A Europa o tinha criado, a Europa o estava enterrando.
E a esses argumentos Vergílio Ferreira juntava outros, saídos da evidência dos sintomas. Em sua opinião, a prova de que o romance estava a definhar era o facto de se assistir à sua explosão em quantidade incontrolável, como a multiplicação das bactérias que fazem parte da infecção. Mas sobretudo, note-se, o facto de as mulheres terem chegado em força ao território do romance. A sua ideia era de que nós, as mulheres, tendo sido afastadas tradicionalmente dos campos da luta pela honra e pelo dever, traríamos ao género a sua degradação e vilipêndio. Era um encanto ouvir falar aquele que viria a ser o meu grande amigo nas Letras. Para o contradizer, nessa altura, eu não tinha argumentos, só tinha instintos. Devo dizer que depois desse encontro inaugural, ainda vivemos na mesma avenida durante mais dezasseis anos, e que ao longo desse tempo, esse extraordinário escritor que tanto se bateu no plano das ideias pela demonstração da morte do género, para além de na altura já ter publicado treze títulos, depois dessa data, viria ainda a publicar mais cinco, de entre os quais três são obras primas do romance europeu. Que morreu com um romance pronto a sair para as livrarias, e a última vez que nos encontrámos, falou-me de um novo projecto que tencionava começar a escrever em breve. Partiu da sua poltrona, escrevendo romance. Devo-lhe muito, mas não há dúvida de que aquilo que mais lhe devo é esta metáfora sobre a vitalidade deste género no seio das sociedades contemporâneas, como forma de representação do Mundo.

Esta é pelo menos a minha convicção. Se ela corresponde a uma interpretação defeituosa da realidade, estou no seu interior, sou uma suspeita. Não nego que pertenço àquele tipo de pessoas que se lhe perguntam o que pensam, respondem – “Era uma vez uma mulher que vestiu um vestido azul e se pôs a pensar…” E tudo o que se relaciona com o pensamento transforma-se em acção a decorrer em espaços onde coisas materiais acontecem.

Claro que nem sempre esta forma de efabular a vida tem origem apenas nesta espécie de estrutura inata do acto de contar. No meu caso, ela também resulta da convicção de que esta continua a ser uma narrativa que convém ao Mundo.

Como muitos, estou convicta de que o ciclo da Cultura que requereu a Igualdade dos Direitos do Homem e do Cidadão, de que o romance foi a cartilha popular que os ensinou no Ocidente, ainda não está cumprido. Estou convicta que o exercício da cultura crítica e profana que o romance proporciona, por oposição ao absolutismo dos livros sagrados, está no centro das contradições do nosso mundo globalizado. Mais do que isso, estou convicta de que este é um género cujas formas narrativas permitem fazer um anteparo e uma barreira em face da nova narrativa dos media. Essa que, pela sua natureza, não permite nem o antes, nem o depois da catástrofe, permite e está feita, sobretudo, para a difusão da catástrofe. Com o contraponto natural da distracção pelo seu oposto, o grotesco e o banal. Neste campo dual, entre sangue e clown, o romance continua a oferecer um acto de resistência a essa simplificação binária que todos experimentamos. É uma questão de tempo. A catástrofe no romance, como na tragédia grega, de onde colhe a origem, tem tempo para dar voz ao enigma que se avoluma, às razões do enlace e do desenlace, ao coro das vozes avisadoras, tem tempo para fazer da narrativa uma demonstração, ainda quando cega, ou selvagem. A linguagem alongada do romance, este género em que o início está separado do fim, por um longo fio de factos interiores, revestidos por palavras e silêncios, permite que a catástrofe se desenrole sob os olhos do pensamento, como um oxímoro. Porque o fim negativo pode estar lá, mas para reclamar o seu contrário, fora das páginas escritas, no plano real da vida. Günter Grass, de quem esta Fundação tem o nome e cuida da obra, é precisamente um dos grandes mestres dessa poderosa reivindicação de um concerto, através da descrição plasmada do seu contrário. Quem não entender que o romance nos nossos dias continua a ter essa finalidade subversiva, não entende a contradição do momento que nos calhou viver na História. Ainda que a cada um assista a sua própria História.

Pela minha parte, escrevo a partir do meu país, sobre o meu país. As figuras de ficção com as quais convivo têm a sua origem na minha terra de sol luminoso e silêncios fantasmais. Onde a democracia recente, em muitos aspectos, é apenas formal e os três poderes ainda não estão deslindados. Onde o hábito de esconder, adiar, protelar o confronto com a verdade para um calendário sem dia ainda é comum. As minhas figuras inventadas levantam-se da noite das vidas reais, a partir do sentimento de escândalo criado pelas omissões que se adivinham, pelos crimes silenciados, pela sensação de impunidade contra a qual os meus personagens se deitam e se levantam no meio das folhas por escrever, e dizem coisas mesmo quando não sabem falar. Como poderia ter encontrado outra forma de traduzir todo esse teatro interior se não fosse o romance?

Foi esta forma fílmica, longa, entornada, centrada em personagens parecidas com gente, que me permitiu dar testemunho de vidas acantoadas nos campos do meu país, os escondidos no fundo das cidades, os perdidos por outras regiões da Terra, os regressados, os silenciados no meio das famílias e dos grupos, os que não conseguem dizer eu sei, eu vi, eu espero, e têm as palavras entaladas na garganta. O romance permitiu-me sobretudo usar os modos de dizer das mulheres em luta pela sua saída do papel de espias da História para serem actrizes da História. Sempre com a ideia de que por dentro deste género, os Homens ainda não estão perdidos e Deus ainda não está seguro. As duas partes ainda estão lutando.

Para além do que me diz respeito, quero agradecer aos membros do Júri terem chamado a atenção para o facto de este género de resistência que é o romance poder continuar a ser aliado à liberdade de pensamento. Visto do exterior, é sobretudo importante que aconteça numa Cultura que tem por base a matriz de pensamento filosófico mais relevante da Europa e uma das Poesias mais altivas em face das forças desconhecidas. Este prémio diz aos que porfiam por este caminho periclitante de contar, que não estamos sós. E é nessa medida que quero agradecer a Christina Weiss ter lido os meus livros e ter-se disposto a falar sobre eles. Agradecer aos editores Michi Strausfeld e a Jürgen Dormagen por terem dado o seu cuidado e a sua confiança aos meus livros, ao longo de todos estes anos, e à Ray, a madrinha dos escritores de língua portuguesa, por ter-me incluído no seu grupo de defesa. Este momento também é vosso.

Quero dizer, por fim, quanto me alegra que este Prémio tenha na sua matriz esta partilha com o tradutor, essa outra mão direita que escreve os livros. Neste caso, que Karin von Schweder- Schreiner e eu sejamos parceiras. À Karin eu devo as traduções profissionais maravilhosas que são públicas, mas também devo a sua amizade privada. Até lhe devo algumas sentenças de vida, como sejam os provérbios alemães que de vez em quando me envia. Muito em especial, devo-lhe aquele provérbio nórdico que há um ano atrás me ditou, palavra por palavra, ao telefone. Era assim - “Toma nota - Só as aves domésticas têm saudade, as selvagens vão voando…” Mas nesse domingo de manhã, a Karin ainda não sabia que um bicho tão selvagem haveria de vir ao nosso encontro para nos unir tão fortemente - Um Albatroz.

Aos mentores da Fundação Günter Grass quero acrescentar que espero, do fundo do meu coração, e do fundo das minhas convicções, que as próximas edições deste Prémio, para o qual desejo um tempo longo e prestigiado, prolonguem, aqui em Bremen, esta cidade mítica da Europa, a ideia de que a Literatura é, acima de tudo, um campo de Liberdade sem hipótese de fronteiras, desde que revestida pela poesia das línguas.
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* Na sessão de entrega do Prémio Albatroz
em Bremen, 5 de maio de 2006

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Crónica * Nesses dias de Setembro de 74

Os anos do cravo

Lídia Jorge *

Falem-me dos Anos 70 e eu deixo de estar nesta casa onde me refugio para escrever os livros, e de viver neste tempo com sua própria luz e sua própria sombra, e regresso àquele dia em que eu tinha sonhos nítidos na cabeça e trazia ao colo os meus dois filhos de berço. Nesse dia, eu regressava da Costa Oriental de África, e era apenas uma jovem rapariga que fazia parte dum grupo que se deslocava dum lugar para o outro levado pelos acontecimentos. O avião, um Jumbo fretado para o efeito, trazia de Moçambique alguns daqueles que depois viriam a ser os primeiros retornados da descolonização portuguesa. Mas nessa altura, de entre as mulheres e as crianças entaladas no meio de sacos e haveres, nenhum de nós poderia saber os nomes que o futuro reservava para designar aqueles que se deslocavam sem saber para onde.

Era então Setembro de 74, a Revolução apenas tinha cinco meses e os acontecimentos ferviam pelas ruas. Aquilo que acontecia em Lisboa era uma espécie de euforia impossível de esquecer ou minimizar. O golpe militar tinha-se dado sem derramamento de sangue, e apesar dos muitos atropelos, eles eram mínimos, quando se pensa que atrás da mudança havia uma velha crisálida de cinquenta anos que tinha fossilizado, no interior da casca, praticamente todas as estruturas incluindo as mentais. A Revolução estava na rua, a bandeira portuguesa flutuava nas edições estrangeiras dos jornais. O país tinha-se transformado numa espécie de palco de ensaio de forças divergentes de potências estrangeiras. No meio da contradição, a imagem do cravo vermelho enfiado no cano duma espingarda era um símbolo demasiado lacónico para a esperança sem medida que invadia as praças. Não era possível esconder a alegria. Para quem era jovem e tinha sonhado com um Portugal liberto de ditadura, sonhado com a democracia representativa, e a aproximação à cultura livre europeia, percebia-se que o momento decisivo tinha chegado. No meu caso, que tinha vivido o 25 de Abril à distância, depois de tanto o ter desejado, regressar naquele Jumbo, significava vir ao encontro dum espaço onírico convertido em país real.

E no entanto, aquele avião, que havia partido ao cair da noite do aeroporto de Maputo, anunciava a relação mais complexa que a Revolução iria criar – O seu voo anunciava o início tardio da era pós-colonial falada em língua portuguesa. Dramaticamente demasiado tardio para todos os lados. Eu sabia-o muito bem. Na estrutura militar com que me tinha relacionado, os meus olhos tinham sido duas espias contra uma guerra injusta que se desenrolava fora do tempo, nas várias frentes daquele que fora o velho Império Português. Mas naquele xadrez de que na altura ainda só conhecíamos o encanto, não conhecíamos a violência, nós três regressávamos ocupando apenas uma cadeira no Jumbo, e representávamos a força que batia em retirada. Pessoalmente, batia em retirada, cheia de sonhos na cabeça, em nome da paz com vinte cinco anos de atraso.

É sabido que cada época se define sobretudo pelos sonhos que engendra, mais do que pelos acontecimentos que a tecem. Um dos sonhos que eu alimentava, como jovem da minha geração, era poder conhecer as independências dos vários países emergentes que a revolução reconhecia como primeiro dado. Por mim, imaginava nações tranquilas, a caminho da maioridade política, e do desenvolvimento humano. Imaginava que esse caminho seria já e de imediato. Mas assim não foi. O Jumbo que nos trouxe de volta, era uma espécie de amostra antecipada duma ferida aberta por longos anos, movida pelas guerras civis que se seguiriam depois. Os sonhos adiados, década após década.

Mas agora volto para trás e penso nesses dias de Setembro de 74. O momento mais marcante fora sem dúvida aquela cesura feita de bandeiras vermelhas nas ruas de Lisboa e de militares abraçados ao povo, e essa imagem ofusca tudo o resto. O para trás separado do que veio à frente. Depois, com o passar dos anos, entornámos sobre a lembrança mais decepções do que proveito, como é humano e de todos os tempos. Seja como for, o que de mais importante sobejou dessa década de cravos vermelhos é sem dúvida a constatação de que há sonhos justos que são realizáveis. Quem teve a adolescência ou a juventude nessa década, em Portugal, sabe que é possível os homens unirem-se e conspirarem contra a ignomínia, mesmo em situação adversa. Sabem que muitos deles o podem fazer com generosidade, sem reivindicarem o seu nome em lugar nenhum dos livros, e sem sonharem com estátuas onde os pombos se albergam de noite. E isso é acreditar na Humanidade. Muitos dos portugueses dessa época, que neste momento começam a ficar velhos, permaneceram ingénuos. Eu penso nesse tipo de crença que se ganha para sempre, quando imagino aquela viagem atribulada entre Maputo, Luanda e Lisboa, e me lembro de ter chorado de emoção por ver ao vivo os grafitti da liberdade, que eram descritos pela rádio, aos gritos, num tempo em que nesses países de África a televisão ainda não tinha chegado. Entre o aeroporto da Portela e a Baixa, com dois filhos ao colo, a caminho da Residencial América, chorava de alegria. E no meio de todas as contradições e desavenças que se seguiram, tantas demoras e heranças que perduraram sob os tapetes, talvez esse tenha sido um dos dias mais felizes da minha vida.
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* Texto incluído na coletânea "La Nuova Narrativa in Lingua Porttughese"
 publicada por La Nuova Frontiera (2006), Itália
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quarta-feira, 16 de março de 2005

Crónica * As divergências apenas resultam das cópias sucessivas dessa única fala

Passagem por Jerusalém


Lídia Jorge *

Em Jerusalém, a História é tão eléctrica que uma simples folha de papel a voar pode assumir a categoria de um acto simbólico. A rapariga soldado a que me refiro caminhava entre os companheiros, curvada sob o peso da mochila e da metralhadora, e parou diante da folha cor-de-rosa que se encontrava no chão. A rua era íngreme, os rostos do grupo armado, sob o esforço da subida, estavam descidos, e foi necessário um pequeno desvio para apanhar o papel. A rapariga saiu do trilho, recolheu o papel, dobrou-o, encostando a arma à bochecha, enfiou-o na algibeira e continuou na fila, subindo a colina de pedra. Aparentemente, ninguém deu por nada, o pequeno desvio não significava nada, era apenas uma mulher soldado adolescente, retirando do chão uma folha de papel quadriculado. Mas se eu tivesse de escrever sobre os sinais das balas que estão marcadas na porta de Sião, a partir daquele instante, já não iria mais começar pela crónica dos dias de guerra de 1948, teria de começar pelo gesto anódino duma adolescente armada, levantando uma folha daquele chão como se fosse outro chão qualquer.

É que entre a história do sagrado e do profano, existe um terceiro campo, mais amplo e mais difuso, o campo do anódino, constituído pelo somatório de gestos onde se encontra o mais inqualificável do comportamento humano. É esse o espaço que me interessa, esse que não cabe em nenhum tipo de História, ainda que corra a seu lado como seu outro irmão. Aliás, anódino , segundo a raiz primitiva, significa isento de dor, qualidade daquele que acalma a dor, ou pelo menos não a produz. Só num segundo momento, anódino se transformou em sinónimo de banal, insignificante ou imprestável. E isso é de ter em conta, porque profano é concebido como oposição a sagrado, quando se disputam no mesmo plano. De resto, sagrado e profano podem conviver abraçados no mesmo domínio, um e outro relacionados com a mesma vocação de totalidade. Mas quando passamos a falar de anódino, aí já estamos claramente fora desse tal abraço, aquele que conduz aos rios de sangue derramados pela disputa do absoluto. Sob o signo do anódino, pomo-nos a falar uns com os outros do simplesmente humano. E esta é a paisagem predilecta dos viciados pelo significado do transitório, que é o campo do literário, e dentro dos géneros que o compõem, aquele que mais se arruma rente à banalidade do real, que é o romance. O romance, ou a narrativa que nasce, por exemplo, duma folha de papel volante, à qual se junta um rosto, semelhante a outros rostos, e uma data no tempo doméstico, à medida duma semana – Sobre aquele instante, um qualquer visitante viciado no sentido do anódino teria escrito - “Era uma vez uma rapariga armada, que apanhava do chão uma folha solta, enquanto o seu pelotão estava subindo a Colina do Templo acima, na cidade de Jerusalém...” E no átrio da memória, representar-se-ia a cena em silêncio, sem palavras sagradas, sem Deus, sem relâmpago, apenas a folha de papel cor de rosa que a rapariga dobrou e enfiou na algibeira da farda, sobre o lugar do coração.

Aliás, esse fora precisamente o tema da conversa na noite anterior. Segundo os leitores especiais que haviam preenchido aquele serão de sexta-feira, o poder singular dos escritores israelitas estaria na capacidade de fazerem coabitar a memória das narrativas sagradas com as vivências do quotidiano comum, levando por diante a tarefa de criar um espaço de lirismo construído sobre a dúvida e o efémero, esses frágeis materiais do relativo que conduzem à compaixão. Nessa perspectiva, Amos Oz, David Grossman, Yehudit Hendel, David Vogel, Jacob Shabatai ou B.Yehoshua, e seus milhares de páginas publicadas sobre vidas comuns e suas sombras indefinidas, continuam a tecer um dique tão poderoso quanto versátil em torno do indizível, por oposição ao poder absoluto dos Grandes Livros . E a propósito das narrativas fundadoras, totalitárias, os nomes dos escritores mais recentes, como Etgar Keret, o jovem autor de O Motorista de Autocarro que Queria ser Deus , eram particularmente visados. Mas os jovens israelitas, autores de histórias mínimas, semi-fantásticas, colhidas no lastro do quotidiano banal, não estariam a ser porta-vozes duma tendência que erradica de todo, ou quase todo, as marcas do lugar e do tempo, para se transformarem em instrumentos duma nova escrita global, aquela que por definição ficciona longe do espaço histórico e da alma do lugar? Aliás, não estaríamos em breve, todos nós, perante narrativas de todos e para todos os lugares, uma espécie de narrativa pantópica, alimentada pelo mesmo imperativo de uniformidade que faz das laranjas e dos tecidos objectos saídos fora da estações do ano e das marcas da região? - É possível, mas se essa questão da viagem incolor dos textos tem alguma pertinência, ela não se levanta em relação aos autores israelitas, tão pouco em relação aos jovens como Etgar Keret, cujo humor e ironia continuam fortemente plantados no chão da sua cultura. Se a questão é de perda de espaço do romance como género, e da Literatura como expressão, e logo de diminuição do poder do dique em torno da ortodoxia, é preciso ter em conta que a vida dá outras voltas, e será salutar pensar nelas duma outra forma.

Então, de súbito, Jerusalém pode fazer lembrar o síndroma de definhamento dos géneros, e em particular o do romance, e a esse propósito vale ter em conta como há vinte cinco anos, por exemplo, Vergílio Ferreira, um dos escritores portugueses do século XX que melhor o cultivou, em resposta a aos jovens autores que então surgiam, manifestava as maiores reservas em relação ao género. Àqueles que nessa altura lhe apareciam sobraçando novos originais, o autor da Aparição perguntava com admiração por que motivo desejavam publicar romances, por que não enveredavam antes pela poesia, pelo teatro, pela narrativa para cinema e televisão, dissuadindo-os com fortes argumentos e emoção sincera, como se estivessem os jovens principiantes a apostar a vida em cavalos estropiados de que se tornava urgente salvar. Na verdade, era sua convicção de que o romance já então era um género morto ou pelo menos moribundo, que se tratava duma forma de representação do Mundo desadequada dos questionamentos contemporâneos, um género fortemente açoitado sob os ingredientes dispersivos da modernidade. Estávamos na década de oitenta, e Vergílio Ferreira via o futuro que ainda nos separava do fim do século como um tempo inchado por desafios que eram a antítese do romance, tal como ele o entendia, uma narrativa semi-ensaística sobre o destino privado dos homens, um parente imaginoso da área da Filosofia. Aliás, Vergílio Ferreira augurava a morte natural do romance, por motivos antropológicos, mas recolhia os sintomas sobretudo em duas espécies de evidência. - Na fartura da publicação – expressão do seu gosto – e no facto de as mulheres terem chegado em peso à ficção, aumentando-lhe a abundância. Numa e noutra circunstância, ele via o grotesco expandir-se, o grotesco das historietas reprodutoras da vida real aumentar, o grotesco da exposição autobiográfica sem outro significado que a exibição pessoal instalar-se. E esse seria o garrote da sua morte porque seria o recuo até à sua mais afastada arqueologia. Mas passados estes anos, se a descrição que fazia é quase justa, os sintomas de definhamento que imaginava não lhe vinham apensos.

Só entre nós, basta pensar que nos vinte cinco anos que se seguiram, não só apareceram romances como Memorial do Convento, Balada da Praia dos Cães, ou Fanny Owen - para só falar de alguns dos imprescindíveis daquela década - como também o próprio Vergílio posteriormente publicaria Para Sempre , e mais três grandes títulos que se lhe seguiram, um outro póstumo, além de diversos projectos pensados para o futuro. Para não falar duma vintena de romances escritos por diversos autores, publicados ao longo destes vinte cinco anos, e que entretanto se tornaram inseparáveis das experiências das nossas vidas privadas e até das nossas mitologias colectivas. De facto, o romance não só não morreu como se encaminhou para outros horizontes e assumiu novos formatos. Mas será que Vergílio Ferreira se enganou completamente?

De algum modo, acertou ao lado. Digamos que a proliferação em quantidade é um facto, e não carece de comentário ou explicação, porque a quantidade só por si é um índice contraditório em relação ao valor efectivo do que verdadeiramente conta. Porque razão a quantidade só por si seria sintoma de decadência? Apenas exige mais paciência na escolha ou tempo na decantação. Também é verdade que as mulheres recém-chegadas à escrita da narrativa, se entregaram em força ao campo do romance e aproveitaram o seu formato para através dele publicarem os seus segredos, com a mesmo ímpeto com que os marinheiros alfabetizados do século XIX se entregaram à narrativa das suas viagens aventurosas ao longo dos outros continentes. É verdade que nas rotas de marear interno, a exibição directa da intimidade passou a ocupar um espaço considerável, como se a hora de Laclos e Sade domésticos saídos do século XVIII nos tivesse caído de novo no sofá. Hoje em dia, ninguém estranha que do meio de dezenas, ou centenas dessas narrativas, numa cidade de Europa, sobressaia ao cimo duma grande livraria o retrato duma escritora de língua francesa anunciando a sua obra - Leia este romance. Nele, a autora conta tudo o que se passa entre os seus lençóis... Parece ser verdade que o autobiografismo, resultado da convicção de que toda a experiência de vida dá um livro, apossou-se de grande parte dos cidadãos, como um fenómeno natural de combater a anomia. Mas não foi a quantidade nem determinada feminização da narrativa que têm descredibilizado o romance. Tal como previa, tem sido a invasão do grotesco que degradou a reputação do romance, não por si mesmo - o grotesco é apenas a degenerescência da harmonia - mas pelo oposto que ele reclama. O risco, porém, é de outra natureza, paradoxal e não previsto. É que na verdade, quanto tudo se torna grotesco, facilmente tudo se transforma em sagrado. Como se sabe, o analógico não convive bem com o lógico, aquele devora este, e sob o ascendente do irracioanl, facilmente se regressa ao mundo primitivo, em que tudo o que é olhado é visão, e todo aquele que tem um vislumbre é visionário. O fenómeno do O Código da Vinci e seus sucedâneos é apenas o rosto triunfante duma cadeia que se vinha a desenhar, em que primitivo e primordial aparecem confundidos. Ou de outro modo, Vergílio Ferreira, por razões diferentes das que apresentava, acertou a seu modo, mas infelizmente não teve tempo de experimentar a grande surpresa, a surpresa de perceber que no espaço do romance, o lugar do anódino significativo foi assaltado pelo exotérico, essa água-furtada do religioso e do sagrado.

Mas as coisas são como são, e em Jerusalém a questão nada tem de fútil. Como se sabe, ali três Livros Sagrados entrelaçam as páginas por cima das cúpulas de pedra, e nem sempre houve lugar para virá-las todas ao mesmo tempo. Os recentes ciprestes que unem as fachadas parecem dizer que Deus só falou uma vez, e as divergências apenas resultam das cópias sucessivas dessa única fala. Perigoso mesmo até ao risco de morte é que as divergências sejam motivo, ou pretexto, para o desentendimento. Como em nenhuma outra cidade, em Jerusalém, cidade que transporta o sinal da paz no seu nome, se resume a sorte guerreira da Terra inteira. Sobre essa questão, Denise, guia experimentada e proprietária duma livraria, convidada por Miriam, tem uma metáfora e uma onomatopeia preparadas. Denise conhece os cantos da cidade e os transeuntes, os vendedores de velas, os mendigos verdadeiros e os falsos. E a melhor loja árabe onde se vendem essências. É preciso ouvi-la. O seu carácter é forte e as suas mãos, vitais. Denise coloca uma mão sobre a outra e provoca com elas um ruído de espada ou de máquina. Olha na direcção do Monte das Oliveiras e fala mais ou menos assim – “Tudo isto começou há muito tempo - Primeiro vieram os assírios que incendiaram e destruíram o Templo de Salomão, e tac, tac, tac, abateram-se sobre toda a cidade. E então reconstruiu-se a cidade. Depois veio Alexandre o Grande, e tac, tac, tac... Em seguida reergueu-se a cidade. Depois vieram os romanos, e tac, tac, tac ... Depois Herodes o Grande refez outra vez a cidade. Em seguida veio o imperador Tito e tac, tac, tac, tac, sobre a cidade e o templo, e não deixou pedra sobre pedra. Tac, tac, tac. Veio o imperador Adriano reconstruiu a cidade. Depois veio Constantino e fez dela uma cidade santa, mas logo vieram os muçulmanos, tac, tac, tac, e ocuparam-na. E a seguir vieram os cruzados da Europa para a libertarem. Durante oitenta anos, os santos cruzados aspergiram sangue sobre as pedras de Jerusalém, tendo sido tudo bem picado, tac, tac, tac, durante oitenta anos. E finalmente veio Soliman, o otomano, que reconstruiu as muralhas sobre as quais nos encontramos. O tempo passou, e tac, tac, tac..”

É assim que Denise explica, irónica e sábia, as suas mãos enérgicas a imitarem o som do martelo-pilão, o grande instrumento musical que acompanha desde sempre a dança da História.

Descemos então a colina alteada pelos sucessivos acrescentos das cidades sobre as cidades. A ideia é que ainda agora a Pré-história dos homens não acabou, ainda estamos em luta pelo número de páginas sagradas que cada Livro contém, estejamos onde estivermos, o nosso Livro é sempre aquele que melhor reproduz a fala. É por isso que, em Jerusalém, a imagem duma rapariguinha soldado que por um instante pára, desvia a metralhadora da cara, e levanta do chão um papel já pisado, dobra-o e meteu-o no bolso, brilha como uma estrela duma outra natureza, na luz do dia que sobe. – Porque precisaria a rapariga soldado daquela folha? Iria escrever nela alguma mensagem? Lembrar-lhe-ia algum recado por que havia esperado e não teria vindo? Vestida de verde caqui e de cabelo amarrado, teria visto naquele pedaço de papel o início duma sucessão de palavras que lhe faltavam? Lembrar-lhe-ia pela cor, as rosas do jardim da sua casa? Lembrar-lhe-ia o seu urso de pelúcia? O seu primeiro amor, o seu último brinquedo? A sua primeira narrativa, o seu terceiro poema? - Um mundo de conjecturas se inicia, ali, onde o anódino alcança o sentido do íntimo humano, e nós ficamos desarmados uns diante dos outros, semelhantes e unidos. É sobre isso, sobre essa solidão habitada pela imagem do insignificante, que é preciso escrever durante toda a vida, conforme se confirma nas ruas de Jerusalém.
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* in JL - nº 899 (16 a 29 de março de 2005)

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

Intervenção * Na Universidade de Maryland

Para um destinatário ignorado

Lídia Jorge *

Há ideias falsas que são salvadoras, e o interessante é que o contrário nem sempre é verdadeiro. Entre elas, ocorre-me em particular aquela que me tem acompanhado ao longo do tempo e que consiste em pensar que a vida com suas escolhas condicionadas pela estreiteza do real, é um destino, mas a Literatura, neste caso a ficção, é um amplo campo de liberdade. Liberdade de escrita contra o destino da vida, eis uma boa bandeira, daquelas que podem flutuar ao vento para nos levar para longe, uma bandeira, porém, que não resiste à mais pequena tentativa de análise. Uma verdadeira falsa bandeira. Quem a usa sabe quanto de destino também existe na escrita, e como a vida seria impossível se sobre ela e sua deriva, não houvesse margem para nos imaginarmos donos do nosso livre arbítrio.

A esse propósito, ocorre-me falar duma experiência curiosa que arrasto comigo há mais de vinte anos, e que apesar de se dispersar no tempo, e chegar mesmo a sumir-se nele como se já não tivesse energia para sobreviver, acaba sempre por criar novos capítulos que a ressuscitam como se tivesse vida própria para se refazer e recontar. Refiro-me a certa narrativa cuja escrita iniciei precipitadamente, convencida que o seu fim estava próximo do início, de tal forma me parecia ter chegado à primeira página, já perfeita e trabalhada. A intriga era simples. Tratava-se da história dum lavrador do Sul do meu país, um rico latifundiário, homem generoso, que em chegando o mês de Setembro, abria as suas coutadas aos caçadores das redondezas para que aí pudessem caçar à vontade. Ele mesmo, um bom atirador, integrava o grupo de homens, partindo no seu jipe, de madrugada. Sucedia, porém, que algumas vezes, enquanto os convidados se reuniam no pátio, antes de saírem para o confronto com os animais, no meio da obscuridade, uma das filhas do lavrador-caçador aparecia em camisa de dormir de olhos semicerrados, caminhando junto às paredes e depois, como se estivesse acordada, sem tropeçar no quer que fosse, de mãos estendidas, dava várias voltas à casa. A imagem da rapariga sonâmbula, nem a dormir nem acordada, em roupas alvas, no meio da noite, fazia sucumbir os caçadores, que atrasavam a partida durante meia hora, para poderem vê-la regressar. O próprio pai, orgulhoso da imagem deslumbrante da filha, cujos cabelos compridos lhe chegavam à cintura, também ele permanecia especado no pátio, falando baixo, mostrando como a rapariga era capaz de contornar obstáculos, tactear o gargalo do poço, atravessar o jardim de fracas plantas sem as pisar, e de regressar ao seu quarto, com o seu andar vacilante. Sucedeu, porém, que num dia de Inverno, para escândalo e surpresa de todos, principalmente de si mesma, a rapariga descobriu que estava grávida, e depois de um tempo de luto assombrado, numa manhã de Verão, a sonâmbula dava à luz uma criança, um rapaz, a quem o lavrador, vencido, acabaria por consentir que se desse o seu próprio nome de família.

A história, porém, não terminava pelo reconhecimento do bastardo concebido sem cooperação da jovem mulher. Digamos mesmo que aí chegada, a história ainda mal havia começado, pois o que se seguia é que enchia de vigor a minha fantasia. A sequência dos factos engendrava-se de forma excitante - Dois dias depois do nascimento, o lavrador-caçador debruçava-se para o pequeno vulto do recém-nascido, descobria-o, estudava-lhe as feições. Pensava, pensava, e dizia para si, em voz baixa – “Foi fulano, o traidor…” Subia ao sótão da casa, procurava uma arma, e passado algum tempo, o dito fulano aparecia abatido, à beira da estrada. Mas as feições das crianças alteram-se com a velocidade das nuvens. Aos seis meses, quando o bebé já se agitava e soltava gargalhadas querendo sair do fundo do berço, o lavrador-caçador achou que bem poderia ter sido outro o pai incógnito. O olhar da criança, a forma como franzia os olhos cor de mel, não o enganava – “Foi beltrano, o maldito…” E passadas duas semanas, o beltrano aparecia estendido junto do próprio jipe, com uma bala metida no peito. E assim, no dia em que a criança fazia dois anos, o seu avô fora assaltado por uma dúvida atroz – Ter-se-ia enganado? Quem dormira com a sua filha sonâmbula, afinal, não teria antes sido cicrano? Uma semana depois, cicrano iria aparecer abatido, à porta de sua própria casa, debruçado sobre um riacho de sangue. Até que haviam passado cinco anos, e certo fim de tarde, ao ver o neto a correr dos braços da sua mãe para os braços das suas tias, de súbito, o lavrador-caçador julgou ver-se a si mesmo estampado na cara da criança. Precipitara-se para a moldura onde alguém, muitos anos atrás, encaixilhara a sua própria fotografia de menino, mirara-a e remirara-a, e acabaria por se perguntar - Afinal, não seriam os seus próprios traços que se encontravam no rosto do seu neto? Tomado por esse sobressalto, que o colocava diante dum invulgar dilema, teria ido dentro de casa buscar a arma secreta de que se havia servido para o ajuste de contas aleatório, e viera para a rua, a contas consigo mesmo. Mas esse era o momento em que a narrativa se suspendia. No pátio estavam as filhas sentadas, incluindo a sonâmbula, estavam as crianças a correr, gritando de alegria, era Verão de novo, não tardava que as estrelas viessem povoar o céu, e aquele homem tinha uma arma na mão, e desta vez o destinatário teria de ser ele próprio. Só que ao lavrador-caçador, eu não o queria eliminar. O que fazer então da mão daquele homem assassino, perdido entre o amor, o direito natural e a vingança? Não sabia que destino dar-lhe. Sentia-me eu mesma o lavrador-caçador, eu mesma tinha a arma na mão, tinha a rapariga sonâmbula no pátio, tinha a criança de cinco anos a correr entre as outras, e sem saber o que fazer de tudo isso, comecei a contar esta história aos amigos, na esperança de encontrar uma solução. Então um deles, um escritor que me escutou com infinita paciência, disse por fim – “Esquece essa história, nunca a acabarás, herdaste-a de algum lugar que não te pertence, ela não é do teu mundo…”

Sim, provavelmente acabarei por nunca escrever esta história. Pertence por certo àquele número vasto de narrativas falhadas que nunca verão a luz do dia, animais nados-mortos que objectivamente não servem para nada, e no entanto, continuam a brilhar no escuro da imaginação e alimentam um território de tal forma carregado de beleza e violência, que acaba por ser tão sedutor quanto incontrolável. Aliás, há pouco tempo, a peregrinação desta história acabou por ter novo impulso. Encontrava-me numa Casa da Literatura nos arredores de Berlim, e os três jovens literatos que me acompanhavam, levaram-me até ao túmulo de Von Kleist à beira do lago Wannsee. Ao falar-se do romântico Von Kleist , falou-se dos contos que nunca li, e ao falar-se dos contos, falou-se de A Marquesa de O, cuja história não deixa de ter fortes pontos de contacto com aquela que me persegue, uma narrativa de raiz aristocrática, cuja solução final acaba por ser triunfalmente feliz. Depois viria a saber. Mas o fascínio pela minha narrativa inconclusa assaltou-me de novo. Não deverei eu, um dia, tentar solucionar esta história? Ou deverei entender para sempre que é apenas um fóssil que se agita como herança dum passado que não mais existe ? – Afinal Freud , há mais de um século, tendo descrito a histeria e seus biombos, retirou todo e qualquer romantismo à figura da sonâmbula. Também a paternidade deixou de ser uma carta secreta, hoje em dia está inscrita numa folha branca de laboratório onde se descreve o ADN da mosca e do homem. Afinal a metáfora da mulher anjo que atravessa o jardim da minha história, foi completamente banida nas sociedades ocidentais, ou está confinada a alguns resquícios sem expressão. Afinal esta história, sendo um ajuste com a natureza, não aponta para nenhum ajuste com as práxis que regulam o Mundo. Provavelmente, eu não escreverei esta história. Mas não é verdade que ela não seja do meu mundo, tanto pelo que conta quanto pelo que não conta. Ainda que resulte dum território indomável, ela está numa linha de contiguidade com a minha vida.

Passei grande parte da infância num ambiente rural, e descontadas as flores, os animais e os astros, isso significa, basicamente, duas coisas – por um lado, uma dispersão das pessoas entre as quais se intromete o espaço como intervalo que age, e por outro lado, uma troca demasiado concentrada dos actos passionais que habitam os seres humanos. Trata-se do palco nu da terra e do mar a separar as pessoas, ao mesmo tempo que a interioridade dos actores, dispersos por esse largo Huis Clos sem fronteiras, é vista em desenho aumentado, à transparência crua da luz, e ao alcance do olhar perfurante do outro. O mundo rural é isso, ou pelo menos, até há pouco tempo, foi isso, um espaço de revelação, uma câmara radiográfica apontada ao interior dos seres. Tudo o que ainda hoje sei, ou dito de outra forma, o pouco que sei sobre a paixão e o desejo, a saudade, a morbidez, a ferocidade da luta pelo poder, a compaixão e a loucura, aprendi aí, entre homens e mulheres que dispunham de espaço e tempo para o apuramento e aplicação dos seus impulsos e dos seus medos. Havia uma vista para o mar, mas era entre casas dispersas e pequenas aldeias separadas por caminhos sinuosos que se passava essa dramaturgia da revelação do outro. Nas redondezas só havia pequeno comércio. Mas a ganância, eu a aprendi com aquele merceeiro que usava duas balanças na sua loja, uma para vender, outra para comprar. Ali a fruta era escassa, as crianças assistiam ao amadurecimento de cada baga. A prepotência eu a aprendi com aquela fazendeira que enterrava a fruta no quintal da casa para não ter que a repartir com as crianças. Matar um homem não era um gesto banal, mas era um gesto incorporado no espectáculo da vida. A vingança, eu soube o que era, com aquele homicida, que na manhã em que regressava da prisão, depois duma pena amnistiada, o primeiro gesto que teve foi assassinar a testemunha que o havia incriminado. E o amor? Havia o amor. A força do seu tumulto indomável esteve presente na cena de um homem, que roubava peças de roupa do estendal duma jovem viúva que não queria ser sua amante, e ao ser levado pela autoridade, rua fora, ainda perguntava – Onde está ela? E ela, guardada pela família, à janela da casa, a vê-lo passar estrebuchando entre os guardas. E havia a providência. O sentido da providência ainda não tinha a ver com o Estado, só com a divindade. Não tinha a ver com a reivindicação, só com a espera. Não tinha a ver com a revolta, só com a obediência. A voz da Divina Providência eu a associo à embirração daquele homem que se sentou à entrada da sua fazenda, disposto a não comer nem beber enquanto a chuva não caísse sobre o seu campo de milho. Ao segundo dia, choveu sobre o campo de milho. Mas tudo o que depois a vida prolongada nos meios urbanos e as viagens me deram, outros trajes e outra velocidade, não passa da ampliação desse filme inicial miúdo e descritivo, como uma tela infinita de um Delacroix profano que não terminasse mais. É divertido imaginar como o espectáculo da Natureza à solta ofereceu aos idealistas do século XIX mitos cândidos, como o do bom selvagem. A Arte do século XX, em particular a Literatura, acantonada no papel de se perguntar sobre a última fatia da coisa harmónica, de par com a História mas mais funda do que ela, encarregar-se-ia de destruir por dentro não só o mito do bom selvagem, mas todo e qualquer mito do homem bom. O mito do próprio homem. Não nego que me rendi a essa questão inquietante. A modernidade saída de 1900 tem dito de todos os modos, que a natureza humana não cabe em nenhuma definição, é um imbróglio de matéria obscura. Uma alucinação de si própria. Aos nossos olhos contemporâneos, Job, o homem impecável, objecto duma aposta entre Deus e o Diabo, injustamente vitimado, e pela sua fidelidade, sujeito depois a uma boa recompensa, há muito que deixou de ser uma história moral, para ser uma simples história de fadas. Os livros escritos no século XX, aqueles de que mais gostamos e com os quais nos formámos, são fábulas criadas para erguerem, de mil maneiras, a demonstração de que não passamos de figuras bizarras, contendo num só recipiente a raiz de todos os bens e de todos os males, incluindo o acto de julgar e a nomeação das coisas, o que ainda por cima só a nós nos pertence. Mas sabemos como é – Quando a essa questão destemperada se junta a música da língua, nascem as páginas com escrita. As minhas primeiras linhas com alguma consistência, eram continuações das leituras avulsas que fazia tanto do Gog do Giovanni Papini, quanto do Nada de Carmen Laforet, A Peste de Camus, e Kafka, Faulkner, Virginia Woolf, e assim por diante. É verdade que se as possibilidades da escrita só na aparência serão infinitas, as possibilidades de leitura, essas, por certo que o são por certo. A partir do meu ângulo, todos esses livros que lia em estado de sofreguidão, e queria tomar por modelo, me falavam dessa obscura indefinição do ser humano como único tema, ou então, eu o trazia comigo, arrancado da própria experiência de vida e essa era a lente grossa através da qual os lia. Da mesma forma que em português, é o que une os autores que ao longo do tempo mais tenho visitado, Vergílio Ferreira por inteiro, José Cardoso Pires, o dos textos inconclusos, Agustina Bessa-Luís, e seus livros sobre a obscura teia da perversidade que tece a sobrevivência, a paixão e o domínio animal dos seres humanos. E existe Pessoa. Talvez o grande fascínio que Fernando Pessoa exerce sobre nós, portugueses, e hoje sobre uma parte imensa dos grandes leitores de Poesia do Mundo, seja o facto de toda a sua obra se desenrolar a partir do terreno ontológico, declinando até ao infinito não só a impossibilidade de definir, como a impossibilidade de ser.

Mas esta é uma deriva, e objectivamente eu tenho escrito sobre matérias que diria concretas, delimitadas no tempo histórico, no espaço geográfico, na memória vivida pela geração a que pertenço. Fazer a crónica do tempo que passa, tem-me interessado, e não desdenho do juízo daqueles que dizem encontrar nas minhas páginas uma espécie de febre em testemunhar os factos. Não pretendo escapar a essa ligação perigosa com a realidade directa do social e do presente. O próprio colectivo não tem sido apenas um tema, tem sido um sujeito de escrita, tão transversal, por vezes, que o sinto impregnar-se na forma e moldar as estruturas da acção. Escrevi um livro que tem por fundo a Revolução do 25 Abril, um outro que invoca os últimos passos da Guerra Colonial em África, outros centram-se nas relações pós-coloniais que o meu país vive de um modo particular, a par daquelas outras relações, pós-coloniais também, que a Terra inteira está a viver na globalidade, com a intensidade que se conhece. Escrevi sobre a mudança de parceiros do meu país, e seu estado de ansiedade por querer ser próspero e moderno. E sobre as raízes da lentidão que o atrasam, no objectivo de querer ser europeu, próspero e moderno. Escrevi livros que falam de cidades portuguesas, de famílias portuguesas, das novas mulheres e sua identidade. Escrevi sobre tudo isso, mas verdadeiramente nunca escrevi por isso, nem para isso. O real invade-me, com suas reportagens porque está lá, faz parte do outro domínio, o domínio que me interessa, como uma parcela indispensável do todo do qual não se pode arrancar. Quando Carlos Fuentes se refere à Literatura como uma estrela de três pontas, duas subjectivas e uma terceira, objectiva, mergulhada no devir histórico que é pertença de toda a comunidade, o autor de Terra Nostra sabe do que está a falar. É fácil falar desta terceira ponta da estrela, a objectiva, pois sendo comum a muitos, ela permite que escondamos a indecência que é mostrarmos as outras duas, essas outras onde a nossa intimidade se enrola no seu percurso subjectivo e solitário, sempre driblado pelos enganos da memória.

E contudo, as coisas passam-se assim - Tudo começa pela imagem duma figura que surge vinda do exterior, e fala, ou várias figuras que pronunciam palavras. No início elas estão sempre mergulhadas numa espécie de sombra, de onde só emergem algumas formas e cores, e existe ao mesmo tempo, uma tensão que fere a imagem, e um lado de encanto de onde sai a voz que se ouve. No fundo da primeira imagem está o perigo e a desordem, a loucura e a desarmonia. Na segunda, o tal encantamento. Se as duas partes se digladiam a ponto de perceber que as vozes são audíveis e persistentes, a ponto de haver um discurso captável sobre as vidas que ainda não se movem, mas já têm movimento, isso significa que alguma coisa vem a caminho, e então a coisa desemboca em espaços abstractos, a que por certo a impotência da sua invenção plena, conduz à chamada das realidades vividas. Custa-me que a realidade vivida entre, então, com os seus cartazes nítidos, suas fotografias datadas, países e costas reconhecíveis nos mapas. Mas o processo é este - figuras que têm o charme de surgir de nada para falarem dum mundo misterioso que plane fora da realidade para de longe a iluminarem duma outra forma, e lhe darem o sentido do qual carece, como nos sonhos, afinal essas figuras têm os pés mergulhados no real, foram baptizadas pela vida antes de terem nascido. Afinal, a cobra voadora que durante dois anos me assaltava em sonho, e voava sobre uma multidão, no fascínio repelente pelas suas escamas azuis, trazia atrás de si o tanque de guerra carregado de soldados que esteve na origem de “O Dia dos Prodígios”. No livro, essa cena da passagem dos soldados pela aldeia ocupa umas escassas páginas, mas só depois de publicado, ficaria claro que tinha escrito um livro sobre uma Revolução muito especial, e sobre o carácter do povo que a fez – uma gente, a gente a que pertenço, com demasiada força no hora de sonhar, demasiada debilidade na hora do agir. Perceber até que ponto a persistência duma primeira imagem que contém no seu interior um processo dinâmico, é capaz de desencadear uma narrativa sucedida, pode não ser obra de talento, antes obra do acaso. Entre uma coisa e outra, um passo misterioso, como toda a escolha na vida.

Lembro-me de uma outra primeira imagem, neste caso, uma imagem ao mesmo tempo esbatida e ampliada, a partir da realidade. Uma nuvem espessa de gafanhotos, uma nuvem verde na noite, que ao mesmo tempo separava e unia dois grupos humanos, os europeus atrás dos cortinados de veludo, os africanos à volta duma fogueira, o som das vozes de salão de uns, o som dos cantares de alegria de outros. Essas imagens escondiam a história inventada de “A Costa dos Murmúrios”. Dez anos seguidos com as mesmas imagens. Afinal, nos copos de uísque dos militares que olharam atrás dos vidros, imóveis, durante todos esses anos, estava o desenho das garrafas de álcool metílico que iriam desencadear a matança. No entanto, o cenário da guerra colonial, com seus desmandos e ficções tenebrosas, parecia-me secundário. Eu apenas desejava escrever sobre o cerne da violência que trazemos escondido debaixo dos nossos vestidos, que apertamos com elegância sob os nossos cintos, sem o sentirmos, nem ocupar espaço, mas existe. Explode quando menos julgamos. Tudo o que eu desejava formular com esse livro era coisa vaga – Se só temos a fala para dizermos quem somos, então por que é que não nos ouvimos, enquanto a fala é possível? Mas depois, essa fábula quase imaterial para onde eu apenas gostaria de convocar figuras que deslizassem como sombras entre as ondas e as palmeiras, acabou por chamar um cortejo de espingardas e crimes apagados, cuja história não termina ali, porque se repete, hoje, amanhã e depois, noutros lugares, com a mesma lógica ácida, a mesma sensibilidade. Atrás dessa fábula veio um pedaço da História da relação entre a Europa e a África. Da frente para trás, ela chamou um pedaço da confronto entre o Ocidente e o Mundo, os outros mundos e o Ocidente, confronto que não mais acaba. Claro que estou a expandir o sentido deste livro, à minha medida. Mas tudo começou por uma nuvem de gafanhotos verdes, voando à volta dos candeeiros duma estrada, durante dez anos. Uma pequena fábula étnica sobre o sentido duma praga.

Poderia continuar. Recordo dos livros esse momento inicial que os formou como recordamos o rosto de alguém que pela primeira vez encontramos e se torna definitivo nas nossas vidas. No caso de “ O Vale da Paixão”, existe a imagem duma manta de caserna estendida na lama, a partir da qual a voz do soldado morto, como se estivesse incorporado nela, reclamava justiça para a narrativa deformada no que respeita à sua memória. Essa voz que subia por uma escada era uma pessoa viva, levava uma luz na mão, e pedia a quem encontrava que lhe escrevessem a sua vida. Pedia que ficasse conhecido como alguém que havia deambulado pela Terra, movido pela ideia de que, quanto mais se afastava de casa, mais se aproximava da sua verdadeira morada. Mas depois, essa história, um breve conto de soldado, trouxe atrás de si migalhas duma família inteira, pedaços de destinos anónimos de que são feitas as diásporas. Na origem de “O Vento Assobiando nas Gruas” está a imagem duma rapariga descalça, caminhando na areia, uma rapariga que retira o chapéu, vira-se, fecha os olhos e pergunta – “Esqueci-me de tudo. Quem sou eu?" Um ano de persistência dessa imagem, um ano de dúvida. Só depois, nesse espaço arenoso, a caravana dos cabo-verdianos Mata começou a avançar, só depois se dá a deambulação pela costa, muito depois um dos Mata se isola, e interpreta o papel do homem que sente amor. Melhor dizendo, ambos, Antonino Mata e Milene, libertos e presos pelo amor.

Aliás, eu nunca fiz a pergunta fundamental sobre onde começa o Bem e o Mal. Mas entre os mil casos que a declinação dessas duas palavras comporta, eu sempre escolhi uma das formulações mais terrenas, menos sigilosa, ou simplesmente mais adaptada à natureza do meu palco. As figuras estão ali, em conjunto, e agitam-se, avançam no papel, falam todas ao mesmo tempo para perguntarem – Como estava o amor quando eu aqui cheguei? Como estava o amor quando eu daqui parti? Resposta dada ou não, interessa-me esse intervalo. Escrevo, para dar vida a outras figuras que não sou eu, na tentativa de que alguma delas, tão diferente de mim, certamente mais sábia, mais sagaz, mais diligente, ou mais ousada, ou mais ácida, mais justa ou mais diabólica do que eu, possa fazer esse balanço e resolver antes de mim, o que eu nunca virei a saber. E por isso mesmo, porque toda essa gente de palco não existe senão na dimensão escassa da liberdade que é escrever, eu mantenho a ideia de que é da irrealidade que provém esse improvável saber. Kafka é um génio porque trabalhou só aí, não precisou de mais nada. Borges de algum modo, também. Todos podemos invejá-los, ou mesmo segui-los como fez Italo Calvino, como parece querer fazer nos dias de hoje, Antoine Volodino, por vezes Alessandro Baricco, mas poucos podem parecer-se com aqueles. O peso da realidade arrasta a maior parte dos escritores pelo chão da narrativa que reproduz a matéria do real. Acho que pertenço a esse team. Quer queira quer não, a realidade está logo ali, oferecida, ela caminha atrás dos personagens como se fosse a sua sombra material, e eu entrego-me a ela, como quem aceita um par que lhe foi destinado, dançando com toda a alegria, independente do corpo que dança e do efeito que causa. Anima-me nesse entusiasmo a ideia de que a memória selecciona da realidade os pontos que formam um sentido e que os projectos que se desencadeiam durante a narrativa deformam a História de que se é testemunha construindo, de modo inocente, uma parábola gerada pelo desejo de transformação da vida. A beleza e o desejo não podem entrar em vão para o interior da escrita. A beleza e o desejo que se junta ou se escolhe entre as migalhas que brilham na enxurrada do tempo, entram na ficção para forçar de propósito a lógica da realidade. A esse propósito, Adorno não escreveu que à luz da redenção o mundo aparece, inevitavelmente, deformado? Resta saber se no futuro existe espaço para este tipo de narrativa. Se o leitor ignorado que há duas décadas se pôs a caminho, precisará como nós, desta deformação do real para a sua felicidade.

Claro que eu nunca vou escrever a história da rapariguinha sonâmbula. Que ela fique lá de onde veio, uma espécie de tijolo que resistiu a uma certa demolição biográfica. Sobre os aspectos biográficos, Kundera disse que o romancista é aquele que destrói a casa da sua vida, para, com as pedras, construir a casa do seu romance. Na sua interpretação, os biógrafos de um romancista desfazem o que o romancista fez, refazem o que ele desfez. Kundera terá razão, sem dúvida. Eu tenho, no entanto, a ideia de que aquela história do lavrador-caçador persiste, tão arcaica e tão vivaz, só para me dizer que o edifício da escrita é um espaço de jogo que não termina mais. A prova é que muitas vezes penso nela ao contrário. A rapariga sonâmbula tinha sonhado esse sonho, ouve um tiro de carabina, acorda e encontra-se no meio do pátio. Então um caçador que ela nunca viu aproxima-se e diz-lhe que teve de abater vários animais, até chegar junto dela, para ela lhe contar o sonho que ele viveu acordado.

É verdade também que outras imagens perseverantes das quais eu espero que resultem certos textos, incluem rostos de gente meio a dormir meio acordada. Continuo a amar essas figuras que estão à disposição de um saber, que as faz não agir como gente e por isso mais indefesos e também mais sábios, conhecedores de uma outra forma de estar. Personagens como o Leonardo de “O Jardim sem Limites”, o rapaz que se imobilizava horas a fio sobre um plinto no meio da Rua Augusta, e a partir do seu poiso fazia rodar o mundo ao sabor do seu desejo de triunfo. Aquele que desejava repartir com o acrobata Paolo Buggiani, uma performance a dois, entre as Torres Gémeas dos anos noventa, e atrás dele, que só desejava viajar e partir, acabaram por aparecer ruas e casas lisboetas, globalizadas antes de o estarem. Não tenho dúvida que de futuro será igual ou semelhante. Levada por essas figuras que cochilam em cadeiras de lona à sombra das árvores, e que eu desejaria que me conduzissem até histórias subtis, sem peso, poemas indianos de três versos, mais pequenos que sombras de cigarros, em vez deles, sei que hei-de acabar por me entregar ao destino histórico do meu país, por mergulhar nas suas contradições profundas, reproduzir histórias das lutas tribais que assolam Lisboa, os braços da escrita enterrados até aos cotovelos da realidade como testemunha. Parto de um outro lugar, mas é sempre aí que vou ter. Com a ilusão de que se assim não proceder, deixarei personagens reais atadas ao seu destino, sem hipótese de liberdade. E essa esperança dá a volta e brilha no escuro.
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* No 4.° Congresso da American Portuguese Studies Association,
na Universidade de Maryland,
em que a escritora foi a convidada de honra,
a 13 de outubro de 2004

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

Crónica * Casa de campo

Casa de campo

Lídia Jorge *

A casa que nos coube em sorte fica mergulhada em flores. Aqui estamos desde ontem. Quando chegámos não vimos paredes, apenas um telhado pousado sobre plantas e uma entrada em madeira sobraçada por um arco de hera. As flores são azuis e rosa, e a unir as duas cores, a buganvília lilás sobe pelas empenas laterais, formando dois ramos, um de cada lado. Neste ninho de frescura, contamos ser felizes por dez dias. Garantiram-nos que quem vive ao lado é gente pacífica, casa térrea, residência própria duma família local. Estamos separados deles por uma vedação de ferro, devidamente enfeitada de vinha-virgem, e em frente das suas portas, onde nós temos os tufos de plantas, têm eles um tanque de rega para onde pendem duas árvores frondosas. Faço questão de descrever o espaço. Sobre este caderno sou livre de desarmonia, nele exerço sem complexo os meus vícios de visão pura. Mas não posso aguardar mais. Foi assim.

Esta manhã, os rapazes que vieram para a manutenção da piscina não paravam de interromper o trabalho para dirigirem o olhar para a casa ao lado, e a casa ao lado tinha as portas trancadas. O técnico que veio acertar a parabólica ficou longo tempo sobre o telhado, a mirar na direcção da casa vizinha. Diante da casa, carros passavam devagar, uma carrinha branca parava, arrancava, parava de novo. E pelas quatro da tarde, uma pessoa da agência alugadora veio informar-nos de que sentiam muito, mas estava fora do controlo dos serviços, o problema que se passava na vizinhança. Pois que problema? Então a rapariga da agência - porque se tratava duma mulher bem jovem - começou por dizer que ia para oito dias que factos estranhos ocorriam ao lado.

Ela mesma não tinha presenciado, mas constava que sobre as pessoas daquela outra moradia, sem se saber como nem porquê, estavam a cair pedras vindas não se sabia de onde. Pequenas pedras que atingiam as pessoas no corpo, incluindo o rosto, e que ora provinham de cima, como se fossem atiradas por alguém que se encontrasse nas árvores, ora pareciam saídas do próprio chão. De vez em quando, caíam sobre a água, sobretudo quando os filhos dos proprietários se encontravam a brincar no tanque. Uma grande maçada. A rapariga da agência que assim falava, estava séria. Uma bela moça, modernamente vestida, a olhar para nós seis, reunidos à sua volta no meio do tufo de flores, para escutarmos a saga das pedras que trazia até nós, para nos pedir compreensão pelo alvoroço que ao lado se poderia gerar, e para nos informar também que até àquele momento, era mesmo só no perímetro daquela outra casa, e daquele outro quintal, que as pedras eram arremessadas.

“Pedrinhas” – explicou ela. “Às vezes pedras de brita, ou mesmo gravilha das estradas, a avaliar pelo que a agência testemunhou. Quando soubemos desta situação, fizemos questão de vir verificar ao local. Mas outras vezes as pedras são maiores, parecem trazidas de longe, extraídas de valados da região. Incrível, não é?”

Como disse, a funcionária parecia-nos uma pessoa razoável, ela mesma estupefacta e incrédula, até um pouco humilhada pela incumbência que desempenhava. Referia que o próprio patrão, duas noites atrás, tinha andado com outros homens, todos munidos de lanternas, à procura dos brincalhões que atiravam as pedras, mas não só a busca tinha sido infrutífera, como enquanto decorria, uma das residentes havia sido atingida nas costas, no momento em que saíra à rua para ir buscar roupa ao estendal. Uma perseguição até agora inexplicável. A rapariga da agência falava com gravidade própria de quem é obrigado a oferecer aos outros uma inquietação despropositada. E certamente para se salvar a si mesma da inverosimilhança do que nos vinha contar, referiu a amplitude social que os factos haviam tomado. Vários jornais já se haviam interessado pelo assunto. No dia anterior, duas carrinhas de reportagem de televisão tinham vindo literalmente abancar diante de casa. Um dos repórteres até havia usado teleobjectiva para tentar captar o rosto de algum dos moradores. Mas as pessoas atingidas encontravam-se trancadas por dentro, sem quererem dar a cara, por acharem que o assunto era demasiado sério para ser badalado de qualquer forma.

“E as pedras, magoam ?” – perguntou um de nós.

A rapariga da agência sorriu – “Até agora, parece que não feriram ninguém. Dizem que mesmo as maiores, como a que atingiu a mulher mais velha no peito, ou mesmo o punhado de gravilha atirada contra a cara de um dos miúdos, quando se encontrava a nadar no tanque, parece que nunca fizeram doer. Não é incrível?”

“É incrível” – disse um de nós.

“Eu também acho...” – disse a rapariga da agência. “O problema é que esta situação pode continuar, a coisa passa-se logo aqui ao lado, e nós ainda não dispomos de outra solução. Mas estejam descansados, vamos encontrar...” E a rapariga partiu, sobraçando os seus papéis.

Como disse, este encontro aconteceu a meio da tarde. Significa então que devemos começar a desinstalar-nos desta casa de campo? Que tudo aquilo que ainda não saiu dos sacos deve permanecer guardado? Que não devemos começar a estender os fios dos computadores portáteis? A não espalhar os livros e os discos por cima das mesas? – Pelo contrário, devemos, sim, porque o assunto teve um novo desenvolvimento, inesperado.

Pelas sete da tarde, encontrávamo-nos junto à sebe que separa as duas casas, a olharmos, nós também, para o domínio suspeito, quando duas adolescentes saídas das traseiras da moradia vizinha se nos dirigiram. Vinham descalças, embrulhadas em toalhas claras. Chamaram-nos – “Eh! Queremos dizer uma coisa!” Deixámos a zona das flores, caminhámos ao seu encontro. Ficámos frente a frente com o gradeamento de permeio. Então a mais alta das duas colocou o rosto entre duas hastes de ferro, e em voz baixa pediu que não tivéssemos medo. Alguém tinha ido a Lisboa consultar uma leitora de cristais e havia trazido a devida explicação. Explicação que não iriam dar a ninguém, porque não queriam que tomassem a sua família por parva, mas que nos vinham dizer só a nós, para que não nos mudássemos para outro lugar. Não valia a pena. E o rosto da adolescente resplandecia entre as barras. Mas a mais pequena, mais nova, enervada com a delonga da irmã, deu um salto, com a toalha às costas, e explicou, aos solavancos, como se não tivesse tempo para terminar – “Ficámos a saber que são almas de crianças que vêm brincar connosco...” Olhou em volta, baixou a voz – “E devem ser muitas crianças porque as pedras vêm de todos os lados... Os nossos primos têm medo, mas nós duas, não, estamos muito contentes. As almas delas gostam de nós...” E como se nos conhecesse de há muito, a rapariguinha deu um grande salto - “Imaginem, tanta piscina por aí, e logo elas gostarem da nossa casa. Invejam brincar connosco no nosso tanque, gostam da nossa água com limos... Até já pensámos que, se calhar, dormem aí desse lado, entre as flores, e saltam a grade para virem brincar connosco... Mas nós não vamos contar a ninguém, como diz a minha irmã, para não tomarem a nossa família por parva... Por favor, não mudem de casa. A nossa avó também diz que são crianças, que rapidamente se vão cansar. Dum momento para o outro, podem não voltar mais...” – disse a adolescente mais pequena, mais viva. “ E agora vamos! Eh! Pirar!” E ela mesma se desembrulhou da toalha, antes da irmã, e correu na direcção do tanque. A irmã seguiu-a, ouviu-se um som na água – Tchap! E a seguir um outro – Tchap!

A moradia mantinha-se trancada. As duas árvores frondosas guardavam-na. Três garotos juntaram-se às adolescentes a chapinhar na água produzindo o ruído das rãs no charco. Isso, no declinar da tarde.

Agora já é noite. Ia até dizer agora já é noite fechada, cumprindo os lugares comuns, mas é falso. A noite que se encontra diante de nós está aberta, um quarto-crescente luminoso brilha sobre esta parte da Terra, espalhando um luar pálido, e nós seis, do lado de cá, de costas para as flores, estamos sentados em frente da vedação, de rosto virado para a casa assombrada, na esperança rara de que uma brecha se abra no tecto da tenda que separa a física da irrealidade, e uma pedra arrancada da origem do próprio espaço, atravesse o ar. Minto, neste momento, são cinco as cadeiras ocupadas deste lado da nossa casa. Eu vim para o quarto escrever estas linhas, para que este momento não acabe mais.

Boliqueime, 27 de Agosto, 2004
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* in “Poussières du Monde” (Éditions Métailié)

quarta-feira, 18 de agosto de 2004

Prefácio * Frei Bento Domingues

Nosso contemporâneo

Lídia Jorge *

A pessoa e a obra aqui presentes, tornadas sujeito desta breve intervenção, lembram-me o aviso de Maeterlink quando diz – Sempre que pronunciamos alguma coisa, desvalorizamo-la singularmente.

Acresce que neste caso a coisa é, como se sabe, uma pessoa singular e a obra em questão apenas uma parte visível dessa singularidade. Na verdade, não estarei sozinha se disser que tentar explicar, nestas circunstâncias, a importância que Frei Bento Domingues assume junto daqueles com quem alguma vez conviveu, poderia ser embaraçoso. Embaraçoso também para ele próprio, que perante a declaração da sua importância face aos outros, não sabe onde pôr o olhar. No que me diz respeito, em contexto diferente, eu hei-de descrever a forma como a sua conduta e o seu pensamento, à distância, me têm sido decisivos no modo de encarar a vida e o Mundo.

Mas agora trata-se, antes de mais, de referir o conjunto das cinquenta e uma crónicas, publicadas no Jornal Público, entre 1994 e 1995, aqui reunidas com o título de As Religiões e a Cultura da Paz, um belo volume ilustrado por uma imagem que representa, na sua ambiguidade, tanto a deflagração quanto a fulguração dos ícones, e inscrita numa colecção cujo enunciado, só por si, inclui a síntese do tempo disjuntivo a que estes escritos se referem – «religião sem Mundo, Mundo sem religião». Eu diria que a ideia que lhe está subjacente, por antonomásia, é precisamente, a reclamação não de um mundo com uma religião, mas um mundo com religiões, e nessa junção ecuménica das totalidades na Totalidade, reside a mensagem de paz por que reclama o título. Esta é a entrada do livro que aqui se manuseia. Ela faz a diferença, no meio do acervo de fanatismos que hoje campeiam. Ela permite inclusive que se aproximem os que crêem dos que não crêem, como se de permeio entre eles, não existisse a separá-los mais do que a espessura dum pano de seda. Permite que se olhem e se interroguem mutuamente, e no mesmo pé de humanidade, os que vivem na Casa da Certeza e os que vivem na Casa da Dúvida, sabendo os primeiros que para os segundos não está apenas reservado o caminho do estorvo, sabendo os segundos que aos primeiros não está apenas reservado o caminho da segurança. Eu diria que é na capacidade de deixar coabitar estes dois espaços do humano, e dessa coabitação retirar as consequências para o incremento da fraternidade, que Frei Bento Domingues consegue criar um espaço de pensamento, entre nós, verdadeiramente original.

Provam-no, de facto, estas crónicas. Publicadas aos domingos, elas são os sermões modernos em que o púlpito foi arrasado, e em que o destinatário, ultrapassados os limites das paredes, se transformou num grupo vasto e diferenciado, tão difícil de determinar quanto difícil de atingir e onde se incluem os crentes, os não crentes, os agnósticos, tanto quanto os duvidosos e os inqualificáveis. O segredo da sua eficácia junto de um público tão heterogéneo, encontra-se ao nível da qualidade do seu raciocínio e da sua sustentação informativa, ambos arredados do forcing persuasivo. Essa originalidade advém-lhe naturalmente do facto de ser, antes de mais, um intelectual sólido, alguém que coloca o espaço da leitura e da erudição ao serviço da formulação dum raciocínio sempre novo e sempre aberto, perante a transformação imparável do Mundo, sismógrafo sensível dos terramotos sociais por que passam os nossos tempos, com um discorrer radicado na sensibilidade à mudança. Por isso mesmo, a parte destas crónicas que é doutrina assume um princípio activo, mas impregna-se-lhe numa totalidade vivencial, como se existisse para iluminar os passos dos homens e nunca para separar-se deles.

Eu diria mesmo que este pregador, que junta ao seu nome O. P., como aviso, é alguém que se move na área da doutrina e da pregação, como se o não fosse, processando o seu raciocínio com uma clareza cartesiana, indo de argumento em argumento, encadeadamente, como um filósofo metódico, até atingir o cinto inultrapassável do dogma, a verdade recebida e não encontrada, espalhada no campo da doutrina. Melhor dizendo, Frei Bento utiliza o cinto do dogma na sua versão mais fina, o menos estranguladora possível, o mais sustentada possível pela evidência do concreto e do provável. Não admira que Frei Bento declare na introdução a este volume, aquilo que se depreende do seu método de trabalho – (...) nunca escrevo sobre um tema sem o estudar de novo, nunca confio no que já sei, detesto o impressionismo. Por conseguinte, não admira também que a sensação que se alcance com a sua leitura seja de clareza, segurança e liberdade, uma vez que o cinto de todos os dogmas ele os sintetiza, em última instância, na evidência de Deus como amor. As crónicas de Frei Bento são “desdobráveis” inteligentes que se oferecem ao pensamento, abertas em várias direcções, e nessa medida também são sermões, isto é, raciocínios que podem conduzir à fé se o leitor aceitar a verdade que o autor toma por incontornável.

Mas se o conteúdo é a forma da matéria, como creio, eu diria que a maior sedução destes textos provém da sua íntima substância. De testando o vago e o impressionismo, não estamos perante um raciocínio lógico, nem seco nem frio. Nestas crónicas, prolongamento de Frei Bento como pessoa, o seu raciocínio nunca está separado da massa sensível que habita as coisas e os seres. Ao ler-se Frei Bento Domingues, percebe-se que se está perante um homem aberto à grandeza. À grandeza do cosmos, à magnânima fragilidade do humano, ao rosto irrepetível nas multidões, à pele da História, inocente e deslumbrado como se fosse um poeta, que só o não é formalmente, porque o poeta faz experiência do escuro e exibe a escuridão como medida, e Frei Bento é um poeta que escolheu à partida a luz do princípio iluminado, e fez dele o seu método de clareza. Porém, dentro de si, conserva intactas essas duas coisas. Só assim se entende que seja um pregador tão hábil, homem de cerimónia e de parcimónia, capaz da paciência e da piedade pelos outros, no circuito do próprio raciocínio. Alguém que discorda, surge contra mas não se in-surge, não cria cisma. Entre os seus, percebe-se muito bem o que recusa, como recusa, porque recusa. O próprio Papa e o Cardeal Ratzinger, bem como Fátima e outras entidades, são figuras que surgem no rodapé dos seus reparos. Há nele, porém, uma forma cordata de discórdia, que passa muito mais pela insistência do que pela indignação. Aliás, em relação aos grandes problemas, depreende-se-lhe uma constante de procedimento notável – é frequente Frei Bento desenvolver um raciocínio, deixá-lo a vibrar intensamente em torno da tese que advoga, para depois suspendê-lo e terminar sem dar o golpe fatal, ficando o raciocínio em aberto, à disposição duma resposta, como se fosse uma conversa interrompida. Por vezes, só assim se entende a sua oposição, ou a sua resistência, ou o seu destinatário, quando posteriormente volta ao assunto, retomando-o pela ponta do ziguezague interrompido. Também só assim se entende como nestas crónicas, bem como nas anteriores e nas posteriores, se desenvolve toda uma cultura de compreensão do papel dos mais vulneráveis, divergente do pensamento dominante, como sucede, por exemplo, no caso das mulheres, tema desenvolvido cautelosamente, sob o anteparo for mal desse tipo de raciocínio inatacável, interrompido no momento exacto.

Mas nem sempre é assim. Por vezes, o pregador da crónica toma a realidade e os factos, e denuncia a incongruência, o anacronismo, o interesse próprio, o miserabilismo mental, juntando as pontas que o evidenciam, munido da ironia. Exemplar nessa desmontagem é a Crónica “a Capital do Bruxedo”, quinta crónica deste livro, peça literária notável. Outras vezes, deixa-se comover pela irritação e pela revolta. Falando do Peru, país maravilhoso da América Latina, aviltado socialmente de todas as maneiras, e referindo-se em particular à cidade de Lima, Frei Bento não tem rebuço em declarar – A porta para este mundo fabuloso é um nojo. Lê-se na primeira crónica desta série. Também na última, a quinquagésima primeira, a que tem por cenário o Chile, a propósito do crescimento económico sustentado, e da cultura do contentamento dos afortunados, pode ler-se – “Há (...) muitos sinais, extremamente violentos, de que os enganados, os excluídos, podem reagir por vias do desespero. Já vai sendo tempo de perceber que fora da solidariedade, fruto do compromisso social e da compaixão, não se pode encontrar uma sabedoria partilhável para viver com dignidade neste mundo”. Estes, aliás, são os últimos parágrafos com que termina o volume As Religiões e a Cultura da Paz.

Dado o que está a acontecer, sete anos depois, poder-se-á perguntar se acaso Frei Bento não foi profeta. Dever-se-á responder que não, que Frei Bento, felizmente, não é um profeta. Trata-se apenas de um homem lúcido, nosso contemporâneo, que leva a coragem, de par com o discernimento e a beleza, na ponta dos seus pés, e não se queixa da mágoa que lhe causa – Foi assim que o conheci pela primeira vez, num inverno já distante, a caminhar numa praia, e a associar a força das ondas encadeadas como se fossem uma sombra de Deus. Do seu misericordioso Deus, que vê no rosto de todos, mas não impõe a ninguém.
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* Prefácio de "As religiões e a cultura da Paz",
Frei Bento Domingues
(Mário Figueirinhas Editor, Porto, 2004)

sábado, 17 de abril de 2004

Depoimento * Sobre o filme "A Costa dos Murmúrios"

O filme e o livro


Lídia Jorge *

O número de imagens que um livro oferece são infinitas, as imagens de um filme são finitas. Da passagem de uma coisa para a outra existe um transvaze inevitável, onde alguma coisa em geral se perde em número e alguma se ganha em intensidade. No caso de “A Costa dos Murmúrios”, apesar de ter tido conhecimento prévio do argumento, e do cenário das filmagens não ser propriamente um mistério, o resultado do filme foi-me bastante surpreendente. As primeiras imagens surgiram e eu compreendi que a história que tinha escrito, sob as mãos da Margarida, e o corpo dos actores, havia-se transformado numa outra realidade, reescrita à luz de um outra invocação. Mas devo dizer, em abono da verdade, que essas diferenças constituem mais revelações do que estranhezas e levaram-me num primeiro momento a revisitar o livro com outro olhar, e a rever o filme pela segunda vez, com um sentimento de muito maior proximidade. Entre filme e livro, afinal, não encontro propriamente divergências, encontro deslocação de elementos e diferentes modos de intensidade, para dizer o mesmo – que se trata do desejo de erguer um relato para não deixar sumir na inadvertência alguma coisa grande e dolorosa, pessoal e colectiva, que persiste, a mesma vontade de criar um espaço ficcional onde alguma coisa fora do paradigma acontece, a mesma vontade de que isso suceda sob o impacto de imagens criadas pela alucinação da memória. Esse parece-me ter sido o nosso pacto inicial, e respeitado isso, o resto é pormenor. Ou estética. Porque os modos sempre são diversos.

Por exemplo, a atmosfera de um filme pode muito bem ser criada por uma marcha oposta àquela que sustenta o livro no qual se baseia. Neste caso, a imagem de Os Gafanhotos como figura detonadora da narrativa, e com a qual o livro abre as primeiras páginas, e que continua a ser o núcleo importante desta história de Portugal em África, não constituiu um motor para a realizadora. Eu estava interessada, desde o início, que o leitor entrasse para dentro duma narrativa onde a memória alucinada tinha de ser mais forte do que a crónica do tempo. Ao invés, a Margarida inicia o filme com a imagem documental do autocarro, e a canção na voz de Simone para se localizar no tempo. Eu diria que o filme arranca como uma crónica. Cenas do casamento, diálogos cruzados, danças dos anos sessenta, toda essa primeira parte tem alguma coisa de reportagem nua, só depois o filme começa a transformar-se no fantasma que a memória altera, e para o qual concorre a fotografia como principal elemento transfigurador das cenas entre reais e imaginadas.

Diferente também é o peso atribuído ao papel das mulheres. A Margarida concentrou a acção nas duas protagonistas, entregou-lhes praticamente toda a pulsão interior e toda a consciência do momento histórico. A voz, e sobretudo o olhar de Eva Lopo e de Helena de Tróia, como espelhos refractários, tiveram, só por si, de concentrar o mundo inteiro que as rodeia. Elas são o mapa interior e íntimo onde se vão repercutindo as oscilações do que se vai passando lá longe, em combate. As minhas figuras esbracejam para fora desse quadro, no entanto não me parece mal a opção da Margarida e do Cédric Basso. Essa concentração reduz o campo dos movimentos, mas dá em coerência narrativa e fluidez o que lhe falta em campo livre. O que falta de varanda aberta. diante dos cometas e dos mortos, aprofunda-se em dramaticidade interior. O mesmo em relação à intensidade da violência. Sendo “A Costa dos Murmúrios” um livro que não vai à guerra, mas não fala de outra coisa senão dela, a imagem da roleta russa foi -me indispensável como concentração do combate, síntese da sua arbitrariedade, paráfrase do vício da violência. Entreguei-me a essas duas cenas com a rudeza própria de quem desejou criar um contraponto em abreviado dessa brutalidade como jogo no tempo do intervalo. Concebi esse transe como coisa rude. Mas a Margarida criou as duas cenas retirando-lhes a parte grosseira, criando no lugar dos tiros e dos tampos manchados das cadeiras vermelhas, sugestões narradas como nos sonhos. Talvez por isso mesmo o filme atinja aí, nas cenas dos amantes, os seus momentos mais altos. É uma violência que fala da violência sem a mostrar, como raramente acontece no cinema. Uma rara decência de narrar. Isso emociona-me porque o pacto, feito no início, está inteiramente cumprido. A beleza está no seu lugar.
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*  Publicado na Revista Única | Expresso, 17 de abril de 2004