quarta-feira, 18 de agosto de 2004

Prefácio * Frei Bento Domingues

Nosso contemporâneo

Lídia Jorge *

A pessoa e a obra aqui presentes, tornadas sujeito desta breve intervenção, lembram-me o aviso de Maeterlink quando diz – Sempre que pronunciamos alguma coisa, desvalorizamo-la singularmente.

Acresce que neste caso a coisa é, como se sabe, uma pessoa singular e a obra em questão apenas uma parte visível dessa singularidade. Na verdade, não estarei sozinha se disser que tentar explicar, nestas circunstâncias, a importância que Frei Bento Domingues assume junto daqueles com quem alguma vez conviveu, poderia ser embaraçoso. Embaraçoso também para ele próprio, que perante a declaração da sua importância face aos outros, não sabe onde pôr o olhar. No que me diz respeito, em contexto diferente, eu hei-de descrever a forma como a sua conduta e o seu pensamento, à distância, me têm sido decisivos no modo de encarar a vida e o Mundo.

Mas agora trata-se, antes de mais, de referir o conjunto das cinquenta e uma crónicas, publicadas no Jornal Público, entre 1994 e 1995, aqui reunidas com o título de As Religiões e a Cultura da Paz, um belo volume ilustrado por uma imagem que representa, na sua ambiguidade, tanto a deflagração quanto a fulguração dos ícones, e inscrita numa colecção cujo enunciado, só por si, inclui a síntese do tempo disjuntivo a que estes escritos se referem – «religião sem Mundo, Mundo sem religião». Eu diria que a ideia que lhe está subjacente, por antonomásia, é precisamente, a reclamação não de um mundo com uma religião, mas um mundo com religiões, e nessa junção ecuménica das totalidades na Totalidade, reside a mensagem de paz por que reclama o título. Esta é a entrada do livro que aqui se manuseia. Ela faz a diferença, no meio do acervo de fanatismos que hoje campeiam. Ela permite inclusive que se aproximem os que crêem dos que não crêem, como se de permeio entre eles, não existisse a separá-los mais do que a espessura dum pano de seda. Permite que se olhem e se interroguem mutuamente, e no mesmo pé de humanidade, os que vivem na Casa da Certeza e os que vivem na Casa da Dúvida, sabendo os primeiros que para os segundos não está apenas reservado o caminho do estorvo, sabendo os segundos que aos primeiros não está apenas reservado o caminho da segurança. Eu diria que é na capacidade de deixar coabitar estes dois espaços do humano, e dessa coabitação retirar as consequências para o incremento da fraternidade, que Frei Bento Domingues consegue criar um espaço de pensamento, entre nós, verdadeiramente original.

Provam-no, de facto, estas crónicas. Publicadas aos domingos, elas são os sermões modernos em que o púlpito foi arrasado, e em que o destinatário, ultrapassados os limites das paredes, se transformou num grupo vasto e diferenciado, tão difícil de determinar quanto difícil de atingir e onde se incluem os crentes, os não crentes, os agnósticos, tanto quanto os duvidosos e os inqualificáveis. O segredo da sua eficácia junto de um público tão heterogéneo, encontra-se ao nível da qualidade do seu raciocínio e da sua sustentação informativa, ambos arredados do forcing persuasivo. Essa originalidade advém-lhe naturalmente do facto de ser, antes de mais, um intelectual sólido, alguém que coloca o espaço da leitura e da erudição ao serviço da formulação dum raciocínio sempre novo e sempre aberto, perante a transformação imparável do Mundo, sismógrafo sensível dos terramotos sociais por que passam os nossos tempos, com um discorrer radicado na sensibilidade à mudança. Por isso mesmo, a parte destas crónicas que é doutrina assume um princípio activo, mas impregna-se-lhe numa totalidade vivencial, como se existisse para iluminar os passos dos homens e nunca para separar-se deles.

Eu diria mesmo que este pregador, que junta ao seu nome O. P., como aviso, é alguém que se move na área da doutrina e da pregação, como se o não fosse, processando o seu raciocínio com uma clareza cartesiana, indo de argumento em argumento, encadeadamente, como um filósofo metódico, até atingir o cinto inultrapassável do dogma, a verdade recebida e não encontrada, espalhada no campo da doutrina. Melhor dizendo, Frei Bento utiliza o cinto do dogma na sua versão mais fina, o menos estranguladora possível, o mais sustentada possível pela evidência do concreto e do provável. Não admira que Frei Bento declare na introdução a este volume, aquilo que se depreende do seu método de trabalho – (...) nunca escrevo sobre um tema sem o estudar de novo, nunca confio no que já sei, detesto o impressionismo. Por conseguinte, não admira também que a sensação que se alcance com a sua leitura seja de clareza, segurança e liberdade, uma vez que o cinto de todos os dogmas ele os sintetiza, em última instância, na evidência de Deus como amor. As crónicas de Frei Bento são “desdobráveis” inteligentes que se oferecem ao pensamento, abertas em várias direcções, e nessa medida também são sermões, isto é, raciocínios que podem conduzir à fé se o leitor aceitar a verdade que o autor toma por incontornável.

Mas se o conteúdo é a forma da matéria, como creio, eu diria que a maior sedução destes textos provém da sua íntima substância. De testando o vago e o impressionismo, não estamos perante um raciocínio lógico, nem seco nem frio. Nestas crónicas, prolongamento de Frei Bento como pessoa, o seu raciocínio nunca está separado da massa sensível que habita as coisas e os seres. Ao ler-se Frei Bento Domingues, percebe-se que se está perante um homem aberto à grandeza. À grandeza do cosmos, à magnânima fragilidade do humano, ao rosto irrepetível nas multidões, à pele da História, inocente e deslumbrado como se fosse um poeta, que só o não é formalmente, porque o poeta faz experiência do escuro e exibe a escuridão como medida, e Frei Bento é um poeta que escolheu à partida a luz do princípio iluminado, e fez dele o seu método de clareza. Porém, dentro de si, conserva intactas essas duas coisas. Só assim se entende que seja um pregador tão hábil, homem de cerimónia e de parcimónia, capaz da paciência e da piedade pelos outros, no circuito do próprio raciocínio. Alguém que discorda, surge contra mas não se in-surge, não cria cisma. Entre os seus, percebe-se muito bem o que recusa, como recusa, porque recusa. O próprio Papa e o Cardeal Ratzinger, bem como Fátima e outras entidades, são figuras que surgem no rodapé dos seus reparos. Há nele, porém, uma forma cordata de discórdia, que passa muito mais pela insistência do que pela indignação. Aliás, em relação aos grandes problemas, depreende-se-lhe uma constante de procedimento notável – é frequente Frei Bento desenvolver um raciocínio, deixá-lo a vibrar intensamente em torno da tese que advoga, para depois suspendê-lo e terminar sem dar o golpe fatal, ficando o raciocínio em aberto, à disposição duma resposta, como se fosse uma conversa interrompida. Por vezes, só assim se entende a sua oposição, ou a sua resistência, ou o seu destinatário, quando posteriormente volta ao assunto, retomando-o pela ponta do ziguezague interrompido. Também só assim se entende como nestas crónicas, bem como nas anteriores e nas posteriores, se desenvolve toda uma cultura de compreensão do papel dos mais vulneráveis, divergente do pensamento dominante, como sucede, por exemplo, no caso das mulheres, tema desenvolvido cautelosamente, sob o anteparo for mal desse tipo de raciocínio inatacável, interrompido no momento exacto.

Mas nem sempre é assim. Por vezes, o pregador da crónica toma a realidade e os factos, e denuncia a incongruência, o anacronismo, o interesse próprio, o miserabilismo mental, juntando as pontas que o evidenciam, munido da ironia. Exemplar nessa desmontagem é a Crónica “a Capital do Bruxedo”, quinta crónica deste livro, peça literária notável. Outras vezes, deixa-se comover pela irritação e pela revolta. Falando do Peru, país maravilhoso da América Latina, aviltado socialmente de todas as maneiras, e referindo-se em particular à cidade de Lima, Frei Bento não tem rebuço em declarar – A porta para este mundo fabuloso é um nojo. Lê-se na primeira crónica desta série. Também na última, a quinquagésima primeira, a que tem por cenário o Chile, a propósito do crescimento económico sustentado, e da cultura do contentamento dos afortunados, pode ler-se – “Há (...) muitos sinais, extremamente violentos, de que os enganados, os excluídos, podem reagir por vias do desespero. Já vai sendo tempo de perceber que fora da solidariedade, fruto do compromisso social e da compaixão, não se pode encontrar uma sabedoria partilhável para viver com dignidade neste mundo”. Estes, aliás, são os últimos parágrafos com que termina o volume As Religiões e a Cultura da Paz.

Dado o que está a acontecer, sete anos depois, poder-se-á perguntar se acaso Frei Bento não foi profeta. Dever-se-á responder que não, que Frei Bento, felizmente, não é um profeta. Trata-se apenas de um homem lúcido, nosso contemporâneo, que leva a coragem, de par com o discernimento e a beleza, na ponta dos seus pés, e não se queixa da mágoa que lhe causa – Foi assim que o conheci pela primeira vez, num inverno já distante, a caminhar numa praia, e a associar a força das ondas encadeadas como se fossem uma sombra de Deus. Do seu misericordioso Deus, que vê no rosto de todos, mas não impõe a ninguém.
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* Prefácio de "As religiões e a cultura da Paz",
Frei Bento Domingues
(Mário Figueirinhas Editor, Porto, 2004)

sábado, 17 de abril de 2004

Depoimento * Sobre o filme "A Costa dos Murmúrios"

O filme e o livro


Lídia Jorge *

O número de imagens que um livro oferece são infinitas, as imagens de um filme são finitas. Da passagem de uma coisa para a outra existe um transvaze inevitável, onde alguma coisa em geral se perde em número e alguma se ganha em intensidade. No caso de “A Costa dos Murmúrios”, apesar de ter tido conhecimento prévio do argumento, e do cenário das filmagens não ser propriamente um mistério, o resultado do filme foi-me bastante surpreendente. As primeiras imagens surgiram e eu compreendi que a história que tinha escrito, sob as mãos da Margarida, e o corpo dos actores, havia-se transformado numa outra realidade, reescrita à luz de um outra invocação. Mas devo dizer, em abono da verdade, que essas diferenças constituem mais revelações do que estranhezas e levaram-me num primeiro momento a revisitar o livro com outro olhar, e a rever o filme pela segunda vez, com um sentimento de muito maior proximidade. Entre filme e livro, afinal, não encontro propriamente divergências, encontro deslocação de elementos e diferentes modos de intensidade, para dizer o mesmo – que se trata do desejo de erguer um relato para não deixar sumir na inadvertência alguma coisa grande e dolorosa, pessoal e colectiva, que persiste, a mesma vontade de criar um espaço ficcional onde alguma coisa fora do paradigma acontece, a mesma vontade de que isso suceda sob o impacto de imagens criadas pela alucinação da memória. Esse parece-me ter sido o nosso pacto inicial, e respeitado isso, o resto é pormenor. Ou estética. Porque os modos sempre são diversos.

Por exemplo, a atmosfera de um filme pode muito bem ser criada por uma marcha oposta àquela que sustenta o livro no qual se baseia. Neste caso, a imagem de Os Gafanhotos como figura detonadora da narrativa, e com a qual o livro abre as primeiras páginas, e que continua a ser o núcleo importante desta história de Portugal em África, não constituiu um motor para a realizadora. Eu estava interessada, desde o início, que o leitor entrasse para dentro duma narrativa onde a memória alucinada tinha de ser mais forte do que a crónica do tempo. Ao invés, a Margarida inicia o filme com a imagem documental do autocarro, e a canção na voz de Simone para se localizar no tempo. Eu diria que o filme arranca como uma crónica. Cenas do casamento, diálogos cruzados, danças dos anos sessenta, toda essa primeira parte tem alguma coisa de reportagem nua, só depois o filme começa a transformar-se no fantasma que a memória altera, e para o qual concorre a fotografia como principal elemento transfigurador das cenas entre reais e imaginadas.

Diferente também é o peso atribuído ao papel das mulheres. A Margarida concentrou a acção nas duas protagonistas, entregou-lhes praticamente toda a pulsão interior e toda a consciência do momento histórico. A voz, e sobretudo o olhar de Eva Lopo e de Helena de Tróia, como espelhos refractários, tiveram, só por si, de concentrar o mundo inteiro que as rodeia. Elas são o mapa interior e íntimo onde se vão repercutindo as oscilações do que se vai passando lá longe, em combate. As minhas figuras esbracejam para fora desse quadro, no entanto não me parece mal a opção da Margarida e do Cédric Basso. Essa concentração reduz o campo dos movimentos, mas dá em coerência narrativa e fluidez o que lhe falta em campo livre. O que falta de varanda aberta. diante dos cometas e dos mortos, aprofunda-se em dramaticidade interior. O mesmo em relação à intensidade da violência. Sendo “A Costa dos Murmúrios” um livro que não vai à guerra, mas não fala de outra coisa senão dela, a imagem da roleta russa foi -me indispensável como concentração do combate, síntese da sua arbitrariedade, paráfrase do vício da violência. Entreguei-me a essas duas cenas com a rudeza própria de quem desejou criar um contraponto em abreviado dessa brutalidade como jogo no tempo do intervalo. Concebi esse transe como coisa rude. Mas a Margarida criou as duas cenas retirando-lhes a parte grosseira, criando no lugar dos tiros e dos tampos manchados das cadeiras vermelhas, sugestões narradas como nos sonhos. Talvez por isso mesmo o filme atinja aí, nas cenas dos amantes, os seus momentos mais altos. É uma violência que fala da violência sem a mostrar, como raramente acontece no cinema. Uma rara decência de narrar. Isso emociona-me porque o pacto, feito no início, está inteiramente cumprido. A beleza está no seu lugar.
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*  Publicado na Revista Única | Expresso, 17 de abril de 2004

sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

Crónica * Eu só pensava, não te vires, não te vires, vai

Piano-bar

Lídia Jorge *

Quando se tem histórias dentro da cabeça, sai-se para a rua e encontram-se duas, volta-se para casa e acham-se três, e se por uma certa noite de Primavera, se sai para jantar à luz das velas, encontra-se uma cena, tão poderosa, que uma pessoa não pode deixar de contá-la. Desta vez foi assim - A mesa estava à nossa espera. Em volta o restaurante, castanho e bege, parecia saído dum sonho antigo. As fotografias tinham a lembrança amorosa das coisas revivais. Mulheres de tranças estavam nas molduras, espelhos aqui e ali traziam de volta épocas de quando havia tempo para uma pessoa se ver ao espelho. E um piano, um soalho de madeira escura, e em volta das mesas, gente de todas as idades. Tudo aquilo muito bem pensado. O passado ali não é uma falsidade, é apenas um passado moderno, uma fantasia de filme para fazer sonhar. Os jovens sabem disso. Procuram o piano-bar para conversarem. Grupos para se divertirem. Naquela noite, as mesas estavam quase todas ocupadas.

Mas numa delas estava um homem só. É preciso dizer que já não era novo. Curiosamente, o homem não tinha chapéu mas era como se tivesse. Estava ali metido numa mesa de esguelha, e logo na passagem, sem dúvida porque jantava sózinho. Eu achava que ele tinha um ar antigo e o sua antiguidade, ao contrário do restaurante que a fingia, era genuína. Achava mesmo que se ele se levantasse teria de erguer em frente do peito, um chapéu, como antigamente os dandys. Estava eu a pensar nisso quando o homem começou a levantar-se. De facto, o homem, já de idade, pousou o guardanapo, abandonou o prato a meio e levantou-se. Não, não tinha chapéu nenhum. Iria sair? Também não. O homem foi até ao fundo da sala e começou a falar com as pessoas de certa mesa. Pensei que se conhecessem e que voltasse para o seu lugar. Mas também não. O homem, já de idade, tinha-se posto a andar de mesa em mesa. Aproximava-se, dizia qualquer coisa, as pessoas escutavam-no, ele abalava e as pessoas entreolhavam-se, temerosas. Temerosas não, talvez risonhas, ou surpresas, como se comprometidas. Até que o homem se aproximou da mesa contígua, e ali encontravam-se uns rapazes, que começaram a rir, e uma rapariga, entre eles, até soltou um espirro, e depois uma gargalhada. Mas em seguida, todos se calaram, e uniram as caras na direcção da vela. Viria o homem até nós? Não viria? Viria. O cavalheiro idoso aproximou-se, baixou a cabeça, pediu licença, e disse - “Queiram desculpar, é só par dizer que hoje é o dia do meu aniversário... Tenham um bom jantar... Muito boa noute...” E o homem idoso, com um pequeno trambolhão, dirigiu-se para a sua mesa e recomeçou o seu jantar. Sozinho, de esguelha, na passagem. As outras mesas quase repletas. Algumas pessoas incomodadas. Talvez sentissem o mesmo que nós sentíamos, porque ninguém dizia coisa com coisa, ninguém falava. Só os rapazes, ao lado, riam.

Nós, completamente assaltados pela surpresa - “Chamamo-lo? Não o chamamos? O que fazer? Vamos felicitá-lo? Já pensámos bem naquilo em que nos vamos meter? Afinal veio junto de nós, e não nos disse nada, a não ser que fazia anos... Será uma pessoa boa da cabeça?...” E na dúvida, com medo de agirmos, de dizermos, nós a mastigarmos o nosso jantar, nem bem nem mal, interrompidos, circunspectos, enviávamos os olhares oblíquos na direcção do homem. Agora ele pousava a faca, o garfo, não tinha querido sobremesa, nem café, sorvia só o que parecia ser um pequeno balão com álcool. Depois, lentamente, pousou tudo, desatou-se de tudo o que o ligava à mesa, levantou-se como se tivesse o chapéu na cabeça, que não tinha, e virando-se para uma mesa, por certo imaginada, entre a nossa e a dos rapazes, despediu-se– “Muito boa noute...” Começando a deslocar-se pelo soalho do restaurante chique, revival. Nós a pensarmos, hesitantes - “Dizemos alguma coisa? Dizemos boa noite, não dizemos?” - Não dissemos.

Não dissemos porque da mesa ao lado um daqueles jovens começou a cantar parabéns, e à segunda sílaba explodiram todos os companheiros da mesa, e levantaram-se todos, e a seguir as pessoas das outras mesas fizeram outro tanto, e ninguém parava. Nem quando chegou o momento de dizer Para o senhor fulano, uma salva de palmas, pois disse-se Para o senhor fum-fum..., espontaneamente, como se estivesse previsto, e prosseguiu-se, porque o restaurante piano-bar, entretanto, tinha-se incendiado. E o homem idoso estava parado, de costas para nós, e não se virou. Esperou até ao fim, e como se fosse empurrado por uma onda invisível que o impelia para o lugar devido, começou a caminhar na direcção da porta, sem se virar, sem nunca se virar. Eu só pensava, não te vires, não te vires, vai, vai indo, ficarás para sempre prolongando esta noite. O momento que encheu esta noite. E depois de o homem idoso desaparecer, os rapazes sentaram-se e riram-se outra vez, pois tudo tinha ficado no seu lugar. Até o homem, lá fora, quanto mais caminhava na direcção da sua casa, mais se mantinha ali, ocupando aquela mesa livre. Onde ficará, sentado.
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* Redigida para a série "Dias Contados", transmitida pela RDP | Antena 2

segunda-feira, 20 de agosto de 2001

Conto * Cálice de Porto

Cálice de Porto

Lídia Jorge *

A fachada era sóbria, as cantarias direitas. Adivinhava-se ali o labor do século dezoito, seus homens de calções brancos e rendas ao pescoço, manuseando o compasso e a régua, a vista rectilínea triunfando sobre o desleixo da natureza mater. Parando o passo, na atmosfera ainda se ouvia o rodado do carro de bois transportando a pedra e o cepo, e mais acima, em sentido contrário, o trote rápido dos cavalos do senhor saracoteando as caudas. À primeira vista, a frente da moradia, entalada entre outras como ela, perfilando-se sobre uma rua curva e estreita, parecia remeter quem chegava para dentro de quadrângulos de apertados espaços. O que era uma ilusão. Pois nas traseiras - porque aí já se tinha entrado, depositado o casaco, e seguido por um corredor ladeado por grandes armários de carvalho - dava-se para um amplo terreno com uma álea de glicínias, um renque de tílias e duas faias espampanantes de vergônteas vermelhas.

Para dizer tudo, era Primavera, fim de dia, e a porta do amplo jardim virado a nascente fora aberta para que se pudesse passear livremente entre buchos, com um copo na mão, tamborilando o gelo. Uma rapariga posta no exterior da porta, como uma cariátide serena, segurava a bandeja. Apesar de tudo, havia quem preferisse ficar no interior, para não se perder o efeito do conjunto. Na verdade as janelas de baía entravam por essa maravilha como se estivéssemos num barco que navegasse em terra, com a proa apontada ao rio. E o rio quase branco, quase de ouro, escorregando como um espelho na direcção do Poente. Abençoados os que ali viviam. A alegria e a serenidade do mundo para os que ali viviam. Felizes também os que ali se encontravam para desfrutar dum fim de tarde como aquele, onde se sentia que por instantes, pelo menos por instantes, a harmonia do mundo poderia ser realidade. Convidados, deveríamos ser uns trinta. Eu não conhecia nenhum dos presentes. Um poeta, recentemente laureado, veio ter comigo. Era um grande bem.

Com um poeta deve-se exactamente começar por aí, por elogiar o espaço. Qualquer poeta sabe que se deve começar pelo espaço, e aquele não era um poeta qualquer. Eu tinha também de elogiar a compostura digna dos convidados, a alegria franca das suas gargalhadas altas, os seus trajes rigorosos, os homens sólidos, as mulheres quase belas, uma ou outra bela mesmo, os cabelos bem postos, bem pintados, as roupas caras. Um sentimento de sociedade como havia muito não experimentava. A crença de que por momentos, pelo menos por momentos, o mundo se estabiliza e a pessoa pode encostar a cabeça no sofá de orelhas e descansar do afã da mudança do mundo, do seu sobressalto eternamente revolucionário. Era isso, eu estava sentada agora a um canto da janela de baía, e à medida que os visitantes do jardim iam regressando do bucho e das faias, o poeta laureado, em pé, com seu copo na mão, ia dizendo – “Pois aqueles são os Figueiroas, aqueles são os Linds, aqueles os Castros... Ali vem a Zili. Ao menos foi apresentada à Zili, assim o espero ...”

Sim, já tinha sido, mas agora ali estava ela de novo, de estatura mediana, loira, cabelo frisado, quase bela, ou mesmo bela, quando séria, menos bela quando falada, não importava, ali estava a dona da casa – “Tudo bem convosco?” – perguntou ela. Sim, tudo bem connosco, o poeta laureado e eu. A porta que dava para o jardim fechava-se, a criada cariátide entrava e a porta da sala de jantar abria-se. Havia cinco mesas. O poeta laureado disse-me – “Vai ver. Tenho a certeza de que nos vão colocar na mesa lírio...” Assim era. Como por vezes, nas recepções oficiais, cada mesa tinha ao centro um pequeno arranjo de flores. Rosas, margaridas, amores-perfeitos, calêndulas, lírios. Cinco flores, cinco mesas. Quatro, uma a cada canto, a maior ao centro. Dirigimo-nos para os lírios. Também ali o século dezoito tinha dado lugar ao século dezanove, grandes obras de beneficiação, com certeza, cem anos atrás. As paredes eram altas e menos espessas, do tecto pendia um lustre de vidros de Morano, e acima dos lintéis, molduras douradas onde repousavam gravuras sobre a foz do Douro e a baía de Nápoles. Um Vesúvio fumegava sobre assinatura inglesa. Sobre a toalha branca onde havia tanta renda quanto linho, talheres e talheres em volta dos pratos reluzentes – três grandes facas, três grandes garfos, duas colheres, uma grande e a outra, a de sobremesa, só um pouco menos grande, cinco copos, cinco frisos, e cada guardanapo do tamanho duma toalha, também em linho e renda com monograma bordado. A cada ponta um grande Z. Sentámo-nos lado a lado. Elogiei o requinte. Todo o poeta sensível ao espaço, o espaço tangível como concha da alma. E ele ouviu o elogio, e pediu que eu olhasse para o dono da casa. Olhei. Na mesa central, o anfitrião ficava em frente. O poeta laureado deixou os olhos vaguearem pelo tecto onde havia cercaduras de estuque, em forma de corda e cachos de flores, prolongamentos das toalhas de renda, e disse – “E o que acha dele?” Todo o poeta sabe que o espírito do corpo como o espírito do lugar, começa exactamente pelo seu exterior. Como eu demorasse a responder, ele adiantou-se – “Permita-me que lhe diga...” Baixou a voz – “É um tanso, e não lhe digo mais nada...”

Mas logo diria. A conversa animou a sala inteira, a sala estoirava de brilhos e o poeta comportava-se como poeta. Sorridente e inventivo. Em breve levaria a grande colher de prata à boca, fingindo que dela deixava cair a sopa, e dizia que nela não via uma colher, mas uma verdadeira concha de repartir, uma pá de caldear massa, uma tolda. “Olhe aqui, olhe aqui...” Como se a alavanca do pulso não aguentasse o peso da prata – “Olhe a tolda...” E as facas? Que pegasse eu nas facas. Cada uma do tamanho duma espada. Inclinado para o meu lado, o poeta manejou com discrição um faca. “Avalie, avalie o peso disto, a espada de Afonso Henriques para se comer à mesa...” E os garfos? Os garfos, grandes, deitados, de dentes recurvados virados para cima, eram umas forquilhas de carregar o feno. Um horror, que já não se usava. Em parte nenhuma do mundo se usava. E Zili, ela bem queria pôr aquilo de lado, substituir aquela armaria por um faqueiro de design sueco, leve, simplificado, mas ele, o marido, um tanso. O poeta sorriu, pondo os lábios de lado, para não ser ouvido pelo vizinho da esquerda. Depois, encostou-se mais e disse – “Repare bem, repare. Com quem se parece o dono da casa? Com quem?” Voltei a cravar a vista no homem de barbas e espessas sobrancelhas, o olhar satisfeito daquele homem que presidia à mesa do centro, a das rosas. Um certo remorso por me encontrar a detalhar a fisionomia do dono duma casa que me havia enviado um convite amável. Mas o poeta nem me deu tempo de raciocinar – “Tem a cara do Darwin, já viu? Exactamente. Um Darwin que nunca tivesse entrado no Beagle, nem conhecido as Galápagos. Um Darwin vinhateiro, mais nada ...” E começou a rir. Começámos a rir. Primeiro pouco, depois muito. Como estávamos lado a lado, na mesa redonda, era necessário virarmo-nos um para o outro para rirmos sobre aquela confidência. Era verdade, olhando bem, assim de frente, o dono da casa parecia-se com o velho Darwin antes de ficar calvo. Mas eu não iria corroborar tal parecença, a mim cabia-me até apaziguar a hilaridade incontida, mergulhando nos detalhes da refeição requintada.

Era difícil, no entanto, suster aquela espécie de rumor. Visto de três quartos, uma pinta em forma de flecha luzia nos olhos do poeta laureado. Uma pinta acesa luzia. Ele chamou-me de novo para a intimidade da manga do seu casaco e disse-me – “Posso desmistificar uma coisa? E posso ser ordinário?” Sim, desmistificar podia, já quanto a ser ordinário duvidava que devesse. Ele não se importou. Nem ouviu. Espiou a desatenção dos outros elementos da mesa e disse – “Aquele homem que ali vê, está a dever os cabelos da cara e de outras regiões do corpo que não nomeio. Com sua licença, não nomeio, mas você entende... Entende ou não entende?” E os seus olhos fecharam-se sobre o prato. Ali já estava o peixe. Sobre o peixe, as alcaparras verdes. O vinho ainda era só branco, levemente afrutado, não muito. Ele bebeu-o dum trago e começou a dizer que estávamos ali, sentados como à mesa dum príncipe, e porventura o dono da casa, de seu, legitimamente seu, já não deveria ter nada. Naquele momento, talvez até aquela própria casa já estivesse comprometida, talvez aquelas paredes até já não lhe pertencessem, talvez aquelas loiças, talvez aquelas gravuras já fossem de alguém que não ele, que ali estava, inchado, presidindo à mesa das rosas. E num arroubo de poeta que tudo vê, através da luz das trevas, disse que levava à boca um garfo que já não era dele, do tanso, que aquele pedaço de peixe que lhes servia já não era dele, do tanso, o tanso servia aos outros o que não era dele. O próprio vinho da mesa, bem como todas as colheitas desde os inícios de noventa, hipotecadas, não lhe pertenciam. Dívidas e dívidas acumuladas, já nada era dele. Aí, levantou ao ar o copo de branco afrutado e disse para o lado, o meu lado – “Beber bem o que não é dele...” O poeta fechando e abrindo os olhos, bebendo do copo, agora, na direcção da mesa central, embora o fizesse sem exuberância, disfarçadamente, coisa só para nós os dois, ali à parte, no rebordo da mesa. O vizinho da esquerda nem de longe se aperceberia do que se passava à sua direita. Aliás, possivelmente, também não se passaria nada. Apenas eu ficava a saber o que todos os outros, por certo, já por demais saberiam. O poeta a sorrir, a rir, a falar baixo para mim, como se os dois em cumplicidade constituíssemos uma seita, e precisássemos preservar entre nós um segredo de iniciados. Por essa altura do jantar, a dona da casa, de costas para o poeta, levantou-se da mesa das calêndulas, e falando com este e aquele, dirigiu-se a cada uma das outras mesas. Dirigiu-se à mesa dos lírios.

Era o que eu adivinhava. Zili falou, colocando mesmo a mão sobre o ombro de um e outro convidado, mas não se dirigiu ao poeta, nem o poeta levantou os olhos para ela. Agora tinham colocado vinho tinto no quarto copo. Quando ela terminou a pequena gargalhada que resultava da troca de impressões rápidas sobre o andamento do jantar e abalou, bebeu-o duma golfada. O poeta laureado inclinou-se de novo para a sua direita e disse – “Casaram há vinte anos, estão para se divorciar há quinze, e agora já é tarde. Têm dois rapazes, dois peralvilhos. Percebe? Mas há dez, doze anos atrás, eram crianças maravilhosas, capazes de se adaptarem a qualquer cidade do mundo ... Sei que não pode compreender. Também não sei porque lhe estou a dizer isto, eu nem sei... ” Um vulto branco servia-nos borrego enrolado. Batatas pequenas, entaladas, feijão verde, meio cozido, como gostam os ingleses. Um molho castanho por cima, gengibrado. A Baía de Nápoles desenhada, em frente.

“Você percebe?” – perguntou o poeta.

Na verdade não percebia. A minha cabeça foi um pouco à frente e veio atrás. Imaginava um esquema simples, previsível. Que sabia eu? Anos antes, talvez aquele homem tivesse proposto à mulher daquele outro homem que saíssem do país para irem viver noutra cidade, como faziam os abastados no século dezanove, levando atrás de si as crianças e as arcas, e ela, Zili, havia sido tentada, mas havia dito que não, numa noite de luar. Como no tempo em que ainda se viajava de vapor e de comboio, um tempo antes do avião, antes do telefone, do morse, do satélite, do fax. Não, não podia ser. Talvez fosse só um sonho unilateral dele, e nada disso tivesse acontecido. Só desejo dele, só ambição dele, do poeta laureado, e ele estivesse ali a falar de alguma coisa vã como uma telha solta, descosida. Talvez o anfitrião nem devesse a mais pequena nota de mil, talvez nada estivesse hipotecado, talvez nada fosse verdade. Ali estava a casa ampla, sólida, murada a uma altura invisível mas palpável. Toda a gente a rir. Na mesa das calêndulas contavam-se piadas e uma mulher chorava de tanto rir. Impossível de acreditar naquilo. O grande problema dum poeta é trabalhar demasiado a metáfora, esquecer demasiado a intriga. Quer se queira quer não, a intriga existe nas vidas, mesmo nas dos poetas, ou talvez por isso mesmo, sobretudo no profundo coração dos poetas, e aquele ali estava a mistificar a parte que lhe pertencia. “Você percebe? Não percebe? Você não percebe nada...” – dizia ele, conivente, a rir. Depois, por instantes, o poeta laureado pôs-se mudo, entregue ao recinto do seu próprio prato de fio dourado, limitando-se ao estreito raio, aquele que passava entre os lírios, os copos e a borda redonda da mesa, e assim permaneceu, a cortar a carne e a cortar carne, sem a levar à boca, sorridente, sem falar. “Não come?” – perguntei ao poeta laureado. “Já vai, já vai...” E bebeu outro gole de vinho tinto, vermelho púrpura, colheita de noventa e quatro. Uma ligeira bolsa debaixo dos olhos, dava-lhe cinquenta e muitos anos. Ela deveria ter uns quarenta, não mais. Até parecia menos, digamos quarenta, já com o acrescento que se supunha que a maquilhagem lhe subtraía. De contrário, eu até diria vinte cinco, vinte e sete, ou trinta, indiferente até a idade que a anfitriã aparentava. Nele sim, no poeta, as marcas do tempo nos olhos e nos cabelos, aqui e ali, essas sim, eram claras. O poeta não iria dizer mais nada? Diga, diga, por favor, poeta .

Sim, o poeta diria.

Não demoraria muito. Ouviam-se falas e tinidos por toda a sala. E no meio de tudo isso, de novo ele foi obrigado a encostar-se na minha direcção, porque um vulto branco e preto colocava nos pratos dourados uma fatia de pudim, uma posta de gelado, e um outro braço, o da moça cariátide, atrás, unia tudo isso com uma colherada de chocolate quente. Quando os servidores passaram ele ainda ficou inclinado para o meu braço, as mangas quase juntas. Ele disse, nessa posição inclinada – “Aquele macacão, em vez de ter embarcado no Beagle e ter casado com a sua própria prima, encontrou a Zili, ficou com a Zili...” Depois, rodou de tal forma sobre o seu flanco direito que surgiu de frente – “Sabe? Talvez não saiba. No nosso país, poeta, só mesmo nas horas vagas. Eu sei do que falo. Compreende? Eu também sou o advogado deles...” Nesse instante, ouviu-se uma cadeira rojar pesadamente. Já tinham servido um Porto Vintage. Quinto copo. O dono da casa levantava-se. A sua gravata de seda era amarela e brilhava como topázio entre as abas do fato escuro. O dono da casa disse, com o seu copo na mão – “Todos os anos... Aqui nos encontramos... Por esta região e esta cidade, pela nossa determinação e nossa força... À saúde de todos os presentes...” E outras coisas assim, discurso de circunstância, sólido e barbudo como os alicerces da casa. Quando chegou ao fim do discurso, Zili virou-se para trás. Eu vi. O meu vizinho também se tinha levantado mas não erguia o cálice, tinha-o deixado pousado. Quando bateram palmas, ele hesitou, depois bateu. Por certo que havia circunstâncias que o obrigavam. Bateu pouco mas bateu, e voltou a levantar-se quando todos se levantaram e se dirigiram para a zona das janelas de baía onde se servia café e mais Porto. Bom Porto. E uísqui, bom uísquw.

Era um ambiente concertado, limpo, rico, aromático. Uma senhora de muito meia idade, inesperadamente com uma pele de raposa ao pescoço, quatro olhinhos de raposa a luzirem no seu peito, disse – “Zili, canta lá para nós, esta noite, canta...” Zili hesitava. Havia quem nem parecesse entusiasmado, depois de tão prolongado jantar. Ou possivelmente, já todos conheceriam a actuação de Zili. Fosse como fosse, ela passou os olhos pelo rosto do poeta laureado, colocado junto ao sofá das orelhas grandes. O marido, o dono da casa, disse – “Querida, faz lá a vontade à Srª D.ª Perpétua...” A anfitriã olhou de novo na direcção da janela de baía onde nós dois, uma seita de dois, nos encontrávamos, e condescendeu – “Então pronto, de Wolf Ferrari, Quando a letto...” E colocando-se num canto, como se fosse só para alguns, para muito poucos, soltou-se dos pratos, das pratas, das rendas e dos estuques, fechou os olhos e começou a fazer soprano, apenas imitação de soprano, mas suficientemente soprano para que todos se calassem e caminhassem nos bicos dos pés para vir ouvir Zili cantar “Quando a letto vo’ la sera...” Uma voz com educação mas sem treino, mediana potência, e no entanto com um pedaço de alma, uma alma pousada nas coisas daquela casa que segundo o poeta já não eram nem dele nem dela, ou eram, mas se eram, na verdade, alguma coisa profunda e essencial lhes escapava como no fumo, a essência. A voz de Zili, ligeiramente trémula, esfumada, era bela ali naquele momento e lugar – “Vo’ la sera, vo’ la sera ...” Cantava ela. No sofá de orelhas, o poeta mantinha-se sentado, sem se mexer, imóvel como um saco de farinha. Quando Zili foi aclamada com a condescendência entusiástica que se dá aos amadores e às crianças, ou às prendadas donas de casa – “Encore, Zili, encore...” - ele bateu as palmas de novo, mas moderadamente. As duas mãos bateram clape clape e depois caíram sobre os joelhos. Quando abalei, ainda ele ali estava, no vão da janela bay window, a olhar. No exterior, a partir da rua estreita, das portas quadrangulares, ninguém diria. Ninguém que viesse de fora, alguma vez diria. Ninguém.
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* Publicado em "Porto Ficção", (ASA Editores, 2001)

segunda-feira, 2 de abril de 2001

Intervenção * Os lugares da Literatura

Pertença e contradição
Antes que nos cubra a pedra
por lavrar
antes que o lavrador perca
a partilha

Um monumento exacto há
que erigir
entre a Batalha e a Bastilha.

Luiza Neto Jorge

Lídia Jorge *
1

Digitalizar0001Discorrer sobre a noção de pertença, como sobre a noção de cisma, traição ou singularidade, significa invocar um estado de lucidez e exercitar uma capacidade de raciocínio demonstrativo que em geral estão ausentes no processo que transforma o sujeito num escritor de ficção. No que me diz respeito, a simples invocação do tema transporta-me directamente até aos lugares ambíguos da Literatura, e a ideia de partilha da pessoa entre si e si mesma, como ser criador e como criatura, expressão de pertença para a qual os gregos encontraram definitivamente a palavra ethos, põe-me diante dos olhos, em vez de raciocínios, a última página da Ilíada, na qual vejo o enterro de Heitor, o corpo cremado de Heitor, os seus restos mortais reunidos dentro duma urna de ouro, amortalhado sob o olhar dos Aqueus, como anúncio do enterro inevitável de Tróia. É assim, indo beber demasiado longe, que me chega a noção de corpo como metáfora da terra de onde se vem e para onde se vai, porém, terra, porção de poeira nomeada com letra maiúscula, a que cada um chama de sua pátria. Como noutras situações se chama família, comunidade, mito ou língua.

Contudo, a noção de pertença nem sempre é servida por imagem tão unívoca nem tão heróica como a representação do domador de cavalos, em prol da sua pátria, por mais brilhantes e rumorosas que sejam essas últimas viagens. Pelo contrário, este é um território sem caminhos direitos nem simplicidades fáceis.

Começa pelo facto de que pertencer pressupõe antes de mais um génesis, o que significa à partida que fazemos parte de alguma coisa que estava feita antes de nós e nos proporcionou o ser antes da existência. Significa sermos do mundo dos outros, termos nascido da vontade ou do desejo dos outros e não podermos ser independentes deles. A pertença ou pelo menos os grandes mitos da pertença começam aí, e por isso, para falar deles é inevitável percorrermos o território involuntário da infância.

Aliás, para quem suspeita que a existência se desenvolve segundo um panorama de “regiões” sucessivas que se vão dando-à-luz umas às outras, a ideia de se descortinar nas vivências iniciais o indício de todas as metáforas da vida proporciona, no âmbito de questões como as da pertença, um munus inestimável de efeitos e causas legíveis - O nosso corpo como pertença de vários regaços, entre eles o da família. A segurança da paisagem como alimento para a concepção da terra, onde está a pátria. O discurso materno como alimento da fala onde está a língua. A permanência dos saberes iniciais transitáveis de geração em geração, como construção dos mitos. Ou a magia da vida sincrética, indistinção entre nome e coisa, relato e facto, como mãe inaugural da literatura. Tudo isso se pode encontrar a residir na infância, como lugar fundador onde estão as raízes mais fundas.

Diz o senso comum que a pertença se fundamenta na configuração dos primeiros abraços, nas primeiras viagens através da terra, nas primeiras ligações ao mundo e à multidão, esse feixe de actos que nos atam aos outros e às coisas para sempre. Por isso pertencer, independentemente do lugar que aí se ocupa, significa ser do outro, de outra coisa, ser do mundo. E a escrita vive disso, dessa sopa mágica indistinta que alimenta a Arte como interpretação do mundo.

Mas o movimento da escrita, o impulso que revela o escritor não apenas como transmissor de heranças, antes como criador de novas paisagens da alma, bem como a energia que o pressupõe, é na metáfora da adolescência, essa outra região mental onde se desenha em todo o indivíduo a traição à sua tribo, que se deve procurar. Tenho para mim que é na repulsa pelo conhecido, repulsa contra a família, contra a terra natal, os mitos locais, a língua materna, os livros dos seus avós e da sua nação, que se faz o adolescente que deseja ser outro, ser diferente, deseja fundar o seu próprio horizonte e o seu próprio tempo, ser pai de um novo mundo, ser patriarca duma nova tribo. À semelhança do escritor, e vice-versa, o adolescente quer conhecer os limites do universo para se auto-avaliar como aquele que deseja transpor o portal do desconhecido. Aliás, à imagem do adolescente, todo o escritor deseja inaugurar um olhar inovador sobre a realidade e a fantasia, e em geral, confessada ou inconfessadamente, é corrente vislumbrar o futuro da sua própria obra não como descendente mas como fundador. Por isso, em relação à noção de pertença, a Literatura aparece como um território armadilhado pela contradição de nela se negar o que não se pode alienar nem se consegue perder.

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É à luz desse duplo movimento de sedução pelos territórios da pertença, e simultânea repulsa pelos mesmos, que melhor entendo escritores cuja emoção literária me faz com frequência revisitar os seus livros. É assim, por exemplo, que entendo Curzio Malaparte, seu amor e aborrecimento pelo seu país, seu envolvimento e ódio pela Europa da sua época, a que chamou com desespero derradeiro de “Mãe Apodrecida”. Ou Faulkner, do outro lado do Atlântico, ao mesmo tempo tão adverso e tão no âmago do seu Sul conservador norte-americano, contra o seu meio contemporâneo ainda meio esclavagista, e em simultâneo rente à autopunição colectiva de que era parte e com a qual se confundia. Ou o contemporâneo Milán Kundera, inseparável do mundo checo de que se fez crítico, fugitivo e ao mesmo tempo, na força da sua dissensão, exímio porta-voz da afasia de um povo dominado de que na altura se auto-excluía. É assim que entendo Virginia Woolf, em cuja personalidade as correntes culturais que agitavam o Ocidente no princípio do século XX, encontraram ressonâncias extraordinárias. Mas a impetuosidade criadora mais genial dessa figura singular parece ter-se formado contra outro tipo de pertenças – as próximas, as domésticas, as familiares, as nacionais, as do mundo íntimo contra o qual se forjou a élite de Bloomsbury. Antes de mais, uma fuga e um corte com a convenção inglesa. Aliás, em Portugal, o exemplo mais eloquente desse cisma continua a corporizar-se na figura de Eça de Queirós, escritor realista do século XIX que concretizou toda uma obra de carácter irónico excepcional, em torno da contradição entre a pertença negada e a espectacular fuga fingida em relação ao seu país. Distantes ou próximos, em todos vislumbro o mesmo movimento de dissidência, o mesmo desejo do caminhante incorrigível de ganhar o largo, ainda que carregando às costas, sem saber, a soleira da porta donde saiu para não mais voltar. Em relação à questão da pertença, é no meio desse tipo de contradição que me vejo.

Contradição que é feita de múltiplos elementos, tecida de infidelidades várias e dissidências complexas em torno do que é a questão central entre ser e não ser, ou ser e não se conhecer a natureza do que se é. Como explicar a pertença, ou mesmo descrevê-la, se pertencer é uma questão central, e no entanto cada um começa por não saber definir-se enquanto pertencido? As próprias áreas da pertença se cruzam e mesclam indefinindo-se mutuamente. Muitas vezes tenho a ideia de que mais do que à sociedade pertenço às ideias. Mais do que à família pertenço aos que amo. Mais do que à Língua pertenço à Literatura. E mais do que a mim mesma pertenço à dúvida. O que significa que eleger campos de demonstração simplificados implica torná-los visíveis, ao mesmo tempo traí-los e, na complexidade da sua raiz, perturbá-los. Mas não resta outro caminho senão o das simples evidências.

3

Assim, a minha primeira ideia, antes de mais, é que acima de tudo pertenço ao mundo, ao mundo contemporâneo que me é dado viver, sendo aí, no seu campo de metamorfose contínua, que encontro o território adequado para perguntar e responder, suster e transformar, acções que mais faço coincidir com a vida .

Ela própria me diz que pertencer significa, como primeiro dado, fazer parte do devir imparável que é o presente, que cada dia amanhece mais adiante e a cada momento funda uma nova era, como disse Musil, e cuja delimitação em termos geográficos não tem significado, ou pelo menos parece não ter. O meu campo de pertença, existência e observação, coincide com um novo “admirável mundo novo” dele fazendo parte, e dele aproveitando os benefícios de comunicação e conhecimento nunca antes imaginados, mas também contra ele reagindo no seu excesso de desumanidades várias. O meu sentido de pertença e sentimento de ser palpável, antes de tudo, define-se em função dos obstáculos à utopia para que aponta o progresso do tempo, como são os objectos inúteis, os objectos de fogo, os detritos, os efluentes ou a imparável pavimentação da terra, sabendo que lhes pertenço, mas que os combato como a castelos inimigos inexpugnáveis e ocupo grande parte dos meus dias em contenda com isso. Julgo mesmo que em parte escrevo sobre a ansiedade por uma espécie de harmonia imaginada, e integro esses elementos como partes de um território de incursão e contenda, perante o mundo que se constrói a uma velocidade incontrolável e com uma opacidade ameaçadora. Uma espécie de pertença contenciosa, gerida sob a iminência do futuro, em torno de uma globalidade genérica que contém homens lá dentro. Homens que não sei se vão ser livres. Então surge-me a ideia de que o território primeiro a que pertenço é o dos homens, na abstracção do conceito maiúsculo de Humanidade e na generalidade do Tempo.

Mas isso não é verdade, ou pelo menos é apenas uma parte da verdade, no que diz respeito à profunda pertença.
4

Quando ocorre ler o que escrevo, percebo até que ponto, de mistura com os elementos duma utopia dirigida ao futuro, de carácter pretensamente universal, transporto comigo o lastro dum passado histórico determinado e a raiz duma nação concreta. A própria avaliação que faço do presente e do futuro não está isenta dessa informação à qual, de forma involuntária pertenço. A escrita, pelos actos involuntários que envolve, pelos gestos apelativos que não acautela, revela faces ocultas e indistintas de que nos julgamos destituídos. Na sequência da primeira imagem ocorrida, eu diria que através dela, o ethos, ou os rostos dos Heitores que existem amortalhados, desfigurados, ou mesmo invertidos, dentro de cada um, falam por si sem auxílio de qualquer voluntariosa pertença. Ao lado de gestos displicentes ou até de desprezo propositado contra a nação, sem querermos, Troias, na iminência de desaparecerem sob várias camadas de areia, reluzem dentro da nossa cabeça, na sua importância de cidadelas mentais. A escrita revela isso, como se não pudesse deixar de ser um espelho de faces que não conhecemos, ou que existindo, não gostamos de desvendar. Só assim entendo que de mistura com o confronto que mantenho com o presente enquanto sua parte, me encontre envolvida com os mitos profundos que governam o imaginário dos portugueses, e justaponha o enigma do tempo que passa ao enigma que empurra a configuração particular do meu país.

Percebo, por exemplo, que transporto desde a infância a notícia de uma espécie de proeza acontecida no dealbar do século XVI de que os portugueses foram autores principais indiscutíveis. Concretamente, transporto um sentimento próximo da estupefacção, pelo facto de um pequeno país, na altura com pouco mais de um milhão de habitantes, ter sido capaz de entregar à Europa dois continentes até então desconhecidos, e ter aberto por mar caminhos alternativos para se atingir os outros dois. Em suma, ter entregue a Terra redonda ao Mundo tal como ficou para sempre e com tudo o que se lhe seguiu. Embora rente aos mitos de grandeza também estejam as perplexidades e os mitos que lhe são opostos. Dificilmente consigo ultrapassar imagens controversas desse tempo, e sempre imagino, quando as nomeio, figuras como as de António Faria assaltando e pilhando barbaramente segundo as páginas da “Peregrinação”, ou como as do seu vice-rei, Afonso de Albuquerque, conhecido pelos orientais como o “leão dos roubos do mar”. Vejo com a ajuda de Pessoa, “dedos decepados sobre amuradas” de barcos portugueses, imagens de crueldade infinita desencadeadas à sombra da bandeira de Cristo, abençoadas pela mitologia da época como uma luta limpa em favor da Fé e da fraternidade no céu, matéria formidável para a interminável continuação da “História Universal da Infâmia”. Espaços tenebrosos sobre os quais se estava a construir então uma futura modernidade saída em simultâneo da coragem e do abominável. De qualquer modo, mesmo quando só para visitar os seus lados escuros e os desdizer, vou lá, vou aos mitos do passado do meu país, como se eles concorressem de longe para a compreensão deste presente inapreensível onde me movo e com contra o qual disputo, porque lhe pertenço .

 5

Então fico a pensar que o enigma de um tempo e de uma nação se assemelha também ao enigma pessoal como partes infinitamente assimétricas mas da mesma espécie, e julgo que afinal, mais do que à questão do território e da História, pertenço ao enigma da natureza, sobretudo a comummente designada por natureza humana.

De facto, interessa-me a pessoa, mais do que tudo, pertenço ao dilema da pessoa, ao território da sua intimidade, ocupo-me da sua composição, suspeitando que a divisão entre corpo e espírito é uma complexa equação sem resolução possível. E esse talvez seja o meu território de incursão e confronto, logo de existência e de pertença, que mais privilegio. A pessoa como contra-destino e destino. Nesse domínio, há muito que me encosto aos olhos alucinados de Emily Dickinson, proferindo com a ajuda dos seus lábios vivos palavras de sedição – “Poeira quieta, tu que foste damas e cavalheiros.” Digo em voz alta. Eu mesma fico quieta e muda, à espera que a poeira se mova e se revele. Não revela. As próprias palavras na surpresa do seu encontro são a revelação. Não há outra. Então socorro-me dos escatológicos, aqueles que desesperados pela ausência de um nome justo para o habitante do corpo, invectivam o corpo, o anatomizam e o descrevem como órfão de uma paternidade inominável, e o vêem ligado à terra e ao estrume como a ficha se liga à tomada. O biodegradável corpo exposto, na expectativa de nomeação, à espera de um princípio que o salve de ser nada. Ou penso, com a ajuda do austríaco Ernest Jandl , as suas próprias palavras – “la machine à merde est pour est pour l’essentiel en toi/ miracle de la crétion, merveille chancelante/ tu n’es ni son ingénieur ni son inventeur/ mais son propriétaire, gardien et profiteur”. Pronuncio assim mesmo essas exactas palavras de abjecção, porque elas traduzem o sentimento dos que se sentem sem-terra de tudo ser só terra, se sentem sem-corpo, de tudo ser só corpo, a ligação cortada entre o céu e a matéria. Cortada, como um estado decepado, um trauma. Eu própria acho que nunca escrevi nenhuma página que não tivesse essa inquietação implícita, mesmo quando não expressa. Mais do que a um lugar ou a uma viagem, pertenço à região desse ferimento e à inquietação que o sustenta.

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Só que de novo, atrás do homem está a História, mesmo quando reduzido ao papel fantasioso de personagem comum. Na verdade, mesmo quando julgo o contrário, descubro que jamais escrevi apenas sobre a fotografia da mãe antiga colocada sobre a aba da mesa moderna. Sem o desejar, o mundo de onde a mãe e a mesa procedem arrastam rios de tempo significativo e lugares habitados por gente histórica, fazendo confluir atrás de si todos os outros elementos de pertença. Em ficção, a espera de um laço salvador que una as metades do corpo, com a outra parte que o nomeie, toma a forma de personagens comuns que devem viver só por si, e em simultâneo entroncam no destino de personagens herdadas de há séculos, por estranho que pareça. Talvez porque dos mitos - aos quais de novo voltamos - sobejem partes móveis que caminham activas ao encontro do presente, desde que o presente ainda os continue a entender como traumas e coincidam consigo. É o caso do sebastianismo, entre nós, por exemplo.

Trata-se da história dum jovem rei lunático, sem filhos, que desapareceu em luta contra cinco reis mouros, nos areais do Norte de África, no final do século XVI, e de onde nunca mais voltou nem vivo nem morto, dando origem a uma expectativa de regresso salvador que foi passando de século em século. Figura real enlouquecida, misto de Quixote e Godot, foi permanecendo até hoje, no meu país, confundindo-se com a noção corrente de que o bem e o bom estão do lado de fora, que tudo o que há a fazer é deixar a porta aberta para que aquele que vem possa entrar. O mito é terrível pelo imobilismo que arrasta. Diria mesmo, aparentemente, desajustado à realidade actual. No entanto, como muitos outros, através de algumas personagens, percebo que eu própria o transporto, mesmo que deseje fugir do país que o contém e o renegue por deliberação tomada. Pois por que razão o não transportaria eu como os outros, como cada um? O universo de uma população é feita por acaso de números abstractos? E não é quem escreve uma pessoa comum? Então porque razão quando me pergunto sobre o destino do corpo e a natureza do seu habitante invisível, hei-de estar a salvo desse terrível fantasma que habita os cantos do meu país, alma sem corpo, fantasma no corpo de gerações e gerações sucessivas de gente que o perdeu e nunca o encontrou? É vergonha dizê-lo? - Quando menos me dou conta, percebo que esgotado o vocabulário da dúvida, eu mesma pertenço ao fantasmas.

Mas há mais.

Por exemplo, durante séculos, o corpo geográfico do império funcionou como uma realidade descomunal. Desde o século XVI que os portugueses se gabavam, com a ajuda dos versos de Camões, de jamais se pôr o sol nas terras de Portugal, aquém e além mar, sendo África depois da independência do Brasil, a jóia mais preciosa da coroa, destino transcendental da pátria. Mas no final do século XIX, estabelecida a disputa entre as potências europeias pelos domínios africanos, Portugal foi vencido pelos ingleses na contenda da partilha de África. Ainda hoje o hino nacional português, nascido na sequência do célebre mapa-cor-de-rosa, mantém os vestígios desse terrível momento de perturbação. Acaso não se reconhece no refrão do hino nacional, “Heróis do Mar”, a letra primitiva “Contra os bretões, marchar, marchar...”? Na altura, uma das formas encontradas para reagir à perda? Não admira que o ridículo e a perda sejam comportamentos que passam para os domínios próprios da Literatura, mesmo que ela seja por natureza muito mais transfiguração do que retrato.

E setenta anos depois, em relação a esses mesmos domínios em África, não ficaria envolvido o país numa Guerra Colonial fora de horas, tão dolorosa que ameaçava fazer apodrecer todo o tecido social, e que viria a terminar, fora de horas também, por uma perda tão grande, que ainda hoje não se consegue gerir com decência, nem do lado de cá nem do lado de lá? Pois talvez seja difícil a qualquer escritor da minha geração falar do corpo e do fluido que o anima, sem que a referência ao esfacelamento inglório de contingentes inteiros ocupe um lugar de destaque. É mesmo capaz de ser difícil, para uma pessoa que fez a guerra de África ou a acompanhou, e teve o seu primeiro embate com a morte desse modo e nessas paragens, de não perguntar pelo sentido do corpo, vendo diante de si, gente esmigalhada, entregando o corpo à terra no meio do mato, por uma causa de nada. E quem diz o sentido do corpo diz o sentido do dever e do desejo, e do amor, talvez o da morte em primeiro lugar. A prova de que uma parcela de nós mergulha no terreno colectivo de que faz parte, sobretudo se parte das narrativas que o constroem ainda não estão fechadas.

7

No caso do nosso tempo presente, todas as narrativas se encontram abertas, dispostas à transfiguração, sobretudo quando o presente que testemunhamos e vivemos se afigura enquanto problema. Há momentos e países que pela sua situação de aceleração histórica, ou por confluência de factos, se encontram mais disponíveis à transfiguração do que outros. No caso português, a própria natureza das mudanças ocorridas durante os últimos vinte cinco anos, torna inevitável, ou pelo menos propicia a criação do outro relato, o ficcional, aquele a que Carlos Fuentes designa por “criação de uma Segunda História que cega e diminui a dos historiadores de arquivo”, baseada na memória e nos projectos pessoais. A propósito da Literatura portuguesa recente, é corrente referir-se essa coincidência.

Mas aí também, como em tudo o mais, sempre se pertence às conjunturas históricas por círculos concêntricos, de intensidade diferente e de vária natureza. Nesse domínio, mais do que ao meu país de há vinte cinco anos atrás, pertenço à determinação e ao acontecimento que lhe mudou o rumo. Pertenço à matéria palpável da alegria que aconteceu na sequência de uma revolução que pôs termo à ditadura de meio século que se havia abatido sobre a sociedade portuguesa desde os longínquos anos vinte, até aos anos setenta, ditadura sustentada por élites sem qualquer noção de partilha e por um povo iletrado e supersticioso destituído, na sua generalidade, de qualquer noção de revolta. Pertenço ao dia em que essa cadeia de equilíbrio recíproco se quebrou, em que fui testemunha de como é possível inverter a marcha do que parece inevitável, pela força da coragem pessoal de um grupo. Pertenço a esse momento como a um ponto de encontro entre a justiça e a inversão do destino, em forma de gente, milhares de fotografias a preto e branco, com flores vermelhas. E porque essa certeza foi adquirida quando a juventude ainda se assemelhava à adolescência, ela incorporou-se no sangue, ou no genoma, ou seja onde for, e transformou-se numa espécie de segurança que me sustenta o ser. Ou melhor, esse momento habita comigo como um ente querido, tem corpo e ocupa espaço e reivindica gestos, como uma pessoa de família. Pertenço a esse momento como se pertence a uma geração, e penso mesmo que a minha geração, se existe enquanto consciência de grupo, está concentrada em torno desse acontecimento. Assim como pertenço à sociedade que daí saiu, a braços com a redefinição dos seus vizinhos, seus aliados, seus novos valores e duros percursos, suas metas demasiado altas para serem atingidas demasiado rápido. Uma sociedade na generalidade constituída por gente muito pobre que rapidamente começou a desejar ser muito rica, mais do que ser democrática ou estimar os valores da partilha, do saber e do discorrer livre. Porque uma parte dela, muito mais do que era suposto imaginar, continua a desejar prolongar estruturas mentais que faziam o mundo antigo. Nesse domínio, pertenço-lhe por repulsa e por mágoa. Pertenço-lhe por inevitabilidade de lhe pertencer. Por isso, mais do que à sociedade dentro da qual sou número e tenho um nome civil, pertenço ao mundo dos meios que a reproduzem por palavras, a lêem em termos críticos ou mais propriamente a alteram e a transfiguram. Pertenço-lhe com a mesma contradição com que pertenço ao tempo contemporâneo.

8

Pertenças várias e inúmeras que funcionam como laços mas também como destinos e condenações, ou como matérias-primas, no caso de se encontrar o veículo que as transporta para o lugar do não-destino. Por exemplo, a Literatura, que em si mesma é um espaço de corte e liberdade. E que dizer sobre isso?

Que pertenço à Literatura, campo das palavras libertas do real, e dentro dela à ficção, o terreno da transfiguração dos factos em actos simulados. Na verdade, a sua natureza e função consistem em escolher, inverter, desfigurar o que está dentro da matéria das pertenças, de modo a produzir-se uma nova realidade verdadeira, que não se opõe à realidade falsa, e nesse salto de qualidade e espécie, consiste a criação, isto é, o acrescento de alguma coisa ao mundo que antes lá não estava. Naturalmente que se pertence à Literatura e à ficção sem a noção dessa importância. Começa-se por se pertencer porque sim, porque acontece, porque se tem a ideia, como leitor, de que se pode sonhar. Depois é que se entende que se pertence a uma matéria que se desprende da prisão do real, para dizer que ele não é suficiente, impondo-lhe uma nova lógica, ou tornando-o visível nas suas partes vivas, lá onde havia um limbo amalgamado. E na participação dessa acção de liberdade, consiste nascer o criador que é o leitor e é o escritor, diferentes, mas irmãos. Nascer e crescer no espaço de liberdade que permite abrir uma nova possibilidade entre as outras, e desse modo, à reprodução de qualquer dilúvio terrível que esteja em nossa mente, sempre se pode juntar uma barca. Pelo menos, se outra não for, que seja a própria barca das palavras, a que melhor une um a outro.

Ou por outras palavras, a Literatura, e dentro dela a ficção, permite que a corrente falada em todas as direcções, como uma matéria optativa permanente, transforme o outro num igual a mim mesmo, e se crie um corpo de afinidades consentidas, responsabilidades cruzadas e culpas divididas, já que procura atingir, através de cada personagem, simulacro de gente, o coração profundo do homem, esse local onde as diferenças se esbatem em torno daquilo que faz cada um dos implicados pertencer a um todo. Determinada noção profunda de comunidade, só se aprende na Literatura. Nesse sentido, para alguns leitores da minha geração, o romance “Por quem os Sinos Dobram”, acabou por ser muito mais importante pela epígrafe que permitiu o título do que pela longa narrativa em si mesma. Hemingway apenas copiou, como portal da primeira página desse livro admirável, a invectiva de John Donne – “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra; se um Torrão é arrastado para o Mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um Promontório, como se fosse a Casa dos teus Amigos ou a Tua Própria; a Morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do Género Humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por Ti”.

Pertenço à Literatura e dentro dela à ficção, por esse serviço que presta à totalidade, em torno dos desejos que nos são comuns traduzidos em imaginação pela palavra liberta. Em Literatura, não há imobilização nem morte de Heitor. O momento de pedra que não se ergueu entre a Batalha e a Bastilha, está sempre a ergue-se. Um e outro são válidos sem a fronteira das palavras das línguas, agarradas à circunstância geográfica. Aliás, na contradição entre pertencermos e libertarmo-nos daquilo que pertence à Língua, que sempre escreve o modo do nosso pensamento antes de nós próprios podermos escrever, e connosco se confunde como parte do nosso corpo, a língua materna é uma liberdade e ao mesmo tempo uma condição insuficiente.

Neste campo, seria mesmo uma falta não dizer que pertenço à Língua Portuguesa. É com ela que estabeleço a minha luta e o meu confronto e os meus actos mais livres que são os de dizer. A exaltação das suas virtudes e possibilidades não pode ser regateada. Existem monumentos infindáveis de elogio à minha língua e concordo com todos eles. Mas por vezes dou por mim à procura de nuances que não apresenta, modos que impõe, liberdades que me tira ao lados das liberdades que dá. Talvez como em todos os outros idiomas, lhe faltem palavras para traduzir sentimentos complexos onde os vocabulários são simples. Faltam chaves. Faltam, por exemplo, termos para traduzir a voz dos seres que se movem e nos imitam nos actos do sono e do amor, mas não falam nenhuma linguagem que se entenda. Faltam as palavras para traduzir o que diríamos se fôssemos seres inanimados que não nos dizem nada e nos quais julgamos existir uma natureza significativa. Uma vez que somos pouco e o mundo da expressão é vasto, por que razão as línguas não são tão vastas, nem tão dúcteis nem tão universais quanto sonhamos, para que a Literatura seja um campo sem barreiras? De facto, a vocação da Literatura é fundir-se com o próprio segredo do mundo que permanentemente questiona, como se antes de nós tivesse havido um acto interrompido, e as palavras, acima das fronteiras das línguas, ainda pudessem ligar o mundo ao seu sentido. Estar aí, saber que não posso sair desse dilema nem o posso resolver, é a minha pertença.
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* Texto publicado nos Cahiers de la Villa Gillet (N.º 13, abril, 2001),
tradução de Margarida Ochôa e Pierre Zalessky,
e na Revista Atlântica (N.º 5, volume outono/inverno de 2006/2007).
Reconstituição de uma intervenção na Villa Gillet (Lyon, 2000),
no ciclo de Conferências sobre Literatura Europeia.

domingo, 13 de agosto de 2000

Depoimento * Eça de Queirós

Máquina voadora


Lídia Jorge *

A um ícone não se lhe descobrem feições, apenas se lhe acrescentam flores. Mas no caso de Eça o seu corpo ainda não é de mármore. Vislumbro-o atravessando a Terra, mudando de vapor para vapor e de carruagem para carruagem, apertado de dores de estômago e rindo do mundo como ninguém, até àquele dia de Verão em que regressou da Suíça para se esconder em Paris, definitivamente.

Aliás, é em Paris que melhor o vejo.

A segunda casa de Neuilly sobressai dum razoável jardim e nele uma hera agarrada à treliça espalha-se com demasiado viço pela parede. Serão aí tiradas as melhores fotografias da família quase sempre em contre-plongé. Mas o momento em que melhor o vislumbro é uma certa tarde de Outono nessa Neuilly imprecisa. Eça está sentado a uma mesa, a toalha branca ainda tem os vincos da gaveta e sobre ela um visitante desdobra uma pasta e mostra uma pequena aguarela representando um desenho em forma de esquema. O esquema representa um projecto estranho. Luís Serra, o visitante, é o inventor do projecto e para a amenidade da tarde, tem demasiada impaciência. Ainda se está em 1893. Daí a alguns anos terá lugar a grande Exposição de Paris. Se o inventor português conseguir financiamentos e engenharia suficientes, a máquina desenhada na aguarela vai ser construída e apresentará a forma duma torre de aço de balsas suspensas, com capacidade para fazer voar, cem metros acima do solo, quatro mil visitantes por hora, no que calcula ser um raio de três quilómetros por cima da futura Exposição Universal de Paris, ano de 1 900.

Nesse caso, Luís Serra, seus eventuais mecenas, engenheiros e sócios, todos poderão ficar ricos. Se o próprio Eça quiser fazer-se sócio também será recompensado. Eça vai querer, e por isso em breve firmará contrato com o inventor da máquina voadora, empenhar-se-á pessoalmente no assunto e continuará a adiantar dinheiro do seu próprio bolso para o negócio. Mas o “Voyage Aérien”, espécie de Torre Eiffel estilizada, que depois as feiras do século XX haveriam de popularizar em miniatura, nunca terá um pilar de ferro nem uma única haste real, apesar dos esforços desesperados de Luís Serra, do próprio Eça e das esperanças nele depositadas por Emília de Castro ao longo de vários anos. E aí, se eu tivesse de sintetizar o génio de Eça através duma imagem que não fosse a de um corpo magro segurando a estátua duma mulher despida oferecendo os braços, como a que está na Rua do Alecrim, eu imaginaria Eça sentado no meio de pilhas de jornais e livros , a escrever a crónica sobre “Guilherme II da Alemanha”, um dos mais acutilantes e proféticos textos sobre o que viria a ser o futuro da Europa comandado pelo princípio da personalidade e da Acção germânica, tendo por fundo, contudo, não uma risonha paisagem dos Alpes ou dos Apeninos, mas o esquema alado do seu amigo inventor a quem retribuía a confidência e os sonhos, com aflitivos empréstimos dumas centenas de francos.

Que me perdoe desta irrealidade o próprio Eça ou o seu ícone, se puder.

Sei que os anos aventurosos do jovem cônsul na América Latina deveriam comover-me muito mais, já que entre a juventude e os primeiros amores se tece o melhor do destino. Também a vida de desterro que levou em Newcastle, amarrado entre a lareira e a vela, sentado em frente da mesa pequena onde engendrou a obra grande, deveria exercer no mundo das minhas imagens uma outra sedução. Mais que não fosse pelo rugido das ondas do Mar do Norte de cuja ondulação nunca se apartará definitivamente. Também a visita ao Suez onde viu as águas de dois Mares unirem-se e os pastores de camelos pela primeira vez na vida matarem a sede na abundância, bem como toda a viagem ao Oriente, donde trouxe efabulações fantásticas sobre areais a perder de vista e muros bíblicos, sandálias de Cristo e civilizações arruinadas, tudo isso poderia ocupar um bom lugar nas visitas que lhe faço. No entanto, por oposição a esses mundos vastos, é no aconchego de Neuilly, Avenue du Roule, que melhor se me revela o autor como caso e como mistério.

Parece que é nesse tempo que tudo se acelera e tudo se lhe exige. Multiplicam-se-lhe as ambições como homem de Letras, mas também os afazeres, os negócios, os encargos com os filhos, bem como as solicitações de uns e de outros em todas as direcções. Aumenta o número de criados, de queixumes, de dívidas e aumenta sobretudo o número e a diversidade das doenças familiares. E Eça, desde há algum tempo casado, amado e disciplinado por uma mulher extraordinária embora convencional, parece ter desejado proceder ao esforço de conciliar o irreconciliável. Estou em crer que essa última década, passada em grande parte rente à hera viçosa daquele jardim protector, foi testemunha de como um escritor genial tentou amarrar com várias cordas o minotauro indomável que existia dentro de si. E desse esforço nunca se poderá dizer ainda bem ou ainda mal. Apenas se pode dizer – Foi assim. Talvez por isso, sempre que vislumbro Eça, debruçado sobre a mesa do seu gabinete de trabalho, o veja acompanhado pelo desenho da máquina voadora do amigo Luís Serra com seu inacreditável contrato. É como se o esquema da máquina voadora estivesse sempre a lembrar que jamais se sabe onde começa e acaba a irrealidade, nem onde esmorece o espaço livre da inteligência e se inicia a emaranhada aflição de viver.

É assim que o vejo. Imagino-o dividido, ensaiando uma estranha forma de submissão a alguma coisa cuja verdadeira natureza nunca irei encontrar revelada. No artigo da sua contemporânea Emília Pardo Bazán, publicado em Madrid, no dia em que Eça fazia quarenta e quatro anos, e que Campos Matos divulga na “Correspondência Epistolar” - onde, aliás, vem reproduzido o esquema da máquina voadora - a escritora galega fazia um encómio inteligente à figura e importância de Eça, e a dado passo, a propósito da relação entre autores e seus públicos, sublinhava a ideia de que o escritor actua sobre os seus leitores ao mesmo tempo que estes, por sua vez, exercem sobre o escritor uma opressão extravagante. São suas as seguintes palavras - “Toda a massa de leituras desenvolve por meio da sua simpatia, da sua surpresa, e até mesmo do seu protesto de indignação, uma corrente eléctrica que se comunica ao escritor e influi decisivamente na direcção do seu engenho” .

Claro que a senhora não precisava lembrá-lo porque Eça também o sabia. Todo o escritor o sabe. Sobre tal matéria só o que não se sabe é onde reside a fronteira da resistência a esse eflúvio exterior. E no caso de Eça, o que particularmente incomoda é não saber, apesar de tudo quanto o próprio disse a seu respeito e outros já aventaram, que tipo de opressão o fez mudar de rumo e o tornou melhor comportado, mais complacente, nacionalista e até risonho.

Necessidade de amor? E que espécie de amor? - Terá cedido à opinião dos que interpretavam um livro como uma esfera e se encarniçaram contra a celebrada imperfeição de “Os Maias”? Terá achado que tinham razão aqueles que o culpavam de ignorância sobre o seu país, malvadez, estrangeirismo e snobismo ultrajante? Ter-se-á cansado de responder aos portugueses como respondia a Pinheiro Chagas, com sete navalhas mortais, a partir de Bristol? Ou simplesmente o seu coração nervoso cedeu à voz oculta que coincidia por acaso com a de Emília Pardo Bazán ? Escreveu ela nesse artigo de agradecimento pela visita que Eça lhe fez - “Este grande artista português seria muito maior, quase perfeito, se tivesse brotado da própria entranha da sua nação; se fosse castiço, puro, lusitano ou peninsular até à medula, filho e continuador da tradição literária do seu país”. E Eça, que durante as horas que permaneceu no hotel da senhora, segundo confissão da própria, nem foi aquecido pelo lume da sua lareira, voluntária ou involuntariamente , acabou por fazer-lhe a vontade. Aí viriam “ A Ilustre Casa de Ramires”, embrenhada em suas paisagens bucólicas, e sobretudo a didáctica “ A Cidade e as Serras”, para fazer bem aos adolescentes, às senhoras e aos cristãos de Portugal. Que alívio! Finalmente o filho pródigo voltava à casa mãe, ou pelo menos ao solar natal. Voltava cansado e quase puro. Aliás, em breve voltaria morto. País finissecular decadente, com medo pânico da Cultura, fingindo que apenas tinha medo do sexo, nessa altura não lhe regatearia obséquios.

Pergunto-me mesmo quantas das missas rezadas por sua alma em solo português não terão sido decididas por altura daquela passagem em que Jacinto pede ao amigo que deite fora certas revistas atrevidas. Ouço uma senhora de espartilho a ler – “Era uma papelada, de que eu me sortira na estação de Orléans, toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo:

- Deita isso fora!”

Zé Fernandes deitou.

Agora sim, o grande prosador estrangeirado tinha escrito coisa que se lesse. O resto, o que estava para trás, que ficasse amarrado dentro das arcas ou se deitasse fora como Jacinto pedira que se fizesse às revistas de Paris. Era um consolo. Finalmente os dois últimos livros de Eça podiam ser oferecidos às raparigas casadoiras que soubessem ler e até ser colocados na vitrines da casa, ao lado do canapé . Porque não?

Mas voltando a Neuilly e à hera que alastrava pela parede, é preciso dizer que nem todas as pernas dum minotauro se conseguem atar em simultâneo. Tocado de várias maneiras pela obsessão de interpretar a Civilização de que era paladino e usufrutuário, ao mesmo tempo que engendrava regressos de Jacintos a casarões pátrios, símbolos de mundos feudais que Eça sabia condenados, enquanto isso, nas contemporâneas “Cartas de Paris”, Lisboa e o decadente mundo português continuariam a ser zurzidos sem piedade. Era como se Eça tivesse quatro braços, quatro mãos, várias penas e de todas elas fizesse uso ao mesmo tempo. Numa dessas cartas, escrita possivelmente por volta de 1893, só em duas páginas e a propósito de cidades e civilizações, Eça não deixou de associar, pela insipidez humana, a cidade de Lisboa com a superfície da Lua. Para logo lembrar que Lord Byron também havia declarado que o elemento que estragava a beleza de Lisboa era precisamente a presença do lisboeta. Mas uma amostra de Eça, o verdadeiro Eça, rindo em todo o seu esplendor, encontra-se numas linhas atrás da mesma carta. Escreve Eça com a sua pena mais genuína entalada nos dedos da mão direita - “ .... a verdade é que, fora de Paris e Londres há bastante humanidade. São Petersburgo não forma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não é uma só floresta de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa mesmo se encontra, de vez em quando, um homem”.

E adiante, bem mais adiante, ainda num desse bilhetes contemporâneos do regresso de Jacinto às eiras e aos quintais, Eça toma por vítima a actriz francesa Sara Bernahardt e desfá-la, num escrito intitulado “Aos Estudantes do Brasil, sobre o que deles conta Madame Sra Bernhardt”. Terrível. Poucas vezes a ironia de um escritor terá conseguido ir tão longe. Um carnaval de imagens e chacota faz a actriz montar um bando de estudantes brasileiros como se fossem bestas, mas de tal forma engenhosa e sarcástica resulta essa comédia, que Sara Bernhardt acaba por ser não a pessoa levada aos ombros no auge de seu triunfo e glória, mas a figura verdadeiramente atrelada. Aliás, Portugal não está arredado dessa monumental paródia. Eça lembra que, à imagem dos estudantes brasileiros suspensos do brilho de Sara Bernhardt, também os estudantes de Coimbra, alguns anos atrás, tinham puxado por certa caleche forrada de damasco azul, e até haviam puxado a galope, relinchando de puro entusiasmo, pois lá dentro seguia o vigésimo oitavo rei de Portugal de visita à Academia. E como tinha o soberano recompensado os estudantes que quadrupedamente haviam desse modo relinchado o seu amor pelo rei? Nada mais nada menos do que isto - O rei português havia concedido à Academia oito dias de feriado.

Pode-se ler numa das últimas “Cartas de Paris”.

Delirantes páginas, maravilhosas páginas de riso e insubmissão, as destas cartas escritas com a melhor das penas. A melhor pena da sua mão direita, a que iria fazer escola durante largas décadas. Aliás, durante todo o século XX, sempre que em Portugal se pretendeu rir por escrito, Eça esteve presente, e continua a estar, como se só ele constituísse um género. E tudo isso, enquanto uma outra pena – a quarta ou a quinta das suas penas - apontava para os profundos da terra e as lonjuras infinitas do céu e escrevia sobre as terríveis vidas dos santos. Noites, trovoadas, tentações, desfiladeiros abissais e montes intransponíveis, pondo à prova farrapos de homens, oscilando entre a queda e a sublimação, como no princípio das suas prosas, quando então ainda eram visivelmente empurradas por Hoffmann e Poe . Penas distintas, várias, uma em cada uma das várias mãos, para servir vários mundos, embora com uma mesma poesia e uma mesma língua, sob a qual existia um só homem.

De facto, de que teve medo? A que Deus de partilha ou a que Diabo, obedeceu?

Às vezes, por Eça penso em Nietzsche, como ele desaparecido em 1900, como ele interpretando sem piedade a crise do seu tempo e abrindo assim as portas para o dia seguinte. Penso sobretudo naquele momento em que o filósofo do Eterno Retorno se abraçou ao cavalo maltratado, beijando a carne quente da besta. Nietzsche deve ter visto no animal, que o cocheiro espancava com brutalidade, a dor da matéria viva deste mundo e pôs-se a beijá-la. Foi aí que lhe chamaram de louco, com propriedade. Não direi tanto de Eça. Eça nunca enlouqueceu. Mas também nunca desesperou. Alguma coisa suportou o seu aspecto formal intacto, viajando com seus livros e malas arrumadas até ao último regresso a Paris. Terá sido, porventura, a poesia do riso que o conduziu assim, sóbrio e discreto até às últimas páginas escritas em Neuilly. Aliás, venha de onde vier, sempre o vejo regressar a Neuilly . Naturalmente que a fixação numa imagem é a nossa forma de desistirmos de sermos sérios ou prescindirmos de sermos totais. Assim retribuímos uns aos outros a limitada forma de sermos homens, mesmo quando admiramos alguém sem limite e quereríamos dizê-lo. Talvez por isso, por prescindir da totalidade, eu continue a ver Eça a escrever, dois andares acima da hera que nunca o alcançou, protegido na prática por sonhos irreais como os do amigo Serra, torres de viagem alada com hipotéticos lucros e outros afins, que o terão impedido de beijar cavalos.

Mas tudo isto é apenas uma forma imperfeita de o visitar. Amanhã, prometo, só haverá flores.

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* Texto inserido na coletânea "Retratos de Eça de Queirós",
edição coordenada por Isabel Pires de Lima 
(Porto, Campo das Letras / Fundação Eça de Queiroz, 2000)

quarta-feira, 1 de março de 2000

Depoimento * Língua portuguesa

Português, língua de distância


Lídia Jorge *

É muito perigoso o nativo de uma língua discorrer sobre ela. Quando uma pessoa menos se apercebe, já invocou os maiores poetas da nação e já lhe chamou de tudo o que de melhor existe em termos de imagem e tropo - rio de mel, campo de flores, doce teta, mãe eterna. Não admira. A língua, na plenitude do seu uso, é um instrumento da inconsciência. Pensar nela a partir de dentro, só pode resultar no agradecimento da sua virtude e descrição da sua bondade. Fale-se da língua materna e o mais universalista fica patriota, o mais estrangeirado sente-se saudoso, o mais irónico torna-se reverencial. Por isso mesmo, não costuma ser um erro escutar o que os outros, os das outras línguas, dizem da nossa própria.

Nesse domínio, existe uma asserção atribuída a Cervantes bastante reveladora. Terá o autor de El Quijote dito, ou mesmo deixado escrito, que "O Português é o Espanhol sem ossos". Os próprios portugueses o repetem numa versão porventura mais próxima do original - "El portugués es el castellano sin huesos" - para melhor saborearem a ironia ou o despeito que desencadeia.

Claro que existe neste raciocínio uma redução própria de vizinhos bastante curiosa, mas não me parece que esta seja uma afirmação propriamente difamatória, e além do mais contém em si elementos que permitem iluminar traços distintivos daquilo que é a nossa fala. É que, para os outros - e a língua nasce em nós mas dirige-se para os outros - antes de ser um sentido, ela é, primeiro que tudo, um som. E não deixa de ser verdade que em comparação com as vértebras e as formações galopantes da língua espanhola de Espanha, a língua portuguesa desdobra-se como um corpo falado suave. A imagem é primitiva, e pode roçar o simplório, mas é verdade que, comparando as duas mais importantes línguas ibéricas, em termos de som, o espanhol contém no seu andamento uma espécie de cavalo a trote, várias patas movendo-se rápida e sacudidamente, sua crina altiva, sua unha protegida e ferrada. Enquanto que o som do português, nasalado e gutural, íntimo e grave, por vezes soturno, como o russo ou o polaco, desenvolve-se como a modulação dum líquido que corre. Claro que há muitos tipos de líquido e muitos tipos de curso. Nós, pela proximidade, como não poderia deixar de ser, associamo-lo à ondulação do mar. Um vaivém contínuo e grave, rápido com ar de lento, intenso com som de esbatido, faz do seu fluxo frásico, um corpo quase horizontal. Deduza-se o que é possível deduzir da eventual asserção de Cervantes - O português nada tem a ver com o espanhol, nem dele faz parte. Ou vice-versa. As estruturas profundas das duas línguas são diferentes, as suas naturezas enquanto fala e idioma, são distintas. Essa distinção é de vária ordem e pode ser descrita. Mas para simplificar a poética ensina que existem metáforas. Assim sendo, aceite-se que a ossatura do Português é feita de uma outra matéria com outra consistência. Ou que à consistência suave do seu som, corresponda em termos de vitalidade, uma outra energia.

Só assim se compreenderá que o português, falado por menos de um milhão de indivíduos, na altura dos Descobrimentos, se tenha expandido a ponto de se transformar na primeira língua franca de contacto universal, entre os séculos XVI e XVII, e que, transportada apenas por um punhado de soldados, mercadores, aventureiros e piratas, tenha deixado traço da sua presença um pouco por toda a parte como língua de contacto entre o Oriente e o Ocidente. Que de forma tão desordenada e dispersa, à margem de qualquer controlo político, tenha deixado vocábulos nas regiões mais improváveis, e em troca tenha incorporado tão profusamente variantes dos vocabulários visitados, entre eles os africanos e os ameríndios, ou que ainda hoje continue a possibilitar alterações sintácticas arrojadas no interior da própria estrutura sem perder o carácter, o que permite que seja falada por cerca de 200 milhões de pessoas, sendo a terceira língua europeia mais difundida e a sétima mais falada à escala do Mundo.

A história vem em todos os manuais, não vale a pena repeti-la senão em condensado - Um falar neo-latino, comum à actual Galiza e à província do Minho, desenvolveu um certo carácter lírico subtil e uma certa narrativa própria, e no século XII, uma parte dessa primitiva linguagem cindiu-se, desceu rente ao mar, a toque de espada, a caminho de Lisboa, e lá no Sul, por acaso, sem grande resistência, esperava-o o árabe com o qual conviveu e de quem tirou música e vocábulos. Quando o Atlântico chama os portugueses para os Descobrimentos, é uma língua ainda rude e arcaica, mas já bem consolidada na sintaxe e na morfologia, a que embarca nas caravelas. Dois séculos volvidos, e o português voltará, depois dos naufrágios e de ter visto as estrelas de quase todo o Globo, transformada na língua da exaltação e do Império Universal, a que Camões acabou por dar genialidade não só no elogio erudito e alatinado de "Os Lusíadas", mas também na subtileza lírica dos poemas de sentimento e amor. Ao lado do português dos comerciantes, guerreiros, mercadores de escravos e piratas devotos, à medida da ideologia de então. O que quer dizer que e língua estava pronta para se transformar num instrumento poderoso de domínio, paredes meias com o rosto oficial da civilização, segundo a lógica implacável do tempo. Durante dois séculos, o português encontrou-se na situação de língua imperial. A língua, cujo som parece não possuir ossos que a sustentem, foi capaz disso.

Mas não foi capaz de manter no terreno as outras façanhas que o rodar dos tempos exigiam. Metrópole demasiado escassa para um corpo demasiado grande e sobretudo demasiado disperso, por vezes até impalpável, a partir do século XVIII, o país não acompanharia o passo das nações mais desenvolvidos, em termos de indústria, cultura e civilização, e ficaria para trás. Naturalmente que a Língua também ficou. Ficou prisioneira da sua prosódia barroca e circular, sua sintaxe repetitiva, suas imagens arcaicas, rente aos salmos, às rezas e à imagem das flores campestres. Data daí a matriz do recurso aos artifícios da linguagem abstracta para evitar a vida, ao primado da forma sobre o conceito, da divagação sobre a Filosofia, do desenho da frase sobre a densidade do argumento. O que quer dizer também que data desse tempo a língua que formou o nosso modo profundo de dizer, que se pôs a resistir, e tem vindo a refluir às ondas, pelo Século XX adiante. Quando menos se espera, a nossa carruagem barroca, escura e engalanada, reaparece, e demora sempre a partir mais do que convém.

Aliás, a língua escreve-nos profundamente, ou o tempo em simultâneo escreve nela o que em nós inscreve. Talvez essa contiguidade de causa e efeito justifique a tradicional defesa rústica de grandezas inventadas, o que em relação às línguas se traduz com frequência em termos de desejo de imobilidade. Curiosamente, num país, criado por uma língua que se fez de assimilação natural com o diferente e o longínquo, a perspectiva deliberada de assimilar, de recriar, de transformar, ou de inventar em torno dela, costuma ser interpretado como uma hipotética perda de vitalidade e até de natureza. O receio de ceder, de negociar, de incorporar, de criar em conjunto, e ao fim ao cabo, o medo de modernizar, continua a ser uma constante. Essa não é uma prerrogativa portuguesa, mas entre nós, pelo alcance simbólico, que a questão da língua atinge, torna-se bastante surpreendente observar como parte da população culta reage face à eventualidade de mudança. Todo o neologismo começa por aparecer com o labéu de corpo infecto. Ao contrário da vertente do português de África ou do Brasil, o português da Europa, prefere absorver expressões estrangeiras, na íntegra, sem as traduzir nem lhes tocar. O que não deixa de suscitar interpretações curiosas sobre a forma como o português olha o Mundo, empresta de si ao Mundo, e dele tão mal se sabe servir.

Seja como for, nunca a língua portuguesa, se encontrou à beira de se ossificar. À margem da batalha do purismo, que remete para universos conservadores e tem como horizonte ambientes arcaicos e míticos, sempre houve uma corrente subterrânea imparável, aberta à viagem, à contaminação e ao desejo de experimentar o diferente e de o fazer seu. Durante o século XIX, escritores como Almeida Garrett e Eça de Queirós, deram conta dessa boa vulnerabilidade da língua, tendo incorporado léxicos novos e modernizado a sintaxe. O movimento simbolista e depois o modernista descompuseram a língua, subverteram-na, recriaram-na, urbanizaram-na, em correlato directo com uma franja da sociedade portuguesa que conseguia impulsionar através das Artes Plásticas e da Poesia, um movimento vanguardista notável. Almada Negreiros e Fernando Pessoa nascem desse movimento que escreve uma língua desejosa de transpor fronteiras. A aventura de Pessoa nasce aí mesmo, na confluência da prática de duas línguas, a inglesa, sua instrutora escolar e literária, e a portuguesa, familiar, dramática e densamente oculta. Aí nasce e cresce Pessoa para a sua infinita inquietação de viagem. E com ele o sintoma duma outra forma de língua que não havia.

Aliás, a parte mais significativa da viagem literária portuguesa ao longo do século XX dá conta da tentativa de desinibição persistente na realização plástica duma língua que se transformava no sentido da modernidade, pela abertura, desestrutura, reinvenção, contaminação pelas outras línguas e outras linguagens provenientes do contacto voluntário ou forçado com o Mundo. Depois da Segunda Guerra, foi primeiro a emigração para a América do Norte e América do Sul, depois o exílio político e a emigração para países da Europa que abriram os olhos com que se produziu um novo corpo da língua portuguesa, dispersa pelo Mundo duma outra forma. Porém, terão sido as guerras colónias de África, o motor mais forte na alteração do modo de pensar e de dizer, já que se tornou necessário que a antiga língua imperial passasse sob as botas ensanguentadas dos soldados portugueses, abandonadas no capim, para que se recolhesse ao seu lugar não hegemónico. A língua que regressa de África, com a eclosão do 25 de Abril, é uma língua de alegria e de liberdade, mas bastante humilde e pronta à fraternidade, porque trabalhada pela dor. Aliás, a Literatura portuguesa actual, nas suas formas várias, encontra-se ainda sob o impacte desse momento longo de treze anos, que só em parte já passaram. Em metamorfose para uma nova era, entre outros, Manuel Alegre, poeta sem distância entre a língua e a vida, tinha soltado o grito de testemunha por um "Nambuangongo" invisível.
Em Nambuangongo tu não viste nada
não viste nada nesse dia longo
a cabeça cortada
e a flor bombardeada
tu não viste nada em Nambuangongo.
"Tu não viste nada" - Era a acusação que se fazia a um país inteiro que fingia não ver. A Literatura portuguesa mais viva e mais elaborada entre nós, continua a sair dessa brecha recente que uns testemunharam, outros viveram em diferido, noutros locais e de outros modos, por vezes não menos violentos. E na sua substância íntima, a língua portuguesa que se fala hoje ainda é essa, a da testemunha dum corte tardio, injusto para ambos os lados, mas que deixou uma capacidade de ver o mundo, mesmo longínquo, por uma lente fraterna, agora que os locais de violência bem mais visíveis, não falam só português, mas também inglês, francês, espanhol, russo e até alemão, como há vinte anos não se imaginava.

Na verdade, em cada dia nasce uma nova era, um novo mundo, e possivelmente cada língua, em cada momento, é sempre outra. Os países africanos que falam a língua portuguesa - ou que ainda legitimamente duvidam sobre se a devem falar e escrever ou não - têm novas realidades para contar, outro sofrimento, outra guerras intermináveis, e também outro tipo de esperança e outra visão do seu próprio mundo. Para o exterior, porém, ainda o dizem em português. Os portugueses também falam em português do que testemunham em África, chamando a esses países, em termos de língua, países irmãos. Mas não vai ser fácil manter esse laço.

É que esta língua que se fala hoje em sete países - ou oito, se assim o entenderem os timorenses - e dá corpo a várias Literaturas e ocupa o sétimo lugar no Mundo, atravessa um estranho tempo de dissensão entre a matriz europeia e a sua descendência mais vistosa. Como se sabe, o Brasil contribui com 160 milhões de falantes, para a totalidade dos 200 milhões da mesma fala, ocupa sozinho dois terços dum continente, tem uma economia indomável, para além duma Indústria de Artes invejável e uma Literatura poderosa. A proximidade com os Estados Unidos fornece-lhe um modelo avassalador que deseja seguir, e a sua mundividência, própria duma sociedade recente, revela uma vitalidade de fábula. Além de que a criatividade da vertente da sua fala é imensa. Compreende-se. - Ainda que não o declare, o Brasil político sente-se, por direito próprio, apoiado na grandeza geográfica e dimensão da sua população, como o novo dono da língua, e essa pretensão que não está claramente sobre a mesa, afinal está sob a mesa. Também neste campo, Portugal e o Brasil, colocam-se diante do tabuleiro, movendo as pedras, como adversários, sem o dizerem. Só assim se entende, as comédias que se têm desenrolado, em torno do Acordo Ortográfico assinado em 1990, ou da celebrada Comunidade dos Países de Língua Portuguesa criada em 1994, até agora, para nada.

Naturalmente que uma língua que move entre 300 mil a 400 mil vocábulos, que tem uma plasticidade sintáctica e semântica provada, tanto remota quanto recentemente, não corre o risco de desaparecer, nem de minguar a sua criatividade nem as suas Literaturas, pela ausência de elementos estruturais de coesão. Mas corre o de se enfraquecer, perder vitalidade, dissolver-se como força linguística válida no diálogo das culturas, e sair do número das línguas mais faladas onde por direito se encontra, tornando muito mais difícil grande parte dos seus falantes dispersos acederem aos benefícios próprios das sociedades pós-industriais. É verdade que o Inglês é falado por quarenta e sete países, o francês por vinte seis, o árabe por vinte e um, o espanhol por dezanove, o português por sete. A pergunta que convém fazer é qual dos outros idiomas ocidentais, nos próximos anos, irá aumentar o números dos seus associados. Claro que as línguas são sempre muito mais fortes do que as suas políticas. Indomáveis e imprevisíveis como os seres humanos que as falam. Mas face a desentendimentos tão arrastados, em boa língua portuguesa, tão suave, tão de abraços, tão de música, uma pessoa é levada a colocar mais maldade do que vê à primeira vista, na frase atribuída a Cervantes.

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 oublicado no dossier "Portugal, Proue de l'Europe",
Revue des Deux Mondes (Paris, março 2000)