quinta-feira, 20 de maio de 2010

Conto * Abria a janela e em frente só havia prédios

Filme com pássaros

Lídia Jorge *

Num lindo filme americano, Ben tinha visto um rapaz da sua idade abrir a janela, chamar pelos pássaros, e de imediato eles logo vinham ter à sua mão. Então o rapaz oferecia-lhes grãos de arroz e eles agradeciam-lhe voando para cima do seu ombro. Mas consigo não era bem assim. Ben morava na Avenida dos Estados Unidos da América, abria a janela do seu quarto e em frente só havia prédios altos e o vento sempre a soprar. Uma verdadeira muralha de prédios. Ainda por cima, a mãe, numa manhã de Inverno, disse – “Surpresa!” Ele foi à janela, olhou, olhou, pensando no rapaz americano, mas a perder de vista não havia pássaro nenhum. A mãe referia-se a coisa bem diferente, referia-se a cinco tílias adultas que vinham em cima de uns camiões gigantes para serem replantadas na relva.

Que desilusão! Para que queria ele saber das tílias?

Elas não voavam nem vinham ter com ele. Provinham de um jardim distante e a suas longas raízes iriam ser colocadas dentro de uns buracos largos e fundos, do feitio de crateras, e nada mais. Ainda por cima traziam os ramos nus, pretos e sinistros como se tivessem sido queimados. Mau gosto, o da sua mãe. Decididamente, aquelas árvores não faziam parte do seu mundo. Virou-lhes costas, decidido. Nem mais iria olhar para elas. E assim, sem que ele desse por isso, as tílias enraizaram-se no novo território, as pontas dos ramos cobriram-se de milhares de folhas verdes, na Avenida havia agora cinco copas frondosas, e ele, zangado, continuava a não dar por nada. Não dava por que a rua estava diferente.

Mas um dia, já a Primavera ia muito avançada, Ben acordou de manhã cedo e ouviu um ruído novo. Que ruído era aquele? Quem estaria a chilrear por ali? Surpreendido, correu para a janela, abriu-a e deparou com um bando de pássaros a voar entre as copas das tílias. Lá em baixo, sobre o pavimento, deslizavam os carros, cá em cima, mesmo rente ao sexto andar, gorjeavam os pássaros nos ramos das árvores. Estavam escondidos nas folhas verdes que antes não existiam. Foi, então, a vez de ele gritar para a mãe – “Surpresa! Mãe, vem ver…” Debruçado da janela, Ben não cabia em si de envergonhado e contente. Afinal aquele bando de pássaros, seguindo as árvores, tinha vindo morar com ele. Rápido, era preciso preparar a taça do arroz. Aí vinham eles. Voavam, rodopiavam, bicavam, partiam. E a realidade tornou-se muito mais linda do que no filme americano.
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* publicado no Semanário Sol, 20 de maio de 2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Crónica * Datado e intemporal

Quando os dias voam

Lídia Jorge *
23 de Março
Voo Nocturno em direcção a Brasília

Esta é a realidade. Vai decorrer uma Conferência em Brasília, e eu viajo por causa da Conferência, mas não vou para essa Conferência. Complicado? Não. Se dividirmos a participação num encontro entre pensamento e acção, alguém deve ficar no lugar extraterritorial onde se situa a simples matéria prima. Mas só dou pela sobreposição quando começo a encontrar os reais intérpretes da Conferência no Aeroporto de Lisboa. Mostro-lhes o meu papel, e para grande surpresa dos organizadores da Conferência, ele indica-lhes que, lateralmente, à margem do seu programa, existe um grupo de pessoas que irá falar de uma outra forma sobre a questão da Língua. Os organizadores desconheciam, e eu vejo nesse desencontro um toque quase divino. Quem alguma vez se gabou de ter organizado alguma coisa na perfeição, desconhece o que é fomentar a liberdade junto dos desorganizados. Ali, de pé, depois do check-in, a minha ideia é esta – Quanto mais fora das malhas, mais livre. Não é por nada, mas o que me pedem é tão somente isto – Fale durante vinte minutos sobre Criatividade e Língua. Sinto-me em paz. Existe só uma Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial. No meu programa, esse título não existe.

24 de Março
Madrugada em Brasília

Então Adriano Jordão vem ao meu encontro, muito admirado. O que faz você aqui? Vem para uma conferência? Qual conferência? Por favor, mostre-me o seu papel. Mas o importante não é o que se passa em torno da Conferência. É a forma entusiasta como o pianista vai mostrando a cidade de Brasília espalhada pela terra, à luz da madrugada. Sempre que entro em Brasília, o mesmo assombro me pega. Que figura humana está projectada para o futuro de Brasília? Não, não é um homem patinador, é um homem voador. Que me perdoe o Óscar Niemeyer que há mais de meio século não pára de a desenhar, mas onde ele acha que irão existir rodas, eu colocarei asas. Nesse momento, Óscar e a sua espiritualíssima concepção material da cidade entram na discussão. Vamos no carro do Adriano. Para trás ficam os Palácios, e além o Teatro em forma de mastaba, mais além a Catedral em reparação, o Museu como um ovo caído, a seguir a Biblioteca Nacional, tudo espalhado pelo chão do cerrado. E de repente, o Adriano diz, todo sorridente - “Sabem o que a minha mãe pensava desta cidade ? Que era uma instalação – Brasília, uma instalação…”

E o pianista, conselheiro cultural em Brasília, volta-se para trás, cheio de contentamento. Mas acaso sabe Adriano Jordão que está a desvendar um enigma de autoria? Acaso saberá que, ao longo destes últimos anos, essa frase tem sido atribuída a várias outras mães, que não a sua? E Adriano, inocente do assunto, vai fornecendo detalhes, e eu descubro a verdadeira autora da imagem, com emoção. Afinal, quem viu nesta cidade uma instalação interpretou na perfeição a dimensão da sua grandeza, e da sua beleza, mas também a sua incapacidade de ser totalmente útil, a sua habitabilidade e inabitabilidade, a sua gratuitidade e a sua funcionalidade mais estética do que ética e mais artística do que prática. Uma instalação, um poema feito de uma palavra só, de tal forma bem esgalhado que muitos a atribuem a várias mães. Pergunto então como se chama a sua mãe.

“Chamava-se Raquel Jordão”, diz Adriano Jordão, e só então ele conta que regressou naquele mesmo avião em que viajámos durante a noite porque foi a Portugal despedir-se do corpo da sua mãe. Ele está a receber-nos, assim, à chegada, sem dormir e sem se deitar. E depois entramos na sua casa e ele mostra uma fotografia da mãe. Agora a fotografia está sobre o piano de Adriano. A fotografia representa o perfil duma senhora muito jovem, diante dum homem com chapéu cardinalício e de um outro, trajado de branco, com o peito repleto de medalhas militares. Ela está de lado e escuta o que lhe dizem ambos. Nem se lhe vê bem o rosto, mas foi essa a fotografia que ela mesma escolheu para se apresentar à vida, daqui em diante. Adriano Jordão não dorme há várias noites. Está comovido. Adriano Jordão não chora pela mãe, transpira pela mãe. Grandes bagas de suor correm-lhe pela cara. Grandes lágrimas. Ele pega no guardanapo e passa-o pela boca, pela cabeça, pousa-o lá, no alto da cabeça e deixa-o ficar. De súbito, numa casa de Brasília anjos sobem e descem. Silêncio, anjos como os de Chagall sobrevoam Brasília.

26 de Março
O Show da Divina

Bem me pareceu que tudo iria correr bem. Correu bem a abertura, no Itamaraty. Quando o nome de José Aparecido de Oliveira surgia, ao longo do discurso de Celso Amorim, as pessoas aplaudiam como se estivesse ali, em pessoa, o pioneiro que nunca foi devidamente reconhecido. Palmas para ele, o desenhador de tudo. Atrás do lugar do discurso, fica a Exposição sobre a Língua. Deambulamos entre textos. Um dia, em algum lugar do Mundo, há-de haver um portal com uma efígie do José Aparecido que diga – Foi ele quem teve a ideia de unir os vários pedaços da Terra que falam esta mesma Língua. As minhas palmas vão para ele. E depois, o show da Bethânia, cada vez mais perfeita, o seu cabelo cada vez mais bonito. A sua voz cada vez mais grave e mais reverberada, como se tivesse dentro da garganta cordas e tambores, e os metais fossem agora muitos mais. Que bom que foi escutarmos a divina. Cravos vermelhos? Eram às caixas, pelo palco. Eu bem disse que iria correr bem.

Economia brasileira

Entusiasmada, uma brasileira começa a recitar Pessoa – “Deus querre, o homem sonha, a obra naisce…” É então que o jovem professor Edvaldo Bergamo vem dizer que há ainda uma forma mais abreviada de falar da utopia. No meio do ruído, ele conta como Jucelino Kubichek foi mais sóbrio. No princípio de Brasília, poucos acreditavam que o lago artificial alguma vez enchesse. Quando choveu e a água escorreu dos córregos, e o lago Panamoá pela primeira vez foi lago e ficou raso, dizem que Jucelino enviou um telegrama a um jornalista seu detractor, nestes termos – “Encheu. Viu?”

27 de Março.
Breve palavra de acesso

Finalmente, o programa literário paralelo à Conferência. O que se espera dessas seis mesas organizadas pelo poeta Felipe Fortuna? Como não pode deixar de ser, muito e muito pouco, por certo inconclusivo, ao arrepio da Conferência. Durante dois dias, haverá tradutores, editores, escritores, músicos, autores de blogues e um vasto público. Haverá. Mas antes eu preciso de entrar num outro lugar do Centro Cultural Banco do Brasil. Quero ver as esculturas dos irmãos Pandolfo, OsGemeos Vertigem, de que tanto se fala. Quero ver com os meus olhos. Entro e o mundo voa. Não há explicação possível. Pássaros de sonho, carros forrados de todo o tipo de fantasia, rostos-lua e luas caixa que podemos conduzir e habitar, e no meio desse arsenal de mundo lúdico, um objecto cúbico onde a pessoa enfia a cabeça e vê o seu rosto multiplicado até ao infinito. Música irrompe do interior da nossa cabeça e não se sabe como.

Mal consigo sair daquele espaço enfeitiçado. Agora sim. Agora posso subir até ao auditório com a certeza absoluta de que lá onde a imaginação chega, chega a Língua.

Muita gente, muita alegria, muita expectativa, muito calor e são sete horas. Não faz mal. Aconteça o que acontecer, agora também eu já posso dizer aquela breve palavra de acesso à conclusão - “Viu?” E foi isso mesmo que, afinal, aconteceu. Quanto ao resto, ainda agora é domingo, há que esperar para ver. O que for soará, fora dos campos de Brasília.

28 de Março
Despedida

Quando os dias voam é assim. No restaurante do hotel, uma pessoa vem ao meu encontro com um prato de fruta na mão. A fruta é vermelha e a pessoa é mulher. A pessoa diz-me o seu nome e eu fixo-o, já o ouvi e estremeço por receio de errar. Sim, já errei, já julguei que era alguém que não era, e eu misturo o momento da despedida com as minhas faltas cometidas em Brasília. Conheço-me. Começa o momento do arrependimento. A pessoa diz-me que no dia anterior esteve lá sentada, no meio do calor, a ouvir-nos, e eu começo a ficar mais pequena do que a cadeira onde me sento. Começo a pensar que toda a euforia foi para nada, e que o meu lugar era em casa, metida na sombra dos objectos que não falam. Mas a pessoa, que afinal não come a fruta, começa a dizer que me agradece. Que nunca tinha pensado na hipótese de alguém desejar ser ao mesmo tempo homem, mulher e criança, velho e novo, rei e vassalo, móvel antigo da nossa casa e parede onde ele se encosta, cão e lobo, nuvem e pasto, e até o nojento réptil agachado no chão, até ele qualquer escritor gostaria de experimentar ser.

Sim, de facto eu disse isso mesmo, de passagem, apenas para criar um intervalo, entre os assuntos da Língua, e foi só isso que a pessoa, que está na minha frente, fixou. E porquê? Porque a pessoa, que deixou a meio o prato da fruta, diz que também já experimentou o desejo de ser, por um minuto, o réptil nojento que toda a gente abomina. A pessoa diz que veio ter comigo porque somos irmãs, que aquilo que apenas nos distingue é que, na sua óptica, eu consigo dizer em público exactamente o que ela sente e não diz – Diz que ser por um momento a criatura mais repelente, que Deus deixou à face da Terra, é apenas a forma de desejarmos ser tudo. E só depois, a pessoa termina o seu prato de fruta vermelha.
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* "Diário", in Jornal de Letras (N.º 1031 - 7 a 20 de abril de 2010)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Depoimento * Para o álbum "100 Mulheres Portuguesas"

Excepções e regra

Lídia Jorge *

Esta é uma bela homenagem que um jovem fotógrafo dedica às mulheres do seu país. No seu gesto de celebração, escusado será procurar outros motivos que não sejam os do reconhecimento de que o caminho percorrido por cada uma destas figuras, até ao lugar de um certo destaque, representa um contraste em face dos muitos destinos que as precederam e a quem a vida anónima foi negando qualquer menção para registo público. Por umas e por outras, ficaremos a dever ao Gonçalo Cunha de Sá esse gesto simbólico de justiça. Mas não nos enganemos – Do ponto de vista da marcha do tempo e relevo dos seus actores, assim, em separado, as mulheres só serão objecto de discurso enquanto não forem, elas mesmas, sujeitos da acção.

Quando a questão de sexo não for mais um factor de discriminação a nível dos actos cívicos e das acções públicas, as representações de género separadas por salas e por livros, ainda próprias do nosso tempo, cairão em desuso, e farão com que os cidadãos futuros, olhando para trás, se lembrem de que houve um mundo arcaico em que a afirmação das mulheres era excepção. E a ideia de que houve em relação às mulheres tratamentos de minoria deverá provocar riso, pela absurda contabilidade dos factos. Assim há-de ser, por certo, mas não agora, nem aqui, já que alguns domínios fundamentais, as mulheres ainda não passam de alegres recém-chegadas, e em muitos deles, ainda se contam pelos dedos.

Procurando bem, há explicações para tudo. Para esta assimetria imposta e ao mesmo tempo consentida, também há. Desde a explicação induzida pelo vínculo que a Biologia empresta aos corpos, à explicação deduzida a partir da diferença que a vontade de um bom Deus empresta às almas. Segundo a narrativa mais feérica que certo neo-platonismo engendrou num jogo de assimetria entre luz e penumbra, aos homens caber-lhes-ia fazer vingar a imperfeição da vida, invectivando Deus através da revolta que conduz à construção da obra, um acto de soberba e insurreição, que assentaria bem ao rival terreno. A mulher, pelo contrário, colaboradora com a divindade pela gestação dos filhos, faria de sua pessoa o vaso da procriação por vontade alheia, aceitaria na sua própria carne a criação do Outro, dispensando-se assim de se envolver na dissenção que preside ao acto de ousadia do empreendedor e do artista. A mulher seria votada a obedecer, fazendo do acto de subserviência o material da sua genuína construção. A separação das águas através deste ângulo, muito mais enraizado do que pode parecer à primeira vista, dá que pensar.

Agustina Bessa-Luís, que não poupou fustigar o sinal interior da acomodação das mulheres, referiu-se ao hábito de obediência como uma economia do comportamento, do qual elas retirariam lucros de bom proveito, ainda que de mau exemplo, pôs-nos de sobreaviso sobre as mansas. Fez questão de nos fazer desconfiar das vestais sentadas que se sentiriam razoavelmente bem sucedidas nas penumbras dos seus templos. No que não deixa de ter razão. Em todos os tempos, há quem prefira colaborar com a apatia em troca de protecção. Mas essa não é a regra comum.

Se essa regra fosse geral, seria caso para dizer que por qualquer outra razão, as histórias das fadas têm os seus limites temporais afixados pelo selo de consumo, e os seus prazos de validade estão esgotados. Ao longo do Século XIX, o Ocidente pôs em marcha a mais vultuosa emancipação dos escravos de que há registo, e no seio deles - ou apenas como eles, os escravos - as mulheres aprenderam a ler, a escrever e a contar as suas vidas pelo lado contrário do que era suposto. Onde estava a finalidade, colocaram a causa, e onde estava o enigma, colocaram o argumento. Para inverter os dados do destino, Simone de Beauvoire escreveu a meio do século passado, essa frase paradoxal que contém em si um quiasmo irresolúvel e no entanto resultou inaugural pois denuncia o acrescento duma falsa natureza à natureza propriamente dita – “Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres”. Hoje em dia, de repetida, o seu sentido deixou de ter a relevância, como sempre acontece com as afirmações que se transformam em cliché, mas é de supor que muitas das mulheres aqui fotografadas devam ter tido essa frase como antídoto contra a formatação dos seus percursos. Pois é bem verdade que nem sempre a história da afirmação das mulheres coincide com a história da consciência feminista, mas a sua relação de sintonia e sintoma, causa e efeito, o papel da dissensão não pode ser ignorado.

Também neste campo, o caso português é particular. É costume sublinhar a debilidade da reivindicação portuguesa em contraste com a energia dos movimentos reivindicativos próprios de outras culturas, e com razão. Mas num país blindado pela censura, pela moral conservadora e punitiva, e por uma instrução roçando o nível do miserável, a acção de grupos de mulheres como Adelaide Cabete e Ana de Castro Osório, durante a Primeira República, bem como o trabalho isolado e notável de Maria Lamas, ou a singularidade do caso das Novas Cartas Portuguesas - o selo mais emblemático da afirmação da personalidade das mulheres portuguesas modernas - foram pontos altos que não só precederam e anunciaram a Democracia, mas sobretudo se tornaram detonadores de mudanças de mentalidade e se inscreveram na nova cultura de libertação e autonomia em crescendo que vivemos nos dias de hoje. Além de que milhares e milhares de outras mulheres, umas perto da militância feminista, outras apenas pela afirmação da sua dignidade, conseguiram combater e ultrapassar o meio atávico português, demasiado original no preconceito, mesmo quando apenas comparado com o quadro das culturas conservadoras do Sul da Europa. Para essas, as semi-anónimas, ou anónimas, nunca haverá maneira de lhes criar uma galeria de retratos dispostos num livro ou numa sala. Como não há hipótese de nomear os homens cultos, e os não cultos mas justos e sensíveis, que ao longo das últimas décadas compreenderam que ajudar a dignificar a vidas das mulheres é uma quota antecipada que se paga em conjunto para uma habitação mais digna sobre Terra.

Aliás, estas fotografias, captadas por um homem jovem, vêm dizer isso mesmo – que as duas humanidades, na totalidade, são as duas mães da Humanidade, e que elas não se afirmam nem se salvam se não estiverem em conjunto. Sabemos que quanto mais pobres, mais teocráticas, mais ditatoriais forem as sociedades, mais subalterno será o seu papel. Por isso mesmo, as mulheres portuguesas que pela História ficaram durante tanto tempo dependentes das sombras e das metáforas para dizerem eu existo, poderão vir a ser importantes, na aproximação, encontro e diálogo entre culturas e modos de vida diferentes. As mulheres portuguesas, para quem todo um passado baço e submisso ainda é tão presente, por irrecusável dever de semelhança, poderão lutar pelos Direitos das Mulheres, como parte integrante e inseparável, dos mais elementares Direitos Humanos.
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* Para o álbum com fotografias de Gonçalo Cunha de Sá
editado paralelamente à exposição que percorreu o País
 “100 Mulheres Portuguesas”, com início a 3 de março de 2010
cuja venda reverteu para a associação Mulheres Contra a Violência

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Prefácio * Uma dedada de matérias várias

Memórias do longe
Transparências

Lídia Jorge *

LONGE é uma palavra importante para Gracinda Candeias. O que ela mais recorda aconteceu longe, o que mais ama fica longe, o que inventa e pinta fica ao longe. Quando precisa de fazer um parênteses, vai para longe, e quando regressa é de lá que traz os novos projectos. Sucede que durante o percurso para chegar longe, ela toma um estojo miniatura que cabe na palma da mão, e em qualquer lugar remoto, a Gracinda desenha e pinta. Ou por outras palavras, é na distância que ela encontra o impulso e o motivo.

O que quer dizer que a transfiguração vem do percurso, do trânsito acontecido no tempo e no espaço, do intervalo que decorre entre o mundo primitivo e o dito civilizado. Da distância entre a Europa e o Oriente, a Europa e a África. Da África do Norte e do deserto, ou de Angola onde nasceu e mantém a sua raiz. A distância no tempo faz-se entre o tempo presente e o passado próximo, ou distante, e faz-se por continuidade, por mistura e por coabitação. Assim, quem conhece a vida e a forma de trabalho de Gracinda Candeias adivinha a sua obra. E quem conhece a obra, adivinha-lhe a vida, não por inteiro, mas quase.

São de longe os seus estímulos, as flores, os pássaros, as nuvens, as árvores, os rios, as cores e os sentimentos de deslumbramento, nostalgia, recordação, memória de odores e vislumbres. O transporte da sensualidade em torno do mundo, da terra e do céu. E também os materiais são de longe – os papéis, os pigmentos, as colas, os paus, os lacres, os selos. E de longe parecem ser arrancadas as formas que expressa – Os pássaros estilizam-se na forma do ovo, as nuvens alargam-se com a transparência dos céus, os calhaus ficaram espalhados no deserto que se remove em nuvens. Como se a forma se tivesse rendido ao impulso da cor, e a cor fosse a mais depurada sobrevivência da experiência vivida.

Então é preciso esquecer o percurso, essa liturgia que a Gracinda percorre antes de criar, isto é, aproximamo-nos da obra feita. E a aproximação revela que a depuração não é apenas um prolongamento, um encosto à Natureza, mãe das formas, uma sequência pacífica do prolongamento do espaço deserto de África, ou do espaço profuso do Oriente. Existe uma reacção à forma primitiva, uma revolta contra ela, uma resposta, uma aposta numa outra forma que é só sua e se sobrepõe à estilização do mundo feito. Vistas de perto, essas formas relatam uma história íntima, e o longe assenta numa experiência sentida.

Então será normal pensar que existe, sobre os seus quadros, o desenho de um percurso biográfico. E isso valoriza? Desvaloriza? – Não interessa. No interior das suas transparências, fica uma dedada de matérias várias. A abstracção de Gracinda Candeias assenta num desvario contido, enquadrado como se fosse uma vitrina ou uma redoma, sustido, poupado, transfigurado em manchas significativas. Formas como se fossem apenas formas, e no entanto, histórias. Histórias em repouso serenado, sensualidade resguardada, vidro ferido.

De longe, para longe. E no intervalo, a proximidade inscrita. O que conheço de Gracinda Candeias diz-me que não se afastará deste processo. O Pacífico, o Índico, e especialmente África, Angola, chamam-na.

Uma peregrinação da existência. Pelo que sei, o augúrio da sua expressão plena vem a caminho.
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* Texto para o álbum de serigrafias de Gracinda Candeias,
"Datura e suas Senescências"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Depoimento * E nisso são irmãos gémeos dos escritores

Laços de Família

Lídia Jorge *

Do outro lado do telefone, alguém me pedia que escrevesse umas linhas sobre editores e escritores, suas relações de vida ou dissidência, uma página breve que fosse, duas talvez, coisa rápida, coisa simples, e eu, em vez de avaliar o que se passou entre Guttemberg e Marconi, deixei esse vasto mundo para trás, e comecei a pensar naquele dia em que subi o elevador do número 225 do Boulevard Saint Germain, no preciso momento em que Marie Ange Masson-Mosca me fez sentar na sua frente, e no fio das suas palavras se ia tecendo a minha relação futura com as Éditions Métailié, um abraço estreito mantido até agora como um laço, não um nó. Mas essa história que já foi contada, a história de uma relação com seu quê de ideal e irreal, de tão profunda e forte, não a vou contar de novo. Deve permanecer encostada aos livros, a alimentar-se do licor do tempo e a ganhar as asas que a amizade tece, sem alarde. Firmemente, sobre essa caso, nada direi, pensava eu, enquanto alguém do outro lado da linha falava dos mitos que hoje em dia se propagam, aqueles que pintam de gelo as relações criadas a partir das casas editoriais e seus escritores, hipoteticamente, tão gelados quanto elas.

E assim, enquanto do lado de lá alguém falava de frieza, lâminas, facas, vidros, despedimentos, cortes, abandonos, modernas legendas trágicas entre editores e escritores, eu pensava naquele dia da Primavera de 2001, em Frankfurt, quando a Ray Güde- Mertin me conduziu ao escritório da Suhrkamp para me encontrar com Siegfried Unseld, e pelo caminho íamos roubando ao jardim público um ramo de flores. Pensava naquele momento em que alguém veio sussurrar que eu iria ser recebida por um minuto, dois minutos, não mais, e que o senhor Unseld não iria levantar-se da cadeira, iria ficar sentado, por um minuto, dois minutos, não mais, e a Ray ficou à espera, e eu entrei, e o senhor Unseld levantou-se da cadeira, e eu não me sentei em cadeira nenhuma, apesar do seu gesto, e ficámos um diante do outro, a dizer palavras de cumprimento, sabendo que nos estávamos a despedir para sempre, nós que havíamos falado sobre Catulo e as mulheres, sobre Goethe e as ervas que compunham o seu manjar, ou Thomas Bernhardt de férias em Portugal, e agora tínhamos palavras urgentes para dizer e já não diríamos, pois tudo tinha deixado de ser urgente, até que ele me disse You will… e eu disse I’m not sure I will…, e cinco minutos tinham passado, e ele não se tinha sentado e eu não me tinha sentado, e alguém bateu na porta, e ele falou em alemão, e eu virei-me, sem lhe estender um braço. Sim, eu sei que atrás da minha relação com Sigfried Unseld havia uma cadeia de pessoas, sabia que outros me haviam levado até ele, mas é dele que estou a falar, alguém que emprestou a vida pela Literatura Alemã e pela Literatura do Mundo. Nunca soube onde deixei as flores, se lhas entreguei, se as perdi no corredor. Pouco importa. Importante é não fazer passar aos adolescentes a ideia de que neste mundo tudo se rege por frieza, lâmina, facas, vidros, sobretudo num campo onde, em princípio se tece o seu contrário.

Isso pensava eu, enquanto do outro lado, alguém me falava da imagem que de momento corre entre os jovens dos liceus sobre a força do dinheiro e do negócio. Ah! O que se conta sobre os editores, esses exploradores dos proventos alheios, esses usurpadores dos talentos dos outros, esses avarentos que irão ser expulsos por São Pedro de qualquer lugar que se assemelhe ao paraíso. Românticos, os rapazes dos liceus, orgulhosos de poderem reclamar por uma ordem protectora dos criadores. Fazem bem. Infelizmente há casos, a história está cheia deles. Toca a todos. Mas em sentido contrário, eu pensava em Doroteia Bromberg naquela noite, em Estocolmo, quando a vi caminhar pela neve fora, rebocando um carrinho com os livros. Ela mesma, a editora de vários Prémio Nobel, ela mesma estendeu os livros sobre a mesa, expô-los, vendeu-os, guardou os que sobejaram, empurrou o carrinho ao longo da rua coberta de neve, e eu que ia atrás, a ver como os colocava na bagageira do seu carro, pensava na sua distinção, no seu respeito pelos autores, a sua cumplicidade, sua defesa, sua luta por umas histórias vindas de longe. Umas histórias portuguesas que a Doroteia achava que os suecos deveriam conhecer. Só isso. E por isso, eu gostaria de ter filmado esse encontro com Doroteia entre os livros, para passar aos adolescentes, para que eles ficassem a saber que nem tudo é um frigorífico onde se conserve o nosso coração para ser comido. Ah! Se eu filmasse! Eu filmaria o rosto de Menakhem Perry quando explica por que escolhe determinados livros, e Christopher MacLehose, e Adolfo García-Ortega, e Luciana Villas Boas, só para dizer aos rapazes dos liceus que tenham calma, que nem tudo é fidúcia e percentagem, que há gente que não dorme por uma boa história, por um belo livro, uma boa frase, um pensamento. Que há editores que se enamoraram de um pensamento, por ele poderão dar a volta ao mundo, e nisso são irmãos gémeos dos escritores. Eles são aqueles que põem no colo dos leitores, o livro que tu escreves na tua mesa de trabalho.

Sim, do outro lado de lá, alguém sugeria uma, duas páginas sobre essa ideia de que a edição se transformou num balneário, e que o editor é um Mister contratado que só pretende golos. E às vezes assim parece, mas se tudo fosse assim, se apenas os golos contassem neste jogo, não seria possível ter existido aquele momento em que o Nelson de Matos, já perto da meia-noite, a partir de Barcelona, mandou parar as máquinas de impressão em Lisboa, por ter percebido que eu duvidava do título do livro em vias de publicação. Sim, era um restaurante de peixe, e já íamos na sobremesa quando a conversa foi parar ao título. Lembro-me, se me lembro, desse momento em que fui para a rua com a Cecília Andrade , e a uma sua palavra a decisão foi tomada. Cecília Andrade é hoje a minha editora portuguesa, ela é e será sempre a pessoa que nessa noite foi capaz de tomar a decisão por mim, de fazer andar de novo as máquinas que haviam parado. Nelson de Matos, o meu editor de muitos anos, ficará para sempre na minha vida com o telemóvel na orelha, à minha espera, prolongando aquela noite de Outono em Barcelona. Até que disse – “Continuem, aconteceu aqui uma dúvida…” E assim, se é verdade que os jovens só entendem a vida em metáfora de pop e futebol, é preciso dizer-lhe que estas cantigas são outras, e estes golos entram noutras balizas, menos rectangulares, menos instantâneas, menos contáveis, e no entanto, necessárias para continuar a nossa humanidade. Que os editores são parte inseparável deste team. É verdade, contra o que se propaga e algumas evidências sugerem, e outras infelizmente o confirmam, o editor é uma figura gémea do escritor, aquele que divulga os livros que ele mesmo gostaria de ter escrito. Este é o único compromisso que não pode ser perdido. A cultura repousa nessa escolha, nessa aposta em que se tece uma espécie de larga família poligâmica, unida pela ideia de uma arte.
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* Publicado com o título de "Liens de Famille"
no Catálogo dos 30 Anos das Éditions Métailiée,
outubro de 2009 

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Crónica * Carta a uma filha

Figos & rosas

Lídia Jorge *

Querida Catarina

Mal chegaste, partiste, e mal partiste já só penso no teu regresso.

Desta vez, tudo aconteceu tão rápido que nem deu para visitarmos o pomar. Pergunto-me o que sentirão as tuas árvores, se perceberam que não as visitaste como antes sempre acontecia. As amendoeiras que tu tanto gostavas de desenhar antes de perderem a folha, ainda cá estão intactas como se esperassem pelo teu lápis. As alfarrobeiras estão carregadas como nunca, e nenhuma delas até agora se partiu. Foi pena que não tivesses reparado nelas. E que dizer das figueiras? Ah! As figueiras-leiteiras, como se cobriram de frutos. É caso para dizer que por aqui, a mesa de Deus está posta. Mas tu, mal chegaste, partiste e não viste o que Deus pôs na nossa terra. Desta vez não nos levantámos de madrugada para irmos aos figos - passarinhos. Aquela a que tu chamavas a tua figueira, a carvalhal, este ano, precisamente, carregou. É dela a maior parte da cesta que estou a preparar para ti. Sei que não precisas, que poucas serão as ocasiões em que estes frutos secos, com cheiro a mel e álcool tresmalhado, de bafo demasiado quente, demasiado calórico, como tu dizes, poderão servir-te, mas eu é que acordo de noite com este aroma em casa, vindo do pátio, onde ficam estendidos, e sinto uma abundância mais que humana e preciso de partilhar contigo, que mal chegaste logo partiste, e eu já só penso no teu regresso dentro de um ano, bem entendido, se for caso disso. Recebe, pois, a seira que te mando envolta em papel pardo. Se sentires um pouco de cheiro de canela, não acredites, são eles mesmos que assim cheiram. De resto, tu conheces como os mantenho – deixei secá-los até ficarem com aspecto de torrados, untei-os com azeite, coloquei um bago de erva-doce em cada olho, um molho de funcho por camada. Tudo isto para durarem um ano, ou ainda mais. Desta vez, não tiveste tempo, mal partiste, chegaste, mal chegaste, logo partiste, já só penso no teu regresso, de noite, abro as janelas, e já só penso que chegaste. Não faças caso. Junto, vão também seis botões da roseira adamascena. Pois andaste pelo jardim, e não a viste, não a desenhaste como é teu hábito, desta vez foi como se não tivesses estado em Portugal. Mal chegaste, mal partiste. Mal chegaste. Segue tudo Via Expresso para mais rápido te alcançar. Segue tudo, menos esta carta, que aqui ficará guardada, para seres livre de partir, para seres livre de chegar.

Mãe
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* Crónica escrita em agosto de 2009,
publicada em revista (a ser localizada)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Depoimento * Universo poético inconfundível, só seu

Manoel de Oliveira

Lídia Jorge *

Tenho dificuldade em definir o que seja cinema puro, e no entanto, quando ouço falar do conceito, associo-lhe de imediato três nomes – Akira Kurosawa, Andrei Tarkovsky e Manoel de Oliveira. Reconheço-lhes por igual a mesma capacidade de transmitir uma personalidade criadora, a mesma intensidade dramática com lógica de palco, e a mesma demanda ontológica através da narrativa literária. E tal como acontece com o mestre japonês e o russo, reconheço que Manoel de Oliveira possui um universo poético inconfundível, só seu, que foi capaz de impor ao mundo do cinema contemporâneo. Por comparação, o realizador português, talvez só não alcance a mesma porosidade universal daqueles seus congéneres, quando se enreda em demasia na retórica da portugalidade e se abandona a uma espécie de didáctica sobre o destino e outros conceitos próprios da dissertação. É por isso que a associação com Agustina Bessa-Luís sempre resultou tão benéfica.

É verdade que Manoel de Oliveira se aproximou de vários escritores universais, designadamente autores europeus canónicos, e nesse aspecto também o realizador português foi capaz de des-provincianizar o nosso cinema. Mas a meu ver, de forma consequente, só Agustina lhe emprestou a carne e os ossos necessários para manter em cena, do princípio ao fim, personagens com interioridade avassaladora e recorte exterior inesquecível. E o cinema, mesmo o dito puro, também é isso. É essa consistência oriunda da ficção romanesca de Agustina que distingue o fascínio des-conexo de “Os Canibais” ou de “A Divina Comédia” do sentimento de totalidade, e de aproximação da arte absoluta, criado por “Vale Abraão”, “O Mosteiro” ou essa peça de declamação extraordinária que é “Party”. Mas devo dizer que só descobri Manoel de Oliveira com “Francisca”, e um pouco por acaso. Até então, Manoel de Oliveira afigurava-se-me ser uma espécie de lenda remota criada contra-corrente. “Amor de Perdição” tinha-me parecido apenas uma deslumbrante teimosia sem grande consequência. Paguei-as caras – Se hoje em dia não conheço tudo o que Manoel de Oliveira filmou, é só porque este realizador, tal como a sua parceira de ficção, Agustina Bessa-Luís, produzem sem parar, como é próprio de quem descobre que o seu talento é de oiro, e sabe que os outros também o sabem. Por isso mesmo, nas justas homenagens que lhe estão a ser prestadas, por mim, dispenso qualquer referência à sua idade. É assunto que não me interessa para nada. Do ponto de vista humano, o homem que se senta junto de nós, e fala da sua arte com a forma notável como o faz, é apenas um miúdo de “Aniki-Bóbó” que cresceu demasiado e está produzindo com a velocidade própria dos grandes criadores. E o regozijo é dele mesmo, e nosso.
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* Para livro de homenagem a Manoel de Oliveira ( 2009)

sábado, 1 de agosto de 2009

Depoimento * Essa página tal de Marguerite Yourcenar

Duas horas de leitura
que duram toda a vida

Última Página de um Romance
Golpe de Misericórdia
de Marguerite Yourcenar

Estendeu-me um revólver; peguei no meu, e dei automaticamente um passo em frente. Durante este tão curto trajecto, tive tempo para repetir dez vezes a mim mesmo que Sofia talvez tivesse um último apelo a fazer-me, não sendo esta ordem senão um pretexto para o fazer em voz baixa. Ela, porém, não mexeu os lábios; com um gesto distraído, tinha começado a desabotoar o alto do casaco, como se eu fosse apoiar o revólver à altura do coração. Devo dizer que os meus raros pensamentos iam todos para aquele corpo vivo e quente, que a intimidade da nossa vida em comum me tornara quase tão familiar como o dum amigo; e senti-me tomado duma absurda pena pelos filhos que aquela mulher teria podido dar à luz, e que teriam herdado a sua coragem e os seus olhos. Mas não é a nós que cabe povoar os estádios nem as trincheiras do futuro. Um passo mais pôs-me tão perto de Sofia que teria podido beijá-la na nuca ou pôr a mão sobre o seu ombro agitado por pequenos estremeções quase imperceptíveis, mas já só via dela o contorno dum perfil perdido. A sua respiração era ofegante; agarrei-me à ideia de que teria desejado acabar Conrad e que era a mesma coisa. Disparei desviando a cabeça, quase como uma criança assustada que faz detonar um petardo na noite de Natal. O primeiro tiro não fez senão esfacelar uma parte do rosto, o que me impedirá para sempre de saber qual a expressão que Sofia teria adoptado na morte. Ao segundo disparo, tudo ficou consumado. Pensei, primeiro, que ao pedir-me que me incumbisse desse serviço, ela julgara dar-me uma derradeira prova de amor, e a mais definitiva de todas. Compreendi, depois, que apenas quisera vingar-se e legar-me remorsos. Tinha calculado com justeza: sinto-os por vezes. Com mulheres destas, cai-se sempre no laço.

in edição Dom Quixote |Biblioteca de bolso| 2003,
tradução de Rafael Gomes Filipe

Lídia Jorge *

Dog Women, de Paula Rego
Muitos são os leitores que associam o Verão a leituras com finais suaves. Leitores que preferem colocar na sua mochila de viagem histórias de cujas últimas páginas se desprendem praias douradas, beijos na boca, ou sentimentos da História rumando à metafísica da espécie. Ora nada disso acontece em “Golpe de Misericórdia”. Esse livro, que Agustina Bessa-Luís classificou como uma educação sentimental para veteranos, só é aconselhável a quem goste de histórias correndo sobre o fio da navalha e ame os finais em que a voz da interpelação deixa ao leitores, para sempre, um arrepio na espinha.

Por mim, pelo menos, é esse o efeito que me produzem as últimas linhas deste livro de Yourcenar escrito em 1938, como desfecho duma história supostamente acontecida, vários anos antes, no rescaldo das lutas civis entre os vermelhos e os brancos, na zona da Curlândia, uma história onde se encontra o ADN remoto da divisão que viria a separar o mundo em dois, ao longo de todo o século XX. Só que neste livro, esse pano de fundo político não passa de um trapo estendido sobre o qual se imprime o que verdadeiramente importou à sua autora e nos importa a nós, seus leitores – A iluminação, tão profunda quanto é possível atingir em Literatura, sobre dois caracteres em confronto. E é nesse plano, os da dimensão relacional das personagens, que este final é um dos mais belos e surpreendentes da narrativa contemporânea.

Por mim, os anos passam, os livros vêm e vão, alguns finais ficam, mas de entre todos, eu sublinho aquele que me oferece esta imagem. A imagem de Sofia de Reval a desabotoar a alto do casaco para que Eric von Lhomond , o amigo íntimo do seu irmão, apague para sempre, da sua cara e do seu corpo, a experiência de um amor duma dimensão inusitada. Sofia é uma das heroínas mais impressivas da Literatura Ocidental. E Eric, no papel de cínico, é sobretudo a história duma voz partida em duas. É verdade que durante este final não se refere o início do livro, nem o pé entrapado que este oficial contador da sua história em voz alta estende sobre uma cadeira, na estação dos caminhos-de-ferro duma cidade de Itália, nem as figuras dos seus destinatários de narrativa, os seus sonolentos companheiros de refrega, estão presentes. Mas o leitor atento não esquece – até porque o romance reproduz a urgência de contar de alguém supostamente movido pelo remorso – que se está perante uma madrugada de vigília, esse momento em que os seres amados regressam ao nosso convívio, quer estejam vivos quer estejam mortos. O mais tocante, neste abraço entre Yourceanar e o seu personagem homem, está naquele ponto em que Eric sonha, por um instante, como Sofia mereceria ter vivido e ter filhos com os seus olhos. E mesmo assim a sua mão não treme. Há uma brutalidade neste livro em forma de relâmpago que ilumina para além da sua luz. Lembro que se trata de um livro breve. Entre a primeira página e a última, vão apenas duas horas de leitura. Duas horas que duram para toda a vida.

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* Publicado no Jornal de Letras, 1 de agosto de 2009

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Original * Um símbolo


Gafanhoto

Lídia Jorge

Vem, pequeno gafanhoto, pousa as tuas patas sobre a brancura desta folha e mostra a tua natureza diante dos meus olhos. Mantém-te quieto enquanto duram estas breves linhas para que eu te conheça de perto, melhor do que ninguém. Sei que ao mudarmos de língua, tu mesmo mudas de sexo. Na minha língua és macho, e o teu nome traz consigo uma maldição, pois gafanhoto lembra aquele que traz a gafa, a miséria e a doença, enquanto que em francês assumes a forma de um belo nome que salta, e és fêmea. Não importa, atravessas a tradução, e ficas com outra ressonância, mas para mim, tu serás sempre aquele que me leva pela mão até às regiões do desconhecido. Somos um casal perfeito, e da minha fidelidade, não tens de que te queixar.

Outros te reduziram à dimensão da iniquidade e do desmazelo. Não deves dar o teu perdão a Nathanael West, autor de “O Dia do Gafanhoto”, nem ao realizador John Schlesinger, muito menos a Winston Churchill que te associou aos tristes dias da vacuidade. Para não falar das pragas do Egipto, do anjo do Apocalipse, ou de São João Baptista, esse anoréctico que se alimentava dos teus irmãos untados com um pouco de mel. E tu, frágil, mudo, airoso, sempre cumpriste o teu destino, avançando pela História fora, sem te importares com a maldição. Mas ao contrário de todos os que te amaldiçoaram, bem sabes como sempre te tratei bem desde que, na infância, te descobri. Como te entreguei a minha mão, como corremos os dois por entre os colmos de trigo, como te capturei dentro de caixas de fósforos, como te desenhei e te amei. Bem sabes como ocupaste o frontispício de um dos meus livros, e aí te elevei ao lugar de rei. Bem sabes como aí te multipliquei por biliões, e deles fiz grandes nuvens que voaram por cima das cidades de África. Tão espessas que nelas tu te fizeste verde, e tudo ficou verde, incluindo a luz dos candeeiros em torno do quais vocês rodopiaram como esmeraldas voadoras. Não tens de que te queixar. Mas eis que chegou a hora de me recompensares. Chegou o momento de me dizeres para que lado deve voar a nuvem de que faço parte. Eu queria escrever esse recado no frontispício da minha autobiografia, e só tu o sabes, querido gafanhoto do deserto, só tu me podes dizer a verdade.
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* Publicado por Lexique Nomade n.° 2
(co-edição Le Monde/Villa Gillet/éditions Christian Bourgois
 - maio de 2009

terça-feira, 19 de maio de 2009

Apresentação * Guilherme d’Oliveira Martins

Um Texto Pacifista

Lídia Jorge *

1.

No território da ficção, é habitual perscrutarem-se as imagens que estão na origem dos textos, os motores afectivos iniciais, aquelas primeiras cenas carregadas de promessa que são o embrião e o motor da escrita e da fantasia. Muitos gostariam de saber que imagens terão desencadeado “O Principezinho”, ou que motivo terá estado subjacente à criação de Mrs. Dalloway”, e um verdadeiro interesse por esse tipo de relação genética com o material que pré-existe até chega a assumir a forma duma disciplina. Mas já não é usual que o mesmo aconteça a propósito do ensaio.

A propósito do ensaio, pensa-se antes na coerência das ideias, nos enlaces de natureza intelectual e cognitiva, na forma de encadear as partes da reflexão. Neste campo, parte-se do pressuposto de que as imagens promotoras da escrita, as que estão carregadas de afecto, encontram-se submersas na corporização das próprias ideias. No caso de “Património, Herança e Memória”, porém, o autor dá a conhecer, com simplicidade, quais os motivos pessoais e emocionais que estiveram na origem deste seu volume de reflexões e deixa entrever como essa motivação configura a própria dinâmica do volume, assumindo por inteiro a matriz biográfica destas suas reflexões. Guilherme d’Oliveira Martins refere expressamente o seu envolvimento, determinante e directo, com a concretização da Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o Património cultural na Sociedade Contemporânea, assinado em 2005, e atribui importância afectiva ao facto de esse documento ter sido aprovado na cidade de Faro, cidade a que se sente particularmente ligado pela sua relação familiar com o Algarve. Em terceiro lugar, mas não de somenos, associa a imagem da sua mãe, nascida em Boliqueime, e à qual todo este livro parece estar ligado, ao impulso da sua escrita e à organização que o explicam. Assumida e deliberadamente, o patrimonial ganha nestas páginas um valor essencialmente mátria-monial, e uma homenagem de família encontra, no campo da recordação, o impulso para a revisitação histórica, ilustrando na prática aquilo que a defesa doutrinal da memória defende, no domínio dos princípios.

O que quer dizer que, nesse aspecto, “Património, Herança e Memória” só confirma como o ensaísmo não é uma disciplina isolada da confissão e do particular. O próprio Montaigne, criador do género, elaborou uma série de requisitos para que um texto pudesse ser designado desse modo, tendo sublinhado entre outras exigências, a necessidade de que o ensaio revelasse originalidade e faculdade de pensamento livre, mas também reflectisse experiências próprias, aquilo a que designou como “o saber que destila da vida”. Oliveira Martins apenas tomou estes requisitos à letra e o resultado é um texto habilmente híbrido, um livro de reflexões cativante, uma reflexão que instrui mas não cansa, pois embora partindo duma área especializada bem concreta, este livro mantém a marca da subjectividade pessoal muito presente. E por isso, “Património, Herança e Memória”, um texto de leitura fácil e útil, tem tudo para poder vir a ser uma obra de ampla divulgação junto do público em geral.

2.

Até pelo facto de que, sendo um livro do qual ressalta uma vasta erudição, não é um livro erudito, nem a sua estrutura é complexa. Pelo contrário, trata-se de um texto híbrido constituído por três partes, dando-se o caso de que a primeira peça não se encontra no início, mas no fim. É o texto da própria Convenção-Quadro, o instrumento legislativo a partir do qual, de forma mais próxima ou mais longínqua, todos estes textos de reflexão se associam. O documento vem reproduzido em Português e em Inglês e assinala que é em seu torno que todas estas considerações se desenham. Um diploma que é o culminar de uma reflexão desenvolvida a nível do Conselho Europeu desde os anos 70, como lembra o seu autor. Uma espécie de epígrafe-remate final que ilustra e conclui A Abrir, o breve texto da introdução.

A segunda parte decorre entre os capítulos 1 a 4, e constitui uma espécie de instrumento teórico sobre o assunto. No corpo destes quatro capítulos, entrelaçam-se os temas do Património que conduzem à desmistificação de ideias feitas, ideias comuns que ao longo de décadas têm vindo a equivocar o processo de modernização das sociedades, como seja a oposição artificial entre Património histórico e Criação contemporânea, a falsa oposição entre Património material e imaterial, entre herança e criação, entre herança e modernidade. Do mesmo modo que desfaz a ideia de que o conhecimento entre povos seja, por si só, um factor de entendimento, uma mística que pode ser desmantelada tendo em conta alguns casos vivíssimos que o negam, como sucede actualmente nos Balcãs. Assim como combate o princípio corrente de que homogeneizar é modernizar. Guilherme d’Oliveira Martins desfaz sobretudo o mito de que o Património é uma despesa, para demonstrar como esse campo é um factor de desenvolvimento, uma fonte de receita, rentável em todos os sentidos. Ao longo destes quatro longos capítulos, o autor demonstra como a Europa é plural, e deve continuar a ser plural, através da assumpção plena das suas várias pertenças.

Fá-lo com recurso a Santo Agostinho, a vários outros pensadores e filósofos, como erudito eclético que é. Num movimento doutrinário de inclusão, desenvolve a sua demonstração em círculos concêntricos, mantendo como balizas de referência em torno do Património, o sentido da memória, da utopia, da paz, dos valores, do compromisso cívico com os outros de que a herança edificada e a herança imaterial são um outro gémeo de nós. Nesse sentimento de respeito por uma globalidade da actividade humana, Maria Zambrano é uma referência capital para Guilherme d’Oliveira Martins, mas ainda que o próprio não refira, vê-se que T.S. Eliot também não está esquecido, sobretudo quando desenvolve conceitos e pragmáticas em torno duma espécie de espiritualidades paralelas que tenta conciliar. E daí decorrente, o autor de “Património, Herança e Memória” propõe uma tentativa de harmonização neste mundo, afastando a conflitualidade e defendendo o entendimento pela doutrina da coexistência e da aproximação. Aproximação que abarca os próprios tempos transpessoais, relativizando-nos na História. Jorge de Sena, é invocado precisamente para através da sua voz se lembrar que “Sempre somos os primitivos de quem virá depois de nós”. E talvez por isso, estes ensaios, à medida que se vão sucedendo, vão ganhado, gradualmente, uma carácter cada vez mais conciliador. Um carácter deliberadamente pacífico. A propósito das controversas questões de liberdade, cidadania e lembrança, escreverá o autor, na página 118 , na senda de Tzevan Todorov, que “Os assuntos da memória não podem ficar, por isso, entregues ao zelo do ódio”.

3.

Mas talvez a parte mais singular deste livro seja o próprio Capítulo 5., o mais dispersivo, aquele que se refere ao Património como uma entidade viva, ou “pedras vivas”, recorrendo a Rabelais para quem, eloquentemente, “Os mortos já foram vivos”. Trata-se de um conjunto de doze textos escritos para serem proferidos em situações particulares, unidos pelo facto de todas essas circunstância se relacionarem com factos de Cultura. Entre eles, encontram-se textos de evocação, como são aqueles que dirige a Eduardo Prado Coelho e a Alçada Baptista, revisitações ao pensamento de pensadores e filósofos como Eduardo Lourenço, poetas como Pessoa. São doze textos em que a Língua, a Literatura, o Leitura, a Consciência Histórica, se transformam em varandas da Cultura e pontos de partida para o entendimento da nossa “identidade”, os motivos da “nossa “entidade”, os ingredientes da nossa natureza cultural, para a reflexão sobre a nossa “decadência, o nosso estado presente e o nosso estado futuro”, numa perspectiva conciliadora, própria de quem sempre encontra caminhos de superação num mundo que nunca considera irremediavelmente degradado.

Por isso mesmo, a fechar este conjunto de textos breves, o décimo terceiro ocupa um lugar muito próprio. Intitula-se “O Culto do Algarve – Um testemunho” e merece especial atenção.

É sabido como o Algarve, hoje em dia, é uma região apontada como um espaço de dissidência, um local de destruição do património cultural cujo desalinho se tornou simbólico em relação à globalidade do país. E Guilherme d’Oliveira Martins reconhece esse estado de vulnerabilidade da região, mas não faz dele o seu cavalo de batalha. Não entra no campo da contestação. Pelo contrário, associando o Algarve à sua mãe, prefere retomar os poetas áticos como António Ramos Rosa, Sophia, Torga, ou Teixeira Gomes, e escolhe da História, da Geografia, e da poesia contemporânea, sobretudo as paisagens exteriores e interiores mais pacíficas, os “lugares” da alma do Sul, para exemplificar, descrever, puxar pelo brio, de uma espécie de Pátria dentro da Pátria, de que exalta especiais qualidades. Eu diria que o autor de “Património, Herança e Memória”, neste seu mais recente livro, define-se a si mesmo como alguém que vive em simultâneo no centro de várias pátrias. São elas, por ordem decrescente de dimensão espacial, e ordem crescente na dimensão emocional, a Europa, Portugal, o Algarve, e Boliqueime, ou a casa natal da sua mãe.

4.

Neste livro de ensaios, esta pequena povoação ao Sul é assim a quarta pátria para Guilherme de Oliveira Martins. Ou a primeira, a mais próxima, a que se confunde com o rosto da sua mãe ausente e os lugares da sua infância. Mas acresce que as razões pelas quais se lhe refere também poderão ser de outra natureza.

Convém dizer que Boliqueime se transformou, ultimamente, numa povoação cuja semântica se tornou delicada, motivo duma referência especulativa de ressonância politiqueira. Em torno de Boliqueime geram-se lendas, difamações, referências pouco abonatórias repletas de preconceito de classe. Calculo que esse seja o segundo motivo pelo qual o autor destes ensaios mergulha na particularidade, desmontando toda uma série de preconceitos, descrevendo positivamente a sua povoação, recuperando-a em dignidade, mostrando como sempre esteve a par dos acontecimentos, inscrevendo-a no mapa, conferindo-lhe respeitabilidade, explicando a origem do seu nome arrevesado, falando da sua História e do seu carácter. Sob a aparência de um texto informativo, as páginas que lhe são dedicadas vêm em socorro da terra, e acabam por devolver o bom nome aos seus naturais e habitantes, tratando-a como uma verdadeira “pedra viva” merecedora de consideração. Trata-se duma estratégia pacífica, própria do temperamento pessoal e do registo biográfico do seu autor. Quem esperasse uma defesa ressentida daquela que é a sua quarta pátria, a primeira, em seu lugar encontrará uma invocação serena das figuras que constituem uma memória a preservar. Em vez de acusação, terá a surpresa de encontrar o inventário do que sobeja, como ilustração de um princípio de memória. Guilherme d’Oliveira Martins aplica na descrição da sua povoação – e que por coincidência também é a minha - o método que usa em relação à herança patrimonial na generalidade.

Ou por outras palavras, ao longo deste livro, a pessoa cívica e política que é Guilherme d’Oliveira Martins não se deixa invadir pelo espírito da contenda. Pelo contrário, este livro é atravessado por uma atitude pragmática de construção. E assim, “Património, Herança e Memória”, para além dum ensaio, resulta sobretudo numa proposta de resistência, numa espécie de carta de conduta para continuar a ter esperança no mundo. Uma carta de sobrevivência dirigida a um país cultural que o seu autor sabe que está dilacerado em algumas das suas frentes, mas a que deseja emprestar o seu ânimo cívico activo, em forma de manifesto pacifista.
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* Texto da apresentação
 de “Património, Herança e Memória: A cultura como criação”,
 de Guilherme d’Oliveira Martins
Colecção Trajectos Portugueses, n.º 78, Gradiva, (2009)

sábado, 11 de abril de 2009

Depoimento * Esse sentimento de coisa única

O que mais desejava ver

Delacroix,  'A Paz descendo sobre o Mundo'
Lídia Jorge *

Gostava de poder ver a Terra a partir do espaço. Dizem que parece redonda, pequena, azul, e tão sozinha no meio de nada que apetece chamar alguém para lhe pôr a mão por baixo. Dizem que avistada a partir de longe a sua imagem cria sentimentos contraditórios inexplicáveis, como o medo de que não se sustente por si mesma, ou de que o seu rumo esteja traçado sem que possamos fazer nada por ela, e a ansiedade por regressar ao solo para ajudar a mantê-la, pelo menos, tal como está. Isso eu gostava de poder ver, com os meus próprios olhos, para guardar na memória e escrever a propósito. Dizem que avistada a partir de escassos quilómetros, já não se sabe onde começam e acabam os países, que tudo são apenas montanhas, rios, planícies, mares, ocultados por nuvens que se deslocam em forma de farrapos e massas circulares. Isto é, ainda não se saiu da atmosfera, e já a Terra deixa de ser política, passa a ser apenas o que é - um planeta, uma realidade geográfica. Dizem que é esse sentimento de coisa única que nos faz sentir que somos uma só humanidade, a última face da humanidade, tão transitória como foi a que nos precedeu e como será aquela que estará para vir, dentro de dez, quinze anos. Dizem que, a partir de lá, a pessoa sente que todas as armas devem ser depostas. Dizem que, uma vez regressados, aqueles que a vêem do espaço não entendem mais por que nos espadeiramos uns aos outros. Eu quereria experimentar tudo isso, olhando a Terra de longe, como se estivesse a passear num jardim feito de coisa nenhuma, e de repente, sentisse que ali estava a minha morada. Mas por certo que essas viagens não acontecerão tão cedo, que a princípio estarão destinados apenas a milionários, além de que eu mesma nunca terei o treino físico suficiente para aguentar semelhante embate. Sei tudo isso. Ainda assim, falam-me de uma visão no futuro, e é isso mesmo, o rosto dela, que eu quereria poder observar.
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* Publicado na revista Única | Expresso, 11 de abril de 2009

domingo, 1 de março de 2009

Depoimento * O assunto levar-nos-ia longe.

Para que servem os intelectuais?

Respostas a Questionário de Filipa Melo *

Qual é a sua definição de intelectual? O que legitima ou (não) a sua credibilidade moral crítica?

Lídia Jorge - O intelectual , essa figura que transportava consigo um pedaço da Razão Universal da qual ele era o porta-voz privilegiado, como conceito, praticamente desapareceu. Se alguém, nas sociedades modernas, ainda se lhe parece será a nível dos comentadores e cronistas da área política . Aliás, são as únicas pessoas tratadas ainda por “intelectuais” e mesmo assim, três ou quatro ao todo. De resto, as pessoas são tratadas pela sua função, professores, jornalistas, artistas, músicos, economistas, ao lado dos camionistas, empregadas do shopping e corretores de bolsa. O acesso à opinião que se proporciona a todos, partiu do acento democrático das sociedades e os novos meios de comunicação conduziram-na a um nivelamento completo. Uma tirada bem aplicada de um boieiro pode valer mais, para fazer passar uma razão, do que a de um catedrático. Na cultura do conhecimento existe um saber próprio do desconhecimento, e do desconhecido, que ocupa um espaço considerável. O assunto levar-nos-ia longe. O papel que antes era ocupado pelos intelectuais, entre os quais os escritores ocupavam um lugar particular, passou para uma outra realidade, a chamada figura pública, uma criação dos meios audio-visuais. Se alguém se toma por intelectual, essa figura prestigiada pela superioridade moral de antigamente, pode experimentar sentar-se no meio de uma assembleia de televisão e rapidamente concluirá que será muito menos escutado do que o cantor ou o actor. O filósofo, por exemplo, não tem lugar mediático, que é o lugar onde se existe no mundo contemporâneo. Não li o livro de Paul Jonhson mas creio que pelo que é narrado ele fala de um mundo que acabou. O intelectual, esse clérigo sem mancha, naturalmente que deveria ter algumas nódoas escondidas. Retroactivamente, terá imensas, será só procurar com minúcia e perseverança.

Qual a margem de intervenção pública de um intelectual numa área que não é a sua, de especialização?

LJ - Acho que tem pouca margem. Até há pouco tempo pensava-se que ao esplendor de uma obra correspondia necessariamente o esplendor de uma razão iluminada, mas hoje admira-se a obra sem necessariamente se dar crédito à opinião do seu autor. Isso, na minha ideia, constitui um progresso tão grande como separar a personagem do seu intérprete. Significa que as pessoas estão mais avisadas sobre a diferença de planos. Por exemplo, toda a gente hoje sabe que a opinião ideológica era a moldura que até há poucas décadas ditava a “inclinação” que conduzia à tomada de partido por este ou outro assunto, mesmo quando pouco ou nada se percebia sobre ele, mas essa situação não se compagina mais com o mundo de informação aberta. Muitas vezes aquilo que se chama a cobardia dos ditos intelectuais de agora não passa de uma hesitação perante realidades em conflito quando se desconhece uma parte da situação. Do ponto de vista doméstico, creio que terá sido Vicente Jorge Silva quem ainda chamou aos apoiantes intelectuais das causas políticas, “idiotas úteis”. Estou convencida que hoje em dia tal designação está desadequada – Neste momento, escritores, artistas, filósofos, professores, passaram a ser “idiotas inúteis”. Numa cultura em que as palavras em frases longas não passam, os futebolistas, os manequins e os DJs são o ideal para promover opinião favorável às causas mais diversas. Já um cantor pode ser um agente perigoso, já corre o risco de poder usar um verso.

Até que ponto a obra de um autor é iluminada/contrariada pelo conhecimento da sua biografia? É possível separar obra de biografia?

LJ - Acho que é um exercício estupendo tentar separar os dois planos. Kundera, que é contrário às autobiografias, disse que o escritor faz da sua vida os tijolos da sua obra, não escreve com eles a sua vida. Mesmo assim, ultimamente, no seu país, têm surgido bastantes julgadores do tipo do Paul Johnson. Por mim, acho que há obras que são espelhos autobiográficos, e outras em que do seu autor apenas sobressai o eco do seu temperamento, o ser profundo que passa para a obra. Mas a obra, à partida, tende a ser uma transfiguração, essa é a sua essência. Há obras geniais repassadas de humanidade, saídas da mão de criadores a quem não se pode confiar durante uma hora o nosso animal de estimação, e há artistas boas pessoas que não conseguem fazer uma obra que vá além do sofrível. Entre uma e outra espécie, existe uma variedade de combinações infinitas. A biografia funciona como uma vida paralela àquela vida que realmente interessa, a vida da obra em si, aquela que cria uma outra realidade com os seus horizontes próprios. É por isso que eu não advogo que se misture a obra de S.V Naipul com as relações que manteve com as suas mulheres. Essa mistura é boa para as histórias de cordel. Acho detestável esse tipo de insinuações.

Considera que, em Portugal, a expressão pública dos intelectuais se reveste de um poder efectivo de intervenção social e política? Que impacto teve na sua vida pública a sua tomada de posição recente na discussão do aborto?

LJ - Como disse atrás, esse papel tem diminuído, e os “intelectuais”, entretanto, praticamente desapareceram como entidades com poder efectivo. Aliás, cada vez mais se fala em élites, o que é um conceito muito diferente. Mas em determinados momentos, pelo menos até agora, as pessoas relacionadas com o conhecimento e as artes clássicas ainda têm sido chamadas a prestar contas da sua consciência em público. É preciso ser-se generoso, ou pelo menos desprendido, para a pessoa se prestar a isso. O debate não se faz mais por grandiloquências morais como outrora, faz-se por argumentos sustentados, e exige um exercício de confronto que muita gente evita, num país onde o debate facilmente cai para lugares pouco cívicos.

No debate sobre o aborto, defendi a posição que continuo a reconhecer como conforme os princípios de uma sociedade moderna mais civilizada. O acaso conduziu-me a interpretar algumas rábulas curiosas, mas não me importei muito com isso, nem acho que me tenha afectado. Fi-lo como cidadã, com os argumentos que tinha para oferecer, não foi como “intelectual”. Se na altura uma organização qualquer me tivesse pedido para eu ir colar cartazes, ou falar de porta em porta , eu teria ido. Em casos assim, não me parece que funcione a ideia de notoriedade, mas de utilidade. É uma maneira de escrever o tempo de outra forma.

Alguma vez o desajuste entre a vida privada e a vida pública (ideias ou programas defendidos) de um autor/intelectual a fez rejeitá-lo ou reconsiderar o seu contributo intelectual?

LJ - Nunca vivi um conflito de discrepância entre vida privada e vida pública, o que acontece à maior parte das pessoas que vivem ou passam a viver em democracia bastante cedo. Em regimes totalitários, como sucedeu em Portugal, aí sim, os confrontos devem ser terríveis. O ofício de calar, por exemplo, de esconder, de ser ambíguo, deve ser triste, deve criar um conflito permanente que nós, em liberdade, não conhecemos. É por isso que eu não entendo muito bem tanta sanha contra Günter Grass, agora contra Milán Kundera, ou mais perto de nós, a crítica contra as hesitações de figuras como Amos Oz e David Grossman, em relação à causa israelo-árabe. Se olharmos para as realidades concretas e históricas de certos países, percebemos como os seus criadores têm de estar permanentemente a fazer escolhas entre a vida e a morte. Não é propriamente o nosso caso. Podemos dar-nos ao luxo de misturar, ironizar, não participar. Gérard de Cortanze costuma dizer que não é irónico porque nasceu pobre. Confissões corajosas que só faz quem quer. Mas escritores como estes não fazem parte daqueles que serão o pasto dos Paul Johnson. Voltando ao desajuste, no meu caso, a discrepância de que me dou conta resume-se a uma espécie de intervenção por defeito. Sempre tenho um impulso para me envolver em muitas causas, chamemos-lhe assim, mas nunca consegui compatibilizar durante muito tempo a escrita e a actividade em círculos de intervenção cívica.

Se lhe aprouver comentar: “Não existe meio de separar a estética e a filosofia da existência. Toda a obra de arte deve ter certo desígnio, um poder, responder a situações reais. As obras de arte constituem soluções para um certo número de dificuldades” – Michel Butor.

LJ - Butor tem razão – então não haveria de ter? – quanto ao princípio de que uma obra de arte deve servir para alguma coisa. Como toda a gente, Butor sabe que a dimensão da inutilidade defendida por Oscar Wilde é a sua suprema utilidade. E esse é um desígnio soberano. Agora existe toda uma escala de entrelace entre estética e existência que vai desde a tentativa do divórcio entre ambas até ao puro imaginário social, com intenção de serviço directo em relação a uma determinada sociedade, num determinado momento. Alguém é capaz de negar essa dimensão a uma obra como a de César Aira? Em “As Noites de Flores”, por exemplo? É um livrinho que nasce para demonstrar, pura e simplesmente. E no entanto, a sua dimensão estética é inegável. Neste caso, tal como em relação aos escritores e suas biografias malignas ou cor-de-rosa, interessa criar uma árvore classificatória cujos ramos não sejam escassos.
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* Respostas integradas no artigo “Públicas Virtudes & Vícios Privados",
Revista Ler, março de 2009
Designação inicial do questionário:
Para que servem os intelectuais? | Na peugada de Paul Jonhson, autor de "Intelectuais"

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Depoimento * Seu chamamento é uma corrente de escrita

A força do mar

Lídia Jorge *

As Correntes d’Escritas passaram à fase adulta, têm dez anos e uma história pública para contar – Mesas, cerimónias, discursos, participantes nacionais e estrangeiros, evolução da assistência, evolução dos serões, dossiers, fotografias, autógrafos, cinema, música, prémios, e tudo o mais que em breve constituirá o acervo dum encontro literário que tem carimbo único entre nós. Promovido por uma edilidade costeira, numa antiga cidade de pescadores, sem outros apoios que não sejam os locais, é natural que ao chegar a segunda semana de Fevereiro de cada ano, em face do que ali acontece, se fale invariavelmente de milagre. O milagre da Póvoa de Varzim. Por essa altura, diz-se, e com razão, que todas as auto-estradas da cultura vão ter à Póvoa, e todos os caminhos das Culturas de expressão ibérica vêm ter a esta Santiago dos Livros. Oficialmente, as Correntes d’ Escritas são uma espécie de tapona de luva branca que uns quantos teimosos dão no rosto dos que teimam em dizer que em Portugal as iniciativas fora do desporto e da religião não vingam. Neste caso, vingam. E florescem, como se vê, por tudo o que se anuncia para esta edição de 2008.

Mas se As Correntes têm a sua história pública, a que a cada ano se acrescenta uma página, os participantes têm as suas histórias privadas.

Não nego que a minha história privada com as Correntes d’Escritas tem sido intensa. Tem-no, por certo. Do privado mais público, recordo debates que me marcaram profundamente. Como foi aquele cujo tema era O Medo ou o Fascínio do Desconhecido, que Alexandre Quintanilha dirigiu com pulso científico, e foi pena que as palavras tivessem desaparecido no vento. Dos vários painéis a que assisti, ao longo dos encontros da Póvoa, e de entre alguns outros de que participei directamente, até agora, a memória elege-o como momento emblema do que pode ser a associação benéfica entre linguagem do método científico e a retórica literária, cruzadas como se fossem uma só. A retórica literária que sempre se repete, com variáveis imprevisíveis, é verdade, mas cuja novidade sobre o processo logo se gasta, pois escrever leva sempre até ao inesperado, mas falar sobre o inesperado conduz inevitavelmente à repetição. Em contacto com o discurso que provém da ciência, a retórica literária acaba ela mesma por multiplicar os ângulos de observação, desdobrar-se em novos sentidos, e em vez de quinhentas portas, abrem-se mil, quando os dois campos encontram um porta-voz que saiba unir as pontas dos dois tipos de desconhecido. Foi o caso. Lembro-me do que aconteceu. A sala do Auditório Municipal estava repleta, naquele ponto em que a presença de tantos intimida, e no entanto, quem falou, falou do seu medo e da forma como ele age sobre a descoberta, como se ali não estivesse ninguém mais do que um só destinatário. O silêncio escorria das paredes. De todas as intervenções, recordo em especial o texto lido por Tabajara Ruas sobre a descoberta da vida duma mulher louca, encarcerada, e sobre o modo de como esse encontro com o mistério mudou a sua vida de rapaz. Essa foi uma das confissões mais sentidas que já ouvi da parte de um escritor, até porque a narrativa não era cómoda. Dessa mesa, participavam a Ana Paula Tavares, o Luís Sepúlveda, o Luís Alberto Vieira. E todos os seus testemunhos foram verdadeiros, porque se sabe quando alguém está a dizer a verdade, mesmo que aquilo que diga não corresponda aos factos. Eles só precisam de corresponder à verdadeira realidade para serem verdadeiros. Naquela mesa sobre “O Medo e o Fascínio do Desconhecido” todas as frases eram verdadeiras. São momentos que marcam, mas nunca podem ser repetidos. Isso passou-se em 2004.

Um outro instante privado muito especial aconteceu com o anúncio de que um livro meu tinha ganho a primeira edição do Prémio Correntes d’Escritas. Fiquei a saber, ali mesmo, naquele momento preciso. Foi alegre e foi difícil. Sob o efeito da surpresa, só pensava no Eça, nascido na Póvoa, e sem nenhum prémio ao longo de toda a vida, e acho que disse isso mesmo, e que pedi desculpa ao Eça pelos seus contemporâneos que não o viram como deveriam ter visto, e por nós mesmos, cujo orgulho e cuja timidez nos põe calados. E disse outras coisas mais, com pouco jeito. A questão do prémio passou-se em 2005.

Mas estes instantes ainda têm o seu quê de público. Pois os instantes privados, os verdadeiramente privados, esses não se mencionam nem se escrevem. São de cada um, só por si. Os meus relacionam-se com o mar da Póvoa, com as ondas que ele envia na direcção das janelas do Novotel, as ondas do mar que se atiram contra a praia, que vêm a caminho do jardim, que empregam a sua força brava para nos alcançar no interior do quarto, o mar que se atira na nossa direcção, na direcção da sala onde trocamos e-mails que não mais serão usados, e nós sentados, discutindo e berrando, e ele bramindo, mas ainda é cedo, ainda não nos alcança. E no entanto, ali está ele a chamar, a chamar. O seu chamamento é uma corrente de escrita que ainda não escrevemos nem decifrámos.
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* in Revista Correntes d'Escritas | Póvoa do Verzim (11 de fevereiro de 2011)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Depoimento * Permanente exercício de translação

A perspectiva da maga

Lídia Jorge *

Para Agustina-Bessa Luís, o contraditório é o chão do pensamento. Quem não entender essa sua raiz profunda terá dificuldade em compreender a obra que produziu, o vínculo que estabelece com o mundo, com os livros, e até mesmo o tipo de relação que mantém com os colegas de quem é contemporânea. A obra aí está para o ilustrar – Ler Agustina é mergulhar num mundo de virtuosismo entre pensamento e ficção, destrinça entre instinto e alma, discurso cujos contornos podem assentar no histórico ou no jornalístico, mas o nuclear sempre se constrói rente ao humano individual, no que ele tem de insondável e nele se constitui como fonte de surpresa. A surpresa que Agustina faz falar através da análise da ambivalência humana, onde se jogam as oposições que formam o universo da interioridade. O mesmo é dizer que imaginar a Literatura do século XX sem a obra de Agustina, seria amputá-la da sua fatia mais densamente dramática.

Mas se se quiser entrar no domínio da escrita produzida por mulheres - particularidade que continua a fazer sentido - nela se encontra uma espécie de sublevação em relação àquilo que, em geral, é o estereótipo feminino, fundamentado num contraditório ainda mais radical.

À primeira vista, Agustina sempre escreveu para além do ressentimento, já que parece ter impregnado as figuras de mulher daquele carácter a que comummente se chama de viril, e eu chamaria apenas de vencedoras no plano da representação, por compensação da perda no plano do real. A frase de Nietzsche que ela tão subtilmente manobrou em Um Cão que Sonha – Se fores ver a mulher leva o chicote- sob os seus dedos, muda de mão, e o cabo desse instrumento confunde-se com a caneta que empunha, para com ela vergastar a fragilidade do homem. Mas não é fácil em Agustina encontrar algum campo de leitura linear, directa, e muito menos pacífica. Para os espíritos mais convencionais, Agustina promove surpresas espantosas, colocando-se no lugar de onde a mulher vergasta a mulher, depreciando-a. Pois não é raro Agustina falar da mulher como um ser sem causa, um ser desempregado de ambição, uma alma vaga, deambulando ao sabor do acaso e do apelo, uma criança grande acomodada a um eterno segundo lugar.

Surpresa? Contradição? De modo algum – Apenas um permanente exercício de translação. Pois lá onde Agustina parece estar, não está. Apenas ali se encontra a sublevar os espíritos, essa acção superior que atribui à escrita e à conversação, e para a qual sempre está necessitando de novos espaços para mudar de mira. Qualquer dialogante desprevenido, diante de Agustina, pode sentir-se de facto mais conforme com aquilo que a modernidade espera de cada um de nós, mas a autora de “Os Incuráveis” é sempre moderna porque se coloca fora da dualidade presente/passado, e bem vistas as coisas, fora da dualidade homem/mulher. Agustina vê-se a si mesma numa perspectiva de futuro, e escreve e fala na perspectiva da maga. O molde que encontrou para esse salto fora do tempo e do género, nos livros, foi a sentença e a epígrafe. Na discussão, foi a exploração do adverso, isto é, da contradição revestida do irónico, e até do irónico prazenteiro. Porque Agustina, como se lhe reconhece, sabe rir do mundo como ninguém. Como poucos, ri de todos, e entre todos - ao contrário do processo usado por muitos - ela mesma, lá não está.
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* Publicado na Revista Ler, janeiro de 2009

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Prefácio * Eduardo Gageiro

Os três reinos
Este Pó tranquilo foi Damas e Cavalheiros
E Rapazes e Raparigas
Emily Dickinson
Lídia Jorge *

Dizem que os fotógrafos não são pessoas como as outras. Consta que caminham com metade dos olhos entre as mãos e não fazem separação entre o seu corpo e o Mundo, como as crianças e os animais. Neste último aspecto, compartem a condição com todos os artistas dignos desse nome, e ainda bem que assim acontece. Alguém há-de ter a seu cargo a tarefa de manter activa a relação entre os homens e o íntimo coração das coisas. Foi pensando na possibilidade dessa inocência, que me encontrei pela primeira vez com Eduardo Gageiro.

Eram três horas da tarde, sobre uma mesa de vidro ele abria as folhas de um livro chamado Silêncios e insistia na diferença entre o plural e o singular da mesma palavra. Mas não precisava de falar muito mais. A sua eloquência não estava na explicação do sentido dos termos, residia na forma como virava as páginas – Aqui encontrava-me eu em Bombaim, aqui em Genève, aqui o homem estava de costas, e ainda que monstruoso, eu vi-o no meio da solidão, e assim por diante. Embora o que dissesse fosse mais fundo do que dizia, ou estivesse muito mais escondido. Em vez das palavras, as imagens falavam por si, o relato das caminhadas até às imagens, a forma como as havia enquadrado e trazido até ali representavam a substância da matéria que as formava. Para além da mesa de vidro, para além do sol da Primavera entrando às golfadas pela janela, o que o fotógrafo vinha dizer provinha do fundo da Natureza. Como se dissesse – Tenham cuidado comigo, olhem que eu nasci para as árvores, nasci para os seus ramos, seus troncos, suas folhas levantadas contra a luz, suas raízes escondidas no solo. Muito cuidado, que eu não sou daqui. Nasci para os aluviões de terra, para as planícies e os desertos, para as dunas e as montanhas, e os mares. Nasci para todos os mares e os lagos que são a sua lembrança, e os rios que são as veias da terra correndo para os oceanos. Tomem mesmo muito cuidado. Olhem que eu sei que o mundo acorda e adormece sem precisar que a pessoa o embale, mas apesar de ele não me reconhecer como seu parceiro, apesar de não me dizer uma única palavra, eu lido bem com o seu silêncio, e reconheço-o como minha morada. Vejam, vejam aqui como levantei as nuvens acima do homem acoplado ao cavalo, e deixei-os a ambos do tamanho dum ponto feito a lápis, no meio da paisagem, para mostrar que lavram a terra e não são nada. Não faz mal. Todos somos da matéria das nuvens, mas olhe que eu sou mais o homem puxando o cavalo.

Não dizia assim, o Eduardo Gageiro, mas era como se dissesse. Porque nos encontrámos uma segunda vez, à mesma hora, já a Primavera avançava. Ainda mais luz, ainda mais vidro. Mais páginas abertas, mais certezas, e o título definitivo do livro, Silêncios. - Não silêncio, isso não, cuidado comigo e cuidado com o silêncio. Vejam aqui, por exemplo, como olham para nós os animais. Vejam como nos acompanham os pardais, as pombas, como nos olham. Estão a ver como fala através do rosto, o coração do animal? Estão a ver o coração do animal? Como bate, prisioneiro da sua janela? Onde é que eu encontrei estes cães vadios, antes de os encontrar pela segunda vez, e de os caçar à linha, para dentro da minha lente? Onde? – Pois vejam, eu creio que todas estas ovelhas já foram minhas antes deste redil. Se assim não fosse, como é que estavam à minha espera? Escute, os animais devem ter uma glândula pineal feita de espírito pela qual se irmanem a nós. Eu acho que eles são irmãos da nossa companhia, e logo irmãos na nossa solidão. Pensam ou não pensam que viemos todos do mesmo útero comum? Vejam, aqui, como todos nos desfazemos em terra. Estão a ver? – Sim, eu conseguia ver, claramente. À luz escancarada das três horas da tarde, cada fotografia falava por si, sem obediência a nenhum pensamento prévio, nenhuma teoria formada. Quem era eu para o desdizer? – Tem toda a razão, Eduardo Gageiro. Se você levantou do chão, você achou, cheirou, mordeu, provou a realidade e disparou o seu flash, você descobriu o segredo da vida, e nesta história das três da tarde, quem foi ensinada fui eu.

Mas ele pensava que não podia ensinar, que apenas mostrava. Continuava o Eduardo Gageiro - Veja aqui esta criança atrás dos panos. Rondei dois segundos na sua frente para lhe oferecer esta segunda vida. Ele estava dormindo e eu disse-lhe, quando disparei diante da sua cara inchada de leite – Terás uma vida feita de aspectos que hão-de mudar de hora para hora, de segundo para segundo, mas a partir deste instante ficarás aqui, voando para sempre a esta altura, libertada do tempo. Quero que os pássaros saibam, ao verem-te fotografado, que da gaiola do tempo se libertou um fanfarrão. Tu e eu, imagem de criança dormindo, dois fanfarrões fugindo do tempo. Vejam agora estes homens como estão sentados, olhem para as suas cabeças postas entre as mãos, vejam o peso do que pensam, vejam o que eu consegui guardar do que pensam. Alguma coisa dói? Onde dói? Não posso fazer nada contra a dor, meus amigos, porém, sempre que imobilizo o rosto da mágoa, tenho a ideia de que chamo nomes indecentes à dor. E a resistência? O que acham dela? Vejam os rostos fechados da gente, vejam a decência com que enfrentam a má notícia da vida. Serenos, sereníssimos, grandíssimas sentinelas de si mesmos. Sei por experiência que é preciso que um homem se sinta desarmado para conhecer o soldado que traz consigo. Reparem como partem de viagem os homens sozinhos, a caminho da aventura. E umas vezes isso é uma forma de se mostrarem, outras vezes, uma forma de se esconderem. Seja como for, a partida é a única promessa que o silêncio não consente. O silêncio é uma casa vazia onde só se aguarda a chegada, para nada. Silêncios? Sim, esses, pelo contrário, vão de viagem, cada um à sua janela e levam consigo os actos da vida. Às vezes eu estava lá, no local exacto, rondava a cena como um gato ronda a borboleta, rastejava, saltava, caçava a imagem da viagem do homem, esse nómada que ultimamente perdeu a rota de propósito para se sentar, durante oitenta anos, diante duma mesa. Não sou destes, sou dos outros, um andarilho à procura de silêncios, e por isso mesmo tenham cuidado comigo.

Mas ainda houve uma terceira vez.

Então já era o mês de Junho, e falámos pouco. As fotografias haviam sido revistas, uma a uma, e afinal havia ali uma montagem. Criador, este montador de filmes. O fotógrafo abriu o dossier no último capítulo, no lugar onde os mortos parecem vir beber água sobre o papel de impressão, e ao virar as últimas páginas, era como se dissesse – Cuidado comigo, conheço como falam os mortos. Eles falam, falam, mas com interesse, nunca dizem nada aos vivos. Não gosto dos lábios da morte, diz Eduardo Gageiro. São vermelhos, mas não têm palavras para mim. Não sei de que metal são feitos os lábios da morte. Vejam como as velas ardem, como as mulheres choram sobre tábuas, como as escadas vão até ao céu, e lá não chegam. Vocês, por acaso, já ouviram alguma sílaba provinda do outro lado do espelho? Pois bem, tomem cuidado comigo, sei tudo sobre os silêncios do corredor. O que sabem vocês sobre tudo isto? Acaso já experimentaram escutar o silêncio?

Como se dissesse - Eu experimentei, e agora sei que somando silêncio mais silêncio, mais silêncio, e ainda mais silêncio, assim infinitamente somados, dessas parcelas todas, nunca resultarão silêncios. Silêncio e silêncios são duas substâncias quimicamente diversas. Chegados aqui, posso resumir o que sei – Que o plural, segundo a gramática da minha língua privada, resulta da esperança na multiplicação das espécies e eu faço alguma coisa por isso. Cada vez que imobilizo a imagem da vida, dando-lhe outra vida, ajudo a afastar a hora da poeira para os horizontes mais longínquos possíveis. É um pequeno poder, mas ainda assim, serve isto só para dizer que não sou daqui, e por isso, tenham cuidado comigo.

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* Prefácio do álbum "Silêncios"  (novembro, 2008)