terça-feira, 31 de julho de 2007

Crónica * Esse sonho de língua que nos uniria a todos.

Telavive

Lídia Jorge *

Foto de Arile Schalit
É preciso tomar cuidado - Se em Israel dissermos que Lisboa é uma cidade branca, o nosso interlocutor poderá pensar que lhe estamos a roubar alguma coisa de precioso. Para os israelitas cidade branca é só uma e chama-se TELAVIVE. A mistura clara do sal, do sol e do solo formam essa impressão de brancura que lhes dá razão. As varandas de cimento que desenham o perfil da cidade, desenhada ao longo duma praia do Mediterrâneo, emprestam-lhe esse halo de claridade que lhe dá prioridade nas questões da brancura. Ainda não pusemos o pé em solo israelita, e já sabemos que a Cidade Branca, desde 2003 é considerada Património Mundial da Unesco. Ainda não mostrámos o passaporte e já sabemos que Telavive significa Colina da Primavera, com tudo o que o nome traz de brilhante. Aliás, o próprio aeroporto, uma construção acabada de estrear, lá tem a brancura nas paredes. A entrada nesse recinto de aviões é inconfundível – a pedra branca que a forra parece levar-nos para fora do tempo.

Mas o que mais atrai em Telavive são os recantos que marcam a geometria da sua história. Não a grande História, essa que tem um peso de letras e linhas tão forte que nelas confluem ao mesmo tempo as atribulações e os sonhos de todo o Século XX, antes a história das pessoas concretas e comuns que andam nas ruas, semelhantes a todas as pessoas do mundo. Mais que visitar o magnífico Teatro Habimah, auditórios, ministérios e galerias, do que eu mais gostei foi de calcorrear as ruas ladeadas pelas construções Bauhaus, o centro da alma de Telavive, e aí encontrar uma cidade que se sonhou ordenada, branca, de linhas simples, erguidas ao futuro dos anos 30 a 50 do século passado. Em nenhuma outra cidade se encontra um mostruário tão vasto e tão completo do sonho modernista de cidade. Um outro recanto que não esqueço é a própria Praça Dizengof onde se faz o mercado de Sexta Feira. Aí encontrei pessoas expondo preciosidades e ninharias como em todos os mercados de sextas-feiras. Aí comprei um alfinete de pequenas pérolas duma judia inglesa que se desfazia dos seus bens para recolher a um lar, e uma bolsa a um beduíno que os trazia duma montanha perto do Tiberíades. Aí os pratinhos com os peixes da multiplicação no Sermão da Montanha empilhavam-se para os crentes cristãos. Aí os saquinhos de folhas de rosa para o chá e essência para a salada, eram vendidos pelos árabes. O mercado do povo onde se entra vigiado e se sai vigiado, como vai ser o nosso futuro em toda a parte do Mundo, é um verdadeiro bazar, essa palavra que significa mistura. A nossa História futura cada vez mais como um grande bazar. E à noite, o peixe é maravilhoso, à mesa do Beny Hadayag, isto é, Beny, o pescador, ali no antigo porto, servido por gente que fala uma língua eslava de mistura com o hebraico. Mas mesmo assim, no que eu penso é no Mercado de Sexta-feira, ali onde se junta a vida dos homens, separados pelas História, unidos pelas histórias das suas vidas. E quando se deixa o grande e belo aeroporto de Telavive, tem-se saudade dum futuro branco para todos. Que os israelitas desculpem que o seu povo e as suas cidades nunca desencadeiem pensamentos apenas sobre o seu povo e as suas cidades, antes ofereçam a partir de si o início de pensamentos sobre todas as outras cidades do mundo. E acaso viajar não é isso? Reconhecer em todos os outros lugares a raiz do nosso próprio mundo? Por alguma coisa, perto da Praça Dizengof existe uma placa que evoca o nome de Zamenhof, o criador do esperanto, esse sonho de língua que nos uniria a todos.

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* in Público|Fugas, 31 de julho de 2007


quarta-feira, 18 de julho de 2007

Orignal * Ria Formosa

Calendário Marginal

Lídia Jorge

As férias são esse campo de alternância em que um pouco de ócio permite que o acaso visite a nossa vida, o mundo onírico se sobreponha ao real, e a distensão nos ofereça o encontro com a surpresa que está escondida sob a pele do Mundo. Uma vez entrei num hotel onde se lia – O tempo não precisa parar, aqui os relógios só batem horas, à meia noite em ponto… O Sul de Itália tem estas surpresas, mas até nem precisamos de ir tão longe para sabermos que tudo quanto se pede à pausa do tempo é que ele nos traga uma nova circulação ao sangue. Eu pelo menos consigo imaginar as férias em toda parte, nos sítios habituais e nos sítios longínquos, em solidão e na enxurrada de multidões, tanto quanto no meio de casas silenciosas onde se pode ouvir de madrugada o acordar de um pássaro. Tudo isso tem acontecido. Se a pausa é minha, se o meu ritmo de escuta próprio bate no meu corpo, e eu posso misturar os tempos e inverter os dias e as noites, conforme o que mais amo, então esse tempo são as minhas férias. Não tenho tido férias quando digo que estou em férias, e tenho férias verdadeiras enquanto trabalho, ao longo de todas as estações do ano. É desse calendário marginal que tenho feito surgir as personagens com as quais melhor me entretenho, e as quatro ou cinco páginas que eventualmente poderei deixar ao mundo.

Nessa marginalidade, as coisa passam-se assim – É uma tarde de calor de Agosto, as multidões deslocam-se pelas sombras deixando um rasto de objectos atrás de si. Os lugares de estacionamento estão preenchidos, os pássaros estão ausentes, e até a própria ponte de madeira que conduz ao outro lado da Ria , está repleta de gente que se encontra e desencontra sem cessar. E no entanto, de súbito, um homem vestido de branco sai da fila e encaminha-se para a relva. Não tem tacos, nem bolas, nem acompanhantes, ainda que pareça que deveria ter tudo isso. Decidido, encaminha-se para a relva , pára, olha em redor e sobre uma elevação, senta-se. As sombras das árvores atingem-no, mas não lhe alcançam o rosto, não lhe disfarçam as feições, ele está claro e visível à luz da tarde, a tarde de súbito silenciosa, sem berros, sem ruídos de automóveis, apenas o silêncio dum campo de golf onde um homem, não golfista, se senta para descansar. Só isso, e no entanto eu ouço o bater do taco na bola, o seu roçar pela relva, a entrada no buraco, as palmas das árvores ao longe. Como se entre o homem e a paisagem houvesse um Blow-Up agindo, um Antonioni escondido atrás dos arbustos, recebendo esses sinais. E eu imagino os sinais, aquela figura de um homem já idoso, desajustado na paisagem, regressado sem se saber de onde, estranhamento imóvel, estranhamente sentado onde não deveria estar, e a pouco e pouco, começo a vesti-lo com a matéria que trago comigo. Estendo-lhe a Verónica com a qual tapei o meu pão. O homem tem o rosto redondo, o talhe mediano, regressou aos campos de antigamente, vem disfarçado de turista, um turista que praticasse o golf que não pratica, um antigo emigrante que regressa no meio de Agosto, e visita, disfarçado, os primitivos lugares que ainda reconhece. Tenho a certeza. Do outro lado da multidão, lá está ele. A surpresa é tão grande que não consigo falar. Como não? - Há um ano que ando a escrever sobre ele, sem o saber. Aquele homem chama-se Walter Dias, e nas minhas páginas nunca regressará à pátria. Mas ali, no plano da realidade, o homem voltou, está na minha frente, sentado. Se for verdade o que penso, o homem retirará o boné, limpará a testa, irá levantar-se, cruzará o campo de golf como se atravessasse um granzoal, e desaparecerá no fundo azul da paisagem. E assim mesmo acontece, tal e qual. O que faz aquele homem, eu antecipo. Sou sua dona e seu escriba. Quando ele partir, vou poder sentar-me no mesmo local, pedir que me tirem uma fotografia, e escrever aquilo que atesta o que conto – Ria Formosa, 28 de Agosto de 1996. Essa história iria chamar-se O Vale da Paixão, fruto de vários encontros da noite. Assim acontece. Não me peçam, pois, que saia das minhas férias. Quero ficar dentro delas até ao fim da vida. Se me atrasar demasiado com os livros, é porque alguém me mandou regressar ao outro horário da existência, mais cedo do que devia.
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* Publicado no Jornal de Letras, 18 de agosto de 2007

terça-feira, 3 de julho de 2007

Depoimento * Ortografia, caligrafia...

Ortografia,
a nossa impressão digital


Lídia Jorge *

Em torno da questão dos erros ortográficos, criaram-se várias lendas perniciosas. Uma delas é a que estabelece a confusão de que a eficácia de um texto resulta basicamente da sua correcção ortográfica. Não é verdade. Todos sabemos que a ortografia é apenas um dos aspectos da construção de um texto. As pedagogias modernas, que têm de admitir que se está perante uma mudança do registo escrito, por influência do impacto da comunicação audiovisual, e do auxílio dos correctores automáticos a que as próprias crianças têm acesso, procuram adaptar-se a quadros futuros que não são muito conhecidos, e reagem ainda um pouco às cegas. Ou pelo menos por tentativas. Creio que a crescente tendência para se compreender que o erro ortográfico só por si não determina a qualidade da expressão tem vindo a acentuar-se, tendo por base algumas boas razões. Aliás, desde sempre que se sabe que muitos alunos com boa capacidade de expressão e criatividade, por vezes cometem erros ortográficos. A questão está no grau do erro. Se uma criança aos doze anos continua a escrever lilás com z, assessor com c, azarado com s, não parece grave, podendo-se confiar que o auxílio do corrector irá ajudar a fixar a forma certa. Já a permanente confusão entre andasse e anda-se, ou a supressão do h em determinadas formas do verbo haver, atinge confusões que são basilares do ponto de vista da estrutura semântica da língua e é objecto de preocupação de qualquer professor de português. Estamos perante um campo em que só tem grandes certezas quem nunca lidou ao vivo com as dúvidas.

No entanto, em nenhuma situação, muito menos na situação actual, me parece que seja bom facilitar o laxismo ortográfico. O saber ortográfico é um saber relevante. Quanto mais as crianças interiorizarem as regras da escrita correcta, mais independentes ficarão do auxílio do aparelho de correcção, e essa autonomia é altamente construtora. O desembaraço mental em face das distinções ortográficas funciona para a Língua Materna como a Tabuada funciona no domínio do cálculo matemático – favorece a rapidez, automatiza nexos, poupa e prepara para avançar nos raciocínios e associações. Todos os professores o sabem. A ortografia não é uma pele superficial da expressão verbal, é uma estrutura profunda que se revela na imagem grafada. Por isso mesmo, interpreto a divisão ocorrida em recentes provas de exame, entre questões destinadas a serem avaliadas do ponto de vista ortográfico, e outras, as destinadas a avaliar a capacidade de interpretação, apenas como uma questão metodológica formal. Depreende-se que sejam campos diferentes para avaliação, e não áreas diferenciadas de valorização da Língua. Imaginar que se incite com isso as crianças a escreverem mal em determinadas frases, e noutras não, seria imaginar uma divisão esquizofrénica incompatível com qualquer tipo de aprendizagem séria. Não pode ser isso que está na mente de quem constrói as provas. Não acredito. Há que imaginar que os professores desejam que os alunos portugueses sejam rápidos, vivos, falem e escrevam correctamente, tornando-se aptos para recriar a Língua, adaptá-la, acrescentá-la, e não vocacionados a malbaratá-la e a degradá-la, propriamente. Não se pode ser um ignorante ortográfico. E em toda a altura do percurso escolar - eu diria que durante toda a vida - a aprendizagem ortográfica faz parte da formação individual e permanente da pessoa cultivada.

Aliás, sempre me admirei da sensação de impotência manifestada por alguns colegas professores perante os erros ortográficos dos alunos, que chegados de outros níveis de ensino, se lamentavam do seu estado de imbecilidade ortográfica, como um destino imutável. Sentimento particularmente agudo nos professores das outras áreas disciplinares. Pois talvez a arte de um professor de português, nesse campo, possa passar por fazer divulgar que errar ortograficamente acontece a todos, incluindo os profissionais da escrita, e os próprios escritores. Que o digam os revisores de livros e os copy-desks dos jornais. Ninguém domina todo o leque ortográfico duma Língua, mesmo sendo a sua Língua Materna. Esse ponto de partida nada tem de humildade, só tem de realismo. O estabelecimento de exercícios de correcção por tipologias de erros pode ser adaptado a todos os níveis de ensino. Ficaria bem que todos os professores se empenhassem em corrigir os erros ortográficos, sobretudo os aduzidos pelas suas matérias específicas. Explicar o que significam etimologicamente consideração, bissectriz, ou protozoário, não será da responsabilidade do professor que usa as palavras para se fazer entender?

Nunca fui professora de crianças pequenas. Desconheço sem dúvida muitos dos segredos que fazem um bom professor de Língua Materna nos primeiros anos. Não tenho dúvida, porém, que é por aí que a maior fatia da aquisição é feita em muitos aspectos, e também no ortográfico, que em parte é caligráfico. Essa ideia de escrita bonita que se perdeu por completo - e não se deve retomar, evidentemente - encerra contudo a ideia de que unidas, ortografia e caligrafia, podem fazer da criança, e do adolescente, pessoas que aprendem a usar a sua expressão com dignidade. Nós somos a nossa escrita. A grafologia é um saber romântico de interpretação da pessoa a partir da sua marca sobre o papel. Os computadores afastam a nossa assinatura sobre o papel. Distanciam-nos dele. Mas o homem afirmativo não é aquele que luta pela individualidade da sua própria impressão digital? - Eu não descuraria, na escola, a arte de escrever sem erros, a arte de desenhar as letras com legibilidade, a arte de nos inscrevermos com assinatura própria no papel, pelo menos enquanto não for inventado um outro suporte, menos evanascente que um écran. Eu continuaria a ser prudente, não correria atrás da tendência, procuraria controlar a tendência. Preparar-me-ia até para a sua aceleração, que no seu reverso, costuma acarretar uma boa dose de vingança. Procuraria evitar a todo o custo que a única assinatura de um jovem, num futuro próximo, fosse apenas um grafitti na parede.

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* in Público, 3 de junho de 2007

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Depoimento * A Sophia

Das nossas vidas
Lídia Jorge *

Estou contente – Pouco a pouco, a Sophia vai perdendo os longos apelidos e vai ficando reduzida à imensidão do seu primeiro nome. É vergonhoso elogiar demais, as apoteoses arrastam consigo alguma coisa de faustoso impróprio da admiração. Mas como dizer sem dizer? Ultimamente várias são as mulheres que têm dito - Ela foi a mulher da minha vida. Não sei em que lugar me encontro, nem que lugar ocupei na reciprocidade do seu afecto, mas junto-me a todas as que assim pensam para dizer que Sophia também foi a mulher da minha vida. E tudo isso, só porque os seus livros finos ocupam meia estante?

Sim, porque os seus livros finos ocupam meia estante e lá dentro se encontra uma matéria encantada pelo deslumbramento em face do concreto da existência, com as palavras exactas, as imagens claras, as narrativas límpidas. Como se tivesse atravessado um século que dependurou a beleza da escrita na agrura da existência e ela, tendo dado por todas as tragédias, se tivesse recusado a fazer da escuridão o seu ingrediente. Mesmo nos poemas sobre o mais soturno e inferior, ela encontrou uma forma límpida para criar a repugnância. Abre-se o Livro Sexto e lê-se - O velho abutre é sábio e alisa as suas penas/ A podridão lhe agrada e seus discursos/ Têm o dom de tornar as almas mais pequenas. Mesmo aí, mesmo do interior desse tempo obscuro e dos seus heróis de terror, a sua escrita parte ao meio a realidade, separa-a nas duas metades e envia o desperdício para o monturo, como uma rainha que ensinasse a subtileza a todo um povo. Por isso mesmo os seus livros finos, que só enchem meia estante, são para muitos de nós mais do que a obra dum poeta, são uma cartilha para ler ao espelho e fazer nossa.

Mas ainda assim, apesar de tudo, Sophia poderia não ter sido a mulher das nossas vidas. Por que razão é? – Porque a própria vida, ela a viveu assim. Quem alguma vez se tenha sentado ao seu lado, conheceu sem dúvida uma mulher tão inteira quanto a escrita. Como pessoa, guarda-se dela a imagem duma compaixão altiva pelos outros, uma integridade perfeita, uma interpretação da mudança do Mundo pelo lado do respeito pelos seres humanos, como se a Humanidade fosse coisa de um deus. O seu Deus. Graça Morais representou essa impressão de grandeza num quadro admirável, a que chamou Sophia e o Anjo. Nele, a Sophia olha para cima e o seu busto está inteiro, o cabelo cai-lhe pelas costas. Mas o corpo é dum Minotauro sem as patas. Fico feliz com essa imagem. Quem não se lembra da voz da Sophia, presa à terra, sem rumor daquilo que a ligava ao chão? É bom dizer, porque não se pode repetir com frequência - Em Sophia, não havia coexistência entre o poeta e o estupor. Nela, tudo era poeta sobre poeta. E é esse sentido da realidade natural e limpa, onde as coisas brilham no horizonte de forma inaugural, que faz dela a mulher das nossas vidas.

Um nome só para Sophia? - Sim, para se parecer como ela própria, em livro e em vida.
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* Texto publicado na colectânea de depoimentos "A Sophia" (Ed. Caminho, 2007)

quinta-feira, 1 de março de 2007

Depoimento * Move a história do desencontro

Aposta em Patrícia Reis

Lídia Jorge *

“Morder-te o Coração” não é uma proposta canibal. Pelo contrário, é um “Menina e Moça” moderno, um choro sobre o sair e o não sair de casa para longes terras, desdobrado em duas vozes que só se encontram definitivamente nas páginas iniciais deste livro. O resto é busca e aposição, memórias cruzadas no desencontro dos tempos, justapostas pela força dos discursos em primeira pessoa, num esboço de teatro falado, e o resultado é bom. Ou por outras palavras, por mim, este é o primeiro livro de Patrícia Reis que faz pensar que a escrita de vez em quando resvala dos lugares comuns para o lugar das boas surpresas, e por essa singularidade se deve apostar nesta escritora enquanto autora de ficção.

Porque não é fácil escrever ficção, ao contrário do que se faz constar. Não basta ter uma história. Uma história, por mais imprescindível que seja, nunca chega. Uma história, enquanto tal, nunca passa duma narrativa sem verdadeiro objecto, se o ponto de vista não permite uma proposta de mudança em face da realidade, ou pelo menos não avança dados para uma interpretação que a mova do seu lugar fixo do acontecido, para o lugar onírico do desejado. Ora o que Patrícia Reis faz neste seu livro é isso mesmo, propor um ponto de vista que move a história do desencontro entre duas figuras romanescas na direcção da sua vitimização pelo efeito das histórias familiares e da História colectiva. Ou a imposição dum destino. É verdade que ao longo da balada de despedidas de que é feita esta narrativa, nem sempre as duas vozes são autónomas, é verdade que por vezes Patrícia Reis ainda não cria duas personalidades em corpo inteiro, e até nem parece preocupar-se em mudar o sexo da voz, como se esse artifício não lhe fosse imprescindível. Aliás, sobre esse aspecto, a história da reclusa que escrevia cartas com a mão direita a um homem que não conhece, e com a esquerda escreve respostas a si mesma, com uma letra diferente, constitui uma metáfora da própria dualidade simulada no próprio livro. Eu diria que as diferentes letras de imprensa deste livro não são duas letras caligráficas. São só uma. Mas não interessa. O que importa é que essa dualidade incompleta gera uma narrativa airosa, um voo semântico semelhante ao da associação ligeira das nossas cabeças dispersivas, e o resultado é de uma escrita desprendida e ágil ao serviço dum desencontro tácito.

Aliás, a escrita é precisamente o maior mérito deste livro breve, espécie de cruzamento de pensamentos íntimos, desarrumados no tempo, mas não no sentimento, dispostos de modo a falar de vidas desarrumadas na Geografia da Terra e nos acontecimentos da História. Uma espécie de inventário de acasos que fazem a sede deste amor absoluto, para que tendem as personagens Xavier e Maria, transformá-los não apenas em figuras de amor, mas também em agentes da Crónica do Mundo. A dado passo pode ler-se neste livro – “A par dos pedaços de vidas que fui recolhendo, comecei a coleccionar, com entusiasmo, números imperceptíveis: o terramoto de 26 de Dezembro de 2004 modificou o Pólo Norte em 2,5 centímetros. A Terra ficou, por isso, mais redonda, menos achatada nos pólos. Sofreu uma alteração de uma parte em 10 milhões, um pequeno amuo da natureza que não é possível de ver. E, como se tudo permanecesse igual, os dias andam mais depressa. O tsumani, a onda do porto, diminuiu o comprimento dos dias em 2,68 microssegundos. Para que queria eu saber estes detalhes? Porque me dariam satisfação? Para que fosse possível compreender a morte de mais de 250 mil pessoas? Também a Terra tem os seus gestos políticos”.

Precisamente, esta é a afirmação que me interessa – “Também a Terra tem os seus gestos políticos”. Prescindo da ingenuidade. - As apostas que fazemos uns nos outros nunca escapam ao efeito da contiguidade e da semelhança. Aposto em Patrícia Reis na esperança de que ela saia dos discursos interiores esperáveis, para os inesperados, aqueles que são contaminados pelo decurso da vida onde o outro, a realidade e o seu insondável mistério batam horas, ao mesmo tempo, no grande escuro do Espaço e no interior dum pequeno coração. Tenho a certeza de que “Morder-te o Coração” caminha a grandes passadas para lá. Esse local onde eu mesma quereria estar.
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* publicado na revista "Os Meus Livros", março de 2007

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Crónica * Agustina Bessa-Luís

Como ninguém

Lídia Jorge *

Neste momento ainda estamos frente a frente e este é um comboio para Hamburgo. A carruagem está repleta de passageiros de olhos descidos. Agora atravessamos uma planície pelada, agora a planície enche-se de árvores, agora as catenárias desenham aranhas no céu, agora as estradas e as casas desenhadas à beira dos rios vêm ao nosso encontro e desaparecem para além da vista. Agustina vai sentada no sentido do correr da paisagem, e diz-me – “Lá está um homem português”.

Levanto-me e não vejo o que anuncia. Na direcção do seu olhar só encontro pessoas de aspecto germânico. Nem um único bigode escuro, um único olho preto, ninguém com o porte sumido próprio dum rosto luso. Agustina está confundida. E de novo a planície pelada, de novo um renque de casas fantásticas, como se fossem desenhos planos rodando sobre a paisagem. De novo, a fila dos olhos tombados. Mas Agustina não desiste. Insiste – “Vê-se que é português pelo mover dos lábios…”

Reparo com mais atenção e de facto alguém está a sorrir na direcção de Agustina, e não é um homem escuro, nem de olhar melancólico. Curiosamente é uma pessoa de compleição germânica, que já se levanta, já se aproxima, curva-se na direcção do nosso assento e começa a falar português. Afinal, Agustina acertou no vaticínio, está encantada. Deve ser um professor, provavelmente um professor de literatura brasileira, já que o acento denuncia aqui e ali uma passagem pelo Rio, talvez por são Paulo. Eu mesma gostaria de saber alguma coisa sobre a história do seu idioma correcto, mas entretanto, a conversa do homem, em pé, postado no corredor, já se dirigiu para outro lado. O homem reverencia Agustina, fala calmo e claro, como se desenhasse palavras no ar, ali dentro da carruagem. Encantada, Agustina escuta – “Claro que a reconheci de imediato, como não? E já agora gostava de obter uma informação. Dá-me licença?”

Agustina dava licença. O passageiro prosseguia, todo inclinado para o banco – “É verdade que chegou a encontrar-se com a Anna Hakhmátova? E confirma que ela lhe perguntou com quem a sua escrita se parecia? E que a Agustina Bessa-Luís, respondeu que se parecia com Dostoievski? E que a vaidosa ficou desiludida? Claro que a Hakhmátova não percebeu que era apenas uma gentileza sua para com a cultura eslava, não percebeu…”

O homem estava curvado sobre o banco onde Agustina permanecia sentada, risonha, divertida com a situação, a responder baixo com acenos de cabeça, a completar com pormenores um relato que afinal tinha andado de mão em mão até chegar àquele homem que a visitava naquela situação extraordinária. Cada vez mais solícito, o homem – “Pois foi pena que tivesse respondido assim, muita pena. Porque a senhora, literariamente falando, não tem ascendentes legítimos. A senhora bebeu do Goethe, bebeu do Kafka, bebeu do Musil, e é diferente de todos eles. Porquê o Dostoievski, porquê? Possuo todos os seus livros alinhados na estante. A senhora não precisa de parentes nem de formatos, a senhora escreve como ninguém… ”

E o homem germânico, de fala portuguesa de acento lusitano, com toques brasileiros, arredou-se para que o carrinho dos mantimentos passasse. O carrinho passava com os seus empurradores, e Agustina continuava a escutar, divertida. O homem germânico disse – “O seu talento é feito de versatilidade, velocidade, multiplicidade, invenção, opulência, toda uma orgia genesíaca que varre os seus milhares de páginas com um sopro entre o hiper-lúcido e o ébrio, e envolve de genialidade todos os géneros a que se dedica…” Mas chegando aí, Agustina começou a sorrir de outra forma. “Pois está muito bem, disse ela…” Agora o homem fazia o elogio sentado, mesmo em frente, porque alguém se tinha levantado do lugar. Tinha pedido licença e falava manso, com conhecimento de causa, recuando até a A Sibila e saltando para O Bicho da Terra, e logo indo até a O Mosteiro, e Fanny Owen, e Vale Abraão, e por aí adiante. E Agustina, a pouco e pouco começou a ficar desatenta, a olhar em volta, até que disse – “Sabe o senhor? Deixámos passar o carrinho e estamos as duas cheias de fome…”

O homem germânico levantou-se dum salto, olhou para o relógio, penalizou-se por ter interrompido o nosso sossego, ter deixado passar o carrinho. Agora, ter-se-ia de ir ao bar, mas ele não queria que Agustina Bessa-Luís se dirigisse ao bar. Aquele comboio era um transporte seguro, e no entanto, sempre fazia safanões, e depois ter-se-ia de comer em pé, com a carruagem do bar completamente atafulhada de gente àquela hora da tarde. Mas ele, penalizado, deferente, ia já resolver a situação num abrir e fechar de olhos. Ele mesmo iria ao bar comprar umas bebidas e umas sanduíches. - O que desejávamos? Com picos ou sem eles? Com pão preto ou pão branco? Salame ou queijo de barra? Salada verde ou vermelha? E copo ou palhinha? Com palhinha, claro. E nada de dinheiro, ele tinha todo o gosto em oferecer aquele lanche a Agustina Bessa-Luís e à sua acompanhante. - E agitado, cumpridor, sorridente, dirigiu-se ao seu próprio lugar, remexeu nos seus sacos, nos seus casacos, e desapareceu na direcção da carruagem-bar. Por sua vez, nós arrumámos os jornais, e preparámo-nos para lanchar. Mas Agustina disse – “Este tipo não está a dizer a verdade. Acho que é um português que se naturalizou alemão. Não estou a ver um alemão desenvolver este arrazoado desmedido. Um alemão não cumprimenta de longe, daquela maneira. Não mostra a emoção, é um disciplinado…”

Entretanto olhávamos para a carruagem e víamos os cabelos loiros, os cabelos palha, os olhos fechados dos passageiros. Quando o homem voltasse com o nosso lanche, iríamos querer saber onde vivia, o que fazia, porque estava ali. As duas, unidas na suspeita, pretendíamos despir aquele homem do seu anonimato. Afinal, era injusto, dizia a Agustina – Os leitores sabem tudo sobre nós, nós não sabemos nada sobre os leitores. Naquele caso, iríamos equilibrar a situação, assim que o homem aparecesse na porta ao fundo. Entretanto, lá fora corriam árvores, rios, castelos, outeiros, casinhas enfileiradas como nos livros das fadas, catenárias desenhando rendas de aço pelos ares, e o homem não vinha. Passaram vinte, trinta minutos, três quartos de hora e não vinha, o homem. O que teria acontecido? Sobre o seu assento, a gabardina dobrada. “Vá lá ver se o homem está no bar. Talvez tenha encontrado o Kandaré ou o Kundera e esteja entretido a fazer-lhes o panegírico. À cautela, traga as sanduíches…” – disse a Agustina.

Fui. No bar, o homem não estava, nas carruagens intermédias também não estava. A gabardina continuava ali, dobrada sobre o assento. O comboio não tinha parado. Entretanto a tarde avançava para a noite, as árvores desapareciam, as casas tornavam-se vultos, o campo sumia-se, as estradas eram filas de luzes paradas, pontuando as luzes corridas dos carros. De onde em onde iluminações, uma povoação que se aproximava, rodava, engolida pelo escuro. À nossa volta, passageiros solenes dormiam. E a gabardina além, pousada sobre o assento. - Ter-lhe-ia dado uma coisa ruim? Estaria escondido num WC? Teria passado a uma carruagem longínqua, de propósito para nos pregar uma partida? Agustina disse – “Vai ver que é um espião que anda por aqui. O melhor é esperarmos. Ele há-de vir, mais que não seja por causa da gabardina…” E entretanto o comboio avançava planície fora, entrava nos subúrbios, nas luzes da cidade, nos milhares de carris, nas grandes bocas das estações, nas plataformas corridas, e os passageiros levantavam-se, procuravam as bagagens, encaminhavam-se para a saída. Nós só haveríamos de sair depois da gabardina, tínhamos os olhos num lado e no outro, o olhar na plataforma onde nos haveria de esperar a Kárin von Schweder-Schreiner. Sim, lá estava a nossa amiga a acenar. E de repente, um assombro – Um outro homem levantou-se da janela, placidamente, pegou na gabardina, vestiu-a e colocou-se na fila de saída. Acabava de desaparecer o único objecto que nos ligava ao homem. O que queria dizer que o lusitanista havia saído definitivamente da carruagem, na altura em que se dirigira ao bar. Como proceder?

Arrastávamos connosco as bagagens. Ao fundo dois hospedeiros vigiavam a descida. - Deveríamos falar-lhes? Fazermo-nos entender sobre o que nos havia acontecido? Alertá-los para o provável desaparecimento de um passageiro? Alguém que havia reconhecido aquela escritora, e lhe descrevera os livros, a elogiara, a incensara, a fizera da família de Dostoievsky e Kafka, mais do que todos eles, e depois havia desaparecido no interior do comboio com a promessa de duas sanduíches?

“Não faça isso…” – disse a Agustina. “Quem vai acreditar em si? Como prova dessa conversa, nem ao menos dispomos duma gabardina esquecida…” Mas foi já perto da porta, encavalitadas nas malas de rodas que a Agustina concluiu – “Isto só quer dizer que temos de continuar a escrever. Está visto que nem a grande nem a pequena intriga estão resolvidas. A coisa concreta, a gente abomina. Policiais são para o pobre do Simenon, coitado...”

E quando a sua mala passou para as mãos da Karin, e nos pusemos a caminhar pela estação de Hamburgo adiante, Agustina Bessa-Luís começou a rir com gosto. O gosto próprio duma mulher que sabe que nenhum enigma, por difícil de desvendar, a encontra desprevenida. Obrigada até ao fim da minha vida, por todas as suas viagens, Maria Agustina.
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* in revista Egoísta (dezembro 2006)

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Crónica * África, nome inscrito

Lugar de chegada

Lídia Jorge *

Que palavras usar para falar de África? – Trago esse nome inscrito na bagagem da vida como se fosse uma parte do corpo. Escrevo-o no papel, e vejo o meu pai e o meu avô paterno saindo ambos de casa, naquela noite da minha pequena infância, para embarcarem no Paquete Pátria em direcção de Moçambique, e aí viveram dez anos. Depois eu haveria de saber que tudo isso acontecia no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, início dos anos cinquenta, quando a ditadura se fortalecia e as Colónias eram apresentadas à população como locais de paraíso. Entre as populações, constava que lá, em África, o clima era tão criador que uma semente que se deitasse à terra pela manhã, daria as primeiras folhas ainda antes do anoitecer, e outros prodígios semelhantes. Constava também que por lá nunca haveria Inverno, e que as pessoas locais estavam sempre de joelhos, à espera do branco, para servir. Também ficaria a saber que o meu avô e o meu pai, que não sabiam línguas, em vez de embarcarem para o Canadá ou os Estados Unidos, tinham preferido terras de emigração onde se falasse o português. Mas tudo isso eu só saberia muito mais tarde.

Na altura, eu apenas ouvia dizer que o meu avô, uma vez chegado à antiga Lourenço Marques, tinha rumado para Norte, e que o meu pai havia encontrado forma de fazer da sua vida um modo de andar cá e lá, entre o Norte e o Sul, esquadrinhando estradas e picadas, matéria para memórias quotidianas que ia deixando no seu diário. Não admira, assim, que as minhas primeiras frases em papel de carta tenham sido escritas para enviar para África. Que os primeiros endereços desenhados pelo meu punho, tenham sido dirigidos para Chingune-Chiloane. Que o meu primeiro atlas ao vivo tenha sido o redor de África e o meu primeiro outro mar, tenha sido o Oceano Índico. Pelo Natal, o meu avô enviava fotografias, todo vestido de branco, posando debaixo de coqueiros, de braço dado com os empregados das minas onde trabalhava. E o meu pai, sorridente, deixava-se fotografar em calção curto, junto de peças de caça grossa, no meio do mato. Os dois heróis da nossa casa encontravam-se no meio de África. O dinheiro que tínhamos vinha de lá, o meu sonho e a minha evasão voavam para lá. Todas as hipóteses de viagem se dirigiam para lá, par África. Claro que eu não podia adivinhar que cinquenta anos atrás, Joseph Conrad tivesse escrito Coração das Trevas, essa denúncia sobre a perversão dos seres humanos em face dos outros. Desconhecia de todo que em 1945, depois das Conferências de Yalta e Pstadam, a Europa tivesse começado a perceber que as autonomias das colónias eram irreversíveis. Creio que o meu pai e o meu avô também não sabiam. Se deixaram África anos depois, foi por outros motivos bem mais particulares, e bem menos tangíveis. Fosse como fosse, sem o saberem, já se tinham inscrito definitivamente na ordem dos ocupantes. Tinham feito parte do equívoco da nossa História retardada no tempo europeu. Caberia à minha geração pagar por isso. Involuntariamente, coube-me fazer parte da saga do colono odiado.

É verdade – Já nos anos setenta, vivi em Angola e Moçambique como testemunha da guerra colonial. Não era fácil. A sensação de fim de ciclo batia sobre a cabeça daqueles que detestavam o regime político e entretanto tinham lido Conrad e conheciam o destino de Lawrence da Arábia. Fazia parte do grupo daqueles que sabiam muito bem que em Lisboa ainda se vivia na ilusão melancólica de que a situação colonial poderia manter-se. No terreno, era uma ilusão sangrenta e dramática. A História recente ensinava que quanto mais tarde pior. A Universidade ensinava como nasciam e morriam os impérios. Como tantos não viam isso? Como tantos morriam, de um lado e de outro, por isso? Por esse equívoco? Quando tudo acabou, foi possível dizer – Felizmente, acabou. Doesse o que doesse, acabou.

Mas, desse tempo, eu guardei as vivências mais importantes da minha vida. Aprendi o que significava ocupar a terra dos outros, ser expulso da terra dos outros, aprendi com os outros. Amei os outros. Amei os meus alunos de África, as histórias das suas vidas contadas em redacções escritas nas aulas. Amei a terra, o clima exuberante, as árvores, as danças, as raparigas grávidas com quem convivi no Hospital do Macúti, eu, como elas, sabendo de crianças recém-nascidas muito menos do que elas. E de tudo isso, trouxe a ideia de que era urgente escrever livros porque tinha visto duas Culturas desentendidas, e durante esse tempo tinha aprendido a gramática adulta da dor humana de mistura com a alegria. Em forma directa, trouxe na cabeça a vivência transfigurada daquilo que haveria de resultar A Costa dos Murmúrios, homenagem a esse tempo ido, para encerrá-lo com beleza, mas sem nostalgia. Porque hoje a vida em África é outra, a promessa de regresso e destino de viagem tem outros modos, e a esperança de entendimento passa por outras vias. Difíceis vias, urgentes vias. Tão urgentes, que às vezes sinto vergonha de escrever textos sobre África. Há momentos em que a escrita é um modo de utilizar os braços duma forma demasiado passiva. Como amar África, percorrendo os dedos, apenas, por um teclado de plástico? – Vergonha. Escrever um texto não passa de uma simples metáfora e de um princípio.
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*  in Público | África (2 de outubro de 2006)

terça-feira, 8 de agosto de 2006

Nota * Em Tavira, um rei depositou a coroa nos telhados

Travessia

Lídia Jorge *

Foto de Ivo Gomes
Em Tavira, um rei depositou a coroa nos telhados e foi-se embora. Do rei nada sabemos, da coroa, conhecemos os sótãos alinhados diante do rio e a forma geométrica da pirâmide. Fechamos os olhos e sabemos que há tesouros piramidais sobre as casas que olham para o Gilão.

Mas do que eu mais gosto é do percurso. Os dias estão quentes, atrás ficou a Pousada, a Escadaria, a chave e a sombra, o nosso destino é a Ilha. Para tanto é preciso atravessar as Quatro Águas, as palmeiras, as salinas, e lá em frente, ao fundo, vê-se o embarcadoiro. É aí que está atracado o pequeno barco em forma de mosquito que nos vai levar. Em tempos este barco foi uma lancha de pesca, depois o casco foi esventrado, forrado de bancos e encostos, uma sugestão de asas na coberta. Frágil, carregado de gente, em vez de peixe, o transporte é a parábola dum mosquito que se sacode, estremece, zune, enterra a barriga na água e atroa aos quatro ventos a sua curta viagem até ao embarcadoiro do outro lado. Entretanto, a água da ria está lisa, é azul, levemente untada, como se tivesse à mistura um amarelo de perfume ou a macieza doce do azeite. E nós aqui vamos, fazendo afugentar os pássaros brancos, as gaivotas, as cagarras. No piso de cima para onde subiram os mais ágeis, todos riem. No leito do barco, somos muitos, ninguém fala. De súbito, o barco mosquito faz uma curva, os pássaros voam atrás, e uma rapariga grita – “Ainda o amas?” Os risos são mais do que muitos. “Amas ou não amas? Diz lá, pá…” Estamos na superfície da água, rasgamos a camada de perfume e azul intenso, deixamos atrás um lastro de espuma, à medida que o corpo do mosquito avança. As raparigas em cima falam em simultâneo, esbracejam – “Se eu fosse a ela não voltava mais aqui. Conheceram-se aqui, foi por aqui que andaram, e ela volta? Porque volta?” O barquinho estremece mais, vai esfalfado na direcção do atracadoiro da Ilha, vai zunindo o coração do mosquito barco como se fosse rebentar de carga. E de novo - “Do que ela gosta é de sofrer, pá. E não diz nada…” O mosquito estende as asas para a outra margem, já se entregou à longarina, já lançou a amarra, a fila de baixo começa a sair, os de cima começam a descer. Agora ali vêm as raparigas gárrulas. Uma delas ainda grita - “Ela vem ao local do crime, compreendes?” São uma, duas, três, quatro, cinco. Mas aquela que eu quero ver é a rainha. Aposto que é a sexta. Ali vem ela – É pequena, morena, franzina, metade do seu volume é cabelo, a outra metade é vestido. Traz a mochila às costas e avança depois das outras, sem dizer nada. Leva o rosto fechado. É linda. Vai sozinha. E os meus olhos vão atrás dela, atrás da coragem dela, coloco-lhe uma coroa de rainha na cabeça. À noite, quem me dera fazê-la regressar da Ilha, acompanhada, deitá-la coroada, na colina, diante do Convento e do Castelo.
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* Nota de para o livro
"Pousadas de Portugal – Moradas de Sonho",
coordenação editorial do Centro Nacional de Cultura 
(Edições Inapa, 2006)

terça-feira, 11 de julho de 2006

Intervenção * Portugal e América Latina

Uma história de periferia


Lídia Jorge *

Convidou-me o Sr. Dr. Carmelo Rosa para que dissesse umas palavras por esta ocasião. Faço-o com muito gosto, e aproveito o momento para vos saudar e desejar que tenham uma boa experiência em Portugal e na Europa. Por mim, ao falar para estudantes provenientes sobretudo da América Latina, gostaria que soubessem que o faço como se fosse uma conversa em família. Não é em vão que a minha única irmã é sul-americana. O meu único sobrinho é sul-americano. Não é em vão que os meus parentes mais próximos se dividem principalmente por estes dois continentes. Permitam-me, pois, que vos fale de forma simples, como se este encontro fosse um serão, embora sobre uma matéria tão inesgotável quanto é o rosto dum país. O rosto do nosso país, que à semelhança do que se passa com o nosso corpo, sempre desconhecemos por mais que o queiramos analisar. Como se sabe, a consciência que temos de nós mesmos só existe com alguma lucidez quando reflectida no olhar dos outros. E para isso, nada melhor do que irmos ao espelho dos nossos outros especiais, aqueles que são os nossos vizinhos, para percebermos as feições da nossa própria cara. Não o nego - Digo-vos isto e estou a pensar em certa Antologia de Poetas Portugueses publicada em Madrid, em meados dos anos oitenta, à qual o seu antologiador, Ángel Campos Pâmpano então deu o nome de Los Nombres de la Mar.

Curioso que em Espanha os poetas portugueses do século XX possam ser considerados como Los Nombres de la Mar - hombres e mujeres de la Mar- quando Espanha também foi um país de mar, e continua a ser o que é possível ser hoje em dia, tal como nós, um país de questiúncula costeira e pescaria. Trata-se, pois, duma metáfora. Mas mesmo sabendo que os títulos não passam de metáforas, de qualquer modo, de tão honroso que é, aquela forma de designar leva-nos a pensar sobre o que poderá haver nele de usurpação dos outros – E os gregos? E os italianos? E os irlandeses? E os alemães da Liga Hanseática, e os ingleses, não terão eles por direito próprio Nombres de la Mar? E na América do Sul? Quantos são os países que não têm uma boa história marítima? Os argentinos, por exemplo, não se designam a si mesmos, como aqueles que vieram do mar? Naturalmente que se trata duma condescendência poética, uma tomada da parte pelo todo, um enfeite de linguagem. Uma questão de simplificação. E no entanto, quem conhece um pouco da cultura portuguesa, sabe que há razões legítimas que abonam em favor daquele belo título. É que deve ser difícil encontrar um país da era moderna em que o elemento do mar tenha sido tão determinante na marcha da sua História, e a circunstância geográfica tenha sido tão totalitária na construção do seu carácter.

Na verdade, para os portugueses, assumir que ao longo dos séculos se transformaram em Nomes do Mar, não significou apenas conviver, viver, presenciar, usar e cruzar o mar. Significou muito mais do que isso, significou sobretudo o seu oponente, um limite, uma fronteira real e concreta que a todo o momento foi necessário destronar para sobreviver. A história do nosso início é medieval e às crianças até se conta em poucas palavras. Consta que no início do século XII, um príncipe vivaço que vivia aqui a Norte, paredes meias com a Galiza, se revoltou contra a mãe, e contra o primo de quem era vassalo, e depois de muitas espadeiradas, a si mesmo se coroou rei e veio por aí a abaixo conquistando praças aos habitantes locais, que eram muçulmanos. A esse movimento se chamou Reconquista e por ele ganhou o direito de ser considerado um bom cristão. Com o devido respeito, a partir de então, estava encontrado o rei duma fatia de terra pobre e estreita à beira do Atlântico, neste canto da Península. Na diversidade do xadrez ibérico que se conhece, ainda hoje tão vivo e tão autonómico, esta separação iria ficar marcada para sempre como a marca genética da nossa independência. Sem outros comentários, assim se percebe, olhando o mapa de hoje, invariável desde há oito séculos, que esta nação, a mais antiga da Europa, tenha tido a necessidade permanente de destronar o seu isolamento. É como se este país fosse uma ilha com quatro costas – duas marítimas viradas ao Atlântico e outras duas, terrestres, viradas ao Continente Europeu. Uma velha história de espadas apontadas. Pequeno, estreito, Portugal funcionou ao longo da História como um ouriço-caixeiro defensivo. Nos momentos de dificuldade, fechou-se sobre si e ofereceu aos vizinhos, as costas com os espinhos. Em termos de identidade e independência, chapeau! Venceu. E assim se percebe também o sentimento de compulsão para atravessar o Atlântico, e em parte assim se explica também que no século XV e XVI Portugal tenha tido uma expansão surpreendente, da qual resultou o célebre Império Ultramarino que ainda hoje, trinta anos depois da Revolução, ainda eleva e ainda embaraça. Ou por outras palavras, talvez a história da expansão portuguesa através do mar, que nós próprios ainda hoje celebramos, e uma boa parte do Mundo também, tenha sido apenas a vitória duma população escassa, numa terra estreita, contra o seu estado de periferia. E talvez o estado em que nos encontramos hoje, libertos finalmente dos pesadelos imperiais, e ainda à procura de um caminho de progresso, tenha a ver de novo com esta situação geográfica da qual tiramos o proveito sobretudo, do bom sol e das praias.

Claro que toda a explicação é uma amputação da realidade. Quando a explicação assenta na superfície ficamos perante clichés. A presença do mar oferece todas as explicações mas também o seu abuso. Um dos principais abusos consiste na ligação totalitária que muitas vezes é feita entre esta relação com o mar e o temperamento dominante dos portugueses. Um dos clichés correntes descreve os portugueses como gente de comportamento sóbrio, por vezes demasiado humilde, ou até raivosamente submisso. Se olharem à volta, até verão que existe razão para isso. Mas se ouvirem dizer que isto é fruto da nossa relação com o mar, acreditem se quiserem. A ideia mais divulgada é que esse sentimento de gravidade de que nos caracterizaria viria da noção de que ao longo da História fomos gente de proezas, não pessoas para empresas. Uma herança por certo que nos faria descendentes dos inqualificáveis marinheiros. Como dizia Anarcasis – “Há três espécies de homens, os vivos, os mortos e os que andam no mar”. Ainda aí, a nossa ousadia eufórica, seguida de depressão, viria do mar. Muito romântico, não sei se válido.

Por vezes o totalitarismo desta ligação estende-se até à morfologia da nossa própria Língua. O mar não explicaria mas pelo menos o seu convívio poderia ser um dos ingredientes que implicaria a nossa melodia verbal, cuja forma mais perto da origem os brasileiros conservam. Sobre essa matéria, Cervantes, amigo dos portugueses, escreveu que a língua portuguesa era o castelhano sem ossos. Ao que alguns portugueses românticos têm respondido que é uma língua que segue a ondulação gutural do mar. Clichés no plano simbólico, para nos rirmos de nós mesmos, o que é saudável. Em tom mais sério, o grande escritor Vergílio Ferreira escreveu uma frase memorável para qualquer português. Parodiando uma velha canção que dizia alguma coisa como “da minha janela/ virada para o mar”, Vergílio Ferreira fez essa síntese admirável que vale por milhares de canções - “Da Minha Língua Vê-se o Mar”. Esse escritor sabia que não se poderia jamais associar o som das nossas palavras a uma origem marítima, que seria ridículo fazê-lo, mas de forma diversa sabia como o léxico está cheio de expressões de marinhagem e como a narrativa do nosso mundo é, na sua maior extensão, uma narrativa sobre a nossa luta com o destino do mar. Parte da nossa estrutura semântica tem origem no combate permanente com essa fronteira da água.

Aliás, do nosso isolamento - e ilhamento - provêm também raivosos clichés que tanto atraem os turistas, embora a nós mesmos tanto nos desesperem – A ideia de que se trata de um país cuja canção nacional é o Fado, e cujo sentimento dominante é a Saudade. Clichés raivosos, digo. Porque a ideia monolítica que se faz passar, e nós consentimos e até estimulamos, é essa mesma – a duma expressão de imobilidade nostálgica ligada ao mar. Morrer longe, morrer de amor e de distância marítima. Obedecer ao destino, gostar de sofrer de forma parada, seria coisa própria dos portugueses, e tudo isso ligado ao Fado. No exterior, até ainda hoje essa imagem estática resulta bastante eloquente, quando se compara, por exemplo, a vitalidade do flamenco espanhol ou a coreografia vibrante do tango argentino com a aparente imobilidade do fado. A propósito, recordo aquilo que sobre a grande cantora de Fado, Amália Rodrigues, diziam os responsáveis do Olympia, em Paris. Ela aí esteve com grade sucesso, em 1987. Mas consta que durante muito tempo recusaram-na, temendo que o seu espectáculo fosse um desastre. Descreviam assim a sua actuação – O que vamos fazer com uma mulher toda vestida de preto, de olhos fechados, durante duas hora, no meio do palco, sem se mexer? – Claro que fizeram grandes coisas, felizmente, já que a vitalidade que dela emanava era de outra ordem coreográfica. E felizmente que hoje em dia o Fado está salvo porque entrou na onda da World Music e as fadistas portuguesas vestem de todas as cores. E felizmente também, que a dinâmica da modernidade encontra entre nós outros parâmetros alternativos.

Aliás, falando da nossa imagem no Mundo, talvez valha a pena relacionar o factor marítimo, e a estreiteza da terra portuguesa, com o tipo de ocupação costeira das terras por onde andaram. O que sempre se refere é o facto de terem sido meia dúzia de gatos pingados, por vezes gatos pingados bastante ferozes e rapaces, que fizeram o antigo Império Português. A população de Portugal não chegaria a três milhões, em meados do Século XVI. Mas talvez não seja errado acrescentar que os portugueses, comerciantes como os levantinos, criadores de feitorias, terão levado consigo o seu vício de ficar pela periferia. Com as excepções que se conhece, não tinham a experiência das invasões dos grandes espaços continentais. Simplificando, o Interland não é uma criação sua, nem a palavra que o traduz é sua sequer. Vale a pena lembrar a forma curiosa como Portugal perdeu o que em 1890 considerava um direito seu. Como se sabe, o Mundo sempre foi assim, sempre andou a ser dividido à força. Pois bem, nessa altura, as potências coloniais europeias desenhavam a seu bel prazer a configuração dos países de África. Nesse contexto, conforme a Conferência de Berlim, se Portugal provasse que tinha ocupado a zona africana entre Angola e Moçambique, poderia unir a Costa Ocidental de África à Costa Oriental. Ao projecto dessa união, que faria de Portugal o grande dono da África equatorial, chamámos o Mapa-Cor-de Rosa. Mas havia que provar essa ocupação. E claro que não poderia provar, nem a Inglaterra da Rainha Vitória permitiu que provasse. Pelo contrário, foi criado por inspiração sua, e consentimento de muitos, o Reino do Congo. E foi feito um Ultimatum a Portugal. Os ingleses, nossos velhos aliados, transformavam-se assim nos grandes inimigos. O Hino Nacional português foi criado nesses dias de raiva contra a Grã-Bretanha. Um dos versos do refrão cantava Contra os Bretões, marchar, marchar…. Com o passar do tempo, acabámos por fazer as pazes com os ingleses, e agora, volvidos todos estes anos, fizemos desaparecer a palavra bretões, e cantamos nos estádios de futebol alguma coisa muito mais suave. Cantamos apenas Contra os canhões, marchar, marchar. Mas por certo que os rapazes de Manchester United ou do Chelsea, e até mesmo os nossos jogadores quando o cantam nos relvados, estarão bem longe de saber o que outrora se queria gritar ao Mundo, com este hino que começa pelas palavras épicas de Heróis do Mar, Nobre Povo, Nação Valente e Imortal! Claro que estamos a falar de uma história de raiva e de vingança colonial. Felizmente que hoje em dia ficámos inocentes dessa história da ocupação costeira portuguesa, esse vício antigo da periferia.

Uma forma de ser que se prolongou até bem tarde . Quando em 1961 os Movimentos Independentistas desencadearam as primeiras ofensivas nas ex-colónias de África, nesses terrenos quase não havia estradas, nem hospitais, nem universidades. Os povos colonizados pelos portugueses têm razões de queixa, sim, têm . Nos Estados Unidos, quando se procura a génese das comunidades, lá encontramos no núcleo fundador de cada cidade, uma Escola, uma Universidade, um Tribunal, um Hospital, um Banco, um Quartel e uma Igreja. Nos territórios colonizados pelos portugueses, encontramos sobretudo, a Igreja e o Forte, sós e unidos. No seu interior, estava em estado de embrião tudo o resto que faltava - a escola, a universidade, o tribunal, o hospital e o banco. A Democracia e a Liberdade vieram tarde para nós, e os países que provieram da nossa descolonização também têm muito tempos e atraso. Ainda que infelizmente, durante os últimos anos, o Novo Mundo se tenha encarregado, em África, de nivelar tudo por baixo, o mais raso possível. Mas nem tudo é pobre. Como dizia o General Spínola, um general português que na década de setenta compreendeu os tempos do futuro, a diferença entre a colonização portuguesa e a inglesa, resumia-se no seguinte contraste – Perante os povos colonizados, os ingleses disseram, eleva-te, mas não te aproximes. Os portugueses disseram, aproxima-te, mas não te eleves.

Claro que hoje em dia, quanto mais conscientes somos das nossas Histórias, mais livres somos das nossas heranças e mais soltos ficamos para um novo convívio entre nações.

Não nego que encontro na troca da Literatura, das Artes e das Ciências, a melhor forma de nos encontrarmos. Não nego que em termos artísticos, em termos de entendimento entre povos, privilegio as literaturas nacionais como os grandes rostos e os grandes espelhos onde nos miramos uns aos outros e nos damos a conhecer. Volto a Los Nombres de la Mar, e é um orgulho perceber que um poeta do Século XX, português, Fernando Pessoa, entendeu como nenhum outro nesse século, o que foi o movimento de travessia que fez a expansão da Europa, que ao mesmo tempo aproximou os povos, e os tornou vizinhos, e ao mesmo tempo criou cartilhas de domínio de uns sobre os outros, cujas feridas não só não estão saradas, como desde o 11 de Setembro de 2001, a cada dia que passa, mais se abrem. Mas como disse, é uma honra para nós ter sido escrita em português a Ode Marítima, esse poema sobre os caminhos das almas do mar, o poema da grande pirataria universal, irmã gémea da navegação. É reconfortante saber que em Portugal existe um poeta que compreendeu a natureza do ser humano como ser anfíbio, homem e mulher em simultâneo, o pirata. É talvez o maior grande poema do século vinte. Está traduzido em todas as línguas cultas. A dada altura, neste poema escrito em 1917 , pode ler-se sobre a identificação do europeu com todos os homens de mar e todos os mares :

“Quero ir convosco, quero ir convosco
Ao mesmo tempo com vós todos
Pra toda a parte pr’onde fostes!
Quero encontrar vossos perigos frente a frente,
Sentir na minha cara os ventos que engelharam as vossas,
Cuspir dos lábios o sal dos mares que beijaram os vossos,
Ter braços na vossa faina, partilhar das vossas tormentas,
Chegar como vós, enfim, a extraordinários portos!
Fugir convosco à civilização!
Perder convosco a noção da moral!
Sentir mudar-se no longe a minha humanidade!
Beber convosco em Mares do Sul
Novas selvajarias, novas balbúrdias da alma,
Novos fogos centrais no meu vulcânico espírito!
Ir convosco, despir de mim – ah! Põe-te daqui para fora!-
O meu traje de civilizado, a minha brandura de acções,
Meu medo inato das cadeias,
Minha pacífica vida,
A minha vida sentada, estática, regrada e revista!


No mar, no mar, no mar, no mar
Eh! Pôr no mar, ao vento, às vagas,
A minha vida!
Salgar de espuma arremessada pelos ventos
Meu paladar das grandes viagens.
Fustigar de água chicoteando as carnes da minha aventura,
Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência,
Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sóis,
Meu ser ciclónico e atlântico,
Meus nervos postos como enxárcias,
Lira nas mãos dos ventos!”

É um poema de vinte e oito páginas em caracteres miudinhos. Poupo-vos na esperança de que um dia voltem aqui e encontrem aquela beleza superior que olha para cima, mas quando olha em frente, conduz à compaixão. Espero também que esteja bem traduzido para que não o sintam português mas de toda a Humanidade.

Claro que entretanto nos tornámos menos épicos e menos líricos. Menos míticos. Estamos a braços com um novo rosto. Há trinta anos, depois da Revolução, ficámos reduzidos às fronteiras encontradas pelo antigo príncipe, aquele que guerreou a mãe e o primo e a si mesmo se fez rei, mas fizemos uma rotação de cento e oitenta graus na direcção dos novos vizinhos. Aqui estamos ensaiando uma nova forma de existência. Lentamente, o Mar está sendo para nós, hoje em dia, uma outra realidade. Ali em baixo, no Cais de Alcântara, no Cais da Rocha, em Lisboa, poderão ver locais de onde há pouco mais de trinta anos saíam navios carregados de soldados para manterem esse velho Império Colonial. Era o sítio do nosso páthos nacional. Agora, se por lá passarem, encontrarão os velhos armazéns transformados em restaurantes e bares. Os meus filhos, que são da vossa idade, não sabem o que ali se passou. Felizmente. O mundo é outro.

Que mais vos posso dizer? - Que se forem pelas ruas de Lisboa encontrarão uma gente que ainda não é europeia, ainda não é sofisticada, ou como o escritor espanhol Enrique Villa -Matas dizia, ainda há aqui uma bondade antiga. Espero que também exista uma bondade moderna que vos receba bem.

Sobre esta charla familiar não tenho ilusões, ela não vos explicou nada. Quando se viaja inteiramo-nos sobre a História dos países, a sua Política, a sua Religião, a sua Arte , a sua Literatura, a sua Ciência. Visitamos museus, monumentos e outros lugares assim. Mas é sempre o riso do empregado que serve os cafés na esplanada, aquilo que de regresso levamos ou não levamos no nosso coração.
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* Reconstituição (validada)
a partir de uma exposição dirigida a Bolseiros Sul-Americanos
de visita a Portugal, 
na Fundação Calouste Gulbenkian,
Lisboa, 11 de julho de 2006

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Depoimento * Em que dia nos transformámos em leitores para sempre?

Nascidos para ler
Lídia Jorge *

Em que dia nos transformámos em leitores para sempre? Cada um de nós lembrará a sua história. Recordará um colo, um abraço, um livro colocado na mão de alguém, uma estante, um professor, uma certa noite, um certo dia. Aquele momento e aquela hora em que se associou uma voz humana com a capacidade de multiplicar imagens infinitas dentro da cabeça, e de permeio estavam folhas escritas. Alguém que de súbito põe a mão na máquina que roda o filme das letras, e o cinema começa a correr por dentro da nossa vida. Alguém que depois nos coloca diante de uma estante e nos diz – Aqui tens, tantos seres humanos quanto as lombadas, tantos filmes quantas as páginas. És um homem livre.

Em que dia, então, nos transformámos em leitores para sempre? Em que dia começámos a nascer para ler? Em que mês do ano aconteceu esse acaso da multiplicação dos Espaços dentro das nossas vidas? Ao mesmo tempo Ulisses e os cinco Compson?

Faço estas perguntas e estou a pensar numa ideia nova, talvez a única ideia revolucionária que desde as últimas décadas a Europa foi capaz de criar. Que se conheça, a única que tem como sujeito um homem novo. É a ideia maravilhosa de que todas as crianças do Mundo devem ser concebidas como seres nascidos para ler. O que equivale a dizer que a leitura deve ser elevada à categoria de uma segunda natureza da pessoa. E que a sociedade deve promovê-la como um elemento tão importante quanto se lhe reconhece o direito a uma família ou um alimento. A ideia de que esse direito imprescindível deve ser promovido pelos Estados e por todos aqueles que sabem que a leitura amplia a vida, como um dever de contágio formidável. Esta, sim, é uma ideia de Futuro e aponta para um novo paradigma de instrução para a Liberdade, no momento em que se desenham no horizonte rumores de pensamentos únicos e amnésias planificadas. O que os novos planos de leitura, que hoje em dia se implantam um pouco por toda a parte, trazem de novo é isso mesmo - Servem para proporcionar a hipótese de que esses momentos inaugurais de encontro com um livro colocado entre os olhos da criança e o abraço, se multipliquem, uma e outra vez, se prolonguem, mudem de local e de suporte, mudem de figuras e de géneros, mas que estejam sempre lá. À espera do acaso. O que significa que proporcionar esse acaso se transformou num dever. E porque não dizê-lo? - Talvez esta seja uma oportunidade única para nos transformarmos da antiga nação que somos com relutância à leitura, numa sociedade aberta, moderna, civilizada pelos livros.
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* Para o Plano Nacional de Leitura,
publicações diversas, 31 de maio de 2006

Depoimento * Quando se quer escrever sobre uma cidade

Lisboa existe

Lídia Jorge *

Uma recolha de textos publicada há anos em França, tem por título LISBONNE N’EXISTE PAS. Muitos dos textos que lá se encontram são dos melhores que alguma vez foram escritos sobre esta cidade. Possivelmente, o título surgiu desse desafio, ou esse desafio surgiu desse título, a ordem não importa. O que interessa é que ele coloca a questão no sítio certo – Quando se quer escrever sobre uma cidade, ela parece não existir fora de nós, a totalidade perde-se, a realidade some-se. Ficamos com a sensação da traça perdida no armário, entre costuras e enchumaços – Toda a Cidade é uma criatura demasiado grande, demasiado complexa, infinitamente múltipla e vária, redonda e informe, estelar e oval, caótica e de esquadro, isto é, Lisboa não existe – Lisbonne n’existe pas.

Pensei nessa epígafre maravilhosa que poderia ser a divisa de todas as cidades, quando li estes textos sobre Lisboa. De novo, os jovens aí estão. Trazem o rumor das outras cidades, o amor que as atravessa, a confusão entre os braços que apertam o amor e a cidade onde os beijos se dão. E a beleza de viver entre elas, as cidades. E a beleza de viver entre eles, os habitantes das cidades. E a repulsa contra a fealdade, contra o opróbrio que se esconde nas cidades, o lamento pela desinteligência que existe no meio das ruas, contra o voo dos pombos demasiado gordos que rastejam pelo chão. O repúdio contra a cidade que não voa. Afinal os jovens escrevem porque de novo existem, e de novo sabem, por instinto, o que falta à vida para ser completa. De novo aí está a nova geração para dizer que Lisboa não existe. Quando escreve, existe. E isso é que é maravilhoso e a faz existir.
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* Texto lido na entrega dos prémios do concurso literário "Lisboa à Letra",
destinado a jovens
organizado pela Câmara Municipal de Lisboa 

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Intervenção * Na entrega do Prémio Albatroz

Narrativa que convém
ao Mundo
Lídia Jorge *

Este é um momento de grande alegria na minha vida. Contidos nele, estão a minha Tradutora, os meus Editores da Suhrkamp Verlag, a minha Agente, Ray-Güde Mertin, a Fundação Günter Grass e os leitores especiais que integraram este Júri e que escolheram, para ilustrar um prémio que contempla obras literárias aliadas à expressão do livre pensamento, um conjunto de livros de ficção dos quais o último é precisamente um romance sobre uma figura que não sabe falar. Obrigada. Este é um momento inesquecível – À volta desta mesa, juntamo-nos mais uma vez em torno da Literatura, para partilhar uma refeição cujo pão é o da beleza e da liberdade.

Na verdade, independentemente de me ter sido atribuído, toca-me de modo muito particular que nesta primeira edição do Prémio Albatroz, o romance tenha sido escolhido.

A propósito deste género, não posso deixar de invocar aquele dia em que um antigo companheiro de escrita, o grande ensaísta e romancista português, Vergílio Ferreira, me chamou a sua casa para comentar o manuscrito do meu primeiro livro, que por acaso lhe tinha chegado às mãos, e me falou com grande entusiasmo, da falência do romance.

Era um dia de Verão, ele estava descalço, sentado numa poltrona e tinha sobre os joelhos o monte de folhas soltas que eram, então, “O Dia dos Prodígios”. Folheando-as, com a lentidão dum mestre, perguntou-me – “Por que razão você quer escrever romances se é um género que está a acabar? Você chega demasiado tarde... ” E a seguir, durante uma hora, esgrimiu todos os argumentos que se podem aduzir contra o romance – O argumento da lentidão no tempo da rapidez, o argumento de que o romance reproduz os actos banais da vida, quando a Arte Moderna careceria, sobretudo, da sua interpretação, ou o argumento de que o peso das fábulas descritas no romance seria inútil, quando se tornava urgente a síntese do pensamento. Na sua ideia, o romance, tal como o Romantismo Alemão e Inglês o tinham delineado, havia cumprido dois séculos, já tinha desempenhado o seu papel. O ciclo estava fechado. A Europa o tinha criado, a Europa o estava enterrando.
E a esses argumentos Vergílio Ferreira juntava outros, saídos da evidência dos sintomas. Em sua opinião, a prova de que o romance estava a definhar era o facto de se assistir à sua explosão em quantidade incontrolável, como a multiplicação das bactérias que fazem parte da infecção. Mas sobretudo, note-se, o facto de as mulheres terem chegado em força ao território do romance. A sua ideia era de que nós, as mulheres, tendo sido afastadas tradicionalmente dos campos da luta pela honra e pelo dever, traríamos ao género a sua degradação e vilipêndio. Era um encanto ouvir falar aquele que viria a ser o meu grande amigo nas Letras. Para o contradizer, nessa altura, eu não tinha argumentos, só tinha instintos. Devo dizer que depois desse encontro inaugural, ainda vivemos na mesma avenida durante mais dezasseis anos, e que ao longo desse tempo, esse extraordinário escritor que tanto se bateu no plano das ideias pela demonstração da morte do género, para além de na altura já ter publicado treze títulos, depois dessa data, viria ainda a publicar mais cinco, de entre os quais três são obras primas do romance europeu. Que morreu com um romance pronto a sair para as livrarias, e a última vez que nos encontrámos, falou-me de um novo projecto que tencionava começar a escrever em breve. Partiu da sua poltrona, escrevendo romance. Devo-lhe muito, mas não há dúvida de que aquilo que mais lhe devo é esta metáfora sobre a vitalidade deste género no seio das sociedades contemporâneas, como forma de representação do Mundo.

Esta é pelo menos a minha convicção. Se ela corresponde a uma interpretação defeituosa da realidade, estou no seu interior, sou uma suspeita. Não nego que pertenço àquele tipo de pessoas que se lhe perguntam o que pensam, respondem – “Era uma vez uma mulher que vestiu um vestido azul e se pôs a pensar…” E tudo o que se relaciona com o pensamento transforma-se em acção a decorrer em espaços onde coisas materiais acontecem.

Claro que nem sempre esta forma de efabular a vida tem origem apenas nesta espécie de estrutura inata do acto de contar. No meu caso, ela também resulta da convicção de que esta continua a ser uma narrativa que convém ao Mundo.

Como muitos, estou convicta de que o ciclo da Cultura que requereu a Igualdade dos Direitos do Homem e do Cidadão, de que o romance foi a cartilha popular que os ensinou no Ocidente, ainda não está cumprido. Estou convicta que o exercício da cultura crítica e profana que o romance proporciona, por oposição ao absolutismo dos livros sagrados, está no centro das contradições do nosso mundo globalizado. Mais do que isso, estou convicta de que este é um género cujas formas narrativas permitem fazer um anteparo e uma barreira em face da nova narrativa dos media. Essa que, pela sua natureza, não permite nem o antes, nem o depois da catástrofe, permite e está feita, sobretudo, para a difusão da catástrofe. Com o contraponto natural da distracção pelo seu oposto, o grotesco e o banal. Neste campo dual, entre sangue e clown, o romance continua a oferecer um acto de resistência a essa simplificação binária que todos experimentamos. É uma questão de tempo. A catástrofe no romance, como na tragédia grega, de onde colhe a origem, tem tempo para dar voz ao enigma que se avoluma, às razões do enlace e do desenlace, ao coro das vozes avisadoras, tem tempo para fazer da narrativa uma demonstração, ainda quando cega, ou selvagem. A linguagem alongada do romance, este género em que o início está separado do fim, por um longo fio de factos interiores, revestidos por palavras e silêncios, permite que a catástrofe se desenrole sob os olhos do pensamento, como um oxímoro. Porque o fim negativo pode estar lá, mas para reclamar o seu contrário, fora das páginas escritas, no plano real da vida. Günter Grass, de quem esta Fundação tem o nome e cuida da obra, é precisamente um dos grandes mestres dessa poderosa reivindicação de um concerto, através da descrição plasmada do seu contrário. Quem não entender que o romance nos nossos dias continua a ter essa finalidade subversiva, não entende a contradição do momento que nos calhou viver na História. Ainda que a cada um assista a sua própria História.

Pela minha parte, escrevo a partir do meu país, sobre o meu país. As figuras de ficção com as quais convivo têm a sua origem na minha terra de sol luminoso e silêncios fantasmais. Onde a democracia recente, em muitos aspectos, é apenas formal e os três poderes ainda não estão deslindados. Onde o hábito de esconder, adiar, protelar o confronto com a verdade para um calendário sem dia ainda é comum. As minhas figuras inventadas levantam-se da noite das vidas reais, a partir do sentimento de escândalo criado pelas omissões que se adivinham, pelos crimes silenciados, pela sensação de impunidade contra a qual os meus personagens se deitam e se levantam no meio das folhas por escrever, e dizem coisas mesmo quando não sabem falar. Como poderia ter encontrado outra forma de traduzir todo esse teatro interior se não fosse o romance?

Foi esta forma fílmica, longa, entornada, centrada em personagens parecidas com gente, que me permitiu dar testemunho de vidas acantoadas nos campos do meu país, os escondidos no fundo das cidades, os perdidos por outras regiões da Terra, os regressados, os silenciados no meio das famílias e dos grupos, os que não conseguem dizer eu sei, eu vi, eu espero, e têm as palavras entaladas na garganta. O romance permitiu-me sobretudo usar os modos de dizer das mulheres em luta pela sua saída do papel de espias da História para serem actrizes da História. Sempre com a ideia de que por dentro deste género, os Homens ainda não estão perdidos e Deus ainda não está seguro. As duas partes ainda estão lutando.

Para além do que me diz respeito, quero agradecer aos membros do Júri terem chamado a atenção para o facto de este género de resistência que é o romance poder continuar a ser aliado à liberdade de pensamento. Visto do exterior, é sobretudo importante que aconteça numa Cultura que tem por base a matriz de pensamento filosófico mais relevante da Europa e uma das Poesias mais altivas em face das forças desconhecidas. Este prémio diz aos que porfiam por este caminho periclitante de contar, que não estamos sós. E é nessa medida que quero agradecer a Christina Weiss ter lido os meus livros e ter-se disposto a falar sobre eles. Agradecer aos editores Michi Strausfeld e a Jürgen Dormagen por terem dado o seu cuidado e a sua confiança aos meus livros, ao longo de todos estes anos, e à Ray, a madrinha dos escritores de língua portuguesa, por ter-me incluído no seu grupo de defesa. Este momento também é vosso.

Quero dizer, por fim, quanto me alegra que este Prémio tenha na sua matriz esta partilha com o tradutor, essa outra mão direita que escreve os livros. Neste caso, que Karin von Schweder- Schreiner e eu sejamos parceiras. À Karin eu devo as traduções profissionais maravilhosas que são públicas, mas também devo a sua amizade privada. Até lhe devo algumas sentenças de vida, como sejam os provérbios alemães que de vez em quando me envia. Muito em especial, devo-lhe aquele provérbio nórdico que há um ano atrás me ditou, palavra por palavra, ao telefone. Era assim - “Toma nota - Só as aves domésticas têm saudade, as selvagens vão voando…” Mas nesse domingo de manhã, a Karin ainda não sabia que um bicho tão selvagem haveria de vir ao nosso encontro para nos unir tão fortemente - Um Albatroz.

Aos mentores da Fundação Günter Grass quero acrescentar que espero, do fundo do meu coração, e do fundo das minhas convicções, que as próximas edições deste Prémio, para o qual desejo um tempo longo e prestigiado, prolonguem, aqui em Bremen, esta cidade mítica da Europa, a ideia de que a Literatura é, acima de tudo, um campo de Liberdade sem hipótese de fronteiras, desde que revestida pela poesia das línguas.
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* Na sessão de entrega do Prémio Albatroz
em Bremen, 5 de maio de 2006

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Crónica * Nesses dias de Setembro de 74

Os anos do cravo

Lídia Jorge *

Falem-me dos Anos 70 e eu deixo de estar nesta casa onde me refugio para escrever os livros, e de viver neste tempo com sua própria luz e sua própria sombra, e regresso àquele dia em que eu tinha sonhos nítidos na cabeça e trazia ao colo os meus dois filhos de berço. Nesse dia, eu regressava da Costa Oriental de África, e era apenas uma jovem rapariga que fazia parte dum grupo que se deslocava dum lugar para o outro levado pelos acontecimentos. O avião, um Jumbo fretado para o efeito, trazia de Moçambique alguns daqueles que depois viriam a ser os primeiros retornados da descolonização portuguesa. Mas nessa altura, de entre as mulheres e as crianças entaladas no meio de sacos e haveres, nenhum de nós poderia saber os nomes que o futuro reservava para designar aqueles que se deslocavam sem saber para onde.

Era então Setembro de 74, a Revolução apenas tinha cinco meses e os acontecimentos ferviam pelas ruas. Aquilo que acontecia em Lisboa era uma espécie de euforia impossível de esquecer ou minimizar. O golpe militar tinha-se dado sem derramamento de sangue, e apesar dos muitos atropelos, eles eram mínimos, quando se pensa que atrás da mudança havia uma velha crisálida de cinquenta anos que tinha fossilizado, no interior da casca, praticamente todas as estruturas incluindo as mentais. A Revolução estava na rua, a bandeira portuguesa flutuava nas edições estrangeiras dos jornais. O país tinha-se transformado numa espécie de palco de ensaio de forças divergentes de potências estrangeiras. No meio da contradição, a imagem do cravo vermelho enfiado no cano duma espingarda era um símbolo demasiado lacónico para a esperança sem medida que invadia as praças. Não era possível esconder a alegria. Para quem era jovem e tinha sonhado com um Portugal liberto de ditadura, sonhado com a democracia representativa, e a aproximação à cultura livre europeia, percebia-se que o momento decisivo tinha chegado. No meu caso, que tinha vivido o 25 de Abril à distância, depois de tanto o ter desejado, regressar naquele Jumbo, significava vir ao encontro dum espaço onírico convertido em país real.

E no entanto, aquele avião, que havia partido ao cair da noite do aeroporto de Maputo, anunciava a relação mais complexa que a Revolução iria criar – O seu voo anunciava o início tardio da era pós-colonial falada em língua portuguesa. Dramaticamente demasiado tardio para todos os lados. Eu sabia-o muito bem. Na estrutura militar com que me tinha relacionado, os meus olhos tinham sido duas espias contra uma guerra injusta que se desenrolava fora do tempo, nas várias frentes daquele que fora o velho Império Português. Mas naquele xadrez de que na altura ainda só conhecíamos o encanto, não conhecíamos a violência, nós três regressávamos ocupando apenas uma cadeira no Jumbo, e representávamos a força que batia em retirada. Pessoalmente, batia em retirada, cheia de sonhos na cabeça, em nome da paz com vinte cinco anos de atraso.

É sabido que cada época se define sobretudo pelos sonhos que engendra, mais do que pelos acontecimentos que a tecem. Um dos sonhos que eu alimentava, como jovem da minha geração, era poder conhecer as independências dos vários países emergentes que a revolução reconhecia como primeiro dado. Por mim, imaginava nações tranquilas, a caminho da maioridade política, e do desenvolvimento humano. Imaginava que esse caminho seria já e de imediato. Mas assim não foi. O Jumbo que nos trouxe de volta, era uma espécie de amostra antecipada duma ferida aberta por longos anos, movida pelas guerras civis que se seguiriam depois. Os sonhos adiados, década após década.

Mas agora volto para trás e penso nesses dias de Setembro de 74. O momento mais marcante fora sem dúvida aquela cesura feita de bandeiras vermelhas nas ruas de Lisboa e de militares abraçados ao povo, e essa imagem ofusca tudo o resto. O para trás separado do que veio à frente. Depois, com o passar dos anos, entornámos sobre a lembrança mais decepções do que proveito, como é humano e de todos os tempos. Seja como for, o que de mais importante sobejou dessa década de cravos vermelhos é sem dúvida a constatação de que há sonhos justos que são realizáveis. Quem teve a adolescência ou a juventude nessa década, em Portugal, sabe que é possível os homens unirem-se e conspirarem contra a ignomínia, mesmo em situação adversa. Sabem que muitos deles o podem fazer com generosidade, sem reivindicarem o seu nome em lugar nenhum dos livros, e sem sonharem com estátuas onde os pombos se albergam de noite. E isso é acreditar na Humanidade. Muitos dos portugueses dessa época, que neste momento começam a ficar velhos, permaneceram ingénuos. Eu penso nesse tipo de crença que se ganha para sempre, quando imagino aquela viagem atribulada entre Maputo, Luanda e Lisboa, e me lembro de ter chorado de emoção por ver ao vivo os grafitti da liberdade, que eram descritos pela rádio, aos gritos, num tempo em que nesses países de África a televisão ainda não tinha chegado. Entre o aeroporto da Portela e a Baixa, com dois filhos ao colo, a caminho da Residencial América, chorava de alegria. E no meio de todas as contradições e desavenças que se seguiram, tantas demoras e heranças que perduraram sob os tapetes, talvez esse tenha sido um dos dias mais felizes da minha vida.
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* Texto incluído na coletânea "La Nuova Narrativa in Lingua Porttughese"
 publicada por La Nuova Frontiera (2006), Itália
exto...


quarta-feira, 16 de março de 2005

Crónica * As divergências apenas resultam das cópias sucessivas dessa única fala

Passagem por Jerusalém


Lídia Jorge *

Em Jerusalém, a História é tão eléctrica que uma simples folha de papel a voar pode assumir a categoria de um acto simbólico. A rapariga soldado a que me refiro caminhava entre os companheiros, curvada sob o peso da mochila e da metralhadora, e parou diante da folha cor-de-rosa que se encontrava no chão. A rua era íngreme, os rostos do grupo armado, sob o esforço da subida, estavam descidos, e foi necessário um pequeno desvio para apanhar o papel. A rapariga saiu do trilho, recolheu o papel, dobrou-o, encostando a arma à bochecha, enfiou-o na algibeira e continuou na fila, subindo a colina de pedra. Aparentemente, ninguém deu por nada, o pequeno desvio não significava nada, era apenas uma mulher soldado adolescente, retirando do chão uma folha de papel quadriculado. Mas se eu tivesse de escrever sobre os sinais das balas que estão marcadas na porta de Sião, a partir daquele instante, já não iria mais começar pela crónica dos dias de guerra de 1948, teria de começar pelo gesto anódino duma adolescente armada, levantando uma folha daquele chão como se fosse outro chão qualquer.

É que entre a história do sagrado e do profano, existe um terceiro campo, mais amplo e mais difuso, o campo do anódino, constituído pelo somatório de gestos onde se encontra o mais inqualificável do comportamento humano. É esse o espaço que me interessa, esse que não cabe em nenhum tipo de História, ainda que corra a seu lado como seu outro irmão. Aliás, anódino , segundo a raiz primitiva, significa isento de dor, qualidade daquele que acalma a dor, ou pelo menos não a produz. Só num segundo momento, anódino se transformou em sinónimo de banal, insignificante ou imprestável. E isso é de ter em conta, porque profano é concebido como oposição a sagrado, quando se disputam no mesmo plano. De resto, sagrado e profano podem conviver abraçados no mesmo domínio, um e outro relacionados com a mesma vocação de totalidade. Mas quando passamos a falar de anódino, aí já estamos claramente fora desse tal abraço, aquele que conduz aos rios de sangue derramados pela disputa do absoluto. Sob o signo do anódino, pomo-nos a falar uns com os outros do simplesmente humano. E esta é a paisagem predilecta dos viciados pelo significado do transitório, que é o campo do literário, e dentro dos géneros que o compõem, aquele que mais se arruma rente à banalidade do real, que é o romance. O romance, ou a narrativa que nasce, por exemplo, duma folha de papel volante, à qual se junta um rosto, semelhante a outros rostos, e uma data no tempo doméstico, à medida duma semana – Sobre aquele instante, um qualquer visitante viciado no sentido do anódino teria escrito - “Era uma vez uma rapariga armada, que apanhava do chão uma folha solta, enquanto o seu pelotão estava subindo a Colina do Templo acima, na cidade de Jerusalém...” E no átrio da memória, representar-se-ia a cena em silêncio, sem palavras sagradas, sem Deus, sem relâmpago, apenas a folha de papel cor de rosa que a rapariga dobrou e enfiou na algibeira da farda, sobre o lugar do coração.

Aliás, esse fora precisamente o tema da conversa na noite anterior. Segundo os leitores especiais que haviam preenchido aquele serão de sexta-feira, o poder singular dos escritores israelitas estaria na capacidade de fazerem coabitar a memória das narrativas sagradas com as vivências do quotidiano comum, levando por diante a tarefa de criar um espaço de lirismo construído sobre a dúvida e o efémero, esses frágeis materiais do relativo que conduzem à compaixão. Nessa perspectiva, Amos Oz, David Grossman, Yehudit Hendel, David Vogel, Jacob Shabatai ou B.Yehoshua, e seus milhares de páginas publicadas sobre vidas comuns e suas sombras indefinidas, continuam a tecer um dique tão poderoso quanto versátil em torno do indizível, por oposição ao poder absoluto dos Grandes Livros . E a propósito das narrativas fundadoras, totalitárias, os nomes dos escritores mais recentes, como Etgar Keret, o jovem autor de O Motorista de Autocarro que Queria ser Deus , eram particularmente visados. Mas os jovens israelitas, autores de histórias mínimas, semi-fantásticas, colhidas no lastro do quotidiano banal, não estariam a ser porta-vozes duma tendência que erradica de todo, ou quase todo, as marcas do lugar e do tempo, para se transformarem em instrumentos duma nova escrita global, aquela que por definição ficciona longe do espaço histórico e da alma do lugar? Aliás, não estaríamos em breve, todos nós, perante narrativas de todos e para todos os lugares, uma espécie de narrativa pantópica, alimentada pelo mesmo imperativo de uniformidade que faz das laranjas e dos tecidos objectos saídos fora da estações do ano e das marcas da região? - É possível, mas se essa questão da viagem incolor dos textos tem alguma pertinência, ela não se levanta em relação aos autores israelitas, tão pouco em relação aos jovens como Etgar Keret, cujo humor e ironia continuam fortemente plantados no chão da sua cultura. Se a questão é de perda de espaço do romance como género, e da Literatura como expressão, e logo de diminuição do poder do dique em torno da ortodoxia, é preciso ter em conta que a vida dá outras voltas, e será salutar pensar nelas duma outra forma.

Então, de súbito, Jerusalém pode fazer lembrar o síndroma de definhamento dos géneros, e em particular o do romance, e a esse propósito vale ter em conta como há vinte cinco anos, por exemplo, Vergílio Ferreira, um dos escritores portugueses do século XX que melhor o cultivou, em resposta a aos jovens autores que então surgiam, manifestava as maiores reservas em relação ao género. Àqueles que nessa altura lhe apareciam sobraçando novos originais, o autor da Aparição perguntava com admiração por que motivo desejavam publicar romances, por que não enveredavam antes pela poesia, pelo teatro, pela narrativa para cinema e televisão, dissuadindo-os com fortes argumentos e emoção sincera, como se estivessem os jovens principiantes a apostar a vida em cavalos estropiados de que se tornava urgente salvar. Na verdade, era sua convicção de que o romance já então era um género morto ou pelo menos moribundo, que se tratava duma forma de representação do Mundo desadequada dos questionamentos contemporâneos, um género fortemente açoitado sob os ingredientes dispersivos da modernidade. Estávamos na década de oitenta, e Vergílio Ferreira via o futuro que ainda nos separava do fim do século como um tempo inchado por desafios que eram a antítese do romance, tal como ele o entendia, uma narrativa semi-ensaística sobre o destino privado dos homens, um parente imaginoso da área da Filosofia. Aliás, Vergílio Ferreira augurava a morte natural do romance, por motivos antropológicos, mas recolhia os sintomas sobretudo em duas espécies de evidência. - Na fartura da publicação – expressão do seu gosto – e no facto de as mulheres terem chegado em peso à ficção, aumentando-lhe a abundância. Numa e noutra circunstância, ele via o grotesco expandir-se, o grotesco das historietas reprodutoras da vida real aumentar, o grotesco da exposição autobiográfica sem outro significado que a exibição pessoal instalar-se. E esse seria o garrote da sua morte porque seria o recuo até à sua mais afastada arqueologia. Mas passados estes anos, se a descrição que fazia é quase justa, os sintomas de definhamento que imaginava não lhe vinham apensos.

Só entre nós, basta pensar que nos vinte cinco anos que se seguiram, não só apareceram romances como Memorial do Convento, Balada da Praia dos Cães, ou Fanny Owen - para só falar de alguns dos imprescindíveis daquela década - como também o próprio Vergílio posteriormente publicaria Para Sempre , e mais três grandes títulos que se lhe seguiram, um outro póstumo, além de diversos projectos pensados para o futuro. Para não falar duma vintena de romances escritos por diversos autores, publicados ao longo destes vinte cinco anos, e que entretanto se tornaram inseparáveis das experiências das nossas vidas privadas e até das nossas mitologias colectivas. De facto, o romance não só não morreu como se encaminhou para outros horizontes e assumiu novos formatos. Mas será que Vergílio Ferreira se enganou completamente?

De algum modo, acertou ao lado. Digamos que a proliferação em quantidade é um facto, e não carece de comentário ou explicação, porque a quantidade só por si é um índice contraditório em relação ao valor efectivo do que verdadeiramente conta. Porque razão a quantidade só por si seria sintoma de decadência? Apenas exige mais paciência na escolha ou tempo na decantação. Também é verdade que as mulheres recém-chegadas à escrita da narrativa, se entregaram em força ao campo do romance e aproveitaram o seu formato para através dele publicarem os seus segredos, com a mesmo ímpeto com que os marinheiros alfabetizados do século XIX se entregaram à narrativa das suas viagens aventurosas ao longo dos outros continentes. É verdade que nas rotas de marear interno, a exibição directa da intimidade passou a ocupar um espaço considerável, como se a hora de Laclos e Sade domésticos saídos do século XVIII nos tivesse caído de novo no sofá. Hoje em dia, ninguém estranha que do meio de dezenas, ou centenas dessas narrativas, numa cidade de Europa, sobressaia ao cimo duma grande livraria o retrato duma escritora de língua francesa anunciando a sua obra - Leia este romance. Nele, a autora conta tudo o que se passa entre os seus lençóis... Parece ser verdade que o autobiografismo, resultado da convicção de que toda a experiência de vida dá um livro, apossou-se de grande parte dos cidadãos, como um fenómeno natural de combater a anomia. Mas não foi a quantidade nem determinada feminização da narrativa que têm descredibilizado o romance. Tal como previa, tem sido a invasão do grotesco que degradou a reputação do romance, não por si mesmo - o grotesco é apenas a degenerescência da harmonia - mas pelo oposto que ele reclama. O risco, porém, é de outra natureza, paradoxal e não previsto. É que na verdade, quanto tudo se torna grotesco, facilmente tudo se transforma em sagrado. Como se sabe, o analógico não convive bem com o lógico, aquele devora este, e sob o ascendente do irracioanl, facilmente se regressa ao mundo primitivo, em que tudo o que é olhado é visão, e todo aquele que tem um vislumbre é visionário. O fenómeno do O Código da Vinci e seus sucedâneos é apenas o rosto triunfante duma cadeia que se vinha a desenhar, em que primitivo e primordial aparecem confundidos. Ou de outro modo, Vergílio Ferreira, por razões diferentes das que apresentava, acertou a seu modo, mas infelizmente não teve tempo de experimentar a grande surpresa, a surpresa de perceber que no espaço do romance, o lugar do anódino significativo foi assaltado pelo exotérico, essa água-furtada do religioso e do sagrado.

Mas as coisas são como são, e em Jerusalém a questão nada tem de fútil. Como se sabe, ali três Livros Sagrados entrelaçam as páginas por cima das cúpulas de pedra, e nem sempre houve lugar para virá-las todas ao mesmo tempo. Os recentes ciprestes que unem as fachadas parecem dizer que Deus só falou uma vez, e as divergências apenas resultam das cópias sucessivas dessa única fala. Perigoso mesmo até ao risco de morte é que as divergências sejam motivo, ou pretexto, para o desentendimento. Como em nenhuma outra cidade, em Jerusalém, cidade que transporta o sinal da paz no seu nome, se resume a sorte guerreira da Terra inteira. Sobre essa questão, Denise, guia experimentada e proprietária duma livraria, convidada por Miriam, tem uma metáfora e uma onomatopeia preparadas. Denise conhece os cantos da cidade e os transeuntes, os vendedores de velas, os mendigos verdadeiros e os falsos. E a melhor loja árabe onde se vendem essências. É preciso ouvi-la. O seu carácter é forte e as suas mãos, vitais. Denise coloca uma mão sobre a outra e provoca com elas um ruído de espada ou de máquina. Olha na direcção do Monte das Oliveiras e fala mais ou menos assim – “Tudo isto começou há muito tempo - Primeiro vieram os assírios que incendiaram e destruíram o Templo de Salomão, e tac, tac, tac, abateram-se sobre toda a cidade. E então reconstruiu-se a cidade. Depois veio Alexandre o Grande, e tac, tac, tac... Em seguida reergueu-se a cidade. Depois vieram os romanos, e tac, tac, tac ... Depois Herodes o Grande refez outra vez a cidade. Em seguida veio o imperador Tito e tac, tac, tac, tac, sobre a cidade e o templo, e não deixou pedra sobre pedra. Tac, tac, tac. Veio o imperador Adriano reconstruiu a cidade. Depois veio Constantino e fez dela uma cidade santa, mas logo vieram os muçulmanos, tac, tac, tac, e ocuparam-na. E a seguir vieram os cruzados da Europa para a libertarem. Durante oitenta anos, os santos cruzados aspergiram sangue sobre as pedras de Jerusalém, tendo sido tudo bem picado, tac, tac, tac, durante oitenta anos. E finalmente veio Soliman, o otomano, que reconstruiu as muralhas sobre as quais nos encontramos. O tempo passou, e tac, tac, tac..”

É assim que Denise explica, irónica e sábia, as suas mãos enérgicas a imitarem o som do martelo-pilão, o grande instrumento musical que acompanha desde sempre a dança da História.

Descemos então a colina alteada pelos sucessivos acrescentos das cidades sobre as cidades. A ideia é que ainda agora a Pré-história dos homens não acabou, ainda estamos em luta pelo número de páginas sagradas que cada Livro contém, estejamos onde estivermos, o nosso Livro é sempre aquele que melhor reproduz a fala. É por isso que, em Jerusalém, a imagem duma rapariguinha soldado que por um instante pára, desvia a metralhadora da cara, e levanta do chão um papel já pisado, dobra-o e meteu-o no bolso, brilha como uma estrela duma outra natureza, na luz do dia que sobe. – Porque precisaria a rapariga soldado daquela folha? Iria escrever nela alguma mensagem? Lembrar-lhe-ia algum recado por que havia esperado e não teria vindo? Vestida de verde caqui e de cabelo amarrado, teria visto naquele pedaço de papel o início duma sucessão de palavras que lhe faltavam? Lembrar-lhe-ia pela cor, as rosas do jardim da sua casa? Lembrar-lhe-ia o seu urso de pelúcia? O seu primeiro amor, o seu último brinquedo? A sua primeira narrativa, o seu terceiro poema? - Um mundo de conjecturas se inicia, ali, onde o anódino alcança o sentido do íntimo humano, e nós ficamos desarmados uns diante dos outros, semelhantes e unidos. É sobre isso, sobre essa solidão habitada pela imagem do insignificante, que é preciso escrever durante toda a vida, conforme se confirma nas ruas de Jerusalém.
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* in JL - nº 899 (16 a 29 de março de 2005)