quarta-feira, 16 de março de 2005

Crónica * As divergências apenas resultam das cópias sucessivas dessa única fala

Passagem por Jerusalém


Lídia Jorge *

Em Jerusalém, a História é tão eléctrica que uma simples folha de papel a voar pode assumir a categoria de um acto simbólico. A rapariga soldado a que me refiro caminhava entre os companheiros, curvada sob o peso da mochila e da metralhadora, e parou diante da folha cor-de-rosa que se encontrava no chão. A rua era íngreme, os rostos do grupo armado, sob o esforço da subida, estavam descidos, e foi necessário um pequeno desvio para apanhar o papel. A rapariga saiu do trilho, recolheu o papel, dobrou-o, encostando a arma à bochecha, enfiou-o na algibeira e continuou na fila, subindo a colina de pedra. Aparentemente, ninguém deu por nada, o pequeno desvio não significava nada, era apenas uma mulher soldado adolescente, retirando do chão uma folha de papel quadriculado. Mas se eu tivesse de escrever sobre os sinais das balas que estão marcadas na porta de Sião, a partir daquele instante, já não iria mais começar pela crónica dos dias de guerra de 1948, teria de começar pelo gesto anódino duma adolescente armada, levantando uma folha daquele chão como se fosse outro chão qualquer.

É que entre a história do sagrado e do profano, existe um terceiro campo, mais amplo e mais difuso, o campo do anódino, constituído pelo somatório de gestos onde se encontra o mais inqualificável do comportamento humano. É esse o espaço que me interessa, esse que não cabe em nenhum tipo de História, ainda que corra a seu lado como seu outro irmão. Aliás, anódino , segundo a raiz primitiva, significa isento de dor, qualidade daquele que acalma a dor, ou pelo menos não a produz. Só num segundo momento, anódino se transformou em sinónimo de banal, insignificante ou imprestável. E isso é de ter em conta, porque profano é concebido como oposição a sagrado, quando se disputam no mesmo plano. De resto, sagrado e profano podem conviver abraçados no mesmo domínio, um e outro relacionados com a mesma vocação de totalidade. Mas quando passamos a falar de anódino, aí já estamos claramente fora desse tal abraço, aquele que conduz aos rios de sangue derramados pela disputa do absoluto. Sob o signo do anódino, pomo-nos a falar uns com os outros do simplesmente humano. E esta é a paisagem predilecta dos viciados pelo significado do transitório, que é o campo do literário, e dentro dos géneros que o compõem, aquele que mais se arruma rente à banalidade do real, que é o romance. O romance, ou a narrativa que nasce, por exemplo, duma folha de papel volante, à qual se junta um rosto, semelhante a outros rostos, e uma data no tempo doméstico, à medida duma semana – Sobre aquele instante, um qualquer visitante viciado no sentido do anódino teria escrito - “Era uma vez uma rapariga armada, que apanhava do chão uma folha solta, enquanto o seu pelotão estava subindo a Colina do Templo acima, na cidade de Jerusalém...” E no átrio da memória, representar-se-ia a cena em silêncio, sem palavras sagradas, sem Deus, sem relâmpago, apenas a folha de papel cor de rosa que a rapariga dobrou e enfiou na algibeira da farda, sobre o lugar do coração.

Aliás, esse fora precisamente o tema da conversa na noite anterior. Segundo os leitores especiais que haviam preenchido aquele serão de sexta-feira, o poder singular dos escritores israelitas estaria na capacidade de fazerem coabitar a memória das narrativas sagradas com as vivências do quotidiano comum, levando por diante a tarefa de criar um espaço de lirismo construído sobre a dúvida e o efémero, esses frágeis materiais do relativo que conduzem à compaixão. Nessa perspectiva, Amos Oz, David Grossman, Yehudit Hendel, David Vogel, Jacob Shabatai ou B.Yehoshua, e seus milhares de páginas publicadas sobre vidas comuns e suas sombras indefinidas, continuam a tecer um dique tão poderoso quanto versátil em torno do indizível, por oposição ao poder absoluto dos Grandes Livros . E a propósito das narrativas fundadoras, totalitárias, os nomes dos escritores mais recentes, como Etgar Keret, o jovem autor de O Motorista de Autocarro que Queria ser Deus , eram particularmente visados. Mas os jovens israelitas, autores de histórias mínimas, semi-fantásticas, colhidas no lastro do quotidiano banal, não estariam a ser porta-vozes duma tendência que erradica de todo, ou quase todo, as marcas do lugar e do tempo, para se transformarem em instrumentos duma nova escrita global, aquela que por definição ficciona longe do espaço histórico e da alma do lugar? Aliás, não estaríamos em breve, todos nós, perante narrativas de todos e para todos os lugares, uma espécie de narrativa pantópica, alimentada pelo mesmo imperativo de uniformidade que faz das laranjas e dos tecidos objectos saídos fora da estações do ano e das marcas da região? - É possível, mas se essa questão da viagem incolor dos textos tem alguma pertinência, ela não se levanta em relação aos autores israelitas, tão pouco em relação aos jovens como Etgar Keret, cujo humor e ironia continuam fortemente plantados no chão da sua cultura. Se a questão é de perda de espaço do romance como género, e da Literatura como expressão, e logo de diminuição do poder do dique em torno da ortodoxia, é preciso ter em conta que a vida dá outras voltas, e será salutar pensar nelas duma outra forma.

Então, de súbito, Jerusalém pode fazer lembrar o síndroma de definhamento dos géneros, e em particular o do romance, e a esse propósito vale ter em conta como há vinte cinco anos, por exemplo, Vergílio Ferreira, um dos escritores portugueses do século XX que melhor o cultivou, em resposta a aos jovens autores que então surgiam, manifestava as maiores reservas em relação ao género. Àqueles que nessa altura lhe apareciam sobraçando novos originais, o autor da Aparição perguntava com admiração por que motivo desejavam publicar romances, por que não enveredavam antes pela poesia, pelo teatro, pela narrativa para cinema e televisão, dissuadindo-os com fortes argumentos e emoção sincera, como se estivessem os jovens principiantes a apostar a vida em cavalos estropiados de que se tornava urgente salvar. Na verdade, era sua convicção de que o romance já então era um género morto ou pelo menos moribundo, que se tratava duma forma de representação do Mundo desadequada dos questionamentos contemporâneos, um género fortemente açoitado sob os ingredientes dispersivos da modernidade. Estávamos na década de oitenta, e Vergílio Ferreira via o futuro que ainda nos separava do fim do século como um tempo inchado por desafios que eram a antítese do romance, tal como ele o entendia, uma narrativa semi-ensaística sobre o destino privado dos homens, um parente imaginoso da área da Filosofia. Aliás, Vergílio Ferreira augurava a morte natural do romance, por motivos antropológicos, mas recolhia os sintomas sobretudo em duas espécies de evidência. - Na fartura da publicação – expressão do seu gosto – e no facto de as mulheres terem chegado em peso à ficção, aumentando-lhe a abundância. Numa e noutra circunstância, ele via o grotesco expandir-se, o grotesco das historietas reprodutoras da vida real aumentar, o grotesco da exposição autobiográfica sem outro significado que a exibição pessoal instalar-se. E esse seria o garrote da sua morte porque seria o recuo até à sua mais afastada arqueologia. Mas passados estes anos, se a descrição que fazia é quase justa, os sintomas de definhamento que imaginava não lhe vinham apensos.

Só entre nós, basta pensar que nos vinte cinco anos que se seguiram, não só apareceram romances como Memorial do Convento, Balada da Praia dos Cães, ou Fanny Owen - para só falar de alguns dos imprescindíveis daquela década - como também o próprio Vergílio posteriormente publicaria Para Sempre , e mais três grandes títulos que se lhe seguiram, um outro póstumo, além de diversos projectos pensados para o futuro. Para não falar duma vintena de romances escritos por diversos autores, publicados ao longo destes vinte cinco anos, e que entretanto se tornaram inseparáveis das experiências das nossas vidas privadas e até das nossas mitologias colectivas. De facto, o romance não só não morreu como se encaminhou para outros horizontes e assumiu novos formatos. Mas será que Vergílio Ferreira se enganou completamente?

De algum modo, acertou ao lado. Digamos que a proliferação em quantidade é um facto, e não carece de comentário ou explicação, porque a quantidade só por si é um índice contraditório em relação ao valor efectivo do que verdadeiramente conta. Porque razão a quantidade só por si seria sintoma de decadência? Apenas exige mais paciência na escolha ou tempo na decantação. Também é verdade que as mulheres recém-chegadas à escrita da narrativa, se entregaram em força ao campo do romance e aproveitaram o seu formato para através dele publicarem os seus segredos, com a mesmo ímpeto com que os marinheiros alfabetizados do século XIX se entregaram à narrativa das suas viagens aventurosas ao longo dos outros continentes. É verdade que nas rotas de marear interno, a exibição directa da intimidade passou a ocupar um espaço considerável, como se a hora de Laclos e Sade domésticos saídos do século XVIII nos tivesse caído de novo no sofá. Hoje em dia, ninguém estranha que do meio de dezenas, ou centenas dessas narrativas, numa cidade de Europa, sobressaia ao cimo duma grande livraria o retrato duma escritora de língua francesa anunciando a sua obra - Leia este romance. Nele, a autora conta tudo o que se passa entre os seus lençóis... Parece ser verdade que o autobiografismo, resultado da convicção de que toda a experiência de vida dá um livro, apossou-se de grande parte dos cidadãos, como um fenómeno natural de combater a anomia. Mas não foi a quantidade nem determinada feminização da narrativa que têm descredibilizado o romance. Tal como previa, tem sido a invasão do grotesco que degradou a reputação do romance, não por si mesmo - o grotesco é apenas a degenerescência da harmonia - mas pelo oposto que ele reclama. O risco, porém, é de outra natureza, paradoxal e não previsto. É que na verdade, quanto tudo se torna grotesco, facilmente tudo se transforma em sagrado. Como se sabe, o analógico não convive bem com o lógico, aquele devora este, e sob o ascendente do irracioanl, facilmente se regressa ao mundo primitivo, em que tudo o que é olhado é visão, e todo aquele que tem um vislumbre é visionário. O fenómeno do O Código da Vinci e seus sucedâneos é apenas o rosto triunfante duma cadeia que se vinha a desenhar, em que primitivo e primordial aparecem confundidos. Ou de outro modo, Vergílio Ferreira, por razões diferentes das que apresentava, acertou a seu modo, mas infelizmente não teve tempo de experimentar a grande surpresa, a surpresa de perceber que no espaço do romance, o lugar do anódino significativo foi assaltado pelo exotérico, essa água-furtada do religioso e do sagrado.

Mas as coisas são como são, e em Jerusalém a questão nada tem de fútil. Como se sabe, ali três Livros Sagrados entrelaçam as páginas por cima das cúpulas de pedra, e nem sempre houve lugar para virá-las todas ao mesmo tempo. Os recentes ciprestes que unem as fachadas parecem dizer que Deus só falou uma vez, e as divergências apenas resultam das cópias sucessivas dessa única fala. Perigoso mesmo até ao risco de morte é que as divergências sejam motivo, ou pretexto, para o desentendimento. Como em nenhuma outra cidade, em Jerusalém, cidade que transporta o sinal da paz no seu nome, se resume a sorte guerreira da Terra inteira. Sobre essa questão, Denise, guia experimentada e proprietária duma livraria, convidada por Miriam, tem uma metáfora e uma onomatopeia preparadas. Denise conhece os cantos da cidade e os transeuntes, os vendedores de velas, os mendigos verdadeiros e os falsos. E a melhor loja árabe onde se vendem essências. É preciso ouvi-la. O seu carácter é forte e as suas mãos, vitais. Denise coloca uma mão sobre a outra e provoca com elas um ruído de espada ou de máquina. Olha na direcção do Monte das Oliveiras e fala mais ou menos assim – “Tudo isto começou há muito tempo - Primeiro vieram os assírios que incendiaram e destruíram o Templo de Salomão, e tac, tac, tac, abateram-se sobre toda a cidade. E então reconstruiu-se a cidade. Depois veio Alexandre o Grande, e tac, tac, tac... Em seguida reergueu-se a cidade. Depois vieram os romanos, e tac, tac, tac ... Depois Herodes o Grande refez outra vez a cidade. Em seguida veio o imperador Tito e tac, tac, tac, tac, sobre a cidade e o templo, e não deixou pedra sobre pedra. Tac, tac, tac. Veio o imperador Adriano reconstruiu a cidade. Depois veio Constantino e fez dela uma cidade santa, mas logo vieram os muçulmanos, tac, tac, tac, e ocuparam-na. E a seguir vieram os cruzados da Europa para a libertarem. Durante oitenta anos, os santos cruzados aspergiram sangue sobre as pedras de Jerusalém, tendo sido tudo bem picado, tac, tac, tac, durante oitenta anos. E finalmente veio Soliman, o otomano, que reconstruiu as muralhas sobre as quais nos encontramos. O tempo passou, e tac, tac, tac..”

É assim que Denise explica, irónica e sábia, as suas mãos enérgicas a imitarem o som do martelo-pilão, o grande instrumento musical que acompanha desde sempre a dança da História.

Descemos então a colina alteada pelos sucessivos acrescentos das cidades sobre as cidades. A ideia é que ainda agora a Pré-história dos homens não acabou, ainda estamos em luta pelo número de páginas sagradas que cada Livro contém, estejamos onde estivermos, o nosso Livro é sempre aquele que melhor reproduz a fala. É por isso que, em Jerusalém, a imagem duma rapariguinha soldado que por um instante pára, desvia a metralhadora da cara, e levanta do chão um papel já pisado, dobra-o e meteu-o no bolso, brilha como uma estrela duma outra natureza, na luz do dia que sobe. – Porque precisaria a rapariga soldado daquela folha? Iria escrever nela alguma mensagem? Lembrar-lhe-ia algum recado por que havia esperado e não teria vindo? Vestida de verde caqui e de cabelo amarrado, teria visto naquele pedaço de papel o início duma sucessão de palavras que lhe faltavam? Lembrar-lhe-ia pela cor, as rosas do jardim da sua casa? Lembrar-lhe-ia o seu urso de pelúcia? O seu primeiro amor, o seu último brinquedo? A sua primeira narrativa, o seu terceiro poema? - Um mundo de conjecturas se inicia, ali, onde o anódino alcança o sentido do íntimo humano, e nós ficamos desarmados uns diante dos outros, semelhantes e unidos. É sobre isso, sobre essa solidão habitada pela imagem do insignificante, que é preciso escrever durante toda a vida, conforme se confirma nas ruas de Jerusalém.
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* in JL - nº 899 (16 a 29 de março de 2005)

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

Intervenção * Na Universidade de Maryland

Para um destinatário ignorado

Lídia Jorge *

Há ideias falsas que são salvadoras, e o interessante é que o contrário nem sempre é verdadeiro. Entre elas, ocorre-me em particular aquela que me tem acompanhado ao longo do tempo e que consiste em pensar que a vida com suas escolhas condicionadas pela estreiteza do real, é um destino, mas a Literatura, neste caso a ficção, é um amplo campo de liberdade. Liberdade de escrita contra o destino da vida, eis uma boa bandeira, daquelas que podem flutuar ao vento para nos levar para longe, uma bandeira, porém, que não resiste à mais pequena tentativa de análise. Uma verdadeira falsa bandeira. Quem a usa sabe quanto de destino também existe na escrita, e como a vida seria impossível se sobre ela e sua deriva, não houvesse margem para nos imaginarmos donos do nosso livre arbítrio.

A esse propósito, ocorre-me falar duma experiência curiosa que arrasto comigo há mais de vinte anos, e que apesar de se dispersar no tempo, e chegar mesmo a sumir-se nele como se já não tivesse energia para sobreviver, acaba sempre por criar novos capítulos que a ressuscitam como se tivesse vida própria para se refazer e recontar. Refiro-me a certa narrativa cuja escrita iniciei precipitadamente, convencida que o seu fim estava próximo do início, de tal forma me parecia ter chegado à primeira página, já perfeita e trabalhada. A intriga era simples. Tratava-se da história dum lavrador do Sul do meu país, um rico latifundiário, homem generoso, que em chegando o mês de Setembro, abria as suas coutadas aos caçadores das redondezas para que aí pudessem caçar à vontade. Ele mesmo, um bom atirador, integrava o grupo de homens, partindo no seu jipe, de madrugada. Sucedia, porém, que algumas vezes, enquanto os convidados se reuniam no pátio, antes de saírem para o confronto com os animais, no meio da obscuridade, uma das filhas do lavrador-caçador aparecia em camisa de dormir de olhos semicerrados, caminhando junto às paredes e depois, como se estivesse acordada, sem tropeçar no quer que fosse, de mãos estendidas, dava várias voltas à casa. A imagem da rapariga sonâmbula, nem a dormir nem acordada, em roupas alvas, no meio da noite, fazia sucumbir os caçadores, que atrasavam a partida durante meia hora, para poderem vê-la regressar. O próprio pai, orgulhoso da imagem deslumbrante da filha, cujos cabelos compridos lhe chegavam à cintura, também ele permanecia especado no pátio, falando baixo, mostrando como a rapariga era capaz de contornar obstáculos, tactear o gargalo do poço, atravessar o jardim de fracas plantas sem as pisar, e de regressar ao seu quarto, com o seu andar vacilante. Sucedeu, porém, que num dia de Inverno, para escândalo e surpresa de todos, principalmente de si mesma, a rapariga descobriu que estava grávida, e depois de um tempo de luto assombrado, numa manhã de Verão, a sonâmbula dava à luz uma criança, um rapaz, a quem o lavrador, vencido, acabaria por consentir que se desse o seu próprio nome de família.

A história, porém, não terminava pelo reconhecimento do bastardo concebido sem cooperação da jovem mulher. Digamos mesmo que aí chegada, a história ainda mal havia começado, pois o que se seguia é que enchia de vigor a minha fantasia. A sequência dos factos engendrava-se de forma excitante - Dois dias depois do nascimento, o lavrador-caçador debruçava-se para o pequeno vulto do recém-nascido, descobria-o, estudava-lhe as feições. Pensava, pensava, e dizia para si, em voz baixa – “Foi fulano, o traidor…” Subia ao sótão da casa, procurava uma arma, e passado algum tempo, o dito fulano aparecia abatido, à beira da estrada. Mas as feições das crianças alteram-se com a velocidade das nuvens. Aos seis meses, quando o bebé já se agitava e soltava gargalhadas querendo sair do fundo do berço, o lavrador-caçador achou que bem poderia ter sido outro o pai incógnito. O olhar da criança, a forma como franzia os olhos cor de mel, não o enganava – “Foi beltrano, o maldito…” E passadas duas semanas, o beltrano aparecia estendido junto do próprio jipe, com uma bala metida no peito. E assim, no dia em que a criança fazia dois anos, o seu avô fora assaltado por uma dúvida atroz – Ter-se-ia enganado? Quem dormira com a sua filha sonâmbula, afinal, não teria antes sido cicrano? Uma semana depois, cicrano iria aparecer abatido, à porta de sua própria casa, debruçado sobre um riacho de sangue. Até que haviam passado cinco anos, e certo fim de tarde, ao ver o neto a correr dos braços da sua mãe para os braços das suas tias, de súbito, o lavrador-caçador julgou ver-se a si mesmo estampado na cara da criança. Precipitara-se para a moldura onde alguém, muitos anos atrás, encaixilhara a sua própria fotografia de menino, mirara-a e remirara-a, e acabaria por se perguntar - Afinal, não seriam os seus próprios traços que se encontravam no rosto do seu neto? Tomado por esse sobressalto, que o colocava diante dum invulgar dilema, teria ido dentro de casa buscar a arma secreta de que se havia servido para o ajuste de contas aleatório, e viera para a rua, a contas consigo mesmo. Mas esse era o momento em que a narrativa se suspendia. No pátio estavam as filhas sentadas, incluindo a sonâmbula, estavam as crianças a correr, gritando de alegria, era Verão de novo, não tardava que as estrelas viessem povoar o céu, e aquele homem tinha uma arma na mão, e desta vez o destinatário teria de ser ele próprio. Só que ao lavrador-caçador, eu não o queria eliminar. O que fazer então da mão daquele homem assassino, perdido entre o amor, o direito natural e a vingança? Não sabia que destino dar-lhe. Sentia-me eu mesma o lavrador-caçador, eu mesma tinha a arma na mão, tinha a rapariga sonâmbula no pátio, tinha a criança de cinco anos a correr entre as outras, e sem saber o que fazer de tudo isso, comecei a contar esta história aos amigos, na esperança de encontrar uma solução. Então um deles, um escritor que me escutou com infinita paciência, disse por fim – “Esquece essa história, nunca a acabarás, herdaste-a de algum lugar que não te pertence, ela não é do teu mundo…”

Sim, provavelmente acabarei por nunca escrever esta história. Pertence por certo àquele número vasto de narrativas falhadas que nunca verão a luz do dia, animais nados-mortos que objectivamente não servem para nada, e no entanto, continuam a brilhar no escuro da imaginação e alimentam um território de tal forma carregado de beleza e violência, que acaba por ser tão sedutor quanto incontrolável. Aliás, há pouco tempo, a peregrinação desta história acabou por ter novo impulso. Encontrava-me numa Casa da Literatura nos arredores de Berlim, e os três jovens literatos que me acompanhavam, levaram-me até ao túmulo de Von Kleist à beira do lago Wannsee. Ao falar-se do romântico Von Kleist , falou-se dos contos que nunca li, e ao falar-se dos contos, falou-se de A Marquesa de O, cuja história não deixa de ter fortes pontos de contacto com aquela que me persegue, uma narrativa de raiz aristocrática, cuja solução final acaba por ser triunfalmente feliz. Depois viria a saber. Mas o fascínio pela minha narrativa inconclusa assaltou-me de novo. Não deverei eu, um dia, tentar solucionar esta história? Ou deverei entender para sempre que é apenas um fóssil que se agita como herança dum passado que não mais existe ? – Afinal Freud , há mais de um século, tendo descrito a histeria e seus biombos, retirou todo e qualquer romantismo à figura da sonâmbula. Também a paternidade deixou de ser uma carta secreta, hoje em dia está inscrita numa folha branca de laboratório onde se descreve o ADN da mosca e do homem. Afinal a metáfora da mulher anjo que atravessa o jardim da minha história, foi completamente banida nas sociedades ocidentais, ou está confinada a alguns resquícios sem expressão. Afinal esta história, sendo um ajuste com a natureza, não aponta para nenhum ajuste com as práxis que regulam o Mundo. Provavelmente, eu não escreverei esta história. Mas não é verdade que ela não seja do meu mundo, tanto pelo que conta quanto pelo que não conta. Ainda que resulte dum território indomável, ela está numa linha de contiguidade com a minha vida.

Passei grande parte da infância num ambiente rural, e descontadas as flores, os animais e os astros, isso significa, basicamente, duas coisas – por um lado, uma dispersão das pessoas entre as quais se intromete o espaço como intervalo que age, e por outro lado, uma troca demasiado concentrada dos actos passionais que habitam os seres humanos. Trata-se do palco nu da terra e do mar a separar as pessoas, ao mesmo tempo que a interioridade dos actores, dispersos por esse largo Huis Clos sem fronteiras, é vista em desenho aumentado, à transparência crua da luz, e ao alcance do olhar perfurante do outro. O mundo rural é isso, ou pelo menos, até há pouco tempo, foi isso, um espaço de revelação, uma câmara radiográfica apontada ao interior dos seres. Tudo o que ainda hoje sei, ou dito de outra forma, o pouco que sei sobre a paixão e o desejo, a saudade, a morbidez, a ferocidade da luta pelo poder, a compaixão e a loucura, aprendi aí, entre homens e mulheres que dispunham de espaço e tempo para o apuramento e aplicação dos seus impulsos e dos seus medos. Havia uma vista para o mar, mas era entre casas dispersas e pequenas aldeias separadas por caminhos sinuosos que se passava essa dramaturgia da revelação do outro. Nas redondezas só havia pequeno comércio. Mas a ganância, eu a aprendi com aquele merceeiro que usava duas balanças na sua loja, uma para vender, outra para comprar. Ali a fruta era escassa, as crianças assistiam ao amadurecimento de cada baga. A prepotência eu a aprendi com aquela fazendeira que enterrava a fruta no quintal da casa para não ter que a repartir com as crianças. Matar um homem não era um gesto banal, mas era um gesto incorporado no espectáculo da vida. A vingança, eu soube o que era, com aquele homicida, que na manhã em que regressava da prisão, depois duma pena amnistiada, o primeiro gesto que teve foi assassinar a testemunha que o havia incriminado. E o amor? Havia o amor. A força do seu tumulto indomável esteve presente na cena de um homem, que roubava peças de roupa do estendal duma jovem viúva que não queria ser sua amante, e ao ser levado pela autoridade, rua fora, ainda perguntava – Onde está ela? E ela, guardada pela família, à janela da casa, a vê-lo passar estrebuchando entre os guardas. E havia a providência. O sentido da providência ainda não tinha a ver com o Estado, só com a divindade. Não tinha a ver com a reivindicação, só com a espera. Não tinha a ver com a revolta, só com a obediência. A voz da Divina Providência eu a associo à embirração daquele homem que se sentou à entrada da sua fazenda, disposto a não comer nem beber enquanto a chuva não caísse sobre o seu campo de milho. Ao segundo dia, choveu sobre o campo de milho. Mas tudo o que depois a vida prolongada nos meios urbanos e as viagens me deram, outros trajes e outra velocidade, não passa da ampliação desse filme inicial miúdo e descritivo, como uma tela infinita de um Delacroix profano que não terminasse mais. É divertido imaginar como o espectáculo da Natureza à solta ofereceu aos idealistas do século XIX mitos cândidos, como o do bom selvagem. A Arte do século XX, em particular a Literatura, acantonada no papel de se perguntar sobre a última fatia da coisa harmónica, de par com a História mas mais funda do que ela, encarregar-se-ia de destruir por dentro não só o mito do bom selvagem, mas todo e qualquer mito do homem bom. O mito do próprio homem. Não nego que me rendi a essa questão inquietante. A modernidade saída de 1900 tem dito de todos os modos, que a natureza humana não cabe em nenhuma definição, é um imbróglio de matéria obscura. Uma alucinação de si própria. Aos nossos olhos contemporâneos, Job, o homem impecável, objecto duma aposta entre Deus e o Diabo, injustamente vitimado, e pela sua fidelidade, sujeito depois a uma boa recompensa, há muito que deixou de ser uma história moral, para ser uma simples história de fadas. Os livros escritos no século XX, aqueles de que mais gostamos e com os quais nos formámos, são fábulas criadas para erguerem, de mil maneiras, a demonstração de que não passamos de figuras bizarras, contendo num só recipiente a raiz de todos os bens e de todos os males, incluindo o acto de julgar e a nomeação das coisas, o que ainda por cima só a nós nos pertence. Mas sabemos como é – Quando a essa questão destemperada se junta a música da língua, nascem as páginas com escrita. As minhas primeiras linhas com alguma consistência, eram continuações das leituras avulsas que fazia tanto do Gog do Giovanni Papini, quanto do Nada de Carmen Laforet, A Peste de Camus, e Kafka, Faulkner, Virginia Woolf, e assim por diante. É verdade que se as possibilidades da escrita só na aparência serão infinitas, as possibilidades de leitura, essas, por certo que o são por certo. A partir do meu ângulo, todos esses livros que lia em estado de sofreguidão, e queria tomar por modelo, me falavam dessa obscura indefinição do ser humano como único tema, ou então, eu o trazia comigo, arrancado da própria experiência de vida e essa era a lente grossa através da qual os lia. Da mesma forma que em português, é o que une os autores que ao longo do tempo mais tenho visitado, Vergílio Ferreira por inteiro, José Cardoso Pires, o dos textos inconclusos, Agustina Bessa-Luís, e seus livros sobre a obscura teia da perversidade que tece a sobrevivência, a paixão e o domínio animal dos seres humanos. E existe Pessoa. Talvez o grande fascínio que Fernando Pessoa exerce sobre nós, portugueses, e hoje sobre uma parte imensa dos grandes leitores de Poesia do Mundo, seja o facto de toda a sua obra se desenrolar a partir do terreno ontológico, declinando até ao infinito não só a impossibilidade de definir, como a impossibilidade de ser.

Mas esta é uma deriva, e objectivamente eu tenho escrito sobre matérias que diria concretas, delimitadas no tempo histórico, no espaço geográfico, na memória vivida pela geração a que pertenço. Fazer a crónica do tempo que passa, tem-me interessado, e não desdenho do juízo daqueles que dizem encontrar nas minhas páginas uma espécie de febre em testemunhar os factos. Não pretendo escapar a essa ligação perigosa com a realidade directa do social e do presente. O próprio colectivo não tem sido apenas um tema, tem sido um sujeito de escrita, tão transversal, por vezes, que o sinto impregnar-se na forma e moldar as estruturas da acção. Escrevi um livro que tem por fundo a Revolução do 25 Abril, um outro que invoca os últimos passos da Guerra Colonial em África, outros centram-se nas relações pós-coloniais que o meu país vive de um modo particular, a par daquelas outras relações, pós-coloniais também, que a Terra inteira está a viver na globalidade, com a intensidade que se conhece. Escrevi sobre a mudança de parceiros do meu país, e seu estado de ansiedade por querer ser próspero e moderno. E sobre as raízes da lentidão que o atrasam, no objectivo de querer ser europeu, próspero e moderno. Escrevi livros que falam de cidades portuguesas, de famílias portuguesas, das novas mulheres e sua identidade. Escrevi sobre tudo isso, mas verdadeiramente nunca escrevi por isso, nem para isso. O real invade-me, com suas reportagens porque está lá, faz parte do outro domínio, o domínio que me interessa, como uma parcela indispensável do todo do qual não se pode arrancar. Quando Carlos Fuentes se refere à Literatura como uma estrela de três pontas, duas subjectivas e uma terceira, objectiva, mergulhada no devir histórico que é pertença de toda a comunidade, o autor de Terra Nostra sabe do que está a falar. É fácil falar desta terceira ponta da estrela, a objectiva, pois sendo comum a muitos, ela permite que escondamos a indecência que é mostrarmos as outras duas, essas outras onde a nossa intimidade se enrola no seu percurso subjectivo e solitário, sempre driblado pelos enganos da memória.

E contudo, as coisas passam-se assim - Tudo começa pela imagem duma figura que surge vinda do exterior, e fala, ou várias figuras que pronunciam palavras. No início elas estão sempre mergulhadas numa espécie de sombra, de onde só emergem algumas formas e cores, e existe ao mesmo tempo, uma tensão que fere a imagem, e um lado de encanto de onde sai a voz que se ouve. No fundo da primeira imagem está o perigo e a desordem, a loucura e a desarmonia. Na segunda, o tal encantamento. Se as duas partes se digladiam a ponto de perceber que as vozes são audíveis e persistentes, a ponto de haver um discurso captável sobre as vidas que ainda não se movem, mas já têm movimento, isso significa que alguma coisa vem a caminho, e então a coisa desemboca em espaços abstractos, a que por certo a impotência da sua invenção plena, conduz à chamada das realidades vividas. Custa-me que a realidade vivida entre, então, com os seus cartazes nítidos, suas fotografias datadas, países e costas reconhecíveis nos mapas. Mas o processo é este - figuras que têm o charme de surgir de nada para falarem dum mundo misterioso que plane fora da realidade para de longe a iluminarem duma outra forma, e lhe darem o sentido do qual carece, como nos sonhos, afinal essas figuras têm os pés mergulhados no real, foram baptizadas pela vida antes de terem nascido. Afinal, a cobra voadora que durante dois anos me assaltava em sonho, e voava sobre uma multidão, no fascínio repelente pelas suas escamas azuis, trazia atrás de si o tanque de guerra carregado de soldados que esteve na origem de “O Dia dos Prodígios”. No livro, essa cena da passagem dos soldados pela aldeia ocupa umas escassas páginas, mas só depois de publicado, ficaria claro que tinha escrito um livro sobre uma Revolução muito especial, e sobre o carácter do povo que a fez – uma gente, a gente a que pertenço, com demasiada força no hora de sonhar, demasiada debilidade na hora do agir. Perceber até que ponto a persistência duma primeira imagem que contém no seu interior um processo dinâmico, é capaz de desencadear uma narrativa sucedida, pode não ser obra de talento, antes obra do acaso. Entre uma coisa e outra, um passo misterioso, como toda a escolha na vida.

Lembro-me de uma outra primeira imagem, neste caso, uma imagem ao mesmo tempo esbatida e ampliada, a partir da realidade. Uma nuvem espessa de gafanhotos, uma nuvem verde na noite, que ao mesmo tempo separava e unia dois grupos humanos, os europeus atrás dos cortinados de veludo, os africanos à volta duma fogueira, o som das vozes de salão de uns, o som dos cantares de alegria de outros. Essas imagens escondiam a história inventada de “A Costa dos Murmúrios”. Dez anos seguidos com as mesmas imagens. Afinal, nos copos de uísque dos militares que olharam atrás dos vidros, imóveis, durante todos esses anos, estava o desenho das garrafas de álcool metílico que iriam desencadear a matança. No entanto, o cenário da guerra colonial, com seus desmandos e ficções tenebrosas, parecia-me secundário. Eu apenas desejava escrever sobre o cerne da violência que trazemos escondido debaixo dos nossos vestidos, que apertamos com elegância sob os nossos cintos, sem o sentirmos, nem ocupar espaço, mas existe. Explode quando menos julgamos. Tudo o que eu desejava formular com esse livro era coisa vaga – Se só temos a fala para dizermos quem somos, então por que é que não nos ouvimos, enquanto a fala é possível? Mas depois, essa fábula quase imaterial para onde eu apenas gostaria de convocar figuras que deslizassem como sombras entre as ondas e as palmeiras, acabou por chamar um cortejo de espingardas e crimes apagados, cuja história não termina ali, porque se repete, hoje, amanhã e depois, noutros lugares, com a mesma lógica ácida, a mesma sensibilidade. Atrás dessa fábula veio um pedaço da História da relação entre a Europa e a África. Da frente para trás, ela chamou um pedaço da confronto entre o Ocidente e o Mundo, os outros mundos e o Ocidente, confronto que não mais acaba. Claro que estou a expandir o sentido deste livro, à minha medida. Mas tudo começou por uma nuvem de gafanhotos verdes, voando à volta dos candeeiros duma estrada, durante dez anos. Uma pequena fábula étnica sobre o sentido duma praga.

Poderia continuar. Recordo dos livros esse momento inicial que os formou como recordamos o rosto de alguém que pela primeira vez encontramos e se torna definitivo nas nossas vidas. No caso de “ O Vale da Paixão”, existe a imagem duma manta de caserna estendida na lama, a partir da qual a voz do soldado morto, como se estivesse incorporado nela, reclamava justiça para a narrativa deformada no que respeita à sua memória. Essa voz que subia por uma escada era uma pessoa viva, levava uma luz na mão, e pedia a quem encontrava que lhe escrevessem a sua vida. Pedia que ficasse conhecido como alguém que havia deambulado pela Terra, movido pela ideia de que, quanto mais se afastava de casa, mais se aproximava da sua verdadeira morada. Mas depois, essa história, um breve conto de soldado, trouxe atrás de si migalhas duma família inteira, pedaços de destinos anónimos de que são feitas as diásporas. Na origem de “O Vento Assobiando nas Gruas” está a imagem duma rapariga descalça, caminhando na areia, uma rapariga que retira o chapéu, vira-se, fecha os olhos e pergunta – “Esqueci-me de tudo. Quem sou eu?" Um ano de persistência dessa imagem, um ano de dúvida. Só depois, nesse espaço arenoso, a caravana dos cabo-verdianos Mata começou a avançar, só depois se dá a deambulação pela costa, muito depois um dos Mata se isola, e interpreta o papel do homem que sente amor. Melhor dizendo, ambos, Antonino Mata e Milene, libertos e presos pelo amor.

Aliás, eu nunca fiz a pergunta fundamental sobre onde começa o Bem e o Mal. Mas entre os mil casos que a declinação dessas duas palavras comporta, eu sempre escolhi uma das formulações mais terrenas, menos sigilosa, ou simplesmente mais adaptada à natureza do meu palco. As figuras estão ali, em conjunto, e agitam-se, avançam no papel, falam todas ao mesmo tempo para perguntarem – Como estava o amor quando eu aqui cheguei? Como estava o amor quando eu daqui parti? Resposta dada ou não, interessa-me esse intervalo. Escrevo, para dar vida a outras figuras que não sou eu, na tentativa de que alguma delas, tão diferente de mim, certamente mais sábia, mais sagaz, mais diligente, ou mais ousada, ou mais ácida, mais justa ou mais diabólica do que eu, possa fazer esse balanço e resolver antes de mim, o que eu nunca virei a saber. E por isso mesmo, porque toda essa gente de palco não existe senão na dimensão escassa da liberdade que é escrever, eu mantenho a ideia de que é da irrealidade que provém esse improvável saber. Kafka é um génio porque trabalhou só aí, não precisou de mais nada. Borges de algum modo, também. Todos podemos invejá-los, ou mesmo segui-los como fez Italo Calvino, como parece querer fazer nos dias de hoje, Antoine Volodino, por vezes Alessandro Baricco, mas poucos podem parecer-se com aqueles. O peso da realidade arrasta a maior parte dos escritores pelo chão da narrativa que reproduz a matéria do real. Acho que pertenço a esse team. Quer queira quer não, a realidade está logo ali, oferecida, ela caminha atrás dos personagens como se fosse a sua sombra material, e eu entrego-me a ela, como quem aceita um par que lhe foi destinado, dançando com toda a alegria, independente do corpo que dança e do efeito que causa. Anima-me nesse entusiasmo a ideia de que a memória selecciona da realidade os pontos que formam um sentido e que os projectos que se desencadeiam durante a narrativa deformam a História de que se é testemunha construindo, de modo inocente, uma parábola gerada pelo desejo de transformação da vida. A beleza e o desejo não podem entrar em vão para o interior da escrita. A beleza e o desejo que se junta ou se escolhe entre as migalhas que brilham na enxurrada do tempo, entram na ficção para forçar de propósito a lógica da realidade. A esse propósito, Adorno não escreveu que à luz da redenção o mundo aparece, inevitavelmente, deformado? Resta saber se no futuro existe espaço para este tipo de narrativa. Se o leitor ignorado que há duas décadas se pôs a caminho, precisará como nós, desta deformação do real para a sua felicidade.

Claro que eu nunca vou escrever a história da rapariguinha sonâmbula. Que ela fique lá de onde veio, uma espécie de tijolo que resistiu a uma certa demolição biográfica. Sobre os aspectos biográficos, Kundera disse que o romancista é aquele que destrói a casa da sua vida, para, com as pedras, construir a casa do seu romance. Na sua interpretação, os biógrafos de um romancista desfazem o que o romancista fez, refazem o que ele desfez. Kundera terá razão, sem dúvida. Eu tenho, no entanto, a ideia de que aquela história do lavrador-caçador persiste, tão arcaica e tão vivaz, só para me dizer que o edifício da escrita é um espaço de jogo que não termina mais. A prova é que muitas vezes penso nela ao contrário. A rapariga sonâmbula tinha sonhado esse sonho, ouve um tiro de carabina, acorda e encontra-se no meio do pátio. Então um caçador que ela nunca viu aproxima-se e diz-lhe que teve de abater vários animais, até chegar junto dela, para ela lhe contar o sonho que ele viveu acordado.

É verdade também que outras imagens perseverantes das quais eu espero que resultem certos textos, incluem rostos de gente meio a dormir meio acordada. Continuo a amar essas figuras que estão à disposição de um saber, que as faz não agir como gente e por isso mais indefesos e também mais sábios, conhecedores de uma outra forma de estar. Personagens como o Leonardo de “O Jardim sem Limites”, o rapaz que se imobilizava horas a fio sobre um plinto no meio da Rua Augusta, e a partir do seu poiso fazia rodar o mundo ao sabor do seu desejo de triunfo. Aquele que desejava repartir com o acrobata Paolo Buggiani, uma performance a dois, entre as Torres Gémeas dos anos noventa, e atrás dele, que só desejava viajar e partir, acabaram por aparecer ruas e casas lisboetas, globalizadas antes de o estarem. Não tenho dúvida que de futuro será igual ou semelhante. Levada por essas figuras que cochilam em cadeiras de lona à sombra das árvores, e que eu desejaria que me conduzissem até histórias subtis, sem peso, poemas indianos de três versos, mais pequenos que sombras de cigarros, em vez deles, sei que hei-de acabar por me entregar ao destino histórico do meu país, por mergulhar nas suas contradições profundas, reproduzir histórias das lutas tribais que assolam Lisboa, os braços da escrita enterrados até aos cotovelos da realidade como testemunha. Parto de um outro lugar, mas é sempre aí que vou ter. Com a ilusão de que se assim não proceder, deixarei personagens reais atadas ao seu destino, sem hipótese de liberdade. E essa esperança dá a volta e brilha no escuro.
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* No 4.° Congresso da American Portuguese Studies Association,
na Universidade de Maryland,
em que a escritora foi a convidada de honra,
a 13 de outubro de 2004

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

Crónica * Casa de campo

Casa de campo

Lídia Jorge *

A casa que nos coube em sorte fica mergulhada em flores. Aqui estamos desde ontem. Quando chegámos não vimos paredes, apenas um telhado pousado sobre plantas e uma entrada em madeira sobraçada por um arco de hera. As flores são azuis e rosa, e a unir as duas cores, a buganvília lilás sobe pelas empenas laterais, formando dois ramos, um de cada lado. Neste ninho de frescura, contamos ser felizes por dez dias. Garantiram-nos que quem vive ao lado é gente pacífica, casa térrea, residência própria duma família local. Estamos separados deles por uma vedação de ferro, devidamente enfeitada de vinha-virgem, e em frente das suas portas, onde nós temos os tufos de plantas, têm eles um tanque de rega para onde pendem duas árvores frondosas. Faço questão de descrever o espaço. Sobre este caderno sou livre de desarmonia, nele exerço sem complexo os meus vícios de visão pura. Mas não posso aguardar mais. Foi assim.

Esta manhã, os rapazes que vieram para a manutenção da piscina não paravam de interromper o trabalho para dirigirem o olhar para a casa ao lado, e a casa ao lado tinha as portas trancadas. O técnico que veio acertar a parabólica ficou longo tempo sobre o telhado, a mirar na direcção da casa vizinha. Diante da casa, carros passavam devagar, uma carrinha branca parava, arrancava, parava de novo. E pelas quatro da tarde, uma pessoa da agência alugadora veio informar-nos de que sentiam muito, mas estava fora do controlo dos serviços, o problema que se passava na vizinhança. Pois que problema? Então a rapariga da agência - porque se tratava duma mulher bem jovem - começou por dizer que ia para oito dias que factos estranhos ocorriam ao lado.

Ela mesma não tinha presenciado, mas constava que sobre as pessoas daquela outra moradia, sem se saber como nem porquê, estavam a cair pedras vindas não se sabia de onde. Pequenas pedras que atingiam as pessoas no corpo, incluindo o rosto, e que ora provinham de cima, como se fossem atiradas por alguém que se encontrasse nas árvores, ora pareciam saídas do próprio chão. De vez em quando, caíam sobre a água, sobretudo quando os filhos dos proprietários se encontravam a brincar no tanque. Uma grande maçada. A rapariga da agência que assim falava, estava séria. Uma bela moça, modernamente vestida, a olhar para nós seis, reunidos à sua volta no meio do tufo de flores, para escutarmos a saga das pedras que trazia até nós, para nos pedir compreensão pelo alvoroço que ao lado se poderia gerar, e para nos informar também que até àquele momento, era mesmo só no perímetro daquela outra casa, e daquele outro quintal, que as pedras eram arremessadas.

“Pedrinhas” – explicou ela. “Às vezes pedras de brita, ou mesmo gravilha das estradas, a avaliar pelo que a agência testemunhou. Quando soubemos desta situação, fizemos questão de vir verificar ao local. Mas outras vezes as pedras são maiores, parecem trazidas de longe, extraídas de valados da região. Incrível, não é?”

Como disse, a funcionária parecia-nos uma pessoa razoável, ela mesma estupefacta e incrédula, até um pouco humilhada pela incumbência que desempenhava. Referia que o próprio patrão, duas noites atrás, tinha andado com outros homens, todos munidos de lanternas, à procura dos brincalhões que atiravam as pedras, mas não só a busca tinha sido infrutífera, como enquanto decorria, uma das residentes havia sido atingida nas costas, no momento em que saíra à rua para ir buscar roupa ao estendal. Uma perseguição até agora inexplicável. A rapariga da agência falava com gravidade própria de quem é obrigado a oferecer aos outros uma inquietação despropositada. E certamente para se salvar a si mesma da inverosimilhança do que nos vinha contar, referiu a amplitude social que os factos haviam tomado. Vários jornais já se haviam interessado pelo assunto. No dia anterior, duas carrinhas de reportagem de televisão tinham vindo literalmente abancar diante de casa. Um dos repórteres até havia usado teleobjectiva para tentar captar o rosto de algum dos moradores. Mas as pessoas atingidas encontravam-se trancadas por dentro, sem quererem dar a cara, por acharem que o assunto era demasiado sério para ser badalado de qualquer forma.

“E as pedras, magoam ?” – perguntou um de nós.

A rapariga da agência sorriu – “Até agora, parece que não feriram ninguém. Dizem que mesmo as maiores, como a que atingiu a mulher mais velha no peito, ou mesmo o punhado de gravilha atirada contra a cara de um dos miúdos, quando se encontrava a nadar no tanque, parece que nunca fizeram doer. Não é incrível?”

“É incrível” – disse um de nós.

“Eu também acho...” – disse a rapariga da agência. “O problema é que esta situação pode continuar, a coisa passa-se logo aqui ao lado, e nós ainda não dispomos de outra solução. Mas estejam descansados, vamos encontrar...” E a rapariga partiu, sobraçando os seus papéis.

Como disse, este encontro aconteceu a meio da tarde. Significa então que devemos começar a desinstalar-nos desta casa de campo? Que tudo aquilo que ainda não saiu dos sacos deve permanecer guardado? Que não devemos começar a estender os fios dos computadores portáteis? A não espalhar os livros e os discos por cima das mesas? – Pelo contrário, devemos, sim, porque o assunto teve um novo desenvolvimento, inesperado.

Pelas sete da tarde, encontrávamo-nos junto à sebe que separa as duas casas, a olharmos, nós também, para o domínio suspeito, quando duas adolescentes saídas das traseiras da moradia vizinha se nos dirigiram. Vinham descalças, embrulhadas em toalhas claras. Chamaram-nos – “Eh! Queremos dizer uma coisa!” Deixámos a zona das flores, caminhámos ao seu encontro. Ficámos frente a frente com o gradeamento de permeio. Então a mais alta das duas colocou o rosto entre duas hastes de ferro, e em voz baixa pediu que não tivéssemos medo. Alguém tinha ido a Lisboa consultar uma leitora de cristais e havia trazido a devida explicação. Explicação que não iriam dar a ninguém, porque não queriam que tomassem a sua família por parva, mas que nos vinham dizer só a nós, para que não nos mudássemos para outro lugar. Não valia a pena. E o rosto da adolescente resplandecia entre as barras. Mas a mais pequena, mais nova, enervada com a delonga da irmã, deu um salto, com a toalha às costas, e explicou, aos solavancos, como se não tivesse tempo para terminar – “Ficámos a saber que são almas de crianças que vêm brincar connosco...” Olhou em volta, baixou a voz – “E devem ser muitas crianças porque as pedras vêm de todos os lados... Os nossos primos têm medo, mas nós duas, não, estamos muito contentes. As almas delas gostam de nós...” E como se nos conhecesse de há muito, a rapariguinha deu um grande salto - “Imaginem, tanta piscina por aí, e logo elas gostarem da nossa casa. Invejam brincar connosco no nosso tanque, gostam da nossa água com limos... Até já pensámos que, se calhar, dormem aí desse lado, entre as flores, e saltam a grade para virem brincar connosco... Mas nós não vamos contar a ninguém, como diz a minha irmã, para não tomarem a nossa família por parva... Por favor, não mudem de casa. A nossa avó também diz que são crianças, que rapidamente se vão cansar. Dum momento para o outro, podem não voltar mais...” – disse a adolescente mais pequena, mais viva. “ E agora vamos! Eh! Pirar!” E ela mesma se desembrulhou da toalha, antes da irmã, e correu na direcção do tanque. A irmã seguiu-a, ouviu-se um som na água – Tchap! E a seguir um outro – Tchap!

A moradia mantinha-se trancada. As duas árvores frondosas guardavam-na. Três garotos juntaram-se às adolescentes a chapinhar na água produzindo o ruído das rãs no charco. Isso, no declinar da tarde.

Agora já é noite. Ia até dizer agora já é noite fechada, cumprindo os lugares comuns, mas é falso. A noite que se encontra diante de nós está aberta, um quarto-crescente luminoso brilha sobre esta parte da Terra, espalhando um luar pálido, e nós seis, do lado de cá, de costas para as flores, estamos sentados em frente da vedação, de rosto virado para a casa assombrada, na esperança rara de que uma brecha se abra no tecto da tenda que separa a física da irrealidade, e uma pedra arrancada da origem do próprio espaço, atravesse o ar. Minto, neste momento, são cinco as cadeiras ocupadas deste lado da nossa casa. Eu vim para o quarto escrever estas linhas, para que este momento não acabe mais.

Boliqueime, 27 de Agosto, 2004
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* in “Poussières du Monde” (Éditions Métailié)

quarta-feira, 18 de agosto de 2004

Prefácio * Frei Bento Domingues

Nosso contemporâneo

Lídia Jorge *

A pessoa e a obra aqui presentes, tornadas sujeito desta breve intervenção, lembram-me o aviso de Maeterlink quando diz – Sempre que pronunciamos alguma coisa, desvalorizamo-la singularmente.

Acresce que neste caso a coisa é, como se sabe, uma pessoa singular e a obra em questão apenas uma parte visível dessa singularidade. Na verdade, não estarei sozinha se disser que tentar explicar, nestas circunstâncias, a importância que Frei Bento Domingues assume junto daqueles com quem alguma vez conviveu, poderia ser embaraçoso. Embaraçoso também para ele próprio, que perante a declaração da sua importância face aos outros, não sabe onde pôr o olhar. No que me diz respeito, em contexto diferente, eu hei-de descrever a forma como a sua conduta e o seu pensamento, à distância, me têm sido decisivos no modo de encarar a vida e o Mundo.

Mas agora trata-se, antes de mais, de referir o conjunto das cinquenta e uma crónicas, publicadas no Jornal Público, entre 1994 e 1995, aqui reunidas com o título de As Religiões e a Cultura da Paz, um belo volume ilustrado por uma imagem que representa, na sua ambiguidade, tanto a deflagração quanto a fulguração dos ícones, e inscrita numa colecção cujo enunciado, só por si, inclui a síntese do tempo disjuntivo a que estes escritos se referem – «religião sem Mundo, Mundo sem religião». Eu diria que a ideia que lhe está subjacente, por antonomásia, é precisamente, a reclamação não de um mundo com uma religião, mas um mundo com religiões, e nessa junção ecuménica das totalidades na Totalidade, reside a mensagem de paz por que reclama o título. Esta é a entrada do livro que aqui se manuseia. Ela faz a diferença, no meio do acervo de fanatismos que hoje campeiam. Ela permite inclusive que se aproximem os que crêem dos que não crêem, como se de permeio entre eles, não existisse a separá-los mais do que a espessura dum pano de seda. Permite que se olhem e se interroguem mutuamente, e no mesmo pé de humanidade, os que vivem na Casa da Certeza e os que vivem na Casa da Dúvida, sabendo os primeiros que para os segundos não está apenas reservado o caminho do estorvo, sabendo os segundos que aos primeiros não está apenas reservado o caminho da segurança. Eu diria que é na capacidade de deixar coabitar estes dois espaços do humano, e dessa coabitação retirar as consequências para o incremento da fraternidade, que Frei Bento Domingues consegue criar um espaço de pensamento, entre nós, verdadeiramente original.

Provam-no, de facto, estas crónicas. Publicadas aos domingos, elas são os sermões modernos em que o púlpito foi arrasado, e em que o destinatário, ultrapassados os limites das paredes, se transformou num grupo vasto e diferenciado, tão difícil de determinar quanto difícil de atingir e onde se incluem os crentes, os não crentes, os agnósticos, tanto quanto os duvidosos e os inqualificáveis. O segredo da sua eficácia junto de um público tão heterogéneo, encontra-se ao nível da qualidade do seu raciocínio e da sua sustentação informativa, ambos arredados do forcing persuasivo. Essa originalidade advém-lhe naturalmente do facto de ser, antes de mais, um intelectual sólido, alguém que coloca o espaço da leitura e da erudição ao serviço da formulação dum raciocínio sempre novo e sempre aberto, perante a transformação imparável do Mundo, sismógrafo sensível dos terramotos sociais por que passam os nossos tempos, com um discorrer radicado na sensibilidade à mudança. Por isso mesmo, a parte destas crónicas que é doutrina assume um princípio activo, mas impregna-se-lhe numa totalidade vivencial, como se existisse para iluminar os passos dos homens e nunca para separar-se deles.

Eu diria mesmo que este pregador, que junta ao seu nome O. P., como aviso, é alguém que se move na área da doutrina e da pregação, como se o não fosse, processando o seu raciocínio com uma clareza cartesiana, indo de argumento em argumento, encadeadamente, como um filósofo metódico, até atingir o cinto inultrapassável do dogma, a verdade recebida e não encontrada, espalhada no campo da doutrina. Melhor dizendo, Frei Bento utiliza o cinto do dogma na sua versão mais fina, o menos estranguladora possível, o mais sustentada possível pela evidência do concreto e do provável. Não admira que Frei Bento declare na introdução a este volume, aquilo que se depreende do seu método de trabalho – (...) nunca escrevo sobre um tema sem o estudar de novo, nunca confio no que já sei, detesto o impressionismo. Por conseguinte, não admira também que a sensação que se alcance com a sua leitura seja de clareza, segurança e liberdade, uma vez que o cinto de todos os dogmas ele os sintetiza, em última instância, na evidência de Deus como amor. As crónicas de Frei Bento são “desdobráveis” inteligentes que se oferecem ao pensamento, abertas em várias direcções, e nessa medida também são sermões, isto é, raciocínios que podem conduzir à fé se o leitor aceitar a verdade que o autor toma por incontornável.

Mas se o conteúdo é a forma da matéria, como creio, eu diria que a maior sedução destes textos provém da sua íntima substância. De testando o vago e o impressionismo, não estamos perante um raciocínio lógico, nem seco nem frio. Nestas crónicas, prolongamento de Frei Bento como pessoa, o seu raciocínio nunca está separado da massa sensível que habita as coisas e os seres. Ao ler-se Frei Bento Domingues, percebe-se que se está perante um homem aberto à grandeza. À grandeza do cosmos, à magnânima fragilidade do humano, ao rosto irrepetível nas multidões, à pele da História, inocente e deslumbrado como se fosse um poeta, que só o não é formalmente, porque o poeta faz experiência do escuro e exibe a escuridão como medida, e Frei Bento é um poeta que escolheu à partida a luz do princípio iluminado, e fez dele o seu método de clareza. Porém, dentro de si, conserva intactas essas duas coisas. Só assim se entende que seja um pregador tão hábil, homem de cerimónia e de parcimónia, capaz da paciência e da piedade pelos outros, no circuito do próprio raciocínio. Alguém que discorda, surge contra mas não se in-surge, não cria cisma. Entre os seus, percebe-se muito bem o que recusa, como recusa, porque recusa. O próprio Papa e o Cardeal Ratzinger, bem como Fátima e outras entidades, são figuras que surgem no rodapé dos seus reparos. Há nele, porém, uma forma cordata de discórdia, que passa muito mais pela insistência do que pela indignação. Aliás, em relação aos grandes problemas, depreende-se-lhe uma constante de procedimento notável – é frequente Frei Bento desenvolver um raciocínio, deixá-lo a vibrar intensamente em torno da tese que advoga, para depois suspendê-lo e terminar sem dar o golpe fatal, ficando o raciocínio em aberto, à disposição duma resposta, como se fosse uma conversa interrompida. Por vezes, só assim se entende a sua oposição, ou a sua resistência, ou o seu destinatário, quando posteriormente volta ao assunto, retomando-o pela ponta do ziguezague interrompido. Também só assim se entende como nestas crónicas, bem como nas anteriores e nas posteriores, se desenvolve toda uma cultura de compreensão do papel dos mais vulneráveis, divergente do pensamento dominante, como sucede, por exemplo, no caso das mulheres, tema desenvolvido cautelosamente, sob o anteparo for mal desse tipo de raciocínio inatacável, interrompido no momento exacto.

Mas nem sempre é assim. Por vezes, o pregador da crónica toma a realidade e os factos, e denuncia a incongruência, o anacronismo, o interesse próprio, o miserabilismo mental, juntando as pontas que o evidenciam, munido da ironia. Exemplar nessa desmontagem é a Crónica “a Capital do Bruxedo”, quinta crónica deste livro, peça literária notável. Outras vezes, deixa-se comover pela irritação e pela revolta. Falando do Peru, país maravilhoso da América Latina, aviltado socialmente de todas as maneiras, e referindo-se em particular à cidade de Lima, Frei Bento não tem rebuço em declarar – A porta para este mundo fabuloso é um nojo. Lê-se na primeira crónica desta série. Também na última, a quinquagésima primeira, a que tem por cenário o Chile, a propósito do crescimento económico sustentado, e da cultura do contentamento dos afortunados, pode ler-se – “Há (...) muitos sinais, extremamente violentos, de que os enganados, os excluídos, podem reagir por vias do desespero. Já vai sendo tempo de perceber que fora da solidariedade, fruto do compromisso social e da compaixão, não se pode encontrar uma sabedoria partilhável para viver com dignidade neste mundo”. Estes, aliás, são os últimos parágrafos com que termina o volume As Religiões e a Cultura da Paz.

Dado o que está a acontecer, sete anos depois, poder-se-á perguntar se acaso Frei Bento não foi profeta. Dever-se-á responder que não, que Frei Bento, felizmente, não é um profeta. Trata-se apenas de um homem lúcido, nosso contemporâneo, que leva a coragem, de par com o discernimento e a beleza, na ponta dos seus pés, e não se queixa da mágoa que lhe causa – Foi assim que o conheci pela primeira vez, num inverno já distante, a caminhar numa praia, e a associar a força das ondas encadeadas como se fossem uma sombra de Deus. Do seu misericordioso Deus, que vê no rosto de todos, mas não impõe a ninguém.
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* Prefácio de "As religiões e a cultura da Paz",
Frei Bento Domingues
(Mário Figueirinhas Editor, Porto, 2004)

sábado, 17 de abril de 2004

Depoimento * Sobre o filme "A Costa dos Murmúrios"

O filme e o livro


Lídia Jorge *

O número de imagens que um livro oferece são infinitas, as imagens de um filme são finitas. Da passagem de uma coisa para a outra existe um transvaze inevitável, onde alguma coisa em geral se perde em número e alguma se ganha em intensidade. No caso de “A Costa dos Murmúrios”, apesar de ter tido conhecimento prévio do argumento, e do cenário das filmagens não ser propriamente um mistério, o resultado do filme foi-me bastante surpreendente. As primeiras imagens surgiram e eu compreendi que a história que tinha escrito, sob as mãos da Margarida, e o corpo dos actores, havia-se transformado numa outra realidade, reescrita à luz de um outra invocação. Mas devo dizer, em abono da verdade, que essas diferenças constituem mais revelações do que estranhezas e levaram-me num primeiro momento a revisitar o livro com outro olhar, e a rever o filme pela segunda vez, com um sentimento de muito maior proximidade. Entre filme e livro, afinal, não encontro propriamente divergências, encontro deslocação de elementos e diferentes modos de intensidade, para dizer o mesmo – que se trata do desejo de erguer um relato para não deixar sumir na inadvertência alguma coisa grande e dolorosa, pessoal e colectiva, que persiste, a mesma vontade de criar um espaço ficcional onde alguma coisa fora do paradigma acontece, a mesma vontade de que isso suceda sob o impacto de imagens criadas pela alucinação da memória. Esse parece-me ter sido o nosso pacto inicial, e respeitado isso, o resto é pormenor. Ou estética. Porque os modos sempre são diversos.

Por exemplo, a atmosfera de um filme pode muito bem ser criada por uma marcha oposta àquela que sustenta o livro no qual se baseia. Neste caso, a imagem de Os Gafanhotos como figura detonadora da narrativa, e com a qual o livro abre as primeiras páginas, e que continua a ser o núcleo importante desta história de Portugal em África, não constituiu um motor para a realizadora. Eu estava interessada, desde o início, que o leitor entrasse para dentro duma narrativa onde a memória alucinada tinha de ser mais forte do que a crónica do tempo. Ao invés, a Margarida inicia o filme com a imagem documental do autocarro, e a canção na voz de Simone para se localizar no tempo. Eu diria que o filme arranca como uma crónica. Cenas do casamento, diálogos cruzados, danças dos anos sessenta, toda essa primeira parte tem alguma coisa de reportagem nua, só depois o filme começa a transformar-se no fantasma que a memória altera, e para o qual concorre a fotografia como principal elemento transfigurador das cenas entre reais e imaginadas.

Diferente também é o peso atribuído ao papel das mulheres. A Margarida concentrou a acção nas duas protagonistas, entregou-lhes praticamente toda a pulsão interior e toda a consciência do momento histórico. A voz, e sobretudo o olhar de Eva Lopo e de Helena de Tróia, como espelhos refractários, tiveram, só por si, de concentrar o mundo inteiro que as rodeia. Elas são o mapa interior e íntimo onde se vão repercutindo as oscilações do que se vai passando lá longe, em combate. As minhas figuras esbracejam para fora desse quadro, no entanto não me parece mal a opção da Margarida e do Cédric Basso. Essa concentração reduz o campo dos movimentos, mas dá em coerência narrativa e fluidez o que lhe falta em campo livre. O que falta de varanda aberta. diante dos cometas e dos mortos, aprofunda-se em dramaticidade interior. O mesmo em relação à intensidade da violência. Sendo “A Costa dos Murmúrios” um livro que não vai à guerra, mas não fala de outra coisa senão dela, a imagem da roleta russa foi -me indispensável como concentração do combate, síntese da sua arbitrariedade, paráfrase do vício da violência. Entreguei-me a essas duas cenas com a rudeza própria de quem desejou criar um contraponto em abreviado dessa brutalidade como jogo no tempo do intervalo. Concebi esse transe como coisa rude. Mas a Margarida criou as duas cenas retirando-lhes a parte grosseira, criando no lugar dos tiros e dos tampos manchados das cadeiras vermelhas, sugestões narradas como nos sonhos. Talvez por isso mesmo o filme atinja aí, nas cenas dos amantes, os seus momentos mais altos. É uma violência que fala da violência sem a mostrar, como raramente acontece no cinema. Uma rara decência de narrar. Isso emociona-me porque o pacto, feito no início, está inteiramente cumprido. A beleza está no seu lugar.
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*  Publicado na Revista Única | Expresso, 17 de abril de 2004

sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

Crónica * Eu só pensava, não te vires, não te vires, vai

Piano-bar

Lídia Jorge *

Quando se tem histórias dentro da cabeça, sai-se para a rua e encontram-se duas, volta-se para casa e acham-se três, e se por uma certa noite de Primavera, se sai para jantar à luz das velas, encontra-se uma cena, tão poderosa, que uma pessoa não pode deixar de contá-la. Desta vez foi assim - A mesa estava à nossa espera. Em volta o restaurante, castanho e bege, parecia saído dum sonho antigo. As fotografias tinham a lembrança amorosa das coisas revivais. Mulheres de tranças estavam nas molduras, espelhos aqui e ali traziam de volta épocas de quando havia tempo para uma pessoa se ver ao espelho. E um piano, um soalho de madeira escura, e em volta das mesas, gente de todas as idades. Tudo aquilo muito bem pensado. O passado ali não é uma falsidade, é apenas um passado moderno, uma fantasia de filme para fazer sonhar. Os jovens sabem disso. Procuram o piano-bar para conversarem. Grupos para se divertirem. Naquela noite, as mesas estavam quase todas ocupadas.

Mas numa delas estava um homem só. É preciso dizer que já não era novo. Curiosamente, o homem não tinha chapéu mas era como se tivesse. Estava ali metido numa mesa de esguelha, e logo na passagem, sem dúvida porque jantava sózinho. Eu achava que ele tinha um ar antigo e o sua antiguidade, ao contrário do restaurante que a fingia, era genuína. Achava mesmo que se ele se levantasse teria de erguer em frente do peito, um chapéu, como antigamente os dandys. Estava eu a pensar nisso quando o homem começou a levantar-se. De facto, o homem, já de idade, pousou o guardanapo, abandonou o prato a meio e levantou-se. Não, não tinha chapéu nenhum. Iria sair? Também não. O homem foi até ao fundo da sala e começou a falar com as pessoas de certa mesa. Pensei que se conhecessem e que voltasse para o seu lugar. Mas também não. O homem, já de idade, tinha-se posto a andar de mesa em mesa. Aproximava-se, dizia qualquer coisa, as pessoas escutavam-no, ele abalava e as pessoas entreolhavam-se, temerosas. Temerosas não, talvez risonhas, ou surpresas, como se comprometidas. Até que o homem se aproximou da mesa contígua, e ali encontravam-se uns rapazes, que começaram a rir, e uma rapariga, entre eles, até soltou um espirro, e depois uma gargalhada. Mas em seguida, todos se calaram, e uniram as caras na direcção da vela. Viria o homem até nós? Não viria? Viria. O cavalheiro idoso aproximou-se, baixou a cabeça, pediu licença, e disse - “Queiram desculpar, é só par dizer que hoje é o dia do meu aniversário... Tenham um bom jantar... Muito boa noute...” E o homem idoso, com um pequeno trambolhão, dirigiu-se para a sua mesa e recomeçou o seu jantar. Sozinho, de esguelha, na passagem. As outras mesas quase repletas. Algumas pessoas incomodadas. Talvez sentissem o mesmo que nós sentíamos, porque ninguém dizia coisa com coisa, ninguém falava. Só os rapazes, ao lado, riam.

Nós, completamente assaltados pela surpresa - “Chamamo-lo? Não o chamamos? O que fazer? Vamos felicitá-lo? Já pensámos bem naquilo em que nos vamos meter? Afinal veio junto de nós, e não nos disse nada, a não ser que fazia anos... Será uma pessoa boa da cabeça?...” E na dúvida, com medo de agirmos, de dizermos, nós a mastigarmos o nosso jantar, nem bem nem mal, interrompidos, circunspectos, enviávamos os olhares oblíquos na direcção do homem. Agora ele pousava a faca, o garfo, não tinha querido sobremesa, nem café, sorvia só o que parecia ser um pequeno balão com álcool. Depois, lentamente, pousou tudo, desatou-se de tudo o que o ligava à mesa, levantou-se como se tivesse o chapéu na cabeça, que não tinha, e virando-se para uma mesa, por certo imaginada, entre a nossa e a dos rapazes, despediu-se– “Muito boa noute...” Começando a deslocar-se pelo soalho do restaurante chique, revival. Nós a pensarmos, hesitantes - “Dizemos alguma coisa? Dizemos boa noite, não dizemos?” - Não dissemos.

Não dissemos porque da mesa ao lado um daqueles jovens começou a cantar parabéns, e à segunda sílaba explodiram todos os companheiros da mesa, e levantaram-se todos, e a seguir as pessoas das outras mesas fizeram outro tanto, e ninguém parava. Nem quando chegou o momento de dizer Para o senhor fulano, uma salva de palmas, pois disse-se Para o senhor fum-fum..., espontaneamente, como se estivesse previsto, e prosseguiu-se, porque o restaurante piano-bar, entretanto, tinha-se incendiado. E o homem idoso estava parado, de costas para nós, e não se virou. Esperou até ao fim, e como se fosse empurrado por uma onda invisível que o impelia para o lugar devido, começou a caminhar na direcção da porta, sem se virar, sem nunca se virar. Eu só pensava, não te vires, não te vires, vai, vai indo, ficarás para sempre prolongando esta noite. O momento que encheu esta noite. E depois de o homem idoso desaparecer, os rapazes sentaram-se e riram-se outra vez, pois tudo tinha ficado no seu lugar. Até o homem, lá fora, quanto mais caminhava na direcção da sua casa, mais se mantinha ali, ocupando aquela mesa livre. Onde ficará, sentado.
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* Redigida para a série "Dias Contados", transmitida pela RDP | Antena 2

segunda-feira, 20 de agosto de 2001

Conto * Cálice de Porto

Cálice de Porto

Lídia Jorge *

A fachada era sóbria, as cantarias direitas. Adivinhava-se ali o labor do século dezoito, seus homens de calções brancos e rendas ao pescoço, manuseando o compasso e a régua, a vista rectilínea triunfando sobre o desleixo da natureza mater. Parando o passo, na atmosfera ainda se ouvia o rodado do carro de bois transportando a pedra e o cepo, e mais acima, em sentido contrário, o trote rápido dos cavalos do senhor saracoteando as caudas. À primeira vista, a frente da moradia, entalada entre outras como ela, perfilando-se sobre uma rua curva e estreita, parecia remeter quem chegava para dentro de quadrângulos de apertados espaços. O que era uma ilusão. Pois nas traseiras - porque aí já se tinha entrado, depositado o casaco, e seguido por um corredor ladeado por grandes armários de carvalho - dava-se para um amplo terreno com uma álea de glicínias, um renque de tílias e duas faias espampanantes de vergônteas vermelhas.

Para dizer tudo, era Primavera, fim de dia, e a porta do amplo jardim virado a nascente fora aberta para que se pudesse passear livremente entre buchos, com um copo na mão, tamborilando o gelo. Uma rapariga posta no exterior da porta, como uma cariátide serena, segurava a bandeja. Apesar de tudo, havia quem preferisse ficar no interior, para não se perder o efeito do conjunto. Na verdade as janelas de baía entravam por essa maravilha como se estivéssemos num barco que navegasse em terra, com a proa apontada ao rio. E o rio quase branco, quase de ouro, escorregando como um espelho na direcção do Poente. Abençoados os que ali viviam. A alegria e a serenidade do mundo para os que ali viviam. Felizes também os que ali se encontravam para desfrutar dum fim de tarde como aquele, onde se sentia que por instantes, pelo menos por instantes, a harmonia do mundo poderia ser realidade. Convidados, deveríamos ser uns trinta. Eu não conhecia nenhum dos presentes. Um poeta, recentemente laureado, veio ter comigo. Era um grande bem.

Com um poeta deve-se exactamente começar por aí, por elogiar o espaço. Qualquer poeta sabe que se deve começar pelo espaço, e aquele não era um poeta qualquer. Eu tinha também de elogiar a compostura digna dos convidados, a alegria franca das suas gargalhadas altas, os seus trajes rigorosos, os homens sólidos, as mulheres quase belas, uma ou outra bela mesmo, os cabelos bem postos, bem pintados, as roupas caras. Um sentimento de sociedade como havia muito não experimentava. A crença de que por momentos, pelo menos por momentos, o mundo se estabiliza e a pessoa pode encostar a cabeça no sofá de orelhas e descansar do afã da mudança do mundo, do seu sobressalto eternamente revolucionário. Era isso, eu estava sentada agora a um canto da janela de baía, e à medida que os visitantes do jardim iam regressando do bucho e das faias, o poeta laureado, em pé, com seu copo na mão, ia dizendo – “Pois aqueles são os Figueiroas, aqueles são os Linds, aqueles os Castros... Ali vem a Zili. Ao menos foi apresentada à Zili, assim o espero ...”

Sim, já tinha sido, mas agora ali estava ela de novo, de estatura mediana, loira, cabelo frisado, quase bela, ou mesmo bela, quando séria, menos bela quando falada, não importava, ali estava a dona da casa – “Tudo bem convosco?” – perguntou ela. Sim, tudo bem connosco, o poeta laureado e eu. A porta que dava para o jardim fechava-se, a criada cariátide entrava e a porta da sala de jantar abria-se. Havia cinco mesas. O poeta laureado disse-me – “Vai ver. Tenho a certeza de que nos vão colocar na mesa lírio...” Assim era. Como por vezes, nas recepções oficiais, cada mesa tinha ao centro um pequeno arranjo de flores. Rosas, margaridas, amores-perfeitos, calêndulas, lírios. Cinco flores, cinco mesas. Quatro, uma a cada canto, a maior ao centro. Dirigimo-nos para os lírios. Também ali o século dezoito tinha dado lugar ao século dezanove, grandes obras de beneficiação, com certeza, cem anos atrás. As paredes eram altas e menos espessas, do tecto pendia um lustre de vidros de Morano, e acima dos lintéis, molduras douradas onde repousavam gravuras sobre a foz do Douro e a baía de Nápoles. Um Vesúvio fumegava sobre assinatura inglesa. Sobre a toalha branca onde havia tanta renda quanto linho, talheres e talheres em volta dos pratos reluzentes – três grandes facas, três grandes garfos, duas colheres, uma grande e a outra, a de sobremesa, só um pouco menos grande, cinco copos, cinco frisos, e cada guardanapo do tamanho duma toalha, também em linho e renda com monograma bordado. A cada ponta um grande Z. Sentámo-nos lado a lado. Elogiei o requinte. Todo o poeta sensível ao espaço, o espaço tangível como concha da alma. E ele ouviu o elogio, e pediu que eu olhasse para o dono da casa. Olhei. Na mesa central, o anfitrião ficava em frente. O poeta laureado deixou os olhos vaguearem pelo tecto onde havia cercaduras de estuque, em forma de corda e cachos de flores, prolongamentos das toalhas de renda, e disse – “E o que acha dele?” Todo o poeta sabe que o espírito do corpo como o espírito do lugar, começa exactamente pelo seu exterior. Como eu demorasse a responder, ele adiantou-se – “Permita-me que lhe diga...” Baixou a voz – “É um tanso, e não lhe digo mais nada...”

Mas logo diria. A conversa animou a sala inteira, a sala estoirava de brilhos e o poeta comportava-se como poeta. Sorridente e inventivo. Em breve levaria a grande colher de prata à boca, fingindo que dela deixava cair a sopa, e dizia que nela não via uma colher, mas uma verdadeira concha de repartir, uma pá de caldear massa, uma tolda. “Olhe aqui, olhe aqui...” Como se a alavanca do pulso não aguentasse o peso da prata – “Olhe a tolda...” E as facas? Que pegasse eu nas facas. Cada uma do tamanho duma espada. Inclinado para o meu lado, o poeta manejou com discrição um faca. “Avalie, avalie o peso disto, a espada de Afonso Henriques para se comer à mesa...” E os garfos? Os garfos, grandes, deitados, de dentes recurvados virados para cima, eram umas forquilhas de carregar o feno. Um horror, que já não se usava. Em parte nenhuma do mundo se usava. E Zili, ela bem queria pôr aquilo de lado, substituir aquela armaria por um faqueiro de design sueco, leve, simplificado, mas ele, o marido, um tanso. O poeta sorriu, pondo os lábios de lado, para não ser ouvido pelo vizinho da esquerda. Depois, encostou-se mais e disse – “Repare bem, repare. Com quem se parece o dono da casa? Com quem?” Voltei a cravar a vista no homem de barbas e espessas sobrancelhas, o olhar satisfeito daquele homem que presidia à mesa do centro, a das rosas. Um certo remorso por me encontrar a detalhar a fisionomia do dono duma casa que me havia enviado um convite amável. Mas o poeta nem me deu tempo de raciocinar – “Tem a cara do Darwin, já viu? Exactamente. Um Darwin que nunca tivesse entrado no Beagle, nem conhecido as Galápagos. Um Darwin vinhateiro, mais nada ...” E começou a rir. Começámos a rir. Primeiro pouco, depois muito. Como estávamos lado a lado, na mesa redonda, era necessário virarmo-nos um para o outro para rirmos sobre aquela confidência. Era verdade, olhando bem, assim de frente, o dono da casa parecia-se com o velho Darwin antes de ficar calvo. Mas eu não iria corroborar tal parecença, a mim cabia-me até apaziguar a hilaridade incontida, mergulhando nos detalhes da refeição requintada.

Era difícil, no entanto, suster aquela espécie de rumor. Visto de três quartos, uma pinta em forma de flecha luzia nos olhos do poeta laureado. Uma pinta acesa luzia. Ele chamou-me de novo para a intimidade da manga do seu casaco e disse-me – “Posso desmistificar uma coisa? E posso ser ordinário?” Sim, desmistificar podia, já quanto a ser ordinário duvidava que devesse. Ele não se importou. Nem ouviu. Espiou a desatenção dos outros elementos da mesa e disse – “Aquele homem que ali vê, está a dever os cabelos da cara e de outras regiões do corpo que não nomeio. Com sua licença, não nomeio, mas você entende... Entende ou não entende?” E os seus olhos fecharam-se sobre o prato. Ali já estava o peixe. Sobre o peixe, as alcaparras verdes. O vinho ainda era só branco, levemente afrutado, não muito. Ele bebeu-o dum trago e começou a dizer que estávamos ali, sentados como à mesa dum príncipe, e porventura o dono da casa, de seu, legitimamente seu, já não deveria ter nada. Naquele momento, talvez até aquela própria casa já estivesse comprometida, talvez aquelas paredes até já não lhe pertencessem, talvez aquelas loiças, talvez aquelas gravuras já fossem de alguém que não ele, que ali estava, inchado, presidindo à mesa das rosas. E num arroubo de poeta que tudo vê, através da luz das trevas, disse que levava à boca um garfo que já não era dele, do tanso, que aquele pedaço de peixe que lhes servia já não era dele, do tanso, o tanso servia aos outros o que não era dele. O próprio vinho da mesa, bem como todas as colheitas desde os inícios de noventa, hipotecadas, não lhe pertenciam. Dívidas e dívidas acumuladas, já nada era dele. Aí, levantou ao ar o copo de branco afrutado e disse para o lado, o meu lado – “Beber bem o que não é dele...” O poeta fechando e abrindo os olhos, bebendo do copo, agora, na direcção da mesa central, embora o fizesse sem exuberância, disfarçadamente, coisa só para nós os dois, ali à parte, no rebordo da mesa. O vizinho da esquerda nem de longe se aperceberia do que se passava à sua direita. Aliás, possivelmente, também não se passaria nada. Apenas eu ficava a saber o que todos os outros, por certo, já por demais saberiam. O poeta a sorrir, a rir, a falar baixo para mim, como se os dois em cumplicidade constituíssemos uma seita, e precisássemos preservar entre nós um segredo de iniciados. Por essa altura do jantar, a dona da casa, de costas para o poeta, levantou-se da mesa das calêndulas, e falando com este e aquele, dirigiu-se a cada uma das outras mesas. Dirigiu-se à mesa dos lírios.

Era o que eu adivinhava. Zili falou, colocando mesmo a mão sobre o ombro de um e outro convidado, mas não se dirigiu ao poeta, nem o poeta levantou os olhos para ela. Agora tinham colocado vinho tinto no quarto copo. Quando ela terminou a pequena gargalhada que resultava da troca de impressões rápidas sobre o andamento do jantar e abalou, bebeu-o duma golfada. O poeta laureado inclinou-se de novo para a sua direita e disse – “Casaram há vinte anos, estão para se divorciar há quinze, e agora já é tarde. Têm dois rapazes, dois peralvilhos. Percebe? Mas há dez, doze anos atrás, eram crianças maravilhosas, capazes de se adaptarem a qualquer cidade do mundo ... Sei que não pode compreender. Também não sei porque lhe estou a dizer isto, eu nem sei... ” Um vulto branco servia-nos borrego enrolado. Batatas pequenas, entaladas, feijão verde, meio cozido, como gostam os ingleses. Um molho castanho por cima, gengibrado. A Baía de Nápoles desenhada, em frente.

“Você percebe?” – perguntou o poeta.

Na verdade não percebia. A minha cabeça foi um pouco à frente e veio atrás. Imaginava um esquema simples, previsível. Que sabia eu? Anos antes, talvez aquele homem tivesse proposto à mulher daquele outro homem que saíssem do país para irem viver noutra cidade, como faziam os abastados no século dezanove, levando atrás de si as crianças e as arcas, e ela, Zili, havia sido tentada, mas havia dito que não, numa noite de luar. Como no tempo em que ainda se viajava de vapor e de comboio, um tempo antes do avião, antes do telefone, do morse, do satélite, do fax. Não, não podia ser. Talvez fosse só um sonho unilateral dele, e nada disso tivesse acontecido. Só desejo dele, só ambição dele, do poeta laureado, e ele estivesse ali a falar de alguma coisa vã como uma telha solta, descosida. Talvez o anfitrião nem devesse a mais pequena nota de mil, talvez nada estivesse hipotecado, talvez nada fosse verdade. Ali estava a casa ampla, sólida, murada a uma altura invisível mas palpável. Toda a gente a rir. Na mesa das calêndulas contavam-se piadas e uma mulher chorava de tanto rir. Impossível de acreditar naquilo. O grande problema dum poeta é trabalhar demasiado a metáfora, esquecer demasiado a intriga. Quer se queira quer não, a intriga existe nas vidas, mesmo nas dos poetas, ou talvez por isso mesmo, sobretudo no profundo coração dos poetas, e aquele ali estava a mistificar a parte que lhe pertencia. “Você percebe? Não percebe? Você não percebe nada...” – dizia ele, conivente, a rir. Depois, por instantes, o poeta laureado pôs-se mudo, entregue ao recinto do seu próprio prato de fio dourado, limitando-se ao estreito raio, aquele que passava entre os lírios, os copos e a borda redonda da mesa, e assim permaneceu, a cortar a carne e a cortar carne, sem a levar à boca, sorridente, sem falar. “Não come?” – perguntei ao poeta laureado. “Já vai, já vai...” E bebeu outro gole de vinho tinto, vermelho púrpura, colheita de noventa e quatro. Uma ligeira bolsa debaixo dos olhos, dava-lhe cinquenta e muitos anos. Ela deveria ter uns quarenta, não mais. Até parecia menos, digamos quarenta, já com o acrescento que se supunha que a maquilhagem lhe subtraía. De contrário, eu até diria vinte cinco, vinte e sete, ou trinta, indiferente até a idade que a anfitriã aparentava. Nele sim, no poeta, as marcas do tempo nos olhos e nos cabelos, aqui e ali, essas sim, eram claras. O poeta não iria dizer mais nada? Diga, diga, por favor, poeta .

Sim, o poeta diria.

Não demoraria muito. Ouviam-se falas e tinidos por toda a sala. E no meio de tudo isso, de novo ele foi obrigado a encostar-se na minha direcção, porque um vulto branco e preto colocava nos pratos dourados uma fatia de pudim, uma posta de gelado, e um outro braço, o da moça cariátide, atrás, unia tudo isso com uma colherada de chocolate quente. Quando os servidores passaram ele ainda ficou inclinado para o meu braço, as mangas quase juntas. Ele disse, nessa posição inclinada – “Aquele macacão, em vez de ter embarcado no Beagle e ter casado com a sua própria prima, encontrou a Zili, ficou com a Zili...” Depois, rodou de tal forma sobre o seu flanco direito que surgiu de frente – “Sabe? Talvez não saiba. No nosso país, poeta, só mesmo nas horas vagas. Eu sei do que falo. Compreende? Eu também sou o advogado deles...” Nesse instante, ouviu-se uma cadeira rojar pesadamente. Já tinham servido um Porto Vintage. Quinto copo. O dono da casa levantava-se. A sua gravata de seda era amarela e brilhava como topázio entre as abas do fato escuro. O dono da casa disse, com o seu copo na mão – “Todos os anos... Aqui nos encontramos... Por esta região e esta cidade, pela nossa determinação e nossa força... À saúde de todos os presentes...” E outras coisas assim, discurso de circunstância, sólido e barbudo como os alicerces da casa. Quando chegou ao fim do discurso, Zili virou-se para trás. Eu vi. O meu vizinho também se tinha levantado mas não erguia o cálice, tinha-o deixado pousado. Quando bateram palmas, ele hesitou, depois bateu. Por certo que havia circunstâncias que o obrigavam. Bateu pouco mas bateu, e voltou a levantar-se quando todos se levantaram e se dirigiram para a zona das janelas de baía onde se servia café e mais Porto. Bom Porto. E uísqui, bom uísquw.

Era um ambiente concertado, limpo, rico, aromático. Uma senhora de muito meia idade, inesperadamente com uma pele de raposa ao pescoço, quatro olhinhos de raposa a luzirem no seu peito, disse – “Zili, canta lá para nós, esta noite, canta...” Zili hesitava. Havia quem nem parecesse entusiasmado, depois de tão prolongado jantar. Ou possivelmente, já todos conheceriam a actuação de Zili. Fosse como fosse, ela passou os olhos pelo rosto do poeta laureado, colocado junto ao sofá das orelhas grandes. O marido, o dono da casa, disse – “Querida, faz lá a vontade à Srª D.ª Perpétua...” A anfitriã olhou de novo na direcção da janela de baía onde nós dois, uma seita de dois, nos encontrávamos, e condescendeu – “Então pronto, de Wolf Ferrari, Quando a letto...” E colocando-se num canto, como se fosse só para alguns, para muito poucos, soltou-se dos pratos, das pratas, das rendas e dos estuques, fechou os olhos e começou a fazer soprano, apenas imitação de soprano, mas suficientemente soprano para que todos se calassem e caminhassem nos bicos dos pés para vir ouvir Zili cantar “Quando a letto vo’ la sera...” Uma voz com educação mas sem treino, mediana potência, e no entanto com um pedaço de alma, uma alma pousada nas coisas daquela casa que segundo o poeta já não eram nem dele nem dela, ou eram, mas se eram, na verdade, alguma coisa profunda e essencial lhes escapava como no fumo, a essência. A voz de Zili, ligeiramente trémula, esfumada, era bela ali naquele momento e lugar – “Vo’ la sera, vo’ la sera ...” Cantava ela. No sofá de orelhas, o poeta mantinha-se sentado, sem se mexer, imóvel como um saco de farinha. Quando Zili foi aclamada com a condescendência entusiástica que se dá aos amadores e às crianças, ou às prendadas donas de casa – “Encore, Zili, encore...” - ele bateu as palmas de novo, mas moderadamente. As duas mãos bateram clape clape e depois caíram sobre os joelhos. Quando abalei, ainda ele ali estava, no vão da janela bay window, a olhar. No exterior, a partir da rua estreita, das portas quadrangulares, ninguém diria. Ninguém que viesse de fora, alguma vez diria. Ninguém.
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* Publicado em "Porto Ficção", (ASA Editores, 2001)

segunda-feira, 2 de abril de 2001

Intervenção * Os lugares da Literatura

Pertença e contradição
Antes que nos cubra a pedra
por lavrar
antes que o lavrador perca
a partilha

Um monumento exacto há
que erigir
entre a Batalha e a Bastilha.

Luiza Neto Jorge

Lídia Jorge *
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Digitalizar0001Discorrer sobre a noção de pertença, como sobre a noção de cisma, traição ou singularidade, significa invocar um estado de lucidez e exercitar uma capacidade de raciocínio demonstrativo que em geral estão ausentes no processo que transforma o sujeito num escritor de ficção. No que me diz respeito, a simples invocação do tema transporta-me directamente até aos lugares ambíguos da Literatura, e a ideia de partilha da pessoa entre si e si mesma, como ser criador e como criatura, expressão de pertença para a qual os gregos encontraram definitivamente a palavra ethos, põe-me diante dos olhos, em vez de raciocínios, a última página da Ilíada, na qual vejo o enterro de Heitor, o corpo cremado de Heitor, os seus restos mortais reunidos dentro duma urna de ouro, amortalhado sob o olhar dos Aqueus, como anúncio do enterro inevitável de Tróia. É assim, indo beber demasiado longe, que me chega a noção de corpo como metáfora da terra de onde se vem e para onde se vai, porém, terra, porção de poeira nomeada com letra maiúscula, a que cada um chama de sua pátria. Como noutras situações se chama família, comunidade, mito ou língua.

Contudo, a noção de pertença nem sempre é servida por imagem tão unívoca nem tão heróica como a representação do domador de cavalos, em prol da sua pátria, por mais brilhantes e rumorosas que sejam essas últimas viagens. Pelo contrário, este é um território sem caminhos direitos nem simplicidades fáceis.

Começa pelo facto de que pertencer pressupõe antes de mais um génesis, o que significa à partida que fazemos parte de alguma coisa que estava feita antes de nós e nos proporcionou o ser antes da existência. Significa sermos do mundo dos outros, termos nascido da vontade ou do desejo dos outros e não podermos ser independentes deles. A pertença ou pelo menos os grandes mitos da pertença começam aí, e por isso, para falar deles é inevitável percorrermos o território involuntário da infância.

Aliás, para quem suspeita que a existência se desenvolve segundo um panorama de “regiões” sucessivas que se vão dando-à-luz umas às outras, a ideia de se descortinar nas vivências iniciais o indício de todas as metáforas da vida proporciona, no âmbito de questões como as da pertença, um munus inestimável de efeitos e causas legíveis - O nosso corpo como pertença de vários regaços, entre eles o da família. A segurança da paisagem como alimento para a concepção da terra, onde está a pátria. O discurso materno como alimento da fala onde está a língua. A permanência dos saberes iniciais transitáveis de geração em geração, como construção dos mitos. Ou a magia da vida sincrética, indistinção entre nome e coisa, relato e facto, como mãe inaugural da literatura. Tudo isso se pode encontrar a residir na infância, como lugar fundador onde estão as raízes mais fundas.

Diz o senso comum que a pertença se fundamenta na configuração dos primeiros abraços, nas primeiras viagens através da terra, nas primeiras ligações ao mundo e à multidão, esse feixe de actos que nos atam aos outros e às coisas para sempre. Por isso pertencer, independentemente do lugar que aí se ocupa, significa ser do outro, de outra coisa, ser do mundo. E a escrita vive disso, dessa sopa mágica indistinta que alimenta a Arte como interpretação do mundo.

Mas o movimento da escrita, o impulso que revela o escritor não apenas como transmissor de heranças, antes como criador de novas paisagens da alma, bem como a energia que o pressupõe, é na metáfora da adolescência, essa outra região mental onde se desenha em todo o indivíduo a traição à sua tribo, que se deve procurar. Tenho para mim que é na repulsa pelo conhecido, repulsa contra a família, contra a terra natal, os mitos locais, a língua materna, os livros dos seus avós e da sua nação, que se faz o adolescente que deseja ser outro, ser diferente, deseja fundar o seu próprio horizonte e o seu próprio tempo, ser pai de um novo mundo, ser patriarca duma nova tribo. À semelhança do escritor, e vice-versa, o adolescente quer conhecer os limites do universo para se auto-avaliar como aquele que deseja transpor o portal do desconhecido. Aliás, à imagem do adolescente, todo o escritor deseja inaugurar um olhar inovador sobre a realidade e a fantasia, e em geral, confessada ou inconfessadamente, é corrente vislumbrar o futuro da sua própria obra não como descendente mas como fundador. Por isso, em relação à noção de pertença, a Literatura aparece como um território armadilhado pela contradição de nela se negar o que não se pode alienar nem se consegue perder.

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É à luz desse duplo movimento de sedução pelos territórios da pertença, e simultânea repulsa pelos mesmos, que melhor entendo escritores cuja emoção literária me faz com frequência revisitar os seus livros. É assim, por exemplo, que entendo Curzio Malaparte, seu amor e aborrecimento pelo seu país, seu envolvimento e ódio pela Europa da sua época, a que chamou com desespero derradeiro de “Mãe Apodrecida”. Ou Faulkner, do outro lado do Atlântico, ao mesmo tempo tão adverso e tão no âmago do seu Sul conservador norte-americano, contra o seu meio contemporâneo ainda meio esclavagista, e em simultâneo rente à autopunição colectiva de que era parte e com a qual se confundia. Ou o contemporâneo Milán Kundera, inseparável do mundo checo de que se fez crítico, fugitivo e ao mesmo tempo, na força da sua dissensão, exímio porta-voz da afasia de um povo dominado de que na altura se auto-excluía. É assim que entendo Virginia Woolf, em cuja personalidade as correntes culturais que agitavam o Ocidente no princípio do século XX, encontraram ressonâncias extraordinárias. Mas a impetuosidade criadora mais genial dessa figura singular parece ter-se formado contra outro tipo de pertenças – as próximas, as domésticas, as familiares, as nacionais, as do mundo íntimo contra o qual se forjou a élite de Bloomsbury. Antes de mais, uma fuga e um corte com a convenção inglesa. Aliás, em Portugal, o exemplo mais eloquente desse cisma continua a corporizar-se na figura de Eça de Queirós, escritor realista do século XIX que concretizou toda uma obra de carácter irónico excepcional, em torno da contradição entre a pertença negada e a espectacular fuga fingida em relação ao seu país. Distantes ou próximos, em todos vislumbro o mesmo movimento de dissidência, o mesmo desejo do caminhante incorrigível de ganhar o largo, ainda que carregando às costas, sem saber, a soleira da porta donde saiu para não mais voltar. Em relação à questão da pertença, é no meio desse tipo de contradição que me vejo.

Contradição que é feita de múltiplos elementos, tecida de infidelidades várias e dissidências complexas em torno do que é a questão central entre ser e não ser, ou ser e não se conhecer a natureza do que se é. Como explicar a pertença, ou mesmo descrevê-la, se pertencer é uma questão central, e no entanto cada um começa por não saber definir-se enquanto pertencido? As próprias áreas da pertença se cruzam e mesclam indefinindo-se mutuamente. Muitas vezes tenho a ideia de que mais do que à sociedade pertenço às ideias. Mais do que à família pertenço aos que amo. Mais do que à Língua pertenço à Literatura. E mais do que a mim mesma pertenço à dúvida. O que significa que eleger campos de demonstração simplificados implica torná-los visíveis, ao mesmo tempo traí-los e, na complexidade da sua raiz, perturbá-los. Mas não resta outro caminho senão o das simples evidências.

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Assim, a minha primeira ideia, antes de mais, é que acima de tudo pertenço ao mundo, ao mundo contemporâneo que me é dado viver, sendo aí, no seu campo de metamorfose contínua, que encontro o território adequado para perguntar e responder, suster e transformar, acções que mais faço coincidir com a vida .

Ela própria me diz que pertencer significa, como primeiro dado, fazer parte do devir imparável que é o presente, que cada dia amanhece mais adiante e a cada momento funda uma nova era, como disse Musil, e cuja delimitação em termos geográficos não tem significado, ou pelo menos parece não ter. O meu campo de pertença, existência e observação, coincide com um novo “admirável mundo novo” dele fazendo parte, e dele aproveitando os benefícios de comunicação e conhecimento nunca antes imaginados, mas também contra ele reagindo no seu excesso de desumanidades várias. O meu sentido de pertença e sentimento de ser palpável, antes de tudo, define-se em função dos obstáculos à utopia para que aponta o progresso do tempo, como são os objectos inúteis, os objectos de fogo, os detritos, os efluentes ou a imparável pavimentação da terra, sabendo que lhes pertenço, mas que os combato como a castelos inimigos inexpugnáveis e ocupo grande parte dos meus dias em contenda com isso. Julgo mesmo que em parte escrevo sobre a ansiedade por uma espécie de harmonia imaginada, e integro esses elementos como partes de um território de incursão e contenda, perante o mundo que se constrói a uma velocidade incontrolável e com uma opacidade ameaçadora. Uma espécie de pertença contenciosa, gerida sob a iminência do futuro, em torno de uma globalidade genérica que contém homens lá dentro. Homens que não sei se vão ser livres. Então surge-me a ideia de que o território primeiro a que pertenço é o dos homens, na abstracção do conceito maiúsculo de Humanidade e na generalidade do Tempo.

Mas isso não é verdade, ou pelo menos é apenas uma parte da verdade, no que diz respeito à profunda pertença.
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Quando ocorre ler o que escrevo, percebo até que ponto, de mistura com os elementos duma utopia dirigida ao futuro, de carácter pretensamente universal, transporto comigo o lastro dum passado histórico determinado e a raiz duma nação concreta. A própria avaliação que faço do presente e do futuro não está isenta dessa informação à qual, de forma involuntária pertenço. A escrita, pelos actos involuntários que envolve, pelos gestos apelativos que não acautela, revela faces ocultas e indistintas de que nos julgamos destituídos. Na sequência da primeira imagem ocorrida, eu diria que através dela, o ethos, ou os rostos dos Heitores que existem amortalhados, desfigurados, ou mesmo invertidos, dentro de cada um, falam por si sem auxílio de qualquer voluntariosa pertença. Ao lado de gestos displicentes ou até de desprezo propositado contra a nação, sem querermos, Troias, na iminência de desaparecerem sob várias camadas de areia, reluzem dentro da nossa cabeça, na sua importância de cidadelas mentais. A escrita revela isso, como se não pudesse deixar de ser um espelho de faces que não conhecemos, ou que existindo, não gostamos de desvendar. Só assim entendo que de mistura com o confronto que mantenho com o presente enquanto sua parte, me encontre envolvida com os mitos profundos que governam o imaginário dos portugueses, e justaponha o enigma do tempo que passa ao enigma que empurra a configuração particular do meu país.

Percebo, por exemplo, que transporto desde a infância a notícia de uma espécie de proeza acontecida no dealbar do século XVI de que os portugueses foram autores principais indiscutíveis. Concretamente, transporto um sentimento próximo da estupefacção, pelo facto de um pequeno país, na altura com pouco mais de um milhão de habitantes, ter sido capaz de entregar à Europa dois continentes até então desconhecidos, e ter aberto por mar caminhos alternativos para se atingir os outros dois. Em suma, ter entregue a Terra redonda ao Mundo tal como ficou para sempre e com tudo o que se lhe seguiu. Embora rente aos mitos de grandeza também estejam as perplexidades e os mitos que lhe são opostos. Dificilmente consigo ultrapassar imagens controversas desse tempo, e sempre imagino, quando as nomeio, figuras como as de António Faria assaltando e pilhando barbaramente segundo as páginas da “Peregrinação”, ou como as do seu vice-rei, Afonso de Albuquerque, conhecido pelos orientais como o “leão dos roubos do mar”. Vejo com a ajuda de Pessoa, “dedos decepados sobre amuradas” de barcos portugueses, imagens de crueldade infinita desencadeadas à sombra da bandeira de Cristo, abençoadas pela mitologia da época como uma luta limpa em favor da Fé e da fraternidade no céu, matéria formidável para a interminável continuação da “História Universal da Infâmia”. Espaços tenebrosos sobre os quais se estava a construir então uma futura modernidade saída em simultâneo da coragem e do abominável. De qualquer modo, mesmo quando só para visitar os seus lados escuros e os desdizer, vou lá, vou aos mitos do passado do meu país, como se eles concorressem de longe para a compreensão deste presente inapreensível onde me movo e com contra o qual disputo, porque lhe pertenço .

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Então fico a pensar que o enigma de um tempo e de uma nação se assemelha também ao enigma pessoal como partes infinitamente assimétricas mas da mesma espécie, e julgo que afinal, mais do que à questão do território e da História, pertenço ao enigma da natureza, sobretudo a comummente designada por natureza humana.

De facto, interessa-me a pessoa, mais do que tudo, pertenço ao dilema da pessoa, ao território da sua intimidade, ocupo-me da sua composição, suspeitando que a divisão entre corpo e espírito é uma complexa equação sem resolução possível. E esse talvez seja o meu território de incursão e confronto, logo de existência e de pertença, que mais privilegio. A pessoa como contra-destino e destino. Nesse domínio, há muito que me encosto aos olhos alucinados de Emily Dickinson, proferindo com a ajuda dos seus lábios vivos palavras de sedição – “Poeira quieta, tu que foste damas e cavalheiros.” Digo em voz alta. Eu mesma fico quieta e muda, à espera que a poeira se mova e se revele. Não revela. As próprias palavras na surpresa do seu encontro são a revelação. Não há outra. Então socorro-me dos escatológicos, aqueles que desesperados pela ausência de um nome justo para o habitante do corpo, invectivam o corpo, o anatomizam e o descrevem como órfão de uma paternidade inominável, e o vêem ligado à terra e ao estrume como a ficha se liga à tomada. O biodegradável corpo exposto, na expectativa de nomeação, à espera de um princípio que o salve de ser nada. Ou penso, com a ajuda do austríaco Ernest Jandl , as suas próprias palavras – “la machine à merde est pour est pour l’essentiel en toi/ miracle de la crétion, merveille chancelante/ tu n’es ni son ingénieur ni son inventeur/ mais son propriétaire, gardien et profiteur”. Pronuncio assim mesmo essas exactas palavras de abjecção, porque elas traduzem o sentimento dos que se sentem sem-terra de tudo ser só terra, se sentem sem-corpo, de tudo ser só corpo, a ligação cortada entre o céu e a matéria. Cortada, como um estado decepado, um trauma. Eu própria acho que nunca escrevi nenhuma página que não tivesse essa inquietação implícita, mesmo quando não expressa. Mais do que a um lugar ou a uma viagem, pertenço à região desse ferimento e à inquietação que o sustenta.

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Só que de novo, atrás do homem está a História, mesmo quando reduzido ao papel fantasioso de personagem comum. Na verdade, mesmo quando julgo o contrário, descubro que jamais escrevi apenas sobre a fotografia da mãe antiga colocada sobre a aba da mesa moderna. Sem o desejar, o mundo de onde a mãe e a mesa procedem arrastam rios de tempo significativo e lugares habitados por gente histórica, fazendo confluir atrás de si todos os outros elementos de pertença. Em ficção, a espera de um laço salvador que una as metades do corpo, com a outra parte que o nomeie, toma a forma de personagens comuns que devem viver só por si, e em simultâneo entroncam no destino de personagens herdadas de há séculos, por estranho que pareça. Talvez porque dos mitos - aos quais de novo voltamos - sobejem partes móveis que caminham activas ao encontro do presente, desde que o presente ainda os continue a entender como traumas e coincidam consigo. É o caso do sebastianismo, entre nós, por exemplo.

Trata-se da história dum jovem rei lunático, sem filhos, que desapareceu em luta contra cinco reis mouros, nos areais do Norte de África, no final do século XVI, e de onde nunca mais voltou nem vivo nem morto, dando origem a uma expectativa de regresso salvador que foi passando de século em século. Figura real enlouquecida, misto de Quixote e Godot, foi permanecendo até hoje, no meu país, confundindo-se com a noção corrente de que o bem e o bom estão do lado de fora, que tudo o que há a fazer é deixar a porta aberta para que aquele que vem possa entrar. O mito é terrível pelo imobilismo que arrasta. Diria mesmo, aparentemente, desajustado à realidade actual. No entanto, como muitos outros, através de algumas personagens, percebo que eu própria o transporto, mesmo que deseje fugir do país que o contém e o renegue por deliberação tomada. Pois por que razão o não transportaria eu como os outros, como cada um? O universo de uma população é feita por acaso de números abstractos? E não é quem escreve uma pessoa comum? Então porque razão quando me pergunto sobre o destino do corpo e a natureza do seu habitante invisível, hei-de estar a salvo desse terrível fantasma que habita os cantos do meu país, alma sem corpo, fantasma no corpo de gerações e gerações sucessivas de gente que o perdeu e nunca o encontrou? É vergonha dizê-lo? - Quando menos me dou conta, percebo que esgotado o vocabulário da dúvida, eu mesma pertenço ao fantasmas.

Mas há mais.

Por exemplo, durante séculos, o corpo geográfico do império funcionou como uma realidade descomunal. Desde o século XVI que os portugueses se gabavam, com a ajuda dos versos de Camões, de jamais se pôr o sol nas terras de Portugal, aquém e além mar, sendo África depois da independência do Brasil, a jóia mais preciosa da coroa, destino transcendental da pátria. Mas no final do século XIX, estabelecida a disputa entre as potências europeias pelos domínios africanos, Portugal foi vencido pelos ingleses na contenda da partilha de África. Ainda hoje o hino nacional português, nascido na sequência do célebre mapa-cor-de-rosa, mantém os vestígios desse terrível momento de perturbação. Acaso não se reconhece no refrão do hino nacional, “Heróis do Mar”, a letra primitiva “Contra os bretões, marchar, marchar...”? Na altura, uma das formas encontradas para reagir à perda? Não admira que o ridículo e a perda sejam comportamentos que passam para os domínios próprios da Literatura, mesmo que ela seja por natureza muito mais transfiguração do que retrato.

E setenta anos depois, em relação a esses mesmos domínios em África, não ficaria envolvido o país numa Guerra Colonial fora de horas, tão dolorosa que ameaçava fazer apodrecer todo o tecido social, e que viria a terminar, fora de horas também, por uma perda tão grande, que ainda hoje não se consegue gerir com decência, nem do lado de cá nem do lado de lá? Pois talvez seja difícil a qualquer escritor da minha geração falar do corpo e do fluido que o anima, sem que a referência ao esfacelamento inglório de contingentes inteiros ocupe um lugar de destaque. É mesmo capaz de ser difícil, para uma pessoa que fez a guerra de África ou a acompanhou, e teve o seu primeiro embate com a morte desse modo e nessas paragens, de não perguntar pelo sentido do corpo, vendo diante de si, gente esmigalhada, entregando o corpo à terra no meio do mato, por uma causa de nada. E quem diz o sentido do corpo diz o sentido do dever e do desejo, e do amor, talvez o da morte em primeiro lugar. A prova de que uma parcela de nós mergulha no terreno colectivo de que faz parte, sobretudo se parte das narrativas que o constroem ainda não estão fechadas.

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No caso do nosso tempo presente, todas as narrativas se encontram abertas, dispostas à transfiguração, sobretudo quando o presente que testemunhamos e vivemos se afigura enquanto problema. Há momentos e países que pela sua situação de aceleração histórica, ou por confluência de factos, se encontram mais disponíveis à transfiguração do que outros. No caso português, a própria natureza das mudanças ocorridas durante os últimos vinte cinco anos, torna inevitável, ou pelo menos propicia a criação do outro relato, o ficcional, aquele a que Carlos Fuentes designa por “criação de uma Segunda História que cega e diminui a dos historiadores de arquivo”, baseada na memória e nos projectos pessoais. A propósito da Literatura portuguesa recente, é corrente referir-se essa coincidência.

Mas aí também, como em tudo o mais, sempre se pertence às conjunturas históricas por círculos concêntricos, de intensidade diferente e de vária natureza. Nesse domínio, mais do que ao meu país de há vinte cinco anos atrás, pertenço à determinação e ao acontecimento que lhe mudou o rumo. Pertenço à matéria palpável da alegria que aconteceu na sequência de uma revolução que pôs termo à ditadura de meio século que se havia abatido sobre a sociedade portuguesa desde os longínquos anos vinte, até aos anos setenta, ditadura sustentada por élites sem qualquer noção de partilha e por um povo iletrado e supersticioso destituído, na sua generalidade, de qualquer noção de revolta. Pertenço ao dia em que essa cadeia de equilíbrio recíproco se quebrou, em que fui testemunha de como é possível inverter a marcha do que parece inevitável, pela força da coragem pessoal de um grupo. Pertenço a esse momento como a um ponto de encontro entre a justiça e a inversão do destino, em forma de gente, milhares de fotografias a preto e branco, com flores vermelhas. E porque essa certeza foi adquirida quando a juventude ainda se assemelhava à adolescência, ela incorporou-se no sangue, ou no genoma, ou seja onde for, e transformou-se numa espécie de segurança que me sustenta o ser. Ou melhor, esse momento habita comigo como um ente querido, tem corpo e ocupa espaço e reivindica gestos, como uma pessoa de família. Pertenço a esse momento como se pertence a uma geração, e penso mesmo que a minha geração, se existe enquanto consciência de grupo, está concentrada em torno desse acontecimento. Assim como pertenço à sociedade que daí saiu, a braços com a redefinição dos seus vizinhos, seus aliados, seus novos valores e duros percursos, suas metas demasiado altas para serem atingidas demasiado rápido. Uma sociedade na generalidade constituída por gente muito pobre que rapidamente começou a desejar ser muito rica, mais do que ser democrática ou estimar os valores da partilha, do saber e do discorrer livre. Porque uma parte dela, muito mais do que era suposto imaginar, continua a desejar prolongar estruturas mentais que faziam o mundo antigo. Nesse domínio, pertenço-lhe por repulsa e por mágoa. Pertenço-lhe por inevitabilidade de lhe pertencer. Por isso, mais do que à sociedade dentro da qual sou número e tenho um nome civil, pertenço ao mundo dos meios que a reproduzem por palavras, a lêem em termos críticos ou mais propriamente a alteram e a transfiguram. Pertenço-lhe com a mesma contradição com que pertenço ao tempo contemporâneo.

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Pertenças várias e inúmeras que funcionam como laços mas também como destinos e condenações, ou como matérias-primas, no caso de se encontrar o veículo que as transporta para o lugar do não-destino. Por exemplo, a Literatura, que em si mesma é um espaço de corte e liberdade. E que dizer sobre isso?

Que pertenço à Literatura, campo das palavras libertas do real, e dentro dela à ficção, o terreno da transfiguração dos factos em actos simulados. Na verdade, a sua natureza e função consistem em escolher, inverter, desfigurar o que está dentro da matéria das pertenças, de modo a produzir-se uma nova realidade verdadeira, que não se opõe à realidade falsa, e nesse salto de qualidade e espécie, consiste a criação, isto é, o acrescento de alguma coisa ao mundo que antes lá não estava. Naturalmente que se pertence à Literatura e à ficção sem a noção dessa importância. Começa-se por se pertencer porque sim, porque acontece, porque se tem a ideia, como leitor, de que se pode sonhar. Depois é que se entende que se pertence a uma matéria que se desprende da prisão do real, para dizer que ele não é suficiente, impondo-lhe uma nova lógica, ou tornando-o visível nas suas partes vivas, lá onde havia um limbo amalgamado. E na participação dessa acção de liberdade, consiste nascer o criador que é o leitor e é o escritor, diferentes, mas irmãos. Nascer e crescer no espaço de liberdade que permite abrir uma nova possibilidade entre as outras, e desse modo, à reprodução de qualquer dilúvio terrível que esteja em nossa mente, sempre se pode juntar uma barca. Pelo menos, se outra não for, que seja a própria barca das palavras, a que melhor une um a outro.

Ou por outras palavras, a Literatura, e dentro dela a ficção, permite que a corrente falada em todas as direcções, como uma matéria optativa permanente, transforme o outro num igual a mim mesmo, e se crie um corpo de afinidades consentidas, responsabilidades cruzadas e culpas divididas, já que procura atingir, através de cada personagem, simulacro de gente, o coração profundo do homem, esse local onde as diferenças se esbatem em torno daquilo que faz cada um dos implicados pertencer a um todo. Determinada noção profunda de comunidade, só se aprende na Literatura. Nesse sentido, para alguns leitores da minha geração, o romance “Por quem os Sinos Dobram”, acabou por ser muito mais importante pela epígrafe que permitiu o título do que pela longa narrativa em si mesma. Hemingway apenas copiou, como portal da primeira página desse livro admirável, a invectiva de John Donne – “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra; se um Torrão é arrastado para o Mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um Promontório, como se fosse a Casa dos teus Amigos ou a Tua Própria; a Morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do Género Humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por Ti”.

Pertenço à Literatura e dentro dela à ficção, por esse serviço que presta à totalidade, em torno dos desejos que nos são comuns traduzidos em imaginação pela palavra liberta. Em Literatura, não há imobilização nem morte de Heitor. O momento de pedra que não se ergueu entre a Batalha e a Bastilha, está sempre a ergue-se. Um e outro são válidos sem a fronteira das palavras das línguas, agarradas à circunstância geográfica. Aliás, na contradição entre pertencermos e libertarmo-nos daquilo que pertence à Língua, que sempre escreve o modo do nosso pensamento antes de nós próprios podermos escrever, e connosco se confunde como parte do nosso corpo, a língua materna é uma liberdade e ao mesmo tempo uma condição insuficiente.

Neste campo, seria mesmo uma falta não dizer que pertenço à Língua Portuguesa. É com ela que estabeleço a minha luta e o meu confronto e os meus actos mais livres que são os de dizer. A exaltação das suas virtudes e possibilidades não pode ser regateada. Existem monumentos infindáveis de elogio à minha língua e concordo com todos eles. Mas por vezes dou por mim à procura de nuances que não apresenta, modos que impõe, liberdades que me tira ao lados das liberdades que dá. Talvez como em todos os outros idiomas, lhe faltem palavras para traduzir sentimentos complexos onde os vocabulários são simples. Faltam chaves. Faltam, por exemplo, termos para traduzir a voz dos seres que se movem e nos imitam nos actos do sono e do amor, mas não falam nenhuma linguagem que se entenda. Faltam as palavras para traduzir o que diríamos se fôssemos seres inanimados que não nos dizem nada e nos quais julgamos existir uma natureza significativa. Uma vez que somos pouco e o mundo da expressão é vasto, por que razão as línguas não são tão vastas, nem tão dúcteis nem tão universais quanto sonhamos, para que a Literatura seja um campo sem barreiras? De facto, a vocação da Literatura é fundir-se com o próprio segredo do mundo que permanentemente questiona, como se antes de nós tivesse havido um acto interrompido, e as palavras, acima das fronteiras das línguas, ainda pudessem ligar o mundo ao seu sentido. Estar aí, saber que não posso sair desse dilema nem o posso resolver, é a minha pertença.
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* Texto publicado nos Cahiers de la Villa Gillet (N.º 13, abril, 2001),
tradução de Margarida Ochôa e Pierre Zalessky,
e na Revista Atlântica (N.º 5, volume outono/inverno de 2006/2007).
Reconstituição de uma intervenção na Villa Gillet (Lyon, 2000),
no ciclo de Conferências sobre Literatura Europeia.