sábado, 1 de janeiro de 2000

Crónica * Como um relâmpago a origem do Mundo

A Cidade Invisível

Lídia Jorge *

Escrevo estas linhas diante das terras semi-áridas do meu país. Por aqui os campos há muito foram abandonados e a cabra que berra no monte vagueia como se nunca mais pudesse encontrar um dono. A linha do casario de veraneio, que ao fundo se interpõe entre o mar e a terra, para se encher e esvaziar depois de cada Verão, pertence a um tempo tão antigo quanto o da cabra. Contudo, nada é só o que parece. Por cima desta paisagem esgotada, cresce a cidade invisível.

Extraordinária cidade. Nenhum de nós a conhece porque ainda não se mostrou, no entanto, todos já disfrutámos dos seus efeitos. Sabemos que a distribuição do seu correio é tão rápida que se produz por contacto. Que as suas bibliotecas são tão completas que já não dispomos de tempo para passar os olhos pelas lombadas. As janelas diante das paisagens são tantas que não possuimos mãos suficientes para abri-las. Aliás, a sua geografia é tão imaterial que dispensa mapas, e a sua população tão abrangente, que dentro de décadas pode coincidir com a Humanidade. Assim sendo, ninguém pode dizer que a cidade invisível não tenha vindo para cumprir o que até agora não foi possível. Que suas virtudes não possam impulsionar a realização do bem que muitos quiseram praticar durante séculos, sem conseguirem lográ-lo. Quem diz que dentro da cidade invisível não se possa alcançar melhor justiça? Que dentro dela a distribuição equitativa dos bens não vai finalmente ser alcançada? Que através dela o trabalho não poderá tornar-se mais leve e melhor repartido? Quem nos diz que por ela a Terra não venha a ser mais protegida? Que a Arte e o Saber na cidade invisível não cumpram finalmente o desígnio de ser para todos? Em suma, conhecendo-se o que já se conhece, muitos suspeitam que a cidade invisível, que tudo liga e tudo faz saber, possa conter nas suas ruas sem fronteiras a resolução para muitos dos ideais que apodreceram ou foram traídos.

No entanto, cada um de nós tem uma raiz enterrada num espaço próprio, de que se alimenta e ao qual se prepara para entregar o corpo. Não foi em vão que uma pessoa assistiu à primeira refeição cozinhada num bico de gás butano. Nem foi em vão que uma criança brincou à sombra dos tortos paus do telégrafo por onde as mensagens mais velozes passavam. Pessoalmente, não nego que o tempo do relógio de parede, soltando badaladas lentas ainda comanda o meu balanço interior. Por isso, talvez eu receie várias portas na cidade invisível. Receio os excessos do que antes eram carências. Os ilimites do que antes eram fronteiras. As capacidades sem medida face ao que antes eram possibilidades menores. - São tantos os meus receios, que por vezes não sei se poderei entrar plenamente no interior da cidade invisível.

Pergunto-me, por exemplo, como vou franqueá-la, se ela ensaia um excesso de transparência e eu defendo opacidades várias. Na verdade, tudo indica que essa cidade do futuro se prepara para conhecer a vida de cada homem na sua mais recôndita intimidade. Para viajar ao íntimo do outro, de tal modo que um dia cada um possa vir a conhecer mais de todos do que de si mesmo. Consta que os olhos da nova cidade entrarão primeiro nos invólucros exteriores do meu espírito, minha própria casa com sua cama e sua cozinha, depois no meu corpo com seus ossos e suas vísceras, e finalmente na minha alma, com seus desejos e imaginadas vidas. Então o que farei? Eu, que desta civilização tão antiga quanto a lavoura, guardo o desejo de que um núcleo interno, inexpugnável como uma castelo de pedra, mantenha uma parte opaca, um esconderijo inviolável, em torno do qual cada homem se enrosque sobre si mesmo, protegendo seu coração, seu ventre e seu sexo, à imagem do cão dormindo, para que se possa dizer - "Estou escondido, sou um homem". Será que a cidade invisível o permite?

Também receio que se mude a relação que preside à procriação e eu não aguente ver essa mudança. Que o ilimite da vontade possa mudar a natureza dos homens, se for alterado o parentesco carnal. Consta que a reprodução da vida humana se prepara para prescindir dum ventre, duma mama, dum braço que testemunhe a similitude e o parentesco. Até agora, mães e pais singulares têm-se parecido com os filhos, singulares também. É difícil imaginar que se deseje alguma vez perder a natureza dessa singularidade. Daqui de onde estou, diante de campos em pousio perpétuo, assisti à diferenciação dos homens em relação aos animais que apascentavam, e por isso receio que se regresse a uma outra animalidade, isto é, à reprodução de crianças indistintas umas das outras, com valor de gado. Sonho com a genitalidade associada à vida, e o aparecimento da vida associada a actos únicos. No fundo, sonho com o velho impulso do amor humano, que modelou "A Divina Comédia", "O Vermelho e o Negro", "O Som e a Fúria". Assumo, desejo que as pessoas continuem a nascer de beijos, simulacro de mordidas, essa humana brutalidade. Mas será então que tenho um lugar nessa cidade do futuro?

E receio que o ilimite de conhecimento, na cidade invisível, de súbito, ilumine como um relâmpago a origem do Mundo, arrasando a ideia de um deus.

Não por Deus, que nunca falará, nunca estará nos confins do Cosmos com um banquete de rosas à nossa espera. Mas pela dúvida sobre a existência ou não desse banquete. Na verdade, há muito que se diz termo-nos cruzado com a morte de Deus, mas é mentira. As culturas, até agora, têm-se construído na dúvida sobre a sua morte, mas jamais se organizaram sobre o princípio da sua inexistência. Sobre a interrogação, sim. Modestamente, diante das terras secas do meu país, temo que indo os sábios até aos confins da matéria e dos astros, se apague a Dúvida, rainha do nosso pensamento e da nossa esperança. Se assim for, é possível que os homens sobrevivam. Mas neste caso serão outros homens, terão outra cabeça, outros pés, outras mãos. E então, talvez inventem outra música, outra geometria e talvez dispensem as nossas falas e os nossos livros. E estas palavras, de solitárias, já não lhes digam respeito, contemporâneas que são do asfalto, da colina semeada e da cabra.
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Publicado no Libération (1 de janeiro de 2000)

sexta-feira, 27 de junho de 1997

Originais * O coração da Língua

Sistema Impuro

Lídia Jorge *

Claro que o Português é uma língua maravilhosa. A prova é que se um ladrão me roubar eu encontro as palavras necessárias para lhe gritar atrás. Posso é não apanhar o ladrão nem recuperar a mala. Mas mesmo aí, fico com todas as palavras para me queixar, toda a sintaxe para expor, toda a morfologia para descrever a pessoa em causa e o facto ocorrido. E se ninguém me ligar, encontro todas as palavras para me revoltar e para dizer as frases que substituem a batida com a porta. Também para a ira, o ódio ou apenas o humor, nas ruas, contra os automobilistas inatacáveis, consigo encontrar todas as palavras. A revolta, a diatribe, o grito de rebeldia, a ameaça da vingança, estão ao nosso alcance. E para os outros, os sentimentos bons, os decentes, como são o amor, a amizade, a saudade, a coita, a melancolia, ou mesmo o frenesi, a ansiedade, o despeito, a acédia, o desespero e o ciúme, também encontro todas as palavras que eu quiser.

Mas não só de homem para homem a língua fala. Também encontro todas as palavras para falar com as árvores e as bestas. Encontro todas para mandar aparelhar o coche, fazer o baile e o fado. Um sermão. Tenho todas as palavras para ir à igreja ouvir o sermão e a ladainha. E tenho todas para ir à igreja ouvir o sermão e a ladainha. E tenho todas para comer à beira da estrada, junto às cestas. Tenho todas as palavras para a lavoira, todas para os ventos. A quantidade de palavras sobre os barcos, a maresia, o marejar, o almareado, a tramontana, tudo o mais que vem do mar, como se ele fosse nosso, ou o tivéssemos feito com a nossa própria língua. Palavras para atravessar todos os oceanos, para percorrer todas as praias.

Para o sentimento e o passado presente donde ele brota, tenho todas as palavras necessárias. Até disponho dessa palavra intraduzível na sua unidade e síntese de corpo e afeição que é o colo. O colo intraduzível. Pôr ao colo, andar ao colo, levar ao colo, menino de colo. Não me admira que Joyce e Kafka, lá onde o sentimento melhor toca a abstracção, consigam ser traduzidos na nossa língua como para nenhuma outra. Isto é, posso andar dum lado para o outro sobre a terra, a relva, as colheitas, a floresta, a onda, o corpo humano e a sua alma com todas as palavras para dizer. As palavras do ser, do desejar e do apetecer, as questões sem tempo e fora do tempo, as questões do por dentro, estão nesta língua de forma rica e variada, ao alcance da mão e da língua. Aí, não há nada que dizer. Porém, todos sabemos - Onde ela falha e falta, onde ela não chega, é no campo das coisas contemporâneas do progresso, do bem-estar, das rodas e das máquinas, das recentes engrenagens invisíveis, que podem mais que todas as rodas e todas as máquinas, aquele campo a que, à falta de melhor, poderemos dizer, em vez da pele da Cultura, a Civilização. 2. Aí, sim. No campo da Civilização, como outras línguas, a nossa língua falha. É como se tivéssemos todas as palavras, de forma intemporal, para viver até ao Século Vinte, mas forçados dentro dele. A suspeita que se tem é de que a língua parou com o motor, o vapor e a gasolina, a ideia de que a língua não fez a revolução industrial, não a criou, não saiu dos que a criaram, ou só muito tarde foi inventada. Bastava entrar no automóvel primitivo para a língua não chegar. Não se sabia dizer châssis, nem tablier, nem manette. Não se soube dizer, durante muitos anos. Também bastava entrar num quarto de mulher para não se saber dizer toilette. A tinta para os lábios foi bâton, para as faces foi rouge, o cabelo foi à garçonne e o ondulado chamou-se mis-en-plis. Como hoje shampoing, brushing, rinsage, e lifting, apesar de massagem, manicura, ou permanente. De qualquer modo. Ninguém, há muitos anos, inventou o quer que fosse, em Portugal, no domínio da toilette, para lhe ter dado um nome que viajasse. O mesmo na cozinha. Mousse, soufllé, passe-vite ou kitchnette. Até para kitchenette, essa pequena cozinha que iria tão bem connosco, nós temos nome para chamar. Para não falar no menu, no catering que nós afinal usamos, mas não criámos. Aliás, a criança tem sua tetina posta no biberon e não há palavra portuguesa para envolver essa garrafa com leite, tão primordial. Não há, porque um biberon não é um bebedoiro nem uma mamadeira. E naturalmente que eu queria que o bébé bebesse em português.

E no divertimento, a boîte e o dancing, o discjockey e o rave. E no desporto, tennis, football, goal, outside, off-sider, tudo o mais que é um sem fim, e finalmente Mister. Ah! Como é interessante um português, pequeno e escuro, sarraceno, treinador de futebol, ser chamado de Mister! O Mister isto, o Mister aquilo... Além do escritório onde reina todo poderoso o dossier. Também pelo dossier uma pessoa não pode chamar em Língua Portuguesa. Nem à fadiga muito especial, criada no seio da sociedade do dossier, se pode chamar cansaço ou esgotamento, mas stress. Stress corresponde a um outro tipo de canseira. E quem diz stress diz manager, e management, e marketing, e ship, e fax e também shoping e trade shoping, que não são feiras, nem centros comerciais, nem tão pouco mercados, mas são isso mesmo, shopings e trade shopings, outras noções, outra existência, outros talhes de cintura, outros cabelos, outra pose na vida, boa ou má, não interessa, outra realidade, outra pretensão, outro sonho. E na verdade, eu não me oponho ao sonho nem à realidade. É por isso que me sento junto aos shopings, onde nem sempre me apetece entrar, mas não penso jamais na palavra corrupção.

Porque as línguas são sistemas abertos, e as palavras e as frases, e os sons que vêm dentro delas viajam quando têm combustível para viajar, e implantam-se lá onde encontram um lugar carente duma nova realidade. Vêm com os objectos e as invenções, e ficam se os aceitam. A luta pode chamar-se colonização, e nem sequer é subtil. Gira como o mundo, para além das línguas, presidindo às mortes e às vidas. Em nada como no devir das línguas o anonimato é tão intenso, apesar de ter sujeito. Ninguém é responsável por que na faixa direita das ruas alguém tenha mandado escrever BUS por economia de espaço. Ou TAP-AIR-PORTUGAL, para que até os cegos vejam que a Transportadora é aérea e é de Portugal. Talvez de outro modo, mais sagaz e mais nacionalista se entendesse pior. Talvez até já nem houvesse transportadora aérea portuguesa. O que sei eu? A vida anda e move-se por vontades indomáveis de que nós mesmos somos autores secundários e derradeiros. E jungle, e handicap, e overdose, e stand by, e black out... Ainda há uns anos eu ironizava os parties num livro que escrevi onde se falava de perdas da memória colectiva com uma espécie de ironia. Mas recentemente Agustina Bessa-Luís escreveu um diálogo, sobre o qual Manoel de Oliveira fez um filme, um e outro chamados "Party", ambos de cinco estrelas, e ninguém falou, nem poderia falar, sobre qualquer perda de identidade. Não há tal para perder. Porque o Party, o velho Garden Party à inglesa, entretanto, entrou na nossa vida, e ninguém deu por isso, nem é para lamentar. O Garden Party afinal fazia falta na nossa vida nova, entretanto nova burguesa disfarçado de outra cara, e nós não sabíamos. Como antes os proletários não conheciam a grève, nem o meeting, nem os políticos recentes o gentleman's agreement e a task-force. Então, meu Deus, façamos as pazes com o inelutável, na certeza de que nenhum decreto pode vedar a entrada do sonho e da viagem. E o sonho, ou a facilidade, para quem os usa, está aí.

Por mim, aqui vou vivendo bem com a nossa língua de raiz rural e marítima. Passo pelas ruas e as palavras nascem das coisas com cheiro a maresia, a salmoura e a laranjas. Ainda não inverti a realidade, ainda acho que o champô cheira a amoras, ainda não digo como os meus filhos que o laranjal cheira a champô. Mas não me incomoda o trato com o que chega, embora não me fique indiferente ao que não exporto. De qualquer modo, também coche, o que eu sabia aparelhar, era francês, depois de ter sido checo e húngaro. E charrette, e cachecol e cache-nez. O chá era dos chineses, dialecto mandarino, e o café era árabe, turco, e depois foi italiano. E o lunch que veio de Inglaterra e ficou lanche, servido sob o bule que foi malaio. Palavras que hoje são de todos, porque os objectos são de todos os que os usam, e os seus nomes importados, só por si, não atingem o coração das línguas. O coração de cada língua é que é inatacável. O nó górdio da sintaxe, o nó dos verbos que multiplicam a acção pelos pronomes, os pronomes que definem os sujeitos e os destinatários, activos, passivos, e reactivos. As preposições, as formas de as pôr ou não pôr antes e depois, o modo de juntar as palavras de forma a criar outras, o modo de as sobrepor e despedaçar, esse sistema estruturante das línguas, que faz o idioma e o espírito, mostrável pela Gramática, não regido, isso é que constitui o órgão propulsor da Língua. O coração da língua, o sistema duro, a sua parte mais estável, aquela sobre a qual se pode descansar.

Porque a língua, ela, toda inteira, nunca parou nem pára, é um sistema em permanente corrupção. A língua não precisa de sal. Apodrece com perfume. O aroma da Língua solta-se ao ser arejada, batida, entrada, removida, um sistema aberto, uma realidade mutável consoante as várias outras realidades que a empurram e a definem, e já o disse, os usos são indomáveis. Fiz parte daqueles que queriam implantar em vez de implementar, dos que quiseram espectáculo em vez de show. Em vão. A língua engrossa contra a vontade de cada um. E nós, aqueles que designam por escritores, banais como os banais falantes, vamos pelas partes moles da língua, andamos pelas suas margens corrriqueiras e flácidas, metemo-nos pelos restos, pelas bordas, aproveitamos o que sobeja, o que de repente foge para diante, avessos aos sistemas de conservação, seguros de que o coração da língua enfraquece e esquece, se as franjas da semântica não se renovam. E toda a vivificação é uma novidade, e toda a novidade, no início, uma corrupção. Também já o disse. O que ainda não disse é que, por vezes, assalta-me a absurda ambição de poder falar todas as línguas. Poder entrar na alma delas para perceber onde está a totalidade que as precede, ou se não as precede, pelo menos, a todas elas preside. A ambição de ficar na posse da natureza da fala. Na fantasia de poder tocar todas as línguas sobre o vasto piano delas. Mas depois de obter essa impossível ciência, tudo o que soubesse e aprendesse, seria para falar e escrever em língua portuguesa.
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* Original de 27 de junho de 1997,
publicado no site Ciberdúvidas

segunda-feira, 1 de março de 1993

Original * Motas, sentido de liberdade

Cavalo de fogo

Lídia Jorge

Se o automóvel é o primogénito do coche antigo, assente em várias rodas e puxado por muitos cavalos, não há dúvida de que a mota é o cavalo ele mesmo.

Na verdade muitos dirão que lhe falta a crina, o relincho e o suor de animal de carne e sangue. Também a vontade própria que lhe permitia os coices, e a dependência de um alimento compacto que fazia da besta um vizinho do seu dono. Mas, em contrapartida, as duas rodas transformaram-no em alguma coisa que consegue outras distâncias, e permitiram realizar a infatigabilidade que no bicho era impensável supor. Em tudo o mais se assemelham e cumprem a mesma função.

Em cima da mota a pessoa é independente, e o selim, feito para um só, permite quando muito o aconchego de um outro que faz companhia e se leva ao longe. Abraçado pelas pernas ao animal de aço, também o corpo se expõe ao vento e à tracção do ar, e realiza assim o que o risco sempre significou para o homem quando jovem. A exigência da força física, da agilidade, da versatilidade da cintura, a coordenação dos movimentos, tornam-no um objecto próprio para heróis. A exiguidade da dimensão permite que ultrapasse rápido, se esgueire por entre pequenas nesgas de trânsito e deixe para trás aqueles que obrigatoriamente se imobilizam junto ao chão, castigados pela comodidade das quatro rodas. Há na desenvoltura dos motociclistas um atrevimento que faz sonhar. Assim, sobre a mota o homem coloca o ardor de ser audaz e encontra a possibilidade de ser temerário, já que as sociedades modernas lhe diminuíram as oportunidades de ser valente com o seu corpo. Por isso mesmo os franceses lhe chamam siège de feu, apenas porque não se lembraram de lhe chamar de cavalinho de oiro. O jovem afaga o seu transporte, olha com desdém para o portal da casa, imagina a via livre onde poderá acocorar-se em novelo como se disparado, e as curvas em que poderá raspar as bermas como se caísse. Por vezes, em sítio próprio, a mota poderá saltar como se voasse. Todos os que lhe impedem essa trajectória de estrondo e risco são malquistos. Mas a chamada para esse denodo é alguma coisa mais forte do que o querer individual de cada um. Aliás, agora pelas estradas, os moços, em motas, andam grupos como nómadas. Fazem excursões e ocupam os espaços como bandos. São pequenos exércitos naturais à procura da sua cavalaria e da sua contenda. Eu gosto de os ver passar. Eles cumprem um destino da vida que os leva a fugir, com ruído e ferocidade, dos panos quentes, das mesas e das camas. A fugir do leite e das horas certas de dormir. Sem saberem, eles simulam a migração que seus antepassados fizeram na sua idade, ao cruzar os continentes sem saber onde iriam parar. Foi assim que a Terra se povoou. Nas suas cabeças passa um destino que se desconhece. Eles mesmos julgam que se rebelam e, contudo, obedecem a uma força da Natureza que os vai chamando. Por isso, quando passam produzindo o som inconfundível, entre ameaçador e gritante, tiro-lhes o meu chapéu, abrando o carro, deixo-os passar.

Mas nem todos abrandam diante dos cavalinhos de oiro. Há mesmo os que aceleram, ou apertam, ou perseguem, ou driblam ou que são simplesmente indiferentes. Traçam tangentes como se os não vissem. Depois, há os camiões grandes, os -que pesam várias toneladas e cujo motorista vai tão alto, sentado no seu trono, que mal dá pelas motas a passar. Se são dois camiões altos e pesam muito, e levam as grandes rodas postas, e grandes cargas montadas, a estrada fica cheia de peso. Os rapazes das motas têm tanta pressa. Como vão esperar pelas manobras lentas dos grandes camiões das estradas, e pelas tangentes dos carros, protegidos por chapas e por estofos?

A proteger o corpo dos ocupantes das motas, vai só um pedaço de fazenda ou quanto muito, um blusão de cabedal. E a sua pressa é tão grande, e a noção de que os seus corpos são inatingíveis é tão altiva. E a confiança no piso, na máquina e na ausência de obstáculo é tão forte. O coração motorizado da máquina, batendo sob o coração do jovem, é um todo invencível que passa sem qualquer peso de montada, Sem qualquer necessidade de vénia ou de descanso.

Por isso abrando a marcha do meu carro e espero que passem todos. Para não lhes inibir a rota, nem lhes impedir o pensamento fixo. Não me quero juntar aos obstáculos que as mães foram pondo, até que as vontades dos seus filhos fossem mais fortes, Eu respeito essas pequenas montadas conduzidas por pessoas que desejam coisas, com uma vontade muito maior do que elas mesmas têm. Eu já fiz tudo para contrariar essa vontade. Agora, porém, eu compreendo o trajecto que medeia entre a proibição e a mota.

Ao fundo da escada, o meu filho tem uma.
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* Publicado na Revista "Tempo Livre", março 1993

domingo, 2 de maio de 1982

Ensaio de leitura * Jorge Listopad

O Dia dos Prodígios,
theatrum mundi

Jorge Listopad *

O Dia dos Prodígios
Publicações Europa-América
Lisboa, 1980


Capa da 1.ª edição
Unanimismo aplicado a uma aldeia algarvia, como se esta fosse a Paris de Jules Romains. Unidade de lugar e de tempo, segundo as leis da narrativa fechada e clássica. Contudo, esse «breve tempo de uma demonstração» é uma viagem excepcional quanto e intensidade, dentro do microcosmo da realidade física, psíquica, social. A escrita da autora deste primeiro livro (já apareceu outro em 82) obedece a uma linha conceptual, lógico-estilística, que encerra uma obra romanesca sem intriga sem intriga onde apenas há puras realidades, e que por sua vez reproduz um objecto ideológico, utópico e lírico; o modo lírico é sui generis e estranhamente reconhece-se mais nas artes pláticas, na ingenuidade de Rosa Ramalho, no naïf-raffiné de Chagal, por exemplo.

Dissemos microcosmo de uma aldeia algarvia desconhecida do fluxo artístico. A sua forte, credível e sempre transcendente literalidade tem apoio em dois vectores: o primeiro, uma íntima experiência da factologia, do infra-real ao sobre-real. Cada palavra encobre uma vivência memorável e imemorial, diria, cada palavra contém a própria história. Com a palavra, o gesto, isto é, outra palavra. Este prodígio do conhecimento quase autista do gesto humano, pré-científico, protográfico, oferece, mediante essa plural matéria-prima, o material. Caso singular, Lídia Jorge opera dentro de uma literatura que não cultiva sistematicamente nem as experiências do concreto nem o conhecimento material da realidade; pelo contrário, a literatura é considerada entre nós ou um ornamento ou cosa mental, abstracta. Aqui reside a linha de força original deste primeiro romance-surpresa de Lídia Jorge.

O segundo vector-factor consiste na introdução do lúdico dentro dessa sondagem literária. Ao leitor, de Segunda, ou terceira leitura, ocorre que a A., com a matéria aqui caracterizada, opera depois através do jogo, do cálculo de probabilidades pessoal: como se as propostas e as apostas da verdade criassem uma ténue sucessão de episódios figurativos, uma vibração «Lust zum fabulieren», de élan épico; uma imaginação das probabilidades em marcha que se organiza organizando. Não será por acaso que a serpente, condenada pela ciência da natureza a arrastar-se horizontalmente, em O Dia dos Prodígios voa em todas as direcções. Este acidente do natural não se assemelha à serpente voadora de Jorge Luís Borges, curiosidade do insólito e do fantástico. O acidente do natural de Lídia Jorge é apenas um outro natural, em prisma imaginário, como qualquer outra visão do mundo.

Extremamente vivo, o livro, articulando corpo real e imaginário, representativo da senso-motricidade verbal, individualizado e subjectivo, identifica-nos ao longo das páginas, faz-nos naturalizar, identificar com o objecto – subjectiva e objectivamente.

Não proponho que se leia este livro de Lídia Jorge como um simples exemplo da arte de escrever, mas que se releia e decifre uma das mais ricas partituras da literatura portuguesa contemporânea, em que a ilusão da totalidade do microcosmo se conjuga com a ilusão do imediato quase cinematográfica (livro praticamente escrito no presente do indicativo; quantas frases curtas, constatativas, sem verbo, lembrando planos cinematográficos!), tudo convergindo em ilusão simbólica, esta já macrocósmica.

Ou como da aldeia da serra algarvia chegamos ao theatrum mundi.
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* in Colóquio Letras, nº 67, maio de 1982