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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Intervenção * No Doutoramento Honoris Causa

Aos Professores

Lídia Jorge *

Sinto-me muito honrada por me ter sido outorgado este Doutoramento Honoris Causa pela Universidade do Algarve, a Universidade da região à qual por coração pertenço. É uma grande honra e uma grande alegria. Um momento único na minha vida. Por isso mesmo não quis vir até esta cerimónia sozinha. Quis a ela associar os meus melhores amigos, que aqui estão presentes, a quem saúdo em particular, e comigo trouxe a minha família, aqueles que têm sido ao longo dos anos os meus pilares de aço invisíveis. Fiz questão de partilhar, com os que me são próximos, o momento em que esta Universidade me acolhe, me oferece as suas fórmulas simbólicas e reparte comigo as suas insígnias. Ao caríssimo Professor Doutor Pedro Ferré, agradeço, de maneira muito especial, as palavras com as quais justificou a atribuição deste doutoramento.

Ouvindo os seus argumentos, confirmo o que eu já sabia, que a porta de entrada para este acolhimento, foi o mundo dos livros. E tomei conhecimento do valor que atribui àqueles que eu mesma escrevi. O Professor pôs em relevo o que toma pelas suas qualidades, e sublinhou alguns dos meus próprios caminhos. Sinto-me muito grata. Mas eu quero acrescentar que ninguém escreve sozinho. Boa parte do que até agora fiz, e que veio a merecer esta distinção, também foi o resultado de certos encontros e do que foi acontecendo, ao longo da vida, um pouco por acaso. Todos sabem que uma das disciplinas mais curiosas da Matemática é o chamado Cálculo Estocástico, aquele que trata, precisamente, da lei da conjectura e das probabilidades. O que significa que esse tipo de cálculo lida com as leis do acaso. Mas não sei se em semelhante disciplina existirá algum capítulo dedicado ao Bom Acaso. Se não existe, provavelmente, seria bom que existisse, pelo menos para nós podermos continuar a acreditar que o Mundo ainda tem a sua infância, podendo nós, de vez em quando, confiar inteiramente no recomeço das coisas.

Por mim, devo ao Bom Acaso o facto de ter nascido numa família de camponeses que amava os livros. Aconteceu há muito tempo. A vida no campo, então, era árdua e tudo o que não fosse a terra, ela mesma, era precário. Por essa altura, em nossa casa, a leitura constituía um momento de sonho e de evasão, era o único estímulo cultural de que dispúnhamos, mas sendo o único, aproveitámo-lo bem. O Bom Acaso fez que a minha mãe tivesse tido a ideia de reforçar essa tradição familiar, comprando-me um livro cada vez que se deslocava a esta cidade. Lembro-me daquele momento carregado de mistério, em que o livro saía do saco, e eu via pela primeira vez o título e as imagens da capa. Recordo de forma muito especial aquele dia do início de Fevereiro de cinquenta e quatro, em que nevou no Algarve. A minha mãe e a minha tia Alice tinham vindo tratar de documentação a Faro, e de regresso foram surpreendidas pelo nevão. Passámos a noite, incomunicáveis, à sua espera. No dia seguinte, já tarde, quando a queda de neve acalmou, via-as avançarem pela paisagem branca, e a situação era tão invulgar, que eu nem me lembrava do livro prometido. Mas, como sempre, a minha mãe trazia-o. Trazia o livro dentro do mesmo saco e entregou-mo como se fosse mais um. No entanto, não era mais um. Sem o saber, a minha mãe oferecia-me, nesse dia tão particular, a primeira versão a que eu tive acesso do célebre livro de Lewis Carroll. Sem fazer ideia, oferecia-me o meu primeiro Alice no Pais das Maravilhas, que haveria de me acompanhar pela vida fora, como um símbolo. E foi assim. Foi assim que a infância me fez leitora.

Mas a infância faz leitores, não faz escritores. Ser leitor é ainda continuar uma proposta, escrever já é contrapor uma outra proposta. A infância mantém o ser da criança unida ao mundo onde as forças agem por magia, onde ela e o mundo não se distinguem, onde o mundo canta e dança e fala como ela. Mas o adolescente, esse corpo desengonçado de onde parte o escritor, separa-se do mundo, descobre que ele é ele, e o mundo é o mundo, e que o mundo é poderoso, enigmático, está cheio de seduções, delícias, penas, desafios e perigos, e por isso quer descobri-los, conhecê-los e naturalmente aproveitar-se deles e vencê-los. O adolescente quer ser o herói que vence o mundo, com suas regras escondidas, e assim descobre as regras e cria as condutas da honra para poder lidar com ele, baseado em códigos. O longínquo, o estranho, o total, o escuro e os limites do absurdo são o seu território de descoberta. Por isso o adolescente parece um fanfarrão em confronto com a totalidade. Creio que é esse o espaço de confronto que os escritores prolongam ao longo da vida, tendo por base o código das palavras para atingir a totalidade do mundo, como outros criam outros códigos de outra natureza para alcançar o mesmo ilimite. Pois eu diria que também aí, o Bom Acaso veio ter comigo.

Na adolescência, eu poderia não ter encontrado os instrumentos necessários para criar o meu confronto, e poderia não ter encontrado as pessoas certas para me ajudarem a descobri-los. Mas tive-os. No Liceu desta cidade tive os professores certos, aqueles que me indicaram títulos e me emprestaram livros, professores que leram as minhas primeiras histórias, que me levaram pela primeira vez ao teatro, pela primeira vez me levaram a assistir a conferências, me levaram a ver uma primeira exposição de pintura, professores que juntavam a turma a que eu pertencia em encontros para discussão, como se fôssemos amigos. Éramos um bando. Professores que nesse tempo, em que toda a dedicação era gratuita, fizeram dos alunos as suas pessoas de família. Professores que foram mestres. Como tantos rapazes e raparigas da minha idade, eu poderia não ter tido estes professores. Mas houve mais.

Então, eu passava as longuíssimas férias de Verão no alto do nosso monte em Boliqueime, aprisionada numa casa de lavoura, e os livros estavam todos lidos. Mas o Bom Acaso fazia que ao longo desses meses intermináveis, a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian passasse por ali, e o condutor bibliotecário escolhesse por mim os livros grossos. O Bom Acaso colocou-me esses livros no regaço e eu, que não viajava, viajei e fiz-me uma pessoa da distância através deles. Viajei para a Escócia com "A Noiva de Lammennoore", para o Sul dos Estados Unidos, com "As Vinhas Da Ira", para o centro da Europa, com "A Vigésima Quinta Hora", para a Rússia dos Czares com "Guerra e paz". Lembro-me em particular do livro de Hemingway, "Por Quem os Sinos Dobram", esse romance que falava da Guerra Civil 'espanhola, e da história de Jordan e Maria, de Pablo e de Pilar, enredados naquele terrível conflito. O livro tinha de tudo, cenas de amor, violência, traição, fidelidade, e as personagens falavam como se fosse um filme. Mas o que mais me interessava era a sua epígrafe. Hemingway tinha escolhido uma passagem de uma das meditações do poeta inglês, Jonh Donne, para abrir esse livro, e as suas palavras iluminavam as minhas tardes silenciosas. Eu lia em voz alta, vezes sem conta, aquela que é uma das mais célebres epígrafes dos romances do século XX, que toda a gente já leu uma vez. Adolescente, queria ter sido eu a escrever assim - Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti. Li-a vezes sem conta, até decorar. Hoje em dia, estou em crer que a epígrafe de Por quem os Sinos Dobram nunca deixou de estar presente nos momentos decisivos que me levaram, posteriormente, à escrita e à publicação. Tudo isso aconteceu depois de uma experiência a olhar para uma guerra muito particular, a guerra colonial em África, depois de ter tido a ideia de que havia aprendido com ela a formular algumas das perguntas fundamentais que justificam os livros. E foi assim.

Mas o mundo mudou.

Passados todos estes anos, penso nos jovens de hoje, e calculo como não acharão esta história antiga e bizarra. Penso que dificilmente poderão compreender que escassas décadas atrás das suas vidas, os desafios em tomo da leitura e da cultura fossem histórias de escassez. Porque as histórias dos adolescentes e jovens de hoje nada têm a ver com escassez, as suas histórias são de abundância de meios, e excesso de oferta. Nós lutávamos para encontrar um objecto, os jovens de hoje lutam para escolher entre os objectos. Os jovens da minha geração precisavam de inventar os espaços da imaginação. Os jovens de hoje encontram o espaço atravancado de propostas. O significado das coisas, hoje, está escondido debaixo dos seus acessos. Em tomo de cada objecto de cultura, há hoje milhares de caminhos que se bifurcam, infinitamente se bifurcam, para utilizar a imagem de Jorge Luís Borges, ao contrário da linearidade que antes nos ofereciam. Que bom ser criança, hoje, no meio da abundância de tantos objectos mágicos. Que bom ser jovem leitor, quando os livros estão por toda a parte. Que bom termos, hoje, todos os meios à nossa disposição para escrevermos todos em simultâneo. De facto, entre as nossas gerações, são infinitos os elementos que nos distinguem.

E no entanto, há um elemento que nos aproxima, e nos toma semelhantes - Os jovens de hoje precisam, como nós precisámos, de serem visitados pelo Bom Acaso. Precisam de fazer bons encontros com quem os faça desembaraçar da profusão dos meios, para que encontrem em vez do adorno, o significado. Em vez da encenação, os textos. Em vez do resumo em duas linhas, e da profusão de imagens, e da opinião superficial cruzada, precisam de encontrar os próprios livros. Precisam de quem os ajude a des-ocultar o que é precioso e indispensável, e está escondido sob a morraça da superficialidade. Claro que a vida e a surpresa, em parte, repetem-se sempre. Hoje em dia, quando encontro jovens que gostam de ler, e em geral são os melhores estudantes das Universidades, sempre tento saber o que aconteceu nas suas vidas de equivalente a 4lice no País das Maravilhas caminhando sobre a inusitada neve, ou à coincidência entre uma frase de um poeta inglês do século XVII lida em voz alta e o sino da minha aldeia, na segunda metade do século XX. Que coincidências, que Bons Acasos aconteceram? Pois quando os jovens leitores falam desses seus encontros com os livros e a leitura, e por vezes com a sua própria escrita, em geral, coincidem comigo num ponto. O Bom Acaso teve a ver com uma pessoa, muitas vezes com uma pessoa de família, mas a maior parte das vezes, teve a ver com um professor. Um professor concreto, com uma biografia. Uma pessoa. Não estamos tão distantes assim.

É por isso que, neste momento, em que a Universidade do Algarve me outorga este Doutoramento Honoris Causa, porque penso nos jovens, penso em particular nos Professores. Nos Professores das várias áreas do Saber. Já que todas as áreas do Saber têm a sua própria poética e no seu conjunto são um todo. Não existe nenhum ramo do Saber digno desse nome que não tenha a sua poética que é parte de uma Poética mais ampla e comum. Hoje, felizmente, toda a gente o tem como dado adquirido. Aliás, nesse domínio, nada tenho a insinuar diante de quem sabe mais do que eu. Mas penso na figura tutelar dos Professores junto dos seus alunos, como o Bom Acaso, e em particular nos Professores das Humanidades e nos Professores de Português, aqueles que em princípio mais estão ligados a esta causa, e melhor precisam de compreender a delicadeza do momento que passa. Sei que mais não faço do que repetir o que é matéria de consenso entre todos, mas talvez não seja errado reforçar aquilo que é a minha própria convicção. Por um lado, a convicção de que neste início de século as Ciências estão florescentes, e a cada momento que passa evoluem de uma forma extraordinária certamente, para nossa felicidade. Que, também nunca como agora se falou tanto na importância da Leitura e das Artes na formação integral. Mas também nunca como agora está patente a falta do seu abraço. A falta de aproximação entre aquilo que usualmente se chamava, para simplificar, a aproximação entre as Duas Ciências. A minha convicção é que o mundo partirá numa direcção qualquer inesperada se acaso os dois ramos do Conhecimento não fizerem o seu abraço. Se acaso as várias Ciências não integrarem a Leitura e as Artes como a forma de conduzir à escuta interior do coração do próprio e dos outros, esse local escondido onde tudo, afinal, vai bater, quer se queira quer não. E por isso penso em especial nos Professores das Humanidades e nos Professores de Português e dedico-lhes este Doutoramento, pela responsabilidade que lhes cabe na alteração de um paradigma. Uma alteração que lhes permita inscrever a sua ciência, ao mesmo tempo tão indispensável e tão precária, no mundo moldado pela tecnologia cruzada com a contabilidade, a que se junta a publicidade aplicada, empobrecendo de forma tão evidente as sociedades de hoje. Penso no salto difícil que terão de promover, insistindo no mergulho interior dos seus alunos sobre os livros de Literatura a mais densa das Artes, quando todos os apelos são contrários. Dedico-lhes para que não desistam de contribuir para uma harmonia, que afinal é por todos desejada. Não desistam de promover, caso a caso, o Bom Acaso. Esta interpelação não é só minha. Lembram-se sem dúvida das palavras do velho poeta, criado por Wim Wenders, no filme As Asas do Desejo. Também ele, esse velho Homero, perguntava – Devo desistir? Se eu desistir, então a humanidade irá perder o seu contador de histórias. E com ele, também ela, a humanidade, irá perder a sua infância.

Senhor Professor Doutor Pedro Ferré, depois de o ter escutado a sua Laudatio, quero acreditar nas suas palavras. Fazendo fé nelas, acredito que represento no mundo das Letras alguma coisa, mas ainda não sei se é muito, se é pouco. E talvez essa medida nem seja importante. O que sei, isso sim, é que hoje, ao atribuírem-me este Doutoramento, como já aqui foi outorgado a um outro Escritor e a um Cineasta, isso significa que esta Academia no seu conjunto, não quer que os narradores se afastem do seu círculo. Não quer que o Conhecimento que nesta casa se produz seja um saber sem infância e sem adolescência, essa idade que empurra o jovem para o campo da audácia e o adulto para o campo do empreendimento. Ora não querer que os narradores se afastem é um factor de esperança nos caminhos que se abrem para uma Universidade virada para o Futuro.
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* Intervenção na Universidade do Algarve
por ocasião do Doutoramento Honoris Causa
a 15 de dezembro de 2010

terça-feira, 11 de julho de 2006

Intervenção * Portugal e América Latina

Uma história de periferia


Lídia Jorge *

Convidou-me o Sr. Dr. Carmelo Rosa para que dissesse umas palavras por esta ocasião. Faço-o com muito gosto, e aproveito o momento para vos saudar e desejar que tenham uma boa experiência em Portugal e na Europa. Por mim, ao falar para estudantes provenientes sobretudo da América Latina, gostaria que soubessem que o faço como se fosse uma conversa em família. Não é em vão que a minha única irmã é sul-americana. O meu único sobrinho é sul-americano. Não é em vão que os meus parentes mais próximos se dividem principalmente por estes dois continentes. Permitam-me, pois, que vos fale de forma simples, como se este encontro fosse um serão, embora sobre uma matéria tão inesgotável quanto é o rosto dum país. O rosto do nosso país, que à semelhança do que se passa com o nosso corpo, sempre desconhecemos por mais que o queiramos analisar. Como se sabe, a consciência que temos de nós mesmos só existe com alguma lucidez quando reflectida no olhar dos outros. E para isso, nada melhor do que irmos ao espelho dos nossos outros especiais, aqueles que são os nossos vizinhos, para percebermos as feições da nossa própria cara. Não o nego - Digo-vos isto e estou a pensar em certa Antologia de Poetas Portugueses publicada em Madrid, em meados dos anos oitenta, à qual o seu antologiador, Ángel Campos Pâmpano então deu o nome de Los Nombres de la Mar.

Curioso que em Espanha os poetas portugueses do século XX possam ser considerados como Los Nombres de la Mar - hombres e mujeres de la Mar- quando Espanha também foi um país de mar, e continua a ser o que é possível ser hoje em dia, tal como nós, um país de questiúncula costeira e pescaria. Trata-se, pois, duma metáfora. Mas mesmo sabendo que os títulos não passam de metáforas, de qualquer modo, de tão honroso que é, aquela forma de designar leva-nos a pensar sobre o que poderá haver nele de usurpação dos outros – E os gregos? E os italianos? E os irlandeses? E os alemães da Liga Hanseática, e os ingleses, não terão eles por direito próprio Nombres de la Mar? E na América do Sul? Quantos são os países que não têm uma boa história marítima? Os argentinos, por exemplo, não se designam a si mesmos, como aqueles que vieram do mar? Naturalmente que se trata duma condescendência poética, uma tomada da parte pelo todo, um enfeite de linguagem. Uma questão de simplificação. E no entanto, quem conhece um pouco da cultura portuguesa, sabe que há razões legítimas que abonam em favor daquele belo título. É que deve ser difícil encontrar um país da era moderna em que o elemento do mar tenha sido tão determinante na marcha da sua História, e a circunstância geográfica tenha sido tão totalitária na construção do seu carácter.

Na verdade, para os portugueses, assumir que ao longo dos séculos se transformaram em Nomes do Mar, não significou apenas conviver, viver, presenciar, usar e cruzar o mar. Significou muito mais do que isso, significou sobretudo o seu oponente, um limite, uma fronteira real e concreta que a todo o momento foi necessário destronar para sobreviver. A história do nosso início é medieval e às crianças até se conta em poucas palavras. Consta que no início do século XII, um príncipe vivaço que vivia aqui a Norte, paredes meias com a Galiza, se revoltou contra a mãe, e contra o primo de quem era vassalo, e depois de muitas espadeiradas, a si mesmo se coroou rei e veio por aí a abaixo conquistando praças aos habitantes locais, que eram muçulmanos. A esse movimento se chamou Reconquista e por ele ganhou o direito de ser considerado um bom cristão. Com o devido respeito, a partir de então, estava encontrado o rei duma fatia de terra pobre e estreita à beira do Atlântico, neste canto da Península. Na diversidade do xadrez ibérico que se conhece, ainda hoje tão vivo e tão autonómico, esta separação iria ficar marcada para sempre como a marca genética da nossa independência. Sem outros comentários, assim se percebe, olhando o mapa de hoje, invariável desde há oito séculos, que esta nação, a mais antiga da Europa, tenha tido a necessidade permanente de destronar o seu isolamento. É como se este país fosse uma ilha com quatro costas – duas marítimas viradas ao Atlântico e outras duas, terrestres, viradas ao Continente Europeu. Uma velha história de espadas apontadas. Pequeno, estreito, Portugal funcionou ao longo da História como um ouriço-caixeiro defensivo. Nos momentos de dificuldade, fechou-se sobre si e ofereceu aos vizinhos, as costas com os espinhos. Em termos de identidade e independência, chapeau! Venceu. E assim se percebe também o sentimento de compulsão para atravessar o Atlântico, e em parte assim se explica também que no século XV e XVI Portugal tenha tido uma expansão surpreendente, da qual resultou o célebre Império Ultramarino que ainda hoje, trinta anos depois da Revolução, ainda eleva e ainda embaraça. Ou por outras palavras, talvez a história da expansão portuguesa através do mar, que nós próprios ainda hoje celebramos, e uma boa parte do Mundo também, tenha sido apenas a vitória duma população escassa, numa terra estreita, contra o seu estado de periferia. E talvez o estado em que nos encontramos hoje, libertos finalmente dos pesadelos imperiais, e ainda à procura de um caminho de progresso, tenha a ver de novo com esta situação geográfica da qual tiramos o proveito sobretudo, do bom sol e das praias.

Claro que toda a explicação é uma amputação da realidade. Quando a explicação assenta na superfície ficamos perante clichés. A presença do mar oferece todas as explicações mas também o seu abuso. Um dos principais abusos consiste na ligação totalitária que muitas vezes é feita entre esta relação com o mar e o temperamento dominante dos portugueses. Um dos clichés correntes descreve os portugueses como gente de comportamento sóbrio, por vezes demasiado humilde, ou até raivosamente submisso. Se olharem à volta, até verão que existe razão para isso. Mas se ouvirem dizer que isto é fruto da nossa relação com o mar, acreditem se quiserem. A ideia mais divulgada é que esse sentimento de gravidade de que nos caracterizaria viria da noção de que ao longo da História fomos gente de proezas, não pessoas para empresas. Uma herança por certo que nos faria descendentes dos inqualificáveis marinheiros. Como dizia Anarcasis – “Há três espécies de homens, os vivos, os mortos e os que andam no mar”. Ainda aí, a nossa ousadia eufórica, seguida de depressão, viria do mar. Muito romântico, não sei se válido.

Por vezes o totalitarismo desta ligação estende-se até à morfologia da nossa própria Língua. O mar não explicaria mas pelo menos o seu convívio poderia ser um dos ingredientes que implicaria a nossa melodia verbal, cuja forma mais perto da origem os brasileiros conservam. Sobre essa matéria, Cervantes, amigo dos portugueses, escreveu que a língua portuguesa era o castelhano sem ossos. Ao que alguns portugueses românticos têm respondido que é uma língua que segue a ondulação gutural do mar. Clichés no plano simbólico, para nos rirmos de nós mesmos, o que é saudável. Em tom mais sério, o grande escritor Vergílio Ferreira escreveu uma frase memorável para qualquer português. Parodiando uma velha canção que dizia alguma coisa como “da minha janela/ virada para o mar”, Vergílio Ferreira fez essa síntese admirável que vale por milhares de canções - “Da Minha Língua Vê-se o Mar”. Esse escritor sabia que não se poderia jamais associar o som das nossas palavras a uma origem marítima, que seria ridículo fazê-lo, mas de forma diversa sabia como o léxico está cheio de expressões de marinhagem e como a narrativa do nosso mundo é, na sua maior extensão, uma narrativa sobre a nossa luta com o destino do mar. Parte da nossa estrutura semântica tem origem no combate permanente com essa fronteira da água.

Aliás, do nosso isolamento - e ilhamento - provêm também raivosos clichés que tanto atraem os turistas, embora a nós mesmos tanto nos desesperem – A ideia de que se trata de um país cuja canção nacional é o Fado, e cujo sentimento dominante é a Saudade. Clichés raivosos, digo. Porque a ideia monolítica que se faz passar, e nós consentimos e até estimulamos, é essa mesma – a duma expressão de imobilidade nostálgica ligada ao mar. Morrer longe, morrer de amor e de distância marítima. Obedecer ao destino, gostar de sofrer de forma parada, seria coisa própria dos portugueses, e tudo isso ligado ao Fado. No exterior, até ainda hoje essa imagem estática resulta bastante eloquente, quando se compara, por exemplo, a vitalidade do flamenco espanhol ou a coreografia vibrante do tango argentino com a aparente imobilidade do fado. A propósito, recordo aquilo que sobre a grande cantora de Fado, Amália Rodrigues, diziam os responsáveis do Olympia, em Paris. Ela aí esteve com grade sucesso, em 1987. Mas consta que durante muito tempo recusaram-na, temendo que o seu espectáculo fosse um desastre. Descreviam assim a sua actuação – O que vamos fazer com uma mulher toda vestida de preto, de olhos fechados, durante duas hora, no meio do palco, sem se mexer? – Claro que fizeram grandes coisas, felizmente, já que a vitalidade que dela emanava era de outra ordem coreográfica. E felizmente que hoje em dia o Fado está salvo porque entrou na onda da World Music e as fadistas portuguesas vestem de todas as cores. E felizmente também, que a dinâmica da modernidade encontra entre nós outros parâmetros alternativos.

Aliás, falando da nossa imagem no Mundo, talvez valha a pena relacionar o factor marítimo, e a estreiteza da terra portuguesa, com o tipo de ocupação costeira das terras por onde andaram. O que sempre se refere é o facto de terem sido meia dúzia de gatos pingados, por vezes gatos pingados bastante ferozes e rapaces, que fizeram o antigo Império Português. A população de Portugal não chegaria a três milhões, em meados do Século XVI. Mas talvez não seja errado acrescentar que os portugueses, comerciantes como os levantinos, criadores de feitorias, terão levado consigo o seu vício de ficar pela periferia. Com as excepções que se conhece, não tinham a experiência das invasões dos grandes espaços continentais. Simplificando, o Interland não é uma criação sua, nem a palavra que o traduz é sua sequer. Vale a pena lembrar a forma curiosa como Portugal perdeu o que em 1890 considerava um direito seu. Como se sabe, o Mundo sempre foi assim, sempre andou a ser dividido à força. Pois bem, nessa altura, as potências coloniais europeias desenhavam a seu bel prazer a configuração dos países de África. Nesse contexto, conforme a Conferência de Berlim, se Portugal provasse que tinha ocupado a zona africana entre Angola e Moçambique, poderia unir a Costa Ocidental de África à Costa Oriental. Ao projecto dessa união, que faria de Portugal o grande dono da África equatorial, chamámos o Mapa-Cor-de Rosa. Mas havia que provar essa ocupação. E claro que não poderia provar, nem a Inglaterra da Rainha Vitória permitiu que provasse. Pelo contrário, foi criado por inspiração sua, e consentimento de muitos, o Reino do Congo. E foi feito um Ultimatum a Portugal. Os ingleses, nossos velhos aliados, transformavam-se assim nos grandes inimigos. O Hino Nacional português foi criado nesses dias de raiva contra a Grã-Bretanha. Um dos versos do refrão cantava Contra os Bretões, marchar, marchar…. Com o passar do tempo, acabámos por fazer as pazes com os ingleses, e agora, volvidos todos estes anos, fizemos desaparecer a palavra bretões, e cantamos nos estádios de futebol alguma coisa muito mais suave. Cantamos apenas Contra os canhões, marchar, marchar. Mas por certo que os rapazes de Manchester United ou do Chelsea, e até mesmo os nossos jogadores quando o cantam nos relvados, estarão bem longe de saber o que outrora se queria gritar ao Mundo, com este hino que começa pelas palavras épicas de Heróis do Mar, Nobre Povo, Nação Valente e Imortal! Claro que estamos a falar de uma história de raiva e de vingança colonial. Felizmente que hoje em dia ficámos inocentes dessa história da ocupação costeira portuguesa, esse vício antigo da periferia.

Uma forma de ser que se prolongou até bem tarde . Quando em 1961 os Movimentos Independentistas desencadearam as primeiras ofensivas nas ex-colónias de África, nesses terrenos quase não havia estradas, nem hospitais, nem universidades. Os povos colonizados pelos portugueses têm razões de queixa, sim, têm . Nos Estados Unidos, quando se procura a génese das comunidades, lá encontramos no núcleo fundador de cada cidade, uma Escola, uma Universidade, um Tribunal, um Hospital, um Banco, um Quartel e uma Igreja. Nos territórios colonizados pelos portugueses, encontramos sobretudo, a Igreja e o Forte, sós e unidos. No seu interior, estava em estado de embrião tudo o resto que faltava - a escola, a universidade, o tribunal, o hospital e o banco. A Democracia e a Liberdade vieram tarde para nós, e os países que provieram da nossa descolonização também têm muito tempos e atraso. Ainda que infelizmente, durante os últimos anos, o Novo Mundo se tenha encarregado, em África, de nivelar tudo por baixo, o mais raso possível. Mas nem tudo é pobre. Como dizia o General Spínola, um general português que na década de setenta compreendeu os tempos do futuro, a diferença entre a colonização portuguesa e a inglesa, resumia-se no seguinte contraste – Perante os povos colonizados, os ingleses disseram, eleva-te, mas não te aproximes. Os portugueses disseram, aproxima-te, mas não te eleves.

Claro que hoje em dia, quanto mais conscientes somos das nossas Histórias, mais livres somos das nossas heranças e mais soltos ficamos para um novo convívio entre nações.

Não nego que encontro na troca da Literatura, das Artes e das Ciências, a melhor forma de nos encontrarmos. Não nego que em termos artísticos, em termos de entendimento entre povos, privilegio as literaturas nacionais como os grandes rostos e os grandes espelhos onde nos miramos uns aos outros e nos damos a conhecer. Volto a Los Nombres de la Mar, e é um orgulho perceber que um poeta do Século XX, português, Fernando Pessoa, entendeu como nenhum outro nesse século, o que foi o movimento de travessia que fez a expansão da Europa, que ao mesmo tempo aproximou os povos, e os tornou vizinhos, e ao mesmo tempo criou cartilhas de domínio de uns sobre os outros, cujas feridas não só não estão saradas, como desde o 11 de Setembro de 2001, a cada dia que passa, mais se abrem. Mas como disse, é uma honra para nós ter sido escrita em português a Ode Marítima, esse poema sobre os caminhos das almas do mar, o poema da grande pirataria universal, irmã gémea da navegação. É reconfortante saber que em Portugal existe um poeta que compreendeu a natureza do ser humano como ser anfíbio, homem e mulher em simultâneo, o pirata. É talvez o maior grande poema do século vinte. Está traduzido em todas as línguas cultas. A dada altura, neste poema escrito em 1917 , pode ler-se sobre a identificação do europeu com todos os homens de mar e todos os mares :

“Quero ir convosco, quero ir convosco
Ao mesmo tempo com vós todos
Pra toda a parte pr’onde fostes!
Quero encontrar vossos perigos frente a frente,
Sentir na minha cara os ventos que engelharam as vossas,
Cuspir dos lábios o sal dos mares que beijaram os vossos,
Ter braços na vossa faina, partilhar das vossas tormentas,
Chegar como vós, enfim, a extraordinários portos!
Fugir convosco à civilização!
Perder convosco a noção da moral!
Sentir mudar-se no longe a minha humanidade!
Beber convosco em Mares do Sul
Novas selvajarias, novas balbúrdias da alma,
Novos fogos centrais no meu vulcânico espírito!
Ir convosco, despir de mim – ah! Põe-te daqui para fora!-
O meu traje de civilizado, a minha brandura de acções,
Meu medo inato das cadeias,
Minha pacífica vida,
A minha vida sentada, estática, regrada e revista!


No mar, no mar, no mar, no mar
Eh! Pôr no mar, ao vento, às vagas,
A minha vida!
Salgar de espuma arremessada pelos ventos
Meu paladar das grandes viagens.
Fustigar de água chicoteando as carnes da minha aventura,
Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência,
Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sóis,
Meu ser ciclónico e atlântico,
Meus nervos postos como enxárcias,
Lira nas mãos dos ventos!”

É um poema de vinte e oito páginas em caracteres miudinhos. Poupo-vos na esperança de que um dia voltem aqui e encontrem aquela beleza superior que olha para cima, mas quando olha em frente, conduz à compaixão. Espero também que esteja bem traduzido para que não o sintam português mas de toda a Humanidade.

Claro que entretanto nos tornámos menos épicos e menos líricos. Menos míticos. Estamos a braços com um novo rosto. Há trinta anos, depois da Revolução, ficámos reduzidos às fronteiras encontradas pelo antigo príncipe, aquele que guerreou a mãe e o primo e a si mesmo se fez rei, mas fizemos uma rotação de cento e oitenta graus na direcção dos novos vizinhos. Aqui estamos ensaiando uma nova forma de existência. Lentamente, o Mar está sendo para nós, hoje em dia, uma outra realidade. Ali em baixo, no Cais de Alcântara, no Cais da Rocha, em Lisboa, poderão ver locais de onde há pouco mais de trinta anos saíam navios carregados de soldados para manterem esse velho Império Colonial. Era o sítio do nosso páthos nacional. Agora, se por lá passarem, encontrarão os velhos armazéns transformados em restaurantes e bares. Os meus filhos, que são da vossa idade, não sabem o que ali se passou. Felizmente. O mundo é outro.

Que mais vos posso dizer? - Que se forem pelas ruas de Lisboa encontrarão uma gente que ainda não é europeia, ainda não é sofisticada, ou como o escritor espanhol Enrique Villa -Matas dizia, ainda há aqui uma bondade antiga. Espero que também exista uma bondade moderna que vos receba bem.

Sobre esta charla familiar não tenho ilusões, ela não vos explicou nada. Quando se viaja inteiramo-nos sobre a História dos países, a sua Política, a sua Religião, a sua Arte , a sua Literatura, a sua Ciência. Visitamos museus, monumentos e outros lugares assim. Mas é sempre o riso do empregado que serve os cafés na esplanada, aquilo que de regresso levamos ou não levamos no nosso coração.
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* Reconstituição (validada)
a partir de uma exposição dirigida a Bolseiros Sul-Americanos
de visita a Portugal, 
na Fundação Calouste Gulbenkian,
Lisboa, 11 de julho de 2006

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Intervenção * Na entrega do Prémio Albatroz

Narrativa que convém
ao Mundo
Lídia Jorge *

Este é um momento de grande alegria na minha vida. Contidos nele, estão a minha Tradutora, os meus Editores da Suhrkamp Verlag, a minha Agente, Ray-Güde Mertin, a Fundação Günter Grass e os leitores especiais que integraram este Júri e que escolheram, para ilustrar um prémio que contempla obras literárias aliadas à expressão do livre pensamento, um conjunto de livros de ficção dos quais o último é precisamente um romance sobre uma figura que não sabe falar. Obrigada. Este é um momento inesquecível – À volta desta mesa, juntamo-nos mais uma vez em torno da Literatura, para partilhar uma refeição cujo pão é o da beleza e da liberdade.

Na verdade, independentemente de me ter sido atribuído, toca-me de modo muito particular que nesta primeira edição do Prémio Albatroz, o romance tenha sido escolhido.

A propósito deste género, não posso deixar de invocar aquele dia em que um antigo companheiro de escrita, o grande ensaísta e romancista português, Vergílio Ferreira, me chamou a sua casa para comentar o manuscrito do meu primeiro livro, que por acaso lhe tinha chegado às mãos, e me falou com grande entusiasmo, da falência do romance.

Era um dia de Verão, ele estava descalço, sentado numa poltrona e tinha sobre os joelhos o monte de folhas soltas que eram, então, “O Dia dos Prodígios”. Folheando-as, com a lentidão dum mestre, perguntou-me – “Por que razão você quer escrever romances se é um género que está a acabar? Você chega demasiado tarde... ” E a seguir, durante uma hora, esgrimiu todos os argumentos que se podem aduzir contra o romance – O argumento da lentidão no tempo da rapidez, o argumento de que o romance reproduz os actos banais da vida, quando a Arte Moderna careceria, sobretudo, da sua interpretação, ou o argumento de que o peso das fábulas descritas no romance seria inútil, quando se tornava urgente a síntese do pensamento. Na sua ideia, o romance, tal como o Romantismo Alemão e Inglês o tinham delineado, havia cumprido dois séculos, já tinha desempenhado o seu papel. O ciclo estava fechado. A Europa o tinha criado, a Europa o estava enterrando.
E a esses argumentos Vergílio Ferreira juntava outros, saídos da evidência dos sintomas. Em sua opinião, a prova de que o romance estava a definhar era o facto de se assistir à sua explosão em quantidade incontrolável, como a multiplicação das bactérias que fazem parte da infecção. Mas sobretudo, note-se, o facto de as mulheres terem chegado em força ao território do romance. A sua ideia era de que nós, as mulheres, tendo sido afastadas tradicionalmente dos campos da luta pela honra e pelo dever, traríamos ao género a sua degradação e vilipêndio. Era um encanto ouvir falar aquele que viria a ser o meu grande amigo nas Letras. Para o contradizer, nessa altura, eu não tinha argumentos, só tinha instintos. Devo dizer que depois desse encontro inaugural, ainda vivemos na mesma avenida durante mais dezasseis anos, e que ao longo desse tempo, esse extraordinário escritor que tanto se bateu no plano das ideias pela demonstração da morte do género, para além de na altura já ter publicado treze títulos, depois dessa data, viria ainda a publicar mais cinco, de entre os quais três são obras primas do romance europeu. Que morreu com um romance pronto a sair para as livrarias, e a última vez que nos encontrámos, falou-me de um novo projecto que tencionava começar a escrever em breve. Partiu da sua poltrona, escrevendo romance. Devo-lhe muito, mas não há dúvida de que aquilo que mais lhe devo é esta metáfora sobre a vitalidade deste género no seio das sociedades contemporâneas, como forma de representação do Mundo.

Esta é pelo menos a minha convicção. Se ela corresponde a uma interpretação defeituosa da realidade, estou no seu interior, sou uma suspeita. Não nego que pertenço àquele tipo de pessoas que se lhe perguntam o que pensam, respondem – “Era uma vez uma mulher que vestiu um vestido azul e se pôs a pensar…” E tudo o que se relaciona com o pensamento transforma-se em acção a decorrer em espaços onde coisas materiais acontecem.

Claro que nem sempre esta forma de efabular a vida tem origem apenas nesta espécie de estrutura inata do acto de contar. No meu caso, ela também resulta da convicção de que esta continua a ser uma narrativa que convém ao Mundo.

Como muitos, estou convicta de que o ciclo da Cultura que requereu a Igualdade dos Direitos do Homem e do Cidadão, de que o romance foi a cartilha popular que os ensinou no Ocidente, ainda não está cumprido. Estou convicta que o exercício da cultura crítica e profana que o romance proporciona, por oposição ao absolutismo dos livros sagrados, está no centro das contradições do nosso mundo globalizado. Mais do que isso, estou convicta de que este é um género cujas formas narrativas permitem fazer um anteparo e uma barreira em face da nova narrativa dos media. Essa que, pela sua natureza, não permite nem o antes, nem o depois da catástrofe, permite e está feita, sobretudo, para a difusão da catástrofe. Com o contraponto natural da distracção pelo seu oposto, o grotesco e o banal. Neste campo dual, entre sangue e clown, o romance continua a oferecer um acto de resistência a essa simplificação binária que todos experimentamos. É uma questão de tempo. A catástrofe no romance, como na tragédia grega, de onde colhe a origem, tem tempo para dar voz ao enigma que se avoluma, às razões do enlace e do desenlace, ao coro das vozes avisadoras, tem tempo para fazer da narrativa uma demonstração, ainda quando cega, ou selvagem. A linguagem alongada do romance, este género em que o início está separado do fim, por um longo fio de factos interiores, revestidos por palavras e silêncios, permite que a catástrofe se desenrole sob os olhos do pensamento, como um oxímoro. Porque o fim negativo pode estar lá, mas para reclamar o seu contrário, fora das páginas escritas, no plano real da vida. Günter Grass, de quem esta Fundação tem o nome e cuida da obra, é precisamente um dos grandes mestres dessa poderosa reivindicação de um concerto, através da descrição plasmada do seu contrário. Quem não entender que o romance nos nossos dias continua a ter essa finalidade subversiva, não entende a contradição do momento que nos calhou viver na História. Ainda que a cada um assista a sua própria História.

Pela minha parte, escrevo a partir do meu país, sobre o meu país. As figuras de ficção com as quais convivo têm a sua origem na minha terra de sol luminoso e silêncios fantasmais. Onde a democracia recente, em muitos aspectos, é apenas formal e os três poderes ainda não estão deslindados. Onde o hábito de esconder, adiar, protelar o confronto com a verdade para um calendário sem dia ainda é comum. As minhas figuras inventadas levantam-se da noite das vidas reais, a partir do sentimento de escândalo criado pelas omissões que se adivinham, pelos crimes silenciados, pela sensação de impunidade contra a qual os meus personagens se deitam e se levantam no meio das folhas por escrever, e dizem coisas mesmo quando não sabem falar. Como poderia ter encontrado outra forma de traduzir todo esse teatro interior se não fosse o romance?

Foi esta forma fílmica, longa, entornada, centrada em personagens parecidas com gente, que me permitiu dar testemunho de vidas acantoadas nos campos do meu país, os escondidos no fundo das cidades, os perdidos por outras regiões da Terra, os regressados, os silenciados no meio das famílias e dos grupos, os que não conseguem dizer eu sei, eu vi, eu espero, e têm as palavras entaladas na garganta. O romance permitiu-me sobretudo usar os modos de dizer das mulheres em luta pela sua saída do papel de espias da História para serem actrizes da História. Sempre com a ideia de que por dentro deste género, os Homens ainda não estão perdidos e Deus ainda não está seguro. As duas partes ainda estão lutando.

Para além do que me diz respeito, quero agradecer aos membros do Júri terem chamado a atenção para o facto de este género de resistência que é o romance poder continuar a ser aliado à liberdade de pensamento. Visto do exterior, é sobretudo importante que aconteça numa Cultura que tem por base a matriz de pensamento filosófico mais relevante da Europa e uma das Poesias mais altivas em face das forças desconhecidas. Este prémio diz aos que porfiam por este caminho periclitante de contar, que não estamos sós. E é nessa medida que quero agradecer a Christina Weiss ter lido os meus livros e ter-se disposto a falar sobre eles. Agradecer aos editores Michi Strausfeld e a Jürgen Dormagen por terem dado o seu cuidado e a sua confiança aos meus livros, ao longo de todos estes anos, e à Ray, a madrinha dos escritores de língua portuguesa, por ter-me incluído no seu grupo de defesa. Este momento também é vosso.

Quero dizer, por fim, quanto me alegra que este Prémio tenha na sua matriz esta partilha com o tradutor, essa outra mão direita que escreve os livros. Neste caso, que Karin von Schweder- Schreiner e eu sejamos parceiras. À Karin eu devo as traduções profissionais maravilhosas que são públicas, mas também devo a sua amizade privada. Até lhe devo algumas sentenças de vida, como sejam os provérbios alemães que de vez em quando me envia. Muito em especial, devo-lhe aquele provérbio nórdico que há um ano atrás me ditou, palavra por palavra, ao telefone. Era assim - “Toma nota - Só as aves domésticas têm saudade, as selvagens vão voando…” Mas nesse domingo de manhã, a Karin ainda não sabia que um bicho tão selvagem haveria de vir ao nosso encontro para nos unir tão fortemente - Um Albatroz.

Aos mentores da Fundação Günter Grass quero acrescentar que espero, do fundo do meu coração, e do fundo das minhas convicções, que as próximas edições deste Prémio, para o qual desejo um tempo longo e prestigiado, prolonguem, aqui em Bremen, esta cidade mítica da Europa, a ideia de que a Literatura é, acima de tudo, um campo de Liberdade sem hipótese de fronteiras, desde que revestida pela poesia das línguas.
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* Na sessão de entrega do Prémio Albatroz
em Bremen, 5 de maio de 2006

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

Intervenção * Na Universidade de Maryland

Para um destinatário ignorado

Lídia Jorge *

Há ideias falsas que são salvadoras, e o interessante é que o contrário nem sempre é verdadeiro. Entre elas, ocorre-me em particular aquela que me tem acompanhado ao longo do tempo e que consiste em pensar que a vida com suas escolhas condicionadas pela estreiteza do real, é um destino, mas a Literatura, neste caso a ficção, é um amplo campo de liberdade. Liberdade de escrita contra o destino da vida, eis uma boa bandeira, daquelas que podem flutuar ao vento para nos levar para longe, uma bandeira, porém, que não resiste à mais pequena tentativa de análise. Uma verdadeira falsa bandeira. Quem a usa sabe quanto de destino também existe na escrita, e como a vida seria impossível se sobre ela e sua deriva, não houvesse margem para nos imaginarmos donos do nosso livre arbítrio.

A esse propósito, ocorre-me falar duma experiência curiosa que arrasto comigo há mais de vinte anos, e que apesar de se dispersar no tempo, e chegar mesmo a sumir-se nele como se já não tivesse energia para sobreviver, acaba sempre por criar novos capítulos que a ressuscitam como se tivesse vida própria para se refazer e recontar. Refiro-me a certa narrativa cuja escrita iniciei precipitadamente, convencida que o seu fim estava próximo do início, de tal forma me parecia ter chegado à primeira página, já perfeita e trabalhada. A intriga era simples. Tratava-se da história dum lavrador do Sul do meu país, um rico latifundiário, homem generoso, que em chegando o mês de Setembro, abria as suas coutadas aos caçadores das redondezas para que aí pudessem caçar à vontade. Ele mesmo, um bom atirador, integrava o grupo de homens, partindo no seu jipe, de madrugada. Sucedia, porém, que algumas vezes, enquanto os convidados se reuniam no pátio, antes de saírem para o confronto com os animais, no meio da obscuridade, uma das filhas do lavrador-caçador aparecia em camisa de dormir de olhos semicerrados, caminhando junto às paredes e depois, como se estivesse acordada, sem tropeçar no quer que fosse, de mãos estendidas, dava várias voltas à casa. A imagem da rapariga sonâmbula, nem a dormir nem acordada, em roupas alvas, no meio da noite, fazia sucumbir os caçadores, que atrasavam a partida durante meia hora, para poderem vê-la regressar. O próprio pai, orgulhoso da imagem deslumbrante da filha, cujos cabelos compridos lhe chegavam à cintura, também ele permanecia especado no pátio, falando baixo, mostrando como a rapariga era capaz de contornar obstáculos, tactear o gargalo do poço, atravessar o jardim de fracas plantas sem as pisar, e de regressar ao seu quarto, com o seu andar vacilante. Sucedeu, porém, que num dia de Inverno, para escândalo e surpresa de todos, principalmente de si mesma, a rapariga descobriu que estava grávida, e depois de um tempo de luto assombrado, numa manhã de Verão, a sonâmbula dava à luz uma criança, um rapaz, a quem o lavrador, vencido, acabaria por consentir que se desse o seu próprio nome de família.

A história, porém, não terminava pelo reconhecimento do bastardo concebido sem cooperação da jovem mulher. Digamos mesmo que aí chegada, a história ainda mal havia começado, pois o que se seguia é que enchia de vigor a minha fantasia. A sequência dos factos engendrava-se de forma excitante - Dois dias depois do nascimento, o lavrador-caçador debruçava-se para o pequeno vulto do recém-nascido, descobria-o, estudava-lhe as feições. Pensava, pensava, e dizia para si, em voz baixa – “Foi fulano, o traidor…” Subia ao sótão da casa, procurava uma arma, e passado algum tempo, o dito fulano aparecia abatido, à beira da estrada. Mas as feições das crianças alteram-se com a velocidade das nuvens. Aos seis meses, quando o bebé já se agitava e soltava gargalhadas querendo sair do fundo do berço, o lavrador-caçador achou que bem poderia ter sido outro o pai incógnito. O olhar da criança, a forma como franzia os olhos cor de mel, não o enganava – “Foi beltrano, o maldito…” E passadas duas semanas, o beltrano aparecia estendido junto do próprio jipe, com uma bala metida no peito. E assim, no dia em que a criança fazia dois anos, o seu avô fora assaltado por uma dúvida atroz – Ter-se-ia enganado? Quem dormira com a sua filha sonâmbula, afinal, não teria antes sido cicrano? Uma semana depois, cicrano iria aparecer abatido, à porta de sua própria casa, debruçado sobre um riacho de sangue. Até que haviam passado cinco anos, e certo fim de tarde, ao ver o neto a correr dos braços da sua mãe para os braços das suas tias, de súbito, o lavrador-caçador julgou ver-se a si mesmo estampado na cara da criança. Precipitara-se para a moldura onde alguém, muitos anos atrás, encaixilhara a sua própria fotografia de menino, mirara-a e remirara-a, e acabaria por se perguntar - Afinal, não seriam os seus próprios traços que se encontravam no rosto do seu neto? Tomado por esse sobressalto, que o colocava diante dum invulgar dilema, teria ido dentro de casa buscar a arma secreta de que se havia servido para o ajuste de contas aleatório, e viera para a rua, a contas consigo mesmo. Mas esse era o momento em que a narrativa se suspendia. No pátio estavam as filhas sentadas, incluindo a sonâmbula, estavam as crianças a correr, gritando de alegria, era Verão de novo, não tardava que as estrelas viessem povoar o céu, e aquele homem tinha uma arma na mão, e desta vez o destinatário teria de ser ele próprio. Só que ao lavrador-caçador, eu não o queria eliminar. O que fazer então da mão daquele homem assassino, perdido entre o amor, o direito natural e a vingança? Não sabia que destino dar-lhe. Sentia-me eu mesma o lavrador-caçador, eu mesma tinha a arma na mão, tinha a rapariga sonâmbula no pátio, tinha a criança de cinco anos a correr entre as outras, e sem saber o que fazer de tudo isso, comecei a contar esta história aos amigos, na esperança de encontrar uma solução. Então um deles, um escritor que me escutou com infinita paciência, disse por fim – “Esquece essa história, nunca a acabarás, herdaste-a de algum lugar que não te pertence, ela não é do teu mundo…”

Sim, provavelmente acabarei por nunca escrever esta história. Pertence por certo àquele número vasto de narrativas falhadas que nunca verão a luz do dia, animais nados-mortos que objectivamente não servem para nada, e no entanto, continuam a brilhar no escuro da imaginação e alimentam um território de tal forma carregado de beleza e violência, que acaba por ser tão sedutor quanto incontrolável. Aliás, há pouco tempo, a peregrinação desta história acabou por ter novo impulso. Encontrava-me numa Casa da Literatura nos arredores de Berlim, e os três jovens literatos que me acompanhavam, levaram-me até ao túmulo de Von Kleist à beira do lago Wannsee. Ao falar-se do romântico Von Kleist , falou-se dos contos que nunca li, e ao falar-se dos contos, falou-se de A Marquesa de O, cuja história não deixa de ter fortes pontos de contacto com aquela que me persegue, uma narrativa de raiz aristocrática, cuja solução final acaba por ser triunfalmente feliz. Depois viria a saber. Mas o fascínio pela minha narrativa inconclusa assaltou-me de novo. Não deverei eu, um dia, tentar solucionar esta história? Ou deverei entender para sempre que é apenas um fóssil que se agita como herança dum passado que não mais existe ? – Afinal Freud , há mais de um século, tendo descrito a histeria e seus biombos, retirou todo e qualquer romantismo à figura da sonâmbula. Também a paternidade deixou de ser uma carta secreta, hoje em dia está inscrita numa folha branca de laboratório onde se descreve o ADN da mosca e do homem. Afinal a metáfora da mulher anjo que atravessa o jardim da minha história, foi completamente banida nas sociedades ocidentais, ou está confinada a alguns resquícios sem expressão. Afinal esta história, sendo um ajuste com a natureza, não aponta para nenhum ajuste com as práxis que regulam o Mundo. Provavelmente, eu não escreverei esta história. Mas não é verdade que ela não seja do meu mundo, tanto pelo que conta quanto pelo que não conta. Ainda que resulte dum território indomável, ela está numa linha de contiguidade com a minha vida.

Passei grande parte da infância num ambiente rural, e descontadas as flores, os animais e os astros, isso significa, basicamente, duas coisas – por um lado, uma dispersão das pessoas entre as quais se intromete o espaço como intervalo que age, e por outro lado, uma troca demasiado concentrada dos actos passionais que habitam os seres humanos. Trata-se do palco nu da terra e do mar a separar as pessoas, ao mesmo tempo que a interioridade dos actores, dispersos por esse largo Huis Clos sem fronteiras, é vista em desenho aumentado, à transparência crua da luz, e ao alcance do olhar perfurante do outro. O mundo rural é isso, ou pelo menos, até há pouco tempo, foi isso, um espaço de revelação, uma câmara radiográfica apontada ao interior dos seres. Tudo o que ainda hoje sei, ou dito de outra forma, o pouco que sei sobre a paixão e o desejo, a saudade, a morbidez, a ferocidade da luta pelo poder, a compaixão e a loucura, aprendi aí, entre homens e mulheres que dispunham de espaço e tempo para o apuramento e aplicação dos seus impulsos e dos seus medos. Havia uma vista para o mar, mas era entre casas dispersas e pequenas aldeias separadas por caminhos sinuosos que se passava essa dramaturgia da revelação do outro. Nas redondezas só havia pequeno comércio. Mas a ganância, eu a aprendi com aquele merceeiro que usava duas balanças na sua loja, uma para vender, outra para comprar. Ali a fruta era escassa, as crianças assistiam ao amadurecimento de cada baga. A prepotência eu a aprendi com aquela fazendeira que enterrava a fruta no quintal da casa para não ter que a repartir com as crianças. Matar um homem não era um gesto banal, mas era um gesto incorporado no espectáculo da vida. A vingança, eu soube o que era, com aquele homicida, que na manhã em que regressava da prisão, depois duma pena amnistiada, o primeiro gesto que teve foi assassinar a testemunha que o havia incriminado. E o amor? Havia o amor. A força do seu tumulto indomável esteve presente na cena de um homem, que roubava peças de roupa do estendal duma jovem viúva que não queria ser sua amante, e ao ser levado pela autoridade, rua fora, ainda perguntava – Onde está ela? E ela, guardada pela família, à janela da casa, a vê-lo passar estrebuchando entre os guardas. E havia a providência. O sentido da providência ainda não tinha a ver com o Estado, só com a divindade. Não tinha a ver com a reivindicação, só com a espera. Não tinha a ver com a revolta, só com a obediência. A voz da Divina Providência eu a associo à embirração daquele homem que se sentou à entrada da sua fazenda, disposto a não comer nem beber enquanto a chuva não caísse sobre o seu campo de milho. Ao segundo dia, choveu sobre o campo de milho. Mas tudo o que depois a vida prolongada nos meios urbanos e as viagens me deram, outros trajes e outra velocidade, não passa da ampliação desse filme inicial miúdo e descritivo, como uma tela infinita de um Delacroix profano que não terminasse mais. É divertido imaginar como o espectáculo da Natureza à solta ofereceu aos idealistas do século XIX mitos cândidos, como o do bom selvagem. A Arte do século XX, em particular a Literatura, acantonada no papel de se perguntar sobre a última fatia da coisa harmónica, de par com a História mas mais funda do que ela, encarregar-se-ia de destruir por dentro não só o mito do bom selvagem, mas todo e qualquer mito do homem bom. O mito do próprio homem. Não nego que me rendi a essa questão inquietante. A modernidade saída de 1900 tem dito de todos os modos, que a natureza humana não cabe em nenhuma definição, é um imbróglio de matéria obscura. Uma alucinação de si própria. Aos nossos olhos contemporâneos, Job, o homem impecável, objecto duma aposta entre Deus e o Diabo, injustamente vitimado, e pela sua fidelidade, sujeito depois a uma boa recompensa, há muito que deixou de ser uma história moral, para ser uma simples história de fadas. Os livros escritos no século XX, aqueles de que mais gostamos e com os quais nos formámos, são fábulas criadas para erguerem, de mil maneiras, a demonstração de que não passamos de figuras bizarras, contendo num só recipiente a raiz de todos os bens e de todos os males, incluindo o acto de julgar e a nomeação das coisas, o que ainda por cima só a nós nos pertence. Mas sabemos como é – Quando a essa questão destemperada se junta a música da língua, nascem as páginas com escrita. As minhas primeiras linhas com alguma consistência, eram continuações das leituras avulsas que fazia tanto do Gog do Giovanni Papini, quanto do Nada de Carmen Laforet, A Peste de Camus, e Kafka, Faulkner, Virginia Woolf, e assim por diante. É verdade que se as possibilidades da escrita só na aparência serão infinitas, as possibilidades de leitura, essas, por certo que o são por certo. A partir do meu ângulo, todos esses livros que lia em estado de sofreguidão, e queria tomar por modelo, me falavam dessa obscura indefinição do ser humano como único tema, ou então, eu o trazia comigo, arrancado da própria experiência de vida e essa era a lente grossa através da qual os lia. Da mesma forma que em português, é o que une os autores que ao longo do tempo mais tenho visitado, Vergílio Ferreira por inteiro, José Cardoso Pires, o dos textos inconclusos, Agustina Bessa-Luís, e seus livros sobre a obscura teia da perversidade que tece a sobrevivência, a paixão e o domínio animal dos seres humanos. E existe Pessoa. Talvez o grande fascínio que Fernando Pessoa exerce sobre nós, portugueses, e hoje sobre uma parte imensa dos grandes leitores de Poesia do Mundo, seja o facto de toda a sua obra se desenrolar a partir do terreno ontológico, declinando até ao infinito não só a impossibilidade de definir, como a impossibilidade de ser.

Mas esta é uma deriva, e objectivamente eu tenho escrito sobre matérias que diria concretas, delimitadas no tempo histórico, no espaço geográfico, na memória vivida pela geração a que pertenço. Fazer a crónica do tempo que passa, tem-me interessado, e não desdenho do juízo daqueles que dizem encontrar nas minhas páginas uma espécie de febre em testemunhar os factos. Não pretendo escapar a essa ligação perigosa com a realidade directa do social e do presente. O próprio colectivo não tem sido apenas um tema, tem sido um sujeito de escrita, tão transversal, por vezes, que o sinto impregnar-se na forma e moldar as estruturas da acção. Escrevi um livro que tem por fundo a Revolução do 25 Abril, um outro que invoca os últimos passos da Guerra Colonial em África, outros centram-se nas relações pós-coloniais que o meu país vive de um modo particular, a par daquelas outras relações, pós-coloniais também, que a Terra inteira está a viver na globalidade, com a intensidade que se conhece. Escrevi sobre a mudança de parceiros do meu país, e seu estado de ansiedade por querer ser próspero e moderno. E sobre as raízes da lentidão que o atrasam, no objectivo de querer ser europeu, próspero e moderno. Escrevi livros que falam de cidades portuguesas, de famílias portuguesas, das novas mulheres e sua identidade. Escrevi sobre tudo isso, mas verdadeiramente nunca escrevi por isso, nem para isso. O real invade-me, com suas reportagens porque está lá, faz parte do outro domínio, o domínio que me interessa, como uma parcela indispensável do todo do qual não se pode arrancar. Quando Carlos Fuentes se refere à Literatura como uma estrela de três pontas, duas subjectivas e uma terceira, objectiva, mergulhada no devir histórico que é pertença de toda a comunidade, o autor de Terra Nostra sabe do que está a falar. É fácil falar desta terceira ponta da estrela, a objectiva, pois sendo comum a muitos, ela permite que escondamos a indecência que é mostrarmos as outras duas, essas outras onde a nossa intimidade se enrola no seu percurso subjectivo e solitário, sempre driblado pelos enganos da memória.

E contudo, as coisas passam-se assim - Tudo começa pela imagem duma figura que surge vinda do exterior, e fala, ou várias figuras que pronunciam palavras. No início elas estão sempre mergulhadas numa espécie de sombra, de onde só emergem algumas formas e cores, e existe ao mesmo tempo, uma tensão que fere a imagem, e um lado de encanto de onde sai a voz que se ouve. No fundo da primeira imagem está o perigo e a desordem, a loucura e a desarmonia. Na segunda, o tal encantamento. Se as duas partes se digladiam a ponto de perceber que as vozes são audíveis e persistentes, a ponto de haver um discurso captável sobre as vidas que ainda não se movem, mas já têm movimento, isso significa que alguma coisa vem a caminho, e então a coisa desemboca em espaços abstractos, a que por certo a impotência da sua invenção plena, conduz à chamada das realidades vividas. Custa-me que a realidade vivida entre, então, com os seus cartazes nítidos, suas fotografias datadas, países e costas reconhecíveis nos mapas. Mas o processo é este - figuras que têm o charme de surgir de nada para falarem dum mundo misterioso que plane fora da realidade para de longe a iluminarem duma outra forma, e lhe darem o sentido do qual carece, como nos sonhos, afinal essas figuras têm os pés mergulhados no real, foram baptizadas pela vida antes de terem nascido. Afinal, a cobra voadora que durante dois anos me assaltava em sonho, e voava sobre uma multidão, no fascínio repelente pelas suas escamas azuis, trazia atrás de si o tanque de guerra carregado de soldados que esteve na origem de “O Dia dos Prodígios”. No livro, essa cena da passagem dos soldados pela aldeia ocupa umas escassas páginas, mas só depois de publicado, ficaria claro que tinha escrito um livro sobre uma Revolução muito especial, e sobre o carácter do povo que a fez – uma gente, a gente a que pertenço, com demasiada força no hora de sonhar, demasiada debilidade na hora do agir. Perceber até que ponto a persistência duma primeira imagem que contém no seu interior um processo dinâmico, é capaz de desencadear uma narrativa sucedida, pode não ser obra de talento, antes obra do acaso. Entre uma coisa e outra, um passo misterioso, como toda a escolha na vida.

Lembro-me de uma outra primeira imagem, neste caso, uma imagem ao mesmo tempo esbatida e ampliada, a partir da realidade. Uma nuvem espessa de gafanhotos, uma nuvem verde na noite, que ao mesmo tempo separava e unia dois grupos humanos, os europeus atrás dos cortinados de veludo, os africanos à volta duma fogueira, o som das vozes de salão de uns, o som dos cantares de alegria de outros. Essas imagens escondiam a história inventada de “A Costa dos Murmúrios”. Dez anos seguidos com as mesmas imagens. Afinal, nos copos de uísque dos militares que olharam atrás dos vidros, imóveis, durante todos esses anos, estava o desenho das garrafas de álcool metílico que iriam desencadear a matança. No entanto, o cenário da guerra colonial, com seus desmandos e ficções tenebrosas, parecia-me secundário. Eu apenas desejava escrever sobre o cerne da violência que trazemos escondido debaixo dos nossos vestidos, que apertamos com elegância sob os nossos cintos, sem o sentirmos, nem ocupar espaço, mas existe. Explode quando menos julgamos. Tudo o que eu desejava formular com esse livro era coisa vaga – Se só temos a fala para dizermos quem somos, então por que é que não nos ouvimos, enquanto a fala é possível? Mas depois, essa fábula quase imaterial para onde eu apenas gostaria de convocar figuras que deslizassem como sombras entre as ondas e as palmeiras, acabou por chamar um cortejo de espingardas e crimes apagados, cuja história não termina ali, porque se repete, hoje, amanhã e depois, noutros lugares, com a mesma lógica ácida, a mesma sensibilidade. Atrás dessa fábula veio um pedaço da História da relação entre a Europa e a África. Da frente para trás, ela chamou um pedaço da confronto entre o Ocidente e o Mundo, os outros mundos e o Ocidente, confronto que não mais acaba. Claro que estou a expandir o sentido deste livro, à minha medida. Mas tudo começou por uma nuvem de gafanhotos verdes, voando à volta dos candeeiros duma estrada, durante dez anos. Uma pequena fábula étnica sobre o sentido duma praga.

Poderia continuar. Recordo dos livros esse momento inicial que os formou como recordamos o rosto de alguém que pela primeira vez encontramos e se torna definitivo nas nossas vidas. No caso de “ O Vale da Paixão”, existe a imagem duma manta de caserna estendida na lama, a partir da qual a voz do soldado morto, como se estivesse incorporado nela, reclamava justiça para a narrativa deformada no que respeita à sua memória. Essa voz que subia por uma escada era uma pessoa viva, levava uma luz na mão, e pedia a quem encontrava que lhe escrevessem a sua vida. Pedia que ficasse conhecido como alguém que havia deambulado pela Terra, movido pela ideia de que, quanto mais se afastava de casa, mais se aproximava da sua verdadeira morada. Mas depois, essa história, um breve conto de soldado, trouxe atrás de si migalhas duma família inteira, pedaços de destinos anónimos de que são feitas as diásporas. Na origem de “O Vento Assobiando nas Gruas” está a imagem duma rapariga descalça, caminhando na areia, uma rapariga que retira o chapéu, vira-se, fecha os olhos e pergunta – “Esqueci-me de tudo. Quem sou eu?" Um ano de persistência dessa imagem, um ano de dúvida. Só depois, nesse espaço arenoso, a caravana dos cabo-verdianos Mata começou a avançar, só depois se dá a deambulação pela costa, muito depois um dos Mata se isola, e interpreta o papel do homem que sente amor. Melhor dizendo, ambos, Antonino Mata e Milene, libertos e presos pelo amor.

Aliás, eu nunca fiz a pergunta fundamental sobre onde começa o Bem e o Mal. Mas entre os mil casos que a declinação dessas duas palavras comporta, eu sempre escolhi uma das formulações mais terrenas, menos sigilosa, ou simplesmente mais adaptada à natureza do meu palco. As figuras estão ali, em conjunto, e agitam-se, avançam no papel, falam todas ao mesmo tempo para perguntarem – Como estava o amor quando eu aqui cheguei? Como estava o amor quando eu daqui parti? Resposta dada ou não, interessa-me esse intervalo. Escrevo, para dar vida a outras figuras que não sou eu, na tentativa de que alguma delas, tão diferente de mim, certamente mais sábia, mais sagaz, mais diligente, ou mais ousada, ou mais ácida, mais justa ou mais diabólica do que eu, possa fazer esse balanço e resolver antes de mim, o que eu nunca virei a saber. E por isso mesmo, porque toda essa gente de palco não existe senão na dimensão escassa da liberdade que é escrever, eu mantenho a ideia de que é da irrealidade que provém esse improvável saber. Kafka é um génio porque trabalhou só aí, não precisou de mais nada. Borges de algum modo, também. Todos podemos invejá-los, ou mesmo segui-los como fez Italo Calvino, como parece querer fazer nos dias de hoje, Antoine Volodino, por vezes Alessandro Baricco, mas poucos podem parecer-se com aqueles. O peso da realidade arrasta a maior parte dos escritores pelo chão da narrativa que reproduz a matéria do real. Acho que pertenço a esse team. Quer queira quer não, a realidade está logo ali, oferecida, ela caminha atrás dos personagens como se fosse a sua sombra material, e eu entrego-me a ela, como quem aceita um par que lhe foi destinado, dançando com toda a alegria, independente do corpo que dança e do efeito que causa. Anima-me nesse entusiasmo a ideia de que a memória selecciona da realidade os pontos que formam um sentido e que os projectos que se desencadeiam durante a narrativa deformam a História de que se é testemunha construindo, de modo inocente, uma parábola gerada pelo desejo de transformação da vida. A beleza e o desejo não podem entrar em vão para o interior da escrita. A beleza e o desejo que se junta ou se escolhe entre as migalhas que brilham na enxurrada do tempo, entram na ficção para forçar de propósito a lógica da realidade. A esse propósito, Adorno não escreveu que à luz da redenção o mundo aparece, inevitavelmente, deformado? Resta saber se no futuro existe espaço para este tipo de narrativa. Se o leitor ignorado que há duas décadas se pôs a caminho, precisará como nós, desta deformação do real para a sua felicidade.

Claro que eu nunca vou escrever a história da rapariguinha sonâmbula. Que ela fique lá de onde veio, uma espécie de tijolo que resistiu a uma certa demolição biográfica. Sobre os aspectos biográficos, Kundera disse que o romancista é aquele que destrói a casa da sua vida, para, com as pedras, construir a casa do seu romance. Na sua interpretação, os biógrafos de um romancista desfazem o que o romancista fez, refazem o que ele desfez. Kundera terá razão, sem dúvida. Eu tenho, no entanto, a ideia de que aquela história do lavrador-caçador persiste, tão arcaica e tão vivaz, só para me dizer que o edifício da escrita é um espaço de jogo que não termina mais. A prova é que muitas vezes penso nela ao contrário. A rapariga sonâmbula tinha sonhado esse sonho, ouve um tiro de carabina, acorda e encontra-se no meio do pátio. Então um caçador que ela nunca viu aproxima-se e diz-lhe que teve de abater vários animais, até chegar junto dela, para ela lhe contar o sonho que ele viveu acordado.

É verdade também que outras imagens perseverantes das quais eu espero que resultem certos textos, incluem rostos de gente meio a dormir meio acordada. Continuo a amar essas figuras que estão à disposição de um saber, que as faz não agir como gente e por isso mais indefesos e também mais sábios, conhecedores de uma outra forma de estar. Personagens como o Leonardo de “O Jardim sem Limites”, o rapaz que se imobilizava horas a fio sobre um plinto no meio da Rua Augusta, e a partir do seu poiso fazia rodar o mundo ao sabor do seu desejo de triunfo. Aquele que desejava repartir com o acrobata Paolo Buggiani, uma performance a dois, entre as Torres Gémeas dos anos noventa, e atrás dele, que só desejava viajar e partir, acabaram por aparecer ruas e casas lisboetas, globalizadas antes de o estarem. Não tenho dúvida que de futuro será igual ou semelhante. Levada por essas figuras que cochilam em cadeiras de lona à sombra das árvores, e que eu desejaria que me conduzissem até histórias subtis, sem peso, poemas indianos de três versos, mais pequenos que sombras de cigarros, em vez deles, sei que hei-de acabar por me entregar ao destino histórico do meu país, por mergulhar nas suas contradições profundas, reproduzir histórias das lutas tribais que assolam Lisboa, os braços da escrita enterrados até aos cotovelos da realidade como testemunha. Parto de um outro lugar, mas é sempre aí que vou ter. Com a ilusão de que se assim não proceder, deixarei personagens reais atadas ao seu destino, sem hipótese de liberdade. E essa esperança dá a volta e brilha no escuro.
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* No 4.° Congresso da American Portuguese Studies Association,
na Universidade de Maryland,
em que a escritora foi a convidada de honra,
a 13 de outubro de 2004

segunda-feira, 2 de abril de 2001

Intervenção * Os lugares da Literatura

Pertença e contradição
Antes que nos cubra a pedra
por lavrar
antes que o lavrador perca
a partilha

Um monumento exacto há
que erigir
entre a Batalha e a Bastilha.

Luiza Neto Jorge

Lídia Jorge *
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Digitalizar0001Discorrer sobre a noção de pertença, como sobre a noção de cisma, traição ou singularidade, significa invocar um estado de lucidez e exercitar uma capacidade de raciocínio demonstrativo que em geral estão ausentes no processo que transforma o sujeito num escritor de ficção. No que me diz respeito, a simples invocação do tema transporta-me directamente até aos lugares ambíguos da Literatura, e a ideia de partilha da pessoa entre si e si mesma, como ser criador e como criatura, expressão de pertença para a qual os gregos encontraram definitivamente a palavra ethos, põe-me diante dos olhos, em vez de raciocínios, a última página da Ilíada, na qual vejo o enterro de Heitor, o corpo cremado de Heitor, os seus restos mortais reunidos dentro duma urna de ouro, amortalhado sob o olhar dos Aqueus, como anúncio do enterro inevitável de Tróia. É assim, indo beber demasiado longe, que me chega a noção de corpo como metáfora da terra de onde se vem e para onde se vai, porém, terra, porção de poeira nomeada com letra maiúscula, a que cada um chama de sua pátria. Como noutras situações se chama família, comunidade, mito ou língua.

Contudo, a noção de pertença nem sempre é servida por imagem tão unívoca nem tão heróica como a representação do domador de cavalos, em prol da sua pátria, por mais brilhantes e rumorosas que sejam essas últimas viagens. Pelo contrário, este é um território sem caminhos direitos nem simplicidades fáceis.

Começa pelo facto de que pertencer pressupõe antes de mais um génesis, o que significa à partida que fazemos parte de alguma coisa que estava feita antes de nós e nos proporcionou o ser antes da existência. Significa sermos do mundo dos outros, termos nascido da vontade ou do desejo dos outros e não podermos ser independentes deles. A pertença ou pelo menos os grandes mitos da pertença começam aí, e por isso, para falar deles é inevitável percorrermos o território involuntário da infância.

Aliás, para quem suspeita que a existência se desenvolve segundo um panorama de “regiões” sucessivas que se vão dando-à-luz umas às outras, a ideia de se descortinar nas vivências iniciais o indício de todas as metáforas da vida proporciona, no âmbito de questões como as da pertença, um munus inestimável de efeitos e causas legíveis - O nosso corpo como pertença de vários regaços, entre eles o da família. A segurança da paisagem como alimento para a concepção da terra, onde está a pátria. O discurso materno como alimento da fala onde está a língua. A permanência dos saberes iniciais transitáveis de geração em geração, como construção dos mitos. Ou a magia da vida sincrética, indistinção entre nome e coisa, relato e facto, como mãe inaugural da literatura. Tudo isso se pode encontrar a residir na infância, como lugar fundador onde estão as raízes mais fundas.

Diz o senso comum que a pertença se fundamenta na configuração dos primeiros abraços, nas primeiras viagens através da terra, nas primeiras ligações ao mundo e à multidão, esse feixe de actos que nos atam aos outros e às coisas para sempre. Por isso pertencer, independentemente do lugar que aí se ocupa, significa ser do outro, de outra coisa, ser do mundo. E a escrita vive disso, dessa sopa mágica indistinta que alimenta a Arte como interpretação do mundo.

Mas o movimento da escrita, o impulso que revela o escritor não apenas como transmissor de heranças, antes como criador de novas paisagens da alma, bem como a energia que o pressupõe, é na metáfora da adolescência, essa outra região mental onde se desenha em todo o indivíduo a traição à sua tribo, que se deve procurar. Tenho para mim que é na repulsa pelo conhecido, repulsa contra a família, contra a terra natal, os mitos locais, a língua materna, os livros dos seus avós e da sua nação, que se faz o adolescente que deseja ser outro, ser diferente, deseja fundar o seu próprio horizonte e o seu próprio tempo, ser pai de um novo mundo, ser patriarca duma nova tribo. À semelhança do escritor, e vice-versa, o adolescente quer conhecer os limites do universo para se auto-avaliar como aquele que deseja transpor o portal do desconhecido. Aliás, à imagem do adolescente, todo o escritor deseja inaugurar um olhar inovador sobre a realidade e a fantasia, e em geral, confessada ou inconfessadamente, é corrente vislumbrar o futuro da sua própria obra não como descendente mas como fundador. Por isso, em relação à noção de pertença, a Literatura aparece como um território armadilhado pela contradição de nela se negar o que não se pode alienar nem se consegue perder.

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É à luz desse duplo movimento de sedução pelos territórios da pertença, e simultânea repulsa pelos mesmos, que melhor entendo escritores cuja emoção literária me faz com frequência revisitar os seus livros. É assim, por exemplo, que entendo Curzio Malaparte, seu amor e aborrecimento pelo seu país, seu envolvimento e ódio pela Europa da sua época, a que chamou com desespero derradeiro de “Mãe Apodrecida”. Ou Faulkner, do outro lado do Atlântico, ao mesmo tempo tão adverso e tão no âmago do seu Sul conservador norte-americano, contra o seu meio contemporâneo ainda meio esclavagista, e em simultâneo rente à autopunição colectiva de que era parte e com a qual se confundia. Ou o contemporâneo Milán Kundera, inseparável do mundo checo de que se fez crítico, fugitivo e ao mesmo tempo, na força da sua dissensão, exímio porta-voz da afasia de um povo dominado de que na altura se auto-excluía. É assim que entendo Virginia Woolf, em cuja personalidade as correntes culturais que agitavam o Ocidente no princípio do século XX, encontraram ressonâncias extraordinárias. Mas a impetuosidade criadora mais genial dessa figura singular parece ter-se formado contra outro tipo de pertenças – as próximas, as domésticas, as familiares, as nacionais, as do mundo íntimo contra o qual se forjou a élite de Bloomsbury. Antes de mais, uma fuga e um corte com a convenção inglesa. Aliás, em Portugal, o exemplo mais eloquente desse cisma continua a corporizar-se na figura de Eça de Queirós, escritor realista do século XIX que concretizou toda uma obra de carácter irónico excepcional, em torno da contradição entre a pertença negada e a espectacular fuga fingida em relação ao seu país. Distantes ou próximos, em todos vislumbro o mesmo movimento de dissidência, o mesmo desejo do caminhante incorrigível de ganhar o largo, ainda que carregando às costas, sem saber, a soleira da porta donde saiu para não mais voltar. Em relação à questão da pertença, é no meio desse tipo de contradição que me vejo.

Contradição que é feita de múltiplos elementos, tecida de infidelidades várias e dissidências complexas em torno do que é a questão central entre ser e não ser, ou ser e não se conhecer a natureza do que se é. Como explicar a pertença, ou mesmo descrevê-la, se pertencer é uma questão central, e no entanto cada um começa por não saber definir-se enquanto pertencido? As próprias áreas da pertença se cruzam e mesclam indefinindo-se mutuamente. Muitas vezes tenho a ideia de que mais do que à sociedade pertenço às ideias. Mais do que à família pertenço aos que amo. Mais do que à Língua pertenço à Literatura. E mais do que a mim mesma pertenço à dúvida. O que significa que eleger campos de demonstração simplificados implica torná-los visíveis, ao mesmo tempo traí-los e, na complexidade da sua raiz, perturbá-los. Mas não resta outro caminho senão o das simples evidências.

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Assim, a minha primeira ideia, antes de mais, é que acima de tudo pertenço ao mundo, ao mundo contemporâneo que me é dado viver, sendo aí, no seu campo de metamorfose contínua, que encontro o território adequado para perguntar e responder, suster e transformar, acções que mais faço coincidir com a vida .

Ela própria me diz que pertencer significa, como primeiro dado, fazer parte do devir imparável que é o presente, que cada dia amanhece mais adiante e a cada momento funda uma nova era, como disse Musil, e cuja delimitação em termos geográficos não tem significado, ou pelo menos parece não ter. O meu campo de pertença, existência e observação, coincide com um novo “admirável mundo novo” dele fazendo parte, e dele aproveitando os benefícios de comunicação e conhecimento nunca antes imaginados, mas também contra ele reagindo no seu excesso de desumanidades várias. O meu sentido de pertença e sentimento de ser palpável, antes de tudo, define-se em função dos obstáculos à utopia para que aponta o progresso do tempo, como são os objectos inúteis, os objectos de fogo, os detritos, os efluentes ou a imparável pavimentação da terra, sabendo que lhes pertenço, mas que os combato como a castelos inimigos inexpugnáveis e ocupo grande parte dos meus dias em contenda com isso. Julgo mesmo que em parte escrevo sobre a ansiedade por uma espécie de harmonia imaginada, e integro esses elementos como partes de um território de incursão e contenda, perante o mundo que se constrói a uma velocidade incontrolável e com uma opacidade ameaçadora. Uma espécie de pertença contenciosa, gerida sob a iminência do futuro, em torno de uma globalidade genérica que contém homens lá dentro. Homens que não sei se vão ser livres. Então surge-me a ideia de que o território primeiro a que pertenço é o dos homens, na abstracção do conceito maiúsculo de Humanidade e na generalidade do Tempo.

Mas isso não é verdade, ou pelo menos é apenas uma parte da verdade, no que diz respeito à profunda pertença.
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Quando ocorre ler o que escrevo, percebo até que ponto, de mistura com os elementos duma utopia dirigida ao futuro, de carácter pretensamente universal, transporto comigo o lastro dum passado histórico determinado e a raiz duma nação concreta. A própria avaliação que faço do presente e do futuro não está isenta dessa informação à qual, de forma involuntária pertenço. A escrita, pelos actos involuntários que envolve, pelos gestos apelativos que não acautela, revela faces ocultas e indistintas de que nos julgamos destituídos. Na sequência da primeira imagem ocorrida, eu diria que através dela, o ethos, ou os rostos dos Heitores que existem amortalhados, desfigurados, ou mesmo invertidos, dentro de cada um, falam por si sem auxílio de qualquer voluntariosa pertença. Ao lado de gestos displicentes ou até de desprezo propositado contra a nação, sem querermos, Troias, na iminência de desaparecerem sob várias camadas de areia, reluzem dentro da nossa cabeça, na sua importância de cidadelas mentais. A escrita revela isso, como se não pudesse deixar de ser um espelho de faces que não conhecemos, ou que existindo, não gostamos de desvendar. Só assim entendo que de mistura com o confronto que mantenho com o presente enquanto sua parte, me encontre envolvida com os mitos profundos que governam o imaginário dos portugueses, e justaponha o enigma do tempo que passa ao enigma que empurra a configuração particular do meu país.

Percebo, por exemplo, que transporto desde a infância a notícia de uma espécie de proeza acontecida no dealbar do século XVI de que os portugueses foram autores principais indiscutíveis. Concretamente, transporto um sentimento próximo da estupefacção, pelo facto de um pequeno país, na altura com pouco mais de um milhão de habitantes, ter sido capaz de entregar à Europa dois continentes até então desconhecidos, e ter aberto por mar caminhos alternativos para se atingir os outros dois. Em suma, ter entregue a Terra redonda ao Mundo tal como ficou para sempre e com tudo o que se lhe seguiu. Embora rente aos mitos de grandeza também estejam as perplexidades e os mitos que lhe são opostos. Dificilmente consigo ultrapassar imagens controversas desse tempo, e sempre imagino, quando as nomeio, figuras como as de António Faria assaltando e pilhando barbaramente segundo as páginas da “Peregrinação”, ou como as do seu vice-rei, Afonso de Albuquerque, conhecido pelos orientais como o “leão dos roubos do mar”. Vejo com a ajuda de Pessoa, “dedos decepados sobre amuradas” de barcos portugueses, imagens de crueldade infinita desencadeadas à sombra da bandeira de Cristo, abençoadas pela mitologia da época como uma luta limpa em favor da Fé e da fraternidade no céu, matéria formidável para a interminável continuação da “História Universal da Infâmia”. Espaços tenebrosos sobre os quais se estava a construir então uma futura modernidade saída em simultâneo da coragem e do abominável. De qualquer modo, mesmo quando só para visitar os seus lados escuros e os desdizer, vou lá, vou aos mitos do passado do meu país, como se eles concorressem de longe para a compreensão deste presente inapreensível onde me movo e com contra o qual disputo, porque lhe pertenço .

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Então fico a pensar que o enigma de um tempo e de uma nação se assemelha também ao enigma pessoal como partes infinitamente assimétricas mas da mesma espécie, e julgo que afinal, mais do que à questão do território e da História, pertenço ao enigma da natureza, sobretudo a comummente designada por natureza humana.

De facto, interessa-me a pessoa, mais do que tudo, pertenço ao dilema da pessoa, ao território da sua intimidade, ocupo-me da sua composição, suspeitando que a divisão entre corpo e espírito é uma complexa equação sem resolução possível. E esse talvez seja o meu território de incursão e confronto, logo de existência e de pertença, que mais privilegio. A pessoa como contra-destino e destino. Nesse domínio, há muito que me encosto aos olhos alucinados de Emily Dickinson, proferindo com a ajuda dos seus lábios vivos palavras de sedição – “Poeira quieta, tu que foste damas e cavalheiros.” Digo em voz alta. Eu mesma fico quieta e muda, à espera que a poeira se mova e se revele. Não revela. As próprias palavras na surpresa do seu encontro são a revelação. Não há outra. Então socorro-me dos escatológicos, aqueles que desesperados pela ausência de um nome justo para o habitante do corpo, invectivam o corpo, o anatomizam e o descrevem como órfão de uma paternidade inominável, e o vêem ligado à terra e ao estrume como a ficha se liga à tomada. O biodegradável corpo exposto, na expectativa de nomeação, à espera de um princípio que o salve de ser nada. Ou penso, com a ajuda do austríaco Ernest Jandl , as suas próprias palavras – “la machine à merde est pour est pour l’essentiel en toi/ miracle de la crétion, merveille chancelante/ tu n’es ni son ingénieur ni son inventeur/ mais son propriétaire, gardien et profiteur”. Pronuncio assim mesmo essas exactas palavras de abjecção, porque elas traduzem o sentimento dos que se sentem sem-terra de tudo ser só terra, se sentem sem-corpo, de tudo ser só corpo, a ligação cortada entre o céu e a matéria. Cortada, como um estado decepado, um trauma. Eu própria acho que nunca escrevi nenhuma página que não tivesse essa inquietação implícita, mesmo quando não expressa. Mais do que a um lugar ou a uma viagem, pertenço à região desse ferimento e à inquietação que o sustenta.

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Só que de novo, atrás do homem está a História, mesmo quando reduzido ao papel fantasioso de personagem comum. Na verdade, mesmo quando julgo o contrário, descubro que jamais escrevi apenas sobre a fotografia da mãe antiga colocada sobre a aba da mesa moderna. Sem o desejar, o mundo de onde a mãe e a mesa procedem arrastam rios de tempo significativo e lugares habitados por gente histórica, fazendo confluir atrás de si todos os outros elementos de pertença. Em ficção, a espera de um laço salvador que una as metades do corpo, com a outra parte que o nomeie, toma a forma de personagens comuns que devem viver só por si, e em simultâneo entroncam no destino de personagens herdadas de há séculos, por estranho que pareça. Talvez porque dos mitos - aos quais de novo voltamos - sobejem partes móveis que caminham activas ao encontro do presente, desde que o presente ainda os continue a entender como traumas e coincidam consigo. É o caso do sebastianismo, entre nós, por exemplo.

Trata-se da história dum jovem rei lunático, sem filhos, que desapareceu em luta contra cinco reis mouros, nos areais do Norte de África, no final do século XVI, e de onde nunca mais voltou nem vivo nem morto, dando origem a uma expectativa de regresso salvador que foi passando de século em século. Figura real enlouquecida, misto de Quixote e Godot, foi permanecendo até hoje, no meu país, confundindo-se com a noção corrente de que o bem e o bom estão do lado de fora, que tudo o que há a fazer é deixar a porta aberta para que aquele que vem possa entrar. O mito é terrível pelo imobilismo que arrasta. Diria mesmo, aparentemente, desajustado à realidade actual. No entanto, como muitos outros, através de algumas personagens, percebo que eu própria o transporto, mesmo que deseje fugir do país que o contém e o renegue por deliberação tomada. Pois por que razão o não transportaria eu como os outros, como cada um? O universo de uma população é feita por acaso de números abstractos? E não é quem escreve uma pessoa comum? Então porque razão quando me pergunto sobre o destino do corpo e a natureza do seu habitante invisível, hei-de estar a salvo desse terrível fantasma que habita os cantos do meu país, alma sem corpo, fantasma no corpo de gerações e gerações sucessivas de gente que o perdeu e nunca o encontrou? É vergonha dizê-lo? - Quando menos me dou conta, percebo que esgotado o vocabulário da dúvida, eu mesma pertenço ao fantasmas.

Mas há mais.

Por exemplo, durante séculos, o corpo geográfico do império funcionou como uma realidade descomunal. Desde o século XVI que os portugueses se gabavam, com a ajuda dos versos de Camões, de jamais se pôr o sol nas terras de Portugal, aquém e além mar, sendo África depois da independência do Brasil, a jóia mais preciosa da coroa, destino transcendental da pátria. Mas no final do século XIX, estabelecida a disputa entre as potências europeias pelos domínios africanos, Portugal foi vencido pelos ingleses na contenda da partilha de África. Ainda hoje o hino nacional português, nascido na sequência do célebre mapa-cor-de-rosa, mantém os vestígios desse terrível momento de perturbação. Acaso não se reconhece no refrão do hino nacional, “Heróis do Mar”, a letra primitiva “Contra os bretões, marchar, marchar...”? Na altura, uma das formas encontradas para reagir à perda? Não admira que o ridículo e a perda sejam comportamentos que passam para os domínios próprios da Literatura, mesmo que ela seja por natureza muito mais transfiguração do que retrato.

E setenta anos depois, em relação a esses mesmos domínios em África, não ficaria envolvido o país numa Guerra Colonial fora de horas, tão dolorosa que ameaçava fazer apodrecer todo o tecido social, e que viria a terminar, fora de horas também, por uma perda tão grande, que ainda hoje não se consegue gerir com decência, nem do lado de cá nem do lado de lá? Pois talvez seja difícil a qualquer escritor da minha geração falar do corpo e do fluido que o anima, sem que a referência ao esfacelamento inglório de contingentes inteiros ocupe um lugar de destaque. É mesmo capaz de ser difícil, para uma pessoa que fez a guerra de África ou a acompanhou, e teve o seu primeiro embate com a morte desse modo e nessas paragens, de não perguntar pelo sentido do corpo, vendo diante de si, gente esmigalhada, entregando o corpo à terra no meio do mato, por uma causa de nada. E quem diz o sentido do corpo diz o sentido do dever e do desejo, e do amor, talvez o da morte em primeiro lugar. A prova de que uma parcela de nós mergulha no terreno colectivo de que faz parte, sobretudo se parte das narrativas que o constroem ainda não estão fechadas.

7

No caso do nosso tempo presente, todas as narrativas se encontram abertas, dispostas à transfiguração, sobretudo quando o presente que testemunhamos e vivemos se afigura enquanto problema. Há momentos e países que pela sua situação de aceleração histórica, ou por confluência de factos, se encontram mais disponíveis à transfiguração do que outros. No caso português, a própria natureza das mudanças ocorridas durante os últimos vinte cinco anos, torna inevitável, ou pelo menos propicia a criação do outro relato, o ficcional, aquele a que Carlos Fuentes designa por “criação de uma Segunda História que cega e diminui a dos historiadores de arquivo”, baseada na memória e nos projectos pessoais. A propósito da Literatura portuguesa recente, é corrente referir-se essa coincidência.

Mas aí também, como em tudo o mais, sempre se pertence às conjunturas históricas por círculos concêntricos, de intensidade diferente e de vária natureza. Nesse domínio, mais do que ao meu país de há vinte cinco anos atrás, pertenço à determinação e ao acontecimento que lhe mudou o rumo. Pertenço à matéria palpável da alegria que aconteceu na sequência de uma revolução que pôs termo à ditadura de meio século que se havia abatido sobre a sociedade portuguesa desde os longínquos anos vinte, até aos anos setenta, ditadura sustentada por élites sem qualquer noção de partilha e por um povo iletrado e supersticioso destituído, na sua generalidade, de qualquer noção de revolta. Pertenço ao dia em que essa cadeia de equilíbrio recíproco se quebrou, em que fui testemunha de como é possível inverter a marcha do que parece inevitável, pela força da coragem pessoal de um grupo. Pertenço a esse momento como a um ponto de encontro entre a justiça e a inversão do destino, em forma de gente, milhares de fotografias a preto e branco, com flores vermelhas. E porque essa certeza foi adquirida quando a juventude ainda se assemelhava à adolescência, ela incorporou-se no sangue, ou no genoma, ou seja onde for, e transformou-se numa espécie de segurança que me sustenta o ser. Ou melhor, esse momento habita comigo como um ente querido, tem corpo e ocupa espaço e reivindica gestos, como uma pessoa de família. Pertenço a esse momento como se pertence a uma geração, e penso mesmo que a minha geração, se existe enquanto consciência de grupo, está concentrada em torno desse acontecimento. Assim como pertenço à sociedade que daí saiu, a braços com a redefinição dos seus vizinhos, seus aliados, seus novos valores e duros percursos, suas metas demasiado altas para serem atingidas demasiado rápido. Uma sociedade na generalidade constituída por gente muito pobre que rapidamente começou a desejar ser muito rica, mais do que ser democrática ou estimar os valores da partilha, do saber e do discorrer livre. Porque uma parte dela, muito mais do que era suposto imaginar, continua a desejar prolongar estruturas mentais que faziam o mundo antigo. Nesse domínio, pertenço-lhe por repulsa e por mágoa. Pertenço-lhe por inevitabilidade de lhe pertencer. Por isso, mais do que à sociedade dentro da qual sou número e tenho um nome civil, pertenço ao mundo dos meios que a reproduzem por palavras, a lêem em termos críticos ou mais propriamente a alteram e a transfiguram. Pertenço-lhe com a mesma contradição com que pertenço ao tempo contemporâneo.

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Pertenças várias e inúmeras que funcionam como laços mas também como destinos e condenações, ou como matérias-primas, no caso de se encontrar o veículo que as transporta para o lugar do não-destino. Por exemplo, a Literatura, que em si mesma é um espaço de corte e liberdade. E que dizer sobre isso?

Que pertenço à Literatura, campo das palavras libertas do real, e dentro dela à ficção, o terreno da transfiguração dos factos em actos simulados. Na verdade, a sua natureza e função consistem em escolher, inverter, desfigurar o que está dentro da matéria das pertenças, de modo a produzir-se uma nova realidade verdadeira, que não se opõe à realidade falsa, e nesse salto de qualidade e espécie, consiste a criação, isto é, o acrescento de alguma coisa ao mundo que antes lá não estava. Naturalmente que se pertence à Literatura e à ficção sem a noção dessa importância. Começa-se por se pertencer porque sim, porque acontece, porque se tem a ideia, como leitor, de que se pode sonhar. Depois é que se entende que se pertence a uma matéria que se desprende da prisão do real, para dizer que ele não é suficiente, impondo-lhe uma nova lógica, ou tornando-o visível nas suas partes vivas, lá onde havia um limbo amalgamado. E na participação dessa acção de liberdade, consiste nascer o criador que é o leitor e é o escritor, diferentes, mas irmãos. Nascer e crescer no espaço de liberdade que permite abrir uma nova possibilidade entre as outras, e desse modo, à reprodução de qualquer dilúvio terrível que esteja em nossa mente, sempre se pode juntar uma barca. Pelo menos, se outra não for, que seja a própria barca das palavras, a que melhor une um a outro.

Ou por outras palavras, a Literatura, e dentro dela a ficção, permite que a corrente falada em todas as direcções, como uma matéria optativa permanente, transforme o outro num igual a mim mesmo, e se crie um corpo de afinidades consentidas, responsabilidades cruzadas e culpas divididas, já que procura atingir, através de cada personagem, simulacro de gente, o coração profundo do homem, esse local onde as diferenças se esbatem em torno daquilo que faz cada um dos implicados pertencer a um todo. Determinada noção profunda de comunidade, só se aprende na Literatura. Nesse sentido, para alguns leitores da minha geração, o romance “Por quem os Sinos Dobram”, acabou por ser muito mais importante pela epígrafe que permitiu o título do que pela longa narrativa em si mesma. Hemingway apenas copiou, como portal da primeira página desse livro admirável, a invectiva de John Donne – “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra; se um Torrão é arrastado para o Mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um Promontório, como se fosse a Casa dos teus Amigos ou a Tua Própria; a Morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do Género Humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por Ti”.

Pertenço à Literatura e dentro dela à ficção, por esse serviço que presta à totalidade, em torno dos desejos que nos são comuns traduzidos em imaginação pela palavra liberta. Em Literatura, não há imobilização nem morte de Heitor. O momento de pedra que não se ergueu entre a Batalha e a Bastilha, está sempre a ergue-se. Um e outro são válidos sem a fronteira das palavras das línguas, agarradas à circunstância geográfica. Aliás, na contradição entre pertencermos e libertarmo-nos daquilo que pertence à Língua, que sempre escreve o modo do nosso pensamento antes de nós próprios podermos escrever, e connosco se confunde como parte do nosso corpo, a língua materna é uma liberdade e ao mesmo tempo uma condição insuficiente.

Neste campo, seria mesmo uma falta não dizer que pertenço à Língua Portuguesa. É com ela que estabeleço a minha luta e o meu confronto e os meus actos mais livres que são os de dizer. A exaltação das suas virtudes e possibilidades não pode ser regateada. Existem monumentos infindáveis de elogio à minha língua e concordo com todos eles. Mas por vezes dou por mim à procura de nuances que não apresenta, modos que impõe, liberdades que me tira ao lados das liberdades que dá. Talvez como em todos os outros idiomas, lhe faltem palavras para traduzir sentimentos complexos onde os vocabulários são simples. Faltam chaves. Faltam, por exemplo, termos para traduzir a voz dos seres que se movem e nos imitam nos actos do sono e do amor, mas não falam nenhuma linguagem que se entenda. Faltam as palavras para traduzir o que diríamos se fôssemos seres inanimados que não nos dizem nada e nos quais julgamos existir uma natureza significativa. Uma vez que somos pouco e o mundo da expressão é vasto, por que razão as línguas não são tão vastas, nem tão dúcteis nem tão universais quanto sonhamos, para que a Literatura seja um campo sem barreiras? De facto, a vocação da Literatura é fundir-se com o próprio segredo do mundo que permanentemente questiona, como se antes de nós tivesse havido um acto interrompido, e as palavras, acima das fronteiras das línguas, ainda pudessem ligar o mundo ao seu sentido. Estar aí, saber que não posso sair desse dilema nem o posso resolver, é a minha pertença.
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* Texto publicado nos Cahiers de la Villa Gillet (N.º 13, abril, 2001),
tradução de Margarida Ochôa e Pierre Zalessky,
e na Revista Atlântica (N.º 5, volume outono/inverno de 2006/2007).
Reconstituição de uma intervenção na Villa Gillet (Lyon, 2000),
no ciclo de Conferências sobre Literatura Europeia.