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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Depoimento * Seu chamamento é uma corrente de escrita

A força do mar

Lídia Jorge *

As Correntes d’Escritas passaram à fase adulta, têm dez anos e uma história pública para contar – Mesas, cerimónias, discursos, participantes nacionais e estrangeiros, evolução da assistência, evolução dos serões, dossiers, fotografias, autógrafos, cinema, música, prémios, e tudo o mais que em breve constituirá o acervo dum encontro literário que tem carimbo único entre nós. Promovido por uma edilidade costeira, numa antiga cidade de pescadores, sem outros apoios que não sejam os locais, é natural que ao chegar a segunda semana de Fevereiro de cada ano, em face do que ali acontece, se fale invariavelmente de milagre. O milagre da Póvoa de Varzim. Por essa altura, diz-se, e com razão, que todas as auto-estradas da cultura vão ter à Póvoa, e todos os caminhos das Culturas de expressão ibérica vêm ter a esta Santiago dos Livros. Oficialmente, as Correntes d’ Escritas são uma espécie de tapona de luva branca que uns quantos teimosos dão no rosto dos que teimam em dizer que em Portugal as iniciativas fora do desporto e da religião não vingam. Neste caso, vingam. E florescem, como se vê, por tudo o que se anuncia para esta edição de 2008.

Mas se As Correntes têm a sua história pública, a que a cada ano se acrescenta uma página, os participantes têm as suas histórias privadas.

Não nego que a minha história privada com as Correntes d’Escritas tem sido intensa. Tem-no, por certo. Do privado mais público, recordo debates que me marcaram profundamente. Como foi aquele cujo tema era O Medo ou o Fascínio do Desconhecido, que Alexandre Quintanilha dirigiu com pulso científico, e foi pena que as palavras tivessem desaparecido no vento. Dos vários painéis a que assisti, ao longo dos encontros da Póvoa, e de entre alguns outros de que participei directamente, até agora, a memória elege-o como momento emblema do que pode ser a associação benéfica entre linguagem do método científico e a retórica literária, cruzadas como se fossem uma só. A retórica literária que sempre se repete, com variáveis imprevisíveis, é verdade, mas cuja novidade sobre o processo logo se gasta, pois escrever leva sempre até ao inesperado, mas falar sobre o inesperado conduz inevitavelmente à repetição. Em contacto com o discurso que provém da ciência, a retórica literária acaba ela mesma por multiplicar os ângulos de observação, desdobrar-se em novos sentidos, e em vez de quinhentas portas, abrem-se mil, quando os dois campos encontram um porta-voz que saiba unir as pontas dos dois tipos de desconhecido. Foi o caso. Lembro-me do que aconteceu. A sala do Auditório Municipal estava repleta, naquele ponto em que a presença de tantos intimida, e no entanto, quem falou, falou do seu medo e da forma como ele age sobre a descoberta, como se ali não estivesse ninguém mais do que um só destinatário. O silêncio escorria das paredes. De todas as intervenções, recordo em especial o texto lido por Tabajara Ruas sobre a descoberta da vida duma mulher louca, encarcerada, e sobre o modo de como esse encontro com o mistério mudou a sua vida de rapaz. Essa foi uma das confissões mais sentidas que já ouvi da parte de um escritor, até porque a narrativa não era cómoda. Dessa mesa, participavam a Ana Paula Tavares, o Luís Sepúlveda, o Luís Alberto Vieira. E todos os seus testemunhos foram verdadeiros, porque se sabe quando alguém está a dizer a verdade, mesmo que aquilo que diga não corresponda aos factos. Eles só precisam de corresponder à verdadeira realidade para serem verdadeiros. Naquela mesa sobre “O Medo e o Fascínio do Desconhecido” todas as frases eram verdadeiras. São momentos que marcam, mas nunca podem ser repetidos. Isso passou-se em 2004.

Um outro instante privado muito especial aconteceu com o anúncio de que um livro meu tinha ganho a primeira edição do Prémio Correntes d’Escritas. Fiquei a saber, ali mesmo, naquele momento preciso. Foi alegre e foi difícil. Sob o efeito da surpresa, só pensava no Eça, nascido na Póvoa, e sem nenhum prémio ao longo de toda a vida, e acho que disse isso mesmo, e que pedi desculpa ao Eça pelos seus contemporâneos que não o viram como deveriam ter visto, e por nós mesmos, cujo orgulho e cuja timidez nos põe calados. E disse outras coisas mais, com pouco jeito. A questão do prémio passou-se em 2005.

Mas estes instantes ainda têm o seu quê de público. Pois os instantes privados, os verdadeiramente privados, esses não se mencionam nem se escrevem. São de cada um, só por si. Os meus relacionam-se com o mar da Póvoa, com as ondas que ele envia na direcção das janelas do Novotel, as ondas do mar que se atiram contra a praia, que vêm a caminho do jardim, que empregam a sua força brava para nos alcançar no interior do quarto, o mar que se atira na nossa direcção, na direcção da sala onde trocamos e-mails que não mais serão usados, e nós sentados, discutindo e berrando, e ele bramindo, mas ainda é cedo, ainda não nos alcança. E no entanto, ali está ele a chamar, a chamar. O seu chamamento é uma corrente de escrita que ainda não escrevemos nem decifrámos.
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* in Revista Correntes d'Escritas | Póvoa do Verzim (11 de fevereiro de 2011)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Depoimento * Permanente exercício de translação

A perspectiva da maga

Lídia Jorge *

Para Agustina-Bessa Luís, o contraditório é o chão do pensamento. Quem não entender essa sua raiz profunda terá dificuldade em compreender a obra que produziu, o vínculo que estabelece com o mundo, com os livros, e até mesmo o tipo de relação que mantém com os colegas de quem é contemporânea. A obra aí está para o ilustrar – Ler Agustina é mergulhar num mundo de virtuosismo entre pensamento e ficção, destrinça entre instinto e alma, discurso cujos contornos podem assentar no histórico ou no jornalístico, mas o nuclear sempre se constrói rente ao humano individual, no que ele tem de insondável e nele se constitui como fonte de surpresa. A surpresa que Agustina faz falar através da análise da ambivalência humana, onde se jogam as oposições que formam o universo da interioridade. O mesmo é dizer que imaginar a Literatura do século XX sem a obra de Agustina, seria amputá-la da sua fatia mais densamente dramática.

Mas se se quiser entrar no domínio da escrita produzida por mulheres - particularidade que continua a fazer sentido - nela se encontra uma espécie de sublevação em relação àquilo que, em geral, é o estereótipo feminino, fundamentado num contraditório ainda mais radical.

À primeira vista, Agustina sempre escreveu para além do ressentimento, já que parece ter impregnado as figuras de mulher daquele carácter a que comummente se chama de viril, e eu chamaria apenas de vencedoras no plano da representação, por compensação da perda no plano do real. A frase de Nietzsche que ela tão subtilmente manobrou em Um Cão que Sonha – Se fores ver a mulher leva o chicote- sob os seus dedos, muda de mão, e o cabo desse instrumento confunde-se com a caneta que empunha, para com ela vergastar a fragilidade do homem. Mas não é fácil em Agustina encontrar algum campo de leitura linear, directa, e muito menos pacífica. Para os espíritos mais convencionais, Agustina promove surpresas espantosas, colocando-se no lugar de onde a mulher vergasta a mulher, depreciando-a. Pois não é raro Agustina falar da mulher como um ser sem causa, um ser desempregado de ambição, uma alma vaga, deambulando ao sabor do acaso e do apelo, uma criança grande acomodada a um eterno segundo lugar.

Surpresa? Contradição? De modo algum – Apenas um permanente exercício de translação. Pois lá onde Agustina parece estar, não está. Apenas ali se encontra a sublevar os espíritos, essa acção superior que atribui à escrita e à conversação, e para a qual sempre está necessitando de novos espaços para mudar de mira. Qualquer dialogante desprevenido, diante de Agustina, pode sentir-se de facto mais conforme com aquilo que a modernidade espera de cada um de nós, mas a autora de “Os Incuráveis” é sempre moderna porque se coloca fora da dualidade presente/passado, e bem vistas as coisas, fora da dualidade homem/mulher. Agustina vê-se a si mesma numa perspectiva de futuro, e escreve e fala na perspectiva da maga. O molde que encontrou para esse salto fora do tempo e do género, nos livros, foi a sentença e a epígrafe. Na discussão, foi a exploração do adverso, isto é, da contradição revestida do irónico, e até do irónico prazenteiro. Porque Agustina, como se lhe reconhece, sabe rir do mundo como ninguém. Como poucos, ri de todos, e entre todos - ao contrário do processo usado por muitos - ela mesma, lá não está.
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* Publicado na Revista Ler, janeiro de 2009

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Depoimento * Eduardo Lourenço

Trapezista do Absoluto

Lídia Jorge *

1.

Numa notável entrevista que Eduardo Lourenço deu à revista Ler, disse o autor d’ O Labirinto da Saudade que se sentia em dívida para com a Humanidade inteira. A confissão não é de pouca monta e daria para um leitor desprevenido pensar que se trata duma jonglerie destinada a ser lida ao contrário - um homem que assim se mostrasse devedor diante de um tal absoluto, bem poderia ser aquele que se sentisse credor duma dívida que não cobrou.

Mas não é isso que acontece. Pronunciada por Eduardo Lourenço, aquela afirmação deve ser lida de forma literal, sobretudo se tivermos em conta que uma tão grande culpabilização vem acompanhada pela ironia que caracteriza o seu autor, e reflecte tanto da sua desistência sábia quanto do seu espírito bem humorado. Ela revela o lado luminoso que Eduardo Lourenço bem poderia ter emprestado a Pessoa para ilustrar o heterónimo que lhe falta, aquele que fosse ao mesmo tempo jovem sábio e trapezista do absoluto, a máscara de adolescente risonho que o poeta não pôde criar. Em Eduardo, talvez seja essa alegria encantatória o impulso que explica o desprendimento de si mesmo, a entrega do seu saber a causas, e sobretudo a aplicação do seu olhar original sobre o Mundo ao serviço da contingência diária..

2.
Ou por outras palavras, presume-se que Eduardo Lourenço não deva nada a ninguém. Durante décadas, aquele de quem se diz que ensinou Portugal a pensar, aplicou grande parte do seu pensamento na decifração do valor dos outros, serviu os outros, procurou para eles lugares de significação na Literatura, na Arte, na Política, na Comunicação, nos modos de ser e até nos costumes. Ou como já alguém disse, ajudou a criar as nossas estátuas de pedra, enquanto sobre si, deixou que o silêncio caísse. Mas numa altura em que se começa a avaliar a dimensão da sua obra formal, e a reunir a obra dispersa, é impossível não perceber quanto lhe somos devedores. A lista de dívidas é longa, ainda que não aleatória.

O que lhe devemos, de forma prioritária?

3.
Devemos-lhe acima de tudo ser quem é, e depois devemos-lhe o facto de se ter mantido longe do país, e a partir dessa distância tê-lo interpretado na crueza da sua fixidez, sem nunca o ter feito com a soberba que caracteriza os estrangeirados. Apesar de ter reconhecido como ninguém a dificuldade de ser que faz parte da vida mental desta “margem da margem”, essa decifração a que se entregou como destino nunca lhe deu passaporte para o lugar do escárnio. Pelo contrário. Com os filósofos da grande decepção na bagagem - Nietzsche, Kierkegaard, Sartre - Eduardo Lourenço sempre falou do seu país a partir de longe, com a proximidade e a delicadeza de quem analisa um objecto amado. O que não é coisa pouca. Na sua escrita inclassificável, entre poesia e ensaio, existe sempre essa marca de projecção psicológica entre clarividência filosófica e tensão emocionada. A mesma emoção que deixa transparecer nos seus improvisos retóricos que os torna únicos.

Aliás, se eu tivesse de agradecer pessoalmente alguma coisa a Eduardo Lourenço, do muito que há para agradecer, escolheria aquele discurso de há dez anos atrás, ocorrido num fórum em Frankfurt, quando teve de falar de improviso sobre a Europa, as religiões e o futuro. Num primeiro momento, deu a impressão que iria desaparecer, entre Mário Soares e Dietrich Genscher. Mas afinal o que disse, numa voz demasiado frágil para a dimensão do palco, parecia absurdo, e acabou por ser profético. Pena que aquilo que disse não tivesse sido traduzido em todas as línguas do Mundo.
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* in revista Visão (2 de outubro de 2008)




terça-feira, 7 de agosto de 2007

Depoimento * Sobre As Velas Ardem até ao Fim

Um livro da minha vida

Lídia Jorge *

As Velas Ardem até ao Fim é um dos livros de ficção mais belos que li na minha vida. Foi um poeta catalão quem me chamou a atenção para o seu autor, o húngaro Sándor Márai, aqui há uns anos. A edição espanhola que então me ofereceu e guardo com imenso carinho tem um título diferente – O Último Encontro. Trata-se também duma boa tradução, mas felizmente que o título em português é mais íntimo e revelador da profundidade e da magia poética da obra.

É difícil resumi-la. Trata-se da história da amizade entre dois jovens aristocratas no princípio do século XX, aproximados pela mulher de um deles, a bela Krisztina, e também por ela afastados, sem que nunca tenham conseguido esquecer nem o sentimento que os uniu nem os motivos dramáticos por que se separaram. O encontro de dois velhos amigos que não se falam há quarenta anos, serve para um ajuste de contas sobre esse episódio do seu passado, durante uma refeição especial. É esse prolongado jantar, uma espécie de longa cena de teatro que se desenrola durante uma noite, que permite escutar o fio narrador de uma voz, só de vez em quando interpolada, durante a qual as velas vão ardendo até ao fim.

Todo o livro, um pequeno livro de cento cinquenta páginas, está escrito com sobriedade e elegância, conhecimento de alma e juízo de valor implícito, conhecimento dos comportamentos humanos e malhas da sua dissidência, e a assumpção do pensamento revolto que sobrevive no domínio do poético. Quando pretendo ler em voz alta umas páginas que ilustrem como a narrativa feita com palavras continua a ser única na reprodução dos conflitos humanos, seus abismos e seus sonhos mais íntimos, escolho aquela passagem em que um dos personagens, Konrád, pretende matar o seu amigo numa madrugada, no meio da floresta. Como o poupa, por que o poupa, e tudo isso é contado, não pela voz do sujeito da tentação, mas pelo outro, Henrik, aquele que no último momento foi poupado. Esse, o velho general, passados quarenta anos, à luz das velas, pode reproduzir o bombear do coração do amigo como naquela hora trágica de revelação, durante a cena da caça. Inesquecível. Este livro e o seu autor têm histórias europeias bizarras que não cabe contar aqui. Mas servem um e outro para os leitores se reconciliarem com a ficção, quando por acaso se tenham desentendido com ela, enquanto proposta de Arte.
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* Publicado no semanário SOL, agosto de 2007

terça-feira, 3 de julho de 2007

Depoimento * Ortografia, caligrafia...

Ortografia,
a nossa impressão digital


Lídia Jorge *

Em torno da questão dos erros ortográficos, criaram-se várias lendas perniciosas. Uma delas é a que estabelece a confusão de que a eficácia de um texto resulta basicamente da sua correcção ortográfica. Não é verdade. Todos sabemos que a ortografia é apenas um dos aspectos da construção de um texto. As pedagogias modernas, que têm de admitir que se está perante uma mudança do registo escrito, por influência do impacto da comunicação audiovisual, e do auxílio dos correctores automáticos a que as próprias crianças têm acesso, procuram adaptar-se a quadros futuros que não são muito conhecidos, e reagem ainda um pouco às cegas. Ou pelo menos por tentativas. Creio que a crescente tendência para se compreender que o erro ortográfico só por si não determina a qualidade da expressão tem vindo a acentuar-se, tendo por base algumas boas razões. Aliás, desde sempre que se sabe que muitos alunos com boa capacidade de expressão e criatividade, por vezes cometem erros ortográficos. A questão está no grau do erro. Se uma criança aos doze anos continua a escrever lilás com z, assessor com c, azarado com s, não parece grave, podendo-se confiar que o auxílio do corrector irá ajudar a fixar a forma certa. Já a permanente confusão entre andasse e anda-se, ou a supressão do h em determinadas formas do verbo haver, atinge confusões que são basilares do ponto de vista da estrutura semântica da língua e é objecto de preocupação de qualquer professor de português. Estamos perante um campo em que só tem grandes certezas quem nunca lidou ao vivo com as dúvidas.

No entanto, em nenhuma situação, muito menos na situação actual, me parece que seja bom facilitar o laxismo ortográfico. O saber ortográfico é um saber relevante. Quanto mais as crianças interiorizarem as regras da escrita correcta, mais independentes ficarão do auxílio do aparelho de correcção, e essa autonomia é altamente construtora. O desembaraço mental em face das distinções ortográficas funciona para a Língua Materna como a Tabuada funciona no domínio do cálculo matemático – favorece a rapidez, automatiza nexos, poupa e prepara para avançar nos raciocínios e associações. Todos os professores o sabem. A ortografia não é uma pele superficial da expressão verbal, é uma estrutura profunda que se revela na imagem grafada. Por isso mesmo, interpreto a divisão ocorrida em recentes provas de exame, entre questões destinadas a serem avaliadas do ponto de vista ortográfico, e outras, as destinadas a avaliar a capacidade de interpretação, apenas como uma questão metodológica formal. Depreende-se que sejam campos diferentes para avaliação, e não áreas diferenciadas de valorização da Língua. Imaginar que se incite com isso as crianças a escreverem mal em determinadas frases, e noutras não, seria imaginar uma divisão esquizofrénica incompatível com qualquer tipo de aprendizagem séria. Não pode ser isso que está na mente de quem constrói as provas. Não acredito. Há que imaginar que os professores desejam que os alunos portugueses sejam rápidos, vivos, falem e escrevam correctamente, tornando-se aptos para recriar a Língua, adaptá-la, acrescentá-la, e não vocacionados a malbaratá-la e a degradá-la, propriamente. Não se pode ser um ignorante ortográfico. E em toda a altura do percurso escolar - eu diria que durante toda a vida - a aprendizagem ortográfica faz parte da formação individual e permanente da pessoa cultivada.

Aliás, sempre me admirei da sensação de impotência manifestada por alguns colegas professores perante os erros ortográficos dos alunos, que chegados de outros níveis de ensino, se lamentavam do seu estado de imbecilidade ortográfica, como um destino imutável. Sentimento particularmente agudo nos professores das outras áreas disciplinares. Pois talvez a arte de um professor de português, nesse campo, possa passar por fazer divulgar que errar ortograficamente acontece a todos, incluindo os profissionais da escrita, e os próprios escritores. Que o digam os revisores de livros e os copy-desks dos jornais. Ninguém domina todo o leque ortográfico duma Língua, mesmo sendo a sua Língua Materna. Esse ponto de partida nada tem de humildade, só tem de realismo. O estabelecimento de exercícios de correcção por tipologias de erros pode ser adaptado a todos os níveis de ensino. Ficaria bem que todos os professores se empenhassem em corrigir os erros ortográficos, sobretudo os aduzidos pelas suas matérias específicas. Explicar o que significam etimologicamente consideração, bissectriz, ou protozoário, não será da responsabilidade do professor que usa as palavras para se fazer entender?

Nunca fui professora de crianças pequenas. Desconheço sem dúvida muitos dos segredos que fazem um bom professor de Língua Materna nos primeiros anos. Não tenho dúvida, porém, que é por aí que a maior fatia da aquisição é feita em muitos aspectos, e também no ortográfico, que em parte é caligráfico. Essa ideia de escrita bonita que se perdeu por completo - e não se deve retomar, evidentemente - encerra contudo a ideia de que unidas, ortografia e caligrafia, podem fazer da criança, e do adolescente, pessoas que aprendem a usar a sua expressão com dignidade. Nós somos a nossa escrita. A grafologia é um saber romântico de interpretação da pessoa a partir da sua marca sobre o papel. Os computadores afastam a nossa assinatura sobre o papel. Distanciam-nos dele. Mas o homem afirmativo não é aquele que luta pela individualidade da sua própria impressão digital? - Eu não descuraria, na escola, a arte de escrever sem erros, a arte de desenhar as letras com legibilidade, a arte de nos inscrevermos com assinatura própria no papel, pelo menos enquanto não for inventado um outro suporte, menos evanascente que um écran. Eu continuaria a ser prudente, não correria atrás da tendência, procuraria controlar a tendência. Preparar-me-ia até para a sua aceleração, que no seu reverso, costuma acarretar uma boa dose de vingança. Procuraria evitar a todo o custo que a única assinatura de um jovem, num futuro próximo, fosse apenas um grafitti na parede.

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* in Público, 3 de junho de 2007

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Depoimento * A Sophia

Das nossas vidas
Lídia Jorge *

Estou contente – Pouco a pouco, a Sophia vai perdendo os longos apelidos e vai ficando reduzida à imensidão do seu primeiro nome. É vergonhoso elogiar demais, as apoteoses arrastam consigo alguma coisa de faustoso impróprio da admiração. Mas como dizer sem dizer? Ultimamente várias são as mulheres que têm dito - Ela foi a mulher da minha vida. Não sei em que lugar me encontro, nem que lugar ocupei na reciprocidade do seu afecto, mas junto-me a todas as que assim pensam para dizer que Sophia também foi a mulher da minha vida. E tudo isso, só porque os seus livros finos ocupam meia estante?

Sim, porque os seus livros finos ocupam meia estante e lá dentro se encontra uma matéria encantada pelo deslumbramento em face do concreto da existência, com as palavras exactas, as imagens claras, as narrativas límpidas. Como se tivesse atravessado um século que dependurou a beleza da escrita na agrura da existência e ela, tendo dado por todas as tragédias, se tivesse recusado a fazer da escuridão o seu ingrediente. Mesmo nos poemas sobre o mais soturno e inferior, ela encontrou uma forma límpida para criar a repugnância. Abre-se o Livro Sexto e lê-se - O velho abutre é sábio e alisa as suas penas/ A podridão lhe agrada e seus discursos/ Têm o dom de tornar as almas mais pequenas. Mesmo aí, mesmo do interior desse tempo obscuro e dos seus heróis de terror, a sua escrita parte ao meio a realidade, separa-a nas duas metades e envia o desperdício para o monturo, como uma rainha que ensinasse a subtileza a todo um povo. Por isso mesmo os seus livros finos, que só enchem meia estante, são para muitos de nós mais do que a obra dum poeta, são uma cartilha para ler ao espelho e fazer nossa.

Mas ainda assim, apesar de tudo, Sophia poderia não ter sido a mulher das nossas vidas. Por que razão é? – Porque a própria vida, ela a viveu assim. Quem alguma vez se tenha sentado ao seu lado, conheceu sem dúvida uma mulher tão inteira quanto a escrita. Como pessoa, guarda-se dela a imagem duma compaixão altiva pelos outros, uma integridade perfeita, uma interpretação da mudança do Mundo pelo lado do respeito pelos seres humanos, como se a Humanidade fosse coisa de um deus. O seu Deus. Graça Morais representou essa impressão de grandeza num quadro admirável, a que chamou Sophia e o Anjo. Nele, a Sophia olha para cima e o seu busto está inteiro, o cabelo cai-lhe pelas costas. Mas o corpo é dum Minotauro sem as patas. Fico feliz com essa imagem. Quem não se lembra da voz da Sophia, presa à terra, sem rumor daquilo que a ligava ao chão? É bom dizer, porque não se pode repetir com frequência - Em Sophia, não havia coexistência entre o poeta e o estupor. Nela, tudo era poeta sobre poeta. E é esse sentido da realidade natural e limpa, onde as coisas brilham no horizonte de forma inaugural, que faz dela a mulher das nossas vidas.

Um nome só para Sophia? - Sim, para se parecer como ela própria, em livro e em vida.
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* Texto publicado na colectânea de depoimentos "A Sophia" (Ed. Caminho, 2007)

quinta-feira, 1 de março de 2007

Depoimento * Move a história do desencontro

Aposta em Patrícia Reis

Lídia Jorge *

“Morder-te o Coração” não é uma proposta canibal. Pelo contrário, é um “Menina e Moça” moderno, um choro sobre o sair e o não sair de casa para longes terras, desdobrado em duas vozes que só se encontram definitivamente nas páginas iniciais deste livro. O resto é busca e aposição, memórias cruzadas no desencontro dos tempos, justapostas pela força dos discursos em primeira pessoa, num esboço de teatro falado, e o resultado é bom. Ou por outras palavras, por mim, este é o primeiro livro de Patrícia Reis que faz pensar que a escrita de vez em quando resvala dos lugares comuns para o lugar das boas surpresas, e por essa singularidade se deve apostar nesta escritora enquanto autora de ficção.

Porque não é fácil escrever ficção, ao contrário do que se faz constar. Não basta ter uma história. Uma história, por mais imprescindível que seja, nunca chega. Uma história, enquanto tal, nunca passa duma narrativa sem verdadeiro objecto, se o ponto de vista não permite uma proposta de mudança em face da realidade, ou pelo menos não avança dados para uma interpretação que a mova do seu lugar fixo do acontecido, para o lugar onírico do desejado. Ora o que Patrícia Reis faz neste seu livro é isso mesmo, propor um ponto de vista que move a história do desencontro entre duas figuras romanescas na direcção da sua vitimização pelo efeito das histórias familiares e da História colectiva. Ou a imposição dum destino. É verdade que ao longo da balada de despedidas de que é feita esta narrativa, nem sempre as duas vozes são autónomas, é verdade que por vezes Patrícia Reis ainda não cria duas personalidades em corpo inteiro, e até nem parece preocupar-se em mudar o sexo da voz, como se esse artifício não lhe fosse imprescindível. Aliás, sobre esse aspecto, a história da reclusa que escrevia cartas com a mão direita a um homem que não conhece, e com a esquerda escreve respostas a si mesma, com uma letra diferente, constitui uma metáfora da própria dualidade simulada no próprio livro. Eu diria que as diferentes letras de imprensa deste livro não são duas letras caligráficas. São só uma. Mas não interessa. O que importa é que essa dualidade incompleta gera uma narrativa airosa, um voo semântico semelhante ao da associação ligeira das nossas cabeças dispersivas, e o resultado é de uma escrita desprendida e ágil ao serviço dum desencontro tácito.

Aliás, a escrita é precisamente o maior mérito deste livro breve, espécie de cruzamento de pensamentos íntimos, desarrumados no tempo, mas não no sentimento, dispostos de modo a falar de vidas desarrumadas na Geografia da Terra e nos acontecimentos da História. Uma espécie de inventário de acasos que fazem a sede deste amor absoluto, para que tendem as personagens Xavier e Maria, transformá-los não apenas em figuras de amor, mas também em agentes da Crónica do Mundo. A dado passo pode ler-se neste livro – “A par dos pedaços de vidas que fui recolhendo, comecei a coleccionar, com entusiasmo, números imperceptíveis: o terramoto de 26 de Dezembro de 2004 modificou o Pólo Norte em 2,5 centímetros. A Terra ficou, por isso, mais redonda, menos achatada nos pólos. Sofreu uma alteração de uma parte em 10 milhões, um pequeno amuo da natureza que não é possível de ver. E, como se tudo permanecesse igual, os dias andam mais depressa. O tsumani, a onda do porto, diminuiu o comprimento dos dias em 2,68 microssegundos. Para que queria eu saber estes detalhes? Porque me dariam satisfação? Para que fosse possível compreender a morte de mais de 250 mil pessoas? Também a Terra tem os seus gestos políticos”.

Precisamente, esta é a afirmação que me interessa – “Também a Terra tem os seus gestos políticos”. Prescindo da ingenuidade. - As apostas que fazemos uns nos outros nunca escapam ao efeito da contiguidade e da semelhança. Aposto em Patrícia Reis na esperança de que ela saia dos discursos interiores esperáveis, para os inesperados, aqueles que são contaminados pelo decurso da vida onde o outro, a realidade e o seu insondável mistério batam horas, ao mesmo tempo, no grande escuro do Espaço e no interior dum pequeno coração. Tenho a certeza de que “Morder-te o Coração” caminha a grandes passadas para lá. Esse local onde eu mesma quereria estar.
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* publicado na revista "Os Meus Livros", março de 2007

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Depoimento * Em que dia nos transformámos em leitores para sempre?

Nascidos para ler
Lídia Jorge *

Em que dia nos transformámos em leitores para sempre? Cada um de nós lembrará a sua história. Recordará um colo, um abraço, um livro colocado na mão de alguém, uma estante, um professor, uma certa noite, um certo dia. Aquele momento e aquela hora em que se associou uma voz humana com a capacidade de multiplicar imagens infinitas dentro da cabeça, e de permeio estavam folhas escritas. Alguém que de súbito põe a mão na máquina que roda o filme das letras, e o cinema começa a correr por dentro da nossa vida. Alguém que depois nos coloca diante de uma estante e nos diz – Aqui tens, tantos seres humanos quanto as lombadas, tantos filmes quantas as páginas. És um homem livre.

Em que dia, então, nos transformámos em leitores para sempre? Em que dia começámos a nascer para ler? Em que mês do ano aconteceu esse acaso da multiplicação dos Espaços dentro das nossas vidas? Ao mesmo tempo Ulisses e os cinco Compson?

Faço estas perguntas e estou a pensar numa ideia nova, talvez a única ideia revolucionária que desde as últimas décadas a Europa foi capaz de criar. Que se conheça, a única que tem como sujeito um homem novo. É a ideia maravilhosa de que todas as crianças do Mundo devem ser concebidas como seres nascidos para ler. O que equivale a dizer que a leitura deve ser elevada à categoria de uma segunda natureza da pessoa. E que a sociedade deve promovê-la como um elemento tão importante quanto se lhe reconhece o direito a uma família ou um alimento. A ideia de que esse direito imprescindível deve ser promovido pelos Estados e por todos aqueles que sabem que a leitura amplia a vida, como um dever de contágio formidável. Esta, sim, é uma ideia de Futuro e aponta para um novo paradigma de instrução para a Liberdade, no momento em que se desenham no horizonte rumores de pensamentos únicos e amnésias planificadas. O que os novos planos de leitura, que hoje em dia se implantam um pouco por toda a parte, trazem de novo é isso mesmo - Servem para proporcionar a hipótese de que esses momentos inaugurais de encontro com um livro colocado entre os olhos da criança e o abraço, se multipliquem, uma e outra vez, se prolonguem, mudem de local e de suporte, mudem de figuras e de géneros, mas que estejam sempre lá. À espera do acaso. O que significa que proporcionar esse acaso se transformou num dever. E porque não dizê-lo? - Talvez esta seja uma oportunidade única para nos transformarmos da antiga nação que somos com relutância à leitura, numa sociedade aberta, moderna, civilizada pelos livros.
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* Para o Plano Nacional de Leitura,
publicações diversas, 31 de maio de 2006

Depoimento * Quando se quer escrever sobre uma cidade

Lisboa existe

Lídia Jorge *

Uma recolha de textos publicada há anos em França, tem por título LISBONNE N’EXISTE PAS. Muitos dos textos que lá se encontram são dos melhores que alguma vez foram escritos sobre esta cidade. Possivelmente, o título surgiu desse desafio, ou esse desafio surgiu desse título, a ordem não importa. O que interessa é que ele coloca a questão no sítio certo – Quando se quer escrever sobre uma cidade, ela parece não existir fora de nós, a totalidade perde-se, a realidade some-se. Ficamos com a sensação da traça perdida no armário, entre costuras e enchumaços – Toda a Cidade é uma criatura demasiado grande, demasiado complexa, infinitamente múltipla e vária, redonda e informe, estelar e oval, caótica e de esquadro, isto é, Lisboa não existe – Lisbonne n’existe pas.

Pensei nessa epígafre maravilhosa que poderia ser a divisa de todas as cidades, quando li estes textos sobre Lisboa. De novo, os jovens aí estão. Trazem o rumor das outras cidades, o amor que as atravessa, a confusão entre os braços que apertam o amor e a cidade onde os beijos se dão. E a beleza de viver entre elas, as cidades. E a beleza de viver entre eles, os habitantes das cidades. E a repulsa contra a fealdade, contra o opróbrio que se esconde nas cidades, o lamento pela desinteligência que existe no meio das ruas, contra o voo dos pombos demasiado gordos que rastejam pelo chão. O repúdio contra a cidade que não voa. Afinal os jovens escrevem porque de novo existem, e de novo sabem, por instinto, o que falta à vida para ser completa. De novo aí está a nova geração para dizer que Lisboa não existe. Quando escreve, existe. E isso é que é maravilhoso e a faz existir.
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* Texto lido na entrega dos prémios do concurso literário "Lisboa à Letra",
destinado a jovens
organizado pela Câmara Municipal de Lisboa 

sábado, 17 de abril de 2004

Depoimento * Sobre o filme "A Costa dos Murmúrios"

O filme e o livro


Lídia Jorge *

O número de imagens que um livro oferece são infinitas, as imagens de um filme são finitas. Da passagem de uma coisa para a outra existe um transvaze inevitável, onde alguma coisa em geral se perde em número e alguma se ganha em intensidade. No caso de “A Costa dos Murmúrios”, apesar de ter tido conhecimento prévio do argumento, e do cenário das filmagens não ser propriamente um mistério, o resultado do filme foi-me bastante surpreendente. As primeiras imagens surgiram e eu compreendi que a história que tinha escrito, sob as mãos da Margarida, e o corpo dos actores, havia-se transformado numa outra realidade, reescrita à luz de um outra invocação. Mas devo dizer, em abono da verdade, que essas diferenças constituem mais revelações do que estranhezas e levaram-me num primeiro momento a revisitar o livro com outro olhar, e a rever o filme pela segunda vez, com um sentimento de muito maior proximidade. Entre filme e livro, afinal, não encontro propriamente divergências, encontro deslocação de elementos e diferentes modos de intensidade, para dizer o mesmo – que se trata do desejo de erguer um relato para não deixar sumir na inadvertência alguma coisa grande e dolorosa, pessoal e colectiva, que persiste, a mesma vontade de criar um espaço ficcional onde alguma coisa fora do paradigma acontece, a mesma vontade de que isso suceda sob o impacto de imagens criadas pela alucinação da memória. Esse parece-me ter sido o nosso pacto inicial, e respeitado isso, o resto é pormenor. Ou estética. Porque os modos sempre são diversos.

Por exemplo, a atmosfera de um filme pode muito bem ser criada por uma marcha oposta àquela que sustenta o livro no qual se baseia. Neste caso, a imagem de Os Gafanhotos como figura detonadora da narrativa, e com a qual o livro abre as primeiras páginas, e que continua a ser o núcleo importante desta história de Portugal em África, não constituiu um motor para a realizadora. Eu estava interessada, desde o início, que o leitor entrasse para dentro duma narrativa onde a memória alucinada tinha de ser mais forte do que a crónica do tempo. Ao invés, a Margarida inicia o filme com a imagem documental do autocarro, e a canção na voz de Simone para se localizar no tempo. Eu diria que o filme arranca como uma crónica. Cenas do casamento, diálogos cruzados, danças dos anos sessenta, toda essa primeira parte tem alguma coisa de reportagem nua, só depois o filme começa a transformar-se no fantasma que a memória altera, e para o qual concorre a fotografia como principal elemento transfigurador das cenas entre reais e imaginadas.

Diferente também é o peso atribuído ao papel das mulheres. A Margarida concentrou a acção nas duas protagonistas, entregou-lhes praticamente toda a pulsão interior e toda a consciência do momento histórico. A voz, e sobretudo o olhar de Eva Lopo e de Helena de Tróia, como espelhos refractários, tiveram, só por si, de concentrar o mundo inteiro que as rodeia. Elas são o mapa interior e íntimo onde se vão repercutindo as oscilações do que se vai passando lá longe, em combate. As minhas figuras esbracejam para fora desse quadro, no entanto não me parece mal a opção da Margarida e do Cédric Basso. Essa concentração reduz o campo dos movimentos, mas dá em coerência narrativa e fluidez o que lhe falta em campo livre. O que falta de varanda aberta. diante dos cometas e dos mortos, aprofunda-se em dramaticidade interior. O mesmo em relação à intensidade da violência. Sendo “A Costa dos Murmúrios” um livro que não vai à guerra, mas não fala de outra coisa senão dela, a imagem da roleta russa foi -me indispensável como concentração do combate, síntese da sua arbitrariedade, paráfrase do vício da violência. Entreguei-me a essas duas cenas com a rudeza própria de quem desejou criar um contraponto em abreviado dessa brutalidade como jogo no tempo do intervalo. Concebi esse transe como coisa rude. Mas a Margarida criou as duas cenas retirando-lhes a parte grosseira, criando no lugar dos tiros e dos tampos manchados das cadeiras vermelhas, sugestões narradas como nos sonhos. Talvez por isso mesmo o filme atinja aí, nas cenas dos amantes, os seus momentos mais altos. É uma violência que fala da violência sem a mostrar, como raramente acontece no cinema. Uma rara decência de narrar. Isso emociona-me porque o pacto, feito no início, está inteiramente cumprido. A beleza está no seu lugar.
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*  Publicado na Revista Única | Expresso, 17 de abril de 2004

quarta-feira, 1 de março de 2000

Depoimento * Língua portuguesa

Português, língua de distância


Lídia Jorge *

É muito perigoso o nativo de uma língua discorrer sobre ela. Quando uma pessoa menos se apercebe, já invocou os maiores poetas da nação e já lhe chamou de tudo o que de melhor existe em termos de imagem e tropo - rio de mel, campo de flores, doce teta, mãe eterna. Não admira. A língua, na plenitude do seu uso, é um instrumento da inconsciência. Pensar nela a partir de dentro, só pode resultar no agradecimento da sua virtude e descrição da sua bondade. Fale-se da língua materna e o mais universalista fica patriota, o mais estrangeirado sente-se saudoso, o mais irónico torna-se reverencial. Por isso mesmo, não costuma ser um erro escutar o que os outros, os das outras línguas, dizem da nossa própria.

Nesse domínio, existe uma asserção atribuída a Cervantes bastante reveladora. Terá o autor de El Quijote dito, ou mesmo deixado escrito, que "O Português é o Espanhol sem ossos". Os próprios portugueses o repetem numa versão porventura mais próxima do original - "El portugués es el castellano sin huesos" - para melhor saborearem a ironia ou o despeito que desencadeia.

Claro que existe neste raciocínio uma redução própria de vizinhos bastante curiosa, mas não me parece que esta seja uma afirmação propriamente difamatória, e além do mais contém em si elementos que permitem iluminar traços distintivos daquilo que é a nossa fala. É que, para os outros - e a língua nasce em nós mas dirige-se para os outros - antes de ser um sentido, ela é, primeiro que tudo, um som. E não deixa de ser verdade que em comparação com as vértebras e as formações galopantes da língua espanhola de Espanha, a língua portuguesa desdobra-se como um corpo falado suave. A imagem é primitiva, e pode roçar o simplório, mas é verdade que, comparando as duas mais importantes línguas ibéricas, em termos de som, o espanhol contém no seu andamento uma espécie de cavalo a trote, várias patas movendo-se rápida e sacudidamente, sua crina altiva, sua unha protegida e ferrada. Enquanto que o som do português, nasalado e gutural, íntimo e grave, por vezes soturno, como o russo ou o polaco, desenvolve-se como a modulação dum líquido que corre. Claro que há muitos tipos de líquido e muitos tipos de curso. Nós, pela proximidade, como não poderia deixar de ser, associamo-lo à ondulação do mar. Um vaivém contínuo e grave, rápido com ar de lento, intenso com som de esbatido, faz do seu fluxo frásico, um corpo quase horizontal. Deduza-se o que é possível deduzir da eventual asserção de Cervantes - O português nada tem a ver com o espanhol, nem dele faz parte. Ou vice-versa. As estruturas profundas das duas línguas são diferentes, as suas naturezas enquanto fala e idioma, são distintas. Essa distinção é de vária ordem e pode ser descrita. Mas para simplificar a poética ensina que existem metáforas. Assim sendo, aceite-se que a ossatura do Português é feita de uma outra matéria com outra consistência. Ou que à consistência suave do seu som, corresponda em termos de vitalidade, uma outra energia.

Só assim se compreenderá que o português, falado por menos de um milhão de indivíduos, na altura dos Descobrimentos, se tenha expandido a ponto de se transformar na primeira língua franca de contacto universal, entre os séculos XVI e XVII, e que, transportada apenas por um punhado de soldados, mercadores, aventureiros e piratas, tenha deixado traço da sua presença um pouco por toda a parte como língua de contacto entre o Oriente e o Ocidente. Que de forma tão desordenada e dispersa, à margem de qualquer controlo político, tenha deixado vocábulos nas regiões mais improváveis, e em troca tenha incorporado tão profusamente variantes dos vocabulários visitados, entre eles os africanos e os ameríndios, ou que ainda hoje continue a possibilitar alterações sintácticas arrojadas no interior da própria estrutura sem perder o carácter, o que permite que seja falada por cerca de 200 milhões de pessoas, sendo a terceira língua europeia mais difundida e a sétima mais falada à escala do Mundo.

A história vem em todos os manuais, não vale a pena repeti-la senão em condensado - Um falar neo-latino, comum à actual Galiza e à província do Minho, desenvolveu um certo carácter lírico subtil e uma certa narrativa própria, e no século XII, uma parte dessa primitiva linguagem cindiu-se, desceu rente ao mar, a toque de espada, a caminho de Lisboa, e lá no Sul, por acaso, sem grande resistência, esperava-o o árabe com o qual conviveu e de quem tirou música e vocábulos. Quando o Atlântico chama os portugueses para os Descobrimentos, é uma língua ainda rude e arcaica, mas já bem consolidada na sintaxe e na morfologia, a que embarca nas caravelas. Dois séculos volvidos, e o português voltará, depois dos naufrágios e de ter visto as estrelas de quase todo o Globo, transformada na língua da exaltação e do Império Universal, a que Camões acabou por dar genialidade não só no elogio erudito e alatinado de "Os Lusíadas", mas também na subtileza lírica dos poemas de sentimento e amor. Ao lado do português dos comerciantes, guerreiros, mercadores de escravos e piratas devotos, à medida da ideologia de então. O que quer dizer que e língua estava pronta para se transformar num instrumento poderoso de domínio, paredes meias com o rosto oficial da civilização, segundo a lógica implacável do tempo. Durante dois séculos, o português encontrou-se na situação de língua imperial. A língua, cujo som parece não possuir ossos que a sustentem, foi capaz disso.

Mas não foi capaz de manter no terreno as outras façanhas que o rodar dos tempos exigiam. Metrópole demasiado escassa para um corpo demasiado grande e sobretudo demasiado disperso, por vezes até impalpável, a partir do século XVIII, o país não acompanharia o passo das nações mais desenvolvidos, em termos de indústria, cultura e civilização, e ficaria para trás. Naturalmente que a Língua também ficou. Ficou prisioneira da sua prosódia barroca e circular, sua sintaxe repetitiva, suas imagens arcaicas, rente aos salmos, às rezas e à imagem das flores campestres. Data daí a matriz do recurso aos artifícios da linguagem abstracta para evitar a vida, ao primado da forma sobre o conceito, da divagação sobre a Filosofia, do desenho da frase sobre a densidade do argumento. O que quer dizer também que data desse tempo a língua que formou o nosso modo profundo de dizer, que se pôs a resistir, e tem vindo a refluir às ondas, pelo Século XX adiante. Quando menos se espera, a nossa carruagem barroca, escura e engalanada, reaparece, e demora sempre a partir mais do que convém.

Aliás, a língua escreve-nos profundamente, ou o tempo em simultâneo escreve nela o que em nós inscreve. Talvez essa contiguidade de causa e efeito justifique a tradicional defesa rústica de grandezas inventadas, o que em relação às línguas se traduz com frequência em termos de desejo de imobilidade. Curiosamente, num país, criado por uma língua que se fez de assimilação natural com o diferente e o longínquo, a perspectiva deliberada de assimilar, de recriar, de transformar, ou de inventar em torno dela, costuma ser interpretado como uma hipotética perda de vitalidade e até de natureza. O receio de ceder, de negociar, de incorporar, de criar em conjunto, e ao fim ao cabo, o medo de modernizar, continua a ser uma constante. Essa não é uma prerrogativa portuguesa, mas entre nós, pelo alcance simbólico, que a questão da língua atinge, torna-se bastante surpreendente observar como parte da população culta reage face à eventualidade de mudança. Todo o neologismo começa por aparecer com o labéu de corpo infecto. Ao contrário da vertente do português de África ou do Brasil, o português da Europa, prefere absorver expressões estrangeiras, na íntegra, sem as traduzir nem lhes tocar. O que não deixa de suscitar interpretações curiosas sobre a forma como o português olha o Mundo, empresta de si ao Mundo, e dele tão mal se sabe servir.

Seja como for, nunca a língua portuguesa, se encontrou à beira de se ossificar. À margem da batalha do purismo, que remete para universos conservadores e tem como horizonte ambientes arcaicos e míticos, sempre houve uma corrente subterrânea imparável, aberta à viagem, à contaminação e ao desejo de experimentar o diferente e de o fazer seu. Durante o século XIX, escritores como Almeida Garrett e Eça de Queirós, deram conta dessa boa vulnerabilidade da língua, tendo incorporado léxicos novos e modernizado a sintaxe. O movimento simbolista e depois o modernista descompuseram a língua, subverteram-na, recriaram-na, urbanizaram-na, em correlato directo com uma franja da sociedade portuguesa que conseguia impulsionar através das Artes Plásticas e da Poesia, um movimento vanguardista notável. Almada Negreiros e Fernando Pessoa nascem desse movimento que escreve uma língua desejosa de transpor fronteiras. A aventura de Pessoa nasce aí mesmo, na confluência da prática de duas línguas, a inglesa, sua instrutora escolar e literária, e a portuguesa, familiar, dramática e densamente oculta. Aí nasce e cresce Pessoa para a sua infinita inquietação de viagem. E com ele o sintoma duma outra forma de língua que não havia.

Aliás, a parte mais significativa da viagem literária portuguesa ao longo do século XX dá conta da tentativa de desinibição persistente na realização plástica duma língua que se transformava no sentido da modernidade, pela abertura, desestrutura, reinvenção, contaminação pelas outras línguas e outras linguagens provenientes do contacto voluntário ou forçado com o Mundo. Depois da Segunda Guerra, foi primeiro a emigração para a América do Norte e América do Sul, depois o exílio político e a emigração para países da Europa que abriram os olhos com que se produziu um novo corpo da língua portuguesa, dispersa pelo Mundo duma outra forma. Porém, terão sido as guerras colónias de África, o motor mais forte na alteração do modo de pensar e de dizer, já que se tornou necessário que a antiga língua imperial passasse sob as botas ensanguentadas dos soldados portugueses, abandonadas no capim, para que se recolhesse ao seu lugar não hegemónico. A língua que regressa de África, com a eclosão do 25 de Abril, é uma língua de alegria e de liberdade, mas bastante humilde e pronta à fraternidade, porque trabalhada pela dor. Aliás, a Literatura portuguesa actual, nas suas formas várias, encontra-se ainda sob o impacte desse momento longo de treze anos, que só em parte já passaram. Em metamorfose para uma nova era, entre outros, Manuel Alegre, poeta sem distância entre a língua e a vida, tinha soltado o grito de testemunha por um "Nambuangongo" invisível.
Em Nambuangongo tu não viste nada
não viste nada nesse dia longo
a cabeça cortada
e a flor bombardeada
tu não viste nada em Nambuangongo.
"Tu não viste nada" - Era a acusação que se fazia a um país inteiro que fingia não ver. A Literatura portuguesa mais viva e mais elaborada entre nós, continua a sair dessa brecha recente que uns testemunharam, outros viveram em diferido, noutros locais e de outros modos, por vezes não menos violentos. E na sua substância íntima, a língua portuguesa que se fala hoje ainda é essa, a da testemunha dum corte tardio, injusto para ambos os lados, mas que deixou uma capacidade de ver o mundo, mesmo longínquo, por uma lente fraterna, agora que os locais de violência bem mais visíveis, não falam só português, mas também inglês, francês, espanhol, russo e até alemão, como há vinte anos não se imaginava.

Na verdade, em cada dia nasce uma nova era, um novo mundo, e possivelmente cada língua, em cada momento, é sempre outra. Os países africanos que falam a língua portuguesa - ou que ainda legitimamente duvidam sobre se a devem falar e escrever ou não - têm novas realidades para contar, outro sofrimento, outra guerras intermináveis, e também outro tipo de esperança e outra visão do seu próprio mundo. Para o exterior, porém, ainda o dizem em português. Os portugueses também falam em português do que testemunham em África, chamando a esses países, em termos de língua, países irmãos. Mas não vai ser fácil manter esse laço.

É que esta língua que se fala hoje em sete países - ou oito, se assim o entenderem os timorenses - e dá corpo a várias Literaturas e ocupa o sétimo lugar no Mundo, atravessa um estranho tempo de dissensão entre a matriz europeia e a sua descendência mais vistosa. Como se sabe, o Brasil contribui com 160 milhões de falantes, para a totalidade dos 200 milhões da mesma fala, ocupa sozinho dois terços dum continente, tem uma economia indomável, para além duma Indústria de Artes invejável e uma Literatura poderosa. A proximidade com os Estados Unidos fornece-lhe um modelo avassalador que deseja seguir, e a sua mundividência, própria duma sociedade recente, revela uma vitalidade de fábula. Além de que a criatividade da vertente da sua fala é imensa. Compreende-se. - Ainda que não o declare, o Brasil político sente-se, por direito próprio, apoiado na grandeza geográfica e dimensão da sua população, como o novo dono da língua, e essa pretensão que não está claramente sobre a mesa, afinal está sob a mesa. Também neste campo, Portugal e o Brasil, colocam-se diante do tabuleiro, movendo as pedras, como adversários, sem o dizerem. Só assim se entende, as comédias que se têm desenrolado, em torno do Acordo Ortográfico assinado em 1990, ou da celebrada Comunidade dos Países de Língua Portuguesa criada em 1994, até agora, para nada.

Naturalmente que uma língua que move entre 300 mil a 400 mil vocábulos, que tem uma plasticidade sintáctica e semântica provada, tanto remota quanto recentemente, não corre o risco de desaparecer, nem de minguar a sua criatividade nem as suas Literaturas, pela ausência de elementos estruturais de coesão. Mas corre o de se enfraquecer, perder vitalidade, dissolver-se como força linguística válida no diálogo das culturas, e sair do número das línguas mais faladas onde por direito se encontra, tornando muito mais difícil grande parte dos seus falantes dispersos acederem aos benefícios próprios das sociedades pós-industriais. É verdade que o Inglês é falado por quarenta e sete países, o francês por vinte seis, o árabe por vinte e um, o espanhol por dezanove, o português por sete. A pergunta que convém fazer é qual dos outros idiomas ocidentais, nos próximos anos, irá aumentar o números dos seus associados. Claro que as línguas são sempre muito mais fortes do que as suas políticas. Indomáveis e imprevisíveis como os seres humanos que as falam. Mas face a desentendimentos tão arrastados, em boa língua portuguesa, tão suave, tão de abraços, tão de música, uma pessoa é levada a colocar mais maldade do que vê à primeira vista, na frase atribuída a Cervantes.

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 oublicado no dossier "Portugal, Proue de l'Europe",
Revue des Deux Mondes (Paris, março 2000)