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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

"Inquieta-me, pois, a sua figura"

Angela, um Mito
em Construção

Lídia Jorge *

Quando a antiga ministra do Ambiente assumiu as funções de Chanceler da Alemanha, começou a constar em Lisboa que se tratava de uma figura demasiado rígida para se augurar alguma coisa de bom para o sucesso da Europa. O próprio Tratado de Lisboa, assinado no final de 2007, foi visto por muitos como uma estratégia de domínio sobre o espaço comunitário, manobra a que Portugal se prestava como criado, sorridente e agradecido. E falava-se já então de uma teia de dominação financeira que estaria a ser urdida a partir de Berlim. Mas eu tinha uma outra visão da chancelar. No princípio do seu mandato, havia passado cerca de meia hora a uns escassos metros da sua pessoa e achara-a interessante. Durante os discursos, Angela distraía-se, sorria para os sapatos, abandonava as mãos, e eu tive a ideia de ver no seu rosto alguma coisa de terno e de humano, alguma coisa de profundamente pacífico. Essa imagem ainda perdurou por algum tempo, e só começou a desvanecer-se quando a chanceler se pôs a enviar recados aos governos dos outros países, utilizando uma rude linguagem de mestre escola.

Aí, já a dúvida tinha começado a circular sobre se a chanceler estaria à altura de ser alguma coisa mais para além de chefe de governo do seu próprio país. Agora, o impasse que está criado diz-nos que dificilmente o será. É que Angela Merkel tem o dedo da História apontado à sua testa e não parece querer interpretar o papel decisivo que lhe foi reservado. E no entanto, não pode fugir a ele. A fragilidade que se vive na Europa leva a pensar que Angela tem no seu nome uma marca angélica que o Futuro não esquecerá, e quer queira quer não, está destinada a ser mito. Mas será que Angela irá ser portadora de uma asa escura que fará a ideia da Europa desmoronar-se? Ou pelo contrário? Desenrolará uma asa clara que fará reunir atrás de si os países europeus desunidos, reinventando a utopia política mais avançada do mundo de que os germânicos têm sido o motor? Para que lado cairá, então, o mito de Angela Merkel? No caso dos portugueses, sempre predispostos a visitarem o seu passado, para voluntariamente obedecerem e se humilharem, lembrar a História da Alemanha não está nos seus hábitos. Mas Angela Merkel, em nome dos alemães, deve saber que todos aqueles a quem a sua política exige ajustes de contas impossíveis, começam a ter de novo essa História no pensamento, e dar pretexto para que a imagem desse passado regresse é inaceitável. Inquieta-me, pois, a sua figura. De que lado ficará Angela Merkel, quando os discursos de circunstância terminarem e ela já não tiver tempo para olhar para a ponta dos seus sapatos?

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* Publicado a 30 de junho de 2012, no Frankfurter Allgemeine Zeitung

terça-feira, 23 de outubro de 2012

É que os dias começam a apertar

A razão dos simples

Eles passarão. Eu passarinho!
Mário Quintana

Lídia Jorge *

1. Os dias que correm ensinam-nos o que não julgávamos precisar de aprender. De um momento para o outro, a realidade mostra-nos que, enquanto a passagem do estado de miséria à prosperidade se processa de modo demasiado lento, a passagem da prosperidade à miséria pode seguir um percurso vertiginosamente rápido.

O que hoje se está a viver assemelha-se ao pesadelo clássico da pessoa que segue vestida por uma praça e de súbito começa a perder as roupas. Quanto mais procura cobrir-se mais elas voam, até se ficar nu. O pesadelo diz respeito ao mundo, não é só nosso, mas o caso português tem contornos muito próprios, e se até agora algum motivo há para nos regozijarmos será só pelo facto de os portugueses, como sempre, serem um caso de sucesso na resistência à fome.

2. É preciso reconhecer que a crise se instalou na casa portuguesa em clima de decepção, mas sob o signo da concórdia e até de uma certa esperança.

A esperança provinha da ideia de que este momento de aperto poderia oferecer uma oportunidade para se corrigirem os erros que nos levaram até aqui, o desperdício, a má distribuição da renda, o laxismo, a acumulação de privilégios, e tudo o mais. Até a esperança de que o sistema judicial pudesse tomar um novo caminho atravessou a nossa ilusão. Para além da ideia de que um ambiente de menos agressividade poderia facilitar esses tipo de correções. Com essa esperança se partiu para sacrifícios de toda a natureza em clima de aceitação. Aos portugueses foram aplicadas medidas drásticas sem um sussurro da parte dos visados. Visto de fora, o nosso comportamento tem sido exemplar, e de certo modo até comovente. Neste momento, porém, o pacto de esperança e de concórdia que nos silenciou não pode deixar de estar quebrado.

Não se trata apenas do assalto redobrado a toda a população, o anúncio assumido da ineficácia das medidas, a injustiça relativa de que elas enfermam, e tudo o mais que se sabe. Nem sequer do pressuposto ofensivo de que as pessoas são abstrações sem coração nem cérebro, e que devem estar expostas a todo o tipo de expolição sob a ameaça de que ao contrário só se vislumbrará a catástrofe. Ou o pressuposto de que devem estar caladas, de outro modo serão perniciosas e agirão contra a pátria. Ou a ideia de que a Economia e as contas são matéria a que a razão dos simples não atinge. Mais do que tudo isso, trata-se, sobretudo, do desconhecimento, por parte dos actuais dirigentes, do funcionamento de uma sociedade moderna.

Agora está à vista por que razão aquilo que pareciam falhas neste governo, afinal, eram erros. Erros na fusão de ministérios que não deveriam ter sido fundidos, pessoas para os conduzirem que não estão à altura nem de um governo em tempo normal, quanto mais em estado de crise, manutenção de figuras descredibilizadas colocadas no topo da hierarquia governamental, entrega de dossiers sensíveis a figuras suspeitas. De tal modo que a ideia que se tem é de que o país não está só em estado de crise, mas à deriva, na mão de pessoas que sem dúvida estudaram muito mas leram pouco. Estas situações costumam ter desenvolvimentos mais ou menos previsíveis. Mark Twain falava de que a História não se repete mas rima. No momento que passa, é preciso tomar cuidado com as rimas. Os simples podem não saber de economia, mas conhecem na pele o que é a injustiça relativa.

3. É que os dias começam a apertar. Agora deitamo-nos e levantamo-nos, com poucas alternativas pela frente. Na noite dos pesadelos pode-se imaginar que o primeiro ministro poderia fazer uma remodelação do seu governo. Mas como, se nesta última semana ele mesmo surgiu aos olhos do país como um remodelável?

Outras perguntas se impõem. Tem esta maioria capacidade para gerar no seu espaço um governo alternativo? Dever-se-ia chegar ao extremo de exigir um governo de salvação nacional? É possível fazer o Presidente da República mover-se para alguma outra solução sem entretanto se desfazer o parlamento? Ou, simplesmente, ainda será possível este governo colar os cacos, regressar a um entendimento com a oposição de forma a inverter este caminho deslizante para um buraco grego? Parar de perseguir as pessoas deixando-lhes na algibeira o suficiente de modo a não secar de todo a economia aquisitiva para que não pare a produtiva? Sabemos que todos os que nos conduzem a este desfecho sempre passarão bem, e nós passaremos mal. Mas é preciso não menosprezar o poder dos simples. Não estamos mais no quadro do Estado Novo, quando a população analfabeta e desinformada não dispunha de referências para se comparar. Também para nós o mundo mudou cento e oitenta graus e hoje somos alguém na Europa. Por isso a própria Europa precisa de conhecer a verdade sobre o que se passa em Portugal para que ela mesma se possa acautelar, e parece que, a partir daqui, só os simples, afinal, podem ser a voz autêntica que avisa os outros antes que também caiam.
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* in Público, 17 setembro 2012

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Depoimento * Quanto a Maria Lúcia Lepecki

Versão integral autorizada
do texto editado no Público,
29 de julho de 2011

Nos livros, de mãos nuas

Lídia Jorge *
1.

Estava previsto que Maria Lúcia Lepecki, no passado dia um de Abril, comparecesse na Livraria Barata para apresentar um livro. Telefonou na própria tarde para dizer que não iria estar presente porque não queria descer as escadas. Foi-lhe lembrado que o encontro teria lugar no piso térreo, que não precisaria de descer escadas nenhumas. Maria Lúcia replicou – “Pois desculpa lá, é que também não as quero subir”. E assim ficou tudo explicado, através de uma elipse travessa, um arranjo de pura inteligência, conforme o seu modo muito próprio de dizer.

Ao fim da tarde, muitas pessoas vieram para ouvi-la, mas confrontadas com a sua ausência, também não foi preciso explicar-lhes nada para que o seu nome desencadeasse um aplauso prolongado até começarem a estremecer coisas mais fundas do que as palmas. Aliás, esse aplauso, invulgarmente comprido, acontecia no lugar certo – Entre estantes, risos, editores, professores, livreiros, amigos, e outras espécies afins. Quem tinha tido acesso à sua resposta sabia, porém, que a sua forma de dizer traduzia estoicismo, e atrás do estoicismo, o seu modo de mostrar que afinal continuava a ser uma pessoa nascida para a alegria. A alegria, só por uns momentos interrompida, supostamente separada pelo obstáculo de uma escada . De onde lhe vinha então aquela vontade de existir para a felicidade?

2.

No volumoso livro A Primazia do Texto, um conjunto de ensaios publicados em sua homenagem, que Petar Petrov e Marcelo G. Oliveira ainda tiveram ocasião de lhe mostrar para lhes testemunharem como era amada pelos seus pares, Beatriz Weigert , fazendo um balanço da sua última série de crónicas, “A Vida Íntima das Palavras”, dá particular atenção àqueles textos onde Maria Lúcia invoca a sua infância. No dizer da própria, essa infância fora tão rica que se acaso tivesse acontecido tudo aquilo de que se lembrava, teria durado pelo menos cinquenta anos. Então não é possível desligar a origem da sua alegria das vivências primordiais em Araxá, terra mineira, “lugar alto de onde primeiro se vê o sol”.

A contemplação exaltada perante as palavras também parece ter tido aí a origem – “As palavras bonitas entraram na minha vida muito cedo, sob a forma de nomes de lugares, de frutas, de árvores, de objectos. Mais tarde, descobri provirem muitas delas de línguas indígenas ou africanas”, escreveu Maria Lúcia. E mencionou o avô, o tacto da sua roupa, o sarro do cigarro de palha, o suor do cavalo, a preparação dos sentidos para em seguida atravessar o mundo. É possível que sim, que lá no ponto especial onde o temperamento se transforma em carácter e o carácter em personalidade, a origem em Araxá possa ter o seu peso de alegria e de sal. Weigert não faz essa extrapolação, não era o seu propósito. Mas, no dia de hoje, nada impede de juntar esses factos e transformá-los em causas. No momento em que nos deixa, bem podemos associar a alegria sobre o essencial com o impulso original que demonstrou na leitura que fez da Literatura dos autores brasileiros, africanos e portugueses. Porque não associar o seu encantamento pela vida à forma como se deixou seduzir pelos livros?

3.

Maria Lúcia deixa uma bibliografia avultada, e ensaios dispersos, crónicas, entrevistas, colaborações no Expresso, Diário de Notícias, Colóquio/Letras, Artes e Ideias, Estado de São Paulo, intervenções na rádio e na televisão, revelando-se em todos os meios uma figura originalíssima. Como crítica, em primeiro lugar, porque a sua escolha não parece ser feita por causas mas antes por afinidades de sentimento, muitas vezes por um fascínio a nível da pura expressão verbal, sobretudo quando julga encontrar num autor um saber submerso. Mas o aspecto que mais me toca é a sua capacidade de fazer ensaio, suportada por uma forte componente teórica, sem que dela faça alarde. Os seu textos sobre textos não parecem ter textos eruditos de permeio. Nessa arte da subtracção do suporte teórico, Maria Lúcia ganha uma leveza de interpretação, muitas vezes fora dos cânones, mas sem dúvida com uma particular dimensão de frescura. A impressão que se tem é que se trata apenas de uma leitora que mete as mãos nuas nos textos para deles fazer livros seus , sem vozes intermédias, nem ruídos.

4.

No entanto, Maria Lúcia Lepecki era uma erudita.

A alegria e a expansividade que a caracterizavam tinham um contraponto no recolhimento do estudo, em áreas como a Filosofia, a Teoria da Literatura, a Música, a Cosmografia ou a Religião, matérias de que falava com graça e naturalidade, transformando informação em acontecimento. Por vezes, mesmo, em divertimento. Mas esse recolhimento de semanas, meses consecutivos, levava-a a procurar uma outra totalidade que não fosse a da Literatura e da Poesia. Como vários dos seus colegas indirectamente fazem notar, em A Primazia do Texto, entre outros campos, ela era uma estudiosa da Bíblia, uma pessoa à procura de um elo poético que interpretasse o Mundo a partir dos livros do Antigo Testamento. Curioso que vivesse mesmo a linguagem bíblica na expressão coloquial corrente. Certa vez ouvi a Maria Lúcia dizer, referindo-se a um livro – “Senhor, eu não sou digna desta leitura…” Um excesso que nela não era excesso, era uma forma que se casava com a sua vivacidade onde a imagem ampliada tinha um estatuto de uma outra escala. Numa das epígrafes do seu livro “Sobreimpressões- Estudos de Literatura Portuguesa e Africana”, Maria Lúcia refere uma conversa mantida com o seu pai, em fins de 1974. O pai ter-lhe ia dito que ela já não escrevia em português, mas sim em critiquês. Ela teria respondido – “Perdoa, Pai, ainda não sei fazer de outro jeito.”

5.

Em A Primazia do Texto, três autores referem o Livro de Job, o livro da Bíblia preferido por Maria Lúcia, em sua homenagem. A um dos seus amigos mais íntimos, Maria Lúcia pediu por mail, alguns dias antes, que dele fosse lida uma passagem, numa ocasião muito especial. Chegada a ocasião, o filho de Maria Lúcia fez-lhe a vontade. André Lepecki leu em voz alta uma das mais sentidas interpelações de Job diante de Deus mudo. Estava certo, estava em conformidade com o dilema que a todos atinge, e terá atingido a sua mãe em particular, nos últimos tempos. Faltava, porém, alguma coisa que fizesse regressar Maria Lúcia à sua dimensão de encantamento pela beleza que tem a cor e o corporal. Sem ninguém estar à espera, essa celebração aconteceu por acaso.

Em dado momento da subida, juntámo-nos a uma família de Carmona, Uíge, que acompanhava um angolano, cujo carro subia adiante de nós. As primas do angolano, umas raparigas vestidas de amarelo, cortavam o silêncio do espaço com um ritual, cantado. Não se destinava a Maria Lúcia aquela expressão de saudade colorida, corporal, dramática, mas acabaria por ser. As primas do angolano perguntavam, dançando debaixo das árvores:

Você foi embora, você foi.
Com quem deixou os seus filhos?
Com quem foi?

6.

Maria Lúcia Lepecki foi-se embora, obrigando-nos de súbito a colocar frases no pretérito perfeito e a corrermos a fazer o balanço das palavras que não foram ditas, ainda sem sabermos em que direcção do seu rosto pronunciá-las. A perda começa por ser uma amputação no tempo e logo os verbos avariam e mudam de modo e de figura. Você foi embora, você foi. Talvez nos próximos dias comecemos a acomodar a sua ausência entre os livros que deixou, e a sua pessoa passe a ser uma realidade que atravesse o Tempo e se deite ao comprido sobre ele. Nessa altura, será possível usar um presente ilimitado, e um tratamento directo por você isto, você aquilo, essa forma de dizer o tu mais íntimo da língua portuguesa que Maria Lúcia Lepecki tanto amou.


Depoimento. Sobre Maria Lúcia Lepecki, in Público

Maria Lúcia Lepecki é evocada hoje, no diário Público, por Lídia Jorge. O texto não está online (acesso disponível apenas para assinantes, como se verifica pela chamada do jornal que se reproduz). Mas, dada a matéria, a oportunidae e a beleza desse texto, vamos tentar obter a permissão da autora, desde que não se fira os direitos do jornal.


    Nos livros, de mãos nuas


    Há quem a diga embaixadora do tropicalismo em Portugal. Estudou Camilo Castelo-Branco e levou para a academia a obra de Cardoso Pires. A escritora Lídia Jorge escreve sobre a ensaísta Maria Lúcia Lepecki, sua amiga. Diz que não é possível desligar a origem da sua alegria das vivências primordiais em Araxá, no Brasil, com o seu peso de alegria e de sal

    domingo, 8 de maio de 2011

    Depoimento * António Paulouro

    Cesto de cerejas

    Lídia Jorge *

    Passados estes anos, a biografia de António Paulouro está escrita, a lista de gestos nobres que fizeram a sua vida pública começa a estar feita, o elogio da sua dedicação e da sua pertinácia nunca sendo demais, tem sido ensaiado por muitos que o conheceram de perto. E aqueles que trabalharam a seu lado poderão falar de uma intuição que permitiu que um esforço localizado numa cidade da Beira Interior levasse a mensagem de um país aos portugueses espalhados pelo mundo. Ou por outras palavras, a distância no tempo já permitiu desocultar o significado da sua resistência, sublinhar o que foi afirmar uma região através de um órgão de imprensa que se tornou não só notável, como se transformou num símbolo, e por isso, António Paulouro e o Jornal do Fundão são duas identidades que justificam manifestações à altura, históricas e solenes como devem ser. A seu lado, a minha memória não pode deixar de ser marginal, e diria quase íntima, se essa palavra significasse apenas familiar, e familiar não tivesse a ver com família.

    Homenageio António Paulouro através do que me contou sobre uns cestos de cerejas. Certa vez, António Paulouro veio ao meu encontro, trazia consigo a familiaridade próxima daqueles que não levantam barreiras, e começou a descrever uns cestos de cerejas que havia preparado para oferecer aos seus amigos. Não falou do Jornal do Fundão a propósito do qual nos encontrávamos, nem da filha, Maria José Paulouro, a figura que muitos anos antes nos relacionara, nem da política escaldante da altura. Não, António Paulouro falou da qualidade das cerejas, da chuva que havia deteriorado grande parte da colheita, da diferença entre as cores, as escuras e as apenas vermelhas, para dizer que dentro de cada cesto havia colocado um livro. E enumerou os títulos dos livros que tinha enviado aos amigos de mistura com as cerejas. Os nomes dos amigos, os títulos, as cerejas. Os cestos e as suas vergas, a razão miúda dos títulos oferecidos. Essa conversa tinha lugar nos corredores do Palácio de São Bento, os deputados passavam afadigados para cá e para lá, jornalistas corriam atrás deles, e aquele deputado, magro, risonho, já entrado, não era dali. António Pauloro pertencia a um campo sem limites, semeado de letras e árvores carregadas de cerejas.
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    * in Jornal do Fundão, 8 de maio de 2011

    sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

    Depoimento * Karin von Schweder-Schreiner

    Quando a Alemanha
    abre um livro português

    Karin von Schweder-Schreiner *

    No ano passado, eu fui convidada a fazer uma leitura pública de algumas passagens do livro "O Vento Assobiando nas Gruas" de Lídia Jorge, na minha tradução. A leitura fazia parte de todo um programa cultural que teve o seu início no mês de Outubro passado e se vai estendendo até o mês de Julho deste ano, incluindo música, teatro, exposições e literatura. Tudo isto tem e vai tendo lugar na cidadezinha Gschwend no Sul da Alemanha que eu até lá nem sabia que existia, nunca tinho ouvido falar do lugar. Desde há vinte anos, naquela cidadezinha, melhor dito burgo de poucos milhares de habitantes, organizam aquele programa cultural, todos os anos com destaque em determinado país e sua respetiva cultura, para a edição atual o país escolhido foi Portugal. Assim, na parte musical incluia-se uma noite de fado, a fadista convidada era Ana Moura. A primeira das noites dedicadas à literatura foi a minha leitura, no final do mês de Janeiro apresentou-se Teresa Salema, falando sobre a "Literatura e cultura portuguesas" depois do 25 de Abril. Para Fevereiro está programada uma noite com José Riço Direitinho, atualmente bolseiro da Villa Concordia de Bamberg, cidade histórica na Baviera. A Villa Concordia, chamada de Casa Internacional das Artes, é uma instituição financiada pelo estado da Baviera que todos os anos convida artistas alemães e estrangeiros (esses todos do mesmo país) para passarem um ano na cidade de Bamberg e trabalharem juntos. Em Gschwend, também para Fevereiro está prevista uma noite de leitura do "Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago, uma noite muito especial porque a pessoa que vai ler é um ator cego. E acontecem casos como o do senhor que no dia seguinte à minha leitura me levou para o aeroporto de Estugarda. Ele me contou o seguinte: Há alguns anos, ele ganhou de presente de Natal o livro "Comboio Nocturno para Lisboa" do autor suiço Pascal Mercier (pseudónimo de Peter Bieri). Duas semanas mais tarde, aquele mesmo senhor comprou o bilhete de comboio e embarcou para Portugal. Desde então, todos os anos ele vai passar férias em Portugal porque ficou fascinado pelo pais e agora pretende aprender português.

    Bem, falo destes eventos todos para deixar claro que na Alemanha existe sim um interesse, um fascínio pela cultura portuguesa, embora menos do que seria de desejar. O mercado livreiro alemão é dominado pelos livros traduzidos do inglês, sobretudo do inglês americano. Um autor português tem que ser muito bom para ser publicado na Alemanha, mas mesmo sendo muito bom sempre terá dificuldades em conquistar o grande público. Infelizmente, o gosto majoritário tende a consumir leituras mais fáceis, como os bestseller americanos. Mas os autores como Lídia que têm os livros publicados na Alemanha, têm um público fiel.

    Eu não sou socióloga nem crítica de literatura nem agente literária, eu sou uma simples tradutora de literatura de língua portuguesa para o alemão. O meu voto tem pouco peso nas decisões das editoras em relação aos livros que elas vão publicar. Se me perguntarem quais são os assuntos, as histórias portuguesas que mais interessam ao leitor alemão eu teria dificuldades em responder. Os livros que eu traduzo são escolhidos pelas editoras, só depois de comprarem os direitos é que me procuram para me encarregar de traduzi-los. As boas editoras alemães, em geral, seguem uma política editorial que consiste não em publicar livros soltos mas sim em cultivar os autores. Quer dizer, elas procuram estabelecer uma relação contínua entre os autores/autoras e a própria editora, escolhendo, quanto à literatura estrangeira, se for possível, os melhores do país em questão. Na Alemanha, todos os anos são publicados alguns livros traduzidos do português, mas levando em conta o número das traduções do inglês e do francês, são uma minoria minúscula e – infelizmente - nunca chegam a vender muito. Dos autores portugueses, o mais conhecido na Alemanha é Fernando Pessoa. O "Livro do Desassossego" é, aliás, o único bestseller traduzido do português, até hoje vendeu mais do que 100.000 exemplares.

    Na verdade, os alemães sabem muito pouco sobre Portugal e a sua cultura, eu até diria que conhecem bem melhor a cozinha portuguesa do que a literatura portuguesa. Como vocês certamente sabem, a partir dos anos sessenta do século passado, quando a indústria alemã ainda precisava de mão-de-obra, muitos operários portugueses emigraram para a Alemanha, como aliás, também muitos e até mais ainda foram trabalhar na França. Acontece que ao contrário do que os políticos alemães planejavam, em vez de ficarem alguns anos e depois voltarem para a sua terra – os alemães inventaram o termo de "Gastarbeiter", o que significa "operário convidado" ou "operário visitante" – na sua maioria, os operários portugueses ficaram de vez, fixaram-se nas grandes cidades, sobretudo no Norte. Hamburgo, hoje em dia, tem a maior comunidade portuguesa dentro da Alemanha. Bem, os portugueses ficaram, e em vez de continuarem a trabalhar nas fábricas, muitos abriram restaurantes e cafés. Resultado: Só em Hamburgo, hoje temos cerca de 40 restaurantes e mais ou menos 80 pastelarias portuguesas, e na zona do porto da cidade, existem tantos restaurantes que todo um bairro é chamado de Bairro Português. Os alemães adoram a cozinha portuguesa, a hospidalidade portuguesa e, de vez em quando, têm a oportunidade de apreciar a comida junto com a literatura, como há dois anos, quando por ocasião dos 25 anos dum restaurante, convidaram-nos a Maralde e a mim a participar dum jantar com leitura, em que as duas limos das nossas traduções. Para o evento, o chefe do restaurante compôs um menu baseado nos livros que traduzimos.

    Na época em que os portugueses começaram a emigrar para a Alemanha, os alemães começaram a descobrir Portugal, sobretudo após o 25 de Abril. Assim como antigamente se dizia em Portugal que as pessoas viajavam para a Europa, muitos alemães achavam que a Europa terminava na Espanha, Portugal simplesmente não existia no mapa europeu deles. O 25 de Abril abriu as fronteiras nos dois sentidos. O que na época começou como turismo político passou a ser turismo normal, os alemães conheceram as belezas do país, a natureza, a música portuguesa, a amabilidade das pessoas, o ritmo mais calmo da vida. O fado passou a ser uma paixão dos alemães, e aos poucos começaram a interessar-se também pela literatura portugesa. Foram as obras de Fernando Pessoa, as primeiras nas traduções de Georg Rudolf Lind, depois na tradução de Inés Koebel que também fez uma revisão bem meticulosa e – sobretudo – muito mais poética das traduções já existentes, e em primeiro lugar o êxito do "Livro do desassossego" que originou um verdadeiro turismo literário a Portugal. Desde então, organizam-se viagens de grupo que vão visitar os lugares que as pessoas conheceram primeiro nos livros.

    Conhecer o ambiente em que se passa a narrativa, conhecer os cenários, os lugares onde vivem os protagonistas, onde sofrem ou amam – ou, muitas vezes, as duas coisas ao mesmo tempo -, é uma grande vantagem, uma sorte para as tradutoras – que na verdade somos quase exclusivamente mulheres que traduzem livros do português. Conhecer também o autor ou a autora, é a sorte grande. Eu tive esta sorte grande ao ser escolhida para traduzir os livros de Lídia Jorge. Ao decorrer dos anos, a nossa relação autora/tradutora tornou-se em relação de verdadeira amizade. Fui conhecendo a família da Lídia, a sua casa, a paisagem da sua infância, e o conhecimento de tudo isto facilita o meu trabalho de tradutora, influencia e marca, de maneira indireta, a minha tradução. Conhecer pessoalmente a autora de quem eu traduzo os livros me permite trabalhar junto com ela. Sinto muita pena de meus colegas tradutores do inglês que nunca conseguem trocar nenhuma palavra com os autores simplesmente porque os próprios autores não o querem. Para mim, é uma atitude incompreensível em que se manifesta certo desprezo pelo nosso trabalho. A tradução literária é uma atividade solitária, somos leitoras bem críticas da obra a que damos a nossa voz, a nossa melodia linguística. Mas nem sempre acertamos o tom logo na primeira tentativa, e muitas vezes torna-se indispensável o diálogo com o autor/a autora, um diálogo que costuma ser imensamente intenso e gratificante. Eu já perdi a conta dos encontros com Lídia em que procuramos esclarecer as dúvidas que eu encontrava ao traduzir os livros dela mas sei que sempre foram encontros maravilhosos, dos quais eu regressava com a sensação de ter mergulhado bem profundo na obra dela.

    De vez em quando, perguntam-me porque eu fui estudar a língua portuguesa. Eu costumo responder que a minha opção pelo português provavelmente foi motivada pela vontade subconsciente de poder vingar-me da minha família. Desde pequenina eu estava acostumada a ouvir um idioma estrangeiro em casa. É que os meus pais, embora ambos de descendência alemã, nasceram na Rússia e, portanto, falavam russo, como aliás, vários primos meus também falavam e ainda falam, mas nós, as minhas irmãs e eu, não o aprendemos. A fuga no final da guerra, em Janeiro de 1945, levou-nos para uma pequena aldeia no Norte da Alemanha, claro que lá não se podia falar a língua do inimigo. Mesmo assim, quando meus pais não queriam que nós, as filhas, entendessemos o que eles diziam eles falavam russo. E nessas ocasiões, eu sempre sentia-me um pouco excluída. Por isso, quando resolvi estudar línguas eu escolhi o português porque era um idioma que ninguém na minha família falava. Hoje, eu até estou grata por não me terem ensinado a língua russa, porque nesse caso provavelmente eu nem teria estudado português nem conhecido este país. O que seria uma grande pena.

    Hamburgo, 14.02.2011
    __________________
    * Tradutora da obra de Lídia Jorge para a língua alemã.
    Comunicação feita no encontro
    "O Nosso Imaginário Interessa aos Europeus?",
    no Convento de Santo António, em Loulé,
    integrado nas comemorações do 30º aniversário de “O Dia dos Prodígios”



    quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

    Depoimento * A escola daquele tempo

    Os dois lados do mundo

    Lídia Jorge *

    A Escola da Cabeça d’Águia era uma casa com uma porta, duas janelas e mais nada. No primeiro dia em que me levaram até lá, fiquei feliz porque ia encontrar crianças da minha idade. Elas lá estavam, divertidas, barulhentas, grandes olhos, faces magras. Também era a primeira vez que me colocavam na mão uma caneta de tinta de molhar e ela escorregou-me da mão, borrou a folha e rebolou pelo chão. Tive de gatinhar debaixo das carteiras para a encontrar. Foi então que eu reparei que os pés dos meus colegas, em grande parte, estavam descalços. Vi os seus pés pousados no chão e percebi que a turma se dividia em duas metades – os que tinham e os que não tinham sapatos. Nessa noite, procurei sapatos que servissem aos meus colegas, e em casa havia-os em várias caixas, mas de criança encontrei só um par, e eu queria encontrar botas, formatos vários. A minha mãe descobriu o que eu andava a fazer e disse-me – “Para quê tudo isso? Desengana-te, por mais que faças, nunca vais calçar toda a gente”. E assim foi. Passei muitos anos sem contar este episódio, até que desisti desse silêncio. Passado todo este tempo, a Humanidade continua a dividir-se, exactamente, nesses mesmos dois grupos – Os que andam e os que não andam descalços. Só na Literatura conseguimos encontrar sapatos para todos. Talvez essa seja uma das razões por que escrevo. Talvez escreva desde aquele dia em que a caneta escorregou pelo tampo espalhando tinta no papel e conduzindo-me ao chão do mundo.
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    * Texto colocado em mural na exposição bio-bibliográfica
    promovida pelo Câmara Municipal de Loulé

    sábado, 11 de dezembro de 2010

    Depoimento * Raiz e morada, pulsar universal

    Este chão que marca

    Lídia Jorge *

    O que transforma uma região, uma cidade, um país ou mesmo um continente, num local de ficção, é o nosso olhar. É o nosso olhar sobre os homens que os transforma em personagens, figuras tímidas ou heróis triunfantes, grandes colectivos ou figuras individuais, conforme o nosso alcance e a nossa fantasia. Tudo depende da nossa relação com a terra, esse pilar da nossa verdade.

    Mas se muitos dos meus livros têm a marca deste local, não é só porque em relação a ele existe um laço feito de berço, amor e proximidade. É porque a sua atmosfera física incita a imaginação, e a sua vida passada e presente convida a que se invente a partir dela. A sua beleza, o seu isolamento, a sua ligação com as estrelas comovem e mordem o entendimento. Nas últimas décadas, a mudança tem sido tão veloz, para o bem e para o mal, que a sua transformação se tornou emblemática e chama a narrativa. E as figuras que dela saem, trazem a marca de uma luta que mais não é do que a síntese de uma evolução em torno da modernidade.

    Reconheço que “O Dia dos Prodígios”, “O Cais das Merendas”, “A Instrumentalina”, “O Vale da paixão” ou “O Vento Assobiando nas Gruas”, encontram aqui a sua raiz e a sua morada, assumida e declaradamente. Nunca disfarcei essa intimidade. Pertenço ao grupo de escritores que consideram que os continentes, os países, as cidades ou as pequenas terras, uma vez inscritos no espaço da Literatura, só valem porque permitem descobrir aquilo que procuramos com a escrita – o entendimento do coração profundo dos homens. Por ventura, a luz viva, que por aqui tanto nos encandeia, abre um rasgão na realidade, de uma maneira tão particular que põe a nu o seu pulsar universal.

    * Depoimento para a Exposição 
    "O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge30 anos de Escrita Publicada"
    entre 11 de dezembro de 2010 e 31 de março de 2011,
    no Convento de Santo António, em Loulé.

    quarta-feira, 18 de agosto de 2010

    Depoimento * Retratos da República

    Sangue vermelho

    Em Portugal, não mora nenhum rei.
    O nosso sangue azul corre na constituição
    Na noite da eleição, e na força que tem
    A lei.

    De resto, no coração dos portugueses
    Todo o sangue é vermelho. E o progresso
    Quando vier, há-de ser fruto de sua espuma
    E seu conselho.

    Lídia Jorge *
    _____________
    * Publicado no álbum "Retratos da República",
    de Veríssimo Dias e Ricardo Faria Paulino (agosto de 2010)

    sábado, 7 de agosto de 2010

    Depoimento * 14 substantivos e 1 verbo

    15 conceitos

    TENTAÇÃO – Segundo o Génesis, tudo começou nas faces de uma maçã. Uma engenhosa parábola para explicar que o interdito é a essência daquilo a que chamamos humanidade.

    ESPELHO – Deve ser colocado à média luz, ou apresentar um grão de imperfeição como certos espelhos de Veneza. Distanciar a realidade do seu reflexo é o princípio da transfiguração e da beleza.

    CRISE – Disse-me um economista que a única maneira de enfrentar a grande crise consiste em pensar que todos os dias uma crise nasce, todos os dias uma crise se encerra. Eficaz, mas faz tristeza.

    LUTA – Pela amizade, enquanto os amigos perdurem. Pelas causas, enquanto os fins as justificam. Pela vida, até à morte, enquanto a vida for digna. Mas difícil, difícil, é estabelecer os limites.

    DEFEITO – Entre defeito e virtude, não cabe um papel de seda. Grandes preguiçosos transformam-se em santos pacientes. Terríveis narcisos, em actores geniais. Alguns tiranos domésticos foram poderosos líderes.

    INJUSTIÇA – Nascer-se súbdito, ter-se força para deixar de sê-lo, e não se possuir os meios. Ser-se súbdito involuntário do fanatismo, da ignorância, da má lei. Nada mais injusto do que essa vassalagem forçada vivida de olhos abertos.

    POLÍTICA - Prostitutos da esperança, pelo menos de quatro em quatro anos, acreditamos que alguém irá fazer-nos bem. E pensar que é isto que nos salva de transformarmos a esperança em fé.

    APRENDER – Aprender não é acumular. O que uma geração aprende a outra esquece. Na escolha do que não pode ser esquecido do passado reside a arte de fabricar o futuro.

    SEGREDO – Cada um transporta consigo o segredo que merece. Mas, no mínimo, faremos parte do segredo do Mundo, esse alfabeto que resiste.

    FAMÍLIA – Fala-se de laços de sangue, voz do sangue, afinidade consanguínea. Não gosto de sangue. Prefiro imaginar que a família é o espaço do nosso primeiro contrato social de entendimento.

    AMOR – Palavra tão vasta que nela o sentido se afoga. Eu prefiro vê-la carregada de determinativos, circunstâncias, complementos. Amor próprio, amor-perfeito, pelo amor de Deus.

    AVENTURA – O primeiro passo da criança, entre o berço e a porta. O último passo do velho, entre a porta e a cama. No intervalo, a viagem à volta da Terra ou o voo até às crateras da Lua.

    NOITE – Quando o dia desiste, chega a sombra da noite. É nela que pensamos encontrar a alegria que a claridade não dá. Os industriais da noite conhecem essa nossa adolescência.

    UTOPIA – Pobre Thomas More. O rei fez-lhe aquela maldade. E assim o seu caso deixou um forte aviso – O de que não há utopias grátis. Não se pode acreditar em sonhos de sofá.

    FIM – Estamos a falar da circunferência. Se essa figura geométrica for verdade, o fim e o princípio estão unidos. Mas, entre o desejo e a prova, há muito mais do que um diâmetro.

    Lídia Jorge *
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    * Na rubrica Palavra Puxa Palavra (Expresso | Única, 7 de agosto de 2010)

    domingo, 1 de agosto de 2010

    Depoimento * Ali dentro o mundo é outro

    Como escrevo

    Lídia Jorge *

    Como se escreve é muito diferente de como se gostaria de escrever. Sonho com um espaço ideal. Um quarto de hotel, uma mesa bem iluminada, um bloco de papel, um computador portátil. Ninguém sabe que me encontro por ali. Os telefones não tocam, a refeição é tomada no primeiro andar. Pode chover lá fora, fazer vento ou fazer sol, ali dentro o mundo é outro. Posso mesmo nem olhar para o tempo que faz lá fora. O que interessa é a paisagem que está invisível. As figuras estão dentro da cabeça que são muitas, não é preciso que alguém apareça. Se a empregada quiser arrumar o quarto, eu vou pedir que fique para outro dia. Nada de música, nada de ruído. Mesmo o aspirador, tão necessário, pode ir sorver poeira para outro lado.

    Então, agora, sim. Primeiro no papel, que pode ser o bloco do hotel ou um caderno qualquer. O que é necessário é que seja uma folha em branco. Ali estão as primeiras linhas, um primeiro esboço, os primeiros nomes. Duas ou três experiências, duas ou três hipóteses de abertura. Coisa assim – “O restaurante floresceu quando o cozinheiro começou a servir gato…” Ou assim - “ Quando os gatos das redondezas começaram a desaparecer ninguém deu por nada…” É preciso compreender as diferenças, imaginar as implicações. Primeiro o desaparecimento dos animais, ou devo eu metê-los de imediato dentro do prato? Deve-se tentar primeiro de uma forma, depois de outra. Tudo isto se passa entre a cabeça e o papel. Tentativa para aqui, tentativa para ali. Muitos riscos. Quando a sintaxe começa a ter alguma estrutura, é o momento de abrir o computador, engatá-lo à corrente, abrir um arquivo, atribuir-lhe um nome, dar um título ao conto, e recomeçar a vida. Aquela vida. Desta vez, calhou ser um restaurante que servia gato em vez de coelho. Mas não conto o desfecho. Meia noite em ponto. Ainda estará alguém, lá em baixo, no bar do hotel, que sirva uma sanduíche ou um bolo? Se a coisa correu bem, uma taça de champanhe?
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    * Publicado na revista Time Out (1 de agosto de 2010)

    domingo, 20 de junho de 2010

    Depoimento * "O início mágico de Era uma vez"

    José Saramago

    Lídia Jorge *

    José Saramago parte, deixando uma obra a todos os níveis notável. Se a Literatura Portuguesa é considerada como sendo, em geral, demasiado regional e de expressão demasiado complexa, o nosso único Nobel da Literatura foi capaz de assumir o paradoxo de aprofundar essas mesmas características, ao mesmo tempo que tornou a sua obra universal.

    As suas metáforas sobre o lugar de Portugal e da Península Ibérica sempre alargaram-se ao mundo. A questão da fraternidade nunca foi, nos livros de Saramago, apenas sociológica, sempre foi ontológica. A questão do desentendimento entre homens sempre foi uma questão mais do que de política , sempre teve a ver com a natureza da Criação e do Criador. E essa questão que tinha a ver com as suas convicções profundas de que seríamos seres errados neste mundo, espelhou-se na sua vida cívica, em relação à qual nunca alimentou equívocos. Sempre foi claro, sempre defendeu um ideal e um ideário precisos, sendo fiel a um projecto que a História derrubou, mas onde Saramago sempre viu, até ao fim, virtualidades que em seu entender melhorariam as condições de vida dos homens. Nesse aspecto, José Saramago foi pouco português, porque sempre se soube expor, e foi pouco moderno, porque nunca negociou. Mas se houve quem o detestasse, foi por saber que era infinitamente amado e admirado por um vastíssimo público, e que uma palavra sua sobre determinado assunto, jamais seria inóqua. Algumas das suas opiniões fizeram estremecer instituições, governos, países e culturas. Nunca se poderá, porém, dizer que Saramago era um provocador gratuito, ou que procurava o conflito pelo conflito para se celebrizar. Entendo que não. De tantas horas passadas em conjunto, sempre me pareceu que as sua opiniões eram emitidas pela força da sua convicção e ideia da possibilidade de, através dela, ajudar a mudar o mundo. Mesmo no final, quando já achava que essa possibilidade era vaga.

    Mas a grande proeza do Saramago foi ter transformado toda essa matéria contundente, que poderia bem ser matéria de ensaio, em narrativas contadas com desenvoltura e fantasia, graça e exemplaridade, que a todos atingem. Ler Saramago é entrar no domínio da transfiguração, da fantasia e da beleza, em livros que encerram todos eles o início mágico de Era uma vez. Aliás, a razão da escolha apresentada pela académico sueco, porta-voz do júri, aquando da entrega do Nobel a José Saramago, foi precisamente essa, e continua a ser válida até ao fim – O facto de se estar presente um escritor que sendo igual a si mesmo nunca se repete de livro para livro. Em todos cria um universo próprio, põe -no à prova, fá-lo estremecer nos seus alicerces e deslinda-o diante dos nossos olhos. Foi assim desde O Memorial do Convento até ao quase derradeiro A Viagem do Elefante, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, ou O Evangelho Segundo Jesus Cristo. O mesmo gosto por interpelar o sentido da História, o sentido da vida e do amor, através de efabulações poderosas e frescas como se em José Saramago existisse um eterno adolescente, ávido de actos e palavras. Um adolescente que desejou experimentar outra gramática para a sua língua e conseguiu-o. Experimentar uma outra poética narrativa e conseguiu-o. Um outro olhar sobre o mundo contemporâneo e conseguiu-o.

    Sobre o sentido da vida, gostava José Saramago de utilizar a expressão barroca do nascer é morrer. Ela não acreditava no oposto, de que morrer é nascer. Combateu essa ida com todas as suas forças, até à última página do seu último livro-libelo, Caim. Mas existe uma outra forma de entender este dia em que nos deixa, juntando-lhe algum sentido da metafísica possível, compatível com o seu ideário. A ideia de que nascer e morrer pode significar continuar. Hoje, nada de importante do grande artista e homem belicoso que foi desapareceu. Nos seus livros, cuja pilha acumulada sobre a secretária é tão alta que tomba para o lado, esse adolescente aventureiro que foi José Saramago, a partir de hoje, pura e simplesmente, existe como página.
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    * Texto publicado no ABC, 20 de junho de 2010

    domingo, 6 de junho de 2010

    Depoimento * Moeda de oiro que a pintura pode dar

    Armanda Pássaros

    Lídia Jorge *

    Segundo a pintura de Armanda Passos, o Mundo é um pássaro.

    Na ordem natural das espécies, o pássaro descende do réptil e antecede o mamífero. De entre os mamíferos, segundo as lendas, num dia iluminado por um lindo relâmpago azul, nascemos nós. Teremos sido nós, então, movidos por essa outra luz, quem nomeou o céu, a terra e todas as coisas que nos cercam. E entre elas, o pássaro, porque voa, foi nomeado como o nosso parente mais próximo, emprestando a sua forma ao anjo. Bela invenção. Ela significa que, para nos sentirmos honrados com a nossa condição, precisamos de encontrar um lugar imaterial para o nosso nascimento. Significa que nos recusamos a entroncar-nos na linha directa da sucessão dos animais.

    Mas os artistas mergulham com naturalidade nesse lugar onde fomos tudo e somos ainda a amostra de todas as coisas. Os grandes artistas não têm medo de enfrentar o lugar da carne antiga, da cabeça com vários olhos, ou o resto da nossa língua bífida, nem evitam o diálogo com os habitantes da lama e os habitantes das árvores. Os artistas sabem ir ao encontro desse terror e ao mesmo tempo dessa sublimação que nos faz pertencer a uma outra totalidade. O grande artista diz aos outros – Vejam como eu, todas as noites, me encontro com o impronunciável. Convido-vos a vir também. Foi essa viagem que, durante vários anos, eu aceitei fazer através de um quadro da Armanda Passos.

    Era apenas um bando de pássaros que me levava para esse lugar onde as coisas estremecem. E era bom. O poético, no dizer de Arthur Koestler é o olhar que decompõe a realidade nos seus fragmentos, de modo a mostrar as arestas do original. Por isso mesmo o poético corresponde à interrogação que se faz depois das grandes surpresas, as grandes alegrias ou as grandes catástrofes. Era esse olhar poético que me dava o seu quadro, e alguma coisa estremecia, a partir do local onde se encontrava o quadro da Armanda Passos.

    Não sei que lugar ocupará na História de Arte a obra de Armanda Passos, pois a História de todas as coisas parece ser agora um círculo em que tudo é mostrado e visto em simultâneo, a maior parte das vezes, sem uma única legenda. Não sei o que o futuro dirá. Sei apenas o seu contrário. Que as figuras de Armanda Passos contam uma viagem aérea que vale a pena manter por perto. Esta pintora tem o dom do desenho, da cor, da interpretação, e o supremo dom da transfiguração, uma integridade absoluta como acontece com os grandes criadores. Não sei o que a História de Arte dirá. Sei que vale a pena ter as suas representações por perto para embelezar o nosso quotidiano e não sermos pessoas banais. Armanda Passos pertence à galeria dos artistas que escrevem a sua própria e inconfundível arte poética. E isso, para os atentos, é a mais importante das moedas de oiro que a pintura pode dar.
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    * Texto para catálogo da pintora (6 de junho de 2010)

    quarta-feira, 3 de março de 2010

    Depoimento * Para o álbum "100 Mulheres Portuguesas"

    Excepções e regra

    Lídia Jorge *

    Esta é uma bela homenagem que um jovem fotógrafo dedica às mulheres do seu país. No seu gesto de celebração, escusado será procurar outros motivos que não sejam os do reconhecimento de que o caminho percorrido por cada uma destas figuras, até ao lugar de um certo destaque, representa um contraste em face dos muitos destinos que as precederam e a quem a vida anónima foi negando qualquer menção para registo público. Por umas e por outras, ficaremos a dever ao Gonçalo Cunha de Sá esse gesto simbólico de justiça. Mas não nos enganemos – Do ponto de vista da marcha do tempo e relevo dos seus actores, assim, em separado, as mulheres só serão objecto de discurso enquanto não forem, elas mesmas, sujeitos da acção.

    Quando a questão de sexo não for mais um factor de discriminação a nível dos actos cívicos e das acções públicas, as representações de género separadas por salas e por livros, ainda próprias do nosso tempo, cairão em desuso, e farão com que os cidadãos futuros, olhando para trás, se lembrem de que houve um mundo arcaico em que a afirmação das mulheres era excepção. E a ideia de que houve em relação às mulheres tratamentos de minoria deverá provocar riso, pela absurda contabilidade dos factos. Assim há-de ser, por certo, mas não agora, nem aqui, já que alguns domínios fundamentais, as mulheres ainda não passam de alegres recém-chegadas, e em muitos deles, ainda se contam pelos dedos.

    Procurando bem, há explicações para tudo. Para esta assimetria imposta e ao mesmo tempo consentida, também há. Desde a explicação induzida pelo vínculo que a Biologia empresta aos corpos, à explicação deduzida a partir da diferença que a vontade de um bom Deus empresta às almas. Segundo a narrativa mais feérica que certo neo-platonismo engendrou num jogo de assimetria entre luz e penumbra, aos homens caber-lhes-ia fazer vingar a imperfeição da vida, invectivando Deus através da revolta que conduz à construção da obra, um acto de soberba e insurreição, que assentaria bem ao rival terreno. A mulher, pelo contrário, colaboradora com a divindade pela gestação dos filhos, faria de sua pessoa o vaso da procriação por vontade alheia, aceitaria na sua própria carne a criação do Outro, dispensando-se assim de se envolver na dissenção que preside ao acto de ousadia do empreendedor e do artista. A mulher seria votada a obedecer, fazendo do acto de subserviência o material da sua genuína construção. A separação das águas através deste ângulo, muito mais enraizado do que pode parecer à primeira vista, dá que pensar.

    Agustina Bessa-Luís, que não poupou fustigar o sinal interior da acomodação das mulheres, referiu-se ao hábito de obediência como uma economia do comportamento, do qual elas retirariam lucros de bom proveito, ainda que de mau exemplo, pôs-nos de sobreaviso sobre as mansas. Fez questão de nos fazer desconfiar das vestais sentadas que se sentiriam razoavelmente bem sucedidas nas penumbras dos seus templos. No que não deixa de ter razão. Em todos os tempos, há quem prefira colaborar com a apatia em troca de protecção. Mas essa não é a regra comum.

    Se essa regra fosse geral, seria caso para dizer que por qualquer outra razão, as histórias das fadas têm os seus limites temporais afixados pelo selo de consumo, e os seus prazos de validade estão esgotados. Ao longo do Século XIX, o Ocidente pôs em marcha a mais vultuosa emancipação dos escravos de que há registo, e no seio deles - ou apenas como eles, os escravos - as mulheres aprenderam a ler, a escrever e a contar as suas vidas pelo lado contrário do que era suposto. Onde estava a finalidade, colocaram a causa, e onde estava o enigma, colocaram o argumento. Para inverter os dados do destino, Simone de Beauvoire escreveu a meio do século passado, essa frase paradoxal que contém em si um quiasmo irresolúvel e no entanto resultou inaugural pois denuncia o acrescento duma falsa natureza à natureza propriamente dita – “Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres”. Hoje em dia, de repetida, o seu sentido deixou de ter a relevância, como sempre acontece com as afirmações que se transformam em cliché, mas é de supor que muitas das mulheres aqui fotografadas devam ter tido essa frase como antídoto contra a formatação dos seus percursos. Pois é bem verdade que nem sempre a história da afirmação das mulheres coincide com a história da consciência feminista, mas a sua relação de sintonia e sintoma, causa e efeito, o papel da dissensão não pode ser ignorado.

    Também neste campo, o caso português é particular. É costume sublinhar a debilidade da reivindicação portuguesa em contraste com a energia dos movimentos reivindicativos próprios de outras culturas, e com razão. Mas num país blindado pela censura, pela moral conservadora e punitiva, e por uma instrução roçando o nível do miserável, a acção de grupos de mulheres como Adelaide Cabete e Ana de Castro Osório, durante a Primeira República, bem como o trabalho isolado e notável de Maria Lamas, ou a singularidade do caso das Novas Cartas Portuguesas - o selo mais emblemático da afirmação da personalidade das mulheres portuguesas modernas - foram pontos altos que não só precederam e anunciaram a Democracia, mas sobretudo se tornaram detonadores de mudanças de mentalidade e se inscreveram na nova cultura de libertação e autonomia em crescendo que vivemos nos dias de hoje. Além de que milhares e milhares de outras mulheres, umas perto da militância feminista, outras apenas pela afirmação da sua dignidade, conseguiram combater e ultrapassar o meio atávico português, demasiado original no preconceito, mesmo quando apenas comparado com o quadro das culturas conservadoras do Sul da Europa. Para essas, as semi-anónimas, ou anónimas, nunca haverá maneira de lhes criar uma galeria de retratos dispostos num livro ou numa sala. Como não há hipótese de nomear os homens cultos, e os não cultos mas justos e sensíveis, que ao longo das últimas décadas compreenderam que ajudar a dignificar a vidas das mulheres é uma quota antecipada que se paga em conjunto para uma habitação mais digna sobre Terra.

    Aliás, estas fotografias, captadas por um homem jovem, vêm dizer isso mesmo – que as duas humanidades, na totalidade, são as duas mães da Humanidade, e que elas não se afirmam nem se salvam se não estiverem em conjunto. Sabemos que quanto mais pobres, mais teocráticas, mais ditatoriais forem as sociedades, mais subalterno será o seu papel. Por isso mesmo, as mulheres portuguesas que pela História ficaram durante tanto tempo dependentes das sombras e das metáforas para dizerem eu existo, poderão vir a ser importantes, na aproximação, encontro e diálogo entre culturas e modos de vida diferentes. As mulheres portuguesas, para quem todo um passado baço e submisso ainda é tão presente, por irrecusável dever de semelhança, poderão lutar pelos Direitos das Mulheres, como parte integrante e inseparável, dos mais elementares Direitos Humanos.
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    * Para o álbum com fotografias de Gonçalo Cunha de Sá
    editado paralelamente à exposição que percorreu o País
     “100 Mulheres Portuguesas”, com início a 3 de março de 2010
    cuja venda reverteu para a associação Mulheres Contra a Violência

    quinta-feira, 1 de outubro de 2009

    Depoimento * E nisso são irmãos gémeos dos escritores

    Laços de Família

    Lídia Jorge *

    Do outro lado do telefone, alguém me pedia que escrevesse umas linhas sobre editores e escritores, suas relações de vida ou dissidência, uma página breve que fosse, duas talvez, coisa rápida, coisa simples, e eu, em vez de avaliar o que se passou entre Guttemberg e Marconi, deixei esse vasto mundo para trás, e comecei a pensar naquele dia em que subi o elevador do número 225 do Boulevard Saint Germain, no preciso momento em que Marie Ange Masson-Mosca me fez sentar na sua frente, e no fio das suas palavras se ia tecendo a minha relação futura com as Éditions Métailié, um abraço estreito mantido até agora como um laço, não um nó. Mas essa história que já foi contada, a história de uma relação com seu quê de ideal e irreal, de tão profunda e forte, não a vou contar de novo. Deve permanecer encostada aos livros, a alimentar-se do licor do tempo e a ganhar as asas que a amizade tece, sem alarde. Firmemente, sobre essa caso, nada direi, pensava eu, enquanto alguém do outro lado da linha falava dos mitos que hoje em dia se propagam, aqueles que pintam de gelo as relações criadas a partir das casas editoriais e seus escritores, hipoteticamente, tão gelados quanto elas.

    E assim, enquanto do lado de lá alguém falava de frieza, lâminas, facas, vidros, despedimentos, cortes, abandonos, modernas legendas trágicas entre editores e escritores, eu pensava naquele dia da Primavera de 2001, em Frankfurt, quando a Ray Güde- Mertin me conduziu ao escritório da Suhrkamp para me encontrar com Siegfried Unseld, e pelo caminho íamos roubando ao jardim público um ramo de flores. Pensava naquele momento em que alguém veio sussurrar que eu iria ser recebida por um minuto, dois minutos, não mais, e que o senhor Unseld não iria levantar-se da cadeira, iria ficar sentado, por um minuto, dois minutos, não mais, e a Ray ficou à espera, e eu entrei, e o senhor Unseld levantou-se da cadeira, e eu não me sentei em cadeira nenhuma, apesar do seu gesto, e ficámos um diante do outro, a dizer palavras de cumprimento, sabendo que nos estávamos a despedir para sempre, nós que havíamos falado sobre Catulo e as mulheres, sobre Goethe e as ervas que compunham o seu manjar, ou Thomas Bernhardt de férias em Portugal, e agora tínhamos palavras urgentes para dizer e já não diríamos, pois tudo tinha deixado de ser urgente, até que ele me disse You will… e eu disse I’m not sure I will…, e cinco minutos tinham passado, e ele não se tinha sentado e eu não me tinha sentado, e alguém bateu na porta, e ele falou em alemão, e eu virei-me, sem lhe estender um braço. Sim, eu sei que atrás da minha relação com Sigfried Unseld havia uma cadeia de pessoas, sabia que outros me haviam levado até ele, mas é dele que estou a falar, alguém que emprestou a vida pela Literatura Alemã e pela Literatura do Mundo. Nunca soube onde deixei as flores, se lhas entreguei, se as perdi no corredor. Pouco importa. Importante é não fazer passar aos adolescentes a ideia de que neste mundo tudo se rege por frieza, lâmina, facas, vidros, sobretudo num campo onde, em princípio se tece o seu contrário.

    Isso pensava eu, enquanto do outro lado, alguém me falava da imagem que de momento corre entre os jovens dos liceus sobre a força do dinheiro e do negócio. Ah! O que se conta sobre os editores, esses exploradores dos proventos alheios, esses usurpadores dos talentos dos outros, esses avarentos que irão ser expulsos por São Pedro de qualquer lugar que se assemelhe ao paraíso. Românticos, os rapazes dos liceus, orgulhosos de poderem reclamar por uma ordem protectora dos criadores. Fazem bem. Infelizmente há casos, a história está cheia deles. Toca a todos. Mas em sentido contrário, eu pensava em Doroteia Bromberg naquela noite, em Estocolmo, quando a vi caminhar pela neve fora, rebocando um carrinho com os livros. Ela mesma, a editora de vários Prémio Nobel, ela mesma estendeu os livros sobre a mesa, expô-los, vendeu-os, guardou os que sobejaram, empurrou o carrinho ao longo da rua coberta de neve, e eu que ia atrás, a ver como os colocava na bagageira do seu carro, pensava na sua distinção, no seu respeito pelos autores, a sua cumplicidade, sua defesa, sua luta por umas histórias vindas de longe. Umas histórias portuguesas que a Doroteia achava que os suecos deveriam conhecer. Só isso. E por isso, eu gostaria de ter filmado esse encontro com Doroteia entre os livros, para passar aos adolescentes, para que eles ficassem a saber que nem tudo é um frigorífico onde se conserve o nosso coração para ser comido. Ah! Se eu filmasse! Eu filmaria o rosto de Menakhem Perry quando explica por que escolhe determinados livros, e Christopher MacLehose, e Adolfo García-Ortega, e Luciana Villas Boas, só para dizer aos rapazes dos liceus que tenham calma, que nem tudo é fidúcia e percentagem, que há gente que não dorme por uma boa história, por um belo livro, uma boa frase, um pensamento. Que há editores que se enamoraram de um pensamento, por ele poderão dar a volta ao mundo, e nisso são irmãos gémeos dos escritores. Eles são aqueles que põem no colo dos leitores, o livro que tu escreves na tua mesa de trabalho.

    Sim, do outro lado de lá, alguém sugeria uma, duas páginas sobre essa ideia de que a edição se transformou num balneário, e que o editor é um Mister contratado que só pretende golos. E às vezes assim parece, mas se tudo fosse assim, se apenas os golos contassem neste jogo, não seria possível ter existido aquele momento em que o Nelson de Matos, já perto da meia-noite, a partir de Barcelona, mandou parar as máquinas de impressão em Lisboa, por ter percebido que eu duvidava do título do livro em vias de publicação. Sim, era um restaurante de peixe, e já íamos na sobremesa quando a conversa foi parar ao título. Lembro-me, se me lembro, desse momento em que fui para a rua com a Cecília Andrade , e a uma sua palavra a decisão foi tomada. Cecília Andrade é hoje a minha editora portuguesa, ela é e será sempre a pessoa que nessa noite foi capaz de tomar a decisão por mim, de fazer andar de novo as máquinas que haviam parado. Nelson de Matos, o meu editor de muitos anos, ficará para sempre na minha vida com o telemóvel na orelha, à minha espera, prolongando aquela noite de Outono em Barcelona. Até que disse – “Continuem, aconteceu aqui uma dúvida…” E assim, se é verdade que os jovens só entendem a vida em metáfora de pop e futebol, é preciso dizer-lhe que estas cantigas são outras, e estes golos entram noutras balizas, menos rectangulares, menos instantâneas, menos contáveis, e no entanto, necessárias para continuar a nossa humanidade. Que os editores são parte inseparável deste team. É verdade, contra o que se propaga e algumas evidências sugerem, e outras infelizmente o confirmam, o editor é uma figura gémea do escritor, aquele que divulga os livros que ele mesmo gostaria de ter escrito. Este é o único compromisso que não pode ser perdido. A cultura repousa nessa escolha, nessa aposta em que se tece uma espécie de larga família poligâmica, unida pela ideia de uma arte.
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    * Publicado com o título de "Liens de Famille"
    no Catálogo dos 30 Anos das Éditions Métailiée,
    outubro de 2009 

    quarta-feira, 5 de agosto de 2009

    Depoimento * Universo poético inconfundível, só seu

    Manoel de Oliveira

    Lídia Jorge *

    Tenho dificuldade em definir o que seja cinema puro, e no entanto, quando ouço falar do conceito, associo-lhe de imediato três nomes – Akira Kurosawa, Andrei Tarkovsky e Manoel de Oliveira. Reconheço-lhes por igual a mesma capacidade de transmitir uma personalidade criadora, a mesma intensidade dramática com lógica de palco, e a mesma demanda ontológica através da narrativa literária. E tal como acontece com o mestre japonês e o russo, reconheço que Manoel de Oliveira possui um universo poético inconfundível, só seu, que foi capaz de impor ao mundo do cinema contemporâneo. Por comparação, o realizador português, talvez só não alcance a mesma porosidade universal daqueles seus congéneres, quando se enreda em demasia na retórica da portugalidade e se abandona a uma espécie de didáctica sobre o destino e outros conceitos próprios da dissertação. É por isso que a associação com Agustina Bessa-Luís sempre resultou tão benéfica.

    É verdade que Manoel de Oliveira se aproximou de vários escritores universais, designadamente autores europeus canónicos, e nesse aspecto também o realizador português foi capaz de des-provincianizar o nosso cinema. Mas a meu ver, de forma consequente, só Agustina lhe emprestou a carne e os ossos necessários para manter em cena, do princípio ao fim, personagens com interioridade avassaladora e recorte exterior inesquecível. E o cinema, mesmo o dito puro, também é isso. É essa consistência oriunda da ficção romanesca de Agustina que distingue o fascínio des-conexo de “Os Canibais” ou de “A Divina Comédia” do sentimento de totalidade, e de aproximação da arte absoluta, criado por “Vale Abraão”, “O Mosteiro” ou essa peça de declamação extraordinária que é “Party”. Mas devo dizer que só descobri Manoel de Oliveira com “Francisca”, e um pouco por acaso. Até então, Manoel de Oliveira afigurava-se-me ser uma espécie de lenda remota criada contra-corrente. “Amor de Perdição” tinha-me parecido apenas uma deslumbrante teimosia sem grande consequência. Paguei-as caras – Se hoje em dia não conheço tudo o que Manoel de Oliveira filmou, é só porque este realizador, tal como a sua parceira de ficção, Agustina Bessa-Luís, produzem sem parar, como é próprio de quem descobre que o seu talento é de oiro, e sabe que os outros também o sabem. Por isso mesmo, nas justas homenagens que lhe estão a ser prestadas, por mim, dispenso qualquer referência à sua idade. É assunto que não me interessa para nada. Do ponto de vista humano, o homem que se senta junto de nós, e fala da sua arte com a forma notável como o faz, é apenas um miúdo de “Aniki-Bóbó” que cresceu demasiado e está produzindo com a velocidade própria dos grandes criadores. E o regozijo é dele mesmo, e nosso.
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    * Para livro de homenagem a Manoel de Oliveira ( 2009)

    sábado, 1 de agosto de 2009

    Depoimento * Essa página tal de Marguerite Yourcenar

    Duas horas de leitura
    que duram toda a vida

    Última Página de um Romance
    Golpe de Misericórdia
    de Marguerite Yourcenar

    Estendeu-me um revólver; peguei no meu, e dei automaticamente um passo em frente. Durante este tão curto trajecto, tive tempo para repetir dez vezes a mim mesmo que Sofia talvez tivesse um último apelo a fazer-me, não sendo esta ordem senão um pretexto para o fazer em voz baixa. Ela, porém, não mexeu os lábios; com um gesto distraído, tinha começado a desabotoar o alto do casaco, como se eu fosse apoiar o revólver à altura do coração. Devo dizer que os meus raros pensamentos iam todos para aquele corpo vivo e quente, que a intimidade da nossa vida em comum me tornara quase tão familiar como o dum amigo; e senti-me tomado duma absurda pena pelos filhos que aquela mulher teria podido dar à luz, e que teriam herdado a sua coragem e os seus olhos. Mas não é a nós que cabe povoar os estádios nem as trincheiras do futuro. Um passo mais pôs-me tão perto de Sofia que teria podido beijá-la na nuca ou pôr a mão sobre o seu ombro agitado por pequenos estremeções quase imperceptíveis, mas já só via dela o contorno dum perfil perdido. A sua respiração era ofegante; agarrei-me à ideia de que teria desejado acabar Conrad e que era a mesma coisa. Disparei desviando a cabeça, quase como uma criança assustada que faz detonar um petardo na noite de Natal. O primeiro tiro não fez senão esfacelar uma parte do rosto, o que me impedirá para sempre de saber qual a expressão que Sofia teria adoptado na morte. Ao segundo disparo, tudo ficou consumado. Pensei, primeiro, que ao pedir-me que me incumbisse desse serviço, ela julgara dar-me uma derradeira prova de amor, e a mais definitiva de todas. Compreendi, depois, que apenas quisera vingar-se e legar-me remorsos. Tinha calculado com justeza: sinto-os por vezes. Com mulheres destas, cai-se sempre no laço.

    in edição Dom Quixote |Biblioteca de bolso| 2003,
    tradução de Rafael Gomes Filipe

    Lídia Jorge *

    Dog Women, de Paula Rego
    Muitos são os leitores que associam o Verão a leituras com finais suaves. Leitores que preferem colocar na sua mochila de viagem histórias de cujas últimas páginas se desprendem praias douradas, beijos na boca, ou sentimentos da História rumando à metafísica da espécie. Ora nada disso acontece em “Golpe de Misericórdia”. Esse livro, que Agustina Bessa-Luís classificou como uma educação sentimental para veteranos, só é aconselhável a quem goste de histórias correndo sobre o fio da navalha e ame os finais em que a voz da interpelação deixa ao leitores, para sempre, um arrepio na espinha.

    Por mim, pelo menos, é esse o efeito que me produzem as últimas linhas deste livro de Yourcenar escrito em 1938, como desfecho duma história supostamente acontecida, vários anos antes, no rescaldo das lutas civis entre os vermelhos e os brancos, na zona da Curlândia, uma história onde se encontra o ADN remoto da divisão que viria a separar o mundo em dois, ao longo de todo o século XX. Só que neste livro, esse pano de fundo político não passa de um trapo estendido sobre o qual se imprime o que verdadeiramente importou à sua autora e nos importa a nós, seus leitores – A iluminação, tão profunda quanto é possível atingir em Literatura, sobre dois caracteres em confronto. E é nesse plano, os da dimensão relacional das personagens, que este final é um dos mais belos e surpreendentes da narrativa contemporânea.

    Por mim, os anos passam, os livros vêm e vão, alguns finais ficam, mas de entre todos, eu sublinho aquele que me oferece esta imagem. A imagem de Sofia de Reval a desabotoar a alto do casaco para que Eric von Lhomond , o amigo íntimo do seu irmão, apague para sempre, da sua cara e do seu corpo, a experiência de um amor duma dimensão inusitada. Sofia é uma das heroínas mais impressivas da Literatura Ocidental. E Eric, no papel de cínico, é sobretudo a história duma voz partida em duas. É verdade que durante este final não se refere o início do livro, nem o pé entrapado que este oficial contador da sua história em voz alta estende sobre uma cadeira, na estação dos caminhos-de-ferro duma cidade de Itália, nem as figuras dos seus destinatários de narrativa, os seus sonolentos companheiros de refrega, estão presentes. Mas o leitor atento não esquece – até porque o romance reproduz a urgência de contar de alguém supostamente movido pelo remorso – que se está perante uma madrugada de vigília, esse momento em que os seres amados regressam ao nosso convívio, quer estejam vivos quer estejam mortos. O mais tocante, neste abraço entre Yourceanar e o seu personagem homem, está naquele ponto em que Eric sonha, por um instante, como Sofia mereceria ter vivido e ter filhos com os seus olhos. E mesmo assim a sua mão não treme. Há uma brutalidade neste livro em forma de relâmpago que ilumina para além da sua luz. Lembro que se trata de um livro breve. Entre a primeira página e a última, vão apenas duas horas de leitura. Duas horas que duram para toda a vida.

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    * Publicado no Jornal de Letras, 1 de agosto de 2009

    sábado, 11 de abril de 2009

    Depoimento * Esse sentimento de coisa única

    O que mais desejava ver

    Delacroix,  'A Paz descendo sobre o Mundo'
    Lídia Jorge *

    Gostava de poder ver a Terra a partir do espaço. Dizem que parece redonda, pequena, azul, e tão sozinha no meio de nada que apetece chamar alguém para lhe pôr a mão por baixo. Dizem que avistada a partir de longe a sua imagem cria sentimentos contraditórios inexplicáveis, como o medo de que não se sustente por si mesma, ou de que o seu rumo esteja traçado sem que possamos fazer nada por ela, e a ansiedade por regressar ao solo para ajudar a mantê-la, pelo menos, tal como está. Isso eu gostava de poder ver, com os meus próprios olhos, para guardar na memória e escrever a propósito. Dizem que avistada a partir de escassos quilómetros, já não se sabe onde começam e acabam os países, que tudo são apenas montanhas, rios, planícies, mares, ocultados por nuvens que se deslocam em forma de farrapos e massas circulares. Isto é, ainda não se saiu da atmosfera, e já a Terra deixa de ser política, passa a ser apenas o que é - um planeta, uma realidade geográfica. Dizem que é esse sentimento de coisa única que nos faz sentir que somos uma só humanidade, a última face da humanidade, tão transitória como foi a que nos precedeu e como será aquela que estará para vir, dentro de dez, quinze anos. Dizem que, a partir de lá, a pessoa sente que todas as armas devem ser depostas. Dizem que, uma vez regressados, aqueles que a vêem do espaço não entendem mais por que nos espadeiramos uns aos outros. Eu quereria experimentar tudo isso, olhando a Terra de longe, como se estivesse a passear num jardim feito de coisa nenhuma, e de repente, sentisse que ali estava a minha morada. Mas por certo que essas viagens não acontecerão tão cedo, que a princípio estarão destinados apenas a milionários, além de que eu mesma nunca terei o treino físico suficiente para aguentar semelhante embate. Sei tudo isso. Ainda assim, falam-me de uma visão no futuro, e é isso mesmo, o rosto dela, que eu quereria poder observar.
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    * Publicado na revista Única | Expresso, 11 de abril de 2009

    domingo, 1 de março de 2009

    Depoimento * O assunto levar-nos-ia longe.

    Para que servem os intelectuais?

    Respostas a Questionário de Filipa Melo *

    Qual é a sua definição de intelectual? O que legitima ou (não) a sua credibilidade moral crítica?

    Lídia Jorge - O intelectual , essa figura que transportava consigo um pedaço da Razão Universal da qual ele era o porta-voz privilegiado, como conceito, praticamente desapareceu. Se alguém, nas sociedades modernas, ainda se lhe parece será a nível dos comentadores e cronistas da área política . Aliás, são as únicas pessoas tratadas ainda por “intelectuais” e mesmo assim, três ou quatro ao todo. De resto, as pessoas são tratadas pela sua função, professores, jornalistas, artistas, músicos, economistas, ao lado dos camionistas, empregadas do shopping e corretores de bolsa. O acesso à opinião que se proporciona a todos, partiu do acento democrático das sociedades e os novos meios de comunicação conduziram-na a um nivelamento completo. Uma tirada bem aplicada de um boieiro pode valer mais, para fazer passar uma razão, do que a de um catedrático. Na cultura do conhecimento existe um saber próprio do desconhecimento, e do desconhecido, que ocupa um espaço considerável. O assunto levar-nos-ia longe. O papel que antes era ocupado pelos intelectuais, entre os quais os escritores ocupavam um lugar particular, passou para uma outra realidade, a chamada figura pública, uma criação dos meios audio-visuais. Se alguém se toma por intelectual, essa figura prestigiada pela superioridade moral de antigamente, pode experimentar sentar-se no meio de uma assembleia de televisão e rapidamente concluirá que será muito menos escutado do que o cantor ou o actor. O filósofo, por exemplo, não tem lugar mediático, que é o lugar onde se existe no mundo contemporâneo. Não li o livro de Paul Jonhson mas creio que pelo que é narrado ele fala de um mundo que acabou. O intelectual, esse clérigo sem mancha, naturalmente que deveria ter algumas nódoas escondidas. Retroactivamente, terá imensas, será só procurar com minúcia e perseverança.

    Qual a margem de intervenção pública de um intelectual numa área que não é a sua, de especialização?

    LJ - Acho que tem pouca margem. Até há pouco tempo pensava-se que ao esplendor de uma obra correspondia necessariamente o esplendor de uma razão iluminada, mas hoje admira-se a obra sem necessariamente se dar crédito à opinião do seu autor. Isso, na minha ideia, constitui um progresso tão grande como separar a personagem do seu intérprete. Significa que as pessoas estão mais avisadas sobre a diferença de planos. Por exemplo, toda a gente hoje sabe que a opinião ideológica era a moldura que até há poucas décadas ditava a “inclinação” que conduzia à tomada de partido por este ou outro assunto, mesmo quando pouco ou nada se percebia sobre ele, mas essa situação não se compagina mais com o mundo de informação aberta. Muitas vezes aquilo que se chama a cobardia dos ditos intelectuais de agora não passa de uma hesitação perante realidades em conflito quando se desconhece uma parte da situação. Do ponto de vista doméstico, creio que terá sido Vicente Jorge Silva quem ainda chamou aos apoiantes intelectuais das causas políticas, “idiotas úteis”. Estou convencida que hoje em dia tal designação está desadequada – Neste momento, escritores, artistas, filósofos, professores, passaram a ser “idiotas inúteis”. Numa cultura em que as palavras em frases longas não passam, os futebolistas, os manequins e os DJs são o ideal para promover opinião favorável às causas mais diversas. Já um cantor pode ser um agente perigoso, já corre o risco de poder usar um verso.

    Até que ponto a obra de um autor é iluminada/contrariada pelo conhecimento da sua biografia? É possível separar obra de biografia?

    LJ - Acho que é um exercício estupendo tentar separar os dois planos. Kundera, que é contrário às autobiografias, disse que o escritor faz da sua vida os tijolos da sua obra, não escreve com eles a sua vida. Mesmo assim, ultimamente, no seu país, têm surgido bastantes julgadores do tipo do Paul Johnson. Por mim, acho que há obras que são espelhos autobiográficos, e outras em que do seu autor apenas sobressai o eco do seu temperamento, o ser profundo que passa para a obra. Mas a obra, à partida, tende a ser uma transfiguração, essa é a sua essência. Há obras geniais repassadas de humanidade, saídas da mão de criadores a quem não se pode confiar durante uma hora o nosso animal de estimação, e há artistas boas pessoas que não conseguem fazer uma obra que vá além do sofrível. Entre uma e outra espécie, existe uma variedade de combinações infinitas. A biografia funciona como uma vida paralela àquela vida que realmente interessa, a vida da obra em si, aquela que cria uma outra realidade com os seus horizontes próprios. É por isso que eu não advogo que se misture a obra de S.V Naipul com as relações que manteve com as suas mulheres. Essa mistura é boa para as histórias de cordel. Acho detestável esse tipo de insinuações.

    Considera que, em Portugal, a expressão pública dos intelectuais se reveste de um poder efectivo de intervenção social e política? Que impacto teve na sua vida pública a sua tomada de posição recente na discussão do aborto?

    LJ - Como disse atrás, esse papel tem diminuído, e os “intelectuais”, entretanto, praticamente desapareceram como entidades com poder efectivo. Aliás, cada vez mais se fala em élites, o que é um conceito muito diferente. Mas em determinados momentos, pelo menos até agora, as pessoas relacionadas com o conhecimento e as artes clássicas ainda têm sido chamadas a prestar contas da sua consciência em público. É preciso ser-se generoso, ou pelo menos desprendido, para a pessoa se prestar a isso. O debate não se faz mais por grandiloquências morais como outrora, faz-se por argumentos sustentados, e exige um exercício de confronto que muita gente evita, num país onde o debate facilmente cai para lugares pouco cívicos.

    No debate sobre o aborto, defendi a posição que continuo a reconhecer como conforme os princípios de uma sociedade moderna mais civilizada. O acaso conduziu-me a interpretar algumas rábulas curiosas, mas não me importei muito com isso, nem acho que me tenha afectado. Fi-lo como cidadã, com os argumentos que tinha para oferecer, não foi como “intelectual”. Se na altura uma organização qualquer me tivesse pedido para eu ir colar cartazes, ou falar de porta em porta , eu teria ido. Em casos assim, não me parece que funcione a ideia de notoriedade, mas de utilidade. É uma maneira de escrever o tempo de outra forma.

    Alguma vez o desajuste entre a vida privada e a vida pública (ideias ou programas defendidos) de um autor/intelectual a fez rejeitá-lo ou reconsiderar o seu contributo intelectual?

    LJ - Nunca vivi um conflito de discrepância entre vida privada e vida pública, o que acontece à maior parte das pessoas que vivem ou passam a viver em democracia bastante cedo. Em regimes totalitários, como sucedeu em Portugal, aí sim, os confrontos devem ser terríveis. O ofício de calar, por exemplo, de esconder, de ser ambíguo, deve ser triste, deve criar um conflito permanente que nós, em liberdade, não conhecemos. É por isso que eu não entendo muito bem tanta sanha contra Günter Grass, agora contra Milán Kundera, ou mais perto de nós, a crítica contra as hesitações de figuras como Amos Oz e David Grossman, em relação à causa israelo-árabe. Se olharmos para as realidades concretas e históricas de certos países, percebemos como os seus criadores têm de estar permanentemente a fazer escolhas entre a vida e a morte. Não é propriamente o nosso caso. Podemos dar-nos ao luxo de misturar, ironizar, não participar. Gérard de Cortanze costuma dizer que não é irónico porque nasceu pobre. Confissões corajosas que só faz quem quer. Mas escritores como estes não fazem parte daqueles que serão o pasto dos Paul Johnson. Voltando ao desajuste, no meu caso, a discrepância de que me dou conta resume-se a uma espécie de intervenção por defeito. Sempre tenho um impulso para me envolver em muitas causas, chamemos-lhe assim, mas nunca consegui compatibilizar durante muito tempo a escrita e a actividade em círculos de intervenção cívica.

    Se lhe aprouver comentar: “Não existe meio de separar a estética e a filosofia da existência. Toda a obra de arte deve ter certo desígnio, um poder, responder a situações reais. As obras de arte constituem soluções para um certo número de dificuldades” – Michel Butor.

    LJ - Butor tem razão – então não haveria de ter? – quanto ao princípio de que uma obra de arte deve servir para alguma coisa. Como toda a gente, Butor sabe que a dimensão da inutilidade defendida por Oscar Wilde é a sua suprema utilidade. E esse é um desígnio soberano. Agora existe toda uma escala de entrelace entre estética e existência que vai desde a tentativa do divórcio entre ambas até ao puro imaginário social, com intenção de serviço directo em relação a uma determinada sociedade, num determinado momento. Alguém é capaz de negar essa dimensão a uma obra como a de César Aira? Em “As Noites de Flores”, por exemplo? É um livrinho que nasce para demonstrar, pura e simplesmente. E no entanto, a sua dimensão estética é inegável. Neste caso, tal como em relação aos escritores e suas biografias malignas ou cor-de-rosa, interessa criar uma árvore classificatória cujos ramos não sejam escassos.
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    * Respostas integradas no artigo “Públicas Virtudes & Vícios Privados",
    Revista Ler, março de 2009
    Designação inicial do questionário:
    Para que servem os intelectuais? | Na peugada de Paul Jonhson, autor de "Intelectuais"