Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

Crónica * Casa de campo

Casa de campo

Lídia Jorge *

A casa que nos coube em sorte fica mergulhada em flores. Aqui estamos desde ontem. Quando chegámos não vimos paredes, apenas um telhado pousado sobre plantas e uma entrada em madeira sobraçada por um arco de hera. As flores são azuis e rosa, e a unir as duas cores, a buganvília lilás sobe pelas empenas laterais, formando dois ramos, um de cada lado. Neste ninho de frescura, contamos ser felizes por dez dias. Garantiram-nos que quem vive ao lado é gente pacífica, casa térrea, residência própria duma família local. Estamos separados deles por uma vedação de ferro, devidamente enfeitada de vinha-virgem, e em frente das suas portas, onde nós temos os tufos de plantas, têm eles um tanque de rega para onde pendem duas árvores frondosas. Faço questão de descrever o espaço. Sobre este caderno sou livre de desarmonia, nele exerço sem complexo os meus vícios de visão pura. Mas não posso aguardar mais. Foi assim.

Esta manhã, os rapazes que vieram para a manutenção da piscina não paravam de interromper o trabalho para dirigirem o olhar para a casa ao lado, e a casa ao lado tinha as portas trancadas. O técnico que veio acertar a parabólica ficou longo tempo sobre o telhado, a mirar na direcção da casa vizinha. Diante da casa, carros passavam devagar, uma carrinha branca parava, arrancava, parava de novo. E pelas quatro da tarde, uma pessoa da agência alugadora veio informar-nos de que sentiam muito, mas estava fora do controlo dos serviços, o problema que se passava na vizinhança. Pois que problema? Então a rapariga da agência - porque se tratava duma mulher bem jovem - começou por dizer que ia para oito dias que factos estranhos ocorriam ao lado.

Ela mesma não tinha presenciado, mas constava que sobre as pessoas daquela outra moradia, sem se saber como nem porquê, estavam a cair pedras vindas não se sabia de onde. Pequenas pedras que atingiam as pessoas no corpo, incluindo o rosto, e que ora provinham de cima, como se fossem atiradas por alguém que se encontrasse nas árvores, ora pareciam saídas do próprio chão. De vez em quando, caíam sobre a água, sobretudo quando os filhos dos proprietários se encontravam a brincar no tanque. Uma grande maçada. A rapariga da agência que assim falava, estava séria. Uma bela moça, modernamente vestida, a olhar para nós seis, reunidos à sua volta no meio do tufo de flores, para escutarmos a saga das pedras que trazia até nós, para nos pedir compreensão pelo alvoroço que ao lado se poderia gerar, e para nos informar também que até àquele momento, era mesmo só no perímetro daquela outra casa, e daquele outro quintal, que as pedras eram arremessadas.

“Pedrinhas” – explicou ela. “Às vezes pedras de brita, ou mesmo gravilha das estradas, a avaliar pelo que a agência testemunhou. Quando soubemos desta situação, fizemos questão de vir verificar ao local. Mas outras vezes as pedras são maiores, parecem trazidas de longe, extraídas de valados da região. Incrível, não é?”

Como disse, a funcionária parecia-nos uma pessoa razoável, ela mesma estupefacta e incrédula, até um pouco humilhada pela incumbência que desempenhava. Referia que o próprio patrão, duas noites atrás, tinha andado com outros homens, todos munidos de lanternas, à procura dos brincalhões que atiravam as pedras, mas não só a busca tinha sido infrutífera, como enquanto decorria, uma das residentes havia sido atingida nas costas, no momento em que saíra à rua para ir buscar roupa ao estendal. Uma perseguição até agora inexplicável. A rapariga da agência falava com gravidade própria de quem é obrigado a oferecer aos outros uma inquietação despropositada. E certamente para se salvar a si mesma da inverosimilhança do que nos vinha contar, referiu a amplitude social que os factos haviam tomado. Vários jornais já se haviam interessado pelo assunto. No dia anterior, duas carrinhas de reportagem de televisão tinham vindo literalmente abancar diante de casa. Um dos repórteres até havia usado teleobjectiva para tentar captar o rosto de algum dos moradores. Mas as pessoas atingidas encontravam-se trancadas por dentro, sem quererem dar a cara, por acharem que o assunto era demasiado sério para ser badalado de qualquer forma.

“E as pedras, magoam ?” – perguntou um de nós.

A rapariga da agência sorriu – “Até agora, parece que não feriram ninguém. Dizem que mesmo as maiores, como a que atingiu a mulher mais velha no peito, ou mesmo o punhado de gravilha atirada contra a cara de um dos miúdos, quando se encontrava a nadar no tanque, parece que nunca fizeram doer. Não é incrível?”

“É incrível” – disse um de nós.

“Eu também acho...” – disse a rapariga da agência. “O problema é que esta situação pode continuar, a coisa passa-se logo aqui ao lado, e nós ainda não dispomos de outra solução. Mas estejam descansados, vamos encontrar...” E a rapariga partiu, sobraçando os seus papéis.

Como disse, este encontro aconteceu a meio da tarde. Significa então que devemos começar a desinstalar-nos desta casa de campo? Que tudo aquilo que ainda não saiu dos sacos deve permanecer guardado? Que não devemos começar a estender os fios dos computadores portáteis? A não espalhar os livros e os discos por cima das mesas? – Pelo contrário, devemos, sim, porque o assunto teve um novo desenvolvimento, inesperado.

Pelas sete da tarde, encontrávamo-nos junto à sebe que separa as duas casas, a olharmos, nós também, para o domínio suspeito, quando duas adolescentes saídas das traseiras da moradia vizinha se nos dirigiram. Vinham descalças, embrulhadas em toalhas claras. Chamaram-nos – “Eh! Queremos dizer uma coisa!” Deixámos a zona das flores, caminhámos ao seu encontro. Ficámos frente a frente com o gradeamento de permeio. Então a mais alta das duas colocou o rosto entre duas hastes de ferro, e em voz baixa pediu que não tivéssemos medo. Alguém tinha ido a Lisboa consultar uma leitora de cristais e havia trazido a devida explicação. Explicação que não iriam dar a ninguém, porque não queriam que tomassem a sua família por parva, mas que nos vinham dizer só a nós, para que não nos mudássemos para outro lugar. Não valia a pena. E o rosto da adolescente resplandecia entre as barras. Mas a mais pequena, mais nova, enervada com a delonga da irmã, deu um salto, com a toalha às costas, e explicou, aos solavancos, como se não tivesse tempo para terminar – “Ficámos a saber que são almas de crianças que vêm brincar connosco...” Olhou em volta, baixou a voz – “E devem ser muitas crianças porque as pedras vêm de todos os lados... Os nossos primos têm medo, mas nós duas, não, estamos muito contentes. As almas delas gostam de nós...” E como se nos conhecesse de há muito, a rapariguinha deu um grande salto - “Imaginem, tanta piscina por aí, e logo elas gostarem da nossa casa. Invejam brincar connosco no nosso tanque, gostam da nossa água com limos... Até já pensámos que, se calhar, dormem aí desse lado, entre as flores, e saltam a grade para virem brincar connosco... Mas nós não vamos contar a ninguém, como diz a minha irmã, para não tomarem a nossa família por parva... Por favor, não mudem de casa. A nossa avó também diz que são crianças, que rapidamente se vão cansar. Dum momento para o outro, podem não voltar mais...” – disse a adolescente mais pequena, mais viva. “ E agora vamos! Eh! Pirar!” E ela mesma se desembrulhou da toalha, antes da irmã, e correu na direcção do tanque. A irmã seguiu-a, ouviu-se um som na água – Tchap! E a seguir um outro – Tchap!

A moradia mantinha-se trancada. As duas árvores frondosas guardavam-na. Três garotos juntaram-se às adolescentes a chapinhar na água produzindo o ruído das rãs no charco. Isso, no declinar da tarde.

Agora já é noite. Ia até dizer agora já é noite fechada, cumprindo os lugares comuns, mas é falso. A noite que se encontra diante de nós está aberta, um quarto-crescente luminoso brilha sobre esta parte da Terra, espalhando um luar pálido, e nós seis, do lado de cá, de costas para as flores, estamos sentados em frente da vedação, de rosto virado para a casa assombrada, na esperança rara de que uma brecha se abra no tecto da tenda que separa a física da irrealidade, e uma pedra arrancada da origem do próprio espaço, atravesse o ar. Minto, neste momento, são cinco as cadeiras ocupadas deste lado da nossa casa. Eu vim para o quarto escrever estas linhas, para que este momento não acabe mais.

Boliqueime, 27 de Agosto, 2004
________________
* in “Poussières du Monde” (Éditions Métailié)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2004

Crónica * Eu só pensava, não te vires, não te vires, vai

Piano-bar

Lídia Jorge *

Quando se tem histórias dentro da cabeça, sai-se para a rua e encontram-se duas, volta-se para casa e acham-se três, e se por uma certa noite de Primavera, se sai para jantar à luz das velas, encontra-se uma cena, tão poderosa, que uma pessoa não pode deixar de contá-la. Desta vez foi assim - A mesa estava à nossa espera. Em volta o restaurante, castanho e bege, parecia saído dum sonho antigo. As fotografias tinham a lembrança amorosa das coisas revivais. Mulheres de tranças estavam nas molduras, espelhos aqui e ali traziam de volta épocas de quando havia tempo para uma pessoa se ver ao espelho. E um piano, um soalho de madeira escura, e em volta das mesas, gente de todas as idades. Tudo aquilo muito bem pensado. O passado ali não é uma falsidade, é apenas um passado moderno, uma fantasia de filme para fazer sonhar. Os jovens sabem disso. Procuram o piano-bar para conversarem. Grupos para se divertirem. Naquela noite, as mesas estavam quase todas ocupadas.

Mas numa delas estava um homem só. É preciso dizer que já não era novo. Curiosamente, o homem não tinha chapéu mas era como se tivesse. Estava ali metido numa mesa de esguelha, e logo na passagem, sem dúvida porque jantava sózinho. Eu achava que ele tinha um ar antigo e o sua antiguidade, ao contrário do restaurante que a fingia, era genuína. Achava mesmo que se ele se levantasse teria de erguer em frente do peito, um chapéu, como antigamente os dandys. Estava eu a pensar nisso quando o homem começou a levantar-se. De facto, o homem, já de idade, pousou o guardanapo, abandonou o prato a meio e levantou-se. Não, não tinha chapéu nenhum. Iria sair? Também não. O homem foi até ao fundo da sala e começou a falar com as pessoas de certa mesa. Pensei que se conhecessem e que voltasse para o seu lugar. Mas também não. O homem, já de idade, tinha-se posto a andar de mesa em mesa. Aproximava-se, dizia qualquer coisa, as pessoas escutavam-no, ele abalava e as pessoas entreolhavam-se, temerosas. Temerosas não, talvez risonhas, ou surpresas, como se comprometidas. Até que o homem se aproximou da mesa contígua, e ali encontravam-se uns rapazes, que começaram a rir, e uma rapariga, entre eles, até soltou um espirro, e depois uma gargalhada. Mas em seguida, todos se calaram, e uniram as caras na direcção da vela. Viria o homem até nós? Não viria? Viria. O cavalheiro idoso aproximou-se, baixou a cabeça, pediu licença, e disse - “Queiram desculpar, é só par dizer que hoje é o dia do meu aniversário... Tenham um bom jantar... Muito boa noute...” E o homem idoso, com um pequeno trambolhão, dirigiu-se para a sua mesa e recomeçou o seu jantar. Sozinho, de esguelha, na passagem. As outras mesas quase repletas. Algumas pessoas incomodadas. Talvez sentissem o mesmo que nós sentíamos, porque ninguém dizia coisa com coisa, ninguém falava. Só os rapazes, ao lado, riam.

Nós, completamente assaltados pela surpresa - “Chamamo-lo? Não o chamamos? O que fazer? Vamos felicitá-lo? Já pensámos bem naquilo em que nos vamos meter? Afinal veio junto de nós, e não nos disse nada, a não ser que fazia anos... Será uma pessoa boa da cabeça?...” E na dúvida, com medo de agirmos, de dizermos, nós a mastigarmos o nosso jantar, nem bem nem mal, interrompidos, circunspectos, enviávamos os olhares oblíquos na direcção do homem. Agora ele pousava a faca, o garfo, não tinha querido sobremesa, nem café, sorvia só o que parecia ser um pequeno balão com álcool. Depois, lentamente, pousou tudo, desatou-se de tudo o que o ligava à mesa, levantou-se como se tivesse o chapéu na cabeça, que não tinha, e virando-se para uma mesa, por certo imaginada, entre a nossa e a dos rapazes, despediu-se– “Muito boa noute...” Começando a deslocar-se pelo soalho do restaurante chique, revival. Nós a pensarmos, hesitantes - “Dizemos alguma coisa? Dizemos boa noite, não dizemos?” - Não dissemos.

Não dissemos porque da mesa ao lado um daqueles jovens começou a cantar parabéns, e à segunda sílaba explodiram todos os companheiros da mesa, e levantaram-se todos, e a seguir as pessoas das outras mesas fizeram outro tanto, e ninguém parava. Nem quando chegou o momento de dizer Para o senhor fulano, uma salva de palmas, pois disse-se Para o senhor fum-fum..., espontaneamente, como se estivesse previsto, e prosseguiu-se, porque o restaurante piano-bar, entretanto, tinha-se incendiado. E o homem idoso estava parado, de costas para nós, e não se virou. Esperou até ao fim, e como se fosse empurrado por uma onda invisível que o impelia para o lugar devido, começou a caminhar na direcção da porta, sem se virar, sem nunca se virar. Eu só pensava, não te vires, não te vires, vai, vai indo, ficarás para sempre prolongando esta noite. O momento que encheu esta noite. E depois de o homem idoso desaparecer, os rapazes sentaram-se e riram-se outra vez, pois tudo tinha ficado no seu lugar. Até o homem, lá fora, quanto mais caminhava na direcção da sua casa, mais se mantinha ali, ocupando aquela mesa livre. Onde ficará, sentado.
_________________
* Redigida para a série "Dias Contados", transmitida pela RDP | Antena 2

sábado, 1 de janeiro de 2000

Crónica * Como um relâmpago a origem do Mundo

A Cidade Invisível

Lídia Jorge *

Escrevo estas linhas diante das terras semi-áridas do meu país. Por aqui os campos há muito foram abandonados e a cabra que berra no monte vagueia como se nunca mais pudesse encontrar um dono. A linha do casario de veraneio, que ao fundo se interpõe entre o mar e a terra, para se encher e esvaziar depois de cada Verão, pertence a um tempo tão antigo quanto o da cabra. Contudo, nada é só o que parece. Por cima desta paisagem esgotada, cresce a cidade invisível.

Extraordinária cidade. Nenhum de nós a conhece porque ainda não se mostrou, no entanto, todos já disfrutámos dos seus efeitos. Sabemos que a distribuição do seu correio é tão rápida que se produz por contacto. Que as suas bibliotecas são tão completas que já não dispomos de tempo para passar os olhos pelas lombadas. As janelas diante das paisagens são tantas que não possuimos mãos suficientes para abri-las. Aliás, a sua geografia é tão imaterial que dispensa mapas, e a sua população tão abrangente, que dentro de décadas pode coincidir com a Humanidade. Assim sendo, ninguém pode dizer que a cidade invisível não tenha vindo para cumprir o que até agora não foi possível. Que suas virtudes não possam impulsionar a realização do bem que muitos quiseram praticar durante séculos, sem conseguirem lográ-lo. Quem diz que dentro da cidade invisível não se possa alcançar melhor justiça? Que dentro dela a distribuição equitativa dos bens não vai finalmente ser alcançada? Que através dela o trabalho não poderá tornar-se mais leve e melhor repartido? Quem nos diz que por ela a Terra não venha a ser mais protegida? Que a Arte e o Saber na cidade invisível não cumpram finalmente o desígnio de ser para todos? Em suma, conhecendo-se o que já se conhece, muitos suspeitam que a cidade invisível, que tudo liga e tudo faz saber, possa conter nas suas ruas sem fronteiras a resolução para muitos dos ideais que apodreceram ou foram traídos.

No entanto, cada um de nós tem uma raiz enterrada num espaço próprio, de que se alimenta e ao qual se prepara para entregar o corpo. Não foi em vão que uma pessoa assistiu à primeira refeição cozinhada num bico de gás butano. Nem foi em vão que uma criança brincou à sombra dos tortos paus do telégrafo por onde as mensagens mais velozes passavam. Pessoalmente, não nego que o tempo do relógio de parede, soltando badaladas lentas ainda comanda o meu balanço interior. Por isso, talvez eu receie várias portas na cidade invisível. Receio os excessos do que antes eram carências. Os ilimites do que antes eram fronteiras. As capacidades sem medida face ao que antes eram possibilidades menores. - São tantos os meus receios, que por vezes não sei se poderei entrar plenamente no interior da cidade invisível.

Pergunto-me, por exemplo, como vou franqueá-la, se ela ensaia um excesso de transparência e eu defendo opacidades várias. Na verdade, tudo indica que essa cidade do futuro se prepara para conhecer a vida de cada homem na sua mais recôndita intimidade. Para viajar ao íntimo do outro, de tal modo que um dia cada um possa vir a conhecer mais de todos do que de si mesmo. Consta que os olhos da nova cidade entrarão primeiro nos invólucros exteriores do meu espírito, minha própria casa com sua cama e sua cozinha, depois no meu corpo com seus ossos e suas vísceras, e finalmente na minha alma, com seus desejos e imaginadas vidas. Então o que farei? Eu, que desta civilização tão antiga quanto a lavoura, guardo o desejo de que um núcleo interno, inexpugnável como uma castelo de pedra, mantenha uma parte opaca, um esconderijo inviolável, em torno do qual cada homem se enrosque sobre si mesmo, protegendo seu coração, seu ventre e seu sexo, à imagem do cão dormindo, para que se possa dizer - "Estou escondido, sou um homem". Será que a cidade invisível o permite?

Também receio que se mude a relação que preside à procriação e eu não aguente ver essa mudança. Que o ilimite da vontade possa mudar a natureza dos homens, se for alterado o parentesco carnal. Consta que a reprodução da vida humana se prepara para prescindir dum ventre, duma mama, dum braço que testemunhe a similitude e o parentesco. Até agora, mães e pais singulares têm-se parecido com os filhos, singulares também. É difícil imaginar que se deseje alguma vez perder a natureza dessa singularidade. Daqui de onde estou, diante de campos em pousio perpétuo, assisti à diferenciação dos homens em relação aos animais que apascentavam, e por isso receio que se regresse a uma outra animalidade, isto é, à reprodução de crianças indistintas umas das outras, com valor de gado. Sonho com a genitalidade associada à vida, e o aparecimento da vida associada a actos únicos. No fundo, sonho com o velho impulso do amor humano, que modelou "A Divina Comédia", "O Vermelho e o Negro", "O Som e a Fúria". Assumo, desejo que as pessoas continuem a nascer de beijos, simulacro de mordidas, essa humana brutalidade. Mas será então que tenho um lugar nessa cidade do futuro?

E receio que o ilimite de conhecimento, na cidade invisível, de súbito, ilumine como um relâmpago a origem do Mundo, arrasando a ideia de um deus.

Não por Deus, que nunca falará, nunca estará nos confins do Cosmos com um banquete de rosas à nossa espera. Mas pela dúvida sobre a existência ou não desse banquete. Na verdade, há muito que se diz termo-nos cruzado com a morte de Deus, mas é mentira. As culturas, até agora, têm-se construído na dúvida sobre a sua morte, mas jamais se organizaram sobre o princípio da sua inexistência. Sobre a interrogação, sim. Modestamente, diante das terras secas do meu país, temo que indo os sábios até aos confins da matéria e dos astros, se apague a Dúvida, rainha do nosso pensamento e da nossa esperança. Se assim for, é possível que os homens sobrevivam. Mas neste caso serão outros homens, terão outra cabeça, outros pés, outras mãos. E então, talvez inventem outra música, outra geometria e talvez dispensem as nossas falas e os nossos livros. E estas palavras, de solitárias, já não lhes digam respeito, contemporâneas que são do asfalto, da colina semeada e da cabra.
______________
Publicado no Libération (1 de janeiro de 2000)