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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Crónica * 13 dias para passar de fera a majestade

Texto de 2002 (outubro)
O imperador

Lídia Jorge *

Sempre me hei-de lembrar, com muito gosto, da conferência que Lord Thomson of Monifieth, um ex-conselheiro da Britisth Independent Broadcasting Authorithy, proferiu em Lisboa, no início dos anos noventa. Nessa altura, discutia-se em Portugal a atribuição dos canais privados, e Lord Thomson vinha partilhar com os portugueses a experiência inglesa nesse domínio. Se bem me lembro, os seus conselhos estavam repletos de História. Na Grã-Bretanha a experiência dos canais privados remontava a 1952 e nós estávamos a discutir o nosso caso quarenta anos depois. Os seus conselhos estavam repletos de avisos e bom senso. E tinha razão. O futuro viria a demonstrar que mesmo na auto-controlada Grã-Bretanha, o comércio haveria de atingir, em flagrante, o equilíbrio e a qualidade que eram seus apanágios.

Entre nós, porém, nessa altura, a discussão era particular. Os economistas avisavam que Portugal não dispunha de capacidade comercial para sustentar três estações. A publicidade não chegaria para os três operadores. A menos que houvesse um milagre qualquer - e está provado que há poucos - a disputa pelas audiências iria ser darwiniana, iria fazer descer o nível da programação para patamares inimagináveis. E assim foi. Nessa altura se disse que, na disputa pela sobrevivência, a tendência seria a de os programas de entretenimento descerem aos níveis do grotesco e da obscenidade. Assim foi. Nessa altura também se disse que uma estação da Igreja, iria desprestigiar a Igreja e fazer um péssimo serviço. No nosso panorama, era o canal que estaria a mais, e assim foi. Os caminhos da TVI mostraram que um canal comercial da Igreja jamais seria da Igreja. E não foi. O I de Independente, que na altura também significava I de Igreja, depois de aventuras aberrantes, transformou-se hoje no Canal 4. Isto é, teve de o deixar de ser para ser igual às laicas. O tempo veio demonstrar que tinha razão quem se opunha a esse projecto. Nenhum canal religioso poderá vingar no Ocidente livre, a não ser que recorra às mixórdias televisivas mais repelentes de pregações infinitas e difusão de crendices. Mas na altura também se disse que a Informação, essa sim, iria ficar a ganhar. E ganhou. É indesmentível que a diversidade, a pluralidade dos pontos de vista, o volume de informação, a agilidade do jornalismo televisivo não tem comparação com os tempos anteriores. Pensar em recuar é um pesadelo. No entanto, na altura também se disse que o grotesco do entretenimento se iria misturar com a própria informação, que a certa altura, o espectáculo ficcional entraria e misturar-se-ia nos telejornais. Não se enganaram os que assim previam. Assistir à Informação televisiva é, hoje, assistir a um circo onde as melhores peças jornalísticas aparecem entremeadas com rugidos de leões e facadas na ilharga. Por volta das nove horas da noite, a ideia que se tem é de que o Mundo é só uma descida ao Inferno. Mas na altura também se sabia que iria demorar a bater no fundo, mas bateria. Já bateu no fundo? Já é possível escolher o que brilha no meio do lixo? Partir na direcção certa? Lembro-me das palavras de Soares Louro que previa tudo isto milimetricamente. Era só esperar para ver. Quem previu, e teve tanta razão antes de tempo, como terá passado este longo tempo?

Mas se me lembro em particular da conferência que Lord Thomson fez em Lisboa, por essa altura, é também por uma outra razão. É porque ele abriu essa conferência com uma história muito antiga que não perdeu actualidade. É uma história sobre coerência e isenção, oriunda num tempo muito anterior à televisão. Mas que poderia ser do tempo da televisão. Contou Lord Thomson of Monifieth, experiente em lidar com a memória, a fidelidade, a hesitação e os princípios que a regem, como certo jornal Francês do século XIX, o jornal “Le Moniteur” fez a cobertura da viagem de Napoleão, quando fugiu da ilha de Elba e marchou em direcção a Paris. Corria o ano de 1815. Nessa altura, os percursos eram demorados, não havia automóveis, nem telefones, nem faxes, nem satélites. Só cavalos. A comunicação era quase tão lenta quanto o mundo. Assim, foi possível, em escassos treze dias, os dias do avanço de Napoleão sobre Paris, os títulos do “Le Moniteur” terem ido mudando.

Mudaram assim, relatou ele. A 9 de Março de 1815, apareceu o seguinte título – “A Fera (Isto é, Napoleão) deixou a sua toca”. No dia 11 de Março – “O Monstro da Córsega pôs o pé em solo francês”. No dia 13 de Março – “O Torturador passou a noite em Grenoble”. A 18 de Março – “O tirano avança em direcção a Dijon”. A 19 de Março –“Bonaparte quer conquistar Paris, mas não o conseguirá”. A 20 de Março – O Imperador já chegou a Fontainebleau”. E dia 21? “O Libertador bate com força nas portas da cidade...” E no dia 22? No dia 22, podia ler-se no “Le Moniteur” - “Sua Majestade Imperial marchou hoje sobre Paris. Viva o Imperador!” Isto é – Entre a Ilha de Elba e Paris, Napoleão tinha passado de Fera e Monstro a Libertador, Majestade, Imperador. Lord Thomson não contou, porém, como titulou o jornal as vicissitudes de Napoleão Bonaparte quando voltou a cair em desgraça. Não contou, mas a gente sabe. É válido para todo o tipo de jornais e todo o tipo de majestades.

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* Redigida para a série "Dias Contados", transmitida pela RDP | Antena 2

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Crónica * Têm dificuldade em entender o nosso adiamento

Alemães em nossa casa

Lídia Jorge *

de Karl Heinz Stock
1. Sobre a minha mesa, existe uma escultura de cor vermelha, uma mulherzinha redonda, boteriana, braços no ar, que por vezes penso ser a imagem perfeita da evasão, uma figura de resina, equilibrada sobre uma perna só. Quem a esculpiu foi Karl Heinz Stock, um alemão, que a associa ao espírito do vinho da sua Quinta dos Vales, em Estômbar. Ofereceu-ma pela ocasião do Lit.Algarve. 2010, o primeiro e único festival de Literatura que aconteceu no Algarve.

Quem promoveu esse encontro foi Barbara Fellgiebel, uma residente alemã. O seu esforço foi notável, e talvez volte a ter segunda edição, para o ano que vem. Pelo menos foi prometido, numa noite em que se encontravam, no Algarve, duas divulgadoras de autores portugueses, Karin von Schweder-Shreiner e Maralde Meyer-Minnemann. Duas alemãs que gostam de Portugal. Aqui, nas Courelinhas, abro a janela, e a primeira casa visitável é de um casal alemão, a quem no Verão oferecemos ameixas, de quem recebemos compotas no Outono. São pessoas de idade, mas ele pilota um avião, ela faz jardinagem, e sempre falam do futuro, nunca do passado. O mesmo acontecia com outros alemães que já aqui moraram e nos ofereceram a sua companhia.

2. Era o caso de Kurt Dahler, o nosso vizinho a Nascente. Kurt fora um soldado às ordens de Hitler quando tinha vinte anos, foi-o no terreno mas nunca na alma. Em consequência, escolheu a Suíça como segunda pátria. Quando se deu a reunificação, já sentado à lareira, em Alcaria, ele não queria uma Alemanha, preferia duas. A Poente, moravam os Swinton, judeus alemães que tinham passado por Portugal, deportados, quando eram crianças, e haviam ficado com a ideia de um país com céu azul, e uma gente simples que lhes havia consentido a viagem. Regressaram para passar aqui as suas últimas décadas. Ao Sábado, os dois casais encontravam-se, tomavam bebidas à beira da piscina, mas nunca falavam do passado que os colocava em territórios contrários. Preferiam o futuro.

3. O futuro é este momento que vivemos. Eles já cá não estão, os seus netos, nascidos por aqui, contudo, frequentam as nossas escolas, que também são deles. Mas eu espero que, em alguns hábitos, continuem mais netos dos seus avós alemães que dos seus avós portugueses. Não há como confundir. Entre nós, os alemães editam revistas, criam associações e clubes de Literatura e Cinema, enchem os lugares nos concertos de jazz, são experts em música erudita, participam em debates, inscrevem-se nas bibliotecas, e acham muito estranho que os portugueses leiam tão poucos livros. Quem priva com os alemães que escolheram viver connosco, sabe que são rigorosos, escrupulosos, que têm dificuldade em entender o nosso adiamento, a nossa disfunção entre promessa e cumprimento.

Além disso, eles povoaram terrenos que nós abandonámos, compraram casas que haviam sido doadas às raposas, deram vida e luz a zonas mortas. E a maior prova é que, sob o nome de um alemão, Volker Huber, e sua mulher Marie, foi fundado há trinta anos o Centro Cultural de São Lourenço, uma casa única, pioneira, que colocou Almancil na rota da Arte internacional e do debate local. Por isso mesmo, não gosto que a propósito da política defensiva de Angela Merkel, se voltem a dizer palavras que não se ouviam há muitos anos.

4. É injusto baralhar tudo, confundir governos com estados, e sobretudo atribuir a pessoas, intérpretes de histórias diferenciadas e irrepetíveis, essa estranha entidade abstracta que se chama a alma de um povo, alguma coisa onde se vão pendurando os erros de alguns para estigma de todos. Se essa confusão é inconveniente seja onde for, é-o particularmente em Portugal, e mais inconveniente ainda numa região como o Algarve que faz da convivialidade a sua marca, e dela a matéria da sua própria sobrevivência. Alemães comuns, portugueses comuns, afinal, metidos na barca comum da mesma deriva monumental. Tal como os Dahler e os Swinton bem o sabiam, há uma década atrás, também nós não estamos em tempo de ir buscar aos farrapos da História palavras que nos separem. Antes pelo contrário.
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* na edição impressa do Público (24 de agosto de 2011)

sábado, 20 de agosto de 2011

Crónica * Escolhido por um príncipe terrível para seu último travesseiro

Filme em Sagres

Lídia Jorge *

1. Sobre o Promontório escalvado, o vento varre o último vestígio da floração, levanta cabelos e esfarrapa bandeiras, enquanto no interior do armazém transformado em auditório, dezanove visitantes aguardam pela passagem dos filmes projectados em sessão contínua, tendo um deles por tema o significado de Sagres. O clima é de expectativa e viagem. No entanto, mal José Wallenstein surge deitado sobre um fundo de mar, um casal levanta-se. As três crianças que o acompanham resistem ainda durante uns segundos, acabando por se levantar também. No interior do auditório, catorze espectadores permanecem. Em breve serão só onze. Acontece no momento em que Diogo Dória começa a ditar o documento e a música de súbito pára. Um outro casal abandona a sala. As duas filhas, adolescentes, permanecem sentadas, resistindo durante um minuto, depois partem. Eu gostava que tivessem resistido por muito mais tempo.

2. Não nego que me prendo indevidamente à breve insistência dos mais novos, nem sequer ignoro que amplio o seu significado para além do razoável. Sei bem quanto de um raciocínio lógico é feito de irracionalidade, e este é o caso. Enquanto lá fora o vento assobia sobre o grande pedregulho em forma de mão esquerda estendida, e ali dentro o Infante sonha com outros mares, imagino que os filhos dos desinteressados de hoje sejam os interessados de amanhã, imagino que aquele curto desacerto entre gerações, por força das circunstâncias, se vai intensificar.

3. Sim, eu sei. O tempo em que as coisas acontecem ditam parte do seu destino. As comemorações henriquinas dos anos sessenta têm arrastado consigo a marca imóvel das grandezas inchadas. Por essa altura, já a Europa democrática tinha dado volta ao assunto, mas nós ainda lá estávamos. Hoje em dia, reforça-se o ego das pátrias procurando os vários lados da verdade, não os escamoteando. Mais modestos, procuramos aprender com os cometimentos e os erros, e mostrá-los. É por isso que faz pena que o projecto de 2009 para a requalificação de Sagres não tenha sido completado.

Não há como não confirmar. À entrada do Promontório, a Sala de Exposições é ainda um edifício fechado. Das explorações geológicas urgentes e indispensáveis sobre a questão entre Rosa-dos-Ventos ou Gnómon Solar, não ouvimos falar. A dinamização em torno da informação histórica sobre o que foi a Vila do Infante, ou a suposta Escola de Sagres, não está parada por certo, mas parece estar. Entretanto deixou-se de falar de Sagres como destino de visita da Europa, e a candidatura de Sagres a Património da Humanidade parece ter morrido. Aliás, ali, os dinamizadores culturais são os recepcionistas que se desdobram em orientações práticas, e as funcionárias da Loja que vão explicando tudo quanto podem, enquanto vendem uns objectos ornamentais. Não é a folhetos ou vídeos que os visitantes têm de agradecer a melhor informação recolhida, é a estas duas raparigas prestáveis.

4. Assim, não admira que muitos continuem a pensar que Sagres é apenas uma cerveja loira que se bebe devagar. Que outros julguem que Sagres é uma praia baixinha onde o Velho do Restelo amaldiçoava caravelas. Há quem pense até que o assalto de Francis Drake à Fortaleza de Sagres, em 1587, ao serviço de Isabel I, não passe de uma invenção de banda desenhada. Disfunções pós-modernas? Deixemo-nos de rodeios. Há sempre um ponto de encontro fatal entre os cultivadores e os cultivados. Um momento em que os dois campos se unem e são a única face de uma mesma realidade. Aquele desinteresse pelo filme de dez minutos, um mínimo de História, um mínimo de orçamento, um mínimo de Arte, está para o mínimo de tempo que o português comum lhe entrega na sua atenção frágil. Lá fora o vento sopra de todos os pontos cardeais. Este é um daqueles lugares do Mundo que nenhum sonho de Disneylândia deveria tocar. Intimamente, faço votos para que vários filmes, de vária natureza, sejam realizados sobre este Promontório, escolhido por um príncipe terrível para seu último travesseiro. Que esses filmes sejam necessariamente longos e, quando exibidos, que já ninguém saia antes da última imagem.
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* na edição impressa do Público (20 de agosto de 2011)

domingo, 31 de julho de 2011

[CRÓNICAS] No Público


Crónica

Lídia Jorge escreve ao sábado e domingo nas páginas Especial Algarve

30.07.2011 - 07:00 Por PÚBLICO
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 (Foto: Pedro Cunha)
 A escritora Lídia Jorge escreve, ao sábado e domingo, uma crónica nas páginas especiais que a secção Local do PÚBLICO dedica ao Algarve.

Música para o mar

Uma balada que vem de longe avisa que se pode render o cantor mas não a canção. Contudo, a impressão que se tem ao percorrer a longa passadeira de tabuinhas e ao aproximarmo-nos do apoio de praia, é que por aqui o cantor anda livre, mas a canção está presa. São onze horas da manhã e só dois impulsos agitam o ar a partir da aparelhagem, up and down, up and down, enquanto o toldo se move e o balcão estremece. Entretanto, a rapariga que atende já ali está, é perfeita, mas tem de me ler nos lábios o que eu pretendo, e eu tenho de ler nos seus lábios o montante da minha despesa. De resto, não é possível ir além dessa breve comunicação.

Leia mais na edição impressa de hoje do PÚBLICO ou na edição digital exclusiva para assinantes 

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Crónica * Datado e intemporal

Quando os dias voam

Lídia Jorge *
23 de Março
Voo Nocturno em direcção a Brasília

Esta é a realidade. Vai decorrer uma Conferência em Brasília, e eu viajo por causa da Conferência, mas não vou para essa Conferência. Complicado? Não. Se dividirmos a participação num encontro entre pensamento e acção, alguém deve ficar no lugar extraterritorial onde se situa a simples matéria prima. Mas só dou pela sobreposição quando começo a encontrar os reais intérpretes da Conferência no Aeroporto de Lisboa. Mostro-lhes o meu papel, e para grande surpresa dos organizadores da Conferência, ele indica-lhes que, lateralmente, à margem do seu programa, existe um grupo de pessoas que irá falar de uma outra forma sobre a questão da Língua. Os organizadores desconheciam, e eu vejo nesse desencontro um toque quase divino. Quem alguma vez se gabou de ter organizado alguma coisa na perfeição, desconhece o que é fomentar a liberdade junto dos desorganizados. Ali, de pé, depois do check-in, a minha ideia é esta – Quanto mais fora das malhas, mais livre. Não é por nada, mas o que me pedem é tão somente isto – Fale durante vinte minutos sobre Criatividade e Língua. Sinto-me em paz. Existe só uma Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial. No meu programa, esse título não existe.

24 de Março
Madrugada em Brasília

Então Adriano Jordão vem ao meu encontro, muito admirado. O que faz você aqui? Vem para uma conferência? Qual conferência? Por favor, mostre-me o seu papel. Mas o importante não é o que se passa em torno da Conferência. É a forma entusiasta como o pianista vai mostrando a cidade de Brasília espalhada pela terra, à luz da madrugada. Sempre que entro em Brasília, o mesmo assombro me pega. Que figura humana está projectada para o futuro de Brasília? Não, não é um homem patinador, é um homem voador. Que me perdoe o Óscar Niemeyer que há mais de meio século não pára de a desenhar, mas onde ele acha que irão existir rodas, eu colocarei asas. Nesse momento, Óscar e a sua espiritualíssima concepção material da cidade entram na discussão. Vamos no carro do Adriano. Para trás ficam os Palácios, e além o Teatro em forma de mastaba, mais além a Catedral em reparação, o Museu como um ovo caído, a seguir a Biblioteca Nacional, tudo espalhado pelo chão do cerrado. E de repente, o Adriano diz, todo sorridente - “Sabem o que a minha mãe pensava desta cidade ? Que era uma instalação – Brasília, uma instalação…”

E o pianista, conselheiro cultural em Brasília, volta-se para trás, cheio de contentamento. Mas acaso sabe Adriano Jordão que está a desvendar um enigma de autoria? Acaso saberá que, ao longo destes últimos anos, essa frase tem sido atribuída a várias outras mães, que não a sua? E Adriano, inocente do assunto, vai fornecendo detalhes, e eu descubro a verdadeira autora da imagem, com emoção. Afinal, quem viu nesta cidade uma instalação interpretou na perfeição a dimensão da sua grandeza, e da sua beleza, mas também a sua incapacidade de ser totalmente útil, a sua habitabilidade e inabitabilidade, a sua gratuitidade e a sua funcionalidade mais estética do que ética e mais artística do que prática. Uma instalação, um poema feito de uma palavra só, de tal forma bem esgalhado que muitos a atribuem a várias mães. Pergunto então como se chama a sua mãe.

“Chamava-se Raquel Jordão”, diz Adriano Jordão, e só então ele conta que regressou naquele mesmo avião em que viajámos durante a noite porque foi a Portugal despedir-se do corpo da sua mãe. Ele está a receber-nos, assim, à chegada, sem dormir e sem se deitar. E depois entramos na sua casa e ele mostra uma fotografia da mãe. Agora a fotografia está sobre o piano de Adriano. A fotografia representa o perfil duma senhora muito jovem, diante dum homem com chapéu cardinalício e de um outro, trajado de branco, com o peito repleto de medalhas militares. Ela está de lado e escuta o que lhe dizem ambos. Nem se lhe vê bem o rosto, mas foi essa a fotografia que ela mesma escolheu para se apresentar à vida, daqui em diante. Adriano Jordão não dorme há várias noites. Está comovido. Adriano Jordão não chora pela mãe, transpira pela mãe. Grandes bagas de suor correm-lhe pela cara. Grandes lágrimas. Ele pega no guardanapo e passa-o pela boca, pela cabeça, pousa-o lá, no alto da cabeça e deixa-o ficar. De súbito, numa casa de Brasília anjos sobem e descem. Silêncio, anjos como os de Chagall sobrevoam Brasília.

26 de Março
O Show da Divina

Bem me pareceu que tudo iria correr bem. Correu bem a abertura, no Itamaraty. Quando o nome de José Aparecido de Oliveira surgia, ao longo do discurso de Celso Amorim, as pessoas aplaudiam como se estivesse ali, em pessoa, o pioneiro que nunca foi devidamente reconhecido. Palmas para ele, o desenhador de tudo. Atrás do lugar do discurso, fica a Exposição sobre a Língua. Deambulamos entre textos. Um dia, em algum lugar do Mundo, há-de haver um portal com uma efígie do José Aparecido que diga – Foi ele quem teve a ideia de unir os vários pedaços da Terra que falam esta mesma Língua. As minhas palmas vão para ele. E depois, o show da Bethânia, cada vez mais perfeita, o seu cabelo cada vez mais bonito. A sua voz cada vez mais grave e mais reverberada, como se tivesse dentro da garganta cordas e tambores, e os metais fossem agora muitos mais. Que bom que foi escutarmos a divina. Cravos vermelhos? Eram às caixas, pelo palco. Eu bem disse que iria correr bem.

Economia brasileira

Entusiasmada, uma brasileira começa a recitar Pessoa – “Deus querre, o homem sonha, a obra naisce…” É então que o jovem professor Edvaldo Bergamo vem dizer que há ainda uma forma mais abreviada de falar da utopia. No meio do ruído, ele conta como Jucelino Kubichek foi mais sóbrio. No princípio de Brasília, poucos acreditavam que o lago artificial alguma vez enchesse. Quando choveu e a água escorreu dos córregos, e o lago Panamoá pela primeira vez foi lago e ficou raso, dizem que Jucelino enviou um telegrama a um jornalista seu detractor, nestes termos – “Encheu. Viu?”

27 de Março.
Breve palavra de acesso

Finalmente, o programa literário paralelo à Conferência. O que se espera dessas seis mesas organizadas pelo poeta Felipe Fortuna? Como não pode deixar de ser, muito e muito pouco, por certo inconclusivo, ao arrepio da Conferência. Durante dois dias, haverá tradutores, editores, escritores, músicos, autores de blogues e um vasto público. Haverá. Mas antes eu preciso de entrar num outro lugar do Centro Cultural Banco do Brasil. Quero ver as esculturas dos irmãos Pandolfo, OsGemeos Vertigem, de que tanto se fala. Quero ver com os meus olhos. Entro e o mundo voa. Não há explicação possível. Pássaros de sonho, carros forrados de todo o tipo de fantasia, rostos-lua e luas caixa que podemos conduzir e habitar, e no meio desse arsenal de mundo lúdico, um objecto cúbico onde a pessoa enfia a cabeça e vê o seu rosto multiplicado até ao infinito. Música irrompe do interior da nossa cabeça e não se sabe como.

Mal consigo sair daquele espaço enfeitiçado. Agora sim. Agora posso subir até ao auditório com a certeza absoluta de que lá onde a imaginação chega, chega a Língua.

Muita gente, muita alegria, muita expectativa, muito calor e são sete horas. Não faz mal. Aconteça o que acontecer, agora também eu já posso dizer aquela breve palavra de acesso à conclusão - “Viu?” E foi isso mesmo que, afinal, aconteceu. Quanto ao resto, ainda agora é domingo, há que esperar para ver. O que for soará, fora dos campos de Brasília.

28 de Março
Despedida

Quando os dias voam é assim. No restaurante do hotel, uma pessoa vem ao meu encontro com um prato de fruta na mão. A fruta é vermelha e a pessoa é mulher. A pessoa diz-me o seu nome e eu fixo-o, já o ouvi e estremeço por receio de errar. Sim, já errei, já julguei que era alguém que não era, e eu misturo o momento da despedida com as minhas faltas cometidas em Brasília. Conheço-me. Começa o momento do arrependimento. A pessoa diz-me que no dia anterior esteve lá sentada, no meio do calor, a ouvir-nos, e eu começo a ficar mais pequena do que a cadeira onde me sento. Começo a pensar que toda a euforia foi para nada, e que o meu lugar era em casa, metida na sombra dos objectos que não falam. Mas a pessoa, que afinal não come a fruta, começa a dizer que me agradece. Que nunca tinha pensado na hipótese de alguém desejar ser ao mesmo tempo homem, mulher e criança, velho e novo, rei e vassalo, móvel antigo da nossa casa e parede onde ele se encosta, cão e lobo, nuvem e pasto, e até o nojento réptil agachado no chão, até ele qualquer escritor gostaria de experimentar ser.

Sim, de facto eu disse isso mesmo, de passagem, apenas para criar um intervalo, entre os assuntos da Língua, e foi só isso que a pessoa, que está na minha frente, fixou. E porquê? Porque a pessoa, que deixou a meio o prato da fruta, diz que também já experimentou o desejo de ser, por um minuto, o réptil nojento que toda a gente abomina. A pessoa diz que veio ter comigo porque somos irmãs, que aquilo que apenas nos distingue é que, na sua óptica, eu consigo dizer em público exactamente o que ela sente e não diz – Diz que ser por um momento a criatura mais repelente, que Deus deixou à face da Terra, é apenas a forma de desejarmos ser tudo. E só depois, a pessoa termina o seu prato de fruta vermelha.
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* "Diário", in Jornal de Letras (N.º 1031 - 7 a 20 de abril de 2010)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Crónica * Carta a uma filha

Figos & rosas

Lídia Jorge *

Querida Catarina

Mal chegaste, partiste, e mal partiste já só penso no teu regresso.

Desta vez, tudo aconteceu tão rápido que nem deu para visitarmos o pomar. Pergunto-me o que sentirão as tuas árvores, se perceberam que não as visitaste como antes sempre acontecia. As amendoeiras que tu tanto gostavas de desenhar antes de perderem a folha, ainda cá estão intactas como se esperassem pelo teu lápis. As alfarrobeiras estão carregadas como nunca, e nenhuma delas até agora se partiu. Foi pena que não tivesses reparado nelas. E que dizer das figueiras? Ah! As figueiras-leiteiras, como se cobriram de frutos. É caso para dizer que por aqui, a mesa de Deus está posta. Mas tu, mal chegaste, partiste e não viste o que Deus pôs na nossa terra. Desta vez não nos levantámos de madrugada para irmos aos figos - passarinhos. Aquela a que tu chamavas a tua figueira, a carvalhal, este ano, precisamente, carregou. É dela a maior parte da cesta que estou a preparar para ti. Sei que não precisas, que poucas serão as ocasiões em que estes frutos secos, com cheiro a mel e álcool tresmalhado, de bafo demasiado quente, demasiado calórico, como tu dizes, poderão servir-te, mas eu é que acordo de noite com este aroma em casa, vindo do pátio, onde ficam estendidos, e sinto uma abundância mais que humana e preciso de partilhar contigo, que mal chegaste logo partiste, e eu já só penso no teu regresso dentro de um ano, bem entendido, se for caso disso. Recebe, pois, a seira que te mando envolta em papel pardo. Se sentires um pouco de cheiro de canela, não acredites, são eles mesmos que assim cheiram. De resto, tu conheces como os mantenho – deixei secá-los até ficarem com aspecto de torrados, untei-os com azeite, coloquei um bago de erva-doce em cada olho, um molho de funcho por camada. Tudo isto para durarem um ano, ou ainda mais. Desta vez, não tiveste tempo, mal partiste, chegaste, mal chegaste, logo partiste, já só penso no teu regresso, de noite, abro as janelas, e já só penso que chegaste. Não faças caso. Junto, vão também seis botões da roseira adamascena. Pois andaste pelo jardim, e não a viste, não a desenhaste como é teu hábito, desta vez foi como se não tivesses estado em Portugal. Mal chegaste, mal partiste. Mal chegaste. Segue tudo Via Expresso para mais rápido te alcançar. Segue tudo, menos esta carta, que aqui ficará guardada, para seres livre de partir, para seres livre de chegar.

Mãe
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* Crónica escrita em agosto de 2009,
publicada em revista (a ser localizada)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Crónica * Se morreu, sou sua irmã duas vezes.

De noite



Lídia Jorge *

Eu saía dos Cinemas Residence, era de noite e atravessava o Parque de Estacionamento do Saldanha, quando dei por uma mulher cambaleante a ser levada por uma criança.

Aproximei-me.

A mulher era negra, a criança era branca.

Quando amparei a mulher, ela escorregou pelo meu corpo e caiu no chão. Debrucei-me, perguntei para onde iam. A miúda olhava aterrada, mas não dizia uma palavra. A mulher, deitada no chão, disse que procurava a Maternidade Alfredo da Costa. A criança branca mantinha a boca fechada. Procuravam uma maternidade, e no entanto, a mulher não parecia grávida.

Então olhei para os seus jeans, molhados até aos joelhos, e percebi o que se passava.

Estávamos as três sobre o passeio que ladeia a estação dos táxis ao Saldanha e vários taxistas olhavam para nós. A mulher no chão.

Eu pedi – “Um dos senhores, por favor…Levem-nos até à Maternidade. Eu sei que é logo ali, mas levem-nos…” Eram cinco os taxistas, nenhum se moveu. Todos se recusaram. Um deles irritou-se e gritou – “A lei proíbe transportar pessoas nesse estado, minha senhora…”

Os cinco taxistas só olhavam, um deles ria.

Agora a mulher tinha abandonado a mala, abandonado a mão da menina, tinha abandonado a minha mão, e ia gatinhando pelo asfalto.

Por perto, alguém começou a rir. Ela ia gatinhando entre os táxis. Desistiu de gatinhar.

Ela estava sem sentidos, do outro lado dos táxis.

Felizmente que a ambulância chegou passado pouco tempo.

Enquanto a ambulância não chegava, eu fiquei a saber que esta mulher tinha três crianças, estava sem emprego, e fora uma sua amiga, a mãe da miúda branca, quem a mandara acompanhar a mulher, que lá ia na ambulância. Soube pela menina de nove anos.

Não soube mais nada da vida desta menina, mais nada da vida desta mulher.

Se sobreviveu e vive com os seus três filhos, sou sua irmã.

Se morreu, sou sua irmã duas vezes.
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* crónica lida no Programa "Prós e Contras", 14 janeiro de 2008

terça-feira, 31 de julho de 2007

Crónica * Esse sonho de língua que nos uniria a todos.

Telavive

Lídia Jorge *

Foto de Arile Schalit
É preciso tomar cuidado - Se em Israel dissermos que Lisboa é uma cidade branca, o nosso interlocutor poderá pensar que lhe estamos a roubar alguma coisa de precioso. Para os israelitas cidade branca é só uma e chama-se TELAVIVE. A mistura clara do sal, do sol e do solo formam essa impressão de brancura que lhes dá razão. As varandas de cimento que desenham o perfil da cidade, desenhada ao longo duma praia do Mediterrâneo, emprestam-lhe esse halo de claridade que lhe dá prioridade nas questões da brancura. Ainda não pusemos o pé em solo israelita, e já sabemos que a Cidade Branca, desde 2003 é considerada Património Mundial da Unesco. Ainda não mostrámos o passaporte e já sabemos que Telavive significa Colina da Primavera, com tudo o que o nome traz de brilhante. Aliás, o próprio aeroporto, uma construção acabada de estrear, lá tem a brancura nas paredes. A entrada nesse recinto de aviões é inconfundível – a pedra branca que a forra parece levar-nos para fora do tempo.

Mas o que mais atrai em Telavive são os recantos que marcam a geometria da sua história. Não a grande História, essa que tem um peso de letras e linhas tão forte que nelas confluem ao mesmo tempo as atribulações e os sonhos de todo o Século XX, antes a história das pessoas concretas e comuns que andam nas ruas, semelhantes a todas as pessoas do mundo. Mais que visitar o magnífico Teatro Habimah, auditórios, ministérios e galerias, do que eu mais gostei foi de calcorrear as ruas ladeadas pelas construções Bauhaus, o centro da alma de Telavive, e aí encontrar uma cidade que se sonhou ordenada, branca, de linhas simples, erguidas ao futuro dos anos 30 a 50 do século passado. Em nenhuma outra cidade se encontra um mostruário tão vasto e tão completo do sonho modernista de cidade. Um outro recanto que não esqueço é a própria Praça Dizengof onde se faz o mercado de Sexta Feira. Aí encontrei pessoas expondo preciosidades e ninharias como em todos os mercados de sextas-feiras. Aí comprei um alfinete de pequenas pérolas duma judia inglesa que se desfazia dos seus bens para recolher a um lar, e uma bolsa a um beduíno que os trazia duma montanha perto do Tiberíades. Aí os pratinhos com os peixes da multiplicação no Sermão da Montanha empilhavam-se para os crentes cristãos. Aí os saquinhos de folhas de rosa para o chá e essência para a salada, eram vendidos pelos árabes. O mercado do povo onde se entra vigiado e se sai vigiado, como vai ser o nosso futuro em toda a parte do Mundo, é um verdadeiro bazar, essa palavra que significa mistura. A nossa História futura cada vez mais como um grande bazar. E à noite, o peixe é maravilhoso, à mesa do Beny Hadayag, isto é, Beny, o pescador, ali no antigo porto, servido por gente que fala uma língua eslava de mistura com o hebraico. Mas mesmo assim, no que eu penso é no Mercado de Sexta-feira, ali onde se junta a vida dos homens, separados pelas História, unidos pelas histórias das suas vidas. E quando se deixa o grande e belo aeroporto de Telavive, tem-se saudade dum futuro branco para todos. Que os israelitas desculpem que o seu povo e as suas cidades nunca desencadeiem pensamentos apenas sobre o seu povo e as suas cidades, antes ofereçam a partir de si o início de pensamentos sobre todas as outras cidades do mundo. E acaso viajar não é isso? Reconhecer em todos os outros lugares a raiz do nosso próprio mundo? Por alguma coisa, perto da Praça Dizengof existe uma placa que evoca o nome de Zamenhof, o criador do esperanto, esse sonho de língua que nos uniria a todos.

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* in Público|Fugas, 31 de julho de 2007


segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Crónica * Agustina Bessa-Luís

Como ninguém

Lídia Jorge *

Neste momento ainda estamos frente a frente e este é um comboio para Hamburgo. A carruagem está repleta de passageiros de olhos descidos. Agora atravessamos uma planície pelada, agora a planície enche-se de árvores, agora as catenárias desenham aranhas no céu, agora as estradas e as casas desenhadas à beira dos rios vêm ao nosso encontro e desaparecem para além da vista. Agustina vai sentada no sentido do correr da paisagem, e diz-me – “Lá está um homem português”.

Levanto-me e não vejo o que anuncia. Na direcção do seu olhar só encontro pessoas de aspecto germânico. Nem um único bigode escuro, um único olho preto, ninguém com o porte sumido próprio dum rosto luso. Agustina está confundida. E de novo a planície pelada, de novo um renque de casas fantásticas, como se fossem desenhos planos rodando sobre a paisagem. De novo, a fila dos olhos tombados. Mas Agustina não desiste. Insiste – “Vê-se que é português pelo mover dos lábios…”

Reparo com mais atenção e de facto alguém está a sorrir na direcção de Agustina, e não é um homem escuro, nem de olhar melancólico. Curiosamente é uma pessoa de compleição germânica, que já se levanta, já se aproxima, curva-se na direcção do nosso assento e começa a falar português. Afinal, Agustina acertou no vaticínio, está encantada. Deve ser um professor, provavelmente um professor de literatura brasileira, já que o acento denuncia aqui e ali uma passagem pelo Rio, talvez por são Paulo. Eu mesma gostaria de saber alguma coisa sobre a história do seu idioma correcto, mas entretanto, a conversa do homem, em pé, postado no corredor, já se dirigiu para outro lado. O homem reverencia Agustina, fala calmo e claro, como se desenhasse palavras no ar, ali dentro da carruagem. Encantada, Agustina escuta – “Claro que a reconheci de imediato, como não? E já agora gostava de obter uma informação. Dá-me licença?”

Agustina dava licença. O passageiro prosseguia, todo inclinado para o banco – “É verdade que chegou a encontrar-se com a Anna Hakhmátova? E confirma que ela lhe perguntou com quem a sua escrita se parecia? E que a Agustina Bessa-Luís, respondeu que se parecia com Dostoievski? E que a vaidosa ficou desiludida? Claro que a Hakhmátova não percebeu que era apenas uma gentileza sua para com a cultura eslava, não percebeu…”

O homem estava curvado sobre o banco onde Agustina permanecia sentada, risonha, divertida com a situação, a responder baixo com acenos de cabeça, a completar com pormenores um relato que afinal tinha andado de mão em mão até chegar àquele homem que a visitava naquela situação extraordinária. Cada vez mais solícito, o homem – “Pois foi pena que tivesse respondido assim, muita pena. Porque a senhora, literariamente falando, não tem ascendentes legítimos. A senhora bebeu do Goethe, bebeu do Kafka, bebeu do Musil, e é diferente de todos eles. Porquê o Dostoievski, porquê? Possuo todos os seus livros alinhados na estante. A senhora não precisa de parentes nem de formatos, a senhora escreve como ninguém… ”

E o homem germânico, de fala portuguesa de acento lusitano, com toques brasileiros, arredou-se para que o carrinho dos mantimentos passasse. O carrinho passava com os seus empurradores, e Agustina continuava a escutar, divertida. O homem germânico disse – “O seu talento é feito de versatilidade, velocidade, multiplicidade, invenção, opulência, toda uma orgia genesíaca que varre os seus milhares de páginas com um sopro entre o hiper-lúcido e o ébrio, e envolve de genialidade todos os géneros a que se dedica…” Mas chegando aí, Agustina começou a sorrir de outra forma. “Pois está muito bem, disse ela…” Agora o homem fazia o elogio sentado, mesmo em frente, porque alguém se tinha levantado do lugar. Tinha pedido licença e falava manso, com conhecimento de causa, recuando até a A Sibila e saltando para O Bicho da Terra, e logo indo até a O Mosteiro, e Fanny Owen, e Vale Abraão, e por aí adiante. E Agustina, a pouco e pouco começou a ficar desatenta, a olhar em volta, até que disse – “Sabe o senhor? Deixámos passar o carrinho e estamos as duas cheias de fome…”

O homem germânico levantou-se dum salto, olhou para o relógio, penalizou-se por ter interrompido o nosso sossego, ter deixado passar o carrinho. Agora, ter-se-ia de ir ao bar, mas ele não queria que Agustina Bessa-Luís se dirigisse ao bar. Aquele comboio era um transporte seguro, e no entanto, sempre fazia safanões, e depois ter-se-ia de comer em pé, com a carruagem do bar completamente atafulhada de gente àquela hora da tarde. Mas ele, penalizado, deferente, ia já resolver a situação num abrir e fechar de olhos. Ele mesmo iria ao bar comprar umas bebidas e umas sanduíches. - O que desejávamos? Com picos ou sem eles? Com pão preto ou pão branco? Salame ou queijo de barra? Salada verde ou vermelha? E copo ou palhinha? Com palhinha, claro. E nada de dinheiro, ele tinha todo o gosto em oferecer aquele lanche a Agustina Bessa-Luís e à sua acompanhante. - E agitado, cumpridor, sorridente, dirigiu-se ao seu próprio lugar, remexeu nos seus sacos, nos seus casacos, e desapareceu na direcção da carruagem-bar. Por sua vez, nós arrumámos os jornais, e preparámo-nos para lanchar. Mas Agustina disse – “Este tipo não está a dizer a verdade. Acho que é um português que se naturalizou alemão. Não estou a ver um alemão desenvolver este arrazoado desmedido. Um alemão não cumprimenta de longe, daquela maneira. Não mostra a emoção, é um disciplinado…”

Entretanto olhávamos para a carruagem e víamos os cabelos loiros, os cabelos palha, os olhos fechados dos passageiros. Quando o homem voltasse com o nosso lanche, iríamos querer saber onde vivia, o que fazia, porque estava ali. As duas, unidas na suspeita, pretendíamos despir aquele homem do seu anonimato. Afinal, era injusto, dizia a Agustina – Os leitores sabem tudo sobre nós, nós não sabemos nada sobre os leitores. Naquele caso, iríamos equilibrar a situação, assim que o homem aparecesse na porta ao fundo. Entretanto, lá fora corriam árvores, rios, castelos, outeiros, casinhas enfileiradas como nos livros das fadas, catenárias desenhando rendas de aço pelos ares, e o homem não vinha. Passaram vinte, trinta minutos, três quartos de hora e não vinha, o homem. O que teria acontecido? Sobre o seu assento, a gabardina dobrada. “Vá lá ver se o homem está no bar. Talvez tenha encontrado o Kandaré ou o Kundera e esteja entretido a fazer-lhes o panegírico. À cautela, traga as sanduíches…” – disse a Agustina.

Fui. No bar, o homem não estava, nas carruagens intermédias também não estava. A gabardina continuava ali, dobrada sobre o assento. O comboio não tinha parado. Entretanto a tarde avançava para a noite, as árvores desapareciam, as casas tornavam-se vultos, o campo sumia-se, as estradas eram filas de luzes paradas, pontuando as luzes corridas dos carros. De onde em onde iluminações, uma povoação que se aproximava, rodava, engolida pelo escuro. À nossa volta, passageiros solenes dormiam. E a gabardina além, pousada sobre o assento. - Ter-lhe-ia dado uma coisa ruim? Estaria escondido num WC? Teria passado a uma carruagem longínqua, de propósito para nos pregar uma partida? Agustina disse – “Vai ver que é um espião que anda por aqui. O melhor é esperarmos. Ele há-de vir, mais que não seja por causa da gabardina…” E entretanto o comboio avançava planície fora, entrava nos subúrbios, nas luzes da cidade, nos milhares de carris, nas grandes bocas das estações, nas plataformas corridas, e os passageiros levantavam-se, procuravam as bagagens, encaminhavam-se para a saída. Nós só haveríamos de sair depois da gabardina, tínhamos os olhos num lado e no outro, o olhar na plataforma onde nos haveria de esperar a Kárin von Schweder-Schreiner. Sim, lá estava a nossa amiga a acenar. E de repente, um assombro – Um outro homem levantou-se da janela, placidamente, pegou na gabardina, vestiu-a e colocou-se na fila de saída. Acabava de desaparecer o único objecto que nos ligava ao homem. O que queria dizer que o lusitanista havia saído definitivamente da carruagem, na altura em que se dirigira ao bar. Como proceder?

Arrastávamos connosco as bagagens. Ao fundo dois hospedeiros vigiavam a descida. - Deveríamos falar-lhes? Fazermo-nos entender sobre o que nos havia acontecido? Alertá-los para o provável desaparecimento de um passageiro? Alguém que havia reconhecido aquela escritora, e lhe descrevera os livros, a elogiara, a incensara, a fizera da família de Dostoievsky e Kafka, mais do que todos eles, e depois havia desaparecido no interior do comboio com a promessa de duas sanduíches?

“Não faça isso…” – disse a Agustina. “Quem vai acreditar em si? Como prova dessa conversa, nem ao menos dispomos duma gabardina esquecida…” Mas foi já perto da porta, encavalitadas nas malas de rodas que a Agustina concluiu – “Isto só quer dizer que temos de continuar a escrever. Está visto que nem a grande nem a pequena intriga estão resolvidas. A coisa concreta, a gente abomina. Policiais são para o pobre do Simenon, coitado...”

E quando a sua mala passou para as mãos da Karin, e nos pusemos a caminhar pela estação de Hamburgo adiante, Agustina Bessa-Luís começou a rir com gosto. O gosto próprio duma mulher que sabe que nenhum enigma, por difícil de desvendar, a encontra desprevenida. Obrigada até ao fim da minha vida, por todas as suas viagens, Maria Agustina.
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* in revista Egoísta (dezembro 2006)

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Crónica * África, nome inscrito

Lugar de chegada

Lídia Jorge *

Que palavras usar para falar de África? – Trago esse nome inscrito na bagagem da vida como se fosse uma parte do corpo. Escrevo-o no papel, e vejo o meu pai e o meu avô paterno saindo ambos de casa, naquela noite da minha pequena infância, para embarcarem no Paquete Pátria em direcção de Moçambique, e aí viveram dez anos. Depois eu haveria de saber que tudo isso acontecia no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, início dos anos cinquenta, quando a ditadura se fortalecia e as Colónias eram apresentadas à população como locais de paraíso. Entre as populações, constava que lá, em África, o clima era tão criador que uma semente que se deitasse à terra pela manhã, daria as primeiras folhas ainda antes do anoitecer, e outros prodígios semelhantes. Constava também que por lá nunca haveria Inverno, e que as pessoas locais estavam sempre de joelhos, à espera do branco, para servir. Também ficaria a saber que o meu avô e o meu pai, que não sabiam línguas, em vez de embarcarem para o Canadá ou os Estados Unidos, tinham preferido terras de emigração onde se falasse o português. Mas tudo isso eu só saberia muito mais tarde.

Na altura, eu apenas ouvia dizer que o meu avô, uma vez chegado à antiga Lourenço Marques, tinha rumado para Norte, e que o meu pai havia encontrado forma de fazer da sua vida um modo de andar cá e lá, entre o Norte e o Sul, esquadrinhando estradas e picadas, matéria para memórias quotidianas que ia deixando no seu diário. Não admira, assim, que as minhas primeiras frases em papel de carta tenham sido escritas para enviar para África. Que os primeiros endereços desenhados pelo meu punho, tenham sido dirigidos para Chingune-Chiloane. Que o meu primeiro atlas ao vivo tenha sido o redor de África e o meu primeiro outro mar, tenha sido o Oceano Índico. Pelo Natal, o meu avô enviava fotografias, todo vestido de branco, posando debaixo de coqueiros, de braço dado com os empregados das minas onde trabalhava. E o meu pai, sorridente, deixava-se fotografar em calção curto, junto de peças de caça grossa, no meio do mato. Os dois heróis da nossa casa encontravam-se no meio de África. O dinheiro que tínhamos vinha de lá, o meu sonho e a minha evasão voavam para lá. Todas as hipóteses de viagem se dirigiam para lá, par África. Claro que eu não podia adivinhar que cinquenta anos atrás, Joseph Conrad tivesse escrito Coração das Trevas, essa denúncia sobre a perversão dos seres humanos em face dos outros. Desconhecia de todo que em 1945, depois das Conferências de Yalta e Pstadam, a Europa tivesse começado a perceber que as autonomias das colónias eram irreversíveis. Creio que o meu pai e o meu avô também não sabiam. Se deixaram África anos depois, foi por outros motivos bem mais particulares, e bem menos tangíveis. Fosse como fosse, sem o saberem, já se tinham inscrito definitivamente na ordem dos ocupantes. Tinham feito parte do equívoco da nossa História retardada no tempo europeu. Caberia à minha geração pagar por isso. Involuntariamente, coube-me fazer parte da saga do colono odiado.

É verdade – Já nos anos setenta, vivi em Angola e Moçambique como testemunha da guerra colonial. Não era fácil. A sensação de fim de ciclo batia sobre a cabeça daqueles que detestavam o regime político e entretanto tinham lido Conrad e conheciam o destino de Lawrence da Arábia. Fazia parte do grupo daqueles que sabiam muito bem que em Lisboa ainda se vivia na ilusão melancólica de que a situação colonial poderia manter-se. No terreno, era uma ilusão sangrenta e dramática. A História recente ensinava que quanto mais tarde pior. A Universidade ensinava como nasciam e morriam os impérios. Como tantos não viam isso? Como tantos morriam, de um lado e de outro, por isso? Por esse equívoco? Quando tudo acabou, foi possível dizer – Felizmente, acabou. Doesse o que doesse, acabou.

Mas, desse tempo, eu guardei as vivências mais importantes da minha vida. Aprendi o que significava ocupar a terra dos outros, ser expulso da terra dos outros, aprendi com os outros. Amei os outros. Amei os meus alunos de África, as histórias das suas vidas contadas em redacções escritas nas aulas. Amei a terra, o clima exuberante, as árvores, as danças, as raparigas grávidas com quem convivi no Hospital do Macúti, eu, como elas, sabendo de crianças recém-nascidas muito menos do que elas. E de tudo isso, trouxe a ideia de que era urgente escrever livros porque tinha visto duas Culturas desentendidas, e durante esse tempo tinha aprendido a gramática adulta da dor humana de mistura com a alegria. Em forma directa, trouxe na cabeça a vivência transfigurada daquilo que haveria de resultar A Costa dos Murmúrios, homenagem a esse tempo ido, para encerrá-lo com beleza, mas sem nostalgia. Porque hoje a vida em África é outra, a promessa de regresso e destino de viagem tem outros modos, e a esperança de entendimento passa por outras vias. Difíceis vias, urgentes vias. Tão urgentes, que às vezes sinto vergonha de escrever textos sobre África. Há momentos em que a escrita é um modo de utilizar os braços duma forma demasiado passiva. Como amar África, percorrendo os dedos, apenas, por um teclado de plástico? – Vergonha. Escrever um texto não passa de uma simples metáfora e de um princípio.
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*  in Público | África (2 de outubro de 2006)

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Crónica * Nesses dias de Setembro de 74

Os anos do cravo

Lídia Jorge *

Falem-me dos Anos 70 e eu deixo de estar nesta casa onde me refugio para escrever os livros, e de viver neste tempo com sua própria luz e sua própria sombra, e regresso àquele dia em que eu tinha sonhos nítidos na cabeça e trazia ao colo os meus dois filhos de berço. Nesse dia, eu regressava da Costa Oriental de África, e era apenas uma jovem rapariga que fazia parte dum grupo que se deslocava dum lugar para o outro levado pelos acontecimentos. O avião, um Jumbo fretado para o efeito, trazia de Moçambique alguns daqueles que depois viriam a ser os primeiros retornados da descolonização portuguesa. Mas nessa altura, de entre as mulheres e as crianças entaladas no meio de sacos e haveres, nenhum de nós poderia saber os nomes que o futuro reservava para designar aqueles que se deslocavam sem saber para onde.

Era então Setembro de 74, a Revolução apenas tinha cinco meses e os acontecimentos ferviam pelas ruas. Aquilo que acontecia em Lisboa era uma espécie de euforia impossível de esquecer ou minimizar. O golpe militar tinha-se dado sem derramamento de sangue, e apesar dos muitos atropelos, eles eram mínimos, quando se pensa que atrás da mudança havia uma velha crisálida de cinquenta anos que tinha fossilizado, no interior da casca, praticamente todas as estruturas incluindo as mentais. A Revolução estava na rua, a bandeira portuguesa flutuava nas edições estrangeiras dos jornais. O país tinha-se transformado numa espécie de palco de ensaio de forças divergentes de potências estrangeiras. No meio da contradição, a imagem do cravo vermelho enfiado no cano duma espingarda era um símbolo demasiado lacónico para a esperança sem medida que invadia as praças. Não era possível esconder a alegria. Para quem era jovem e tinha sonhado com um Portugal liberto de ditadura, sonhado com a democracia representativa, e a aproximação à cultura livre europeia, percebia-se que o momento decisivo tinha chegado. No meu caso, que tinha vivido o 25 de Abril à distância, depois de tanto o ter desejado, regressar naquele Jumbo, significava vir ao encontro dum espaço onírico convertido em país real.

E no entanto, aquele avião, que havia partido ao cair da noite do aeroporto de Maputo, anunciava a relação mais complexa que a Revolução iria criar – O seu voo anunciava o início tardio da era pós-colonial falada em língua portuguesa. Dramaticamente demasiado tardio para todos os lados. Eu sabia-o muito bem. Na estrutura militar com que me tinha relacionado, os meus olhos tinham sido duas espias contra uma guerra injusta que se desenrolava fora do tempo, nas várias frentes daquele que fora o velho Império Português. Mas naquele xadrez de que na altura ainda só conhecíamos o encanto, não conhecíamos a violência, nós três regressávamos ocupando apenas uma cadeira no Jumbo, e representávamos a força que batia em retirada. Pessoalmente, batia em retirada, cheia de sonhos na cabeça, em nome da paz com vinte cinco anos de atraso.

É sabido que cada época se define sobretudo pelos sonhos que engendra, mais do que pelos acontecimentos que a tecem. Um dos sonhos que eu alimentava, como jovem da minha geração, era poder conhecer as independências dos vários países emergentes que a revolução reconhecia como primeiro dado. Por mim, imaginava nações tranquilas, a caminho da maioridade política, e do desenvolvimento humano. Imaginava que esse caminho seria já e de imediato. Mas assim não foi. O Jumbo que nos trouxe de volta, era uma espécie de amostra antecipada duma ferida aberta por longos anos, movida pelas guerras civis que se seguiriam depois. Os sonhos adiados, década após década.

Mas agora volto para trás e penso nesses dias de Setembro de 74. O momento mais marcante fora sem dúvida aquela cesura feita de bandeiras vermelhas nas ruas de Lisboa e de militares abraçados ao povo, e essa imagem ofusca tudo o resto. O para trás separado do que veio à frente. Depois, com o passar dos anos, entornámos sobre a lembrança mais decepções do que proveito, como é humano e de todos os tempos. Seja como for, o que de mais importante sobejou dessa década de cravos vermelhos é sem dúvida a constatação de que há sonhos justos que são realizáveis. Quem teve a adolescência ou a juventude nessa década, em Portugal, sabe que é possível os homens unirem-se e conspirarem contra a ignomínia, mesmo em situação adversa. Sabem que muitos deles o podem fazer com generosidade, sem reivindicarem o seu nome em lugar nenhum dos livros, e sem sonharem com estátuas onde os pombos se albergam de noite. E isso é acreditar na Humanidade. Muitos dos portugueses dessa época, que neste momento começam a ficar velhos, permaneceram ingénuos. Eu penso nesse tipo de crença que se ganha para sempre, quando imagino aquela viagem atribulada entre Maputo, Luanda e Lisboa, e me lembro de ter chorado de emoção por ver ao vivo os grafitti da liberdade, que eram descritos pela rádio, aos gritos, num tempo em que nesses países de África a televisão ainda não tinha chegado. Entre o aeroporto da Portela e a Baixa, com dois filhos ao colo, a caminho da Residencial América, chorava de alegria. E no meio de todas as contradições e desavenças que se seguiram, tantas demoras e heranças que perduraram sob os tapetes, talvez esse tenha sido um dos dias mais felizes da minha vida.
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* Texto incluído na coletânea "La Nuova Narrativa in Lingua Porttughese"
 publicada por La Nuova Frontiera (2006), Itália
exto...


quarta-feira, 16 de março de 2005

Crónica * As divergências apenas resultam das cópias sucessivas dessa única fala

Passagem por Jerusalém


Lídia Jorge *

Em Jerusalém, a História é tão eléctrica que uma simples folha de papel a voar pode assumir a categoria de um acto simbólico. A rapariga soldado a que me refiro caminhava entre os companheiros, curvada sob o peso da mochila e da metralhadora, e parou diante da folha cor-de-rosa que se encontrava no chão. A rua era íngreme, os rostos do grupo armado, sob o esforço da subida, estavam descidos, e foi necessário um pequeno desvio para apanhar o papel. A rapariga saiu do trilho, recolheu o papel, dobrou-o, encostando a arma à bochecha, enfiou-o na algibeira e continuou na fila, subindo a colina de pedra. Aparentemente, ninguém deu por nada, o pequeno desvio não significava nada, era apenas uma mulher soldado adolescente, retirando do chão uma folha de papel quadriculado. Mas se eu tivesse de escrever sobre os sinais das balas que estão marcadas na porta de Sião, a partir daquele instante, já não iria mais começar pela crónica dos dias de guerra de 1948, teria de começar pelo gesto anódino duma adolescente armada, levantando uma folha daquele chão como se fosse outro chão qualquer.

É que entre a história do sagrado e do profano, existe um terceiro campo, mais amplo e mais difuso, o campo do anódino, constituído pelo somatório de gestos onde se encontra o mais inqualificável do comportamento humano. É esse o espaço que me interessa, esse que não cabe em nenhum tipo de História, ainda que corra a seu lado como seu outro irmão. Aliás, anódino , segundo a raiz primitiva, significa isento de dor, qualidade daquele que acalma a dor, ou pelo menos não a produz. Só num segundo momento, anódino se transformou em sinónimo de banal, insignificante ou imprestável. E isso é de ter em conta, porque profano é concebido como oposição a sagrado, quando se disputam no mesmo plano. De resto, sagrado e profano podem conviver abraçados no mesmo domínio, um e outro relacionados com a mesma vocação de totalidade. Mas quando passamos a falar de anódino, aí já estamos claramente fora desse tal abraço, aquele que conduz aos rios de sangue derramados pela disputa do absoluto. Sob o signo do anódino, pomo-nos a falar uns com os outros do simplesmente humano. E esta é a paisagem predilecta dos viciados pelo significado do transitório, que é o campo do literário, e dentro dos géneros que o compõem, aquele que mais se arruma rente à banalidade do real, que é o romance. O romance, ou a narrativa que nasce, por exemplo, duma folha de papel volante, à qual se junta um rosto, semelhante a outros rostos, e uma data no tempo doméstico, à medida duma semana – Sobre aquele instante, um qualquer visitante viciado no sentido do anódino teria escrito - “Era uma vez uma rapariga armada, que apanhava do chão uma folha solta, enquanto o seu pelotão estava subindo a Colina do Templo acima, na cidade de Jerusalém...” E no átrio da memória, representar-se-ia a cena em silêncio, sem palavras sagradas, sem Deus, sem relâmpago, apenas a folha de papel cor de rosa que a rapariga dobrou e enfiou na algibeira da farda, sobre o lugar do coração.

Aliás, esse fora precisamente o tema da conversa na noite anterior. Segundo os leitores especiais que haviam preenchido aquele serão de sexta-feira, o poder singular dos escritores israelitas estaria na capacidade de fazerem coabitar a memória das narrativas sagradas com as vivências do quotidiano comum, levando por diante a tarefa de criar um espaço de lirismo construído sobre a dúvida e o efémero, esses frágeis materiais do relativo que conduzem à compaixão. Nessa perspectiva, Amos Oz, David Grossman, Yehudit Hendel, David Vogel, Jacob Shabatai ou B.Yehoshua, e seus milhares de páginas publicadas sobre vidas comuns e suas sombras indefinidas, continuam a tecer um dique tão poderoso quanto versátil em torno do indizível, por oposição ao poder absoluto dos Grandes Livros . E a propósito das narrativas fundadoras, totalitárias, os nomes dos escritores mais recentes, como Etgar Keret, o jovem autor de O Motorista de Autocarro que Queria ser Deus , eram particularmente visados. Mas os jovens israelitas, autores de histórias mínimas, semi-fantásticas, colhidas no lastro do quotidiano banal, não estariam a ser porta-vozes duma tendência que erradica de todo, ou quase todo, as marcas do lugar e do tempo, para se transformarem em instrumentos duma nova escrita global, aquela que por definição ficciona longe do espaço histórico e da alma do lugar? Aliás, não estaríamos em breve, todos nós, perante narrativas de todos e para todos os lugares, uma espécie de narrativa pantópica, alimentada pelo mesmo imperativo de uniformidade que faz das laranjas e dos tecidos objectos saídos fora da estações do ano e das marcas da região? - É possível, mas se essa questão da viagem incolor dos textos tem alguma pertinência, ela não se levanta em relação aos autores israelitas, tão pouco em relação aos jovens como Etgar Keret, cujo humor e ironia continuam fortemente plantados no chão da sua cultura. Se a questão é de perda de espaço do romance como género, e da Literatura como expressão, e logo de diminuição do poder do dique em torno da ortodoxia, é preciso ter em conta que a vida dá outras voltas, e será salutar pensar nelas duma outra forma.

Então, de súbito, Jerusalém pode fazer lembrar o síndroma de definhamento dos géneros, e em particular o do romance, e a esse propósito vale ter em conta como há vinte cinco anos, por exemplo, Vergílio Ferreira, um dos escritores portugueses do século XX que melhor o cultivou, em resposta a aos jovens autores que então surgiam, manifestava as maiores reservas em relação ao género. Àqueles que nessa altura lhe apareciam sobraçando novos originais, o autor da Aparição perguntava com admiração por que motivo desejavam publicar romances, por que não enveredavam antes pela poesia, pelo teatro, pela narrativa para cinema e televisão, dissuadindo-os com fortes argumentos e emoção sincera, como se estivessem os jovens principiantes a apostar a vida em cavalos estropiados de que se tornava urgente salvar. Na verdade, era sua convicção de que o romance já então era um género morto ou pelo menos moribundo, que se tratava duma forma de representação do Mundo desadequada dos questionamentos contemporâneos, um género fortemente açoitado sob os ingredientes dispersivos da modernidade. Estávamos na década de oitenta, e Vergílio Ferreira via o futuro que ainda nos separava do fim do século como um tempo inchado por desafios que eram a antítese do romance, tal como ele o entendia, uma narrativa semi-ensaística sobre o destino privado dos homens, um parente imaginoso da área da Filosofia. Aliás, Vergílio Ferreira augurava a morte natural do romance, por motivos antropológicos, mas recolhia os sintomas sobretudo em duas espécies de evidência. - Na fartura da publicação – expressão do seu gosto – e no facto de as mulheres terem chegado em peso à ficção, aumentando-lhe a abundância. Numa e noutra circunstância, ele via o grotesco expandir-se, o grotesco das historietas reprodutoras da vida real aumentar, o grotesco da exposição autobiográfica sem outro significado que a exibição pessoal instalar-se. E esse seria o garrote da sua morte porque seria o recuo até à sua mais afastada arqueologia. Mas passados estes anos, se a descrição que fazia é quase justa, os sintomas de definhamento que imaginava não lhe vinham apensos.

Só entre nós, basta pensar que nos vinte cinco anos que se seguiram, não só apareceram romances como Memorial do Convento, Balada da Praia dos Cães, ou Fanny Owen - para só falar de alguns dos imprescindíveis daquela década - como também o próprio Vergílio posteriormente publicaria Para Sempre , e mais três grandes títulos que se lhe seguiram, um outro póstumo, além de diversos projectos pensados para o futuro. Para não falar duma vintena de romances escritos por diversos autores, publicados ao longo destes vinte cinco anos, e que entretanto se tornaram inseparáveis das experiências das nossas vidas privadas e até das nossas mitologias colectivas. De facto, o romance não só não morreu como se encaminhou para outros horizontes e assumiu novos formatos. Mas será que Vergílio Ferreira se enganou completamente?

De algum modo, acertou ao lado. Digamos que a proliferação em quantidade é um facto, e não carece de comentário ou explicação, porque a quantidade só por si é um índice contraditório em relação ao valor efectivo do que verdadeiramente conta. Porque razão a quantidade só por si seria sintoma de decadência? Apenas exige mais paciência na escolha ou tempo na decantação. Também é verdade que as mulheres recém-chegadas à escrita da narrativa, se entregaram em força ao campo do romance e aproveitaram o seu formato para através dele publicarem os seus segredos, com a mesmo ímpeto com que os marinheiros alfabetizados do século XIX se entregaram à narrativa das suas viagens aventurosas ao longo dos outros continentes. É verdade que nas rotas de marear interno, a exibição directa da intimidade passou a ocupar um espaço considerável, como se a hora de Laclos e Sade domésticos saídos do século XVIII nos tivesse caído de novo no sofá. Hoje em dia, ninguém estranha que do meio de dezenas, ou centenas dessas narrativas, numa cidade de Europa, sobressaia ao cimo duma grande livraria o retrato duma escritora de língua francesa anunciando a sua obra - Leia este romance. Nele, a autora conta tudo o que se passa entre os seus lençóis... Parece ser verdade que o autobiografismo, resultado da convicção de que toda a experiência de vida dá um livro, apossou-se de grande parte dos cidadãos, como um fenómeno natural de combater a anomia. Mas não foi a quantidade nem determinada feminização da narrativa que têm descredibilizado o romance. Tal como previa, tem sido a invasão do grotesco que degradou a reputação do romance, não por si mesmo - o grotesco é apenas a degenerescência da harmonia - mas pelo oposto que ele reclama. O risco, porém, é de outra natureza, paradoxal e não previsto. É que na verdade, quanto tudo se torna grotesco, facilmente tudo se transforma em sagrado. Como se sabe, o analógico não convive bem com o lógico, aquele devora este, e sob o ascendente do irracioanl, facilmente se regressa ao mundo primitivo, em que tudo o que é olhado é visão, e todo aquele que tem um vislumbre é visionário. O fenómeno do O Código da Vinci e seus sucedâneos é apenas o rosto triunfante duma cadeia que se vinha a desenhar, em que primitivo e primordial aparecem confundidos. Ou de outro modo, Vergílio Ferreira, por razões diferentes das que apresentava, acertou a seu modo, mas infelizmente não teve tempo de experimentar a grande surpresa, a surpresa de perceber que no espaço do romance, o lugar do anódino significativo foi assaltado pelo exotérico, essa água-furtada do religioso e do sagrado.

Mas as coisas são como são, e em Jerusalém a questão nada tem de fútil. Como se sabe, ali três Livros Sagrados entrelaçam as páginas por cima das cúpulas de pedra, e nem sempre houve lugar para virá-las todas ao mesmo tempo. Os recentes ciprestes que unem as fachadas parecem dizer que Deus só falou uma vez, e as divergências apenas resultam das cópias sucessivas dessa única fala. Perigoso mesmo até ao risco de morte é que as divergências sejam motivo, ou pretexto, para o desentendimento. Como em nenhuma outra cidade, em Jerusalém, cidade que transporta o sinal da paz no seu nome, se resume a sorte guerreira da Terra inteira. Sobre essa questão, Denise, guia experimentada e proprietária duma livraria, convidada por Miriam, tem uma metáfora e uma onomatopeia preparadas. Denise conhece os cantos da cidade e os transeuntes, os vendedores de velas, os mendigos verdadeiros e os falsos. E a melhor loja árabe onde se vendem essências. É preciso ouvi-la. O seu carácter é forte e as suas mãos, vitais. Denise coloca uma mão sobre a outra e provoca com elas um ruído de espada ou de máquina. Olha na direcção do Monte das Oliveiras e fala mais ou menos assim – “Tudo isto começou há muito tempo - Primeiro vieram os assírios que incendiaram e destruíram o Templo de Salomão, e tac, tac, tac, abateram-se sobre toda a cidade. E então reconstruiu-se a cidade. Depois veio Alexandre o Grande, e tac, tac, tac... Em seguida reergueu-se a cidade. Depois vieram os romanos, e tac, tac, tac ... Depois Herodes o Grande refez outra vez a cidade. Em seguida veio o imperador Tito e tac, tac, tac, tac, sobre a cidade e o templo, e não deixou pedra sobre pedra. Tac, tac, tac. Veio o imperador Adriano reconstruiu a cidade. Depois veio Constantino e fez dela uma cidade santa, mas logo vieram os muçulmanos, tac, tac, tac, e ocuparam-na. E a seguir vieram os cruzados da Europa para a libertarem. Durante oitenta anos, os santos cruzados aspergiram sangue sobre as pedras de Jerusalém, tendo sido tudo bem picado, tac, tac, tac, durante oitenta anos. E finalmente veio Soliman, o otomano, que reconstruiu as muralhas sobre as quais nos encontramos. O tempo passou, e tac, tac, tac..”

É assim que Denise explica, irónica e sábia, as suas mãos enérgicas a imitarem o som do martelo-pilão, o grande instrumento musical que acompanha desde sempre a dança da História.

Descemos então a colina alteada pelos sucessivos acrescentos das cidades sobre as cidades. A ideia é que ainda agora a Pré-história dos homens não acabou, ainda estamos em luta pelo número de páginas sagradas que cada Livro contém, estejamos onde estivermos, o nosso Livro é sempre aquele que melhor reproduz a fala. É por isso que, em Jerusalém, a imagem duma rapariguinha soldado que por um instante pára, desvia a metralhadora da cara, e levanta do chão um papel já pisado, dobra-o e meteu-o no bolso, brilha como uma estrela duma outra natureza, na luz do dia que sobe. – Porque precisaria a rapariga soldado daquela folha? Iria escrever nela alguma mensagem? Lembrar-lhe-ia algum recado por que havia esperado e não teria vindo? Vestida de verde caqui e de cabelo amarrado, teria visto naquele pedaço de papel o início duma sucessão de palavras que lhe faltavam? Lembrar-lhe-ia pela cor, as rosas do jardim da sua casa? Lembrar-lhe-ia o seu urso de pelúcia? O seu primeiro amor, o seu último brinquedo? A sua primeira narrativa, o seu terceiro poema? - Um mundo de conjecturas se inicia, ali, onde o anódino alcança o sentido do íntimo humano, e nós ficamos desarmados uns diante dos outros, semelhantes e unidos. É sobre isso, sobre essa solidão habitada pela imagem do insignificante, que é preciso escrever durante toda a vida, conforme se confirma nas ruas de Jerusalém.
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* in JL - nº 899 (16 a 29 de março de 2005)