domingo, 31 de julho de 2011

[ENTRADAS] Acaso viajar não é isso?

Mostruário de um sonho

Diz assim: "Que os israelitas desculpem que o seu povo e as suas cidades nunca desencadeiem pensamentos apenas sobre o seu povo e as suas cidades, antes ofereçam a partir de si o início de pensamentos sobre todas as outras cidades do mundo. E acaso viajar não é isso? Reconhecer em todos os outros lugares a raiz do nosso próprio mundo? Por alguma coisa, perto da Praça Dizengof existe uma placa que evoca o nome de Zamenhof, o criador do esperanto, esse sonho de língua que nos uniria a todos." Uma crónica de há quatro anos que está atual.

[CRÓNICAS] No Público


Crónica

Lídia Jorge escreve ao sábado e domingo nas páginas Especial Algarve

30.07.2011 - 07:00 Por PÚBLICO
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 (Foto: Pedro Cunha)
 A escritora Lídia Jorge escreve, ao sábado e domingo, uma crónica nas páginas especiais que a secção Local do PÚBLICO dedica ao Algarve.

Música para o mar

Uma balada que vem de longe avisa que se pode render o cantor mas não a canção. Contudo, a impressão que se tem ao percorrer a longa passadeira de tabuinhas e ao aproximarmo-nos do apoio de praia, é que por aqui o cantor anda livre, mas a canção está presa. São onze horas da manhã e só dois impulsos agitam o ar a partir da aparelhagem, up and down, up and down, enquanto o toldo se move e o balcão estremece. Entretanto, a rapariga que atende já ali está, é perfeita, mas tem de me ler nos lábios o que eu pretendo, e eu tenho de ler nos seus lábios o montante da minha despesa. De resto, não é possível ir além dessa breve comunicação.

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[DOS BLOGUES] Bem observado

por Pedro Correia | 30.07.11 | 2 denúncia(s)
«Às vezes pergunto-me se a esquerda nasceu para governar.»
Lídia Jorge, esta noite, em entrevista à SIC N

sábado, 30 de julho de 2011

[ENTRADAS] O escrever como saber

Ortografia

Deu entrada neste blogue o texto de Lídia Jorge sobre a importâmcia da ortografia: "O desembaraço mental em face das distinções ortográficas funciona para a Língua Materna como a Tabuada funciona no domínio do cálculo matemático — favorece a rapidez, automatiza nexos, poupa e prepara para avançar nos raciocínios e associações"- uma afirmação; e uma pergunta: "Explicar o que significam etimologicamente consideração, bissectriz, ou protozoário, não será da responsabilidade do professor que usa as palavras para se fazer entender?"

[ENTRADAS] Sobre uma página de Marguerite Yourcenar

Como termina Golpe de Misericórdia

Entrou neste blogue o depoimento de Lídia Jorge:publicado no Jornal de Letras (1 de agosto de 2009) sobre a página final de um livro, um final que é um dos mais belos e surpreendentes da narrativa contemporânea.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Depoimento * Quanto a Maria Lúcia Lepecki

Versão integral autorizada
do texto editado no Público,
29 de julho de 2011

Nos livros, de mãos nuas

Lídia Jorge *
1.

Estava previsto que Maria Lúcia Lepecki, no passado dia um de Abril, comparecesse na Livraria Barata para apresentar um livro. Telefonou na própria tarde para dizer que não iria estar presente porque não queria descer as escadas. Foi-lhe lembrado que o encontro teria lugar no piso térreo, que não precisaria de descer escadas nenhumas. Maria Lúcia replicou – “Pois desculpa lá, é que também não as quero subir”. E assim ficou tudo explicado, através de uma elipse travessa, um arranjo de pura inteligência, conforme o seu modo muito próprio de dizer.

Ao fim da tarde, muitas pessoas vieram para ouvi-la, mas confrontadas com a sua ausência, também não foi preciso explicar-lhes nada para que o seu nome desencadeasse um aplauso prolongado até começarem a estremecer coisas mais fundas do que as palmas. Aliás, esse aplauso, invulgarmente comprido, acontecia no lugar certo – Entre estantes, risos, editores, professores, livreiros, amigos, e outras espécies afins. Quem tinha tido acesso à sua resposta sabia, porém, que a sua forma de dizer traduzia estoicismo, e atrás do estoicismo, o seu modo de mostrar que afinal continuava a ser uma pessoa nascida para a alegria. A alegria, só por uns momentos interrompida, supostamente separada pelo obstáculo de uma escada . De onde lhe vinha então aquela vontade de existir para a felicidade?

2.

No volumoso livro A Primazia do Texto, um conjunto de ensaios publicados em sua homenagem, que Petar Petrov e Marcelo G. Oliveira ainda tiveram ocasião de lhe mostrar para lhes testemunharem como era amada pelos seus pares, Beatriz Weigert , fazendo um balanço da sua última série de crónicas, “A Vida Íntima das Palavras”, dá particular atenção àqueles textos onde Maria Lúcia invoca a sua infância. No dizer da própria, essa infância fora tão rica que se acaso tivesse acontecido tudo aquilo de que se lembrava, teria durado pelo menos cinquenta anos. Então não é possível desligar a origem da sua alegria das vivências primordiais em Araxá, terra mineira, “lugar alto de onde primeiro se vê o sol”.

A contemplação exaltada perante as palavras também parece ter tido aí a origem – “As palavras bonitas entraram na minha vida muito cedo, sob a forma de nomes de lugares, de frutas, de árvores, de objectos. Mais tarde, descobri provirem muitas delas de línguas indígenas ou africanas”, escreveu Maria Lúcia. E mencionou o avô, o tacto da sua roupa, o sarro do cigarro de palha, o suor do cavalo, a preparação dos sentidos para em seguida atravessar o mundo. É possível que sim, que lá no ponto especial onde o temperamento se transforma em carácter e o carácter em personalidade, a origem em Araxá possa ter o seu peso de alegria e de sal. Weigert não faz essa extrapolação, não era o seu propósito. Mas, no dia de hoje, nada impede de juntar esses factos e transformá-los em causas. No momento em que nos deixa, bem podemos associar a alegria sobre o essencial com o impulso original que demonstrou na leitura que fez da Literatura dos autores brasileiros, africanos e portugueses. Porque não associar o seu encantamento pela vida à forma como se deixou seduzir pelos livros?

3.

Maria Lúcia deixa uma bibliografia avultada, e ensaios dispersos, crónicas, entrevistas, colaborações no Expresso, Diário de Notícias, Colóquio/Letras, Artes e Ideias, Estado de São Paulo, intervenções na rádio e na televisão, revelando-se em todos os meios uma figura originalíssima. Como crítica, em primeiro lugar, porque a sua escolha não parece ser feita por causas mas antes por afinidades de sentimento, muitas vezes por um fascínio a nível da pura expressão verbal, sobretudo quando julga encontrar num autor um saber submerso. Mas o aspecto que mais me toca é a sua capacidade de fazer ensaio, suportada por uma forte componente teórica, sem que dela faça alarde. Os seu textos sobre textos não parecem ter textos eruditos de permeio. Nessa arte da subtracção do suporte teórico, Maria Lúcia ganha uma leveza de interpretação, muitas vezes fora dos cânones, mas sem dúvida com uma particular dimensão de frescura. A impressão que se tem é que se trata apenas de uma leitora que mete as mãos nuas nos textos para deles fazer livros seus , sem vozes intermédias, nem ruídos.

4.

No entanto, Maria Lúcia Lepecki era uma erudita.

A alegria e a expansividade que a caracterizavam tinham um contraponto no recolhimento do estudo, em áreas como a Filosofia, a Teoria da Literatura, a Música, a Cosmografia ou a Religião, matérias de que falava com graça e naturalidade, transformando informação em acontecimento. Por vezes, mesmo, em divertimento. Mas esse recolhimento de semanas, meses consecutivos, levava-a a procurar uma outra totalidade que não fosse a da Literatura e da Poesia. Como vários dos seus colegas indirectamente fazem notar, em A Primazia do Texto, entre outros campos, ela era uma estudiosa da Bíblia, uma pessoa à procura de um elo poético que interpretasse o Mundo a partir dos livros do Antigo Testamento. Curioso que vivesse mesmo a linguagem bíblica na expressão coloquial corrente. Certa vez ouvi a Maria Lúcia dizer, referindo-se a um livro – “Senhor, eu não sou digna desta leitura…” Um excesso que nela não era excesso, era uma forma que se casava com a sua vivacidade onde a imagem ampliada tinha um estatuto de uma outra escala. Numa das epígrafes do seu livro “Sobreimpressões- Estudos de Literatura Portuguesa e Africana”, Maria Lúcia refere uma conversa mantida com o seu pai, em fins de 1974. O pai ter-lhe ia dito que ela já não escrevia em português, mas sim em critiquês. Ela teria respondido – “Perdoa, Pai, ainda não sei fazer de outro jeito.”

5.

Em A Primazia do Texto, três autores referem o Livro de Job, o livro da Bíblia preferido por Maria Lúcia, em sua homenagem. A um dos seus amigos mais íntimos, Maria Lúcia pediu por mail, alguns dias antes, que dele fosse lida uma passagem, numa ocasião muito especial. Chegada a ocasião, o filho de Maria Lúcia fez-lhe a vontade. André Lepecki leu em voz alta uma das mais sentidas interpelações de Job diante de Deus mudo. Estava certo, estava em conformidade com o dilema que a todos atinge, e terá atingido a sua mãe em particular, nos últimos tempos. Faltava, porém, alguma coisa que fizesse regressar Maria Lúcia à sua dimensão de encantamento pela beleza que tem a cor e o corporal. Sem ninguém estar à espera, essa celebração aconteceu por acaso.

Em dado momento da subida, juntámo-nos a uma família de Carmona, Uíge, que acompanhava um angolano, cujo carro subia adiante de nós. As primas do angolano, umas raparigas vestidas de amarelo, cortavam o silêncio do espaço com um ritual, cantado. Não se destinava a Maria Lúcia aquela expressão de saudade colorida, corporal, dramática, mas acabaria por ser. As primas do angolano perguntavam, dançando debaixo das árvores:

Você foi embora, você foi.
Com quem deixou os seus filhos?
Com quem foi?

6.

Maria Lúcia Lepecki foi-se embora, obrigando-nos de súbito a colocar frases no pretérito perfeito e a corrermos a fazer o balanço das palavras que não foram ditas, ainda sem sabermos em que direcção do seu rosto pronunciá-las. A perda começa por ser uma amputação no tempo e logo os verbos avariam e mudam de modo e de figura. Você foi embora, você foi. Talvez nos próximos dias comecemos a acomodar a sua ausência entre os livros que deixou, e a sua pessoa passe a ser uma realidade que atravesse o Tempo e se deite ao comprido sobre ele. Nessa altura, será possível usar um presente ilimitado, e um tratamento directo por você isto, você aquilo, essa forma de dizer o tu mais íntimo da língua portuguesa que Maria Lúcia Lepecki tanto amou.


Depoimento. Sobre Maria Lúcia Lepecki, in Público

Maria Lúcia Lepecki é evocada hoje, no diário Público, por Lídia Jorge. O texto não está online (acesso disponível apenas para assinantes, como se verifica pela chamada do jornal que se reproduz). Mas, dada a matéria, a oportunidae e a beleza desse texto, vamos tentar obter a permissão da autora, desde que não se fira os direitos do jornal.


    Nos livros, de mãos nuas


    Há quem a diga embaixadora do tropicalismo em Portugal. Estudou Camilo Castelo-Branco e levou para a academia a obra de Cardoso Pires. A escritora Lídia Jorge escreve sobre a ensaísta Maria Lúcia Lepecki, sua amiga. Diz que não é possível desligar a origem da sua alegria das vivências primordiais em Araxá, no Brasil, com o seu peso de alegria e de sal

    [ENTRADAS] Teses e dissertações

    Entraram mais 9 registos de Teses de Doutoraentos e Dissertações de Mestrados sobre a olbra literária de Lídia Jorge, na página autónoma Teses - clicar no botão em cima ou consultar  aqui

    quinta-feira, 28 de julho de 2011

    [ENTRADAS] Segredos de uma história

    Para um destinatário ignorado

    Entrou neste blogue o seguinte texto datado de Lídia Jorge:
    • Intervenção na Universidade de Maryland (4.° Congresso da American Portuguese Studies Association), em outubro de 2004,  ler  aqui

    [ENTRADAS] Teses e dissertações

    Deram entraram na página de Teses os registos de dez teses de doutoramentos e de dissertações de mestrados sobre a obra de Lídia Jorge. Contamos fazer muito em breve nova atualização da referida página.

    • Consultar no botão em cima, ou  aqui

    quarta-feira, 27 de julho de 2011

    [ENTRADAS] José Saramago

    A questão Saramago

    Deu entrada neste blogue, o depoimento de Lídia Jorge publicado no ABC (20 junho 2010) sobre José Saramago.

    • José Saramago Ler  aqui

    terça-feira, 26 de julho de 2011

    [ENTRADAS] A divisão logo na 1.ª Classe

    Os dois lados do mundo

    "Foi então que eu reparei que os pés dos meus colegas, em grande parte, estavam descalços. Vi os seus pés pousados no chão e percebi que a turma se dividia em duas metades – os que tinham e os que não tinham sapatos." Era a escola de Lídia Jorge, no seu tempo. Trata-se de um depoimento solicitado para a Exposição "O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge. 30 anos de Escrita Publicada", entre 11 de dezembro de 2010 e 31 de março de 2011, no Convento de Santo António dos Olivais, em Loulé. Aí foi colocado em mural.

    • Os dois lados do mundo. A entrada de hoje - ler  aqui

    Ensaio de leitura. Sumaya Machado Lima

    Artigo originalmente publicado na Revista Labirintos 
    (revista eletrónica do núcleo de estudos portugueses. 
    Universidade Estadual de Feira de Santana - Baía)

    Para abrir ampliado clicar no botão
    do canto superior direito

    Found at ebookbrowse.com

    segunda-feira, 25 de julho de 2011

    [ENTRADAS] Recordar Sophia

    Das nossas vidas,
    acerca do ensino em 2009
    e Theatrum mundi


    Além de registos nas páginas autónomas Teses (designadamente "O Desencanto Utópico ou o Juízo Final: um estudo comparado entre A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, e Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane" - tese de doutoramento de Debora Leite David (Universidade de São Paulo, 18 de março de 2011), e Crítica ("A Costa dos Murmúrios de Lídia Jorge - Inquietação Pós-Moderna", de Maria Manuela A. Lacerda Cabral, in Línguas e Literaturas - Revista da Faculdade de Letras da Universidade do PortoXIV, 1997, pp 265-287), deram hoje entrada neste blogue, os seguintes textos datados:
    1. Das nossas vidas, depoimento de Lídia Jorge sobre Sophia - ler  aqui
    2. Educação: os critérios da excelência, intervenção sobre  estado da ensino (2009) - ler → aqui
    3. Theatrum mundi, leitura crítica de Jorge Listopad sobre "O Dia dos Prodígios"- ler → aqui

    domingo, 24 de julho de 2011

    [ENTRADAS] Portugueses, Nomes do Mar

    Uma história de periferia

    Entrou neste blogue o texto de uma  intervenção de Lídia Jorge (Gulbenkian, 2006), sobre tema atualíssimo:
    • Uma história de periferia"Na verdade, para os portugueses, assumir que ao longo dos séculos se transformaram em Nomes do Mar, não significou apenas conviver, viver, presenciar, usar e cruzar o mar. Significou muito mais do que isso, significou sobretudo o seu oponente, um limite, uma fronteira real e concreta que a todo o momento foi necessário destronar para sobreviver" - Ler +   aqui

      sábado, 23 de julho de 2011

      [ENTRADAS] Um livro de estreia

      O Trompete de Miles Davis

      Entrou neste blogue o texto da apresentação, por Lídia Jorge, do livro de Francisco Duarte Azevedo, "O Trompete de Miles Davis". Ler → aqui

      sexta-feira, 22 de julho de 2011

      Prefácio * William Faulkner

      Para Sartoris
      Lídia Jorge *

      O livro que o leitor agora tem entre mãos é uma peça lendária e merece ser lido com o cuidado que dispensamos à decifração do início de uma galáxia. Quem considera a obra de William Faulkner como uma das mais emblemáticas do século XX, e se dedica minimamente a compreender a filigrana do seu percurso, não deixará de sublinhar este livro como o portal da grande obra que viria a alterar o modo de escrever, e de ler, das gerações futuras. O próprio Faulkner, ao terminar Sartoris a 29 de Setembro de 1927, dirigindo-se duas semanas depois ao seu editor, Horace Liveright, anunciava que tinha escrito o livro, THE BOOK, considerando que os dois livros anteriores, em relação a este terceiro romance, não passavam de pequenas crias. Aliás, confiante na sua descoberta, acabava mesmo por acrescentar que estava a oferecer ao editor, sem margem para dúvida, o melhor livro do ano.

      O seu editor, porém, não o entendeu assim, bem pelo contrário. Liveright recusou publicar esse livro que considerou difuso, sem intriga nem projecção, chegando ao ponto de acusar Faulkner de não ter nenhuma história para contar. O dactilograma de quase seiscentas páginas, que então apresentava o título de Flags in the Dust, acabaria por andar pelas secretárias de dez editoras diferentes, até chegar ao escritório da Harcourt & Brace. Ainda assim, para que fosse publicado mais de dois anos depois, o volume iria ser reduzido de um terço, e o título acabaria por subsidiar-se do nome de família dos seus protagonistas, Sartoris. A verdadeira responsabilidade de Faulkner nos cortes efectuados não ficou clara, nem tão pouco a iniciativa do novo título. E o romance, só publicado no último dia do ano de 1929, mesmo depois desse ajeitamento às conveniências do tempo, não conheceu qualquer boa fortuna. No entanto, o reconhecimento que a crítica e os leitores não lhe conferiam, ganhava-o o autor para si próprio, em privado, diante da sua máquina de escrever. William Faulkner mal tinha entrado na casa dos trinta anos, e enquanto todas essas vicissitudes ocorriam lá fora, em lume brando, na sua mesa de trabalho, confirmava para si próprio a sua originalidade como escritor, a lume forte. Por esses dias, iniciava-se mesmo o período mais fértil da sua carreira. Basta dizer que, entre Abril e Outubro de 1928, Faulkner escreveu O Som e a Fúria, entre Janeiro e Maio de 1929 redigia a primeira versão de Santuário, e mal corrigiu as provas de O Som e a Fúria, escreveu, em quarenta e sete dias, Enquanto Agonizo, seguindo-se-lhe Luz de Agosto. Cinco romances em quatro anos, todos eles na senda de Flags in the Dust/ Sartoris. Afinal, esse livro havia sido, como ele próprio tinha anunciado a Liveright, aquele que faria de si um verdadeiro escritor. E assim foi. Sartoris surge, na cronologia criativa do escritor do Mississipi, como a obra que inaugura o grande passo na aquisição das suas inconfundíveis marcas narrativas.

      Em Sartoris, Faulkner assume, pela primeira vez, que a sua matéria literária provém do território que se encontra sob os seus próprios pés. Os seus temas levantam-se do chão da sua terra natal ainda impregnada do cheiro a pólvora da Guerra Civil Americana de que foi palco. O seu pequeno canto, como chamou à região local, numa das cartas a Liveright, dá respiração a um mundo violento e racista, tenso e rude, supersticioso e brutal, o que lhe permite transformar a provinciana cidadezinha de Oxford na grande terra incógnita, carregada de sombras, mistérios e relâmpagos, que todo o escritor procura criar. Com Sartoris, Faulkner descobre que o seu pequeno canto poderia, afinal, ser escavado em profundidade até nele encontrar o sangue ainda vivo que corria nos subterrâneos das leiras do Mississipi e a partir dele criar um verdadeiro cosmos ficcional. É a primeira vez que o Condado de Yoknapatawpha surge, ainda com o nome de Yocona, a primeira vez que a temática das relações sem contemplação entre brancos e negros assume a espessura literária que se transformará num modo de cindir a realidade à luz da escrita. A sua própria experiência autobiográfica alarga-se à genealogia, e os mortos que se recusam a morrer formam famílias vagueantes carregando consigo o lenho da memória. Fantasmas do passado rondam o presente e essas visitas transformam-se em matéria de ficção. E como tal, surge o tempo psicológico, rememorativo, sincopado, cruzado, o tempo narrativo que se apresenta em ziguezague, originando faixas cronológicas interpoladas, um discurso listado, produzido sob o efeito dos sortilégios da memória. Ou por outras palavras, com este romance, assiste-se à inauguração da “técnica da desordem”, como depois dirá Sartre, e nada mais ficaria igual, nem para os leitores nem para os escritores que vieram a seguir. Aqueles que, ao tempo, ainda estivessem ligados a uma escrita de recorte tradicional, para entrarem nos meandros da acção, teriam de pedir uma cábula ou sentir-se-iam perdidos.

      Aliás, Sartoris, para quem continue alheio a esta forma, exigirá algum anteparo se acaso se pretender desvendar os atalhos que lhe abrem os caminho vários, logo a partir das primeiras páginas. Como em relação a muitos outros livros futuros do autor, não é fácil um leitor desprevenido perceber quando é quando, nem onde é onde. Por vezes, é mesmo necessário uma bússola especial para se identificar quem é quem. Em Sartoris, Faulkner inaugura a técnica da geminação de nomes de família, figuras sobreviventes, a maior parte delas provenientes de vidas passadas, e essas figuras vão e vêm, bandos de fantasmas distintos mas embrulhados em lençóis da mesma cor. Neste livro inaugural, o lendário general John Sartoris, que em vida criou os Caminhos de Ferro da região, e na morte tem uma estátua altiva no meio do cemitério, espalha com o braço levantado uma espécie de modo de ser muito próprio, marcando as gerações sucessivas com a força do seu temperamento arrogante e indómito. Mas não é só a sua história que regressa. Regressa a memória de seu irmão Bayard Sartoris, morto por fanfarronice durante a Guerra da Secessão, e regressa o protagonista Bayard, o filho de John Sartoris, denominado Bayard Velho, aquele que ainda está vivo, por altura da primeira página, e só morrerá a páginas tantas, por efeito da truculência suicidária do seu neto Bayard, irmão gémeo de Johnny, o que acabava de morrer nos céus de França, durante a Primeira Guerra Mundial, reproduzindo, mais de cinquenta anos volvidos, o destemor do seu tio-bisavô Bayard.

      Isto é, a principal acção de Sartoris desenrola-se ao longo de um ano, entre a Primavera de 1919 e a Primavera de 1920, mas a saga dos Sartoris, que inclui três John e quatro Bayard, entre eles dois pares de irmãos com os nomes cruzados, remonta aos anos sessenta do século XIX, recobre quatro gerações, e inicia-se com a apresentação de um cachimbo onde o patriarca deixou cravada a marca dos seus dentes. É assim que o bisavô, aquele “que tinha passado para lá da morte e depois voltado”, entra em acção, de modo a espalhar pela narrativa fora a tutela de um desejo irrequieto de glória que conduzirá à tragédia. Seja qual for a relação que se queira estabelecer entre as manobras do destino pessoal tão próprio de Faulkner, e a relação de ressentimento e culpa próprios dos domínios do Sul, marcados pela violência da escravatura e pelas peripécias da sua abolição, Sartoris, como em todos os outros seus grandes romances, não se confina às matérias passíveis de serem enunciadas. A escrita de Faulkner é a verdadeira substância da sua ficção, e por isso, a carta que Horace Liveright escreveu ao jovem autor, em 1927, acabaria por ser lida ao contrário. Curioso. O livro que o editor recusava encontrava-se, afinal, repleto daquilo que já então era a substância da modernidade. É esse livro brutal, premonitório, que aqui fica, assinalando um momento de explosão muito particular na História da Literatura. Mais do que isso, proporcionando ao leitor moderno o encontro com a matéria humana mais funda e mais viva, o desejo de ser, para além do tempo. É preciso não esquecer que Faulkner parte de Flags in the Dust para mergulhar na escrita de O Som e a Fúria, considerado por muitos, o livro mais influente de todo o século XX. Para todos os efeitos, Sartoris é a sua antecâmara. O seu brilhante ensaio. Por alguma razão, Faulkner aconselhava aos que ainda não tinham sido introduzidos na sua a obra a começarem, exactamente, por aqui, pela história deste último Bayard.
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      * Prefácio para "Sartoris" de William Faulkner
      (D. Quixote, julho de 2011)

      quinta-feira, 21 de julho de 2011

      [ENTRADAS] Projeto TEIA e acerca dos motards...

      O arco do amor
      e Cavalo de fogo


      Entraram neste blogue dois textos datados de Lídia Jorge:
      1. "O arco do amor", uma nota destinada ao Projeto TEIA do Teatro Nacional D.Maria II , na sessão de 14 de junho de 2011 (coordenação de leitura Ivo Canelas, com Dinarte Branco, Ivo Canelas, Margarida Cardeal e Rita Lello) - ler  aqui
      2. "Cavalo de fogo", um original publicado na revista Tempo Livre (março, 1993) e cujas fotocópias têm corrido por entre os motards - ler → aqui