quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Depoimento * Retratos da República

Sangue vermelho

Em Portugal, não mora nenhum rei.
O nosso sangue azul corre na constituição
Na noite da eleição, e na força que tem
A lei.

De resto, no coração dos portugueses
Todo o sangue é vermelho. E o progresso
Quando vier, há-de ser fruto de sua espuma
E seu conselho.

Lídia Jorge *
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* Publicado no álbum "Retratos da República",
de Veríssimo Dias e Ricardo Faria Paulino (agosto de 2010)

sábado, 7 de agosto de 2010

Depoimento * 14 substantivos e 1 verbo

15 conceitos

TENTAÇÃO – Segundo o Génesis, tudo começou nas faces de uma maçã. Uma engenhosa parábola para explicar que o interdito é a essência daquilo a que chamamos humanidade.

ESPELHO – Deve ser colocado à média luz, ou apresentar um grão de imperfeição como certos espelhos de Veneza. Distanciar a realidade do seu reflexo é o princípio da transfiguração e da beleza.

CRISE – Disse-me um economista que a única maneira de enfrentar a grande crise consiste em pensar que todos os dias uma crise nasce, todos os dias uma crise se encerra. Eficaz, mas faz tristeza.

LUTA – Pela amizade, enquanto os amigos perdurem. Pelas causas, enquanto os fins as justificam. Pela vida, até à morte, enquanto a vida for digna. Mas difícil, difícil, é estabelecer os limites.

DEFEITO – Entre defeito e virtude, não cabe um papel de seda. Grandes preguiçosos transformam-se em santos pacientes. Terríveis narcisos, em actores geniais. Alguns tiranos domésticos foram poderosos líderes.

INJUSTIÇA – Nascer-se súbdito, ter-se força para deixar de sê-lo, e não se possuir os meios. Ser-se súbdito involuntário do fanatismo, da ignorância, da má lei. Nada mais injusto do que essa vassalagem forçada vivida de olhos abertos.

POLÍTICA - Prostitutos da esperança, pelo menos de quatro em quatro anos, acreditamos que alguém irá fazer-nos bem. E pensar que é isto que nos salva de transformarmos a esperança em fé.

APRENDER – Aprender não é acumular. O que uma geração aprende a outra esquece. Na escolha do que não pode ser esquecido do passado reside a arte de fabricar o futuro.

SEGREDO – Cada um transporta consigo o segredo que merece. Mas, no mínimo, faremos parte do segredo do Mundo, esse alfabeto que resiste.

FAMÍLIA – Fala-se de laços de sangue, voz do sangue, afinidade consanguínea. Não gosto de sangue. Prefiro imaginar que a família é o espaço do nosso primeiro contrato social de entendimento.

AMOR – Palavra tão vasta que nela o sentido se afoga. Eu prefiro vê-la carregada de determinativos, circunstâncias, complementos. Amor próprio, amor-perfeito, pelo amor de Deus.

AVENTURA – O primeiro passo da criança, entre o berço e a porta. O último passo do velho, entre a porta e a cama. No intervalo, a viagem à volta da Terra ou o voo até às crateras da Lua.

NOITE – Quando o dia desiste, chega a sombra da noite. É nela que pensamos encontrar a alegria que a claridade não dá. Os industriais da noite conhecem essa nossa adolescência.

UTOPIA – Pobre Thomas More. O rei fez-lhe aquela maldade. E assim o seu caso deixou um forte aviso – O de que não há utopias grátis. Não se pode acreditar em sonhos de sofá.

FIM – Estamos a falar da circunferência. Se essa figura geométrica for verdade, o fim e o princípio estão unidos. Mas, entre o desejo e a prova, há muito mais do que um diâmetro.

Lídia Jorge *
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* Na rubrica Palavra Puxa Palavra (Expresso | Única, 7 de agosto de 2010)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Nota * Ajudar uma criança a ser autor

Para o livro dos alunos

Lídia Jorge *

Tudo parece ter acontecido esta manhã, mas não é verdade. Aconteceu quando eu era pequena e na minha escola se ensinava a ler mas não propriamente a ler livros. Também as redacções que então eram pedidas aos alunos destinavam-se sobretudo a disciplinar a letra e a organizar a sabedoria, mas ninguém nos ensinava a escrever textos saídos da nossa imaginação. Assim, eu chegava à escola e a professora pedia – “Escrevam, por favor, uma redacção intitulada O Cavalo, já sabem como é…” E nós sabíamos. Começávamos todos por escrever que era um animal doméstico pelo facto de viver junto do homem. Depois acrescentávamos que era quadrúpede, que tinha o corpo coberto de pêlos, que a sua voz era o relincho, que servia para puxar carroças e também para andar à volta nos circos. E logo terminávamos escrevendo que ele era um animal muito útil, e que não se deveria fazer nenhuma travessura àquele animal. Assim, num mínimo de sete linhas, um máximo de dez. Redacção após redacção, sempre o mesmo, sempre igual, o que não era muito estimulante, não. Duvido que deste modo alguém pudesse ter-se feito escritor.

Mas eu tive muita sorte. Na casa dos meus avós havia livros, e de noite, ao serão, era hábito uma pessoa da família ler em voz alta para as outras pessoas ouvirem. Ora sucedeu que eu comecei a ler muito cedo, e aí por volta dos oito anos, passei a ter a meu cargo parte dessa leitura. Eram livros para adultos, histórias de vidas muito dramáticas como então se usava, amantes que se desentendiam e se matavam, primos que queriam casar com primas e não conseguiam, namorados que os pais não aceitavam e abalavam para sempre, amantes que se desentendiam, filhos que os pais abandonavam dentro dos berços, e assim por diante. Escusado será dizer que eu não lia os livros completos, só lia umas páginas, e algumas palavras mais difíceis apenas as soletrava, mas apercebia-me muito bem daquele clima pesado, e de noite quando ia para a cama não conseguia dormir, pensando que a vida dos adultos era demasiado complicada, que eu mesma não gostaria de crescer. A dada altura, porém, encontrei forma de ultrapassar a situação - Era verdade que na escola eu tinha de escrever sobre as propriedades da água, do vinho, do boi, das plantas, da pesca e do Mar dos Navegantes? Pois bem, mal acabava de me desembaraçar dessa tarefa, num caderno à parte, eu escrevia frases a meu gosto de modo a fazer as personagens dos livros dos adultos mudarem de vida. As histórias da noite não podiam ficar assim. Nos meus cadernos, os filhos encontravam os pais, os amantes casavam com quem queriam, eu não deixava os assassinos entrarem para a prisão se acaso gostava deles, e metia-os numa masmorra bem funda se eram uns patifes sem remédio. Quantas vezes as crianças órfãs das histórias que eu lia aos serões em voz alta, eu não as fiz serem visitadas pelos pais, de surpresa, na noite de Natal! Chegavam embuçados, retiravam o disfarce e diziam – “Sou eu, aqui estou, venho de muito longe, meus filhos!” E claro que para enfeitar essas noites, eu descrevia a neve que nunca tinha visto, e o céu estrelado que eu via muito bem mas ao qual acrescentava outras estrelas. Então foi assim que eu comecei, sozinha, a inventar um mundo para substituir aquele que outros tinham inventado antes de mim. Praticamente sozinha, sem ajuda de ninguém.

Por isso mesmo eu imagino como será bom ser-se aluno desta escola, poder em cada manhã sentar-se a pessoa nos bancos da sala de aula, abrir os cadernos e encontrar professores capazes de lhe ensinar a ler os livros próprios para a sua idade e sua imaginação, professores capazes de ajudar a colocar as palavras certas nos locais exactos das frases que estão inventando. Professores e pais que sabem que ajudar uma criança a ser autor equivale a ensinar a pessoa a ser dona da sua própria vida, e esse é um presente para sempre.
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* Nota para livro infanto-juvenil (2010)

domingo, 1 de agosto de 2010

Depoimento * Ali dentro o mundo é outro

Como escrevo

Lídia Jorge *

Como se escreve é muito diferente de como se gostaria de escrever. Sonho com um espaço ideal. Um quarto de hotel, uma mesa bem iluminada, um bloco de papel, um computador portátil. Ninguém sabe que me encontro por ali. Os telefones não tocam, a refeição é tomada no primeiro andar. Pode chover lá fora, fazer vento ou fazer sol, ali dentro o mundo é outro. Posso mesmo nem olhar para o tempo que faz lá fora. O que interessa é a paisagem que está invisível. As figuras estão dentro da cabeça que são muitas, não é preciso que alguém apareça. Se a empregada quiser arrumar o quarto, eu vou pedir que fique para outro dia. Nada de música, nada de ruído. Mesmo o aspirador, tão necessário, pode ir sorver poeira para outro lado.

Então, agora, sim. Primeiro no papel, que pode ser o bloco do hotel ou um caderno qualquer. O que é necessário é que seja uma folha em branco. Ali estão as primeiras linhas, um primeiro esboço, os primeiros nomes. Duas ou três experiências, duas ou três hipóteses de abertura. Coisa assim – “O restaurante floresceu quando o cozinheiro começou a servir gato…” Ou assim - “ Quando os gatos das redondezas começaram a desaparecer ninguém deu por nada…” É preciso compreender as diferenças, imaginar as implicações. Primeiro o desaparecimento dos animais, ou devo eu metê-los de imediato dentro do prato? Deve-se tentar primeiro de uma forma, depois de outra. Tudo isto se passa entre a cabeça e o papel. Tentativa para aqui, tentativa para ali. Muitos riscos. Quando a sintaxe começa a ter alguma estrutura, é o momento de abrir o computador, engatá-lo à corrente, abrir um arquivo, atribuir-lhe um nome, dar um título ao conto, e recomeçar a vida. Aquela vida. Desta vez, calhou ser um restaurante que servia gato em vez de coelho. Mas não conto o desfecho. Meia noite em ponto. Ainda estará alguém, lá em baixo, no bar do hotel, que sirva uma sanduíche ou um bolo? Se a coisa correu bem, uma taça de champanhe?
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* Publicado na revista Time Out (1 de agosto de 2010)