domingo, 20 de junho de 2010

Depoimento * "O início mágico de Era uma vez"

José Saramago

Lídia Jorge *

José Saramago parte, deixando uma obra a todos os níveis notável. Se a Literatura Portuguesa é considerada como sendo, em geral, demasiado regional e de expressão demasiado complexa, o nosso único Nobel da Literatura foi capaz de assumir o paradoxo de aprofundar essas mesmas características, ao mesmo tempo que tornou a sua obra universal.

As suas metáforas sobre o lugar de Portugal e da Península Ibérica sempre alargaram-se ao mundo. A questão da fraternidade nunca foi, nos livros de Saramago, apenas sociológica, sempre foi ontológica. A questão do desentendimento entre homens sempre foi uma questão mais do que de política , sempre teve a ver com a natureza da Criação e do Criador. E essa questão que tinha a ver com as suas convicções profundas de que seríamos seres errados neste mundo, espelhou-se na sua vida cívica, em relação à qual nunca alimentou equívocos. Sempre foi claro, sempre defendeu um ideal e um ideário precisos, sendo fiel a um projecto que a História derrubou, mas onde Saramago sempre viu, até ao fim, virtualidades que em seu entender melhorariam as condições de vida dos homens. Nesse aspecto, José Saramago foi pouco português, porque sempre se soube expor, e foi pouco moderno, porque nunca negociou. Mas se houve quem o detestasse, foi por saber que era infinitamente amado e admirado por um vastíssimo público, e que uma palavra sua sobre determinado assunto, jamais seria inóqua. Algumas das suas opiniões fizeram estremecer instituições, governos, países e culturas. Nunca se poderá, porém, dizer que Saramago era um provocador gratuito, ou que procurava o conflito pelo conflito para se celebrizar. Entendo que não. De tantas horas passadas em conjunto, sempre me pareceu que as sua opiniões eram emitidas pela força da sua convicção e ideia da possibilidade de, através dela, ajudar a mudar o mundo. Mesmo no final, quando já achava que essa possibilidade era vaga.

Mas a grande proeza do Saramago foi ter transformado toda essa matéria contundente, que poderia bem ser matéria de ensaio, em narrativas contadas com desenvoltura e fantasia, graça e exemplaridade, que a todos atingem. Ler Saramago é entrar no domínio da transfiguração, da fantasia e da beleza, em livros que encerram todos eles o início mágico de Era uma vez. Aliás, a razão da escolha apresentada pela académico sueco, porta-voz do júri, aquando da entrega do Nobel a José Saramago, foi precisamente essa, e continua a ser válida até ao fim – O facto de se estar presente um escritor que sendo igual a si mesmo nunca se repete de livro para livro. Em todos cria um universo próprio, põe -no à prova, fá-lo estremecer nos seus alicerces e deslinda-o diante dos nossos olhos. Foi assim desde O Memorial do Convento até ao quase derradeiro A Viagem do Elefante, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, ou O Evangelho Segundo Jesus Cristo. O mesmo gosto por interpelar o sentido da História, o sentido da vida e do amor, através de efabulações poderosas e frescas como se em José Saramago existisse um eterno adolescente, ávido de actos e palavras. Um adolescente que desejou experimentar outra gramática para a sua língua e conseguiu-o. Experimentar uma outra poética narrativa e conseguiu-o. Um outro olhar sobre o mundo contemporâneo e conseguiu-o.

Sobre o sentido da vida, gostava José Saramago de utilizar a expressão barroca do nascer é morrer. Ela não acreditava no oposto, de que morrer é nascer. Combateu essa ida com todas as suas forças, até à última página do seu último livro-libelo, Caim. Mas existe uma outra forma de entender este dia em que nos deixa, juntando-lhe algum sentido da metafísica possível, compatível com o seu ideário. A ideia de que nascer e morrer pode significar continuar. Hoje, nada de importante do grande artista e homem belicoso que foi desapareceu. Nos seus livros, cuja pilha acumulada sobre a secretária é tão alta que tomba para o lado, esse adolescente aventureiro que foi José Saramago, a partir de hoje, pura e simplesmente, existe como página.
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* Texto publicado no ABC, 20 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

Depoimento * Moeda de oiro que a pintura pode dar

Armanda Pássaros

Lídia Jorge *

Segundo a pintura de Armanda Passos, o Mundo é um pássaro.

Na ordem natural das espécies, o pássaro descende do réptil e antecede o mamífero. De entre os mamíferos, segundo as lendas, num dia iluminado por um lindo relâmpago azul, nascemos nós. Teremos sido nós, então, movidos por essa outra luz, quem nomeou o céu, a terra e todas as coisas que nos cercam. E entre elas, o pássaro, porque voa, foi nomeado como o nosso parente mais próximo, emprestando a sua forma ao anjo. Bela invenção. Ela significa que, para nos sentirmos honrados com a nossa condição, precisamos de encontrar um lugar imaterial para o nosso nascimento. Significa que nos recusamos a entroncar-nos na linha directa da sucessão dos animais.

Mas os artistas mergulham com naturalidade nesse lugar onde fomos tudo e somos ainda a amostra de todas as coisas. Os grandes artistas não têm medo de enfrentar o lugar da carne antiga, da cabeça com vários olhos, ou o resto da nossa língua bífida, nem evitam o diálogo com os habitantes da lama e os habitantes das árvores. Os artistas sabem ir ao encontro desse terror e ao mesmo tempo dessa sublimação que nos faz pertencer a uma outra totalidade. O grande artista diz aos outros – Vejam como eu, todas as noites, me encontro com o impronunciável. Convido-vos a vir também. Foi essa viagem que, durante vários anos, eu aceitei fazer através de um quadro da Armanda Passos.

Era apenas um bando de pássaros que me levava para esse lugar onde as coisas estremecem. E era bom. O poético, no dizer de Arthur Koestler é o olhar que decompõe a realidade nos seus fragmentos, de modo a mostrar as arestas do original. Por isso mesmo o poético corresponde à interrogação que se faz depois das grandes surpresas, as grandes alegrias ou as grandes catástrofes. Era esse olhar poético que me dava o seu quadro, e alguma coisa estremecia, a partir do local onde se encontrava o quadro da Armanda Passos.

Não sei que lugar ocupará na História de Arte a obra de Armanda Passos, pois a História de todas as coisas parece ser agora um círculo em que tudo é mostrado e visto em simultâneo, a maior parte das vezes, sem uma única legenda. Não sei o que o futuro dirá. Sei apenas o seu contrário. Que as figuras de Armanda Passos contam uma viagem aérea que vale a pena manter por perto. Esta pintora tem o dom do desenho, da cor, da interpretação, e o supremo dom da transfiguração, uma integridade absoluta como acontece com os grandes criadores. Não sei o que a História de Arte dirá. Sei que vale a pena ter as suas representações por perto para embelezar o nosso quotidiano e não sermos pessoas banais. Armanda Passos pertence à galeria dos artistas que escrevem a sua própria e inconfundível arte poética. E isso, para os atentos, é a mais importante das moedas de oiro que a pintura pode dar.
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* Texto para catálogo da pintora (6 de junho de 2010)