quinta-feira, 21 de maio de 2009

Original * Um símbolo


Gafanhoto

Lídia Jorge

Vem, pequeno gafanhoto, pousa as tuas patas sobre a brancura desta folha e mostra a tua natureza diante dos meus olhos. Mantém-te quieto enquanto duram estas breves linhas para que eu te conheça de perto, melhor do que ninguém. Sei que ao mudarmos de língua, tu mesmo mudas de sexo. Na minha língua és macho, e o teu nome traz consigo uma maldição, pois gafanhoto lembra aquele que traz a gafa, a miséria e a doença, enquanto que em francês assumes a forma de um belo nome que salta, e és fêmea. Não importa, atravessas a tradução, e ficas com outra ressonância, mas para mim, tu serás sempre aquele que me leva pela mão até às regiões do desconhecido. Somos um casal perfeito, e da minha fidelidade, não tens de que te queixar.

Outros te reduziram à dimensão da iniquidade e do desmazelo. Não deves dar o teu perdão a Nathanael West, autor de “O Dia do Gafanhoto”, nem ao realizador John Schlesinger, muito menos a Winston Churchill que te associou aos tristes dias da vacuidade. Para não falar das pragas do Egipto, do anjo do Apocalipse, ou de São João Baptista, esse anoréctico que se alimentava dos teus irmãos untados com um pouco de mel. E tu, frágil, mudo, airoso, sempre cumpriste o teu destino, avançando pela História fora, sem te importares com a maldição. Mas ao contrário de todos os que te amaldiçoaram, bem sabes como sempre te tratei bem desde que, na infância, te descobri. Como te entreguei a minha mão, como corremos os dois por entre os colmos de trigo, como te capturei dentro de caixas de fósforos, como te desenhei e te amei. Bem sabes como ocupaste o frontispício de um dos meus livros, e aí te elevei ao lugar de rei. Bem sabes como aí te multipliquei por biliões, e deles fiz grandes nuvens que voaram por cima das cidades de África. Tão espessas que nelas tu te fizeste verde, e tudo ficou verde, incluindo a luz dos candeeiros em torno do quais vocês rodopiaram como esmeraldas voadoras. Não tens de que te queixar. Mas eis que chegou a hora de me recompensares. Chegou o momento de me dizeres para que lado deve voar a nuvem de que faço parte. Eu queria escrever esse recado no frontispício da minha autobiografia, e só tu o sabes, querido gafanhoto do deserto, só tu me podes dizer a verdade.
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* Publicado por Lexique Nomade n.° 2
(co-edição Le Monde/Villa Gillet/éditions Christian Bourgois
 - maio de 2009

terça-feira, 19 de maio de 2009

Apresentação * Guilherme d’Oliveira Martins

Um Texto Pacifista

Lídia Jorge *

1.

No território da ficção, é habitual perscrutarem-se as imagens que estão na origem dos textos, os motores afectivos iniciais, aquelas primeiras cenas carregadas de promessa que são o embrião e o motor da escrita e da fantasia. Muitos gostariam de saber que imagens terão desencadeado “O Principezinho”, ou que motivo terá estado subjacente à criação de Mrs. Dalloway”, e um verdadeiro interesse por esse tipo de relação genética com o material que pré-existe até chega a assumir a forma duma disciplina. Mas já não é usual que o mesmo aconteça a propósito do ensaio.

A propósito do ensaio, pensa-se antes na coerência das ideias, nos enlaces de natureza intelectual e cognitiva, na forma de encadear as partes da reflexão. Neste campo, parte-se do pressuposto de que as imagens promotoras da escrita, as que estão carregadas de afecto, encontram-se submersas na corporização das próprias ideias. No caso de “Património, Herança e Memória”, porém, o autor dá a conhecer, com simplicidade, quais os motivos pessoais e emocionais que estiveram na origem deste seu volume de reflexões e deixa entrever como essa motivação configura a própria dinâmica do volume, assumindo por inteiro a matriz biográfica destas suas reflexões. Guilherme d’Oliveira Martins refere expressamente o seu envolvimento, determinante e directo, com a concretização da Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o Património cultural na Sociedade Contemporânea, assinado em 2005, e atribui importância afectiva ao facto de esse documento ter sido aprovado na cidade de Faro, cidade a que se sente particularmente ligado pela sua relação familiar com o Algarve. Em terceiro lugar, mas não de somenos, associa a imagem da sua mãe, nascida em Boliqueime, e à qual todo este livro parece estar ligado, ao impulso da sua escrita e à organização que o explicam. Assumida e deliberadamente, o patrimonial ganha nestas páginas um valor essencialmente mátria-monial, e uma homenagem de família encontra, no campo da recordação, o impulso para a revisitação histórica, ilustrando na prática aquilo que a defesa doutrinal da memória defende, no domínio dos princípios.

O que quer dizer que, nesse aspecto, “Património, Herança e Memória” só confirma como o ensaísmo não é uma disciplina isolada da confissão e do particular. O próprio Montaigne, criador do género, elaborou uma série de requisitos para que um texto pudesse ser designado desse modo, tendo sublinhado entre outras exigências, a necessidade de que o ensaio revelasse originalidade e faculdade de pensamento livre, mas também reflectisse experiências próprias, aquilo a que designou como “o saber que destila da vida”. Oliveira Martins apenas tomou estes requisitos à letra e o resultado é um texto habilmente híbrido, um livro de reflexões cativante, uma reflexão que instrui mas não cansa, pois embora partindo duma área especializada bem concreta, este livro mantém a marca da subjectividade pessoal muito presente. E por isso, “Património, Herança e Memória”, um texto de leitura fácil e útil, tem tudo para poder vir a ser uma obra de ampla divulgação junto do público em geral.

2.

Até pelo facto de que, sendo um livro do qual ressalta uma vasta erudição, não é um livro erudito, nem a sua estrutura é complexa. Pelo contrário, trata-se de um texto híbrido constituído por três partes, dando-se o caso de que a primeira peça não se encontra no início, mas no fim. É o texto da própria Convenção-Quadro, o instrumento legislativo a partir do qual, de forma mais próxima ou mais longínqua, todos estes textos de reflexão se associam. O documento vem reproduzido em Português e em Inglês e assinala que é em seu torno que todas estas considerações se desenham. Um diploma que é o culminar de uma reflexão desenvolvida a nível do Conselho Europeu desde os anos 70, como lembra o seu autor. Uma espécie de epígrafe-remate final que ilustra e conclui A Abrir, o breve texto da introdução.

A segunda parte decorre entre os capítulos 1 a 4, e constitui uma espécie de instrumento teórico sobre o assunto. No corpo destes quatro capítulos, entrelaçam-se os temas do Património que conduzem à desmistificação de ideias feitas, ideias comuns que ao longo de décadas têm vindo a equivocar o processo de modernização das sociedades, como seja a oposição artificial entre Património histórico e Criação contemporânea, a falsa oposição entre Património material e imaterial, entre herança e criação, entre herança e modernidade. Do mesmo modo que desfaz a ideia de que o conhecimento entre povos seja, por si só, um factor de entendimento, uma mística que pode ser desmantelada tendo em conta alguns casos vivíssimos que o negam, como sucede actualmente nos Balcãs. Assim como combate o princípio corrente de que homogeneizar é modernizar. Guilherme d’Oliveira Martins desfaz sobretudo o mito de que o Património é uma despesa, para demonstrar como esse campo é um factor de desenvolvimento, uma fonte de receita, rentável em todos os sentidos. Ao longo destes quatro longos capítulos, o autor demonstra como a Europa é plural, e deve continuar a ser plural, através da assumpção plena das suas várias pertenças.

Fá-lo com recurso a Santo Agostinho, a vários outros pensadores e filósofos, como erudito eclético que é. Num movimento doutrinário de inclusão, desenvolve a sua demonstração em círculos concêntricos, mantendo como balizas de referência em torno do Património, o sentido da memória, da utopia, da paz, dos valores, do compromisso cívico com os outros de que a herança edificada e a herança imaterial são um outro gémeo de nós. Nesse sentimento de respeito por uma globalidade da actividade humana, Maria Zambrano é uma referência capital para Guilherme d’Oliveira Martins, mas ainda que o próprio não refira, vê-se que T.S. Eliot também não está esquecido, sobretudo quando desenvolve conceitos e pragmáticas em torno duma espécie de espiritualidades paralelas que tenta conciliar. E daí decorrente, o autor de “Património, Herança e Memória” propõe uma tentativa de harmonização neste mundo, afastando a conflitualidade e defendendo o entendimento pela doutrina da coexistência e da aproximação. Aproximação que abarca os próprios tempos transpessoais, relativizando-nos na História. Jorge de Sena, é invocado precisamente para através da sua voz se lembrar que “Sempre somos os primitivos de quem virá depois de nós”. E talvez por isso, estes ensaios, à medida que se vão sucedendo, vão ganhado, gradualmente, uma carácter cada vez mais conciliador. Um carácter deliberadamente pacífico. A propósito das controversas questões de liberdade, cidadania e lembrança, escreverá o autor, na página 118 , na senda de Tzevan Todorov, que “Os assuntos da memória não podem ficar, por isso, entregues ao zelo do ódio”.

3.

Mas talvez a parte mais singular deste livro seja o próprio Capítulo 5., o mais dispersivo, aquele que se refere ao Património como uma entidade viva, ou “pedras vivas”, recorrendo a Rabelais para quem, eloquentemente, “Os mortos já foram vivos”. Trata-se de um conjunto de doze textos escritos para serem proferidos em situações particulares, unidos pelo facto de todas essas circunstância se relacionarem com factos de Cultura. Entre eles, encontram-se textos de evocação, como são aqueles que dirige a Eduardo Prado Coelho e a Alçada Baptista, revisitações ao pensamento de pensadores e filósofos como Eduardo Lourenço, poetas como Pessoa. São doze textos em que a Língua, a Literatura, o Leitura, a Consciência Histórica, se transformam em varandas da Cultura e pontos de partida para o entendimento da nossa “identidade”, os motivos da “nossa “entidade”, os ingredientes da nossa natureza cultural, para a reflexão sobre a nossa “decadência, o nosso estado presente e o nosso estado futuro”, numa perspectiva conciliadora, própria de quem sempre encontra caminhos de superação num mundo que nunca considera irremediavelmente degradado.

Por isso mesmo, a fechar este conjunto de textos breves, o décimo terceiro ocupa um lugar muito próprio. Intitula-se “O Culto do Algarve – Um testemunho” e merece especial atenção.

É sabido como o Algarve, hoje em dia, é uma região apontada como um espaço de dissidência, um local de destruição do património cultural cujo desalinho se tornou simbólico em relação à globalidade do país. E Guilherme d’Oliveira Martins reconhece esse estado de vulnerabilidade da região, mas não faz dele o seu cavalo de batalha. Não entra no campo da contestação. Pelo contrário, associando o Algarve à sua mãe, prefere retomar os poetas áticos como António Ramos Rosa, Sophia, Torga, ou Teixeira Gomes, e escolhe da História, da Geografia, e da poesia contemporânea, sobretudo as paisagens exteriores e interiores mais pacíficas, os “lugares” da alma do Sul, para exemplificar, descrever, puxar pelo brio, de uma espécie de Pátria dentro da Pátria, de que exalta especiais qualidades. Eu diria que o autor de “Património, Herança e Memória”, neste seu mais recente livro, define-se a si mesmo como alguém que vive em simultâneo no centro de várias pátrias. São elas, por ordem decrescente de dimensão espacial, e ordem crescente na dimensão emocional, a Europa, Portugal, o Algarve, e Boliqueime, ou a casa natal da sua mãe.

4.

Neste livro de ensaios, esta pequena povoação ao Sul é assim a quarta pátria para Guilherme de Oliveira Martins. Ou a primeira, a mais próxima, a que se confunde com o rosto da sua mãe ausente e os lugares da sua infância. Mas acresce que as razões pelas quais se lhe refere também poderão ser de outra natureza.

Convém dizer que Boliqueime se transformou, ultimamente, numa povoação cuja semântica se tornou delicada, motivo duma referência especulativa de ressonância politiqueira. Em torno de Boliqueime geram-se lendas, difamações, referências pouco abonatórias repletas de preconceito de classe. Calculo que esse seja o segundo motivo pelo qual o autor destes ensaios mergulha na particularidade, desmontando toda uma série de preconceitos, descrevendo positivamente a sua povoação, recuperando-a em dignidade, mostrando como sempre esteve a par dos acontecimentos, inscrevendo-a no mapa, conferindo-lhe respeitabilidade, explicando a origem do seu nome arrevesado, falando da sua História e do seu carácter. Sob a aparência de um texto informativo, as páginas que lhe são dedicadas vêm em socorro da terra, e acabam por devolver o bom nome aos seus naturais e habitantes, tratando-a como uma verdadeira “pedra viva” merecedora de consideração. Trata-se duma estratégia pacífica, própria do temperamento pessoal e do registo biográfico do seu autor. Quem esperasse uma defesa ressentida daquela que é a sua quarta pátria, a primeira, em seu lugar encontrará uma invocação serena das figuras que constituem uma memória a preservar. Em vez de acusação, terá a surpresa de encontrar o inventário do que sobeja, como ilustração de um princípio de memória. Guilherme d’Oliveira Martins aplica na descrição da sua povoação – e que por coincidência também é a minha - o método que usa em relação à herança patrimonial na generalidade.

Ou por outras palavras, ao longo deste livro, a pessoa cívica e política que é Guilherme d’Oliveira Martins não se deixa invadir pelo espírito da contenda. Pelo contrário, este livro é atravessado por uma atitude pragmática de construção. E assim, “Património, Herança e Memória”, para além dum ensaio, resulta sobretudo numa proposta de resistência, numa espécie de carta de conduta para continuar a ter esperança no mundo. Uma carta de sobrevivência dirigida a um país cultural que o seu autor sabe que está dilacerado em algumas das suas frentes, mas a que deseja emprestar o seu ânimo cívico activo, em forma de manifesto pacifista.
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* Texto da apresentação
 de “Património, Herança e Memória: A cultura como criação”,
 de Guilherme d’Oliveira Martins
Colecção Trajectos Portugueses, n.º 78, Gradiva, (2009)