quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Apresentação * Gonçalo M. Tavares

Poderoso criador de fábulas

Lídia Jorge *

“Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos trinta e cinco anos: dá vontade de lhe bater” – Foi com estas palavras que José Saramago, em 2005, saudou o autor do romance Jerusalém ao entregar-lhe o prémio criado com o seu nome para os jovens escritores de todo o espaço lusófono. Passados três anos, os motivos de reconhecimento do seu talento acumulam-se, e hoje, para além de ter recebido alguns dos prémios importantes da Língua Portuguesa, Gonçalo M. Tavares captou um vasto público, e os seus livros começam a ser traduzidos e publicados um pouco por toda a parte.

Mais importante do que isso, a sua obra cresce a uma velocidade surpreendente, e aos quarenta e oito anos este escritor apresenta nas resenhas bio-bibliográficas um volume de títulos que muitos escritores não vislumbram aos cinquenta. Além de que parte da sua obra é inclassificável, e a outra distribui-se entre a poesia, o teatro e a ficção, revelando quase sempre extrema originalidade e grande coerência. Ironia à parte, em Portugal, ninguém tem a mínima vontade de lhe bater, antes pelo contrário - É que Gonçalo M. Tavares, para além de pertencer ao grupo dos escritores compulsivos, tem vindo a revelar-se um singular efabulador, cujo equilíbrio entre a sensação de estranheza que provoca, e a inscrição em mundos conhecidos que oferece, permite que entre na intimidade dos leitores como um companheiro que se torna indispensável. Eu defini-lo-ia como um poderoso criador de fábulas, um criador de contos concêntricos, em que a reprodução do real, próprio da ficção comum, foi substituída pela narrativa simbólica própria das parábolas.

Ou seja - Abrir os seus livros é ir ao encontro de figuras que parecem sair do interior da Terra, ou criaturas aéreas que de súbito pousam no nosso espaço, vagueando à nossa volta de propósito para nos mostrarem um desígnio de entendimento que falta – São figuras proféticas, amantes, loucos, pacientes, pobres condenados, pedintes, prostitutas, médicos em prova consigo mesmos, escritores suspensos no tempo, criaturas que parecendo num primeiro momento não ser deste mundo, em breve nelas reconhecemos o rosto dos vários indivíduos que nos habitam em silêncio, a ponto de toda essa corporação de alienígenas se transformar em seres e vozes familiares. Essa é a principal proeza dos livros de Gonçalo M. Tavares, a criação de um fascínio em torno de destinos inventados para ilustrar o nosso confronto com os limites do ser, em que a busca da grande dissenção, que é a presença do Mal, se confunde com a descrição da dor, ou do medo, ou da indiferença, ou da arbitrariedade, ainda que no plano da efabulação essas personagens sejam convocadas apenas para mostrar acções e reacções perante a narrativa da existência, não para demonstrar os sentidos que delas se podem deduzir. Talvez por isso mesmo, os seus livros – a uma sequência deles o autor designa por Livros Negros – deixem no final um rasto de impotência relevante para quem procura na ficção uma forma fácil de conserto com o mundo. Mas quem, para além desse lugar de tranquilidade, procura nos livros a tangência com o surpreendente que provém do escondido e só se revela pela fábula, encontra em Gonçalo M. Tavares um autor que vai ser um mestre, se é que já o não é.

Pelo que fica dito se deduz que se trata de um escritor que anda nas faldas dos grandes escritores centro-europeus do século XX, como Kafka, Musil ou Kundera, e também Calvino e também Borges, com acentos bíblicos e rumores de Dante. No entanto, não se trata de um simples visitador de textos de outros, mas de um verdadeiro inventor de textos seus. Um escritor sem inscrição na tradição portuguesa, dirão alguns. Não importa - Gonçalo M. Tavares pertence a uma geração que pode fazer do mundo a sua casa, não só por princípio mas por concessão da nova Geografia da mobilidade, e cada vez são mais os artistas que reivindicam o princípio do Globo acima das pátrias, e o problema do homem como espécie, acima do cidadão. Nesse aspecto, Gonçalo M. Tavares é um escritor da sua geração. Mas onde ele se torna subversivo e parece ser singular é no eixo que traça entre a parábola do homem moderno, definido por novas realidades, e a poesia que sobre elas é capaz de criar com a sua escrita enxuta, pronta a entrar com facilidade para o interior de outras línguas e aí permanecer facilmente com a mesma luminosidade.

Onde se revela verdadeiramente original é na profundidade da observação através da qual atribui osso e carne às situações reais, e os comportamentos primitivos aparecem inteiros e vivos diante do leitor, como numa radiografia ao tórax. O início do seu livro Aprender a rezar na Era da Técnica pode servir de exemplo – Sob o signo da crueldade do pai, o adolescente Lenz aprende a servir-se duma mulher e treina-se na arte de caçar, regras que bem incorporadas lhe servem de base para ler todos os movimentos da vida enquanto actos de guerra. É assim que Lenz, por exemplo, irá interpretar os movimentos das pessoas alinhadas numa fila para tomar café, a partir do ponto de vista do caçador. Escreve o autor – “Ao deixar passar o outro à frente, um homem não estava a aceitar ser segundo mas sim a preparar o mapa do terreno para controlar visualmente o homem que por instantes se julgava em primeiro lugar. A vantagem de alguém estar à nossa frente, dissera uma vez o pai de Lenz, é estar de costas viradas para nós”. O que queria dizer que passar à frente, por delicadeza do outro, se transforma num acto de capitulação, pois significa oferecer a nuca desamparada ao caçador que vigia.

É este o tipo de subversão do olhar que propõe Gonçalo, colocando-se ao lado da natureza humana, por dentro da natureza humana, através da construção poética. Como se compreende, trata-se de um escritor que merece ser visitado, lido, interpretado, e uma vez descoberto, estou certa de que não haverá outro remédio senão ser adoptado como um grande companheiro de viagem.
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* Texto de apresentação de Gonçalo M. Tavares
no Centre National du Livre, Paris, outubro de 2008

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Depoimento * Eduardo Lourenço

Trapezista do Absoluto

Lídia Jorge *

1.

Numa notável entrevista que Eduardo Lourenço deu à revista Ler, disse o autor d’ O Labirinto da Saudade que se sentia em dívida para com a Humanidade inteira. A confissão não é de pouca monta e daria para um leitor desprevenido pensar que se trata duma jonglerie destinada a ser lida ao contrário - um homem que assim se mostrasse devedor diante de um tal absoluto, bem poderia ser aquele que se sentisse credor duma dívida que não cobrou.

Mas não é isso que acontece. Pronunciada por Eduardo Lourenço, aquela afirmação deve ser lida de forma literal, sobretudo se tivermos em conta que uma tão grande culpabilização vem acompanhada pela ironia que caracteriza o seu autor, e reflecte tanto da sua desistência sábia quanto do seu espírito bem humorado. Ela revela o lado luminoso que Eduardo Lourenço bem poderia ter emprestado a Pessoa para ilustrar o heterónimo que lhe falta, aquele que fosse ao mesmo tempo jovem sábio e trapezista do absoluto, a máscara de adolescente risonho que o poeta não pôde criar. Em Eduardo, talvez seja essa alegria encantatória o impulso que explica o desprendimento de si mesmo, a entrega do seu saber a causas, e sobretudo a aplicação do seu olhar original sobre o Mundo ao serviço da contingência diária..

2.
Ou por outras palavras, presume-se que Eduardo Lourenço não deva nada a ninguém. Durante décadas, aquele de quem se diz que ensinou Portugal a pensar, aplicou grande parte do seu pensamento na decifração do valor dos outros, serviu os outros, procurou para eles lugares de significação na Literatura, na Arte, na Política, na Comunicação, nos modos de ser e até nos costumes. Ou como já alguém disse, ajudou a criar as nossas estátuas de pedra, enquanto sobre si, deixou que o silêncio caísse. Mas numa altura em que se começa a avaliar a dimensão da sua obra formal, e a reunir a obra dispersa, é impossível não perceber quanto lhe somos devedores. A lista de dívidas é longa, ainda que não aleatória.

O que lhe devemos, de forma prioritária?

3.
Devemos-lhe acima de tudo ser quem é, e depois devemos-lhe o facto de se ter mantido longe do país, e a partir dessa distância tê-lo interpretado na crueza da sua fixidez, sem nunca o ter feito com a soberba que caracteriza os estrangeirados. Apesar de ter reconhecido como ninguém a dificuldade de ser que faz parte da vida mental desta “margem da margem”, essa decifração a que se entregou como destino nunca lhe deu passaporte para o lugar do escárnio. Pelo contrário. Com os filósofos da grande decepção na bagagem - Nietzsche, Kierkegaard, Sartre - Eduardo Lourenço sempre falou do seu país a partir de longe, com a proximidade e a delicadeza de quem analisa um objecto amado. O que não é coisa pouca. Na sua escrita inclassificável, entre poesia e ensaio, existe sempre essa marca de projecção psicológica entre clarividência filosófica e tensão emocionada. A mesma emoção que deixa transparecer nos seus improvisos retóricos que os torna únicos.

Aliás, se eu tivesse de agradecer pessoalmente alguma coisa a Eduardo Lourenço, do muito que há para agradecer, escolheria aquele discurso de há dez anos atrás, ocorrido num fórum em Frankfurt, quando teve de falar de improviso sobre a Europa, as religiões e o futuro. Num primeiro momento, deu a impressão que iria desaparecer, entre Mário Soares e Dietrich Genscher. Mas afinal o que disse, numa voz demasiado frágil para a dimensão do palco, parecia absurdo, e acabou por ser profético. Pena que aquilo que disse não tivesse sido traduzido em todas as línguas do Mundo.
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* in revista Visão (2 de outubro de 2008)